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Obra-prima brasileira, em pleno século XXI

Renato Pompeu | Diário do Comércio

Coisas do Diabo Contra

Este belíssimo romance, Coisas do Diabo Contra, do escritor baiano radicado em São Paulo, Eromar Bomfim, lançado pela Ateliê Editorial, se insere na tradição da grande arte, nacional e internacional. Essa obra vai surpreender os críticos que alardeiam “o fim da literatura como obra de arte”. Eles se valem da argumentação de que, hoje em dia, estamos na era dos best-sellers programados. Os escritores não estariam mais preocupados com a estética, na forma, ou com as precariedades da condição humana, no conteúdo. Não estariam mais interessados em iluminar, por meio da beleza, os desvãos da alma de seus semelhantes. Pelo contrário, os escritores estariam interessados exclusivamente em publicar obras que o público quer ler, ou melhor, quer comprar. Essa atitude, inclusive, seria mais democrática do que a grande arte, muitas vezes difícil de entender. A literatura seria basicamente um exercício de entretenimento, não um exercício de atingir o que há de mais profundo entre nós, o senso de beleza, o horror tingido de fascínio pelo mal, e a sede eterna de justiça, felicidade e paz.

Pois é justamente a grande arte que Eromar Bonfim aspira. A trama, aparentemente é simples: um rico empresário quatrocentão se convence de que a única experiência que pode realmente engrandecer o ser humano é assassinar outro ser humano. Por meio de matar um semelhante, se chegaria à graça da plena realização de uma vida. Bomfim parece exaltar aqui o fascínio pelo mal, tão presente no interior de cada um de nós, cuja maioria procura exorcizar esse fascínio deleitando-se na fruição de histórias fictícias de crimes e de histórias reais de torturas e de genocídios.

Mas o que parecia, nas mãos de Bomfim, ser uma exaltação do mal, vai paulatinamente se transformando em seu contrário, o ataque contundente à banalidade do mal. O filho do empresário assassino, testemunha do crime de seu pai (este queria “educar” o filho para que assimilasse o gozo pelo sacrifício da vida de outrem), corre desesperadamente pelas ruas da cidade de São Paulo, fugindo ao horror do crime.

A cidade é um dos principais personagens do livro. E aqui Bomfim revela todo o seu talento de escritor. O autor novato, que se baseia mais na sua experiência de vida do que na sua criatividade, costuma inserir as ações de seus personagens em locais que o autor conhece, mas a maioria de seus leitores não. O autor novato sente, ele próprio, a “aura” que cada rua, bar ou prédio que descreve faz evocar. Mas o leitor, por não conhecer o lugar, não sente a “aura” do local, nem a evocação que dele emana. Um autor mais experiente pode, no entanto, criar lugares fictícios do qual emanam evocações universais. Monteiro Lobato, por exemplo, ao descrever um sítio, mencionava a casa, o paiol, o pomar, a horta, o curral, o estábulo, sem nunca esclarecer como esses pontos se relacionavam no espaço uns aos outros. A ideia de Lobato era que todo mundo tem a noção do que seja um paiol ou pomar, mas não se identificaria com a descrição de um sítio concreto, em que o paiol ficaria numa determinada posição em relação ao paiol.

Bomfim dá um passo adiante. Ele descreve ruas, galpões, prédios, casas e avenidas realmente existentes na cidade de São Paulo, mas o leitor que não conhece esses lugares sente o que significam, o que se vivencia em cada espaço, tal a profusão de sensações que o autor descreve como emanando de cada lugar. Um galpão na Mooca, rigorosamente descrito, ou o Jardim da Aclimação, cuidadosamente mapeado, evocam sensações universais e a vivência das emoções que cada lugar provoca será sentida por qualquer leitor em qualquer local do mundo.

Isso quanto à forma. Quanto ao conteúdo, Bomfim não só transforma em repulsa o fascínio inicial pelo ato de matar outra pessoa como vai muito mais além na condenação do mal. Ele demonstra que a orgulhosa cidade de São Paulo é um produto da sistemática perseguição e exploração dos índios pelos bandeirantes e da cruel exploração secular do ser humano pelo ser humano; o conforto de uns poucos foi sustentado pelo sofrimento e pela exaustão de muitos outros.

