Monthly Archives: janeiro 2022

Morre o poeta Thiago de Mello, aos 95 anos

Thiago de Mello

Faleceu, nesta sexta-feira, 14 de janeiro, o poeta Thiago de Mello, aos 95 anos.

Amadeu Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, Amazonas, em 30 de março de 1926. Além de tradutor e ensaísta, foi um dos poetas mais influentes e respeitados do país, sendo reconhecido como um ícone da literatura regional. A luta política, o lirismo, as relações de família e os amores são facetas marcantes em sua obra.

Preso durante a ditadura militar (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador. Da amizade veio a decisão de traduzirem os poemas um do outro. Mello morou na Argentina, no Chile, em Portugal, na França e na Alemanha. Voltou à sua cidade natal, onde vive até hoje, apenas após o final do regime militar no Brasil. Publicou, entre outros livros, Acerto de ContasComo SouMelhores Poemas Amazonas – Pátria da Água. Suas obras foram traduzidas para mais de trinta idiomas.

ARTE DE AMAR

Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha 
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.

Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
 o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito,  se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.

Leia um trecho de ‘William Morris e a Busca Pelo Livro Ideal’, de Gustavo Piqueira, presente na revista LIVRO 9/10

No Blog da Ateliê, vamos apresentar trechos dos textos dos autores e autoras que fazem parte do novo número duplo da Livro – Revista do NELE (Núcleo de Estudos do Livro e da Edição/USP). , que foi lançada em dezembro pela Ateliê Editorial.

Livro – a Revista é uma publicação do NELE (Núcleo de Estudos do Livro e da Edição), da USP, juntamente com a Ateliê Editorial. É um fórum aberto à reflexão, ao debate e à difusão de pesquisas que tem na palavra impressa seu objeto principal.

Leia um trecho de William Morris e a Busca Pelo Livro Ideal, de Gustavo Piqueira:

Nada poderia ter sido melhor do que a conferência do Sr. Emery Walker sobre Letterpress, Gráfica e Ilustração, proferida ontem. Uma série dos mais interessantes exemplares de livros antigos, impressos e manuscritos, foi mostrada pela lanterna mágica, e as explicações do Sr. Walker foram tão claras e simples quanto suas ideias se mostraram admiráveis. Ele começou por explicar os diferentes tipos de desenho de fontes e seu modo de produção. Também mostrou exemplares de antigos blocos de impressão que precederam os tipos móveis e que ainda são usados na China. Apontou para a conexão íntima entre impressão e escrita manual – enquanto esta última exibia qualidade, os impressores possuíam um modelo vivo para seguir; porém, com seu declínio, a impressão também decaiu.

Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara participam de live sobre a obra ‘Elegia Grega Arcaica – Uma Antologia’

Nesta quinta-feira, 13 de janeiro, às 20h, no canal do Youtube do Três Vias – Estudos Clássicos, acontece um bate-papo com Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara, autores e tradutores da obra Elegia Grega Arcaica – Uma Antologia, publicada pela Ateliê Editorial em coedição com a Editora Mnêma.

‘Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia’ apresenta o que para nós é o alvorecer desta tradição poética, cuja recepção até hoje se estende, e os seus principais poetas, no original e em rigorosas traduções de Rafael Brunhara e Giuliana Ragusa. Acompanham-nas textos introdutórios, bem como alentados comentários sobre as nuances poéticas do original e o contexto histórico, linguístico e cultural subjacente a cada poema – esforço raro em antologias deste tipo –, num convite tanto ao leitor contemporâneo de poesia, quanto ao estudante que se inicia nos estudos clássicos.

Das elegias da Grécia Arcaica (sécs. VIII – V a.C.) ouvimos, entre outras, as vozes de Sólon, criticando os excessos das oligarquias e pavimentando a trilha à democracia; de Tirteu, Calino e Simônides, enaltecendo homens comuns ao status de guerreiros épicos; de Arquíloco, dizendo que melhor do que ser épico é estar vivo; de Mimnermo, celebrando o mundo de Afrodite e seus prazeres; de Teógnis, mostrando as alianças, traições e afetos que agitam um mundo em transformação. Como gênero poético destacadamente versátil, a elegia nos permite conhecer os mais variados aspectos da existência do indivíduo na pólis.

