Monthly Archives: março 2019

“Fascinação”: do teatro ao livro, quase 30 anos depois

Flavio de Souza é muito conhecido por seu trabalho para crianças, como “Rá-Tim-Bum” e “Mundo da Lua”. Ele também foi roteirista de programas de humor como “Sai de Baixo”. Já Luci Collin é poeta, ficcionista e tradutora. O encontro entre os dois poderia parecer inusitado à primeira vista, mas foi esse encontro que gerou Fascinação, volume em coedição Kotter e Ateliê Editorial, que traz para o registro do livro o texto que foi sucesso nos palcos brasileiros nos anos 1990. Mas não se trata de uma simples transposição. O trabalho de Flavio e Luci ampliou o texto original, criando para o leitor uma experiência diferente daquela vista pelo espectador no teatro. O Blog da Ateliê falou com os autores sobre Fascinação. Como eles mesmos explicam, no livro, é difícil reconhecer as contribuições individuais. Por isso, eles falam em conjunto ao Blog:

Fascinação: peça ou livro?

Fascinação foi montada nos anos 90 em São Paulo. Desde então, Flavio tinha a ideia de fazer um livro com a mesma história, e sempre teve vontade de fazer essa nova versão com uma escritora. Foi só no século seguinte, quando se mudou para Curitiba, que encontrou a pessoa ideal para ter como partner nesta empreitada. Foi na capital paranaense que eles se conheceram.

Quis o destino que eles se encontrassem num palco, durante um evento literário logo após o carnaval de 2017, e que Luci fosse justamente a pessoa escolhida para fazer uma pergunta para Flavio, logo após os cinco escritores participantes terem lido um trecho de uma de suas obras. Assim que Luci leu um conto escrito por ela, Flavio soube que tinha achado a escritora que procurava desde 1994.

O livro foi escrito a quatro. Além de expandir tanto em quantidade de palavras quanto em profundidade, a história começa semelhante e antes do fim do primeiro terço, se distancia da original.

O humor de Fascinação

O texto da peça já tinha humor, que foi aproveitado com grande eficiência por Marisa Orth, a atriz que estrelou a montagem. Como foi feita por dois escritores que têm o humor presente em quase tudo que escrevem, a transposição foi inevitável. Cada frase divertida escrita por um foi completada, emendada, melhorada, exatificada pelo outro, em sucessivas idas e vindas do pingue-pongue que foi a escrita deste livro.

O convite inicial para Luci foi que ela escrevesse a “correnteza de consciência” que na peça aparecia como um texto em off, gravado pela atriz, que eram trechos de anotações em um diário. Esses pequenos trechos seriam expandidos e mostrariam o pensamento essencialmente feminino. Esse plano inicial foi abandonado logo no início. Flavio escreveu pedaços da narração da atriz e Luci escreveu diálogos entre a atriz e seu marido, além de pensamentos do marido e do outro personagem masculino, num abandono do plano para a feitura do livro e uma mistura completa, desapegada e abusada de raciocínios, ideias, parágrafos, frases, palavras, já que, além de incluir palavras, frases e parágrafos, cada um eliminava palavras, frases, parágrafos de trechos escritos pelo outro sem nenhuma cerimônia e, surpreendentemente, por tratar-se de dois escritores, esses cortes não causavam indignação.

O resultado é que a maior parte das frases são colagens feitas aos poucos de palavras escritas pela Luci e pelo Flavio, e nenhum dos dois pode reconhecer com certeza todas as suas contribuições.

Flavio e Luci: escrita a quatro mãos

Atualidade do texto

Fascinação foi escrita ainda nos anos 1980. Mas o assunto continua atual. Há “piadas” sobre assédio que não “estavam na moda” nos anos 80, mas os relacionamentos não mudaram quase nada desde então, aliás, desde que Eva e Adão se encontraram pela primeira vez.

A parte inicial da trama é a mesma. Uma grande dama do teatro e da televisão brasileira acorda uma noite e se vê raptada… ou não…

Remontagem nos palcos

Por enquanto, não há nenhum plano de levar fascinação novamente aos palcos. Mas se acontecer, com certeza será uma nova versão, muito melhor que a montada em 1994.