O ponto principal, entretanto, é que, dentro da tradição da grande arte, Bomfim cria uma linguagem nova, em que cada palavra e cada frase é cuidadosamente lapidada, de modo que o conjunto se frui como se fosse uma colorida escultura de sons.

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Uma sinfonia da linguagem

Renato Pompeu | Carta Capital

Coisas do Diabo Contra, de Eromar Bomfim

A chamada crise de criatividade da literatura nestes tempos pós-modernos parece na verdade um fenômeno da mídia que só dá divulgação a obras feitas segundo o padrão mercadológico consagrados pelos best sellers mundiais. Pois o fato é que a literatura brasileira deste século XXI produziu até o momento pelo menos três obras primas, os romances Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, O Rastro do Jaguar, de Murilo de Carvalho, e este Coisas do Diabo Contra, do baiano radicado em São Paulo Eromar Bomfim, obra que pode ser definida como “pós-pós-moderna” ou como “ultramoderna”.

Trata-se de uma sinfonia complexa em linguagem totalmente elaborada, quase clássica, como a de Os Lusíadas, de Camões, em que o tema central, o assassínio como aspiração ao sublime, transforma-se em seu contrário, a demonstração de que o mundo contemporâneo, em especial a elite da cidade de São Paulo, sempre se apoiara, ao longo dos séculos, na horrenda matança em massa, seja nas guerras, seja nas bandeiras, ou no trabalho como exploração do ser humano pelo ser humano. A paulistanidade entendida como metáfora do mundo, esvai-se em vivências entre realistas e oníricas de paisagens urbanas fantasmagóricas, doentias e sublimes.

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Leia a resenha escrita por Renato Tardivo

Contrafluxo de Consciência

Renato Tardivo

Coisas do Diabo Contra, de Eromar Bomfim

Dalton Trevisan, Sérgio Sant’anna, Raduan Nassar; mais recentemente, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Rinaldo de Fernandes, Marcelino Freire. Pode-se dizer que já há uma tradição em histórias cruéis na literatura brasileira; histórias em que diversas formas violentas de transgressão da lei ocupam papel central.

Coisas do Diabo Contra, romance de Eromar Bomfim, insere-se nessa temática. O livro se destaca inicialmente pelo projeto gráfico (ao fim, aliás, o leitor poderá relacionar aspectos materiais do livro com a trama narrada): antes do primeiro capítulo, uma série de fotografias de primeiros planos de uma metrópole alude a um cotidiano sombrio e feito de interrupções. E são justamente as interrupções que movimentam essa história: a morte que traz morte em uma cadeia interminável que transborda para a própria linguagem.

Matias Tavares de Aragão, após a morte da esposa, sente-se impelido a matar um homem. Leopoldo Tavares de Aragão, seu filho, presencia o gesto que trará desdobramentos para a sua vida e, por extensão, para a história (narrada por um empregado de Matias). O leitor talvez encontre aqui algo de Camus: as personagens erram contra si mesmas e, assim, constroem (ou destroem?) a sua trajetória (e a dos outros). Ao fluxo de consciência, contudo, equilibram-se descrições da geografia da cidade de São Paulo. Com efeito, um dos méritos do romance é este entrelaçamento entre mundo interno e mundo externo, consciência e mundo.

A banalização do mal, na trama, talvez seja alegórica das modalidades de vínculos que estabelecemos na contemporaneidade, mas com uma diferença fundamental. Enquanto no cotidiano (aquele das fotografias do início) o crime se presta à desimplicação dos sujeitos, em Coisas do Diabo Contra, o movimento é radicalmente oposto: ao escancarar que a história se movimenta pelo desligamento, o leitor certamente sairá deste livro mais implicado ao mundo em que vive e que constrói/destrói.

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Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Eromar Bomfim lança Coisas do Diabo Contra em Paraty

Cenas de crime e violência foram presenciadas no último sábado (6), durante a 11ª Feira Literária Internacional de Paraty. Não houve vítimas, apenas espectadores: era o lançamento do romance Coisas do Diabo Contra, de Eromar Bomfim, que teve trechos lidos pelos atores José de Abreu e Domingos Montagner. O evento lotou a Casa do Autor Roteirista, espaço que levou uma programação paralela de debates sobre literatura e audiovisual à Flip.

