Cada prato tem seu tempo de preparo. Assim é com o conto, a novela e o romance.

por Alex Sens | @alexsens

Até cinco minutos para tirar os talos das folhas de rúcula, cortar as rodelas de tomate e palmito, os gomos de muçarela de búfala, juntar os temperos, pulverizar tudo com novos sabores e regar a salada com azeite extra-virgem. Até uma hora para misturar a farinha, o leite, os ovos, o fermento, o chocolate em pó e o extrato de baunilha, colocar a massa no forno pré-aquecido e cortar o bolo ainda quente depois de assado. Até seis horas para fazer um Boeuf Bourguignon com cebolas e cogumelos glaceados, cortando a carne em cubos, fritando o bacon, dourando a cenoura, cortando as cebolas e derramando meia garrafa de Chianti sobre tudo. Cada receita, cada prato preparado, tem e precisa do seu próprio tempo de vida, assim como um corpo no qual se molda e órgãos vitais para que exista em plena harmonia com quem o concebeu. Assim também é a arte da ficção, com suas diferentes composições em prosa.

A salada é o conto: curta duração de preparo, poucos ingredientes, atenção maior dada ao tempero — a trama. O conto é uma forma narrativa de menor extensão, sem, no entanto, um tamanho exato definido. É menor do que uma novela, chegando muito próximo dela, fazendo charme como quem quer um pedaço da muçarela de búfala. Mas também é maior do que seu moderno desmembramento, dividido em subcategorias, chamadas de minicontos e microcontos, como no livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. O conto é menor porque nele cabe a fugacidade da história contada, é voltado para sua essência, pode começar no meio e terminar de forma inopinada, tem valor sentimental maior para o leitor de metrô ou o leitor de café, cuja disgestão se dá leve e despercebida como almoçar uma salada. Se a fome volta, lê outro conto, o lanche satisfaz o tempo estreito e logo vem a saudade dos personagens fugidios. Em Várias Histórias, de Machado de Assis, nenhum conto tem mais do que 30 páginas, mas nem por isso parece faltar temperos ou ingredientes, porque seu formato se mantém, se completa. Assim como em Refluxos, de Edson Valente, O Voo Noturno das Galinhas, de Leila Guenther, e Angu de Sangue, de Marcelino Freire. O conto surge entre fogueiras e noites estreladas, com rodas de amigos atentos, histórias a serem contadas enquanto o chá não esfria e a noite não se ilumina com a visita da alvorada.

O bolo é a novela: média duração, ingredientes medidos e pesados, atenção maior dada à quantidade de fermento e aos 180 graus do forno, para que não ultrapasse o tempo, extravasando a cor das bordas e as fendas que surgem do inchaço. A novela é uma outra forma narrativa que se equilibra perigosa entre o conto e o romance, maior do que aquele e menor do que este. Algumas novelas são equivocadamente chamadas de romance quando chegam às cem páginas, embora pareçam romances por sua divisão em partes ou capítulos, personagens mais profundos e duração da história maior do que no conto. Ao contrário do romance, e igualmente ao conto, a novela tem esse caráter lacônico, que quando parece estender-se, continuar seu caminho em direção ao romance, acaba. É maior do que o conto porque tem um desenvolvimento maior de enredo, com número igual ou maior de personagens, e menor do que o romance pelo menor uso de técnicas estilísticas de narrativa. O Filho do Crucificado, de Nelson de Oliveira, uniu ambos: novela e contos, em menos de 180 páginas. Alguns livros reúnem uma única novela, como A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e outros mais do que uma, parecendo, como objeto visualmente individualizado, um romance, como é o caso de A Trilogia de Nova York, de Paul Auster, cujo volume, como indica o título, traz três novelas.

Finalmente, o Boeuf Bourguignon é o romance: longa duração em sua feitura, muitos ingredientes, cada qual com seu tempo e modo de preparo, atenção redobrada nos detalhes, porque sem eles o sabor narrativo perde sua lógica. O romance é a ficção em prosa mais difundida, compartilhada, produzida e adaptada da literatura mundial. E. M. Forster, autor de Passagem para a Índia, afirmou que um romance não tem menos do que 50 mil palavras, e pela extensão da grande maioria é fácil diferenciar um romance de uma novela. Nada foi inventado além do romance, ele é seu próprio limite ilimitado, ou seja, não existe nada maior do que ele, só ele mesmo, de 50 mil palavras até a criação tornar-se exangue — tanto num único volume, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, ou Ao Farol, de Virginia Woolf, como em vários, quando a história é comumente longa, caso de Finnegans Wake, de James Joyce, e Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

A diferença entre os pratos está em seu modo de preparo e quais sabores carregam, sempre de acordo com seus chefes de cozinha, os escritores. Aqui, cada refeição pode ser repetida inúmeras vezes, saboreada sem moderação, e intercalada com outras tão interessantes quanto. Ler ou escrever um conto, uma novela, ou um romance nada mais é do que experimentar a vida ficcionada de diferentes formas: com os olhos, com as mãos, com garfo e faca, com uma simples colher. Vai querer sobremesa?

