O filme traz o livro para dentro de seus olhos: 20 anos de “Lavoura Arcaica”

Renato Tardivo*

1.

Jamais me esquecerei de uma conversa com um amigo na época em que cursávamos a faculdade de Psicologia. Eu estava entusiasmado com as possibilidades compreendidas na interface da estética, fenomenologia e psicanálise, e expunha a ele alguns elementos desse campo que gostaria de pesquisar em uma iniciação científica. Lá pelas tantas, o amigo disparou, certeiro: “Cara, você já viu o filme Lavoura Arcaica?”.

Eu não havia visto ainda. Anos antes, perdera a oportunidade de vê-lo no cinema. Combinamos, então, meu amigo e eu, de passarmos em uma locadora na semana seguinte para assistir ao filme juntos. A surpresa desagradável foi descobrir que, até aquele momento, Lavoura Arcaica não havia sido disponibilizado em dvd. Pouco tempo depois, li o romance de Raduan Nassar pela primeira vez, e fiquei com a certeza de que trabalharia com aquele universo, na literatura e no cinema.

Havia naquela certeza algo no mínimo curioso: escolhi pesquisar um filme a que ainda não havia assistido e, mais, um filme a respeito do qual não tinha a menor ideia, uma vez que o romance de Raduan Nassar me parecia inadaptável para o cinema. Hoje considero a escolha, além de curiosa, também bonita: procurar avidamente pelo dvd em diversas locadoras da cidade já era, sem que eu pudesse suspeitar, assistir ao filme. 

2.

Em 2021, Lavoura Arcaica, primeiro longa-metragem do cineasta Luiz Fernando Carvalho, completa 20 anos. O filme é um marco do cinema brasileiro. Entre suas inúmeras qualidades, merece destaque o potencial de resistência que emana do lirismo artesanalmente conduzido pelo diretor.

Para escrever o livro de Raduan com luz na tela, o cineasta e a equipe isolaram-se na fazenda em que seriam realizadas as filmagens, de modo a viverem em comunidade, durante quatro meses, os papéis da família de ascendência libanesa sobre a qual se abateria um desfecho trágico. Carvalho afirmou diversas vezes que eles não tinham propriamente um roteiro; tinham um livro. Tratava-se de emprestar o corpo às palavras, ao mesmo tempo em que se o deixava afetar por elas, como se todo o processo estivesse alojado nas próprias linhas do romance.

No livro Sobre o filme Lavoura Arcaica, Luiz Fernando Carvalho afirma: “Sinto que me reconheci ali, entende? Me oferendei também, sabe como é? Eu cheguei e falei assim: ‘Ó… criei um pacto com aquele texto ali’”. Para sustentar esse pacto, o diretor teria de lançar mão de um método. Não por acaso, ele se embasou em Antonin Artaud e sua teoria do duplo, da linguagem invertida, em que se trabalha eminentemente com sensações. Daí a pertinência de terem vivido por tanto tempo em comunidade: para limpar as representações. De acordo com Artaud, o emissor é, ao mesmo tempo, a coisa que ele emite e o receptor da mensagem. Mais que uma aventura, trata-se de verdadeiro transe de linguagem.

Transe que é fundante do universo de Lavoura Arcaica. No romance, André, o narrador-protagonista, revive a história de sua família no instante mesmo em que a rememora. A estrutura de que ele não consegue se desvencilhar é a mesma contra a qual se insurge: André é o filho que parte, mas volta; desafia o pai, mas cede; escancara o discurso endogâmico da família, mas reclama os seus direitos no incesto concretizado com a irmã. E, finalmente, sofre a dor de um tempo impiedoso, mas se reencontra com tudo aquilo ao costurar os estilhaços do que restou em um depoimento. O romance, nessa medida, é a leitura realizada pelo narrador-protagonista do texto que está sendo escrito.

Analogamente, no filme o olhar que se volta para a história é um olhar de quem reflete o acontecimento trágico e irrecuperável. A obra de Carvalho é o olhar lançado à história que está sendo contada. O olho que vê é o olho que vive. É o olho que narra. Assim, se no livro André organiza o que restou de sua trajetória em um texto cujo fluxo se endereça – quando já é tarde demais – ao pai, Iohána, na obra de Luiz Fernando Carvalho o compromisso é com o texto de Raduan Nassar: é ao romance que o filme se endereça.

O olhar do cineasta, que parte da palavra, procura – antes de tudo e a todo momento – retornar a ela. A leitura do romance, marcado por metáforas sensíveis, leva o diretor a captar elementos visíveis para transportá-los, transformados em texto fílmico, novamente ao invisível. O filme traz o livro para dentro de seus olhos.

3.

Minha pesquisa de iniciação científica, durante a graduação em Psicologia, daria origem a uma dissertação de mestrado que, ao ser concluída, seria publicada em livro: Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura  e Cinema Em Lavoura Arcaica. Desde então, por uma série de motivos, sempre retorno ao universo de Lavoura Arcaica – na verdade, nunca o abandonei – e, nos últimos anos, tive o privilégio de conhecer ainda mais de perto o trabalho de Luiz Fernando Carvalho.

Em tempos tão difíceis – e tão precisados de obras com as dele –, o cineasta segue se dedicando a uma série de projetos. O próximo a nascer provavelmente será o filme A Paixão Segundo G. H., a partir do romance homônimo de Clarice Lispector. Mas virão outros.

Há quem diga que, entre os próximos projetos, há um filme que marcaria um novo capítulo da parceria entre Nassar e Carvalho. Caso isso se confirme, a obra seria, em certa medida, um desdobramento do primeiro pacto do cineasta com o escritor, mas também um merecido presente aos 20 anos do filme Lavoura Arcaica, fruto desse mesmo pacto. Afinal, como diz André: “Estamos indo sempre para casa”.

 * Psicanalista, escritor e professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP. Autor, entre outros, do ensaio “Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em ‘Lavoura arcaica’” (Ateliê/Fapesp) e do romance “No instante do céu” (Reformatório).

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