Leia um trecho da obra ‘Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais’, de Hilário Franco Júnior, publicada pela Ateliê Editorial e Mnêma

A Ateliê Editorial e a Editora Mnêma publicam a obra Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais, do premiado historiador Hilário Franco Júnior. Adquira o livro no site da Ateliê Editorial (CLIQUE AQUI).

Desde meados do século passado ampliaram-se muitos nossos conhecimentos sobre a Idade Média, na qual se reconhece a matriz da civilização ocidental cristã. Mas ainda subsistem múltiplas facetas interessantes a explorar, uma delas a produção utópica da época, que a historiografia tende a negar.

De um lado, argumenta-se não ser possível falar em utopia antes de Tomás More ter criado a palavra, no começo do século XVI. De outro lado, afirma-se que as pessoas da Idade Média pensavam demais na perfeição do Além para poderem imaginar uma sociedade perfeita nesta vida.

O livro mostra, contudo, com refinamento conceitual e erudição, que houve várias utopias na Idade Média, cuja compreensão ajuda a lançar luz sobre não poucos aspectos do Ocidente atual.

HILÁRIO FRANCO JÚNIOR é professor de pós-graduação de história social na Universidade de São Paulo. Obteve o pós-doutorado em história medieval na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França. Recebeu dois prêmios Jabuti. Tem diversos livros publicados, sempre focando temas medievais.  Publicou pela Ateliê Dante – O Poeta do Absoluto e Cocanha – Várias Faces de uma Utopia.

Leia abaixo um trecho da obra:

MEMÓRIA DO PARAÍSO

Se utopia – retomando nossa tentativa de definição no âmbito da cultura cristã medieval – é relato (o mito edênico) textual ou iconográfico sobre uma sociedade ideal (a adâmica antes da Falta) colocada num espaço (o jardim criado por Deus) e num tempo (o sexto dia da criação do mundo) imaginários, sociedade que se recuperada superaria as limitações e dificuldades do presente histórico (a Europa ocidental entre fins do século III e meados do XVII), a questão que evidentemente emerge é: como tal sonho coletivo pôde manter-se vivo e atuante socialmente durante tantos séculos e em tão variados territórios? A resposta obriga-nos a introduzir um último elemento conceitual, o de memória coletiva.

A avaliação do senso comum pela qual utopia é produto de mentes inquietas e imaginativas deve ser revista, atentando-se inicialmente para o fato óbvio, nem sempre devidamente considerado, de a imaginação não ser processo psíquico completamente autônomo. Ninguém imagina a partir do nada, e sim de determinados enquadramentos. A atual psicologia cognitiva ao estudar a memória de longo prazo demonstrou que ela não é conservação passiva do passado, e sim reconstrução ativa que ocorre num palco bem mais amplo do que apenas o do sujeito que rememora, razão pela qual a memória, além de biológica e pessoal, é também social e coletiva. Daí na dinâmica da imaginação o papel essencial desempenhado pela memoria, que de certa maneira articula todos os elementos da história social.

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