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Lançamento virtual de ‘Amor, Luta e Luto no tempo da ditadura’. de Maria do Socorro Diógenes: “essa passagem da História do Brasil teria que ser escrita por várias mãos, principalmente, pelas mãos dos sobreviventes que passaram por todos esses problemas”

Na última segunda-feira (30), na programação do Agosto da Memória e Verdade, promovida pela Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos do Governo do Estado do Ceará, foi realizado o lançamento do livro Amor, Luta e Luto no tempo da ditadura, da escritora cearense Maria do Socorro Diógenes, publicado pela Ateliê Editorial. O evento, totalmente virtual, transmitido pelo canal no Youtube da SPS Ceará e contou com a apresentação do jornalista e escritor Marcelo Mario de Melo. O debate ficou por conta do professor Airton de Farias, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense, pesquisador e escritor; e do presidente da Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou, Francisco Leunam Gomes.

Durante o encontro, a autora falou sobre o processo de escrita da obra: “Eu resolvi escrever esse livro para registrar, realmente, todos os crimes da ditatura”. Ela também comentou que “um dos motivos que me levou a escrever com mais firmeza foi exatamente quando eu comecei a acompanhar os trabalhos da Comissão da Verdade e eu vi que não havia documentos sobre os desaparecidos, sobre as pessoas que morreram por causa das torturas nos porões da ditatura, então, eu tirei a conclusão que essa passagem da História do Brasil teria que ser escrita por várias mãos, principalmente, pelas mãos dos sobreviventes que passaram por todos esses problemas”.

Para a escritora e pesquisadora, o livro é uma forma de mostrar para a sociedade o que foi a ditatura e “nunca mais permitir que volte esse momento de tanta violência e que durou vinte anos aqui no país”. Sobre a Ramires Maranhão, dos tantos desaparecidos durante o período militar, assim como as cicatrizes que nunca sararam nos familiares e amigos das vítimas desses anos de chumbo, tornando-se referências no livro, Socorro Diógenes falou: “ter o conhecimento de que o Ramires não foi um desaparecido e, sim, assassinato pela ditatura provocou a morte da mãe dele, Dona Agrícola, quando ela teve certeza da morte do filho dela, ela teve um enfarto fulminante e não resistiu”. A autora completou: “Mais um crime por tabela e a ditatura não ter assumido esses desaparecidos, foi mais um aspecto da crueldade deles”. Assista ao lançamento na íntegra no vídeo abaixo:

O Livro – Amor, Luta e Luto tem por objetivo mostrar um recorte do período da ditadura civil-militar de 1964 a 1985, principalmente durante a fase mais violenta, a fase das prisões, das torturas, dos assassinatos e dos desaparecimentos dos opositores. Denuncia o brutal assassinato de Ramires Maranhão do Valle, ex-companheiro da autora, um jovem pernambucano morto aos 23 anos, no Rio de Janeiro em 1973.

Tomamos conhecimento de como eram as ações dos grupos revolucionários de oposição à ditadura, além de mostrar a difícil vida dos militantes na clandestinidade. A autora nos conta sua própria experiência em uma prisão no Recife, denunciando os horrores das torturas sofridas juntamente com os companheiros de luta.

De leitura envolvente, com vocabulário simples e tocante ao mesmo tempo, a obra narra a experiência dolorosa de vida, a entrega total da autora ao ideal de liberdade e justiça.

Maria do Socorro Diógenes – é cearense de Jaguaribe. Formada em Letras, iniciou seus estudos na Universidade Estadual do Ceará, em Fortaleza e os concluiu na Fundação Santo André, no ABC, em São Paulo. Participou dos movimentos estudantis de 1968, foi militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, PCBR. Foi presa política em Recife, Pernambuco. Chegando a São Paulo, em 1974, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, PCB. Trabalhou como professora de Português na Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo, hoje, aposentada como Supervisora de Ensino. Atualmente, reside em São Bernardo do Campo (SP).