AUTORES

Giuliana Ragusa é Professora Associada (Livre-Docente) de Língua e Literatura Grega na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (DLCV) da Universidade de São Paulo, onde ingressou como docente em 2004, e foi aluna de graduação e de pós (1995-2008). Fez estágio de doutorado (Capes, 2006-2007) e pós-doutorado (Fapesp, 2012-2013) nos EUA (University of Wisconsin, Madison). Tem publicado trabalhos científicos e de divulgação científica continuamente. Dos livros, destacam-se Fragmentos de uma deusa (Editora da Unicamp, 2005, apoio Fapesp, Prêmio Jabuti 2006, Teoria/Crítica Literária), Lira, mito e erotismo (Editora da Unicamp, 2010, apoio Fapesp, Prêmio Capes – Menção Honrosa, 2009), Lira grega: antologia de poesia arcaica (Hedra, 2013), e a 2ª edição revista, atualizada e ampliada, bilíngue, Safo de Lesbos. Hino a Afrodite e outros poemas (Hedra, 2021). Integrante do PPG-Letras Clássicas, tem orientado trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado, centrados na poesia grega arcaica e clássica. E tem se interessado pela recepção dos clássicos, mais recentemente.

Rafael Brunhara é Professor Adjunto de Língua e Literatura Grega na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde atua desde 2013. É Bacharel (2010), mestre (2012) e doutor (2017) em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo. É autor de As Elegias de Tirteu (2014) e de diversos artigos científicos e trabalhos de divulgação em poesia grega antiga.

Dica Literária: ‘Roteiro para um Narrador – Uma Leitura dos Contos de Rubem Fonseca’, de Ariovaldo José Vidal

Toda quarta-feira do ano, no Blog da Ateliê, será publicada a Dica Literária, que consiste em divulgar as obras já publicadas pela editora. Confira abaixo a nossa seleção:

Roteiro para um Narrador – Uma Leitura dos Contos de Rubem Fonseca

A posição do narrador na prosa de Rubem Fonseca é o tema central deste ensaio de Ariovaldo José Vidal, professor de Teoria Literária da USP. A partir da análise dos cinco primeiros livros de contos do escritor, ele descreve os traços estilísticos que caracterizam sua obra. O estudo dá destaque à mudança ocorrida com os procedimentos narrativos no decorrer dos anos. Vidal também aborda as questões de gênero, os temas mais recorrentes e as influências de outros autores nessa ficção.

Ariovaldo José Vidal é professor de Teoria Literária na FFLCH/USP. Pela Ateliê, publicou Roteiro para um Narrador – Uma Leitura dos Contos de Rubem Fonseca (2000) e Leniza & Elis (2002), este último em parceria com Joaquim A. Aguiar.

Prêmio Sesc de Literatura 2022 abre inscrições

O Prêmio Sesc de Literatura, um dos mais importantes e consagrados do país na distinção de escritores inéditos, está com inscrições abertas. Podem concorrer autores não publicados nas categorias Romance e Conto. O Prêmio avalia trabalhos com qualidade literária para edição e circulação nacional. Os interessados têm até 11 de fevereiro para concluir o processo de inscrição, que é gratuito e online. O regulamento completo pode ser acessado em www.sesc.com.br/premiosesc.

Ao oferecer oportunidades aos novos escritores, o Prêmio Sesc de Literatura impulsiona a renovação no panorama literário brasileiro e enriquece a cultura nacional. Os vencedores têm suas obras publicadas e distribuídas pela editora Record, parceira do Sesc no projeto, com tiragem inicial de 2.500 exemplares. O anúncio dos vencedores será divulgado no mês de maio. Desde a sua criação em 2003, mais de 17 mil livros foram inscritos e 33 novos autores revelados.

A parceria com a editora Record contribui para a credibilidade e a visibilidade do projeto, pois insere os livros na cadeia produtiva do mercado editorial. “Chegamos à 19ª edição com o propósito de revelar novos escritores, que é nossa maior meta. A premiação foi criada em 2003 e se consolidou como a principal do país para autores iniciantes. No ano passado, tivemos a inscrição de 1.688 livros, sendo 850 em Romance e 838 em Conto. O cronograma não foi afetado pela pandemia, porque foi todo executado por trabalho remoto. Dessa forma, o resultado pôde ser divulgado no prazo previsto” explica o analista de Literatura do Departamento Nacional do Sesc, Henrique Rodrigues.

O processo de curadoria e seleção das obras é criterioso e democrático. Os livros são inscritos pela internet, gratuitamente, de forma anônima. Isso impede que os avaliadores reconheçam os reais autores, garantindo a imparcialidade no processo de avaliação. Os romances e contos são avaliados por escritores profissionais renomados, que selecionam as obras pelo critério da qualidade literária.

A relevância do Prêmio Sesc de Literatura também pode ser medida por meio do sucesso dos seus vencedores, que vêm sendo convidados para outros importantes eventos internacionais, como a Primavera Literária Brasileira, realizada em Paris, o Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, e a Feira do Livro de Guadalajara, no México.

