Monthly Archives: setembro 2021

Dia Internacional da Tradução na Ateliê Editorial

São Jerônimo (arte de Hendrick van Someren, pintor barroco holandês – 1615-1685)

Em 30 de setembro comemora-se o Dia Internacional da Tradução. A importante área literária é celebrada na data em que morreu São Jerônimo, patrono dos tradutores. Ele foi incumbido pelo Papa Damaso a traduzir a Bíblia para o latim, graças ao conhecimento que tinha desta língua, do grego e do hebraico.

E a Ateliê Editorial realiza a promoção de seus títulos do catálogo com incríveis traduções. Aproveite!

A editora também presta uma homenagem a Bruno Palma, poeta e tradutor que faleceu no último domingo (26), confira aqui o nosso texto em memória a um dos maiores nomes da literatura.

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Ateliê Editorial homenageia Bruno Palma no Dia Internacional da Tradução

Em 30 de setembro comemora-se o Dia Internacional da Tradução. A importante área literária é celebrada na data em que morreu São Jerônimo, patrono dos tradutores. Ele foi incumbido pelo Papa Damaso a traduzir a Bíblia para o latim, graças ao conhecimento que tinha desta língua, do grego e do hebraico. A Ateliê Editorial tem um trabalho empenhado na publicação de obras com apuro preciso nas traduções.

Traduzir não é meramente pegar as palavras que estão no dicionário e jogar nas páginas de um livro, para Bruno Palma era a fidelidade da escolha precisa e árdua na construção de um texto, como ele mesmo respondeu em entrevista a Marcus Fabiano Gonçalves:

“Quando se fala em fidelidade é preciso levar em conta sua correspondência homóloga na língua de chegada. Por isso, para se obter um bom resultado, é mais importante conhecer-se bem a língua para a qual se traduz. E TUDO é importante para que haja fidelidade ao original: até um simples fonema, ou mero sinal, um hiato, um silêncio”.

Não se pode limitar a fidelidade ao original à atenção às palavras que constituem o discurso. Se elas são a matéria de que ele é feito, não são meros conteúdos intercambiáveis (Bruno Palma em entrevista a Marcus Fabiano Gonçalves, em Bruno Palma, escolhedor de palavras, na Revista do IEA/USP).

No último domingo, 26 de setembro, faleceu o poeta e tradutor Frei Bruno Palma, aos 94 anos. Palma publicou as obras traduzidas Amers / Marcas Marinhas, de Saint-John Perse, e Duplo Canto e Outros Poemas, de François Cheng. Além das traduções, Bruno Palma lançou o livro de poesias Cirandas. Pela Com Arte (Editora Laboratório do Curso de Editoração da ECA-USP), Palma publicou as obras O Mar e o Búzio e Porque é Noite. Há também no catálogo do selo: Bruno Palma, Escolhedor de Palavras – Ensaio sobre a Arte e o Ofício de um Tradutor, de Marcus Fabiano Gonçalves.

Para a data tão importante à cultura, a Ateliê Editorial dedica este Dia Internacional da Tradução à memória de Frei Bruno Palma, um dos maiores tradutores do país e que deixou um legado essencial para a literatura. Até o fim da vida, frei Bruno Palma manteve-se ativo no labor diário da tradição de São Jerônimo, tendo deixado duas traduções ainda inéditas de Elogios, de Saint-John Perse, e de Verdadeira Luz Nascida de Verdadeira Noite, de François Cheng, acrescidas de importantes comentários que auxiliam o leitor na fruição de obras tão densas.

“Creio, porém, que minha tradução da obra poética de François Cheng foi ajudada pela minha experiência anterior, a tradução de obras de Saint-John Perse. Pode parecer estranho, pois Perse é muito diferente de Cheng. Contudo, ambos são “poetas do ser”, como diz François Cheng, e se encontram por isso no essencial: na sua maneira de ver o mundo e de se relacionar com ele” (Bruno Palma em entrevista a Marcus Fabiano Gonçalves, em Bruno Palma, escolhedor de palavras, na Revista do IEA/USP).

BRUNO PALMA

Ivo de Souza Palma nasceu em 1927, na cidade de Araraquara (SP). É conhecido pelo nome religioso, Frei Bruno Palma, da Ordem dos Dominicanos e assina suas traduções com seu nome literário Bruno Palma. Recebeu da sua família o gosto pela leitura dos melhores autores da literatura portuguesa e brasileira e, desde cedo, pôde lê-los, em sua casa, por iniciativa própria ou como tarefa escolar.  O mesmo se pode dizer do seu contato com grandes autores estrangeiros, em boas traduções. 

Quanto à sua experiência tradutória, ela começou no ginásio, onde, nos cursos de latim, francês e inglês, ministrados desde o primeiro ano ginasial, havia, como prática habitual, a tradução para o português de textos escritos nessas línguas, e as chamadas “versões”, do português para elas. Fez seus estudos de filosofia e teologia na França.