Conheça outras obras publicadas pela Ateliê

Octávio Brandão: pioneiro marxista no Brasil

Octávio Brandão é um nome muito conhecido dos pesquisadores brasileiros que se debruçam sobre a política do início do século XX. Comunista de primeira hora, o intelectual alagoano foi ativista e militante, sendo pioneiro na difusão do marxismo no Brasil. Ele escreveu obras importantes – mas pouco lidas – como Agrarismo e Industrialismo, Canais e Lagoas, Veda do Mundo Novo e Rússia Proletária. Em Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, Felipe Castilho de Lacerda vai além da biografia do alagoano e traz ao público um estudo sobre a obra desse intelectual. A seguir, Lacerda fala sobre seu novo livro ao Blog da Ateliê:

Qual a importância de Octávio Brandão para a história política do Brasil?

Felipe Castilho de Lacerda: Octávio Brandão tem uma grande importância, em primeiro lugar, por ter feito parte do primeiro grupo dirigente do Partido Comunista do Brasil, fundado em 25 de março de 1922 – mesmo que esse primeiro grupo dirigente considerasse, por vezes, a data fundacional do partido o dia 7 de novembro de 1921, quando se fundou o Grupo Comunista do Rio de Janeiro, que alimentou a ideia de fundar o Partido Comunista alguns meses mais tarde. Esse fato é essencial, porque o Partido Comunista foi a agremiação mais longeva da história do país, tendo papel fundamental na cultura, na política e na formação intelectual do Brasil. Octávio Brandão também exerceu um papel de destaque por ter redigido e publicado aquela que é considerada a primeira interpretação marxista da realidade brasileira, o livro Agrarismo e Industrialismo – ainda que eu reforce em meu trabalho que o mesmo autor já esboçara uma tentativa de interpretação dessa mesma realidade em um livro anterior, publicado em 1924, intitulado Rússia Proletária. De toda forma, essa questão também é capital, e isso por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o ideólogo do PCB tornou-se o iniciador brasileiro de uma grande cultura de pensamento, que foi o marxismo, ou melhor, os diversos marxismos que fincaram raiz na tradição intelectual brasileira. Em segundo lugar porque, a partir dos contatos de Octávio Brandão e de seus correligionários de partido – principalmente figuras como Astrojildo Pereira, Paulo e Fernando de Lacerda, Rodolfo Coutinho, Antonio Bernardo Canellas, Everardo Dias, entre outros –, com a direção da Internacional Comunista, ele se colocou a tarefa de produzir uma interpretação da realidade brasileira que guiasse os passos de sua agremiação rumo à transformação social. Isso é fundamental para a história das esquerdas ao longo de todo o século XX. A importância que aquelas e aqueles militantes davam para uma relação íntima entre teoria e prática foi fundacional para a história das esquerdas, e talvez mesmo para toda a história das relações entre intelectualidade e política no século que acabamos de deixar para trás. É preciso lembrar que toda a reflexão política no Brasil dos anos 1910-1920 era baixíssima; mesmo as classes dominantes, com toda a estrutura que sempre têm à sua disposição, não fora, antes do PCB, capaz de elaborar um programa que alimentasse suas organizações; por isso mesmo os partidos na Primeira República eram todos fisiológicos e regionais, organizavam apenas grupos de interesses imediatos e não tinham produção ideológica propriamente dita. O PCB de Astrojildo Pereira e Octávio Brandão fundou uma nova cultura política no país, a qual se tornaria espécie de espelho para todas as outras agremiações, independente de sua tendência ideológica.

Felipe Castilho de Lacerda

Por que se interessou em estudar a biografia e o trabalho intelectual de Octávio Brandão?

FCL: Dois motivos que me dirigiram à trajetória de Octávio Brandão foram os principais: em primeiro lugar, eu estava ainda na graduação em História na USP e comecei a estudar o tenentismo. Em dado momento, cujo ano não me recordo mais, assisti a uma palestra do intelectual Milton Pinheiro, que citava um certo livro, escrito por um comunista alguns meses após a Revolução Paulista de 1924, que buscava interpretá-la por meio de uma tentativa de apropriação do marxismo. Tratava-se justamente da obra de Octávio Brandão, Agrarismo e Industrialismo, publicada, por fim em 1926. Pensei, é óbvio, “preciso ler esse livro!” Mais tarde, comecei a estudar História do Livro com a grande especialista nessa área, Marisa Midori Deaecto, que se tornou a minha grande mestra em todos os aspectos da carreira e da vida. A simultaneidade dos dois acontecimentos me fez pensar: “Ora, Agrarismo e Industrialismo é um livro, não é?!” E decidi, assim, entrar na história política das e dos comunistas brasileiras (os) pelos métodos indicados pela História do Livro, da Edição e da Leitura.

