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Um rolê com Paulo Bomfim

Percursos da memória na cidade do poeta

Jorge Caldeira | Folha de S. Paulo | 19 de janeiro de 2014

Insólita Metrópole: São Paulo nas Crônicas de Paulo BomfimPAULO BOMFIM não apenas vive fisicamente em São Paulo há 87 anos. A cidade para ele tem história, de modo que muitos lugares não lhe aparecem como paisagens prosaicas do tempo que vive, mas como testemunhos ancestrais. O parque da Luz é o lugar da ermida que Domingos Luís, o Carvoeiro, construiu no século 16; a praça do Patriarca, o ponto de refúgio do Mirinhão, um ancestral seu do século 18; a rua Espírita, no Cambuci, o quilombo espiritual do negro Batuíra, no século 19.

Outros pontos da cidade ganham colorido porque evocam memórias pessoais, testemunham encontros que os tornaram especiais. A praça Marechal Deodoro atravessada pelo Minhocão tem outros ares quando descrita como ponto de encontro com o cantor Nelson Gonçalves, seu irmão Quincas e o palhaço Piolim.

A praça da República aparece com garapa, sorvete, normalistas e o guarda Antônio, protetor dos boêmios. Até o velório de Mário de Andrade muda, quando nele se mistura o desnudamento da tradutora Leonor Aguiar.

A cidade é também o centro de sua escrita, tema constante de seus 26 livros de poesia (e mais meia dúzia de antologias, no Brasil e na Espanha) ou prosa – seu livro mais recente, Insólita Metrópole, lançado em 2013, é uma antologia de crônicas sobre São Paulo, organizada por Ana Luiza Martins (Ateliê Editorial). Assim, outros aspectos da cidade são descritos por suas características metafísicas.

Com tudo isso, a São Paulo de Paulo Bomfim é tecida por casos que, contados na sequência de sua prosa viva, dão uma dimensão bem diferente daquela da metrópole que quase se esquece da alma encantadora de suas ruas.

Assista a cena (13/17) de Amor à Vida em que Natasha presenteia Thales com o livro Insólita Metrópole 

Acesse o livro no site da Ateliê

A seguir, o registro de um desses passeios, na voz do escritor.

A FUNDAÇÃO MÍSTICA

“O corpo de São Paulo foi formado pela carne e o sangue de João Ramalho e Tibiriçá. A cabeça veio de Manoel da Nóbrega. Mas a alma de São Paulo veio de José de Anchieta. Já o governo veio de Santo André, a vila dos parentes de João Ramalho.”

 

CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO

MARQUESA DE SANTOS

“Toda vez que vou ao cemitério da Consolação visitar o túmulo de meus ancestrais, deixo uma rosa no túmulo da marquesa de Santos, que fica ao lado. Uma vez, quando estava depositando a flor, havia uma preta velha ajoelhada, rezando. Ela virou-se para mim e perguntou: ‘O senhor também é devoto da marquesa?’. Eu digo: ‘Sou’. E ela: ‘Comigo fez milagre. Pedi à marquesa para interceder junto ao professor Bardi. Consegui fazer uma exposição no Masp e estou aqui pagando a promessa’.”

 

PÇA. MARECHAL DEODORO

PIOLIM E QUINCAS

“Havia ali o bilhar do Quincas, irmão do Nelson Gonçalves. Joguei com ele muitas vezes, porque o lugar era um ponto de encontro de boêmios. Mas também ia até a Marechal Deodoro para conversar com o Piolim, palhaço que foi muito meu amigo a vida inteira e que então montava seu circo em plena praça.”

 

PÇA. DA REPÚBLICA

GUARDA ANTÔNIO

“Passei minha infância brincando lá, minha adolescência tomando sorvete na Japonesa ou garapa no Nosso Engenho, enquanto esperava a saída das alunas da Caetano de Campos. E havia um português muito bom, o Antônio, que era guarda do jardim. De noite ele cobria os mendigos com jornal, protegia os boêmios que ficavam dormindo nos bancos para curar a bebedeira.”