De volta ao Brasil, foi ordenado sacerdote, em 1957, por D. Helder Câmara e exerceu suas atividades sacerdotais e magisteriais em várias cidades brasileiras. Começou, desde 1958, a realizar traduções das obras de Saint-John Perse e publicá-las, primeiro em jornais depois em livro. Voltando da França, em 1976, continuou a se dedicar à tradução das obras de Saint-John Perse. Entre elas, figuram Anábase (1979) pela qual recebeu o Prêmio Jabuti, em 1980; e Marcas Marinhas (Ateliê Editorial, 2003que lhe valeu o prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 2004. Em 2011, publica Duplo Canto e Outros Poemas (Ateliê Editorial), que congrega três obras poéticas do poeta sino-francês François Cheng (1929): Double Chant, Cantos Toscans e Le Long d’um Amour. Publicou também Cirandas, livro de poesias.

Em entrevista para a tradutora e poeta Simone Homem de Mello, no livro Bruno Palma – Tradução Não Tem Fim (Com Arte – Editora Laboratório do Curso de Editoração da ECA-USP), o nosso homenageado definiu aquilo que pode ser o labor da tradução:

Tradução não tem fim, não tem ponto de parada. Tradução é uma coisa eterna. E não existe tradução perfeita. Existem tentativas de tradução: a minha é uma tentativa.

OBRAS PUBLICADAS PELA ATELIÊ

Amers / Marcas Marinhas

Este é um canto épico de louvor ao mar como modelo de grandeza e de toda realização humana. Saint-John Perse (1887-1975), vencedor do Prêmio Nobel em 1960, funde diversas tradições míticas e tece um elogio à Criação. Para Bruno Palma, o autor “transmite um rigor de incomparável liberdade. Jamais teme as palavras”. Esta edição bilíngue é um marco na tradução poética brasileira pelo prodigioso trabalho de recriação feito por Bruno Palma, que assina também a cronologia, a introdução e as notas.

Duplo Canto e Outros Poemas

Traduzir poesia é traduzir o intraduzível. São raros os que o fazem. E mais raros ainda os que o conseguem com proveito. Bruno Palma é um desses casos. Passou para o nosso português as páginas mais belas de Saint-John Perse. Recriou ritmos e ambientes quase intransponíveis. Criou novas palavras, e deu a outras novo lustro de vida, novas conotações de convivência. Agora, Palma traduz François Cheng. Poeta sino-francês, Cheng é um sintetizador dessas duas extraordinárias vertentes de civilização. Bruno se empenha sobretudo junto às figuras de linguagem, que em Cheng resultam de interação profunda com a natureza, e segue as linhas essenciais do ritmo chenguiano. A simbiose de Cheng enlaça a tradição de literatura e pensamento zen, na sua expressão ideográfica distinta, à nossa tradição radicalmente inovadora da perspectiva aberta por Mallarmé. Integrador de linguagens e culturas, Cheng muito nos enriquece a vivência literária: no caso dos leitores de língua portuguesa, graças ao pleno encontro de Bruno Palma com o mestre sino-francês, recriando-o admiravelmente em nossa língua.

Cirandas

Essas canções infantis – ditas “de ronda”, ou “de roda” – fazem parte da nossa infância e, por isso, sempre despertaram em mim o desejo de escrever poemas sobre elas. Adotei, como Villa-Lobos, o nome de “cirandas”. E tentei fazer o que ele fez – e genialmente: assumi-las numa forma erudita, sem perder seu encanto e seu frescor. Assim, escolhi o soneto: forma de beleza imperecível e exigente, pela sua concisão e musicalidade. E é essa musicalidade que procurei manter nas minhas versões pessoais do patrimônio comum dos povos brasileiro e português. E, visto que muitas dessas cirandas têm várias versões, optei pela mais normativa gramaticalmente e mais sugestiva no seu conteúdo, ciente de que, primeiro: a forma e o ritmo de um poema fazem parte essencial desse conteúdo, já são significativos e poéticos por eles mesmos; depois, nada garante que as minhas opções reencontrem o “original” das ronda.

Ateliê realiza a live de lançamento de ‘Graciliano na Terra de Camões – Difusão, Recepção e Leitura (1930-1950)’, obra de Thiago Mio Salla

Na quinta-feira, 7 de outubro, às 20h, no Youtube da Ateliê Editorial, acontece a live de lançamento da obra Graciliano na Terra de Camões – Difusão, Recepção e Leitura (1930-1950), de Thiago Mio Salla. Além do autor, o encontro virtual tem a participação de Ieda Lebensztayn, Ricardo Ramos Filho, Luís Bueno e mediação de Luciana A. Marques. O livro já está à venda no site da Ateliê.

