Monthly Archives: novembro 2020

A Voz e o Tempo

Por: Renata de Albuquerque

Vencedor do Prêmio Jabuti de Psicologia e Psicanálise 2009, A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas acaba de ganhar uma terceira edição. A novidade é um posfácio, escrito pelo autor, Roberto Gambini, no qual ele faz a reflexão/provocação: Com que direito pode um analista declarar a verdade sobre seu paciente?”. No texto, a partir de sua experiência junguiano, Gambini escreve sobre como lida com o poder que a palavra que o analista tem para seus pacientes.

Ele lembra que a psicanálise foi concebida como talking cure – a cura resultante da conversa e que esse contexto já mostra muito sobre a importância das palavras no processo – e sobre a relevância das palavras do terapeuta.

“A questão aqui é o que o terapeuta diz, baseado em quê, como diz, e desempenhando que tipo de papel que por acaso creia ter-lhe sido de alguma forma atribuído, e através de cujo desempenho recebe ele seus proventos. Como reage ele a esse apelo de quem o procura, às vezes formulado claramente, outras vezes pronunciado como uma insinuação, um subtexto?”, pergunta-se (ou pergunta ao leitor?) Gambini.

Mas, para além da voz, está o tempo. O psicanalista (assim como o artista, conforme nos lembra, no prefácio, Adélia Bezerra de Meneses), cria elos com o tempo. É este tempo que matura as reflexões do terapeuta e suas elaborações teóricas, todas feitas a partir do prisma único de sua subjetividade e da relação que estabelece cada paciente seu. “(…) a decantação de leituras e estudos, construção de caminhos absolutamente não corriqueiros para se pensar a terapia e a vida, e sobretudo, algo que radica na empiria e que é fruto da interação com o paciente, no seu oficiar quotidiano do consultório, em sintonização rente à subjetividade do outro”, escreve  Meneses, antes de concluir: “A Voz e o Tempo condensa aquilo que é o cerne, o caroço, o essencial para alguém que se entrega à sua atividade como a um destino”.

Para um livro escrito por um terapeuta para terapeutas, este tem foi feito a partir de um fato muito singular. Nas palavras de Gambini, o livro “nasceu falado”, fruto de palestras e de depoimentos que Gambini concedeu a Adélia Bezerra de Meneses e Enrico Lippolis, dez anos depois das palestras que originaram a primeira parte do livro.

Nos escritos originados das falas, Gambini fala de como se aproximou de Jung, de sua trajetória, de como seu trabalho como professor abriu as portas para seu trabalho como analista e de outras questões que podem contribuir com jovens terapeutas, como o ofício do terapeuta, os desafios da transferência e a importância de exercitar a escuta – e como, tão importante quanto ela, torna-se, na trajetória de Gambini, o diálogo. O livro traz ainda uma carta com a interpretação do Dr. Karl Heinrich Fierz a um teste tipológico de Jung ao qual o autor submeteu-se nos anos 70. Todos esses elementos, somados, oferecem um panorama interessante sobre as idéias de Gambini, sobre seu fazer terapêutico e são, para os jovens terapeutas que se dispõem a ler a obra, uma experiência certamente enriquecedora.

“Esaú e Jacó”: uma superfície simples com significados complexos

A Ateliê acaba de lançar, na Coleção Clássicos Ateliê, Esaú e Jacó, o penúltimo livro de Machado de Assis, uma obra que até hoje suscita interesse e intriga os leitores e a crítica. Para falar sobre o lançamento, o Blog da Ateliê conversou com José De Paula Ramos Jr, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA. Ele é coordenador da Coleção Clássicos Ateliê e estabeleceu o texto e elaborou as notas de Esaú e Jacó. Acompanhe:

Como foi o processo de estabelecer o texto e as notas desta edição? Quais foram os principais desafios?

