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Livros e Cinema: Direção realista de Polanski retrata o drama das anotações de Wladysklaw em O Pianista

Filme O Pianista escrito por Wladyslaw Szpilman e dirigido por Roman Polanski

É sempre indicado, em se tratando de livros que posteriormente renderam filmes, que se leia primeiro para assistir depois. No caso de O Pianista, não segui essa ordem. Conheci primeiro o filme e, após tê-lo visto cerca de três vezes, encarei a leitura. A obra literária é constituída das anotações pessoais de Wladyslaw Szpilman, e a adaptação fílmica é dirigida por Roman Polanski (2002).

Os escritos narram a vivência de Szpilman em seis anos durante a Segunda Guerra Mundial, de cuja crueldade saiu sobrevivente. O cenário bélico está presente em muitas obras contextualizadas na mesma época, sejam elas ficcionais ou não, mas, neste caso, ele se torna um elemento verdadeiramente agonizante ao longo da leitura. Uma vez que as anotações do autor foram feitas cerca de um ano antes do término da guerra, o trauma causado por essa cicatriz histórica ainda se mostra recente. Tal presença confere ao livro incrível caráter psicológico. É interessante a sobriedade da escrita do autor, considerando o seu estado. Descreve cenas de impensáveis torturas com tamanha decepção e descrença no Estado, que sequer adota posição de questionamento, mas passa a ter a única preocupação de sobreviver. O medo desafia constantemente seu corpo à fuga.

O grande elemento romântico da história, retratado muito bem no filme posteriormente, é a música. Pianista já antes dos maus tempos, Wladyslaw marca suas anotações com a saudade de tocar e a preocupação em perder os sentidos da mão. Numa belíssima cena, o autor, em um de seus ocasionais esconderijos, encontra um piano desafinado e arrisca-se a tocá-lo, apesar de saber que o silêncio numa hora dessas pode significar vida ou morte.

Polanski, por sua vez, retrata algumas cenas com tamanho realismo que engasgam-se as lágrimas de revolta na garganta dos espectadores. O diretor possui origens judaico-polonesas, tendo sua mãe morta em campo de concentração. Devido a isso, quis manter-se mais próximo possível da realidade e fugir do modelo hollywoodiano, segundo ele próprio. Missão cumprida. Absolutamente tudo que pode ser visto no filme é confirmado por Wladyslaw na versão literária, tornando a adaptação fílmica extremamente bem trabalhada. Pouquíssimo foi deixado de fora, somente alguns episódios inaceitáveis para a consciência do leitor atual que dificilmente poderiam ser transcritas através de imagens.

Ambas as obras são dignas de merecimento, pela referência histórica e pelo conteúdo artístico. É irônico que este esteja presente, já que a narrativa não é ficcional e não tem, portanto, um criador empenhado em produzir arte. Irônico, também, é o desfecho, no qual Wladyslaw se vê salvo. Não se colocando como herói, entende sua sobrevivência como ocasião do destino; e deve a vida a sua maior virtude e a seu inimigo: à música e a um soldado alemão.

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann