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O psicolirismo cotidiano de Rita Moutinho

Leo Barbosa | zonadapalavra

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoNão há atividade que ponha o subconsciente mais à tona que o ato de fazer literatura. Se houver, talvez se estabeleça através dos sonhos. Então aqui se instaura a semelhança entre a literatura e a psicanálise: “Já que a literatura carrega nos seus flancos o não-consciente e já que a psicanálise traz uma teoria daquilo que escapa ao consciente, somos tentados a aproximá-las até confundi-las”, nas palavras do psicanalista Jean Bellemin-Noel. Afinal, ambas as ciências trabalham com a fala e tendem a revelar mais do que as linhas aparentam carregar.

Podemos inferir isso da leitura de Psicolirismo da Terapia Cotidiana, (Ateliê Editorial, 2013), de Rita Moutinho. Após anos de terapia, a autora segue em catarse, ainda que guiada pelo rigor formal dos seus versos, para aprender a conviver com suas incertezas, medos, pensamentos fúnebres, efemeridades e temor da finitude. Mas a esperança segue firme: “Minhas asas estão atrofiadas/ no meu céu são opacas as estrelas,/ mas todas as desgraças, vou prendê-las,/ para as horas não serem tão coitadas. […] Pra azul destino quero um passaporte./ A ave quer voar, não quer a morte!” (P64)

Nesse processo de transferência a cura pela palavra faz-se imprescindível. O eu-lírico necessita encontrar-se com o passado diante do terapeuta para que haja êxito em seu processo de superação. A psique da paciente responde com psicolirismo de forma condensada e derramada.

A obra é dividida em quatro estágios: “Tempo nublado”, “Tempo instável”, “Tempo parcialmente nublado, passando a límpido” e “Céu quase limpo com Clarões no Horizonte” e por estes vai interrogando por via da filosofia e de conhecimentos mitológicos. O eu-lírico sabe que agora é preciso caminhar sozinho. É hora de sair do divã e retomar a rotina que tanto foi marcada por chuvas de perdas, por céus nublados enquanto desejava um cotidiano ensolarado.

Rita Moutinho mostra-se uma poeta madura, conhecedora dos recursos de linguagem, do manejo dos versos, da forma, e consciente do estranhamento provocado pelas metáforas. Todavia, inevitavelmente, ao abusar do soneto, por vezes esbarra em rimas pobres como podemos conferir na página 93 da obra em questão. Peca em combinações do tipo: poucos/loucos, sangria/melancolia, ventosas/dolorosas, cura/alvura, artístico/místico etc.

Uma das marcas de Moutinho é o frequente uso de antíteses: “Venho disposta ao forte e ao frágil,/ extremar-me firme e também volátil./ Chego tão vida quanto morte,/ me faço aqui, como exilada./ Articulo a fala, me defino muda/ e penso, nas raias da filosofia:/ somos dois multiplicados ao nunca.” (P 91).

A última parte do livro assume tom de despedida como se o cotidiano se encerrasse, como uma rotina fosse quebrada pela desilusão de viver. Mas também assume novas perspectivas a partir da rebobinação de suas memórias como forma de fazer um balanço para poder prosseguir.

A poeta tem estilo próprio ainda que caminhe pela tradição. Narra com paixão seus dramas e tramas. A cada final dos seus poemas ouve-se um estampido. É a vida saindo. É a vida entrando. Aqui ela faz seu registro, convida-nos a “uma viagem interna, tendo a alma como lanterna”. Afinal, onde podemos encontrar verdade maior senão explorando a nossa realidade secreta que melhor se exprime em nosso cotidiano?

Acesse o livro no site da Ateliê

Geografia do inconsciente & outras catarses

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoRonaldo Cagiano 

Uma das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea, autora, dentre outros, de Romanceiro dos Amantes (1999) e Sonetos de Amores Mortos (2006) a escritora, crítica e ensaísta carioca Rita Moutinho acaba de lançar uma nova safra poética, numa incursão que lhe proporcionou um profundo mergulho existencial, dialogando com a psicanálise para explicitar poeticamente questões íntimas, sentimentais e artísticas, abordadas ao longo sua trajetória afetiva e intelectual, a partir a da visão de um paciente em terapia.

Realizando uma profunda simbiose com a obra freudiana, tanto no título quanto nos textos poéticos, Psicolirismo da Terapia Cotidiana (Ateliê Editorial, SP, 2013, 194 pgs., R$ 46) recorre à experiência da autora com a psicanálise, panoramizando vários anos de suas sessões de análise, por meio de um percurso crítico e ao mesmo tempo catártico dessa viagem ao insondável do inconsciente, tanto individual quanto coletivo.

Não é a apologia da terapia psicanalítica ou qualquer outra tentativa de homologação do cenário de um consultório nem mesmo a extrapolação da reserva entre terapeuta e paciente que a autora mapeia, como se fosse extensão de um longo processo de descoberta ou cura que o leitor vai encontrar nessa obra.