Escrito pelo premiado professor, crítico e pesquisador Thiago Mio Salla,  Graciliano na Terra de Camões investiga as diferentes facetas da recepção e da divulgação da obra do autor de Vidas Secas e, por extensão, do romance de 1930 brasileiro, em Portugal ao longo dos anos de 1930, 1940 e 1950. Trata-se de um período singular, marcado, entre outros aspectos:  pela ampliação, em termos editoriais, da indústria do livro brasileira, o que teria dado início a um processo irreversível de inversão da influência tipográfica entre Portugal e Brasil;  pela emergência, no âmbito artístico, do neorrealismo luso e pela singular presença, em terras portuguesas, da literatura brasileira, algo nunca antes observado no intercâmbio literário entre os dois países; em termos políticos e culturais, pelo esforço de aproximação formal entre os governos de Getúlio e Salazar, que celebraram o emblemático acordo de 1941, voltado à promoção de “íntima” cooperação artística e intelectual entre as duas nações.

Com ênfase nas dimensões jornalística, epistolar e editorial relativas à chegada e à ressonância de Graciliano em Portugal, Thiago Mio Salla procurou observar como, para além de leituras e apropriações feitas quer por neorrealistas à esquerda, quer por estadonovistas à direita, as produções do autor alagoano se firmaram no panorama cultural português e consolidaram seu nome, de modo ampliado, como um dos principais prosadores de nosso idioma.

Graciliano na Terra de Camões constitui-se, portanto, em um trabalho de caráter interdisciplinar que procura conjugar, sobretudo, as áreas de Letras e Editoração, com ênfase em estudos literários e de recepção, história do livro, da edição e do intercâmbio político e cultural entre Brasil e Portugal na primeira metade do século XX. Em chave metonímica, o livro toma o caso concreto da chegada e da difusão da obra de Graciliano Ramos em Portugal para discutir, sobretudo, as relações literárias e editoriais entre os dois países, num contexto pós-revolução de 1930, em que nossos livros e nossa literatura, invertendo o fluxo até então prevalente entre ex-metrópole e antiga colônia, se expandiram pelo mercado e pelo universo cultural português. 

Diante da carência de dados e estudos a respeito do tema investigado, a pesquisa que embasou o livro ora apresentado aos leitores pautou-se pela recuperação e exame de um rol diversificado de fontes primárias. Mais especificamente, contemplou a localização, inventariação e interpretação de artigos, cartas, dedicatórias, livros, encontrados em bibliotecas, hemerotecas e diferentes espólios literários brasileiros e portugueses.

Como complemento bastante rico, o livro ainda apresenta uma compilação de imagens de textos avulsos de Graciliano Ramos publicados em diferentes periódicos lusos, bem como uma proposta de edição anotada de toda a desconhecida fortuna crítica de Graciliano Ramos em Portugal entre os anos de 1930 e 1950. Mediante essa segunda iniciativa de coletar, transcrever, apor notas e normalizar um conjunto variado de artigos e ensaios sobre o autor alagoano e de entrevistas por ele concedidas e publicadas, fundamentalmente, na imprensa lusitana, Salla procurou disponibilizar tal material para outros pesquisadores interessados no estudo da recepção crítica do autor de Vidas Secas ou mesmo do romance brasileiro de 1930 em terras portuguesas.

O AUTOR

Thiago Mio Salla é doutor em Ciências da Comunicação e em Letras pela Universidade de São Paulo. Enquanto docente e pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da USP e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da FFLCH/USP, dedica-se às áreas de Literatura Brasileira, Teorias e Práticas da Leitura e Editoração. Entre outros trabalhos, publicou o livro Garranchos – Textos Inéditos de Graciliano Ramos (Record, 2012) e Graciliano Ramos e a Cultura Política (Edusp, 2017), bem como, em parceria com Ieda Lebensztayn, as obras Cangaços (Record, 2014) e Conversas (Record, 2014), ambas também a respeito do autor de Angústia.

Notícia: A aventura solitária de um professor pelo deserto do Atacama, por HoraCampinas

“Ao planejar a viagem, eu só tinha desejado uma coisa: ficar sozinho, com a minha moto, a maior parte do tempo”. Este foi o mote de Paulo Franchetti e que deu origem ao livro A Mão do Deserto, publicado pela Ateliê Editorial. De forma literária e de um relato preciso desde o planejamento da viagem, passando pelo trajeto de 11 mil quilômetros, até o final da jornada, o autor nos leva junto na garupa em uma narrativa imersiva e emocional, colaborando para um itinerário de espaço e tempo, do humano e máquina, da imensidão da paisagem da América do Sul, de um estrangeiro em busca de um desafio a duas rodas.