 

PARQUE DA LUZ

(HISTÓRICO DOMINGOS CARVOEIRO)

“Era a ermida de Domingos Luís, o Carvoeiro, uma figura mítica da história de São Paulo. Séculos depois o frei Galvão construiu o convento lindo que está ali até hoje.”

 

PARQUE DA LUZ

(PRÁTICO)

LUIS HUMBERTO GELFI

“Ele era de Bergamo, foi parar no Cairo, teve algum problema com uma mulher, teve de fugir. Veio sem dinheiro no navio, dando aula de dança para os passageiros. Desembarcou em São Paulo sem um centavo, na Estação da Luz. Atravessou para o jardim, olhou dali a torre da estação. Voltou, foi procurar o diretor, ofereceu-se para limpar o relógio. Foi o primeiro dinheiro que ganhou na cidade. Como sabia guiar, acabou ensinando os filhos de dona Veridiana Prado a dirigir automóveis – e acabou casando com uma amiga francesa dela, a Luíza. Ambos viriam a ser meus sogros.”

 

AV. IPIRANGA

ARACY DE ALMEIDA

“Eu era recém-casado. Um dia toca a campainha do apartamento. Era a Aracy de Almeida, dizendo: ‘Paulo, eu estou com muita angústia, não queria ficar no hotel. Posso ficar em sua casa dois ou três dias?’. Peço para a Emy [Emma Gelfi Bomfim] tirar as crianças do quarto, ela se instalou. Foi ficando. Voltava das boates de madrugada, fazia interurbanos intermináveis para a boate Vogue, no Rio de Janeiro, conversava com o Vinicius de Moraes, o Antonio Maria, até o amanhecer. Eu estava começando na vida e tinha de pagar contas de telefone astronômicas. Quase três meses depois, trouxe uma arara que ganhou de presente da boate Jangada. Quando tentei falar alguma coisa, ela cortou: ‘Eu respondo pela arara’. Levou o bicho para o quarto, ele comeu meus móveis, não aguentei e expulsei a ave. E ela: ‘Em solidariedade à arara, também me retiro’. Mas ela foi a mulher que melhor conhecia a Bíblia que vi em toda a minha vida – e também a que sabia mais palavrões.”

 

AV. SÃO LUÍS

MANUEL BANDEIRA

“Minha mulher Emy e eu ficamos sócios de uma galeria de arte que ficava no prédio Zarvos, onde antes era a casa do barão de Souza Queiroz, na Av. São Luís, bem em frente à biblioteca. Um dia, no lançamento de um livro do Manuel Bandeira, fizemos cartazes com os poemas. Chega o Lima Barreto, o cineasta que fez O Cangaceiro. Ele entra, olha os cartazes e vai direto para a mesa de autógrafos falando: “Bandeira, naquele poema tem um erro de português”. Ele largou o copo de uísque, nem precisou arregaçar os punhos, porque costumava cortá-los quando ficavam puídos. Levantou e gritou: ‘Erro de português é você, seu fotógrafo lambe-lambe. Ponha-se daqui para fora’. E expulsou o desafeto.”

Insólita Metrópole – São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim

Organizados por Ana Luiza Martins e selecionados pelo próprio autor, os textos de Paulo Bomfim e as imagens históricas de São Paulo que compõem este livro transportam o leitor para tempos e atmosferas da cidade, mostrando partes de seu processo histórico, e traduzindo a singularidade de seus espaços, de sua gente e de sua tão controvertida beleza.