Amor, Luta e Luto

Por Renata de Albuquerque


Em Amor, Luta e Luto – No Tempo da Ditadura, Maria do Socorro Diógenes volta aos anos 1970 para relatar, denunciar e refletir sobre um período muito difícil: para ela, pessoalmente e para o país, como um todo. Em 1973, o jovem Ramires Maranhão do Valle, de apenas 23 anos, ex-companheiro da autora, foi morto no Rio de Janeiro. A partir disso, Maria do Socorro (que também foi presa e torturada) retrata as ações dos grupos revolucionários de oposição à ditadura, além de mostrar a difícil vida dos militantes na clandestinidade. Sobre esta luta por liberdade e democracia, contra a censura, a autora fala ao Blog Ateliê:


Por que decidiu, exatamente 40 anos após a morte de Ramires, escrever o livro? Como aconteceu essa decisão?
Maria do Socorro Diógenes:
O desejo de escrever essa passagem da minha vida já existia em mim há muitos anos, porém eu trabalhava muito e não tinha tempo de sentar e escrever. Esperei aposentar para ter tempo. Aposentei-me em 2012. Em 2013 comecei a escrever, pois a história já estava na minha cabeça. Então percebi que fazia exatamente 40 anos da morte do Ramires. Não foi uma decisão premeditada.

De alguma maneira o ambiente político do Brasil em 2013 teve impacto nessa decisão?
MSD
: Não, o livro já estava dentro de mim há muito tempo. 2013 foi apenas o ano em que me organizei para escrever.

Já na introdução do livro, a senhora cita as Comissões de Anistia, a Comissão dos Direitos Humanos e a Comissão da Verdade, iniciativas essenciais para esclarecer o que ocorreu durante a ditadura. De qualquer forma, alerta que as forças armadas não entregaram todos os documentos. De que maneira, em sua opinião, isso influenciou negativamente nos resultados dos esforços feitos pelas Comissões?

MSD: Afirmo que eles não entregaram todos os documentos porque até hoje as Forças Armadas não assumiram os assassinatos sob tortura e nunca esclareceram os desaparecimentos. Nunca deram satisfação às famílias sobre como eles (os perseguidos políticos) morreram, nem onde estão enterrados os desaparecidos. Ficou essa lacuna nos trabalhos da Comissão da Verdade.

Seu livro fala de amor e também é muito “musical”, no sentido de citar muitas canções no decorrer do texto. O amor e a cultura podem ser considerados formas de resistência naquele momento histórico? A senhora fazia esse tipo de reflexão naquele momento? E hoje, como vê essa questão? De todas as muitas passagens que a senhora relata no livro, qual é, na sua opinião, a mais marcante?
MSD
: A morte de Ramires é a passagem mais trágica, por ter sido tão trágica e por não ter sido esclarecida até hoje, além de ter sido a causa da morte de dona Agrícola (Doninha), sua mãe.

O Brasil de 2021 – mas já há alguns anos – sofre com fake news, polarização e um fortalecimento da extrema-direita que não pode ser desconsiderado. Em sua opinião, qual a relevância em lançar um livro, com um relato tão contundente como o seu, nesse contexto? O que as pessoas que desconhecem essa parte sombria da História do Brasil podem encontrar na leitura de sua obra?
MSD
: Nas palavras de Gabriel García Márquez, escritor colombiano, “contar para não esquecer”. Os revolucionários acrescentam: “para nunca mais acontecer”. O povo brasileiro não tem noção do que foi este período da História do Brasil. Não consta dos livros didáticos, a escolas não ensinam, há uma parcela da população que pensa que governo militar é bom. Neste momento em que vivemos, sob a perspectiva de um golpe militar, o livro poderá alertar para a realidade, para o verdadeiro significado de uma ditadura militar.

Crespos Jardins

Por: Renata de Albuquerque

A seguir, o poeta, escritor e crítico de arte Aguinaldo José Gonçalves, autor, entre outros, de Nove Degraus Para o Esquecimento, fala sobre seu próximo livro, Crespos Jardins, que em breve será lançado pela Ateliê Editoral:

Qual a inspiração para o título Crespos Jardins?