LEIA NA ÍNTEGRA NO JORNAL

SAIBA MAIS SOBRE A OBRA

Notícia: Dante, há 700 anos entre o Céu e o Inferno, por Marcello Rollemberg

Dante Alighieri sonhou o paraíso e o inferno. Purgou suas dores, remorsos e traições. E nas duas décadas em que pensava em sua Florença natal — da qual havia sido expulso para nunca mais voltar –, Dante se dedicou a escrever um livro. Um livro? Não: o livro definitivo da poesia e da literatura medieval, sua obra maior e uma das mais monumentais obras das artes de todos os tempos. Dante não escreveu apenas a Divina Comédia: ao fazê-lo em dialeto toscano, em lugar do tradicionalíssimo e culto latim, ele também estava inventando a língua italiana. E, por tabela, toda uma cultura universal. Dante sonhou com o paraíso, com o céu. Então, nada mais justo que sua obra suprema vá para o espaço. Literalmente. As 14.200 linhas e as cerca de 32 mil palavras que compõem os cem cantos de Divina Comédia serão transportadas ao céu, o mesmo céu que “corre mais rapidamente” como afirma a epígrafe que abre esse texto. O céu de Dante Alighieri, que vai se descortinar para uma nave russa Soyuz levando ao éter uma cópia da obra do poeta de Florença microinscrita em folhas de uma liga de titânio e ouro. E lá ficará flutuando por toda a eternidade, ao preço de 150 mil euros. A eternidade que uniu Dante e Beatriz, mas que a realidade negou. 

(Jornal da USP, 24 de setembro de 2021)

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CONFIRA A EDIÇÃO DE DIVINA COMÉDIA DA ATELIÊ

Faleceu o poeta e tradutor Frei Bruno Palma

Faleceu, na madrugada deste domingo, 26 de setembro, o poeta e tradutor Frei Bruno Palma, aos 94 anos. A Ateliê Editorial lamenta a morte de um dos maiores tradutores do país, que deixou um legado essencial para a literatura. Na editora, Palma publicou as obras traduzidas Amers / Marcas Marinhas, de Saint-John Perse, e Duplo Canto e Outros Poemas, de François Cheng, que para o editor Plinio Martins Filho: “considero uma das mais importantes no catálogo da Ateliê”. Além das traduções, Bruno Palma lançou o livro de poesias Cirandas. Pela Com Arte (Editora do Curso de Editoração da ECA-USP), Palma publicou as obras O Mar e Búzio e Porque é Noite. Há também no catálogo do selo: Bruno Palma, Escolhedor de Palavras – Ensaio sobre a Arte e o Ofício de um Tradutor, de Marcus Fabiano Gonçalves.

Frei Bruno Palma

Ivo de Souza Palma nasceu em 1927, na cidade de Araraquara (SP). É conhecido pelo nome religioso, Frei Bruno Palma, da Ordem dos Dominicanos e assina suas traduções com seu nome literário Bruno Palma. Recebeu da sua família o gosto pela leitura dos melhores autores da literatura portuguesa e brasileira e, desde cedo, pôde lê-los, em sua casa, por iniciativa própria ou como tarefa escolar.  O mesmo se pode dizer do seu contato com grandes autores estrangeiros, em boas traduções. 

Quanto à sua experiência tradutória, ela começou no ginásio, onde, nos cursos de latim, francês e inglês, ministrados desde o primeiro ano ginasial, havia, como prática habitual, a tradução para o português de textos escritos nessas línguas, e as chamadas “versões”, do português para elas. Fez seus estudos de filosofia e teologia na França.

De volta ao Brasil, foi ordenado sacerdote, em 1957, por D. Helder Câmara e exerceu suas atividades sacerdotais e magisteriais em várias cidades brasileiras. Começou, desde 1958, a realizar traduções das obras de Saint-John Perse e publicá-las, primeiro em jornais depois em livro. Voltando da França, em 1976, continuou a se dedicar à tradução das obras de Saint-John Perse. Entre elas, figuram Anábase (1979) pela qual recebeu o Prêmio Jabuti, em 1980; e Marcas Marinhas (Ateliê Editorial, 2003que lhe valeu o prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 2004. Em 2011, publica Duplo Canto e Outros Poemas (Ateliê Editorial), que congrega três obras poéticas do poeta sino-francês François Cheng (1929): Double Chant, Cantos Toscans e Le Long d’um Amour. Publicou também Cirandas, livro de poesias.

OBRAS PUBLICADAS PELA ATELIÊ

Amers / Marcas Marinhas

Este é um canto épico de louvor ao mar como modelo de grandeza e de toda realização humana. Saint-John Perse (1887-1975), vencedor do Prêmio Nobel em 1960, funde diversas tradições míticas e tece um elogio à Criação. Para Bruno Palma, o autor “transmite um rigor de incomparável liberdade. Jamais teme as palavras”. Esta edição bilíngue é um marco na tradução poética brasileira pelo prodigioso trabalho de recriação feito por Bruno Palma, que assina também a cronologia, a introdução e as notas.

