Monthly Archives: janeiro 2022

Novidades da Ateliê Editorial

Conheça os lançamentos e reedições da Ateliê Editorial neste começo de 2022. As obra já estão à venda no site da editora (clique aqui).

LANÇAMENTO

Modos de Leitura – Crítica e Tradução (Já à venda)

Modos de Leitura trata-se de uma coletânea que acolhe textos do autor: ensaios, resenhas, entrevistas, posts e a tradução de uma obra literária espanhola do século XVIII. Além dos textos críticos aqui comentados, Modos de Leitura contém o poema dramático em prosa Noches Lúgubres, do escritor espanhol José Cadalso y Vásquez de Andrade (1741-1782), primeiramente publicado entre dezembro de 1789 e janeiro de 1790 no periódico Correo de Madrid. Ao lado do texto em espanhol lê-se a tradução literária em português, realizada com rigor por Mario Higa que, assim, dá acesso ao leitor lusófono a essa obra que foi célebre, contando 49 edições até o fim do século XIX, mas que caiu numa relativa obscuridade no século XX, apesar de sua importância.

REEDIÇÕES

O Século da Canção – 3ª Edição – Nova edição, com ortografia atualizada (Já à venda)

A canção é peça artística, mas também produto de consumo. Sob esse viés, o linguista e músico Luiz Tatit analisa o nascimento e a evolução da canção popular brasileira no século XX. O autor elege alguns períodos, movimentos e artistas importantes para formar nossa singular sonoridade. Merecem destaque a bossa nova e o tropicalismo: esses movimentos não só alcançaram expressivo sucesso comercial, mas se tornaram paradigmas estéticos da música produzida no país a partir dos anos 1960.

O Otelo Brasileiro de Machado de Assis – 3ª Edição (Já à venda)

Por muito tempo, prevaleceu nas leituras críticas de Dom Casmurro o tom malicioso sobre a personalidade de Capitu. Helena Caldwell analisa a obra-prima de Machado de Assis afastando-se dessas interpretações machistas e revelando o nexo que o escritor estabelece com Otelo, de Shakespeare. Publicado em 1960, este clássico dos estudos machadianos só foi traduzido para o português mais de quarenta anos depois, chegando agora ao leitor interessado num dos maiores artistas que o Brasil já teve.

EM BREVE

Bibliodiversidade e Preço do Livro (Lançamento em breve)

Ateliê Editorial lança ‘Modos de Leitura: Crítica e Tradução’, de Mario Higa

No modo de leitura prevalente do texto literário durante o século XIX e início do XX, o valor de um poema, por exemplo, estava associado ao efeito produzido no leitor, que buscava através da sua leitura experimental instante mágico da revelação, iluminação, epifania, que todo poema autêntico deveria proporcionar (trecho de Modos de Leitura: Crítica e Tradução).

A Ateliê Editorial apresenta sua mais recente publicação: Modos de Leitura: Crítica & Tradução, de Mario Higa. A obra já está à venda no site da Ateliê Editorial (clique aqui). O projeto gráfico é de Gustavo Piqueira / Casa Rex.

Modos de Leitura trata-se de uma coletânea que acolhe textos do autor: ensaios, resenhas, entrevistas, posts e a tradução de uma obra literária espanhola do século XVIII. Além dos textos críticos aqui comentados, Modos de Leitura contém o poema dramático em prosa Noches Lúgubres, do escritor espanhol José Cadalso y Vásquez de Andrade (1741-1782), primeiramente publicado entre dezembro de 1789 e janeiro de 1790 no periódico Correo de Madrid. Ao lado do texto em espanhol lê-se a tradução literária em português, realizada com rigor por Mario Higa que, assim, dá acesso ao leitor lusófono a essa obra que foi célebre, contando 49 edições até o fim do século XIX, mas que caiu numa relativa obscuridade no século XX, apesar de sua importância.