A partir daí, comecei a ler e ler… e me encantei com a trajetória daquele filho de Viçosa das Alagoas, que buscara escrever uma espécie de Os Sertões, de Euclides da Cunha, voltado para o espaço geográfico e social de sua terra, de onde nasceu o livro Canais e Lagoas, lançado no Rio de Janeiro em 1919. Fugido da perseguição política, Octávio Brandão desembarcou no capital federal à época, o Rio, ligou-se ao movimento anarquista, casou-se com um poeta de relativo sucesso, Laura da Fonseca e Silva, que muito jovem, participara de salões literários como o de Olavo Bilac, e publicou diversos folhetos de agitação política anarquista. O anarquismo daqueles anos é algo absolutamente instigante. Mais tarde, Octávio Brandão ligou-se ao grupo de anarquistas que aderiram à ideologia e à organização da Internacional Comunista, dedicou-se à difusão daqueles novos ideias, por meio do que chamavam agitação e propaganda, ou “agitprop” e essa foi certamente uma enorme contribuição de Octávio Brandão. O meu estudo se restringe aos anos 1920, mas em 1931, Octávio Brandão e sua esposa Laura são banidos do Brasil, junto às três filhas, passam pela Alemanha e vão viver na União Soviética, como funcionários da Internacional Comunista. Laura falece em 1942, de câncer, em meio ao esforço de guerra soviética e Octávio Brandão volta mais tarde ao Brasil. Mas o que mais me interessou mesmo foram aquelas produções ideológicas de Octávio Brandão nos anos 1920. Para as estudiosas e estudiosos do comunismo, Octávio Brandão é figura conhecida, mas a imensa maioria não leu de fato seus livros, menos ainda outras obras além de Agrarismo e Industrialismo, quando li obras como Canais e Lagoas, Veda do Mundo Novo ou Rússia Proletária, pensei: “Aqui existe muita coisa que explica o processos intelectual daquele autor que é conhecido por um livro, de escrita bastante simplista, que é Agrarismo e Industrialismo”. Por isso, imaginei que fazer esse estudo voltado para aqueles livros e a trajetória de seu autor “em perspectiva” poderia dar alguma contribuição, mesmo que modesta, para a historiografia política brasileira.

Quanto tempo demorou a pesquisa e quais foram os maiores desafios?

FCL: A pesquisa que resultou no livro Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, publicado pela Ateliê, é fruto de minha dissertação de mestrado, defendida no programa de História Econômica da USP, financiado pela Capes e sob a orientação da professora Marisa Midori Deaecto. Dessa forma, o grosso da pesquisa levou o tempo médio de um curso de mestrado, cerca de dois anos e meio a três anos. Deve ter levado um pouco mais, pois eu já começara antes a coleta de fontes, ainda ao longo da graduação em História, quando realizei uma pesquisa em nível de bacharelado. Talvez cerca de quatro anos. É certo que eu poderia dizer que durou muito mais, décadas mesmo, pois tudo que alguém escreve recebe o espírito da autora e do autor, seu complexo de experiências de uma vida toda.

A coleta de fontes em arquivos com o Edgard Leuenroth, da Unicamp, o Cedem, da Unesp, ou a Biblioteca Edgard Carone, do Museu Republicano Convenção de Itu, extensão do Museu Paulista da USP, e mesmo no Centro de Difusión e Investigación en las Culturas de Izquierdas (CeDInCI), em Buenos Aires, demandou bastante esforço, tempo e paciência, mas foi algo relativamente tranquilo e prazeroso, especialmente pela grande ajuda e amabilidade de todas e todos que me receberam nessas instituições. O maior desafio mesmo foi o de um jovem aprendiz em nível de mestrado aprender a pesquisar e analisar fontes, compreender como recortar e definir muito bem seu objeto, para não se perder completamente diante de uma grande quantidade de fontes coletadas e se desesperar: “O que faço agora com isso?!” Mas esse é o desafio de toda e todo investigador(a) que se inicia nas práticas acadêmicas.