‘O Otelo Brasileiro de Machado de Assis’, de Helen Caldwell, ganha reedição neste ano

Publicada em 2002, a obra O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, de Helen Caldwell, ganhará reedição em 2022.

Por muito tempo, prevaleceu nas leituras críticas de Dom Casmurro o tom malicioso sobre a personalidade de Capitu. Helena Caldwell analisa a obra-prima de Machado de Assis afastando-se dessas interpretações machistas e revelando o nexo que o escritor estabelece com Otelo, de Shakespeare. Publicado em 1960, este clássico dos estudos machadianos só foi traduzido para o português mais de quarenta anos depois, chegando agora ao leitor interessado num dos maiores artistas que o Brasil já teve.

Helen Caldwell

Helen Caldwell (1904-1987) foi pesquisadora e professora da Universidade da Califórnia, ensinando em diversas áreas, como literatura grega e latina. Especializou-se na obra do brasileiro Machado de Assis, traduzindo para o inglês alguns de seus livros como HelenaDom CasmurroEsaú e JacóMemorial de Aires, além de um volume de contos machadianos. Também estudou dança japonesa com o coreógrafo japonês Michio Ito, sobre quem escreveu um estudo, depois publicado em livro.

Ateliê Editorial anuncia para este ano a reedição da obra ‘O Século da Canção’, de Luiz Tatit

Esgotado há um bom tempo, a Ateliê Editorial anunciou a reedição neste ano, seguindo a nova ortografia, da obra O Século da Canção, de Luiz Tatit.

Publicado originalmente em 2004, o livro apresenta uma leitura do nascimento, consolidação e progresso da canção popular brasileira ao longo do século XX, elegendo os períodos, os movimentos, as obras e os artistas que, de acordo com os critérios adotados, foram decisivos para configurar nossa singularidade sonora.

Luiz Tatit descreve o empenho dos cancionistas das primeiras décadas para chegar a uma canção cujo entrosamento entre melodia e letra fosse o mais convincente possível, não só como peça artística, mas também como produto de consumo. Explica que a formação do samba decorre desse esforço de composição, de busca dos acentos rítmicos ideais para uma ampla flexibilização do andamento musical (mais rápido ou mais lento), tanto para veicular conteúdos de prazer como de dor.

Os fenômenos bossa nova e tropicalismo também são minuciosamente abordados em sua dupla dimensão: como intervenções históricas na música brasileira, mas sobretudo como forças extensas que se tornaram parâmetros estéticos de constante atuação cultural em todos os períodos a partir dos anos 1960.

Ao examinar, por fim, o vasto leque das dicções que caracterizou a sonoridade brasileira nos decênios derradeiros do século, o autor sugere que, em princípio, todo e qualquer estilo de canção, independente da procedência e do grau de prestígio que lhe sejam atribuídos, pode ser decisivo para a compreensão de uma época musical. Daí a necessidade de frequentes releituras que identifiquem novos matizes no interior do mesmo processo evolutivo.

LUIZ TATIT

Luiz Tatit

Luiz Tatit é músico e professor Titular do Departamento de Linguística da FFLCH-USP. Pela Ateliê Editorial publicou os livros Análise Semiótica Através das LetrasElos de Melodia & LetraO Século da Canção, Todos Entoam – Ensaios, Conversas e Lembranças e Semiótica à Luz de Guimarães Rosa. Já lançou os CDs Felicidade (1998), O Meio (2000), Ouvidos Uni-vos (2005) e Rodopio (2007), todos pelo selo Dabliú. Tem 7 álbuns autorais e 3 DVDs lançados, e suas composições foram gravadas importantes intérpretes da música brasileira, entre os quais, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Ney Matogrosso, Leila Pinheiro, Vânia Bastos, Daúde e Jussara Silveira.

Oswald de Andrade na Ateliê Editorial

No dia 11 de janeiro de 1890 nascia Oswald de Andrade. Poeta, dramaturgo e ensaísta paulista do século XX, é considerado um dos principais escritores do Modernismo no Brasil. Sua principal obra é Marco Zero (2 volumes), publicada entre 1943 e 1946. Foi um dos escritores presentes na Semana de Arte Moderna de 1922.

Serafim Ponte Grande e as Dificuldades da Crítica Literária (CLIQUE AQUI).

Este é o primeiro livro inteiramente dedicado ao estudo desta que é uma das mais ousadas obras de Oswald de Andrade. Pascoal Farinaccio, professor da Unicamp, realiza um trabalho marcado pela clareza e pelo rigor investigativo. A fortuna crítica, a concepção de cultura no romance e as inovações formais de Serafim Ponte Grande são alguns dos aspectos que ele analisa. Trata-se de grande contribuição à história literária brasileira, por abordar o modernismo sob um enfoque novo e instigante.