Mario Higa é professor assistente do departamento de Espanhol e Português do Middlebury College (Vermont, EUA). Para a Ateliê, organizou a edição de Poemas Reunidos, de Cesário Verde (Coleção Clássicos Ateliê) e publicou Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz (Coleção Estudos Literários). Para a Lazuli / Companhia Editora Nacional, organizou Antologia de Crônicas, de Lima Barreto, e Antologia de Contos Românticos.

Prelúdio da Metrópole – Arquitetura e Urbanismo em São Paulo na Passagem do Século XIX ao XX

25 de janeiro a cidade de São Paulo comemora o seu aniversário. Em 2022, a metrópole celebra 468 anos.

Prelúdio da Metrópole – Arquitetura e Urbanismo em São Paulo na Passagem do Século XIX ao XX

Projetos monumentais, falta de planejamento, especulação imobiliária e segregação da pobreza. Esses são alguns dos aspectos que marcaram a transformação de São Paulo, de capital provinciana a grande metrópole, na passagem para o século XX. Fartamente ilustrado, este livro revela traços usualmente omitidos nas narrativas tradicionais e nostálgicas sobre o tema. Por isso, Prelúdios da Metrópole é leitura essencial a quem estuda a cidade de São Paulo, sua arquitetura e sua evolução sociocultural.

Saiba mais no site da Ateliê Editorial (CLIQUE AQUI).

Leia uma resenha de ‘Herdando uma Biblioteca’, de Miguel Sanches Neto, por Danilo Pereira

Leia uma resenha, escrita por Danilo Pereira, da obra Herdando uma Biblioteca, de Miguel Sanches Neto, em sua segunda edição ampliada e revista publicada pela Ateliê Editorial.

Herdando uma Biblioteca – por Danilo Pereira

Muitas vezes sou parado na rua por pessoas curiosas que soltam o seguinte comentário; “nossa! Sempre vejo você com um livro nas mãos”. Outras olham de rabo de olho procurando identificar o que eu estou lendo. Cresci repleto de amizades, pessoas, entretanto algo me faltava. Foi quando a leitura preencheu aquele vazio. Hoje, carregar um livro nas mãos é mostrar uma extensão do meu corpo e da minha vida.


As pessoas sempre querem saber qual o melhor livro que você já leu, ou o livro da sua vida. Para mim esse tipo de classificação é complicado porque procuro sempre mostrar a experiência que cada leitura me proporciona. E com “Herdando uma biblioteca” de Miguel Sanches Neto eu tive o privilégio de me ver (leitor) entre suas páginas. Um livro espelho. Um livro que reflete muito do que você acredita sobre o poder que os livros podem oferecer e além de ser uma incrível máquina do tempo que te faz recordar aqueles momentos únicos.

Um desses momentos que revivi é o do meu retiro à leitura. Em uma casa muito barulhenta o que me restou foi a laje descoberta de telhado em que deitado junto aos livros tínhamos apenas o céu como nosso zelador.

Não foram poucas as identificações que encontrei. Desde herdar uma biblioteca, passando pela peregrinação em livrarias, a arte de colecionar livros, as discussões com arquitetos, etc…
Assim como o Miguel Sanches Neto, sempre carrego um lápis comigo. Um amigo certa vez mexeu na minha edição de Crime e Castigo de Dostoiévski e ficou impressionado com o tanto de anotações que eu fiz. Para ele aquilo era um tipo de vandalismo; “onde já se viu rabiscar livros”. Expliquei para ele que aquilo ali era o registro de um diálogo que aconteceu naquelas páginas. Um diálogo entre o leitor e o texto. Que também pode se desdobrar de várias outras formas.

Dos meus pais herdei um livro raro. Que só fui saber da sua importância quando ouvi de um professor uma citação do grande Paulo Freire; “A leitura de mundo precede a leitura da palavra”. Meus pais me ajudaram a ler o mundo. Entretanto, foram os livros que me ajudaram a transformar esse mundo. E hoje, eu não me sinto mais só!