José De Paula Ramos Jr

José De Paula Ramos Jr: O romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, é publicado em 1904 pela editora Garnier, que nesse mesmo ano lança a segunda edição da obra.  A terceira é póstuma, de 1917, pela mesma editora Garnier. Assim, a segunda edição vem a ser dotada de autenticidade, legitimidade e genuinidade, pois o texto expressa a última vontade autoral explícita. Por essa razão, serviu de texto de base para a edição Ateliê, mas foi feita a colação com a lição textual da primeira edição. A lição contida na edição crítica do romance (Civilização Brasileira / MEC, 1977) serviu como texto de controle. A edição Ateliê corrige erros, atualiza o texto, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, apresenta profusas notas explicativas, que contribuem para a inteligibilidade do texto, em favor, sobretudo, do leitor em formação, e contém um rico e agudo estudo, escrito por Paulo Franchetti, professor da Unicamp, especialmente para a edição Ateliê.

Esaú e Jacó é um dos livros de Machado de Assis que mais atingiram o “sucesso de público” quando lançado (prova disso são as duas edições que ele teve no mesmo ano). O senhor acredita que ele ainda é um romance que pode agradar ao público do século XXI?

JDPRJ: Esaú e Jacó é um clássico tão respeitável quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Trata-se de uma obra perene. Isso significa que ela ultrapassa a fronteira histórica em que foi escrita e é sempre atual.

Apesar da sinopse simples, o senhor acredita que há uma complexidade em Esaú e Jacó? De que maneira isso se coloca na obra?

JDPRJ: Na superfície, Esaú e Jacó contém, de fato, um enredo simples: a história da desavença entre dois irmãos gêmeos, que brigam desde o útero até a idade adulta, são a antítese um do outro, inclusive politicamente, a despeito da grande semelhança física, apaixonam-se pela mesma mulher, que hesita entre os dois, adoece e morre, sem que haja escolhido um deles, que permanecem irreconciliáveis até o fim da narrativa. No entanto, essa superfície aparentemente simples contém significados complexos, que são percebidos por uma leitura atenta aos efeitos de sentido construídos pelo texto –alusões eruditas, comentários do narrador, a intertextualidade, a paródia, a alegoria, a ironia e o humor. Os que percebem coisas como essas encontram um prazer muito maior na leitura.

Aires, que reaparece no livro seguinte de Machado (Memorial de Aires) repõe a questão do “narrador problemático” que perpassa parte da obra de Machado. Afinal, em sua avaliação, ele é narrador ou apenas personagem da obra?

JDPRJ: Em Esaú e Jacó, o conselheiro Aires se desdobra em narrador e personagem. Narra em primeira pessoa e interage com os protagonistas e com personagens secundárias.

José Veríssimo fala da “novidade” em Esaú e Jacó: “O seu principal encanto talvez esteja no contador. Cada livro dele, de parte o estilo, traz uma novidade. A de Esaú e Jacó é a do assunto, que tem, do modo por que é exposto, toda a figura de um fato novo” (trecho da apresentação da edição da Ateliê). Em sua opinião, qual é essa “novidade” de Esaú e Jacó, já que a história de Pedro e Paulo (como indica o título do romance) tem traços tão antigos quanto as histórias bíblicas? 

JDPRJ: Sim, o romance contém elementos de uma vasta tradição cultural e literária, mas esses elementos são atualizados na escrita de Machado de Assis, o que confere o “frescor” de que fala José Veríssimo. Aliás, por ser um clássico, mantém esse frescor nos dias atuais.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

No universo da crítica literária, muito se debate sobre qual é e onde se localiza no texto o “Realismo” de Esaú e Jacó e se ele deve ser tomado “a contrapelo”. Qual sua análise sobre o assunto?