Aqui, é a poesia possível que ela procura – e encontra – na angústia, na inquietação metafísica, no desassossego da alma, nos vácuos espirituais, na instabilidade dos afetos e emoções. Enfim, é a tentativa poética de desmistificar também as relações do ser diante dessa dolorosa geografia nos anos em que o divã por testemunha e os escuros íntimos como cúmplices contribuíram para que a poeta realizasse a transição entre  os cipoais do mundo exterior e os labirintos e nuvens dos becos-sem-saída de nossos temores e agruras.

Cada poema é uma projeção onírica do desejo de superar perdas, vazios, silêncios, incômodos, apartheids, insularidade psicológica e tudo o que apequena o ser diante da opressão e das urgências que a nossa própria condição nos impõe. E em cada verso, a artista que dosa sua inquietude com o facho luminoso de um lirismo tenso e denso, parece ir des(a)fiando o fio de Ariadne, para percorrer até o fim o espanto e a dúvida de um caminho escuro, mas passível de ser alcançado, para neutralizar os minotauros que ainda vicejam e atormentam.

Dividida em quatro momentos – Tempo nublado, Tempo instável, Tempo parcialmente nublado, passando a limpo e Céu quase limpo com clarões no horizonte – a poética de Rita Moutinho desloca-se pelas estações da mente e do corpo, entre versos livres e  forma fixa, alternando tradição e vanguarda, num claro indício de simbiose entre os próprios estados que o indivíduo experimenta em sua quotidiana lida, no campo interior e na vida prática.

Por meio dessa poesia que celebra as ancestrais dicotomias de que somos forjados, a poeta, com peculiaridade estilística e paixão, narra suas paixões e seus fracassos, seus delírios e suas esperanças, suas explosões e seus recolhimentos, suas chamas e seus definhamentos, pluricanta quedas e tormentos e faz da depurada arquitetura de seus versos, uma catapulta para compreender esse recalcitrante dilema, essa luta dialética (que também é ética e estética) entre Eros x Thanatos, vida x morte, da qual não escapamos, mas podemos remediar, exorcizando lutos e lutas, como ela o faz, com maestria e pungência, moldura de novo olhar sobre o que a cerca e a faz sentir viva.

Em Rita Moutinho, a palavra em pleno estado de graça encontra o seu apogeu para juntar os cacos de nossas andanças e recriar, como num caleidoscópio, ou numa polifonia de gritos & sussurros,  todas as possibilidades de transformar a memória desse caos e as débâcles do viver e sentir, ressignificando a vida até então pressurizada nos containeres da individualidade, das conveniências, das demandas e urgências de uma civilização contemporânea que elegeu, de forma fetichista, o mercado e a competição, colocando em combate permanente o ser e o ter.

Rita nos diz que é possível sair dessas algemas, romper amarras, implodir as celas do pensamento, que não há confessionário nem terapia maior que a palavra, cuja profilaxia e eficácia desmantela com o que nos aprisiona, inviabiliza e proscreve. Pois ela nos assegura e sinaliza que “Quem faz um poema abre uma janela./ Respira, tu que está numa cela/ abafada,/ esse ar que entra por ela./ Por isso é que os poemas têm ritmo/ – para que possas profundamente respirar./ Quem faz um poema salva um afogado”.

E é nessa “Viagem interna,/levando a alma/ como lanterna” que a poeta nos aponta o caminho. Bem o disse Freud: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” Assim como Rita o fez, sua clínica pessoal é o poema, instância em que a subjetividade se expõe sem mesuras, porém sem apelação sentimentaloide, para interditar toda melancolia e realizar uma reflexão objetiva, ainda que sob o pálio de uma inflexão pessoal e intimista, sobre suas vivências e seus confrontos, sobre seus contatos e seus desconfortos, algo tão humano e universal.

E nesse balanço-testemunho-testamento, a mulher ressurge a partir da percepção da poeta que, agudíssima, enfrenta a travessia, para compreender, além das enfermidades que tantas vezes esterilizam corpo & alma, a sensação de nossa finitude e de neutralidade dos oásis nos desertos de nossos questionamentos, pois nos evocando mais a busca do que o encontro de verdades prontas, Rita Moutinho desfere o golpe de misericórdia contra o estanque e imutável das convicções inúteis: “Minhas certezas se evaporam,/ e as perguntas são rarefeitas como gases./ Suas respostas?/ São miragens, não oásis.”

Acesse o livro no site da Ateliê

Comunhão em Quatro Tempos

Renato Tardivo

Literatura e Psicanálise

Se Freud não escreveu muito sobre a relação entre literatura e psicanálise – embora usasse e abusasse das citações literárias, se valesse de referências da literatura clássica para a criação de conceitos e o único prêmio que recebeu em vida tenha sido o Goethe –, alguns psicanalistas contemporâneos tomaram essa relação como objeto de investigação. Talvez possamos dividir esses estudiosos em duas vertentes: aqueles que vislumbram na psicanálise uma poderosa ferramenta de leitura e análise de texto (perspectiva iluminista adotada inclusive por alguns segmentos da crítica literária) e aqueles que propõem certa analogia entre as duas áreas e, nesse sentido, não se valem de conceitos psicanalíticos para traduzir uma obra (ou a biografia de seu autor), mas valorizam a psicanálise em seu potencial poético e libertador.