Duplo Canto e Outros Poemas

Traduzir poesia é traduzir o intraduzível. São raros os que o fazem. E mais raros ainda os que o conseguem com proveito. Bruno Palma é um desses casos. Passou para o nosso português as páginas mais belas de Saint-John Perse. Recriou ritmos e ambientes quase intransponíveis. Criou novas palavras, e deu a outras novo lustro de vida, novas conotações de convivência. Agora, Palma traduz François Cheng. Poeta sino-francês, Cheng é um sintetizador dessas duas extraordinárias vertentes de civilização. Bruno se empenha sobretudo junto às figuras de linguagem, que em Cheng resultam de interação profunda com a natureza, e segue as linhas essenciais do ritmo chenguiano. A simbiose de Cheng enlaça a tradição de literatura e pensamento zen, na sua expressão ideográfica distinta, à nossa tradição radicalmente inovadora da perspectiva aberta por Mallarmé. Integrador de linguagens e culturas, Cheng muito nos enriquece a vivência literária: no caso dos leitores de língua portuguesa, graças ao pleno encontro de Bruno Palma com o mestre sino-francês, recriando-o admiravelmente em nossa língua.

Cirandas

Essas canções infantis – ditas “de ronda”, ou “de roda” – fazem parte da nossa infância e, por isso, sempre despertaram em mim o desejo de escrever poemas sobre elas. Adotei, como Villa-Lobos, o nome de “cirandas”. E tentei fazer o que ele fez – e genialmente: assumi-las numa forma erudita, sem perder seu encanto e seu frescor. Assim, escolhi o soneto: forma de beleza imperecível e exigente, pela sua concisão e musicalidade. E é essa musicalidade que procurei manter nas minhas versões pessoais do patrimônio comum dos povos brasileiro e português. E, visto que muitas dessas cirandas têm várias versões, optei pela mais normativa gramaticalmente e mais sugestiva no seu conteúdo, ciente de que, primeiro: a forma e o ritmo de um poema fazem parte essencial desse conteúdo, já são significativos e poéticos por eles mesmos; depois, nada garante que as minhas opções reencontrem o “original” das rondas…

Paulo Franchetti: “A viagem de motocicleta é o que mais se aproxima, para mim, do estado de meditação”

Aproveitei o resto do último dia para vagar outra vez pelo deserto (A Mão do Deserto)

A Ateliê Editorial publica a obra A Mão do Deserto, do escritor e professor Paulo Franchetti. Pode-se dizer que é o livro mais pessoal de Franchetti, de sua vasta trajetória literária. Quem concorda com essa afirmação é o também crítico e professor Alcir Pécora, no texto de orelha ele escreveu: “O que gostaria de declarar aqui portanto é que, quando Paulo Franchetti conta as suas aventuras solitárias pelo Atacama adentro, ele está falando de uma coisa muito séria para ele: o cerne de um assunto que ele estudou nos livros e também experimentou no corpo a vida toda”.

De forma literária e de um relato preciso desde o planejamento da viagem, passando pelo trajeto de 11 mil quilômetros, até o final da jornada, o autor nos leva junto na garupa em uma narrativa imersiva e emocional, colaborando para um itinerário de espaço e tempo, do humano e máquina, da imensidão da paisagem da América do Sul, de um estrangeiro em busca de um desafio a duas rodas. “Sempre tive vontade de fazer uma longa viagem solitária de moto. Eu já tinha feito muitas viagens pelo Brasil, tanto sozinho como em companhia. A viagem para o Atacama – que é um desejo de quase todo motociclista – foi um projeto sempre adiado. Ora por compromissos profissionais, ora por motivos familiares. Ora por motivos de saúde”.

Em entrevista para a Ateliê, Paulo Franchetti contou da ideia de elaborar a sua aventura em livro: “Quando decidi escrever, surgiu-me a primeira cena de um modo tão natural quanto inesperado. Em vez de começar a contar a viagem desde o começo, de repente me revi praticamente no meio dela, pouco antes de cruzar os Andes, subindo outra montanha”. Ele também comentou da sua relação com a motocicleta, sua companheira de viagem: “Sempre tive paixão por máquinas, engenhos, tecnologias. E por aventuras, talvez por conta das leituras da infância”. Além de confessar a sensação pelo trajeto realizado: “Durante a viagem eu tinha publicado notas objetivas. Dicas para os amigos que no futuro se decidissem a seguir aquele caminho. Mas evitei tentar dar forma escrita às sensações, pensamentos e emoções, porque eu queria a vivência bruta e imediata da beleza e da solidão”.

Paulo Franchetti

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Ateliê Editorial: Paulo, antes de tudo, como se originou o desejo de viajar de moto pela América do Sul até o Atacama?

Paulo Franchetti: Sempre tive vontade de fazer uma longa viagem solitária de moto. Eu já tinha feito muitas viagens pelo Brasil, tanto sozinho como em companhia. A viagem para o Atacama – que é um desejo de quase todo motociclista – foi um projeto sempre adiado. Ora por compromissos profissionais, ora por motivos familiares. Ora por motivos de saúde. 