Ana Luiza MartinsEstas crônicas de Paulo Bomfim são crônicas do cotidiano do mais emblemático morador de São Paulo. Um paulistano que é poeta e que, por isso, tem o dom de ver o que não vemos, muito além do que é rotineiro e reiterativo. E isso muda tudo. Ao restituir a história e o belo ao vivido de todo dia, Paulo Bomfim desconstrói esse cotidiano, remete o que na vida comum e repetitiva não tem sentido ao que sentido tem. Expõe as cores que o cinzento oculta, o que perdura naquilo que para os outros é passageiro. Os relacionamentos do cotidiano do Paulo menino e do Paulo jovem são os relacionamentos referenciais do parentesco próximo e distante, da família extensa dos paulistas de velha cepa, os que ficam para que a mudança necessária não se extravie nos descaminhos do acaso, do descaso e do esquecimento. A trama desse parentesco idílico atravessa todas as crônicas deste livro, como memória de uma São Paulo que, de muitos modos permanece, no coração de tantos, como cinzel que desbasta os excessos da modernidade e os descabimentos da indiferença e do utilitarismo. (José de Souza Martins)

O livro Insólita Metrópole – São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim, “organizado pela sensibilidade de Ana Luiza Martins, leva-nos a conhecer o coração da metrópole paulistana a partir de seus personagens, das dezenas de pessoas que perpassam a vida e as lembranças do poeta símbolo da capital paulista. Uma São Paulo de múltiplos agentes, que se encontram nas salas de visitas, nas salas de aula, nos bares, nos clubes, nas bibliotecas, nos gabinetes de trabalho, nas exposições de arte, nas livrarias. A intensa vida social que animava os espaços públicos contrastava e completava a hospitalidade das casas e dos apartamentos de portas abertas aos amigos e parentes. Uma São Paulo que, conquanto metrópole, guardava (e ainda guarda) a riqueza emanada dos vínculos entre seus habitantes, traços dos tempos e escalas provincianos, que ajudam contrapor sua aparente frieza”. (Paulo César Garcez Marins)

Paulo Lebeis Bomfim nasceu em São Paulo, em 1926, é poeta, membro da Academia Paulista de Letras, e ficou conhecido como O Príncipe dos Poetas Brasileiros. Iniciou sua carreira literária escrevendo no Diário de São Paulo, no Correio Paulistano e Diário de Notícias. Seu primeiro livro de poemas, Antônio Triste, lançado em 1946, com ilustrações de Tarsila do Amaral, recebeu o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, em 1947. Também escreveu contos, crônicas e paralelamente, atuou como produtor de rádio e televisão. Foi curador da Fundação Padre Anchieta e presidente do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Ana Luiza Martins é doutora em História Social pela FFLCH-USP, historiógrafa da Secretaria de Estado da Cultura (SP) e conselheira do Condephaat.

A ponte bandeirante

Viaduto do Chá ampliou o horizonte do paulistano, pondo fim a um confinamento espacial de 350 anos

José de Souza Martins | O Estado de S. Paulo | 11.11.2012

Viaduto do Chá (1929)

Os 120 anos do Viaduto do Chá, completados no dia 6, merecem registro e análise pela importância que ele teve na transformação do povoado paulistano na cidade que São Paulo é. Por ele, São Paulo atravessou do passado em direção a um novo presente e ao futuro. Tanto no real quanto no imaginário. Ele foi a Lei Áurea da cidade, libertando-a do confinamento espacial a que esteve condenada por 350 anos. O Viaduto do Chá, inaugurado em 1892, demolido em 1938 e substituído pelo que hoje conhecemos, mudou a economia da cidade, mas principalmente alterou a mentalidade dos paulistanos.

Num painel de bronze do século XIX, no Cemitério da Consolação, no túmulo antigo dos operários da Fábrica de Chapéus de Adolfo Schritzmeyer, há em relevo uma vista panorâmica do vale do Ribeirão Anhangabaú. A fábrica aparece na roça, ladeada de canteiros de verduras espalhados por toda sua extensão, a poucos metros do centro da cidade. Anhangabaú tido como maldito, é bom que se diga: desde antes da fundação da vila de Piratininga, era crença dos índios, e continuou crença dos moradores, que aquele era o lugar de Anhangá, versão indígena do demoníaco, um ente dos limites e confins. No folclore paulistano, ficou a cantiga infantil que celebra a ponte antiga e rústica que precedeu o viaduto imponente, em outro ponto:

