Cocanha: utopia que atravessa o tempo

Cocanha é um lugar utópico. Uma terra imaginária onde há fartura, ociosidade, juventude e liberdade, algo que mobiliza as pessoas através dos séculos, qualquer que seja sua origem geográfica. Por isso, a lenda, que surgiu na França, ganhou o mundo e tem até uma versão brasileira. Em Cocanha – Várias Faces de Uma Utopia, o professor, doutor e livre-docente em história medieval pela USP, Hilário Franco Júnior reúne várias versões desta história. A seguir, ele conversa sobre o livro com o Blog Ateliê:

Como surgiu seu interesse pelo tema? 

Hilário Franco Júnior: Há vários anos, no decurso de pesquisa sobre outro tema, encontrei um curioso poema francês medieval descrevendo uma terra fabulosa, uma espécie de mundo de ponta-cabeça, chamado país da Cocanha. Como esse texto foi traduzido, adaptado e transformado em imagem ao longo de vários séculos, sinal de sua popularidade, pareceu-me interessante reunir grande parte desse material para o público brasileiro.  

Quais são as novidades que esta atual edição traz? 

HFJ: Além de aspectos materiais (novo formato, nova capa, melhor qualidade das imagens), as traduções foram revistas e em certos pontos modificadas, algumas indicações bibliográficas foram atualizadas.  

Cocanha é uma utopia de várias culturas, em várias línguas. A que o senhor atribui essa variedade? Por que tantos povos, em diferentes épocas, buscavam utopias semelhantes? Se tomadas em conjunto, as  Cocanhas são complementares em algum aspecto? 

HFJ: A rigor, toda utopia em qualquer época busca a mesma coisa: superar um presente julgado deficiente imaginando no lugar um mundo supostamente melhor. Como cada época tem, é claro, seus próprios problemas, cada utopia sonha com soluções específicas. Mas se tomarmos um bloco civilizacional com características muito próximas, caso de sociedades pré-industriais como as vistas no livro, suas utopias serão assemelhadas, embora nas diferenças de enfoque ou na ênfase de certos aspectos encontremos material de reflexão histórica e antropológica muito rico.   

O que as diversas Cocanhas, dos mais variados países, têm de diferente? 

HFJ: Justamente a resposta específica ao contexto que reelabora o motivo literário ou iconográfico cocaniano. Por exemplo, a versão inglesa de fins do século XIII é obra de um franciscano que parodia os monges cistercienses, ou seja, o poema revela uma forte disputa ideológica entre uma religiosidade nova, urbana, laica (a dos franciscanos) frente a outra tradicional, rural, clerical (a dos cistercienses). Outro exemplo poderia ser uma gravura italiana de meados do século XVII, A Cocanha das Mulheres, que no plano imaginário inverte a misoginia que ainda predominava na Europa e extrapola o prestígio feminino maior no norte italiano que em outras regiões europeias.    

O que a Cocanha brasileira tem que outras não têm? 

HFJ: No essencial, nada. Nos detalhes, é uma adaptação do país imaginário (no folheto de cordel chamado País de São Saruê) às condições históricas do nordeste brasileiro. Por exemplo, enquanto os relatos europeus falam em riacho de vinho tinto e branco, o cantador paraíbano refere-se a açudes de vinho quinado; aqueles dizem que na Cocanha há árvores que produzem tortas e omeletes, este imagina o mato dando feijão.   

Por favor, explique brevemente a relação entre a Cocanha e o carnaval. 

HFJ: Podemos responder com a fórmula sintética e precisa de um historiador da cultura moderna, o inglês Peter Burke: “a Cocanha é uma visão da vida como um longo Carnaval, e o Carnaval é uma Cocanha passageira”.                                                                                                                             

 Cocanha  remete a um lugar utópico. Em tempos que parecem distópicos (quando há uma pandemia e parte da população insiste em negar a ciência; quando a crise econômica impede a abundância), qual a contribuição de um livro como este? 

HFJ: Espero que seja instigar a reflexão sobre os desejos humanos e seus limites, a comparação desses sonhos em épocas diversas do passado e no presente, e em especial a compreensão do relativismo inerente a todas as coisas humanas: a Cocanha é utopia para muitos, mas também é distopia para outros. Além disso tudo, também é possível ler  o livro como uma antologia literária, com peças do século XIII ao XX plenas de  alegoria, metáfora, ironia, humor.    

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