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Aborto

Refluxos - Edson Valente
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Que espécie de monstrengo seria aquele?
Sim, o fogo de seus olhos nas noites de ódio intenso. E a maquinação cinzenta do revolver de minhas memórias impublicáveis. O ranger dos últimos copos de cristal de um dia de festa já
sepultado.
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E o choro, a bocarra? Minhas súplicas de volta para um ponto obscuro? Como quando se pega a estrada errada, inúmeras vezes, numa encruzilhada, retorna-se ao princípio e, embora sabendo qual dos caminhos deveria ser evitado, escolhe-se novamente o
mesmo.
Ou seus gritos de pavor ante meus braços retesados sem consolo? O bebê sou eu? Estou num balde ou numa privada, em vez de acolhido em sua manjedoura? Tenho membros destroçados em vez de acalanto?
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A cabeça está deformada. Guarda traumatismos, as linhas de raciocínio abriram fendas e fugiram como rios caudalosos.
De quem são essas mãozinhas?
As garras insidiosas da mãe, uma carícia como preâmbulo para o sufocamento.
E o narizinho?
Ah, claro, as grutas escamosas do papai, que farejam a solidão como um cachorro de boas intenções para, aos poucos, erguer seu templo da salvação e, então, sugar até a última gota.
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Um câncer que se formou no exato momento da concepção. Quando as duas primeiras células se uniram em equívoco, um daqueles brinquedos em que a peça verde quadrada se encaixou no buraco redondo vermelho. O resultado era previsível, não?
O casamento da violência e de um vazio abominável. Os girinos de bom-senso não correram, ao contrário, fizeram como no exército, quando se recruta para uma tarefa inglória e os espertos dão um passo para trás. Abriram caminho para um débil em propósitos. E as reentrâncias do óvulo encontravam-se fragilizadas demais para recusá-lo.
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No ultrassom, o prenúncio. Havia vísceras de dragão e o coração não batia.
Gravamos em DVD assim mesmo, uma justificativa para as famílias.
E a avidez delas as cegou para a aberração. Enxergaram sorrisos – que fingimos tão bem. Prepararam pratos sofisticados que esvaziamos sob a mesa sem deixar vestígio.
Escondido pelas toalhas, um engalfinhar sangrento.
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O que virá não será menos catastrófico.
Na lembrancinha pendurada na porta da maternidade, a marca do cordeiro. Uma data simbólica e os olhos de boneca quebrada prontos para o abismo, resta saber quem empurrará o corpo, qual de nós dois.
E, considerando-se um cordão umbilical de três pontas nesse sistema, há de se temer o efeito do alpinista que desaba e leva consigo os outros, encosta abaixo.
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Edson Valente
Conto do livro Refluxos
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Resenha: Refluxos, de Edson Valente

Livro Refluxos, de Edson ValenteFonte: ICnews

por Isabel Furini

O autor publica seu primeiro livro de contos, Refluxos (Ateliê editorial, 2010, 80 páginas), porém não se trata de um iniciante, pois Valente já tem seu estilo bem definido. É um estilo moderno, com colocações sutis e comentários irônicos.

O leitor de contos clássicos sentirá falta de alguns elementos descritivos como detalhes do cenário, retratos de personagens e nomes que identifiquem esses personagens. Talvez Valente escolheu essa forma narrativa porque vivemos numa época de massificação, onde os nomes não diferenciam as pessoas. Os seres humanos se unem ou se separam por gostos e desgostos, por situações (algumas fortuitas), por parâmetros, ideologias, costumes, hábitos, enfim, o homem contemporâneo é talvez o mais solitário, o mais incompreendido, e, ao mesmo tempo, aparentemente o mais semelhante aos semelhantes – o efeito colateral da tão desejada igualdade. E esse olhar da condição humana pode ser percebido no livro.

A ironia, a monotonia, o cansaço, o “abacaxi” que aparece em qualquer situação, são focados pelo escritor. Edson Valente não está preocupado em descrever o espaço, mas em mostrar aspectos da vida das pessoas. Ele tampouco cria tipos, mas assinala características da forma de viver e de ser do homem contemporâneo e o transforma como o personagem do excelente conto Plano de previdência, um daqueles contos que se lê várias vezes, e em cada leitura é possível encontrar novos detalhes interessantes. Na história o homem se transforma em um ventríloquo mudo. Magnífico oximoro! Vejamos um fragmento de Plano de previdência: “E, em um certo dia, o ventríloquo ficou mudo. De tanto fingir distanciamento, perdeu o movimento. Confundiu- se, parou de dirigir e de interpretar. Não se esforçou nem mesmo antes de se firmar na série, ser aclamado pelo público e, assim, tornar-se imprescindível para os produtores.”