JDPRJ: Machado manteve distanciamento crítico em relação aos cânones do Realismo, principalmente em relação à corrente do Naturalismo. Em suas obras, posteriores a 1881, Machado, usualmente, faz paródias irônicas do cientificismo expresso nas obras literárias quer do Realismo, quer do Naturalismo. Para Machado, a representação artística da vida não deveria se sujeitar à camisa de força do materialismo cientificista, mas libertar a imaginação ao ponto de inventar um defunto autor (um morto que escreve) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, como estratégia imaginativa para melhor configurar a realidade psíquica e social. Nesse sentido, podemos admitir como realistas as obras de Machado posteriores a 1881, mas de um realismo sui generis, pois não renuncia à imaginação, à fantasia e, mesmo, ao maravilhoso, como no caso das Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Cor para sublimar a dor

“As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista”, de Philip Ball foi traduzido por Roberto Oliveira e disponibilizado gratuitamente, no formato de e-book, no site da Ateliê Editorial. O e-book traz história das cores nas pinturas antigas. Do que eram feitas as tintas na era pré-industrial? Com projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho/Casa Rex, As Fontes Primárias de uma História Natural da Paleta do Artista, Philip Ball dedica um capítulo para cada cor primária (vermelho, amarelo e azul), contando histórias e curiosidades, em uma leitura fluida, leve e cheia de informação. A seguir, o tradutor e escritor Roberto Oliveira (que também é médico, bacharel em direito e pesquisa sobre Bioética e Mídia) fala sobre a obra:

O que o motivou a traduzir a obra?

Roberto Oliveira: A tradução de As Fontes Primárias… deve-se a uma descoberta feita nos últimos anos quando comecei a fazer a pesquisa iconográfica para ilustrar A Visita da Peste, livro escrito em co-autoria com Jerusa Pires Ferreira e que deve ser lançado brevemente pela Ateliê Editorial. À medida que avançávamos nos textos sombrios da peste, fui encontrando obras de arte de um colorido vivíssimo, como se fossem marcas de uma tentativa de superação/sublimação do sofrimento, sobretudo, mas não só, pela celebração da salvação e misericórdia divinas. A partir daí, surgiu o interesse pela pesquisa das cores e seu impacto psicológico, que remeteu como um engenho faustiano à Teoria das Cores de Goethe, autor presente na Visita da Peste e do qual Jerusa era uma grande especialista. Em paralelo, foi crescendo a curiosidade, como médico e pesquisador, pela obtenção e uso de pigmentos e corantes, que, desde o século XIX, vêm revolucionar o isolamento de vírus e bactérias e também a síntese de novos fármacos, a partir da anilina, dando origem a grandes laboratórios como a Bayer (Bayer Farbenfabrik – Bayer Indústria de Corantes), AGFA (Aktiengesellschaft für AnilinfabrikationSociedade para a Fabricação de Anilina), BASF (Badisch Anilin und Soda Fabrik – Indústria de Anilina e Soda da Região de Baden) e a Hoechst (Hoechst Farbwerke – Hoechst Indústria de Corantes).

Por que decidiu colocá-la à disposição gratuitamente?

RO: Disponibilizar uma obra sem custos para o público em geral é, em primeiro lugar, o prazer de dividir uma descoberta com o maior número possível de interessados, inclusive, alunos de artes gráficas, editoração e afins, áreas que se constituem hoje em um de meus interesses. Devo dizer que para isso concorreram muito as discussões com o Plínio Martins, na sua dupla ou tripla função de professor da Escola de Comunicação da USP, editor experiente e apaixonado por artes gráficas. Por fim, me pareceria um contrassenso não disponibilizar gratuitamente a tradução, uma vez que o texto original foi lançado em uma publicação eletrônica britânica gratuita, The Public Domain, que se apresenta como concentrada “em obras que todos são livres para desfrutar, compartilhar e construir sem restrições”.

Por que escolheu a Ateliê Editorial para disponibilizar a obra?

RO: A competência do editor e seu empenho na busca de obras originais foi determinante para a escolha, independente da tradição que a editora pudesse ter em e-books. Em suma, me parece que a tradição possa fazer o hábito, mas não o monge.

O tema “cores primárias” pode parecer até mesmo simples, mas a abordagem que Philip Ball oferece no livro é bastante singular. O que o senhor destaca como mais interessante nessa obra? Durante a primeira leitura, o que mais o impactou nela?