Retrato de Octávio Brandão publicado em seu livro de estreia, Canais e Lagoas, de 1919. Acervo Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH-USP.

Octávio Brandão estudou Farmácia. De que maneira a formação acadêmica influenciou a produção intelectual dele?

FCL: A formação de Octávio Brandão foi marcante; e eu diria em duas esferas diferentes. Ele se formou na Escola de Farmácia do Recife. Não era uma instituição tradicional como a famosa Faculdade de Direito da mesma cidade. Isso significou que ele, apesar de fazer parte de um grupo social com privilégios (já que até 1930, 70% da população brasileira era analfabeta), não passou pelos espaços tradicionais de consagração da intelectualidade nacional. Formou, desse modo, parte de uma espécie de segundo escalão da intelligentsia, o que contribuiu em parte para uma carreira sem grandes reconhecimentos. Seu estudo durou três anos e a escolha foi influenciada por seus familiares (o alagoano era órfão de pai e de mãe desde criança) e possibilitou, acima de tudo, que ele provesse seu sustento com a abertura de boticas farmacêuticas tanto no Nordeste, quanto, mais tarde, no Rio de Janeiro.

Mas também se pode observar sua formação a partir do ponto de vista de outra esfera da existência, a do conteúdo mesmo de suas produções. Com seus estudos, ele se interessou pela História Natural, pela Física, pelas ciências da natureza, em resumo. Logo depois, estudou, de forma autodidata, geologia e mineralogia. Esses fatores marcam sobremaneira sua visão de mundo, seus instrumentos mentais, pois, logo em seguida, ele publicará o estudo que tenta unir “ciência e poesia”, com inspiração declarada e direta a Euclides da Cunha. Mas, o pensamento voltado para as ciências naturais continuará marcando seu pensamento mesmo mais tarde, quando se torna comunista e inicia a empreitada de “conhecer” o marxismo. Basta pensar no tipo esquemático de construção das ideias que o leva a, de Canais e Lagoas a Agrarismo e Industrialismo, conceber os processos sociais a partir do conceito de “ciclos”. Isso é marcante e constitui parcela das matrizes intelectuais de seu pensamento e, por que não?, do marxismo brasileiro em seu alvorecer.

Quais são as “matrizes intelectuais de um pensamento que se forma por camadas e em tempos sincrônicos?”, como escreve Marisa Midori Deaecto no prefácio da edição?

FCL: As principais matrizes intelectuais de Octávio Brandão, as quais, por associação, poderiam ser consideradas as próprias matrizes intelectuais do marxismo brasileiro nos albores, foram aquela espécie de “nacionalismo” em gestação, de matriz cientificista e calcada num forte regionalismo; o que apelidei a herança euclidiana. A cultura política anarquista de fins dos anos 1910 e início dos 1920, quando Octávio Brandão, imerso no movimento libertário do Rio de Janeiro, publicou uma série de pequenos folhetos de defesa do anarquismo; ali, ele constituiu uma matriz de pensamento, compartilhada, aliás, por vários de seus correligionários, que apontava para o que poderíamos chamar uma “romantismo libertário”, com forte inspiração no ideário do grupo francês Clarté, de Henri Barbusse, de negação à modernidade capitalista. Por fim, a marca de sua matriz intelectual no momento de transição da postura anarquista à comunista, foi a apropriação do ideário da Internacional Comunista, seja pelo conjunto de material propagandístico chegado da União Soviética, França, Argentina ou Uruguai – o que chamei a rede mundial de circulação de impressos comunistas –, o que explorei no primeiro capítulo do livro, seja pelo contato direto com a direção da Internacional Comunista, que trocava informações, influenciava as análises e solicitava dados para a construção de um programa para o partido. Este último é um aspecto fundamental, poucas vezes notado e que busquei esclarecer no terceiro capítulo da obra.

O que levou Brandão a militar na esquerda brasileira?