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A OBRA

Herdando uma Biblioteca é uma celebração do mundo dos livros. Uma celebração bastante pessoal, mas que não deixa de ter sentido universal, de valer para tantos outros leitores. O livro reúne crônicas que falam de leituras, das bibliotecas que herdamos e que deixamos de herança, daquelas que existem na realidade e das outras, às vezes melhores, que só persistem em nossa imaginação. Num certo sentido, Herdando uma Biblioteca é uma continuação – ou desdobramento – do romance autobiográfico de Miguel Sanches Neto, Chove Sobre Minha Infância. Os temas que lá estão reaparecem aqui e o diálogo entre as duas obras é notável a cada passagem. Miguel lembra de saída que, órfão precoce de pai analfabeto, não poderia ter herdado livros. Restava então desvelá-los no quotidiano precário da Peabiru da infância, da banca de jornais que vendia alguns poucos volumes, na descoberta espantosa de livrarias e sebos em outras cidades.

O AUTOR

Miguel Sanches Neto nasceu em 1965 em Bela Vista do Paraíso – Norte do Paraná. Em 1969, mudou-se para Peabiru, onde passou a infância. Doutor em Teoria Literária pela Unicamp e professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa, é autor de mais de 40 livros em diversos gêneros, de diários a aforismos. Publicou os romances Chove Sobre Minha InfânciaUm Amor AnarquistaA Primeira MulherA Máquina de MadeiraA Segunda Pátria e A Bíblia do Che. Finalista do Portugal Telecom e do Prêmio São Paulo, recebeu, entre outros, o Prêmio Cruz e Sousa (2002) e o Binacional das Artes e da Cultura Brasil-Argentina (2005).

‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha, ganha reedição em 2022 pela Ateliê Editorial

No dia 20 de janeiro de 1866 nascia Euclides da Cunha. Para celebrar a data, a Ateliê Editorial anuncia que fará a reimpressão, neste ano, da famosa edição da obra Os Sertões – Campanha de Canudos, com edição, prefácio, cronologia, notas, iconografia e índices pelo professor Leopoldo Bernucci. O livro, é um coedição com SESI-SP editora.

A edição da Ateliê Editorial de Os Sertões foi revista e ampliada e, até hoje, é a mais completa do clássico de Euclides da Cunha. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. Originalmente publicada em 2001, é a primeira edição com minucioso e inédito índice onomástico de lugares e pessoas; acurada cronologia da vida e obra do autor; vinte e quatro páginas de iconografia, com informações desconhecidas sobre o assunto; e prefácio elucidativo do organizador, Prof. Leopoldo Bernucci, que aborda o problema das diferentes linguagens de Os Sertões e de suas qualidades artísticas.

Euclides da Cunha

Euclides Rodrigues da Cunha (1866-1909) foi engenheiro, jornalista, historiador e escritor brasileiro. Em 1883 ingressa no Colégio Aquino, onde foi aluno de Benjamin Constant, que muito influenciou a sua formação introduzindo lhe à filosofia positivista. Em 1885, ingressa na Escola Politécnica, e no ano seguinte, na Escola Militar da Praia Vermelha, onde novamente encontra Benjamin Constant como professor. Contagiado pelo ardor republicano dos cadetes e de Benjamin Constant, durante uma revista às tropas atirou sua espada aos pés do ministro da Guerra. A Escola tentou atribuir o ato à “fadiga por excesso de estudo”, mas Euclides negou-se a aceitar esse veredito e reiterou suas convicções republicanas. Por esse ato de rebeldia, foi julgado pelo Conselho de Disciplina. Em 1888, desligou-se do Exército. Participou ativamente da propaganda republicana no jornal A Província de S. Paulo. Durante a fase inicial da Guerra de Canudos, em 1897, Euclides escreveu dois artigos intitulados A Nossa Vendeia que lhe valeram um convite d’O Estado de S. Paulo para presenciar o final do conflito como correspondente de guerra. Isso porque ele considerava, como muitos republicanos à época, que o movimento de Antônio Conselheiro tinha a pretensão de restaurar a monarquia. Dessa sua visita a Canudos surge sua obra-prima Os Sertões.

