Daily Archives: 06/01/2022

Leia um trecho de ‘A Reforma e os Livros (1517 – 2017) – Paris e Strasbourg Empreendem Duas Exposições Memoráveis’, de Marisa Midori Deaecto, presente na revista LIVRO 9/10

No Blog da Ateliê, vamos apresentar trechos dos textos dos autores e autoras que fazem parte do novo número duplo da Livro – Revista do NELE (Núcleo de Estudos do Livro e da Edição/USP). , que foi lançada em dezembro pela Ateliê Editorial.

Livro – a Revista é uma publicação do NELE (Núcleo de Estudos do Livro e da Edição), da USP, juntamente com a Ateliê Editorial. É um fórum aberto à reflexão, ao debate e à difusão de pesquisas que tem na palavra impressa seu objeto principal.

Leia um trecho de A Reforma e os Livros (1517 – 2017) – Paris e Strasbourg Empreendem Duas Exposições Memoráveis, de Marisa Midori Deaecto:

Passados alguns anos das celebrações que marcaram o quinto centenário da Reforma de Lutero (1517-2017), efeméride que mobilizou diversos setores das comunidades religiosa e científica, nossa revista não poderia deixar de documentar a publicação de dois catálogos memoráveis, testemunhos de importantes exposições, realizadas em Strasbourg (2017) e em Paris (2018).¶ Martin Luther (1483-1546), ou Martinho Lutero, como ficou conhecido entre nós, foi um monge agostiniano e doutor em teologia. Aspectos de sua obra e da recepção de suas ideias, bem como de seus escritos, serão assinalados mais adiante. Interessa, à guisa de apresentação, reforçar seu legado: uma nova religião cristã reformada, fruto da cisão que suas ideias provocaram no seio da Igreja, desde a publicação das célebres 95 Teses, na cidade Wittenberg, em 1517. E sua versão da Bíblia para o alemão. ¶ O Novo Testamento foi traduzido em 1522, logo após sua excomunhão da Igreja. Conta-se que o autor levou onze semanas para transpor o texto bíblico em um alemão acessível a todos. A primeira edição foi impressa em Wittenberg, mas não demoraram a sair outras edições em Augsburgo, Leipzig, Strasbourg e Basileia. A tradução do Antigo Testamento demandou um trabalho mais concentrado e lento, o qual se concluiu ao final de doze anos. A primeira edição completa da Bíblia, traduzida por Lutero, pôde, então, ser publicada em Wittenberg, em 1534. O volume foi ilustrado por Hans Lufft e o volume impresso por Lucas Cranach, que durante quarenta anos imprimiu mais de cem mil cópias. Até o ano da morte de Lutero, em 1546, cerca de duzentas mil cópias da Bíblia foram impressas em diversas partes da Europa.

Entrevista com Sabrina Studart Fontenele Costa sobre ‘Modos de Morar nos Apartamentos Duplex’: “O livro aborda a produção e o estudo da arquitetura e sua relação com a vida cotidiana”

Me utilizei dos apartamentos modernos duplex para investigar o debate sobre habitação e a invenção, difusão e transformações da tipologia e também a preservação dos conjuntos habitacionais. Este percurso histórico busca também refletir sobre o papel das mulheres e as domesticidades que ocorriam nestes espaçosSabrina Studart Fontenele Costa em entrevista ao Blog da Ateliê

Sabrina Studart Fontenele Costa durante o lançamento de ‘Modos de Morar em Apartamentos Duplex, na Livraria Martins Fontes Paulista.

A Ateliê Editorial apresenta seu mais recente lançamento: a obra Modos de Morar nos Apartamentos Duplex – Rastros de Modernidade , de Sabrina Studart Fontenele Costa. O livro surgiu por meio de uma pesquisa de pós-doutorado desenvolvida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, contando com o apoio da Fapesp. A autora concedeu uma entrevista para o Blog da Ateliê e conversou sobre a ideia de realização do texto: “O livro aborda a produção e o estudo da arquitetura e sua relação com a vida cotidiana, com as relações de gênero e a produção cultural a partir de uma pesquisa que busca aproximar-se de novas fontes de estudo e compreender ideias e realizações”.

O livro gira em torno da discussão que tem ganhado força nos últimos anos: o desenvolvimento da arquitetura, do gênero e da domesticidade. A obra também apresenta plantas e fotografias das habitações modernas estudadas pela autora. Modos de Morar nos Apartamentos Duplex – Rastros de Modernidade é um livro indispensável para examinar, conhecer e compreender uma parte fundamental da Arquitetura e do contexto social do século XX. Saiba mais sobre a obra no site da Ateliê Editorial (clique aqui).

Sabrina Studart Fontenele Costa é arquiteta e urbanista, com mestrado e doutorado pela FAU-USP. Finalizou em 2019 a pesquisa de pós-doc no IFCH-Unicamp com apoio da Fapesp. Autora dos livros Edifícios Modernos e o Traçado Urbano no Centro de São Paulo (2015) e Restauro da Faculdade de Medicina da USP: Estudos, Projetos e Resultados (2013). Professora na Escola da Cidade, Diretora de Cultura do IAB-SP (2020-2022), onde também é curadora residente da 13a. Bienal de Arquitetura de São Paulo.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

PERGUNTA: Sabrina, conta para nós quando surgiu a ideia do livro?

