No Limiar da Noite

Por Renata de Albuquerque

Crônicas em forma de poesia. É isso o que compõe No Limiar da Noite, novo livro que o sociólogo e Professor Titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, José de Souza Martins acaba de lançar pela Ateliê. O autor diz que, nos textos, que tratam de memória e envelhecimento, entre outros temas, ele fala consigo mesmo. Tudo banhado pela visão de quem vê a sociedade com olhar crítico, sem deixar a poesia de lado. A seguir, o Blog Ateliê fala com o autor:

Este é seu primeiro livro desde Desavessos? Em caso positivo, qual a razão deste intervalo entre ambos?

José de Souza Martins – Não, este não é meu primeiro livro depois de Desavessos. No mesmo ano ou depois, já publiquei: Diário de uma Terra Lontana (Os “faits divers” na história do Núcleo Colonial de São Caetano), Fundação Pró-Memória, São Caetano do Sul, 2015; Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder, Editora Contexto, São Paulo, 2016: O Coração da Pauliceia ainda Bate, Editora da Unesp/Imprensa Oficial, São Paulo, 2017; Nuto Sant’Anna, A Poética do Desencontro, Editora da Imprensa Oficial/Academia Paulista de Letras, São Paulo, 2021.

Em 2017, deveria ter sido publicado As Duas mortes de Francisca Júlia , sobre a vida da poetisa parnasiana brasileira, mas, com a crise das livrarias, a editora que o faria teve que reformular suas prioridades. Razão pela qual o livro passou para a Editora da Imprensa Oficial. Já estava pronto para impressão e lançamento no início do segundo semestre de 2021, quando a Editora foi absorvida pela Prodesp, tendo sido suspensa a publicação de todas as obras nela pendentes.

Tenho outros três livros prontos, à espera de publicação: Um, no campo da sociologia do conhecimento, Estudos sobre a Incerteza do Instante, que sairá pela Editora da Unesp em setembro. Prontos, ainda sem editor, um livro sobre Exclusão Social e outro sobre a Escravidão por Dívida.

O ralentamento na edição dos meus livros deve-se à crise atual e, em consequência, a redefinição dos interesses dos editores.

Este livro é uma seleção de poemas ou cada um deles foi escrito justamente para serem lidos em conjunto? Como foi a composição deste volume?

JSM: São crônicas e não propriamente poemas. Com a novidade de tê-las quebrado em versos para dar à leitura um certo ritmo. Em alguns dos meus últimos livros, tenho tratado, lateralmente, da alienação e das revelações sociológicas dos avessos, da questão dialética do ocultamento dos fatores de estruturação da sociedade e de sua dinâmica à consciência social do homem comum.  As crônicas deste livro são como que notas de rodapé sobre essas temáticas, à margem das análises sociológicas propriamente ditas. Como em Desavessos, as crônicas foram surgindo ao acaso, como anotações à margem de um livro invisível de sociologia.

Memória, envelhecimento, o cotidiano, os simples são temas presentes no seu novo livro. Qual a razão dessas escolhas? Qual o fio temático que conduz os textos de No Limiar da Noite?

JSM: Nessas crônicas, falo comigo mesmo. São coisas que, entendo, eu não deveria deixar de dizer a propósito da interação entre o autor que sou e as obras que escrevo. Não gostaria de deixar dúvidas sobre essa relação.

Vou fazer 83 anos de idade. Sou uma pessoa com acentuada consciência da finitude. Não gosto da ideia de morrer de repente e deixar um legado de reflexões inacabadas, de faltas de pistas para a compreensão do que escrevo. Acho de mau gosto morrer com uma omissão como essa. Coisa de autor presunçoso e preguiçoso.

Numa hora como a de referência do livro, um autor chegou ao cume da sua maturidade e de suas interpretações. Se ele se vai sem explicar a que veio, deixa sua obra e sua biografia sob risco. Vão interpretá-lo a partir de uma falsa consciência da temporalidade que define o tempo interpretativo do que escreveu. Vão interpretá-lo como morto, como alguém que já não tinha nada a dizer. Minha impressão é a de quem morre, morre ainda querendo falar.  

Sempre me dá muita pena que amigos morram sem acabar de dizer o que estavam dizendo. Prefiro o caminho alternativo. Tenho pena de quem tem pena de quem morre sem avisar. Isso é bobagem. Quero que de mim fique a certeza de que cheguei ao fim do caminho sem ficar devendo nada a ninguém, nenhuma incerteza, nenhum pretexto para especulação.