Há, ainda, obras literárias que lidam com aspectos da relação entre psicanálise e literatura. Também aqui podemos encontrar as duas vertentes tratadas acima: há textos, em prosa ou verso, que recorrem à psicanálise de modo didático e ilustrativo, mas há escritores que optam pela entrada da psicanálise pela via da criação, produzindo obras inventivas. Menciono, a esse propósito, Contos do Divã, de Sylvia Loeb, livro que já resenhei neste espaço (leia aqui a resenha). Além disso, como sabemos, é possível vislumbrar potencial literário em alguns relatos clínicos redigidos por psicanalistas. Vale lembrar que: 1) o próprio Freud explicitara nos Estudos Sobre a Histeria (1895) a semelhança entre seus casos clínicos e as novelas; 2) em carta enviada a Arthur Schnitzler (não revelada enquanto Freud era vivo), o pai da psicanálise se dirigira ao escritor como seu duplo; 3) novamente, cabe a menção ao Prêmio Goethe.

Barco e Mar

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita Moutinho

Ocorre que esses textos na interface da psicanálise e literatura são predominantemente escritos da perspectiva do analista. Menos comuns são os textos escritos da perspectiva do analisando. Psicolirismo da Terapia Cotidiana, que reúne excelentes poemas de Rita Moutinho, insere-se nessa vertente. O livro é composto por poemas em versos livres e também por sonetos, tanto o inglês, com os 14 versos unidos, como o que traz quartetos e tercetos separados. A autora declara na Apresentação que os sonetos foram escritos nos anos 2000 e os demais nos anos 80, mas todos os poemas dizem respeito ao seu período de análise (anos 80) e quase sempre dirigem-se ao analista.

Divididos em quatro tempos: “Tempo Nublado”, “Tempo Instável”, “Tempo Parcialmente Nublado Passando a Límpido”, “Céu Quase Limpo com Clarões no Horizonte”, o livro reúne a experiência de uma mulher em análise. Como se vê, trata-se da terapia cotidiana reescrita com psicolirismo – e o título do livro dialoga com Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), texto em que Freud se propõe a apresentar noções básicas de sua teoria.

A transferência, questão central na psicanálise e também nas artes, uma vez que ao entrar em contato com uma obra transferimos emoções e afetos, talvez seja um dos principais elementos do livro. Mas, sem a frieza dos textos teóricos, há uma espécie de resgate visceral da relação transferencial vivida com o analista, que, no início, sustenta a presença da persona lírica. Cito versos de alguns poemas da primeira parte: “Estou dissolvida, sem capacidade de luta, / sem verbalização que organize / o medo, o desconcerto, o dúbio”; “Futuro, nele crer, isso e mais nada”; “Doer, doer de novo / a dor que é passada”; “Ah, quando poderei sã navegar, / se sou a um só tempo barco e mar?”.

Casamento Estranho

Ao longo do livro, conceitos da psicanálise aparecem aqui e ali, mas não são o foco; ocupam um lugar invisível que adentramos porque os versos são endereçados ao profissional cuja escuta é atravessada por eles. O que atravessa o Psicolirismo da Terapia Cotidiana é a palavra, que se refere à palavra, para terminar na… palavra.

Se já não bastasse a qualidade dos poemas, eles ainda se perfazem em uma unidade narrativa: o caminho em direção à alta da paciente. Já perto do fim, mesmo “que não há fim no desfecho”, o “Soneto da Comemoração do Insight” é assim finalizado: “Sermos par na tristeza e na alegria, / metáfora de núpcias: terapia”. Com efeito, Rita Moutinho reconstrói com lirismo esse casamento estranho, em que um “beijo de despedida” é “fraudar as regras” e o sucesso implica separação, tornando público, mesmo que por meio da persona lirica, um processo tão íntimo e fazendo da experiência de separação com o analista uma possibilidade múltipla de comunhão e abertura com os outros: agora, leitores.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Literatura ou Psicanálise?

Renato Tardivo

Contos do Divã, de Sylvia LoebContos do Divã, da psicanalista e escritora Sylvia Loeb, coloca (já a partir do título) a seguinte pergunta: psicanálise ou literatura? Com efeito, a questão é antiga e, mais de uma vez, foi discutida pelo próprio Freud. Em Estudos sobre a Histeria (1893-95), o pai da psicanálise afirma que seus casos clínicos guardavam mais semelhanças com as novelas do que com os relatos científicos. De modo ainda mais contundente, em uma carta de 1922 endereçada ao escritor Arthur Schnitzler e que não veio à luz enquanto o psicanalista era vivo, Freud confessa: “Penso que o evitei a partir de uma espécie de temor de encontrar meu duplo”.