Um dia, ao sair de uma consulta médica, soube que teria de tomar um remédio anticoagulante pelo resto da vida. Isso porque, para evitar o mesmo destino de minha mãe, já que tínhamos o mesmo problema cardíaco, tinha me submetido a uma cirurgia dois anos antes. Julgava-me recuperado. E estava. Porém não fui dispensado do remédio e, com ele, da recomendação de evitar qualquer situação de risco que pudesse gerar sangramento. Enquanto caminhava de volta para casa, pensei que eu já tinha adiado muito, que o tempo tinha passado muito rápido e que ou era naquele momento ou não seria nunca mais. Lembro-me perfeitamente do momento em que tomei a decisão. Era uma manhã fria, de céu muito azul. Eu subia a pé a rua na direção de casa, trazendo, num envelope, mais um eletrocardiograma, que atestava a condição normal e controlada. Tinha já feito tantos… Naquele dia não o levei comigo: depositei-o na primeira lixeira que encontrei na rua. Quando entrei em casa, fui direto ao computador e tracei a primeira rota, automática, que depois seria totalmente refeita, com base no que fui ouvindo, lendo e me aconselhando com pessoas. Estava decidida a viagem. Ou, melhor dizendo, ela já tinha começado.


P: Complementando a primeira pergunta, como, também, originou a escrita de um livro sobre essa experiência?

R: Durante a viagem eu tinha publicado notas objetivas. Dicas para os amigos que no futuro se decidissem a seguir aquele caminho. Mas evitei tentar dar forma escrita às sensações, pensamentos e emoções, porque eu queria a vivência bruta e imediata da beleza e da solidão. Não queria filtros, mediações. Quando voltei, reatando a conversa com um amigo, perguntou-me ele o que eu tinha feito nos últimos tempos. Disse-lhe que, entre outras coisas e viagens e trabalhos, tinha ido sozinho ao Atacama, de moto. Ele me pediu que lhe contasse algo e eu redigi um breve relato, de imediato, conforme me foram ocorrendo as lembranças principais. Esse amigo, Alcir Pécora – meu parceiro de trabalho de tantos anos -, gostou da narrativa e me animou a prosseguir: a refazer a viagem em palavras. Estávamos em plena fase aguda da pandemia. Minha próxima viagem, até o Peru, tinha sido cancelada. Aceitei a sugestão e durante uns meses me dediquei a rememorar a viagem. Eu tinha as anotações objetivas: lugares, datas, nomes, eventos. E tinha fotografias. Foram bons apoios, mas desnecessários em certo sentido, porque a viagem estava ainda viva e pulsante na minha lembrança.

Curiosamente, quando terminei de escrever a primeira versão, não a enviei ao Alcir. Achei que antes de apresentá-la a ele queria ouvir a opinião do Plínio Martins Filho. Creio que eu queria testar a força do relato com alguém cujo gosto e capacidade de leitura eu admirava, mas para quem eu não tivesse ainda dito nada sobre a viagem, nem mandado fotos ou relatos.

A resposta do Plínio foi animadora: disse logo que queria publicar aquilo. Mas havia algo que ele queria que eu tivesse escrito, algo que faltava e ele não sabia bem o que era.

Na sequência, enviei ao Alcir.

Alcir comparecia na história, porque o livro não trata só da viagem exterior, isto é, do trajeto até o Atacama. Trata também de tudo o que foi aflorando durante aqueles 25 dias: lembranças, emoções, pensamentos fugidios, sensações, alucinações. Num dos capítulos, eu narro um evento motociclístico de que ele fez parte. Mas minha grande expectativa quanto à sua leitura não era saber se ele se sentiria divertido e bem representado no episódio. Além do que sempre tivemos ao escrever juntos ou ler textos um do outro, isto é, crítica rigorosa e construtiva, eu confiava que ele poderia me dizer o que faltava ali, o que era a lacuna que o Plínio percebeu sem identificar claramente.

Alcir leu e logo deu pelo que seria: o que logo explicitei, inserindo o segundo capítulo e estava apenas indicado ou subentendido ao longo da narrativa.

Na sequência, sobre o livro já pronto em primeira versão, tivemos muitas conversas e fico sempre feliz de registrar que, sem elas, o livro provavelmente seria um pouco diferente do que é. O melhor, quanto a mim, foi o fato de apostar, desde o momento da escrita solitária, no diálogo com um leitor assim exigente. Porque eu acho que a gente sempre tem uma imagem de leitor ideal, quando escreve. E embora eu não lhe tivesse mostrado o livro em primeiro lugar, a verdade é que o escrevi tendo também em mente a sua leitura e feedback.


P: Na leitura da obra, somos impactados com a precisão de sua escrita em nos deixar imersos na narrativa e trajeto, como se estivéssemos viajando contigo na garupa, como foi o trabalho e o processo de escrita do livro?

R: Eu não sei bem o que dizer. Quando decidi escrever, surgiu-me a primeira cena de um modo tão natural quanto inesperado. Em vez de começar a contar a viagem desde o começo, de repente me revi praticamente no meio dela, pouco antes de cruzar os Andes, subindo outra montanha. Não sei bem por que comecei por ali, nem mesmo como fui organizando a narrativa e a costura entre o passado e o presente. Eu gostaria de dizer que foi um processo muito consciente, que houve tal planejamento que a metade do livro coincide com um marco importante da viagem. Mas não é verdade. Eu tinha uma trilha para seguir, que eram as anotações tópicas: datas e lugares, basicamente. À medida que ia escrevendo, fui revivendo intensamente os passos e os eventos, e eles se foram encadeando, em lógica própria, com reminiscências ocorridas durante a viagem e lembranças outras que foram surgindo durante a escrita. 