Nas palavras do autor, “o livro é a história de um assassinato e de um parricídio. Os personagens são revoltados por condição de fraqueza da humanidade, e conseguem resolver esta fraqueza por meio de gestos radicais e violentos”. A trama é contada por um ex-funcionário de Matias Tavares de Aragão, megaempresário cuja perda da mulher lhe causa uma epifania: só o crime justifica a existência. A partir de uma sombria proposta de negócios, ele envolve sua família em uma cadeia de episódios sangrentos. Sem entregar detalhes, o Bomfim completa: “Os personagens elaboram a ideia de que, pela posse do outro, há uma superação da morte”.

O livro tem projeto gráfico elaborado pela Casa Rex, do artista plástico Gustavo Piqueira.

Domingos Montagner (com José de Abreu ao fundo) lê trechos de Coisas do Diabo Contra

Domingos Montagner (com José de Abreu ao fundo) lê trechos de Coisas do Diabo Contra

Antes do lançamento, Eromar Bomfim participou da mesa “Sentidos do Crime: Formas Literárias de Tratar o Crime na Literatura e TV”, com Paulo Lins (Cidade de DeusSuburbia) e Luiz Eduardo Soares (Elite da Tropa), mediada pelo cientista político Carlos Novaes. Os autores falaram sobre suas linhas particulares de exploração do crime como objeto literário: Paulo Lins pelo viés social (“o crime como reação”), Luiz Eduardo Soares pela antropologia e Eromar pela investigação dos limites da crueldade — ou como acabou-se definindo no debate, “o crime como escolha”.

Eromar Bomfim (esq.) e Carlos Novaes durante o debate

Eromar Bomfim (esq.) e Carlos Novaes durante o debate

Após o debate e a leitura de dois trechos de Coisas do Diabo Contra — que deram ao público uma ideia das situações extremas a que Bomfim expõe seus personagens –, o autor iniciou a sessão de autógrafos. O livro também terá lançamento em São Paulo, que será anunciado em breve.

O editor Plinio Martins e Eromar Bomfim durante a sessão de autógrafos

O editor Plinio Martins e Eromar Bomfim durante a sessão de autógrafos

 

E Fizerom Taes Maravilhas… Histórias de Cavaleiros e Cavalarias

E Fizerom Taes Maravilhas... – Histórias de Cavaleiros e Cavalarias

Organização de Lênia Márcia Mongelli

Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa

O livro traz 33 artigos sobre matéria cavaleiresca e, entre outras questões, mostra que as aventuras de D. Quixote, de Miguel de Cervantes, não foi o golpe de misericórdia desferido sobre os romances de cavalarias medievais e renascentistas, pois a ideia de Cavalaria continua vivíssima, presente nos imaginários modernos

Em maio de 2011, pela primeira vez no Brasil, foi realizado um encontro internacional sobre matéria cavaleiresca. Esse evento teve organização conjunta da área de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP – Brasil), do Centro de Estudos Cervantinos e da Universidade de Alcalá de Henares (Madri – Espanha) e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal). O Congresso Internacional sobre Matéria Cavaleiresca girou à volta do tema “Histórias de cavalarias por terras de Espanha, Portugal e Brasil” – amplo o suficiente para estimular um debate especializado que resultasse na sensibilização para o teor nem sempre bem conhecido dos romances de cavalaria, tanto os medievais, quanto os quinhentistas.

Esse Congresso teve a participação de 91 pessoas: trinta professores estrangeiros, vindos de Espanha, Portugal, França, Itália, Rússia, México, Colômbia, e Argentina; 31 professores brasileiros, dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Pará, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e 30 alunos de pós-graduação, 4 estrangeiros e 26 brasileiros. A seleção dos artigos publicados neste livro tiveram dois requisitos básicos: pertinência temática – estudos sobre a matéria cavaleiresca em prosa ou verso situada, mais ou menos, entre os séculos XII e XVII; e diversificação geográfica, de modo a representar, da melhor maneira possível a universalidade das pesquisas e dos pesquisadores. Os 33 textos reunidos neste livro dão bem a medida desse rico intercâmbio de experiências e informações.

