Educar para o Imponderável

A pandemia expôs a fragilidade humana. Mas, já antes dela, exclusão social, problemas ambientais, políticos e sociais já eram graves problemas que precisávamos enfrentar todos os dias. E, mesmo sendo, a um só tempo, causa e consequência desse cenário, será que a humanidade ocupa o lugar de protagonismo que lhe é devido, pensando sobre esses problemas e tentando encontrar saídas para eles? Em seu novo livro, Educar para o Imponderável – Uma Ética da Aventura, Luís Carlos de Menezes discute como educar os jovens para ocupar esse lugar de protagonismo. A seguir, ele fala a respeito com o Blog da Ateliê:

Qual a razão de escolher o tema deste livro? O que o atrai neste assunto?

Luís Carlos de Menezes: Percebendo um futuro cada vez menos previsível, me questionei como isso influiria no preparar para viver. Concluí que seria preciso equipar jovens para enfrentar o inédito, e o livro convida educadores para isso. Mas conceber e realizar isso não foi simples nem imediato, e sim um processo complexo e extenso.

O livro foi escrito antes da pandemia do novo coronavírus. O que,  caso fosse possível, o senhor reescreveria à luz desta nova realidade pandêmica em que vivemos?

LCM: A pandemia só realça uma das incertezas, a ambiental, e revela quanto, diante dela, nós humanos somos frágeis. É indiscutível que que ela enfatiza o “imponderável” do título, que é dominante em nosso presente.  Por isso, não reescrevi o livro, simplesmente ressaltei quanto é delicado e essencial um convívio harmônico com meio.

 De que maneira a incerteza fomenta a aventura humana, pensando do ponto de vista da educação?

LCM: Estudantes que entendam como conquistas de uma etapa histórica pode levar a sua superação questionarão melhor seu próprio tempo. E como os avanços na produção medieval promoveram a economia de mercado, perguntarão o que resultará da atual revolução tecnológica. Assim, o passado deve inspirar questionamentos, em lugar de ser mera cultura do que se memoriza.

Que elementos os educadores e a escola devem levar em conta para poder oferecer uma formação mais ética, para formar cidadãos mais críticos e protagonistas de sua própria história?

LCM: No percurso da aventura humana, miséria, violência e degradação do meio resultam de ações humanas, de que somos partícipes. A educação ética, explicitando isso, é formação para corresponsabilidade, no âmbito pessoal imediato ou no social.

E a escola com essa perspectiva é espaço de participação em lugar de mera absorção de saberes.

A tecnologia pode ser usada como um instrumento dessa educação para o imponderável?

LCM: O emprego das modernas tecnologias mais do que essencial é inevitável, tanto nas comunicações, quanto na produção. Se não forem empregadas para a paz e para a igualdade, continuarão servindo à violência e à exclusão. E vale lembrar que o domínio das tecnologias é recurso e finalidade na educação contemporânea.

O livro traz a ideia de que a incerteza é um motor para a aventura humana. Entretanto, a mesma incerteza também gera medo e, por vezes, paralisia. Como nos desvencilharmos do caminho da paralisia e fazer com que a incerteza nos mova em direção à uma ação mais consciente de nosso papel no mundo?

LCM: Há problemas que parecem tão grandes que podem parecer estar além de nossas possibilidades. Mas o que pode impor medo e inação é o autoritarismo armamentista, socialmente insensível e ambientalmente irresponsável. Diante disso, a promoção e a defesa de uma democracia participativa e socialmente solidária constituem o principal desafio.

Degradação ambiental, concentração de renda, violência, autoritarismo: em sua opinião ainda é possível parar a escalada da barbárie por meio da educação?  Que medidas urgentes podem (e devem) ser tomadas para garantir um futuro mais harmônico?

LCM: A escola é o equipamento social fundamental, e nela educadores conscientes não são substituíveis por sistemas. Não basta lamentar as injustiças e mazelas do passado e do presente, sendo preciso mobilizar ações para evitá-las E se não for mostrado como a aventura humana pode inspirar uma ética, educar será reproduzir o que gerou o impasse.

Há quem diga que a pandemia poderá “transformar” comportamentos e relações humanas, talvez nos tornando mais conscientes de nosso lugar no mundo, da necessidade da preservação ambiental, do cultivo da gentileza para com os outros. Qual sua opinião a respeito disso?

LCM: O mundo na “pós-pandemia” será tão difícil quanto na própria, em que miséria e desigualdade já estão agravadas. Como toda crise, esta envolve riscos e oportunidades, questões abertas a serem reveladas na educação. A expectativa expressa no livro é de formar uma juventude lúcida, que se motive a superar os riscos e explorar as oportunidades.

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