P: Há muitas descobertas íntimas que você compartilha com o leitor. O que mudou para o Paulo após essa viagem? E o que podemos extrair da leitura dessa reflexão?

R: Sinto que alguma coisa mudou, mas numa região interna a que não tenho muito acesso. Dizendo assim pode parecer estranho, mas o efeito da solidão e a vivência da vulnerabilidade e do desamparo deixaram marcas benéficas, que só consigo definir mais ou menos com a palavra pacificação. Foi, de alguma forma, uma viagem de reconciliação, de reencontro e de perdão. A viagem de motocicleta é o que mais se aproxima, para mim, do estado de meditação. Uma viagem de 25 dias, com pouco contato com pessoas e muitas horas preenchidas apenas com a contemplação da natureza agreste e com o esforço de apenas estar presente no presente, é como uma meditação estendida. Um estado que é difícil definir, mas fácil de sentir enquanto está durando. Sinto que voltei diferente, mas não posso dizer em quê, nem por quê.

P: Percebemos uma relação entre você e a motocicleta, há muito detalhes na obra de como você a comprou e a reformou para a aventura, conte-nos como começou essa paixão?

R: Sempre tive paixão por máquinas, engenhos, tecnologias. E por aventuras, talvez por conta das leituras da infância. Quando tinha uns 12 anos, um de meus tios apareceu com uma velha motocicleta, que pegara como pagamento de um negócio. Eu adorava aventurar-me em correrias sobre um velho pangaré, mas a máquina logo me seduziu e, enquanto ela esteve disponível, não voltei ao lombo do animal. Essa primeira experiência, interrompida por muitos anos, até eu poder comprar a minha primeira motocicleta, foi a origem de uma paixão pelas duas rodas que nunca arrefeceu e provavelmente nunca vai arrefecer. Além de pilotar, fascinou-me a motocicleta enquanto engenho. Fiz estágio em oficina, comprei livros, ferramentas e aprendi o que me foi possível na arte da mecânica. Compreender o funcionamento, testar vários modelos, compará-los, verificar o melhor de cada um passou a ser também um objetivo e cheguei mesmo a escrever avaliações de motocicletas recém-lançadas que foram publicadas no Facebook e num blog de uma revista especializada.

Houve depois outra fase breve. Tendo feito alguns passeios com o H.O.G. (Grupo de Proprietários de Harley), acabei comprando motocicletas dessa marca e me envolvendo com o grupo. Durante algum tempo, participei inclusive da diretoria do H.O.G. da Tennessee de Campinas. De modo que por algum tempo, além dos passeios solitários, envolvi-me com a vida gregária. Hoje já não vivo no universo Harley-Davidson, mas alguns dos melhores amigos com quem convivo foram o ganho suplementar daqueles bons tempos.

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O AUTOR

Paulo Franchetti foi professor titular no Departamento de Teoria Literária da Unicamp e presidente da editora da mesma universidade por muitos anos. Publicou pela Ateliê Editorial os livros de estudos literários: Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa e Crise em Crise – Notas sobre Poesia e Crítica no Brasil Contemporâneo. Publicou também o livro de ficção O Sangue dos Dias Transparentes e A Mão do Deserto (memória de viagem), além dos livros de poesia: Deste Lugar,  Memória Futura, ente outros. Seu livro de haicais, Oeste, representa uma das mais admiráveis experiências na recente poesia brasileira. Para a coleção Clássicos Ateliê organizou também O Primo Basílio, Dom Casmurro, Iracema, O Cortiço, A Cidade e as Serras, Clepsidra e Esaú e Jacó.

Faleceu José Xavier Cortez, fundador da Cortez Editora

José Xavier Cortez

Faleceu, nesta sexta-feira, 24 de setembro, aos 84 anos, José Xavier Cortez, o sr. Cortez, editor e fundador da Cortez Editora.

Em nota de pesar, a editora destacou: Sabemos o quanto análises e pesquisas na Educação Brasileira foram extensa e intensamente alicerçadas por José Xavier Cortez. Seu empenho transformou em livro ideias fundamentais para que a Educação fosse sonhada como instância de superação das desigualdades e de defesa da democracia. Seu compromisso garantiu que autores expressivos mantivessem contato com o “chão da escola” e que professores e professoras pudessem receber formação crítica, sempre atual e emancipadora”.

E finalizou: “Sua trajetória profissional e o seu empenho como grande incentivador do livro e da leitura é o expressivo legado que nos deixa, e foi com esse sentimento que a Cortez Editora cresceu, e é exatamente com esses valores que continuaremos a contar essa história”.