Aguinaldo José Gonçalves: O título Crespos Jardins se deve a uma determinação do imaginário poético. O livro é dividido em quatro partes por meio de quatro jardins metafóricos, cada um deles representando uma temática e um estilo próprios. “Crespos” significam obstáculos retóricos do processo de criação.

De que maneira sua experiência como crítico de arte e teórico de literatura deixa marcas em sua produção poética?

AJG: As marcas são deixadas de maneira inconsciente e natural, revelando uma consciência de linguagem fundida ao processo inventivo da poesia.

Já na orelha do livro, três autores são citados como referências em sua obra: Whitman, Stein e Proust. De que maneira o senhor acredita que eles estão presentes neste Crespos Jardins?

AJG: Os três autores (Walt Whitman, Gertrude Stein e Marcel Proust) aparecem com relevância fundamental no livro, com cada um deles representando o seu pensamento poético/literário na modernidade. Eles ilustram os “Jardins” do livro e conferem o peso de seu estilo na formação do poeta.

Além dos escritores, há referências ao cinema na sua obra (por exemplo, O Sétimo Selo). Como as artes se entrelaçam em sua poesia?  

AJG: Na verdade sou especialista nos estudos homológicos entre literatura e outros sistemas, e tenho várias obras nessa área. É inevitável que as marcas da pintura, do cinema ou da escultura não se manifestem na minha poesia. Além disso, o signo poético de Aguinaldo Gonçalves transcende os limites do signo verbal, elevando sua natureza à categoria de ícone. Assim, realizo uma poesia auditiva, mas sobretudo visual.

O livro é dividido em quatro jardins: da resistência, da imemorialidade, do espaço oracular das artes e do olhar eclipsado. Como foi pensada essa divisão e selecionados os poemas que compõem cada jardim?

AJG: A resposta anterior auxilia na compreensão dessas quatro divisões. Há de se notar que um eixo paradigmático é o ponto para onde convergem todos os poemas do livro. Mediante cada uma das quatro esferas e pelo grau de sua complexidade, não é possível resumir a divisão temática das partes, mas o teor temático de cada uma delas é sorrateiramente inscrito em cada um dos títulos.

Em “eu canto neste jardim de resistência”, pode-se ler: “arrasto meu corpo inteiro nesse terreno cercado de arame farpado, sem corredores mas com ruínas  e ruínas das quais é possível extrair muita coisa”. Toda ruína pode ser profícua?

AJG: A questão levantada é muito boa, para não dizer uma das melhores que se poderia fazer sobre Crespos Jardins; entretanto impossível responder a ela neste pequeno espaço. Mas é tempo de dizer que a metáfora do arame farpado e do corpo que se arrasta são ambas determinantes para a compreensão da gênese deste livro que se realiza substancialmente pela RUÍNA, concepção básica da alegoria moderna, proposta por Walter Benjamin.

Há um poema dedicado a João Alexandre Barbosa. Qual sua relação com este grande ensaísta e crítico literário?

AJG: Professor João Alexandre Barbosa foi meu orientador de mestrado e de doutorado na USP. Além disso, tenho por ele grande admiração pelo que desenvolveu na crítica brasileira.

O que seus leitores, que já conhecem obras como Nove Degraus para o Esquecimento e Vermelho, por exemplo, podem esperar deste Crespos Jardins?

AJG: O leitor pode esperar a surpresa e o desatino que uma poesia original sempre provoca.

Ateliê lança a obra ‘História de um Livro: A Democracia na França, de François Guizot (1848-1849)’, escrita por Marisa Midori Deaecto

Lançada pela Ateliê Editorial, História de um Livro: A Democracia na França, de François Guizot (1848-1849), da premiada escritora e historiadora Marisa Midori Deaecto, é um passeio na história editorial de mais de trezentas páginas, tendo como mote a figura política e jurídica de François Guizot. A obra acompanha também o prefácio de Carlos Guilherme Mota e o posfácio de Lincoln Secco.

