Morre Jô Soares, aos 84 anos

Jô Soares (TV Tupi)

Na madrugada de sexta-feira, 5 de agosto, o Brasil ficou mais triste com a notícia do falecimento de Jô Soares. A Ateliê Editorial presta esta homenagem a uma das maiores figuras da história cultural do país. Artista múltiplo, Jô foi humorista, entrevistador, escritor, dramaturgo, diretor teatral e artista plástico. A área de entrevistador teve início em 1988, no programa Jô Soares Onze e Meia, no SBT, onde permaneceu até 1999. Entre 2000 e 2016 apresentou o Programa do Jô na TV Globo.

Nascido em 1938, no Rio de Janeiro, Jô Soares tinha uma vasta carreira na cultura brasileira, tornando-se um importante nome a dialogar com as diversas gerações. Em 1958, Jô trabalhou na TV Rio atuando em shows de comédia e escrevendo roteiros. Em 1959 estreou no filme O Homem do Sputnik, dirigido por Carlos Manga, no gênero comédia. Tornou-se roteirista do programa Câmera Um, da TV Tupi. Nesse mesmo ano estreou no teatro, como o bispo, na peça O Auto da Compadecida. Passou a escrever para os programas humorísticos da TV Continental e atuava no Grande Teatro da TV Tupi.

Durante a década de 1960, fez parte da equipe da TV Record, onde atuou nos programas humorísticos, A Família Trapo (1962), Jô Show (1965), Praça da Alegria (1967), Quadra de Azes (1969), entre outros.

Em 1970, Jô Soares foi contratado pela Rede Globo, onde participou de diversos programas, entre eles, Faça Humor Não Faça Guerra (1970), Satiricon (1973), O Planeta dos Homens (1976) e Viva o Gordo (1981).

Jô Soares (TV Globo)

Ele se divertira silenciosamente com a reação indignada das pessoas diante das poucas linhas de um poema. Como é pequena a alma humana. Então não percebem que Maldoror, como ele, nasceu perverso? Chocam-se com a maldade circunscrita à imaginação de um poeta obscuro, no entanto não se comovem com a crueldade que vêem estampada na cidade quando passeiam, alegres, pelas ruelas imundas. O que dirão se souberem que estão na mesma sala com um ser muito mais cruel do que qualquer criação dos livros? Provavelmente, se recusarão a acreditar, desviando os olhos, como fazem ao tropeçar nos negros e mendigos sujos que encontram no caminho. Se a paisagem é terrível, feche-se a janela. Para ele, é diferente. Ele se alimenta dessa miséria cotidiana. A desgraça alheia é sempre um bálsamo espesso para a sua solidão. O inferno alheio é o seu paraíso. Ele acha graça nos sermões dos padres que sempre sobrepõem o Bem ao Mal, como se ambos não fossem as duas faces da mesma pataca. Para Ele, o Bem é o Mal. A crueldade, afinal, não passa de um ponto de vista.

(O Xangô de Baker Street, capítulo 13, página 96)

Na trajetória literária, Jô Soares estreou com O Astronauta Sem Regime (1985), mas foi com O Xangô de Baker Street (1995) que o autor conquistou uma legião de leitores. Logo vieram O Homem Que Matou Getúlio Vargas (1998), Twelve Fingers (2001), Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (2005) e As Esganadas (2011). Em 2017, publicou, em parceria com Matinas Suzuki, os dois volumes de O Livro de Jô: Uma Biografia Desautorizada. Em 2016, foi eleito para a Academia Paulista de Letras para a cadeira número 33.

Jô Soares (Foto: Marcio Scavone)

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