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Ateliê lança a obra ‘História de um Livro: A Democracia na França, de François Guizot (1848-1849)’, escrita por Marisa Midori Deaecto

Lançada pela Ateliê Editorial, História de um Livro: A Democracia na França, de François Guizot (1848-1849), da premiada escritora e historiadora Marisa Midori Deaecto, é um passeio na história editorial de mais de trezentas páginas, tendo como mote a figura política e jurídica de François Guizot. A obra acompanha também o prefácio de Carlos Guilherme Mota e o posfácio de Lincoln Secco.

Com uma escrita notável, a autora aborda a elaboração da Democracia francesa de uma perspectiva crítica, historiográfica e constitucional da viagem de descobrimento do livro pelo mundo, desempenho investigativo e compromisso na pesquisa ao fornecer um espaço importante na documentação do livro. No texto do posfácio, Lincoln Secco destacou: “Este que está em suas mãos, caro leitor, cara leitora, é uma obra do nosso tempo. Permite reencontrar a defesa da Civilização sem barbárie; da Democracia sem adjetivos; da cultura do livro sem os adoradores de um único, ou de nenhum”. E complementa: “Aqui temos a reunião de muitas obras que Marisa escreveu, leu ou simplesmente folheou nas muitas bibliotecas onde pesquisou. Só assim ela pode nos brindar com uma obra rigorosa e erudita que consolida seu lugar na História do Livro”.

A escrita é fruto de um exercício intelectual intenso, em que se materializam a tessitura do original manuscrito e os gestos cotidianos de observar, analisar e expor as ideias. Ocorre que a mão do autor trabalha sob pressões diversas, as quais se traduzem em protocolos de escrita mais ou menos conhecidos ou, pelo menos, discerníveis. Compõem esse universo de escolhas e de coerções infinitas: a seleção de palavras ou de imagens; a busca do estilo compatível com o gênero narrativo sobre o qual se opera; a adequação da estrutura textual à extensão da obra que se intenta realizar; além de operações não menos complexas que demarcam todo o processo de revisão e finalização do texto (p. 77).

A obra aborda o caminho na construção de uma identidade contemporânea do livro, como bem ambientada no primeiro capítulo interpelando o embrião da escrita da Democracia na França, contribuindo para construção do livro, assim como o seu trânsito pelo mundo, debatidos nos capítulos posteriores. Em seu texto no prefácio, Carlos Guilherme Mota aponta: “Com efeito, a autora desvenda, enquanto historiadora e crítica da cultura, novas perspectivas para o labor histórico e historiográfico”. E conclui: “E o faz em dois planos, em larga medida conjugados. No campo monográfico estritamente acadêmico-científico, ao focalizar como objeto, e com máximo rigor, um único livro em suas múltiplas dimensões: técnica, bibliográfica, historiográfico-ideológica, histórico-social, mercadológica, contextual, política. E, no plano metodológico, por aplicar abordagem inspirada, rigorosa e inovadora na percepção dos impactos dessa obra na crítica e na vida propriamente político-cultural europeia e americana, considerando seus contextos históricos nacional e internacional”.

François Guizot constrói com estas palavras uma das passagens mais emblemáticas de seu De la Démocratie en France. A nota foi escrita em uma folha de rascunho, semelhante àquelas encartadas no final do manuscrito. Mas, nesse caso, ele faz uso do recto e verso de um mesmo pedaço de papel, o que infelizmente prejudica a leitura da outra face, tratando-se muito provavelmente dos primeiros rabiscos daquilo que viria a ser o press release da edição. A parte mais importante, porém, perfaz apenas dois parágrafos que serão impressos em uma seção própria, ocupando a função de Prólogo ou Apresentação. Nesse espaço o autor logra resumir, de forma magistral, as circunstâncias pessoais e políticas que o lançaram à cena pública naquele inverno de 1849 (p. 51-52).

A História de um Livro é um convite para uma viagem pela concepção De la Démocratie en France, de François Guizot, auxiliando no aprofundamento dos momentos decisivos da formação do pensamento intelectual contemporâneo por meio dos textos dos estudiosos da Revolução Francesa.

Ao final da leitura dos quatro primeiros capítulos do manuscrito, é possível afirmar que Guizot tinha a intenção de fazer uma brochura pequena e organizada a partir de tópicos temáticos curtos. Porém, no curso da escrita as partes tomaram formas diversas, o que nos leva a crer que, finalmente, o rearranjo inicial dos capítulos se tornou necessário para o equilíbrio entre as partes da argumentação na estrutura geral do livro (p. 67).

Marisa Midori Deaecto – Professora Livre-Docente em História do Livro no Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Formou-se em História e doutorou-se em História Econômica na Fac. de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), onde orienta pesquisas pelo Programa de Pós-Graduação (PPGHE-USP). Lecionou como professora convidada em diversas instituições estrangeiras, dentre as quais, a  École nationale des Chartes, a École normale supérieur e a École Pratique des Hautes Études, em Paris. Recebeu, em 2017, o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Eszterházy Károly, Eger (Hungria), por suas contribuições à difusão da história dos livros e das bibliotecas em uma perspectiva transnacional. Império dos Livros – Instituições e Práticas de Leituras na São Paulo Oitocentista (Edusp/Fapesp, 2011), reeditado em 2019, recebeu o prêmio Jabuti da CBL (1o lugar em Comunicação) e o Prêmio Sérgio Buarque de Holanda, outorgado pela Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro na categoria melhor ensaio social.