Com uma escrita notável, a autora aborda a elaboração da Democracia francesa de uma perspectiva crítica, historiográfica e constitucional da viagem de descobrimento do livro pelo mundo, desempenho investigativo e compromisso na pesquisa ao fornecer um espaço importante na documentação do livro. No texto do posfácio, Lincoln Secco destacou: “Este que está em suas mãos, caro leitor, cara leitora, é uma obra do nosso tempo. Permite reencontrar a defesa da Civilização sem barbárie; da Democracia sem adjetivos; da cultura do livro sem os adoradores de um único, ou de nenhum”. E complementa: “Aqui temos a reunião de muitas obras que Marisa escreveu, leu ou simplesmente folheou nas muitas bibliotecas onde pesquisou. Só assim ela pode nos brindar com uma obra rigorosa e erudita que consolida seu lugar na História do Livro”.

A escrita é fruto de um exercício intelectual intenso, em que se materializam a tessitura do original manuscrito e os gestos cotidianos de observar, analisar e expor as ideias. Ocorre que a mão do autor trabalha sob pressões diversas, as quais se traduzem em protocolos de escrita mais ou menos conhecidos ou, pelo menos, discerníveis. Compõem esse universo de escolhas e de coerções infinitas: a seleção de palavras ou de imagens; a busca do estilo compatível com o gênero narrativo sobre o qual se opera; a adequação da estrutura textual à extensão da obra que se intenta realizar; além de operações não menos complexas que demarcam todo o processo de revisão e finalização do texto (p. 77).

A obra aborda o caminho na construção de uma identidade contemporânea do livro, como bem ambientada no primeiro capítulo interpelando o embrião da escrita da Democracia na França, contribuindo para construção do livro, assim como o seu trânsito pelo mundo, debatidos nos capítulos posteriores. Em seu texto no prefácio, Carlos Guilherme Mota aponta: “Com efeito, a autora desvenda, enquanto historiadora e crítica da cultura, novas perspectivas para o labor histórico e historiográfico”. E conclui: “E o faz em dois planos, em larga medida conjugados. No campo monográfico estritamente acadêmico-científico, ao focalizar como objeto, e com máximo rigor, um único livro em suas múltiplas dimensões: técnica, bibliográfica, historiográfico-ideológica, histórico-social, mercadológica, contextual, política. E, no plano metodológico, por aplicar abordagem inspirada, rigorosa e inovadora na percepção dos impactos dessa obra na crítica e na vida propriamente político-cultural europeia e americana, considerando seus contextos históricos nacional e internacional”.

François Guizot constrói com estas palavras uma das passagens mais emblemáticas de seu De la Démocratie en France. A nota foi escrita em uma folha de rascunho, semelhante àquelas encartadas no final do manuscrito. Mas, nesse caso, ele faz uso do recto e verso de um mesmo pedaço de papel, o que infelizmente prejudica a leitura da outra face, tratando-se muito provavelmente dos primeiros rabiscos daquilo que viria a ser o press release da edição. A parte mais importante, porém, perfaz apenas dois parágrafos que serão impressos em uma seção própria, ocupando a função de Prólogo ou Apresentação. Nesse espaço o autor logra resumir, de forma magistral, as circunstâncias pessoais e políticas que o lançaram à cena pública naquele inverno de 1849 (p. 51-52).

A História de um Livro é um convite para uma viagem pela concepção De la Démocratie en France, de François Guizot, auxiliando no aprofundamento dos momentos decisivos da formação do pensamento intelectual contemporâneo por meio dos textos dos estudiosos da Revolução Francesa.

Ao final da leitura dos quatro primeiros capítulos do manuscrito, é possível afirmar que Guizot tinha a intenção de fazer uma brochura pequena e organizada a partir de tópicos temáticos curtos. Porém, no curso da escrita as partes tomaram formas diversas, o que nos leva a crer que, finalmente, o rearranjo inicial dos capítulos se tornou necessário para o equilíbrio entre as partes da argumentação na estrutura geral do livro (p. 67).