Entre nós, alguns são os estudiosos do tema: Noemi Moritz Kon (que, aliás, trabalhou em uma de suas pesquisas justamente a carta de Freud a Schnitzler e, em outra, construiu uma novela acerca do período de criação da psicanálise), Yudith Rosenbaum, Fabio Herrmann, Fernanda Sofio, entre outros.

Sylvia Loeb, em Contos do Divã, mergulha na questão sem precisar falar diretamente a respeito (a não ser no breve pós-escrito). O livro é uma coletânea de contos, e dos bons. Sua especificidade? São frutos da escuta clínica da autora, em sua vasta experiência enquanto psicanalista.

Na primeira parte, intitulada “pulsão de morte…”, a ambiência ficcional das narrativas é o consultório; na segunda, “… e outras histórias”, os relatos são ainda mais breves e, conquanto se refiram aos mistérios da alma humana, não são recortes de sessões de análise. Há, ainda, a seção “Um texto, quatro olhares”, com comentários sobre o livro, por Cristina Perdomo, Luís Carlos Menezes, Silvia Leonor Alonso e Sérgio Telles.

Nos contos da primeira parte, em vez de casos “bem sucedidos”, as narrativas dizem respeito a análises que não foram adiante – como se tivessem terminado antes do fim. E é nessa medida que os contos funcionam bem, porque exploram, a partir da relação entre analista e analisando, a dimensão trágica da existência.

Na segunda parte, quem conta é o narrador onisciente – em uma primeira interpretação, a própria analista, que amalgamaria vestígios de sua escuta nesses instantâneos. Mas podemos também sugerir que as outras histórias foram narradas pelos pacientes que, após a análise, mesmo “interrompida”, enfim puderam olhar para a própria destrutividade e transformá-la em poesia. Por que não?

Literatura ou psicanálise? – voltamos à questão. Diferentemente de registros que pretendem imitar a dinâmica de uma terapia por meio de roteiros técnicos, como ocorre na série televisa “Sessão de Terapia”, sobre a qual já escrevi neste espaço, Contos do divã é um relato visceral. Não se trata de vestir a literatura com os traços da psicanálise, e tampouco se pode afirmar que se está diante de uma psicanálise literária.

Psicanálise e literatura, aqui, comparecem com igual intensidade. Se a autora obtém êxito em escrever a clínica, é também justo dizer que os contos têm vida própria e não se subordinam à psicanálise. Ainda, se o trágico encontra nas artes um campo fértil, também a psicanálise lida com o seu atravessamento.

A opção “inconsciente” da autora pelos casos clínicos em que a “interrupção do tratamento era o mais evidente”, mesmo que a fim de “mostrar com todas as letras as dificuldades e os sofrimentos de todos os atores envolvidos”, como afirma Sylvia no pós-escrito, traz para e pela palavra a repetição do trauma com vistas à experiência de solidão – o que visa toda análise e o que nos provoca toda história. Elas sempre têm um fim.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Sessão de Terapia: Campo e Contracampo

Sessão de Terapia

Renato Tardivo

O sucesso mundial “Bi Tuful”, série criada pelo israelense Hagai Levi (“In Treatment”, nos EUA, em sua versão mais conhecida), ganha produção no Brasil, com direção de Selton Mello. Como na versão original, a série de televisão mostra o terapeuta, Theo (Zécarlos Machado) em quatro atendimentos por semana (um em cada dia) e, às sextas-feiras, é Theo quem se encontra com a terapeuta Dora (Selma Egrei).

Inicialmente, é preciso que se leve em conta a especificidade da linguagem, isto é, trata-se de um produto para televisão que busca capturar o espectador pela via do entretenimento. Essa especificidade, óbvia na aparência, serve para que o espectador não seja levado a crer que as sessões de terapia, tal como mostradas na série, sejam cópias fieis de sessões de terapia reais. Nem todas (se tomadas isoladamente, talvez uma pequena parte) as sessões de terapia de verdade são interessantes (entenda-se “prazerosas de assistir”) como as da série. Na vida real, não há um roteiro prévio a ser filmado: o roteiro se desenha ao longo do processo. Daí, do meu ponto de vista, o que menos importa é tecer considerações sobre a verossimilhança das sessões da série. O contexto da psicologia – ou, mais especificamente, da psicanálise, se considerarmos a maior parte da conduta do terapeuta e os livros captados vez ou outra pela câmara: Freud, Lacan, Roudinesco – talvez funcione mais como o continente, isto é, uma espécie de pano de fundo para que conteúdos (via de regra atrelados ao sofrimento, no entanto, como disse, com vistas ao entretenimento) possam aflorar.

Esse cuidado faz justiça à própria série, que deve ser avaliada dentro da sua linguagem, bem como à dinâmica que se estabelece no contexto complexo de uma psicoterapia; dinâmica sobre a qual o público leigo não possui referências bastantes para opinar (mais ou menos como não se esperaria um parecer técnico do espectador leigo em uma série, por exemplo, que abordasse o ofício de um engenheiro).