SABRINA STUDART FONTENELE COSTA: Entre 2012 e 2018, eu fui pesquisadora do Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo (CPC-USP), uma instituição sediada em uma casa de mulher, a Casa de Dona Yayá. Herdeira de uma grande fortuna e considerada mentalmente instável pouco depois de completar trinta anos, Sebastiana de Mello Freire, a Dona Yayá, foi internada em um casarão no bairro do Bexiga por mais de quatro décadas. Durante os quatro anos que fui funcionária do CPC, compreendia que o imóvel era um documento que apresentava a forma como ela foi tratada e apontava possibilidades de narrativas sobre as domesticidades que ali ocorriam. Em 2014, organizamos o seminário chamado “Domesticidade, Gênero e Cultura Material” – que resultou em um livro organizado pelas professoras Joana Mello, Flavia Brito e Silvana Rubino e pelo professor José Lira – que estimulava  debates envolvendo arquitetura, sexualidade e patrimônio cultural. Fiquei completamente encantada com os temas discutidos, decidi que gostaria de pesquisar com mais profundidade arquitetura moderna a partir desta abordagem e iniciei em seguida uma pesquisa de pós doutorado no IFCH-Unicamp sob a supervisão da profa. dra. Silvana Rubino.

Me utilizei dos apartamentos modernos duplex para investigar o debate sobre habitação e a invenção, difusão e transformações da tipologia e também a preservação dos conjuntos habitacionais. Este percurso histórico busca também refletir sobre o papel das mulheres e as domesticidades que ocorriam nestes espaços.

P – E como foi a realização da pesquisa para a obra?

SSFC – O livro é fruto de uma pesquisa de pós-doutorado realizado durante quatro anos, entre 2016 e 2019, e que contou com uma bolsa fundamental  da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp). Foi um período intenso de pesquisa e de trocas em sala de aula e em eventos acadêmicos sobre questões relacionadas à habitação moderna, preservação e gênero. Graças ao auxílio da Fapesp, tive a oportunidade de viajar para conhecer algumas das obras (por exemplo, a Unidade de Habitação, em Marselha, e o conjunto do Bairro das Estacas, em Lisboa), pesquisar em acervos internacionais de destaque – como os da Biblioteca Avery da Universidade de Columbia (Nova Iorque, Estados Unidos), a Biblioteca do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Coimbra, Portugal), da Fundação Calouste Gulbekian (Lisboa, Portugal) e da Cité de la Architecture et de Patrimoine (Paris, França), assim como no Centro de Pesquisa da Arquitetura e do Design (Architecture and Design Study Center) do Museu de Arte Moderna de Nova York (Nova Iorque, Estados Unidos) e na Fondation Le Corbusier (Paris, França) – e acervos nacionais como na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Brasil) e no Núcleo de Pesquisa e Documentação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Brasil). À medida que a pesquisa documental se aprofundava, também se ampliava no Brasil eventos acadêmicos que abordam as questões de gênero, o que foi uma oportunidade de estabelecer interlocuções com outras pesquisadoras.

Importante ainda destacar o acesso às informações sobre o cotidiano nos edifícios pesquisados a partir de visitas e entrevistas com moradores dos apartamentos duplex. Durante esta etapa da investigação, novas informações foram levantadas e atualizadas não só sobre os espaços, como também sobre a apropriação da casa pelos usuários.

Finalizada a pesquisa em 2019, foi necessária revisão dos originais para realização do livro que veio a ser lançado em 2021, depois de meses em que tivemos que nos isolar em nossas casas e rever nossos espaços domésticos para abrigar outras funções além daquelas para as quais foram projetadas.


P – Você gostaria de destacar alguma parte que foi bastante importante para o desenvolvimento do livro?

SSFC – Compreendemos que a casa tornou-se um foco de atenção para os arquitetos modernos, tanto em termos teóricos – na publicação e divulgação de manifestos, artigos e revistas – como também na prática projetual. A ideia de ruptura com o passado e a busca por novas formas de moradia condizentes com o homem moderno foi reforçada no início do século XX. Mas se para o campo da arquitetura, a moradia possibilita experimentar formas, programas e técnicas; para outras disciplinas – como a antropologia e a sociologia – a residência é uma manifestação social que se modifica ao longo dos tempos.

A antropóloga francesa Marion Segaud (2016), em seu livro Antropologia do Espaço, explica que quando se trata de analisar a habitação é impossível abstrair as sequências temporais da vida cotidiana de seus moradores. Partimos dessa lógica para investigar os moradores de apartamentos duplex e sua relação com os espaços modernos propostos e habitados, comparando suas práticas com os discursos defendidos por seus promotores. Além de compreender seu desenho arquitetônico, o livro busca investigar os espaços domésticos, rotinas e interesses dos moradores dos apartamentos, buscando entender como se deu a apropriação das ideias relacionadas à proposta do morar da arquitetura moderna.


P – Não é só abordado o histórico arquitetônico das habitações, mas também o contexto social, poderia comentar como foi a produção desses dois aspectos para a obra?

SSFC – O livro aborda a produção e o estudo da arquitetura e sua relação com a vida cotidiana, com as relações de gênero e a produção cultural a partir de uma pesquisa que busca aproximar-se de novas fontes de estudo e compreender ideias e realizações. Para uma análise espacial das propostas, foram redesenhados e apresentados – com plantas e cortes – os projetos dos conjuntos habitacionais com apartamentos duplex de maneira a dialogar com conceitos e contextos culturais e históricos em que se inseriam. Além disso, as imagens levantadas nos acervos e nas visitas técnicas foram apresentadas e analisadas a partir de metodologias da cultura visual, possibilitando novas possibilidades de investigação.