FCL: Várias explicações podem ser buscadas para o engajamento. É certo: nunca sabemos o que leva, de fato, as pessoas à militância por um ideal. Podem ser motivos da ordem da tradição familiar, aspectos éticos e morais, acasos na vida… além do mais, toda e todo memorialista, ao apresentar os caminhos percorridos na vida, encontra um ou vários momentos que marcaram sua formação. Octávio Brandão assim o faz em seu livro de memórias, Combates e Batalhas. Mas tendo a acreditar que o que une a todas e a todos que se atiram no ativismo esteja no nível dos sentimentos, pois compartilha-se, apesar das infinitas divergências no seio dos grupos e movimentos de esquerda, revolucionários, de luta contra as opressões e explorações, um ódio comum às formas de autoritarismo e injustiça que se observam ou que se vivenciam ao longo da vida, bem como um amor incondicional à justiça e à igualdade. Entre as duas coisas, a crença de que outro mundo é possível, e só é possível por meio da luta.

Qual o legado de sua produção intelectual e como ela se reflete até hoje em nosso país?

FCL: Octávio Brandão deixou uma obra que deve ser vista do ponto de vista da propaganda política. Isso mesmo antes de adentrar o Partido Comunista do Brasil. Sua obra de divulgação anarquista era bastante básica, mas muito interessante para se contar a história do anarquismo brasileiro. Acho que esse é um ponto bem interessante, pois tenho uma forte inclinação para o anarquismo e creio que ainda se pode aprender muito ao se estudar a história dessa tendência do pensamento revolucionário.

Capa de “Canais e Lagoas”

Mas sua obra de estreia, Canais e Lagoas, e também sua produção após à adesão ao comunismo também possuem importância. Naquela obra de estreia, o alagoano já falava sobre a importância do petróleo e a ação do imperialismo com vistas a colocar as mãos nas jazidas que ele julgava existirem naquele momento. Hoje, o entreguismo da elite que se apossou do governo após o golpe de 2016 e as eleições tragicômicas de um candidato (hoje presidente), que não pode abrir a boca em público, pois seus próprios aliados sabem que dali não pode sair nada de bom, voltam, uma vez mais, a entregar ao capital estrangeiro as riquezas naturais de um país cuja população parece aceitar de bom grado falsas soluções para sua miséria real.

O que podemos aprender com a obra de Octávio Brandão e como ela pode ser lida no Brasil de hoje, que elegeu Jair Bolsonaro? De que maneira a obra de Brandão nos ajuda a entender esta realidade?

FCL: Quando penso no legado ou no que se pode aprender com a obra de Octávio Brandão, creio que se deve expandir um pouco a concepção que temos de obra. Pois o que meu trabalho buscou demonstrar é que a produção intelectual de Octávio Brandão era de fato bastante básica, mas que suas características possuíam um sentido no conjunto do contexto político e intelectual do momento em que foi produzida. Assim, para além de alguns ensinamentos que podem vir da leitura de seu livros – como a caracterização de mesquinha elite colonizada de nosso país ou o papel do imperialismo em uma região que vive à sombra da posição geopolítica dos Estados Unidos da América –, sua principal contribuição foi em termos da propaganda política e do que os comunistas chamavam de agitação e propaganda. Isto é, do esforço em divulgar seus ideais e investir o sangue e o suor na formação política daquelas e daqueles que decidem, por motivos os mais diversos, lutar do seu lado da trincheira. O governo de Jair Bolsonaro, e da elite fardada que tenta guiá-lo e adestrá-lo na arte da opressão política e social, se é risível em suas manifestações no espaço público, comporta apenas um riso de canto de boca, pois se trata do conluio do que há de pior em toda a formação histórica brasileira: o entreguismo neoliberal de uma elite colonizada e o escravismo brutal das elites e classes médias, que não são capazes de ver a gente explorada e oprimida ter sequer uma migalha para confortar o estômago dolorido de fome, preferindo jogar a nação do desfiladeiro e vê-la afundar num lamaçal infinito.

Talvez a obra de Octávio Brandão, entendida nesse sentido lato, possa nos ajudar a compreender que haverá sempre mulheres e homens dispostos a se atirar contra a escravocracia brasileira de longuíssima duração, pois seu futuro pessoal, o de todo o país e, em última análise, o da humanidade, depende da destruição do parasitismo elitista.