O consultório do terapeuta – o que no Brasil não é muito comum – é um dos cômodos de sua própria casa: uma ampla sala de estar com sofás, poltronas, divãs, mesa com computador, estantes para livros. Os pacientes, no entanto, não circulam pelas demais áreas da casa. São eles: Júlia (Maria Fernanda Cândido), Breno (Sérgio Guizé), Nina (a estreante Bianca Muller) e o casal João e Ana (André Frateschi e Mariana Lima). Além do próprio Theo, que, às sextas, se senta no sofá de Dora, cujo consultório segue o mesmo conceito do dele, embora mais suntuoso e sofisticado.

A propósito dos encontros com Dora, há certa confusão na configuração da relação entre eles – trata-se de uma conversa entre amigos/colegas, de supervisão ou de análise? Theo fazia supervisão com Dora – situação em que o terapeuta recorre a um colega, via de regra com mais experiência, a fim de obter um outro olhar com vistas a auxiliá-lo na condução de um caso clínico. No entanto, cerca de 8 anos atrás, após um rompimento traumático, ele deixa de procurá-la. Ocorre que, na quinta-feira da primeira semana da série, após sessões difíceis em seu consultório, Theo sente-se impelido a procurar Dora novamente.

A confusão sobre a relação entre eles já se revela no ato falho inicial de Theo, que, ao entrar no consultório de Dora, senta-se na poltrona da terapeuta. Após ser colocado no seu lugar, por meio da intervenção de Dora, a conversa entre eles aponta para aquilo que (como sabemos) será o espaço de análise para o próprio terapeuta – levado por questões que experimenta com seus pacientes mas que, inevitavelmente, os afetam também em sua humanidade. Aliás, essa inversão talvez seja o aspecto mais interessante da série: o protagonista é o terapeuta; não os clientes. Em reuniões clínicas, relatos de caso, supervisões etc., conquanto a humanidade do terapeuta esteja sempre presente (também enquanto protagonista do processo), toma-se devidamente uma série de cuidados para não se avançar o sinal e tocar em questões que devem ser trabalhadas pelo analista em sua própria análise.

Na série, no entanto, a câmara invade o setting; mostra o terapeuta momentos antes de receber o cliente (por exemplo, desmascarando a farsa do filho de 8 anos, que simulava uma febre para faltar à aula) e momentos após o término das sessões. E, nessa medida, a série desmistifica a noção ultrapassada e reducionista do terapeuta enquanto uma tela em branco na qual os pacientes projetam suas angústias, medos, sofrimentos etc. No âmbito da psicanálise, o analista precisa manter certa distância entre sua vida pessoal e os seus clientes a fim de poder ocupar os mais diversos lugares diante dos pacientes na dinâmica da transferência, isto é, para que, sem se fixar em apenas um lugar, possa acompanhar os clientes nos mais variados aspectos e relações a partir dos quais eles (clientes) se constituem. Isso não significa, no entanto – e muito ao contrário –, que os aspectos obscuros do próprio terapeuta não façam parte do jogo. Daí a importância da supervisão e análise pessoal, ou seja, o cuidado de si (terapeuta) é condição para o cuidado do outro (paciente).

E a série, ao colocar a câmara no consultório do terapeuta e mostrá-lo em diferentes situações clínicas, vai abrindo frestas em sua rigidez profissional, ao modo de um vouyer que se deleita com a sua vida pessoal, e o acompanha em seu próprio sofrimento. Com efeito, se a dinâmica das sessões nem sempre é verossímil, se as atuações, tomadas do ponto de vista documental, deixam a desejar (Theo, por vezes, é inexpressivo; aqui ou ali há algum excesso por parte dos pacientes, por exemplo, o amor de transferência que irrompe na sessão com Júlia, paciente de Theo há um ano), do ponto de vista da dramaturgia as atuações funcionam bem. A sobriedade do terapeuta (gestos, fala, figurino) e da direção de Selton Mello contribui para que a imagem de Theo se construa na relação entre os fragmentos trabalhados com os clientes e em sua análise; fragmentos, aliás, muito bem executados pelo trabalho de câmara e pela edição, sobretudo nas possibilidades da relação campo e contracampo.

E, neste aspecto, campo e contracampo, talvez se encontrem: ao problematizar a imagem segundo a qual o terapeuta é aquele que tudo sabe, o espectador tem a chance de habitar o seu interior e, por meio da fruição, constatar que o cuidador é também um ser faltante. Para o público especializado, é igualmente importante quebrar a crença da onipotência do analista e/ou da linha teórica que ele segue; do contrário, em vez de cuidado, adoeceriam ambos: campo e contracampo.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas, de Roberto Gambini