De onde vem o gosto pelos romances ou novelas ou livros de cavalarias? Antes de tudo, de sua natureza fantasiosa – permeada de monstros, gigantes, fadas, castelos, animais estranhos, acontecimentos miraculosos, e de sua apologia do heroísmo guerreiro – com um exército de cavaleiros que, além de vassalos fiéis e imbatíveis, são em geral belos e perfeitos amantes. Mas esses ingredientes aliciantes, pura ficção, estão intrinsecamente plantados na História de seu tempo e são, por isso mesmo e como qualquer boa literatura, uma poderosa fonte de conhecimentos do Homem e da sociedade que o rodeia. Basta conferir a diversidade temática dos artigos reunidos neste livro.

Organizado por Lênia Márcia Mongelli, introdução de Hilário Franco Júnior, e artigos de: Ademir Aparecido de Moraes Arias, Adma Muhama, Adriana Azucena Rodrígues, Alla Markova, Albano Figueiredo, Antoni Rossel, António Manuel Ribeiro Rebelo, Aurelio Vargas Díaz-Toledo, Dominique Barthélemy, Elisa Borsari, Fernanda Olival, Isabel Almeida, Javier Roberto Gonzáles, Jerusa Pires Ferreira, José Carlos Ribeiro Miranda, Isabel Correia, Ana Sofia Laranjinha, José Manuel Lucía Megías, Lidia Amor, Manuel Ferreiro, Maria Ana Ramos, María Carmen Marín Pina, María del Rosario Aguilar Perdomo, Maria do Amparo Tavares Maleval, Mónica Nasif, Nanci Romero, Paulo Roberto Sodré, Piero Ceccucci, Raúl Cesar Gouveia Fernandes, Sílvio de Almeida Toledo Neto, Teresa Amado, Xosé Bieito Arias Freixedo, Yara Frateschi Vieira e Zulmira C. Santos.

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Novo romance da Ateliê: Trajetória em Noite Escura, de Naoya Shiga

Livro Trajetória em Noite Escura, de Naoya ShigaA Ateliê Editorial lançou recentemente o romance Trajetória em Noite Escura. Escrito por Naoya Shiga, o livro conta a história de Tokito Kensaku, personagem principal e uma espécie de alter-ego do autor, e tem como pano de fundo o processo de modernização e ocidentalização da sociedade japonesa. Kensaku vive em conflito consigo mesmo e com o mundo que o rodeia: ou pertence à velha guarda e não aceita os novos costumes que se impõem, ou tem espírito inovador. Ele sente dificuldade de encontrar-se no limiar entre o velho e o novo e para recompor sua identidade faz três viagens, que irão revelar para o leitor o eu profundo do protagonista.

No começo do século XX, o Japão, um país de tradições milenares, inicia um processo de abertura para o Ocidente e recebe uma série de influências culturais. Uma delas, no âmbito da literatura, será o naturalismo. Assimilado e desenvolvido pelos grandes escritores japoneses do século, a partir da leitura de Zola, Maupassant, Turgueniev, Dostoievski, o movimento representará artisticamente essa época de profundas transformações e muitas incertezas. Naoya Shiga representa esse período, é um dos principais expoentes da literatura japonesa do século XX e levou cerca de vinte e cinco anos para escrever este romance, sua obra de maior fôlego.

Traduzido por Neide Hissae Nagae, esse trabalho faz parte da sua dissertação “Ficção e Realidade em Trajetória em Noite Escura (An’ya Kôro), de Naoya Shiga” apresentada em 1999, à área de Língua, Literatura e Cultura Japonesa da Universidade de São Paulo. Nagae foi incentivada por sua banca examinadora à publicação dessa tradução, graças ao valor literário da obra e ao ineditismo dos trabalhos do escritor em português. Este livro é estruturado em duas partes e cada parte é subdividida em dois tomos, relativamente longos, com doze a vinte capítulos, totalizando 65 capítulos. Além das duas partes, há uma abertura com o prefácio, que traz os informes sobre o relacionamento de Kensaku, seus pais e o avô paterno, através das memórias da infância do personagem.

Naoya Shiga (1883-1971), escritor bastante prestigiado no Japão, se destacou por seu estilo singelo, sucinto e preciso nas explanações dos detalhes das realidades objetivas que nos cercam – análises detalhadas dos melindres psicológicos do ser humano. Shiga fez parte do grupo Shirakaba, que reunia escritores e pintores apreciadores das literaturas e artes plásticas do Ocidente e Oriente. Apesar de discorrer sobre temas variados em suas obras, sua tônica sempre foi a captação das inconstâncias psicológicas que se processa no protótipo japonês culto, em seu viver do dia a dia, cujo exemplo máximo é sua obra Trajetória em Noite Escura.