RO: O texto tem vários pontos interessantes, por exemplo,  a relação do pintor com seus materiais e a importância decisiva destes para a obtenção de determinados resultados. Tal  observação pode caber em qualquer bom estudo de pigmentos como material de uma dada atividade profissional. Porém, a referência a materiais como o mínio faz pensar em questões tão diversas como a história da química e envenenamentos criminosos ou casuais, especialmente, quando se sabe que médicos, pintores e perfumistas integravam no Medievo a mesma guilda mas, se faltar tal informação, basta ler O Nome da Rosa ou uma biografia de pintores, como Cândido Portinari. Porém, de fato, na primeira leitura, o que mais me atraiu não foi o perigo, mas a beleza das ilustrações.

Em sua opinião, o que mais vai surpreender o leitor nesta obra?

RO: Acredito que este estudo possa interessar a uma variedade de leitores e, assim, fica impossível, como em qualquer texto ou obra de arte, saber o que mais irá agradar ou surpreender a cada um, mas, de qualquer modo, um tema aparentemente simples quando tratado de forma original sempre surpreende.

Mensagem, de Fernando Pessoa

Mensagem, de Fernando Pessoa, foi escrito entre as décadas de 1910 e 1930, durante uma fase de grande crise pela qual passou Portugal. O livro foi publicado em 1934 e é o único título publicado por Pessoa em vida (e assinado pelo poeta “ele mesmo” – seu ortônimo). Sua estrutura se divide em três partes: “Brasão”, “Mar Portuguez” e “O Encoberto”. A obra traz poemas sobre grandes personagens da História de Portugal e, por isso, é considerada uma homenagem a Camões, considerado o maior poeta português e autor do épico Os Lusíadas, que também conta a História das conquistas ultramarinas do país.

Alinhado com o desejo de ruptura da tradição cultural e a expectativa por criar uma estética nova, típicas de sua época, Pessoa ressignifica a linguagem arcaica que utiliza ao longo do texto, compondo uma epopéia fragmentada, e imagina a Europa como um corpo de mulher, sendo Portugal o rosto da figura. Com isso, consegue ao mesmo tempo criar uma poesia épica, lírica e irônica.

Em 44 poemas, ele conta cerca de oito séculos de História: Portugal antes do descobrimento; as grandes navegações e, finalmente, um momento mais próximo de quando o livro foi escrito, de certo declínio e de alusão ao Sebastianismo.

Pessoa coloca na poesia de Mensagem uma universalidade em que falar sobre sua aldeia é falar sobre o mundo, como escreveu sob o heterônimo de Alberto Caieiro na obra O Guardador de Rebanhos.

Brasão é a parte que remete ao nascimento da pátria, a fundação da nacionalidade portuguesa. Traz poemas que remetem ao brasão português, que traz sete castelos e cinco quinas. Nesta parte concentram-se os poemas sobre figuras históricas, como Dom Henrique, Dom Afonso Henriques, Dom Dinis, Dona Filipa de Lencastre e Afonso de Albuquerque.

Mar Português é a realização da pátria que nasceu em Brasão. Nela, Fernando Pessoa apresenta o heroísmo das figuras protagonistas do episódio das navegações marítimas e das conquistas territoriais portuguesas dos séculos XV e XVI.

Já O Encoberto é a morte e o renascimento da pátria. Nesta parte, o leitor toma contato com o mito de sebastianismo, do retorno heróico de Dom Sebastião para resgatar a supremacia portuguesa no Quinto Império.

Cada parte do livro tem uma citação de abertura, em latim. A primeira é “Bellum sine bello” (guerra sem guerrear). A segunda é Possesio Maris (a posse do mar) e a terceira é “Pax in Excelsis” (paz nas alturas).

Tudo isso faz de Mensagem um livro com forte carga simbólica, que enaltece um nacionalismo místico, baseado mais em uma imagem ideal de Portugal do que na realidade nua e crua. Tanto assim que o mito do sebastianismo marca forte presença na obra, referido sempre com palavras que aludem a “sonho” e “loucura”, por exemplo.