Livro vencedor do Prêmio Jabuti de Psicologia e Psicanálise 2009

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A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas
Por detrás de cada biografia, há a dor de existir, o universo dos símbolos e o desejo de compreensão, marcas pungentes e arquetípicas do humano em busca de decifração e acolhimento. O ambiente psicoterapêutico é o palco por excelência desse teatro subjetivo que, encenado a dois, se propõe a descortinar o ser para além do saber – um processo de autoconhecimento árduo e sem garantias, que exige ampla entrega de seus protagonistas.
Do lado do terapeuta, como preparar-se para dar conta daquilo que é indizível, o inconsciente? Ou então, como manejar a teoria na clínica: a transferência, a interpretação dos sonhos, o tempo e as promessas da terapia? Em seu novo livro, A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas, o psicoterapeuta junguiano Roberto Gambini se apoia na sua larga experiência clínica para responder a essas questões. Situando-se na confluência entre ciências sociais e psicologia analítica, ora apoiando-se na oralidade, ora em referências literárias e fatos cotidianos, o autor passa longe dos manuais técnicos ou conselhos diretivos para compor um texto sensível e poético, que certamente interessará a um público mais amplo.
Para expressar as percepções ou realidades que muitas vezes não conseguimos nomear (o indizível da experiência), Gambini forja imagens bastante originais. O livro se divide basicamente em duas partes, que se complementam com um percurso detalhado da formação do autor e o modo como ele foi inspirado pelas ideias do fundador da psicologia analítica.
Na primeira, “Num Certo Tempo”, o autor recupera escritos do final dos anos 90, quando tinha dezenove anos de profissão. É aí que esmiúça aspectos importantes da obra junguiana, fornecendo ao leitor um panorama da psicologia analítica desde suas origens até os dias atuais, tendo como eixo a interdisciplinaridade. Em destaque, as contradições fundamentais entre as ideias de Jung e Freud (que levou ao rompimento da relação profissional e de amizade entre os dois); os trabalhos de vanguarda para o entendimento da esquizofrenia e de seu tratamento, com o apoio da arte para expressar imagens do inconsciente; as relações pouco exploradas entre Jung e a filosofia; os primeiros junguianos; entre outros temas.
Na segunda parte, que contempla seus 30 anos como analista junguiano, Gambini aprofunda suas inovações conceituais, em meio a um texto fluente e ancorado na oralidade. Como sintetiza Adélia Bezerra da Meneses, em seu prefácio, são três os aspectos inovadores. A transferência, que ganha dimensão arquetípica, tornando-se pulsão de compreensão pelo outro, uma necessidade vital do indivíduo de alcançar reconhecimento para poder ser. A interpretação dos sonhos, que é vista como um processo de diálise psíquica, metáfora orgânica para explicar de que modo “a matéria do sonho, como o sangue, precisa circular em outras veias, ser retransfundida no analista, passar pelo seu circuito psíquico e emocional, e daí retornar oxigenada, transformada”. E a dor, matéria-prima da clínica, passível de se transformar em força criativa ou letal. Nas palavras do autor, trata-se do “coração da agonia, porque lá, em seu mais íntimo, pulsa e vibra uma força de renascimento e restauração do que foi destruído e caiu nas trevas da sombra”.
Com A Voz e o Tempo Gambini mostra, de maneira original, como o ofício da escuta, muito mais que profissão, é destino, diante do qual não se deve recuar, mas circunscrever, ainda que tateante, os limites do possível. Compre com 25% de desconto
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Roberto Gambini é terapeuta junguiano, conferencista e ensaísta. Formado em Ciências Sociais pela USP e ex-professor de Ciência Política na Unicamp nos anos 70, partiu para a formação Psicologia Analítica no Instituto Carl Gustav Jung de Zurique. É membro da Sociedade Suíça e da Sociedade Internacional de Psicologia Analítica e autor de O Duplo Jogo de Getúlio Vargas, Outros 500, Uma Conversa sobre a Alma Brasileira (entrevistado por Lucy Dias), Espelho Índio – A Formação da Alma Brasileira, entre outros.

Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo

 Porvir que Vem Antes de Tudo, de Renato TardivoLivro propõe a análise das duas obras, o romance e o filme, atentando sobretudo para a correspondência que elas estabelecem entre si

Este trabalho de pesquisa começou quando o autor ainda era aluno de graduação em Psicologia e se encontrou com Freud e Seu Duplo: Investigações entre Psicanálise e Arte (1996), dissertação de mestrado de Noemi M. Kon, em que a psicanálise é explorada em seu parentesco com a estética e as artes; mais especificamente, com a literatura. Cartas de Sigmund Freud endereçadas ao escritor austríaco Arthur Schnitzler mostravam que o psicanalista acreditava que o artista, embora por caminhos distintos, aportava em destinos muito próximos aos seus no que se referia à elucidação dos mistérios da alma humana.