“Eu fui passar na ponte, a ponte estremeceu. A água tem veneno, morena, quem bebeu, morreu”.
Análises antigas da água do Anhangabaú revelaram que ela continha arsênico.
É só se afastar poucas centenas de metros do centro que o paulistano descobre as encostas do outeiro transformadas em ladeiras: a Ladeira de São João, a Ladeira Porto Geral, a Ladeira General Carneiro, o Beco do Pinto, que desce para a Rua Frederico Alvarenga, onde ficava o necrotério. Resquícios da encosta que, com o muro de taipa, teve funções de muralha protetiva contra os ataques dos índios, como o ataque maciço de 1562, com seus inúmeros mortos e moradoras e moradores capturados e levados. Várias gerações de paulistanos foram educadas na cultura do confinamento, refugiadas quase ao redor do Pátio do Colégio.
A poderosa cultura do confinamento dos moradores, que atingiu sobretudo as mulheres, atingiu também os homens por meio do disseminado costume endogâmico de casarem-se com as primas, sempre alguém “de dentro” da própria família, numa enorme resistência aos “de fora”. Desdobramento do lugar da casa de família nessa cultura como lugar de refúgio e verdadeiro esconderijo em relação a uma exterioridade tida como espaço do estranho e do inimigo. A antiga vila e, depois, cidade ajustou-se espacialmente aos requisitos e ameaças desses temores de origem e restringiu-se ao espaço do chamado Triângulo, nos confins do estreito terreno entre o Tamanduateí e o Anhangabaú. Não por acaso, os aldeamentos de confinamento dos índios descidos do sertão e reduzidos à condição servil foram localizados no exterior dos limites representados pelo Rio Tiete e pelo Pinheiros, limites de um cenário da guerra contra o gentio. As pessoas passam e os vindouros se esquecem, mas as determinações espaciais continuam ditando suas regras de convivência, de proximidades e distâncias muito depois de passado o tempo de suas razões de ser.
Os paulistanos urbanos atravessaram os séculos confinados no centro. Sobreviveu desse costume, até hoje, a expressão “vou à cidade”, “estive na cidade”, para os moradores se referirem ao verdadeiro centro, que é o antigo. O Viaduto do Chá estendeu esse centro até o outro lado do ribeirão. Abriu e modernizou um território novo para a expansão urbana. De fato, para ir do Largo da Sé até o Largo dos Curros, atual Praça da República, antes era necessário passar pelo Largo de São Francisco, descer a atual Rua Riachuelo em direção ao Vale do Anhangabaú, atravessar o ribeirão pela Ponte do Lorena, ladear o Chafariz do Piques e o obelisco que ainda existe pela Ladeira da Memória, usurpada pelas escadas rolantes do metrô, e entrar pela Rua da Palha ou Sete de Abril. O viaduto encurtou o caminho e até diminuiu cansaços, com o bonde puxado a burro. Isso para quem quisesse pagar os tostões do pedágio. Na entrada do viaduto havia cancela e guarita com cobrador. Passava quem pagava. Quem não quisesse, que fosse pelo brejo ou desse a volta imensa.
Pode-se falar no viaduto como marco de nossa revolução urbana justamente porque foi uma das mais poderosas obras de demolição da mentalidade de confinamento dos paulistanos e dos paulistas de então. Ao alargar a cidade, ao expulsar as grandes moradias do centro, os novos espaços expressavam uma nova divisão do trabalho e uma nova espacialização da cidade. O Viaduto do Chá contribuiu para difundir o que é próprio do urbano e da modernidade: a fragmentação do modo de vida, a moradia num lugar, o trabalho em outro, a religião em outro, a festa em outro, o transitar como nova e decisiva atividade do estar em lugar nenhum para poder estar, em seu devido tempo, nos diversos lugares do novo modo de viver.

José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros, de Uma Arqueologia da Memória, da Ateliê Editorial.