Adrienne Myrtes lança novo romance em evento da Balada Literária

Dentre as inúmeras programações da Balada Literária, Adrienne Myrtes lançará seu novo romance Eis o Mundo de Fora, no último dia da festa literária, domingo, às 18h, no Centro Cultural b_arco, em São Paulo. O evento será seguido pelo festa de encerramento da Balada, às 20h.

Este é o sexto ano da Balada Literária, que tem Marcelino Freire como curador e Augusto de Campos como homenageado.

Acesse a programação completa da Balada Literária 2011

Eis o Mundo de Fora, romance de Adrienne Myrtes

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Cada prato tem seu tempo de preparo. Assim é com o conto, a novela e o romance.

por Alex Sens | @alexsens

Até cinco minutos para tirar os talos das folhas de rúcula, cortar as rodelas de tomate e palmito, os gomos de muçarela de búfala, juntar os temperos, pulverizar tudo com novos sabores e regar a salada com azeite extra-virgem. Até uma hora para misturar a farinha, o leite, os ovos, o fermento, o chocolate em pó e o extrato de baunilha, colocar a massa no forno pré-aquecido e cortar o bolo ainda quente depois de assado. Até seis horas para fazer um Boeuf Bourguignon com cebolas e cogumelos glaceados, cortando a carne em cubos, fritando o bacon, dourando a cenoura, cortando as cebolas e derramando meia garrafa de Chianti sobre tudo. Cada receita, cada prato preparado, tem e precisa do seu próprio tempo de vida, assim como um corpo no qual se molda e órgãos vitais para que exista em plena harmonia com quem o concebeu. Assim também é a arte da ficção, com suas diferentes composições em prosa.

A salada é o conto: curta duração de preparo, poucos ingredientes, atenção maior dada ao tempero — a trama. O conto é uma forma narrativa de menor extensão, sem, no entanto, um tamanho exato definido. É menor do que uma novela, chegando muito próximo dela, fazendo charme como quem quer um pedaço da muçarela de búfala. Mas também é maior do que seu moderno desmembramento, dividido em subcategorias, chamadas de minicontos e microcontos, como no livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. O conto é menor porque nele cabe a fugacidade da história contada, é voltado para sua essência, pode começar no meio e terminar de forma inopinada, tem valor sentimental maior para o leitor de metrô ou o leitor de café, cuja disgestão se dá leve e despercebida como almoçar uma salada. Se a fome volta, lê outro conto, o lanche satisfaz o tempo estreito e logo vem a saudade dos personagens fugidios. Em Várias Histórias, de Machado de Assis, nenhum conto tem mais do que 30 páginas, mas nem por isso parece faltar temperos ou ingredientes, porque seu formato se mantém, se completa. Assim como em Refluxos, de Edson Valente, O Voo Noturno das Galinhas, de Leila Guenther, e Angu de Sangue, de Marcelino Freire. O conto surge entre fogueiras e noites estreladas, com rodas de amigos atentos, histórias a serem contadas enquanto o chá não esfria e a noite não se ilumina com a visita da alvorada.

O bolo é a novela: média duração, ingredientes medidos e pesados, atenção maior dada à quantidade de fermento e aos 180 graus do forno, para que não ultrapasse o tempo, extravasando a cor das bordas e as fendas que surgem do inchaço. A novela é uma outra forma narrativa que se equilibra perigosa entre o conto e o romance, maior do que aquele e menor do que este. Algumas novelas são equivocadamente chamadas de romance quando chegam às cem páginas, embora pareçam romances por sua divisão em partes ou capítulos, personagens mais profundos e duração da história maior do que no conto. Ao contrário do romance, e igualmente ao conto, a novela tem esse caráter lacônico, que quando parece estender-se, continuar seu caminho em direção ao romance, acaba. É maior do que o conto porque tem um desenvolvimento maior de enredo, com número igual ou maior de personagens, e menor do que o romance pelo menor uso de técnicas estilísticas de narrativa. O Filho do Crucificado, de Nelson de Oliveira, uniu ambos: novela e contos, em menos de 180 páginas. Alguns livros reúnem uma única novela, como A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e outros mais do que uma, parecendo, como objeto visualmente individualizado, um romance, como é o caso de A Trilogia de Nova York, de Paul Auster, cujo volume, como indica o título, traz três novelas.