Marisa Midori Deaecto – Professora Livre-Docente em História do Livro no Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Formou-se em História e doutorou-se em História Econômica na Fac. de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), onde orienta pesquisas pelo Programa de Pós-Graduação (PPGHE-USP). Lecionou como professora convidada em diversas instituições estrangeiras, dentre as quais, a  École nationale des Chartes, a École normale supérieur e a École Pratique des Hautes Études, em Paris. Recebeu, em 2017, o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Eszterházy Károly, Eger (Hungria), por suas contribuições à difusão da história dos livros e das bibliotecas em uma perspectiva transnacional. Império dos Livros – Instituições e Práticas de Leituras na São Paulo Oitocentista (Edusp/Fapesp, 2011), reeditado em 2019, recebeu o prêmio Jabuti da CBL (1o lugar em Comunicação) e o Prêmio Sérgio Buarque de Holanda, outorgado pela Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro na categoria melhor ensaio social.

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Renata de Albuquerque*

Era o ano de 1852 quando Manuel Antônio de Almeida começou a publicar no Correio Mercantil o folhetim que, em 1854, chegaria às prateleiras como livro e, mais tarde, se consagraria como o clássico da literatura brasileira Memórias de Um Sargento de Milícias, sobre o qual, já no século XX, Antonio Candido escreveria de maneira magistral em seu Dialética da Malandragem.

Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida

O romance de costumes de Almeida retrata com humor a sociedade carioca do século XIX, enfatizando uma figura que, até então era inédita na literatura brasileira (e que só ganhou um nome após esse livro): o malandro. Leonardo Pataca, o protagonista, “filho de uma pisadela e um de beliscão”, nem de longe é o homem burguês bem-sucedido, que nasceu em berço de ouro e estudou no exterior (um “tipo” comum até então nos romances brasileiros).

Abandonado por pai e mãe, Leonardo recebe abrigo e cuidado do padrinho,  um barbeiro que conquistara dinheiro de maneira escusa. Nenhum personagem do romance tem a moral ilibada e dessa natureza nascem conflitos e situações que criam a atmosfera de humor do livro. Leonardo, o protagonista anti-herói, passa a vida tentando conquistar vantagens das mais variadas espécies, inclusive em sua experiência militar.

Memórias de Um Sargento de Milícias destoa completamente do Romantismo, escola literária que estava em voga durante o período em que foi publicado.  Antes de mostrar a corte, a obra destaca a vida suburbana do Rio de Janeiro, habitada por tipos comuns, que precisam sobreviver e que, para isso, lançam mão do “jeitinho brasileiro”, pela primeira vez retratado na literatura brasileira. Escrito em linguagem popular, o livro quase mimetiza uma maneira de falar coloquial muito distante da idealização romântica do século XIX.

Leonardo, ao invés de se consolidar como um herói romântico é, na verdade, alguém que deseja realizar uma escalada social, sem pudores ou meias-palavras para conquistar o que quer. As personagens se corrompem quase de que forma “natural” no decorrer da obra. Não por acaso, muitas das personagens não possuem nome, um expediente que o autor usa para reforçar a ideia de que elas não representam pessoas, mas tipos sociais.  

Memórias de Um Sargento de Milícias é narrado em terceira pessoa, com um narrador onisciente, com forte alusão e descrição de costumes da época em que a ação acontece.  

Como o livro foi originalmente escrito como folhetim, são várias as tramas que se entrelaçam para criar o enredo do romance. O autor utilizou a técnica de contar episódios pontuais a cada capítulo que era publicado noo jornal para, ao mesmo tempo, prender o leitor que acompanhava periodicamente a publicação quanto para divertir aqueles que a liam apenas eventualmente. Mas, pode-se dizer que o enredo gira em torno da busca de Leonardo por uma condição melhor de vida, para casar-se e ter uma vida melhor.  

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

No Limiar da Noite: trechos

O novo livro do sociólogo e Professor Titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP,  José de Souza Martins, está longe de ser uma leitura técnica ou acadêmica. As crônicas poéticas de “No Limiar da Noite” emocionam leitores dos mais variados gostos, porque contam histórias e trazem à tona sensações e sentimentos universais. São as histórias dos “homens e mulheres comuns”, que escrevem o cotidiano da vida.