CONFIRA AS OBRAS SOBRE EUCLIDES DA CUNHA PUBLICADAS PELA ATELIÊ EDITORIAL

Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos

Alguns biógrafos sugerem um Euclides herói, embora maltratado pela vida. Este livro abandona os mitos e dá destaque ao gênio sem separá-lo de suas misérias. Frederic Amory dedicou-se como poucos a entender a personalidade e as ideias do autor de Os Sertões. Para isso ele confrontou, de modo rigoroso e objetivo, as problemáticas fontes de informação sobre o escritor. Esta biografia aprofunda e esclarece aspectos da vida e da obra de Euclides da Cunha até então pouco estudados. Prêmio Jabuti de Biografia, 2010, e Prêmio Euclides da Cunha da Academia Brasileira de Letras, 2009.

O Pai

A morte de Euclides da Cunha foi um fato marcante do início do século XX. O então cadete Dilermano de Assis, com quem o escritor trocou tiros, casou-se com Ana, viúva de Euclides. Dirce Cavalcanti é a filha que o general Dilermano teve depois de se separar de Ana. Pelos olhos de criança e depois adolescente, seguimos a dolorosa tomada de consciência de ser “a filha do assassino”. No decorrer do depoimento, acompanhamos como ela perdeu e recuperou a estima pelo pai, protagonista da tragédia.

40 anos sem Elis Regina

Há 40 anos perdíamos uma das melhores intérpretes do Brasil: Elis Regina.

Elis Regina (1945-1982) foi uma cantora brasileira, considerada por muitos como a melhor cantora brasileira de todos os tempos. Sua morte precoce a transformou em mito. Diversas canções foram eternizadas na sua voz, entre elas: Águas de Março, Casa no Campo e Como Nossos Pais.

Para relembrar essa data marcante da música brasileira, a Ateliê Editorial indica a obra Leniza & Elis.

Leniza Maier, cantora dos tempos do rádio, é a protagonista do romance A Estrela Sobe, de Marques Rebelo. Elis Regina, personagem real, consagrou-se como a melhor intérprete da música popular brasileira. Duas vidas, dois ensaios. Os autores identificam entre as artistas traços comuns de obstinação e analisam as contradições que perturbaram e deram sentido à carreira de cada uma. Assim, os textos aproximam as imagens de ambas a partir da relação entre mídia e literatura, real e ficcional.

Saiba mais sobre o livro
no site da Ateliê Editorial:
www.atelie.com.br

‘Divina Comédia’, da Ateliê Editorial, é destaque no site cultural Letras In.Verso E Re.Verso

O site Letras In.Verso E Re.Verso destacou, na categoria Projetos Editoriais, a obra Divina Comédia, publicada pela Ateliê Editorial (confira aqui).

A Ateliê Editorial reedita a Divina Comédia, uma das obras-primas da literatura mundial. E reedita mantendo o texto e o projeto gráfico inovador da edição anterior (leitura descendente nos círculos do Inferno e leitura ascendente no Paraíso). Além de trazer de volta a primorosa tradução do erudito italiano João Trentino Ziller publicada originalmente em 1953, em Minas Gerais – a presente reedição do poema oferece as ilustrações de Sandro Botticelli, perdidas durante séculos e identificadas somente na década de 1980.

‘A mão do deserto’, de Paulo Franchetti, por José Renato Nalini

A mão do deserto é um livro que surpreende, remexe nossas lembranças, força uma reavaliação de nossa jornada. Ainda que não seja, necessariamente, um percurso a pilotar motocicleta. Vale a pena mergulhar nele.