A Nebulosa, de Joaquim Manuel de Macedo

Nesta resenha, Maria Louzada, do perfil de Instagram @vidabrevelivrosdemais, escreve sobre A Nebulosa:

Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) escreveu mais de vinte romances, entre eles o popularíssimo e delicioso romance de costumes da sociedade carioca: A Moreninha, seu primeiro livro, publicado em 1844. Ele nasceu em Itaboraí, formou-se em medicina, foi deputado, foi professor do Colégio Pedro II, fundou uma revista (“Revista Guanabara”) ao lado de Gonçalves Dias, e exerceu o ofício da pena, como se dizia em seus tempos que foram os do período imperial do Brasil. De talento versátil, escreveu, afora os romances, também: teatro, memórias, e enveredou pela poesia; aqui se destacando A Nebulosa (1857), que obteve enorme sucesso quando do seu lançamento, saudado pela crítica especializada de então como “obra primorosa”.

A Nebulosa é um poema em forma narrativa, composto de seis cantos e um epílogo, grande parte em versos decassílabos brancos, apurados em efeitos que nos conduzem à representação do Romantismo, escola literária de sua época.

O tom vai bem além da forma de apenas uma “harpa sonora” a que se refere casualmente no primeiro canto, pois, embora tenha o mar como cenário marcante, à narrativa poética se debruçando no que tange aos mistérios das ondulações das ondas, um Trovador (personagem central do poema) se insere na linguagem em metamorfose entre amor e melancolia, com efeitos dramáticos. Expondo um triângulo amoroso, a poesia lírica, os versos em tratamento metrificado expõem uma alma de história vívida num universo que se vai desenrolando quase onírico por entre fadas, por entre feiticeiras. A acuidade dos seus versos traz um quadro quase elegíaco, um mundo perdido, o exílio. Acima de tudo, o poema é dedicado em narrativa, antes de todas as divindades clamadas como musas do estilo, antes da métrica empregada, o poema é dedicado a contar de um amor, de uma paixão trágica que, como se expressa no canto VI da “Harpa Quebrada” nos versos LVI, antes do epílogo, na ênfase do amor assim definido como: “um desses beijos que uma vida pagam.”

A literatura na sua poética romântica aportou no Brasil criando uma identidade miticamente povoada por peregrinas, flores, pelo mancebo trovador, pela mãe que transcende em amor, uma influência que também vinha de terras longínquas, tentando encontrar um caminho que levasse ao âmago de uma terra própria, tropical que necessitava, antes de tudo, conhecer-se. Assim, neste seu momento, o autor Joaquim Manuel de Macedo formulou nos monólogos de seus personagens, nos seus diálogos e em suas longas e trabalhadas descrições a trágica angústia dos sentimentos que não conseguem ser resgatados, a dificuldade humana perante os próprios sentimentos, tudo em singular contraste com nossa exuberante natureza, onde em seus elementos mais puramente autênticos, reina em imagem, em som, em olfato tudo que faz transbordar: a dor, a paixão, a morte, a própria vida se espelhando. Divindades são evocadas, são chamadas das fontes naturais para dar voz muitas vezes a tudo o que se desenrola.

Os estudiosos de literatura brasileira encontrarão aqui aspectos de uma reflexão da obra minuciosa construída em oficio de escritor por Joaquim Manuel de Macedo, um de nossos melhores. Aos leitores, por entre o “correram anos” (do poema) desde a primeira edição da obra em 1857, e depois a segunda edição (pós 1878) pela Garnier, da Rua do Ouvidor, de um Rio de Janeiro histórico agora, ficam as possibilidades de extrair uma leitura ampla da primeira geração romântica da literatura brasileira inspirado em um profundo arcano de amor, e também, aqui, qualquer brecha do gótico que se insere singularmente para leituras atentas, este tão amplamente apreciado em nossos dias presentes.

A presente edição, a terceira, num novo milênio, com capricho, traz-nos um enriquecedor estudo crítico da obra pela doutora em Teoria e História Literária: Ângela Maria Gonçalves Da Costa, além de ilustrações do artista plástico Kaio Romero.