Não quero que lembrem de mim como um ausente e incógnito. Quero que lembrem de mim como quem permanece naquilo que fez e deixou, até no que não foi resolvido, no amor que tenho e tive pelas pessoas que amo e que são parte de mim mesmo. Enquanto elas viverem e viverem os que as continuarem eu continuarei. Acredito na imortalidade. Por isso aceitei ser membro da Academia Paulista de Letras. Por meu lado, eu sou a continuação de muita gente que me ensinou o que sei, que me amou suficientemente para querer que eu fosse como sou.

De que maneira sua atuação como sociólogo impacta sua escrita ficcional?

JSM: Não tenho escrita propriamente ficcional. Sou um cientista que vê e sente a poesia que há no conhecimento científico, em suas revelações e no modo de chegar a elas. Como a define Robert Nisbet, a sociologia é também uma forma de arte. E mesmo na dor, a sociedade é um poema, o poema da esperança e da superação.

O livro é dedicado a pessoas da Academia Paulista de Letras? Por quê? O que o levou a dedicá-lo a essas pessoas?

JSM: As pessoas às quais dedico o livro são aquelas que, na Academia, se dedicam ou se dedicaram a mim e aos demais acadêmicos. Por sermos escritores, elas julgam que temos um merecimento que as motiva a dar o melhor de si mesmas para que sejamos felizes enquanto autores de obras que darão longevidade ao que escrevemos e, nisso, ao que fomos, muito além daquele último dia inevitável.  E somos felizes, graças em boa parte a elas. Uma dessas pessoas, José Luiz Amaro, que faleceu há algum tempo, esmerava-se em desempenhar-se com estilo. Seu trabalho de mordomo era uma obra de arte. Essa é a mais refinada dedicação ao trabalho como dedicação a quem o trabalho é destinado, expressão de um compromisso com a civilização. Esse é um traço da dedicação à Academia dos listados na dedicatória do livro. Eles são imortais.

Quando criança e adolescente e trabalhava em fábrica, eu me dedicava ao meu trabalho como aqueles a que os ingleses chamam de “servants” com muita paixão, para que as pessoas a quem eu servia pudessem ter uma pequena recompensa cotidiana pelo enorme trabalho que faziam no campo da engenharia e da produção. Em seu trabalho elas criavam a economia e a sociedade que dava vida a todos nós e nosso trabalho se realizava no que não era só delas. Elas nunca notaram o verdadeiro sentido do meu esforço e achavam que o salário me bastava como recompensa.

Na verdade, nenhum salário basta como recompensa. O que basta é o sentido social e espiritual que o trabalho tem para quem trabalha. Trabalhador não é um animal de trabalho. Ele cria no trabalho coletivo de criação. A arte não seria possível sem esse trabalhador coletivo que se realiza na poesia do poeta, na sinfonia do compositor, no romance do ficcionista, na pintura do artista plástico, na escultura de quem cinzela na pedra as delicadezas da alma que na pedra vê o que não é próprio da pedra.

Poucos anos depois de deixar a fábrica, praticamente nenhuma das pessoas às quais me dediquei a servir se lembrava de mim nem se lembrava do meu nome. Não quero que isso aconteça às pessoas que que estimo e respeito, dentre elas as que nominalmente indico na dedicatória do livro. Não quero ser lembrado por elas como alguém estamentalmente melhor do que elas. Porque não sou. Somos iguais, mesmo que pareçamos desiguais porque diferentes nas funções que ocupamos.

Em “Aritmética”, lê-se: “É difícil reconhecer-me/ nos 77 anos desta manhã/ cinzenta e quente”. De que maneira o envelhecimento impacta (se é que impacta) sua escrita ficcional?

JSM: Eu não sou infeliz com o envelhecimento. Ao contrário, sou alguém que tem vivido diferentes momentos de felicidade nos diferentes momentos da vida. Fiz descobertas da maior importância na velhice porque a idade me tornou outra pessoa, como se eu tivesse nascido de novo. Um mundo novo e diferente.

A velhice me fez melhor do que eu achava que era. Tornei-me mais criativo porque descobri que a velhice não é uma idade de perdas e subtrações, mas uma idade de somas e multiplicações. A velhice é um capital existencial que me faz um bem enorme. Não estou ansioso por morrer nem conformado com a inevitabilidade da morte. Estou ansioso para ter direito a toda a velhice que me cabe, como justo prêmio por uma vida de trabalho. Eu não tive infância, porque as circunstâncias adversas da vida fizeram com que meu corpo de criança abrigasse, antes do tempo, o adulto do trabalho manual. Decidi reavê-la na velhice.

Em “Apresentação”, lê-se: “O nós que somos/ não sendo?” Esta é uma questão bastante profunda. De alguma forma, escrever o livro ajudou-o a encontrar uma resposta para ela?

JSM:  Sem dúvida. Somos, não sendo porque filhos das contradições que nos negam o que fazemos, mas não podem negar-nos o invisível do que podemos.

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