Finalmente, o Boeuf Bourguignon é o romance: longa duração em sua feitura, muitos ingredientes, cada qual com seu tempo e modo de preparo, atenção redobrada nos detalhes, porque sem eles o sabor narrativo perde sua lógica. O romance é a ficção em prosa mais difundida, compartilhada, produzida e adaptada da literatura mundial. E. M. Forster, autor de Passagem para a Índia, afirmou que um romance não tem menos do que 50 mil palavras, e pela extensão da grande maioria é fácil diferenciar um romance de uma novela. Nada foi inventado além do romance, ele é seu próprio limite ilimitado, ou seja, não existe nada maior do que ele, só ele mesmo, de 50 mil palavras até a criação tornar-se exangue — tanto num único volume, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, ou Ao Farol, de Virginia Woolf, como em vários, quando a história é comumente longa, caso de Finnegans Wake, de James Joyce, e Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

A diferença entre os pratos está em seu modo de preparo e quais sabores carregam, sempre de acordo com seus chefes de cozinha, os escritores. Aqui, cada refeição pode ser repetida inúmeras vezes, saboreada sem moderação, e intercalada com outras tão interessantes quanto. Ler ou escrever um conto, uma novela, ou um romance nada mais é do que experimentar a vida ficcionada de diferentes formas: com os olhos, com as mãos, com garfo e faca, com uma simples colher. Vai querer sobremesa?

Dicas de livros do Guia da Folha – Livros, Discos, Filmes

Romance Distopia, de Hélio Franchini NetoDistopia

Hélio Franchini Neto

Um dos ramos mais prestigiados da ficção científica, até mesmo por quem não aprecia o gênero, é o das narrativas distópicas. A esse ramo pertencem clássicos da literatura como “1984”, de George Orwell, “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “Farenheit 451”, de Ray Bradbury.

A palavra “distopia” vem do grego (dys + topos) e significa “lugar do mal”. Antônimo de “utopia”, o termo indica o território em que a liberdade e os direitos civis mais básicos foram suprimidos. O romance de estreia de Hélio Franchini Neto dialoga com o de Orwell, ao apresentar um mundo futuro dividido em três Estados em guerra: o dos democratas, o dos libertaristas e dos teologistas.

O personagem central é um jovem democrata que, ao cair prisioneiro do exército libertarista, dá início a uma jornada que o levará também aos teologistas e a uma descoberta surpreendente. Apesar do excesso de descrições e digressões, que emperra um pouco o ritmo da narração em primeira pessoa, “Distopia” é um livro interessante, de uma nova promessa da ficção científica brasileira. (Nelson de Oliveira)

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Livro de Poesia Extravio Marinho, de Simone Homem de MelloExtravio Marinho

Simone Homem de Mello

Há muitos anos Simone Homem de Mello mora na Alemanha. Sua poesia chega marcada por essa vivência e essa convivência com outra paisagem. Em Extravio Marinho, seu segundo livro, o leitor entra numa paisagem truncada pela própria linguagem, que não permite uma contemplação tranquila. Sua poesia é descritiva, porém suas imagens chegam fragmentadas, criando dificuldade de leitura. Como lembra Horácio Costa, no posfácio (“Extravio marinho para vulcanologistas”), Simone como que tritura o legado da cultura europeia com um lirismo rarefeito, quebradiço. A imagem se forma e se deforma pelos estilhaços – pelo que restou.

A dificuldade de sua poesia é a de entrar nesse mecanismo de desconstrução de desfoques, como se pode ler numa passagem de longo poema “Deep Play”: “perda:/é como ver alguém aparecer à porta/ e mirar, em vez do homem, o trinco:/ da imagem/ extraviada no fundo de uma salina”. (Heitor Ferraz Mello)

Promoção Dia dos Namorados

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“No frigir dos ovos, tudo fica às claras” – Orações Insubordinadas, Carlos Castelo
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Contos, humor, ficção, romance, poesia… Uma lista bem-humorada e romântica de 9 livros, especialmente separados pela Ateliê, para todos os tipos de casais.
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