A seguir, você lê alguns trechos da obra:

APRESENTAÇÃO


Para que explicar
o inexplicável
do invisível
e do inacabado?
O perceber de soslaio,
o visto de relance?
O nós que somos
não sendo?

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PROVISÓRIO


Sou os pedaços
de que fui feito
no acaso da vida,
aos poucos,
no vagar que deu sentido
às minhas pressas.

Fui sendo antes de ser,
chegando antes de chegar.

Sou a pressa
que não é minha.
o ser que não sou.

Sou o provisório
do passo lento
e da espera.

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PALAVRAS QUE RESTAM

Poucas palavras sobraram
para dizer o que deve ser dito,
para gaguejar o que restou da esperança,
para esperar o que resta da vida.

Onde estão as palavras
da abundância de sonhos?
Onde estão os sonhos
que as palavras não disseram,
que o dizer não sonhou,
que a vida não viveu,
que a espera não realizou?

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PENSAR


Pensar ao contrário
é o contrário do pensar.
É o pensamento
de quem não pensa
e pensa que pensou.
É o silêncio da ideia,
o inteiro da alienação,
o caminhar sem chegar,
o ir quando se volta,
o retorno ao nunca.
Todo o avesso
desta vida sem rumo.

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SOMBRA

Neste país do sol,
certo e seguro,
dá medo
essa sombra
que cai,
lentamente,
sobre o verde
da esperança,
que escurece
o horizonte,
que fecha a porta
do amanhã
e a janela do ontem.
Dá medo.
O medo
do poder cinzento,
de coisa nenhuma.
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A Arte de Argumentar: trechos

A Arte de Argumentar é um dos mais conhecidos livros do linguista Antônio Suárez Abreu. Professor Livre-Docente pela USP, ele consegue um tom claro e objetivo em sua obra, que pode ser lida até mesmo por leigos. A Arte de Argumentar, que acaba de ganhar nova edição, é um guia funcional e didático, que pode beneficiar todas as pessoas que pretendem melhorar os relacionamentos por meio da criatividade e do trabalho em equipe. As sugestões do autor são endereçadas principalmente a executivos, professores, psicólogos, advogados e profissionais de venda. Porém, suas recomendações valem também para quem apenas deseja aperfeiçoar as relações pessoais.  Afinal, o equilíbrio entre a razão e a emoção é uma maneira eficaz de ganhar qualidade de vida. O livro acaba de chegar à sua 14º edição, o que dá a medida de quanto ele já foi lido desde seu lançamento.

Além de reflexões instigantes sobre a importância da argumentação – e sobre como fazer isso – o livro traz capítulos sobre figuras de linguagem, de som e de retórica, além de técnicas de argumentação.

A seguir, você pode ler alguns trechos do livro, para entender como ele pode ajudar, na prática:

Todos nós teríamos muito mais êxito em nossas vidas, produziríamos muito mais e  seríamos muito mais felizes, se nos preocupássemos em gerenciar nossas relações com as pessoas que nos rodeiam, desde o campo profissional até ao pessoal. Mas para isso é  necessário saber conversar com elas, argumentar, para que exponham seus pontos de vista, seus motivos e para que nós também possamos fazer o mesmo. Segundo o senso comum, argumentar é vencer alguém, forçá-lo a submeter-se à nossa vontade. Definição errada! Von Clausewitz, o gênio militar alemão, utiliza-a para definir guerra e não argumentação. Seja em família, no trabalho, no esporte ou na política, saber argumentar é, em primeiro lugar, saber integrar-se ao universo do outro. É também obter aquilo que queremos, mas de modo cooperativo e construtivo, traduzindo nossa verdade dentro da verdade do outro. – p.10