A relação entre as duas obras apresentada neste livro não figura apenas no nível da correspondência entre literatura e cinema. Ela também é tratada com destaque em cada uma das obras – o livro e o filme. As tramas trazem para o cerne da narrativa, vertido de metáforas sensíveis, o embate entre o novo e o velho, rigor formal e oralidade, amor e crime, lirismo e tragédia, entre outros. De que forma eles se articulam? Como se dá a sua correspondência? Por meio dessas indagações, o autor se lançou no que viveu como uma aventura com a linguagem: partiu da leitura do romance, investigou as condições para o surgimento do filme, debruçou-se sobre a correspondência entre os registros e, finalmente, aportou de volta à linguagem: “esse terreno onde as palavras voam à procura de si mesmas para aterrar em areia movediça”.

Porvir que Vem Antes de Tudo nos oferece uma leitura original do díptico Lavoura Arcaica na qual livro (1975) e filme (2001) compõem um jogo peculiar de identidade e diferença. Renato Tardivo promove uma convergência entre psicanálise e fenomenologia para analisar e interpretar essa relação, expondo enfim a lógica de uma clausura e tornando claro que, se é trágico o desenlace, o essencial está aí, nessa lavoura que se volta sobre si mesma, trava o processo de constituição do sujeito pela recusa da alteridade; pela negação, portanto, da condição dialógica, intersubjetiva, do estar no mundo.

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e é autor dos livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras).

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Literatura e Psicanálise: O Alimento do Desejo

Escritas do DesejoEscritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise (Ateliê Editorial) é o tipo de livro indispensável àqueles que se interessam pela relação – fecunda e ambígua – entre literatura e psicanálise. Mas será útil também ao leitor que, interessado em cultura e ciências humanas, se dispuser a viajar, isto é, a lançar-se em busca do novo.

Onze são os ensaios que compõem o volume – organizado por Cleusa Rios P. Passos e Yudith Rosembaum. Além das organizadoras, assinam os capítulos: Adélia Bezerra de Menezes, Leda Tenório da Motta, Noemi Moritz Kon, Camila Salles Gonçalves, Philippe Willemart, Renato Mezan, Leyla Perrone-Moisés, Maria Rita Kehl e Márcia Marques de Morais. Como se vê, autores consagrados.

Conforme escrevem as organizadoras na Breve Apresentação, a maioria dos ensaios “compôs um colóquio sobre „Crítica Literária e Psicanálise‟, organizado em 2008, pelos departamentos de Teoria Literária e Literatura Brasileira da USP”. Talvez por isso, em que se pese a densidade das reflexões, a leitura seja fluida e agradável.

O conjunto, além da Breve Apresentação, é dividido em três partes: A Experiência e o Verbo, A Palavra Encobridora, A Emergência da Palavra. A primeira parte traz ensaios que mapeiam as articulações entre literatura e psicanálise enquanto uma problemática relevante. Vejamos, a propósito, o capítulo de abertura, “A Palavra Poética: Experiência Formante”, de Adélia Bezerra de Menezes. Ao finalizar a reflexão com a análise de poemas de Ferreira Gullar (“Traduzir-se”) e de Adélia Prado (“Arte”), Adélia Bezerra de Menezes é, também ela, inspiradora: “Essa coisa visceral, em que lateja um ritmo, está na imagem da tripa, mas também na do coração: o que o caracteriza, quando pensamos nele, é a sua presença acústica, antes de maisnada: o tum, tum; tum, tum: o pulsar”. Com efeito, tanto a literatura quanto a psicanálise lidam com o ritmo da vida – na e pela palavra.

Noemi Moritz Kon, ainda na primeira parte, habita a “íntima” e “conflituosa” relação entre “a psicanálise e a arte – e a literatura em particular”. Sua reflexão explora desde as ambiguidades de Freud com a figura do artista e a própria arte, até as aproximações e limites entre a psicanálise e a literatura, sobretudo a fantástica, por meio, dentre outros, de Merleau-Ponty, Barthes e Foucault. Escreve Kon: “Penso que, apesar das inclinações de Freud e de seu temor quanto a uma cumplicidade com o trabalho criador do artista, compreendido como anverso do trabalho do cientista que ele pretende prioritariamente ser, o que liga o ato psicanalítico ao ato artístico é justamente a capacidade criadora”.

Se a Parte I procura mapear um campo mesmo de diálogo entre literatura e psicanálise, a Parte II, A Palavra Encobridora, aborda problemas de pesquisa, ou seja, as reflexões são norteadas por uma questão. Sugestivamente, o ensaio que abre a seção, de Camila Salles Gonçalves, dialoga o tempo todo com o texto de Freud “Lembranças Encobridoras” (1899), em companhia, dentre outros, de Theodor Adorno, Isaias Melsohn e Fabio Herrmann. Vale citar o arremate de Gonçalves: “[…] há uma fabricação inconsciente dessa recordação bucólica, que encobre outros sentidos sob sua aparente banalidade. Acompanha um tipo de verdade que a literatura freudiana compõe, ainda que se esmere em demonstrar que o texto está além do princípio do prazer do próprio texto” (grifo meu). Isto é, à ânsia de elevar a psicanálise a um, digamos assim, estatuto de ciência, o pai da psicanálise cai (felizmente) na própria armadilha. Desencobre-se em Freud, a partir de Freud, uma verdade mais afeita à literatura do que à ciência.