Livros e Cinema: Direção realista de Polanski retrata o drama das anotações de Wladysklaw em O Pianista

Filme O Pianista escrito por Wladyslaw Szpilman e dirigido por Roman Polanski

É sempre indicado, em se tratando de livros que posteriormente renderam filmes, que se leia primeiro para assistir depois. No caso de O Pianista, não segui essa ordem. Conheci primeiro o filme e, após tê-lo visto cerca de três vezes, encarei a leitura. A obra literária é constituída das anotações pessoais de Wladyslaw Szpilman, e a adaptação fílmica é dirigida por Roman Polanski (2002).

Os escritos narram a vivência de Szpilman em seis anos durante a Segunda Guerra Mundial, de cuja crueldade saiu sobrevivente. O cenário bélico está presente em muitas obras contextualizadas na mesma época, sejam elas ficcionais ou não, mas, neste caso, ele se torna um elemento verdadeiramente agonizante ao longo da leitura. Uma vez que as anotações do autor foram feitas cerca de um ano antes do término da guerra, o trauma causado por essa cicatriz histórica ainda se mostra recente. Tal presença confere ao livro incrível caráter psicológico. É interessante a sobriedade da escrita do autor, considerando o seu estado. Descreve cenas de impensáveis torturas com tamanha decepção e descrença no Estado, que sequer adota posição de questionamento, mas passa a ter a única preocupação de sobreviver. O medo desafia constantemente seu corpo à fuga.

O grande elemento romântico da história, retratado muito bem no filme posteriormente, é a música. Pianista já antes dos maus tempos, Wladyslaw marca suas anotações com a saudade de tocar e a preocupação em perder os sentidos da mão. Numa belíssima cena, o autor, em um de seus ocasionais esconderijos, encontra um piano desafinado e arrisca-se a tocá-lo, apesar de saber que o silêncio numa hora dessas pode significar vida ou morte.

Polanski, por sua vez, retrata algumas cenas com tamanho realismo que engasgam-se as lágrimas de revolta na garganta dos espectadores. O diretor possui origens judaico-polonesas, tendo sua mãe morta em campo de concentração. Devido a isso, quis manter-se mais próximo possível da realidade e fugir do modelo hollywoodiano, segundo ele próprio. Missão cumprida. Absolutamente tudo que pode ser visto no filme é confirmado por Wladyslaw na versão literária, tornando a adaptação fílmica extremamente bem trabalhada. Pouquíssimo foi deixado de fora, somente alguns episódios inaceitáveis para a consciência do leitor atual que dificilmente poderiam ser transcritas através de imagens.

Ambas as obras são dignas de merecimento, pela referência histórica e pelo conteúdo artístico. É irônico que este esteja presente, já que a narrativa não é ficcional e não tem, portanto, um criador empenhado em produzir arte. Irônico, também, é o desfecho, no qual Wladyslaw se vê salvo. Não se colocando como herói, entende sua sobrevivência como ocasião do destino; e deve a vida a sua maior virtude e a seu inimigo: à música e a um soldado alemão.

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann

Jovens autores aquecem a produção brasileira de ficção científica

Matéria sobre Ficção Científica - Correio Braziliense

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Livro de ficção científica: Distopia, de Hélio Franchini NetoDistopia

Hélio Franchini Neto

R$ 35,00 | 14 x 21 cm | 184 pp

No futuro, as sociedades e seus conceitos sofreram transformações amplas e dramáticas. Divididos em “mundos”, inimigos entre si, democratas, libertaristas e teologistas lutam em uma guerra permanente, estagnada e sem saída. Em meio à animosidade geral que reina nas linhas de combate, um jovem funcionário democrata realiza visita a uma das frentes de batalha. Planejada como uma breve experiência para novos burocratas, a viagem acaba por avançar – por acasos e “acasos” – ao desconhecido.

“Somos resultado de uma possível […] perda de sentido, cujos produtos são nosso mundo, ou nossos mundos, completamente distintos dos sonhos antigos. Nossa consequência é a distopia.”

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