Nesse contexto, é compreensível que, apesar da espera repressão político-ideológica que nos ameaça dia a dia, o interesse pelo marxismo venha se renovando. Nessa esteira, a curiosidade pelas matrizes intelectuais do marxismo brasileiro podem ser um item de interesse para intelectuais, estudantes, militantes e todas e todos que se interessem pelo pensamento realmente crítico. Se assim for, a obra de Octávio Brandão certamente terá lugar nas estantes dessas pessoas e poderá propiciar alguns ensinamentos.

Conheça outros livros da Ateliê Editorial sobre política

Março é mês de poesia!

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

Leia mais poesia

Escritoras de livros: literatura para além do Dia Internacional da Mulher

8 de março é Dia Internacional da Mulher. O significado desse dia tem mudado muito, conforme percebemos que as mulheres não precisam (nem devem) ser segregadas como algo à parte da sociedade. Não se trata de comemorar, mas de marcar a importância de promover direitos e igualdade entre homens e mulheres.

Em uma sociedade machista e patriarcal, durante séculos a mulher foi silenciada e colocada em um papel de subserviência. Muitas vezes, restava a elas apenas se expressar em cartas a familiares ou parentes; cartas que muitas vezes nem mesmo chegavam aos seus destinos. Os diários também são um importante documento histórico dessa realidade e, assim, escrever passa a ser uma atividade “consentida” às mulheres, ainda que, mesmo hoje em dia, se nos propusermos a fazer uma lista dos escritores que conhecemos, provavelmente o número de homens será bem maior que o de mulheres. É por isso que hoje o Blog Ateliê se dedica a mostrar alguns dos títulos publicados pela editora que foram escritos por mulheres. Acompanhe:

Antologia Poética – Luci Collin

Esta coedição com a Kotter reúne poemas escritos entre 1984 e 2018. A autora é ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. 

Yaser – Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaser. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora.

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes – Carina Marcondes Ferreira Pedro

A obra de Carina Marcondes Ferreira Pedro originou-se de uma preocupação em melhor compreender os fluxos de importação de bens de consumo – de objetos domésticos a materiais de construção, de “chita até locomotiva” – que caracterizaram o processo de internacionalização das últimas décadas do século XIX. A opção de pesquisa foi “colocar-se” bem junto à sua entrada na Província, depois Estado de São Paulo, no Porto de Santos. As casas importadoras, que se instalavam estrategicamente nas imediações do Porto, constituíram o “posto de observação” da autora. A ação de seus agentes importadores, o fio condutor que a levou pelos caminhos percorridos. 

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor – Eliete Eça Negreiros

O livro apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.
Eliete destaca três modalidades do amor na lírica violiniana: o amor breve, o amor melancólico e o amor feliz e vê no aspecto meditativo das canções uma espécie de educação sentimental na medida em que Paulinho da Viola descreve e reflete sobre os estados de apaixonamento.

Viagem a um Deserto Interior – Leila Guenther

“Se a arte não parece ter gênero, as experiências o têm: chegam aos poemas de nossos dias vozes marcadas por um espanto de vida a um tempo estoico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. São forças da voz de Leila Guenther, que movem quem a ouça”, escreve Alcides Villaça sobre o livro. 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel – Élide Valarine Oliver (trad)

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, o mais radicalmente satírico de toda a obra de Rabelais, reflete, na história de sua publicação, os perigos aos quais o próprio Rabelais se expôs, no fim da vida. Uma primeira edição parcial foi publicada em 1548, em Lyon. Em 1552, sai a edição definitiva, em Paris. Ao mesmo tempo, correm boatos de que Rabelais havia sido levado “acorrentado” à prisão. Nada se prova, mas o famoso médico e escritor desaparece, e morrerá, em circunstâncias desconhecidas, no ano seguinte. Teria presumíveis 70 anos, ou talvez mesmo 59. O livro tem como pressuposto continuar as aventuras do Terceiro Livro, onde Panurge busca resolver a dúvida se deve casar-se ou não.

Silêncios no Escuro – Maria Viana

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”.