Na última terça-feira, 18 de janeiro, no jornal Estado de S. Paulo, foi publicada uma resenha crítica, escrita por José Renato Nalini, sobre o livro A Mão do Deserto, de Paulo Franchetti, publicado pela Ateliê Editorial. Leia na íntegra abaixo ou clique aqui para acessar a matéria. Saiba mais sobre a obra no site da Ateliê Editorial (acesse aqui).

José Renato Nalini é reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.

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Ganhei de minha amiga Cecilia Scharlach, no aniversário, o livro “A mão do deserto”, de Paulo Franchetti, publicado pela Ateliê Editorial. Confesso que não me senti de imediato atraído. É um relato de viagem de motocicleta de Campinas, onde o autor reside, até o deserto do Atacama. Nunca pilotei motocicleta. A restritíssima experiência que tive foi à garupa da moto de meu amigo Hélio Lobo Júnior, quando ambos exercíamos nossas funções – ele como juiz, eu como promotor público – na comarca de Ubatuba.

Estava na condição de Alcir Pécora, que escreveu as “orelhas” à guisa de prefácio: “De motocicletas, não entendo nada. A rigor, meu conhecimento se resume a dois pontos: 1) ter assistido Easy Rider dezenas de vezes; 2) ter lido Zen e a Arte de Manutenção das Motocicletas: uma enquete sobre valores logo que saiu e descobrir que a contracultura dos anos 1960 admitia também uma metafísica literária de longa duração”.

Não assisti Easy Rider dezenas de vezes. Mas acho que chegou a uma dezena. E o livro Zen e a Arte de Manutenção das Motocicletas, ganhei de meu então concunhado, José Augusto Machado, e me serviu para reflexões éticas.

Comecei a leitura e não parei até terminar suas 249 páginas. As descrições estritamente motociclísticas mereceram quase que leitura dinâmica. Todavia, comecei a admirar a coragem de Paulo Franchetti, que em 16.1.2017 foi submetido a uma cirurgia cardíaca e que aos sessenta e cinco anos, viajou sozinho por vinte e cinco dias e mais de onze mil quilômetros. Invejei sua disposição e pensei o quão sensaborona foi minha vida hibernada em leituras jurídicas, despachos, sentenças e acórdãos. Fiquei naquela condição do “só passei pela vida, não vivi!”.

Mas ler é um privilégio. Viajei com Paulo e me identifiquei com alguns dos momentos vivenciados durante sua jornada. Como ele, sempre estranhei aglomerações, grandes cidades, bulício e movimento. Minhas viagens procuraram estradas vicinais, fuga às autoestradas, a descoberta do que ainda sobrevive intacto, esquecido pelo “progresso” que padroniza tudo e oferece melancólica visão de homogeneidade.

Senti com ele a percepção nunca por mim experimentada, de um “prazer singular da motocicleta e da constatação da dosagem adequada” da qual “provém a alegre sensação de confiança que alimenta a viagem, fazendo o tempo passar rápido, principalmente quando se está sozinho”.

É raro estarmos sozinhos e curtirmos a solidão sem angústia, nem melancolia. Encontrei-me um pouco nas reminiscências da infância, embora minha velocidade se resumisse à bicicleta com a qual ia à escola, todos os dias e também nos fins de semana. Essa era a sedução do meu “Ginásio Divino Salvador”: aos sábados e domingos, voltava ao colégio para o pingue-pongue e para mergulhar na biblioteca.

Entendi a observação de que “não é fácil explicar para quem nunca pilotou uma motocicleta em que consiste o prazer da integração com a máquina. Diferentemente de um automóvel, no qual a gente está como num sofá, mas contido entre traves de metal e placas de vidro, na moto a sensação é de estar solto no ar, precariamente agarrado a um objeto instável”.

Vibrei com a reflexão junto às ruínas das Missões: compreendo o que representa deixar “a mente perambular pelos restos de leitura, tentando imaginar não somente o que poderia ter sido aquilo tudo, mas ainda o que teria significado para o mundo se o que os jesuítas construíram nesses lugares remotos tivesse perdurado e frutificado como exemplo e caminho na ocupação das novas terras”. O Brasil e os países vizinhos seriam outros. Quiçá melhores!