Fica aqui o agradecimento da equipe da Ateliê Editorial ao Sr. Cortez pelo trabalho com a cultura e educação, bem como o legado deixado para a editoração brasileira.

Dia Internacional da Tradução na Ateliê

No dia 30 de setembro comemora-se o Dia do Tradutor. A importante área literária é celebrada na data em que morreu São Jerônimo, patrono dos tradutores. Ele foi incumbido pelo Papa Damaso a traduzir a Bíblia para o latim, graças ao conhecimento que tinha desta língua, do grego e do hebraico.

E a Ateliê Editorial, a partir de hoje, realiza a promoção de seus títulos do catálogo com incríveis traduções. Aproveite!

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Em ‘A Mão do Deserto’, Paulo Franchetti narra viagem de motocicleta pelo deserto do Atacama

“Ao planejar a viagem, eu só tinha desejado uma coisa: ficar sozinho, com a minha moto, a maior parte do tempo”. Este foi o mote de Paulo Franchetti e que deu origem ao livro A Mão do Deserto, publicado pela Ateliê Editorial. De forma literária e de um relato preciso desde o planejamento da viagem, passando pelo trajeto de 11 mil quilômetros, até o final da jornada, o autor nos leva junto na garupa em uma narrativa imersiva e emocional, colaborando para um itinerário de espaço e tempo, do humano e máquina, da imensidão da paisagem da América do Sul, de um estrangeiro em busca de um desafio a duas rodas.

Contra a expectativa nascida da visão do percurso desde baixo, a subida do último trecho não foi difícil. Não havia trânsito, o sol ainda estava alto e o gps mostrava que eu ainda teria quase três horas antes do pôr do sol. Em pé sobre as pedaleiras, sentia que a roda traseira às vezes se movia em falso e que as pedras eram atiradas com força. A roda dianteira de vez em quando oscilava um pouco. Lembrei-me das lições de off road que tomei há tempos e não tentei firmá-la. Tampouco olhei para o chão próximo da roda, mas fixei a vista no horizonte da estrada, deixando à visão periférica o controle do mais imediato. E assim prossegui, para o alto. O barulho de pedras esfregadas umas contra as outras sob os pneus era desafiador e bom, e eu sentia, mais do que percebia de soslaio, aquela paisagem que ia se desdobrando cada vez mais, a perder de vista (p. 13)

Na obra, Franchetti aborda a sua aventura solitária, sobre uma motocicleta, até o Atacama, além de ser uma vontade própria de desbravar, também, o deserto íntimo. “Eu tinha idealizado a viagem para que fosse também (ou principalmente) uma viagem interior”, o que prova que não é apenas um livro de viagem, mas a evocação das memórias junto às instigações que despertam as histórias de um motociclista entre as maravilhas das paisagens aos reveses enfrentados na viagem

A Mão do Deserto é um livro GPS com destino traçado, mas de percursos vislumbrantes de um amante da literatura e da motocicleta. O leitor é conduzido com celeridade narrativa, mas nunca ultrapassando a boa leitura, entrando de vez na história, viajando pelos lugares monumentais, conhecendo personagens memoráveis e relatos emotivos, combinando, enfim, um ponto de encontro com o autor.

Para chegar às ruínas é preciso sair da Ruta e seguir uns cinco quilômetros. A cidadela tem uma vista dominante sobre o vale. Sem a história, aquelas plataformas que vão subindo o morro, sobre as quais se distribuem paredes destruídas e restos de alicerces, não têm grande atrativo. Mas a visão se altera quando sabemos que ali, na cidade sagrada, viveram os Quilmes, que depois de lutar com os incas invasores e garantir o direito de continuar a viver nessas terras, enfrentaram os recém-chegados espanhóis. Resistiram, naquele monte que então começava a parecer-me um grande anfiteatro, por um século e meio, até serem finalmente derrotados e aprisionados. Os sobreviventes, cerca de duas mil pessoas, foram transferidos para uma reserva perto da cidade de Buenos Aires, numa viagem de mais de 1500 quilômetros, que foi feita a pé, deixando muitos mortos pelo caminho. (p. 78).

Paulo Franchetti

O AUTOR

Paulo Franchetti foi professor titular no Departamento de Teoria Literária da Unicamp e presidente da editora da mesma universidade por muitos anos. Publicou pela Ateliê Editorial os livros de estudos literários: Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa e Crise em Crise – Notas sobre Poesia e Crítica no Brasil Contemporâneo. Publicou também o livro de ficção O Sangue dos Dias Transparentes e A Mão do Deserto (memória de viagem), além dos livros de poesia: Deste Lugar,  Memória Futura, ente outros. Seu livro de haicais, Oeste, representa uma das mais admiráveis experiências na recente poesia brasileira. Para a coleção Clássicos Ateliê organizou também O Primo Basílio, Dom Casmurro, Iracema, O Cortiço, A Cidade e as Serras, Clepsidra e Esaú e Jacó.

Assista Pilotando 2019 (Norte da Argentina e Deserto do Atacama):