No mundo de hoje e no futuro que nos espera, é muito importante saber gerenciar relação. O mundo está passando por uma mudança em relação ao emprego industrial e rural. No campo, para o futuro, a perspectiva é termos apenas 2% da população interagindo com  uma agricultura altamente mecanizada. Nas cidades, menos de 20% trabalharão nas indústrias robotizadas e informatizadas. O resto (mais de 80%) ficará na área de serviços. Ora, serviços implicam clientes e clientes implicam bom gerenciamento de relação. O trabalho do futuro dependerá, pois, do  relacionamento. Mesmo os profissionais liberais dependem dele. O médico ou o dentista de sucesso não é necessariamente aquele que entrou em primeiro lugar no vestibular e fez um curso tecnicamente perfeito. É aquele que é capaz de se relacionar de maneira positiva com seus clientes, de conquistar sua confiança e amizade. – p. 18/19

A retórica clássica se baseava, portanto, na diversidade de pontos de vista, no verossímil, e não em verdades absolutas. Isso fez com que a dialética e a filosofia da época se aliassem contra ela. Platão, por exemplo, em sua obra chamada Górgias, procura mostrar que a retórica visava apenas aos resultados, enquanto que a filosofia visava sempre ao  verdadeiro. Isso fez com que a retórica decaísse perante a opinião pública (discurso do senso comum) durante séculos. A própria palavra sofista passou a designar pessoa de má-fé que procura enganar utilizando argumentos falsos. O interessante é que o próprio Platão, na sua República, utiliza amplamente os recursos retóricos que ele próprio condenava. Nietzsche comentou, ao seu estilo, que o primeiro motivo que levou Platão a atacar Górgias foi que Górgias, além de seu sucesso político, era rico e amado pelos atenienses. Dizem, também, que um dos motivos do declínio da retórica foi que a experiência democrática dos gregos foi muito curta. Acabou em 404 a.C., quando Atenas foi subjugada por Esparta, ficando assim eliminado o espaço para a livre crítica de ideias e o debate de opiniões. – p. 32

As palavras são escolhidas inconscientemente. É preciso prestar atenção a elas. É preciso prestar atenção também ao som da voz do outro! É por meio da voz que expressamos alegria, desespero, tristeza, medo ou raiva. Às vezes, a maneira como uma pessoa usa sua voz nos dá muito mais informações sobre ela do que o sentido lógico daquilo que diz. Devemos também aprender a “ouvir” com nossos olhos! A postura corporal do outro, suas expressões faciais, a maneira como anda, como gesticula e até mesmo a maneira como se veste nos dão informações preciosas. O poeta e semioticista Décio Pignatari costuma dizer que o homem precisa aprender a “ouviver”, verbo que ele inventou a partir de ouvir, ver e viver. – p. 37

Argumento Do Desperdício

Esse argumento consiste em dizer que, uma vez iniciado um trabalho, é preciso ir até o fim para não perder o tempo e o investimento. É o argumento utilizado, por exemplo, por um pai que quer demover o filho da ideia de abandonar um curso superior em andamento. Bossuet, grande orador sacro, bispo da cidade francesa de Meaux, utilizava esse  rgumento, ao dizer que os pecadores que não se arrependem e, dessa maneira, não conseguem salvar suas almas estão desperdiçando o sacrifício feito pelo Cristo que, afinal, morreu para nos salvar. – p. 60

As palavras são como fios com os quais vamos tecendo nossas ideias em forma de texto. Quando falamos ou escrevemos, vamos retirando da nossa memória as palavras que vamos utilizar. Trata-se de uma tarefa cuja velocidade pode variar bastante. Desde milésimos de segundo até minutos inteiros. Quem não ficou alguma vez parado, no meio de uma frase, à procura de uma palavra? As palavras não são etiquetas que colocamos sobre os objetos, as pessoas, as ideias, os sentimentos, mas maneiras de representar tudo isso. As línguas humanas são sistemas de representação. Quando usamos uma palavra, estamos fazendo uma escolha de como representar alguma coisa. Podemos chamar alguém que ganhou muito dinheiro recentemente de novo-rico, ou de emergente. Podemos dizer, em vez de países comunistas, países de economia centralizada. Argumentando desfavoravelmente a prisioneiros de uma casa de detenção que sofreram violência policial, podemos dizer: – São assassinos, bandidos! Argumentando favoravelmente, diríamos: – São seres humanos, são filhos de Deus! – p. 103-104