Prêmio Literário José Saramago abre inscrições

José Saramago

A 12ª edição do Prêmio Literário José Saramago, voltado para escritores de países lusófonos, está com inscrições abertas até 31 de maio. Romances ou novelas inéditos, escritos por autores de até 40 anos, podem participar. Leia o regulamento.

Prêmio Literário José Saramago, instituído pela Fundação Círculo de Leitores em 1999, é atribuído a uma obra literária, escrita em língua portuguesa por jovens autores, cuja primeira edição tenha sido publicada num país da lusofonia. O prêmio e uma homenagem ao escritor português, e Nobel de Literatura, José Saramago.

Confira os vencedores das premiações anteriores:

1.ª – 1999 Natureza Morta Paulo, de José Miranda – Portugal
2.ª – 2001 Nenhum Olhar, de José Luís Peixoto – Portugal
3.ª – 2003 Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa – Brasil
4.ª – 2005 Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares – Portugal
5.ª – 2007 O Remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe – Portugal
6.ª – 2009 As Três Vidas, de João Tordo – Portugal
7.ª – 2011 Os Malaquias, de Andréa del Fuego – Brasil
8.ª – 2013 Os Transparentes, de Ondjaki – Angola
9.ª – 2015 As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral – Portugal
10.ª – 2017 A Resistência, de Julián Fuks – Brasil
11.ª – 2019 Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral – Portugal

Leia um trecho da obra ‘Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais’, de Hilário Franco Júnior, publicada pela Ateliê Editorial e Mnêma

A Ateliê Editorial e a Editora Mnêma publicam a obra Em Busca do Paraíso Perdido: As Utopias Medievais, do premiado historiador Hilário Franco Júnior. Adquira o livro no site da Ateliê Editorial (CLIQUE AQUI).

Desde meados do século passado ampliaram-se muitos nossos conhecimentos sobre a Idade Média, na qual se reconhece a matriz da civilização ocidental cristã. Mas ainda subsistem múltiplas facetas interessantes a explorar, uma delas a produção utópica da época, que a historiografia tende a negar.

De um lado, argumenta-se não ser possível falar em utopia antes de Tomás More ter criado a palavra, no começo do século XVI. De outro lado, afirma-se que as pessoas da Idade Média pensavam demais na perfeição do Além para poderem imaginar uma sociedade perfeita nesta vida.

O livro mostra, contudo, com refinamento conceitual e erudição, que houve várias utopias na Idade Média, cuja compreensão ajuda a lançar luz sobre não poucos aspectos do Ocidente atual.

HILÁRIO FRANCO JÚNIOR é professor de pós-graduação de história social na Universidade de São Paulo. Obteve o pós-doutorado em história medieval na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França. Recebeu dois prêmios Jabuti. Tem diversos livros publicados, sempre focando temas medievais.  Publicou pela Ateliê Dante – O Poeta do Absoluto e Cocanha – Várias Faces de uma Utopia.

Leia abaixo um trecho da obra:

MEMÓRIA DO PARAÍSO

Se utopia – retomando nossa tentativa de definição no âmbito da cultura cristã medieval – é relato (o mito edênico) textual ou iconográfico sobre uma sociedade ideal (a adâmica antes da Falta) colocada num espaço (o jardim criado por Deus) e num tempo (o sexto dia da criação do mundo) imaginários, sociedade que se recuperada superaria as limitações e dificuldades do presente histórico (a Europa ocidental entre fins do século III e meados do XVII), a questão que evidentemente emerge é: como tal sonho coletivo pôde manter-se vivo e atuante socialmente durante tantos séculos e em tão variados territórios? A resposta obriga-nos a introduzir um último elemento conceitual, o de memória coletiva.

A avaliação do senso comum pela qual utopia é produto de mentes inquietas e imaginativas deve ser revista, atentando-se inicialmente para o fato óbvio, nem sempre devidamente considerado, de a imaginação não ser processo psíquico completamente autônomo. Ninguém imagina a partir do nada, e sim de determinados enquadramentos. A atual psicologia cognitiva ao estudar a memória de longo prazo demonstrou que ela não é conservação passiva do passado, e sim reconstrução ativa que ocorre num palco bem mais amplo do que apenas o do sujeito que rememora, razão pela qual a memória, além de biológica e pessoal, é também social e coletiva. Daí na dinâmica da imaginação o papel essencial desempenhado pela memoria, que de certa maneira articula todos os elementos da história social.