Como deve ter sido gratificante “a sensação de plenitude, porque pela primeira vez em muito tempo eu estava completamente a sós comigo. Aquele pedaço de mundo de repente parecia estranho, desconhecido, vasto e imponderável. Talvez porque eu ali não me sentisse mais conectado, nem de fato, nem como possibilidade imediata, à casa, à família, aos amigos, às redes sociais, aos livros e aos demais costumes e pequenos rituais em que a vida se esquece em conforto e com facilidade”. Daí o sentimento de “graça alcançada”! Paulo Franchetti conseguiu, nessa viagem, a dádiva de viajar dentro de si, o raríssimo exercício do autoconhecimento, que os gregos pregaram e que é tão difícil praticarmos. Ele teve consciência de que o valioso era obter “o silêncio interior”. Situação fecunda para detectar que a “vantagem de ter tempo é poder desfrutar dele, mesmo que isso signifique nada fazer”. Perceber que a solidão não precisa ser triste: “Esse tipo de solidão quase sem palavras, passado o estágio do susto, tinha impacto bom, revigorante, apaziguador. Aflorava aí muito forte a consciência da minha condição real. Fragilidade, transitoriedade, imponderabilidade não surgiam como conceitos ou ameaças vagas, mas como sensações”. Simultaneamente a memória afetiva: mãe, pai, irmã, “seu filho, minhas filhas, minha mulher, os filhos dela e as mulheres que amei e que perdi ou deixei. E ainda outros. Naquelas voltas sem rumo e paradas sem motivo, os vivos e os mortos se foram revelando, cada um a seu turno, nos grandes silêncios e espaços abertos que a moto cortava como se estivesse flutuando. Já não era possível ignorá-los. De alguma forma, com todos conversei em algum momento. Senti que era a oportunidade de pedir perdão e perdoar. Não precisava compreender. Nem saber o motivo. Apenas pedir perdão e perdoar”.

“A mão do deserto” é um livro que surpreende, remexe nossas lembranças, força uma reavaliação de nossa jornada. Ainda que não seja, necessariamente, um percurso a pilotar motocicleta. Vale a pena mergulhar nele.

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LIVRO

Na obra, Paulo Franchetti aborda a sua aventura solitária, sobre uma motocicleta, até o Atacama, além de ser uma vontade própria de desbravar, também, o deserto íntimo. “Eu tinha idealizado a viagem para que fosse também (ou principalmente) uma viagem interior”, o que prova que não é apenas um livro de viagem, mas a evocação das memórias junto às instigações que despertam as histórias de um motociclista entre as maravilhas das paisagens aos reveses enfrentados na viagem.

A Mão do Deserto é um livro GPS com destino traçado, mas de percursos vislumbrantes de um amante da literatura e da motocicleta. O leitor é conduzido com celeridade narrativa, mas nunca ultrapassando a boa leitura, entrando de vez na história, viajando pelos lugares monumentais, conhecendo personagens memoráveis e relatos emotivos, combinando, enfim, um ponto de encontro com o autor.

O AUTOR

Paulo Franchetti foi professor titular no Departamento de Teoria Literária da Unicamp e presidente da editora da mesma universidade por muitos anos. Publicou pela Ateliê Editorial os livros de estudos literários: Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa e Crise em Crise – Notas sobre Poesia e Crítica no Brasil Contemporâneo. Publicou também o livro de ficção O Sangue dos Dias Transparentes e A Mão do Deserto (memória de viagem), além dos livros de poesia: Deste Lugar,  Memória Futura, ente outros. Seu livro de haicais, Oeste, representa uma das mais admiráveis experiências na recente poesia brasileira. Para a coleção Clássicos Ateliê organizou também O Primo Basílio, Dom Casmurro, Iracema, O Cortiço, A Cidade e as Serras, Clepsidra e Esaú e Jacó.