A Parte III, A Emergência da Palavra, apresenta análises de poéticas, conjunto de obras de um autor, ou um conto literário, sempre na interface da literatura com a psicanálise. No ensaio “Bovarismo e Modernidade”, Maria Rita Kehl vale-se da expressão fundada a partir de Emma, célebre personagem do romance Madame Bovary, de Flaubert, para refletir o bovarismo nacional presente em Machado de Assis e a permanência desses traços no contexto

contemporâneo. Mas não nos apressemos. O que seria “bovarismo”? Leiamos com a psicanalista: “O termo já se incorporou ao senso comum, mas vale lembrar que é uma expressão cunhada pelo psiquiatra francês Jules de Gaultier em 1902 […] a fim de designar „todas as formas de ilusão do eu e insatisfação, desde a fantasia de ser um outro até a crença no livre-arbítrio‟”. Mas, como nos lembra Kehl, a possibilidade de tornar-se um outro, nas sociedades capitalistas, está inscrita no laço social. O problema está colocado, portanto. E, se “tornar-se um outro implica reconhecer o caráter simbólico da dívida para com os antepassados, de modo a não se deixar capturar pelas armadilhas da culpa”, o problema transforma-se em “uma das figuras mais expressivas da subjetividade moderna”, podendo ser encaminhado, também, pela psicanálise.

E muito mais poderia ser dito a respeito destes e dos demais ensaios de Escritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise. Se, como diz Lacan a partir de Hegel, “o desejo é o desejo do outro”, a leitura dessas “escritas” irá, com efeito, nutrir o leitor desejoso por compartilhamento – um dos alimentos de que mais necessitamos.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Generosidade e Gratidão em Arte, Dor

Arte, Dor - João A. Frayze-PereiraO livro Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise (Ateliê Editorial), de João A. Frayze-Pereira, foi recentemente lançado em segunda edição – revista e ampliada (a primeira edição é de 2006).

João Frayze é psicanalista, livre-docente pela USP e crítico de arte. Arte, dor reúne uma série de trabalhos que fazem do autor um dos nomes mais importantes – talvez o maior deles – em Psicologia da Arte no Brasil.

Os capítulos, embora independentes entre si, compõem uma tese; tese que se desenvolve pelo negativo, isto é, pela incansável desconstrução da realidade ingênua, de conceitos cristalizados, em suma, por aquilo que o fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty, um dos autores mais apreciados por Frayze-Pereira, denominava “questionamento da fé-perceptiva”. Não por acaso, o capítulo final intitula-se “Inconclusão: psicanálise e crítica de arte” (grifo meu).

Mas de que trata o livro?

“Situada entre a Estética e a História da Arte”, a Psicologia da Arte “requer a presença da psicanálise”, uma vez que “a abertura do psicólogo social para a arte dependerá principalmente de sua disposição, como espectador da arte, para introduzir-se nesse campo abissal […] correndo o risco da vertigem e o da perda de pontos fixos”. Assim, o intérprete, “ao se abrir para o campo das obras”, terá de se haver com “questões de ordem transferencial” e, “consequentemente, comprometer-se”. Daí, segundo Frayze-Pereira, a psicanálise se impor como uma perspectiva necessária dentro desse “jogo interdisciplinar”.

Portanto, como já diz o próprio subtítulo, o livro irá abordar “inquietudes entre Estética e Psicanálise”. Cabe esclarecer, contudo, que muitas são as possibilidades de se inclinar a essa relação. A postura assumida por Frayze-Pereira, tal qual explicitada pelo próprio na Introdução do livro, é a seguinte: “diante do novo, diante de uma obra em processo ou em exposição, isto é, sempre em vias de se fazer e um enigma a nos interrogar, não são a ‘escuta clandestina’ e o ‘olhar oblíquo’ os meios privilegiados para referenciar nas margens ou no bastidor, nas lacunas ou no silêncio, a ‘potência do irrepresentável’? (os termos entre aspas [incluídos por Frayze-Pereira] são de Murielle Gagnebin)”. Continua o autor: “é o não-dito (ou o não-visível) que é capaz de revelar criativamente uma história ou uma sucessão de acontecimentos no decorrer da análise de uma obra. E nesse processo de instauração de uma leitura é o ponto de vista do espectador que paulatinamente se infiltra no campo da criação, uma vez que a obra também se faz tributária do olhar que a interroga”.

Para trabalhar com essa implicação entre psicanálise e arte, o autor recorre inicialmente ao já citado Merleau-Ponty e a Michel Foucault. É a partir – e por meio – desses dois autores que Frayze-Pereira nos apresenta uma leitura densa e crítica da psicanálise, que é atravessada o tempo todo pelo paradoxo implicado na relação artedor, inquietação primeira e última deste belo trabalho.

Além da Introdução e da Inconclusão, o livro é divido nas seções Problemáticas, Fundamentos e Análises. Ainda, a publicação conta com o prefácio de Jacques Leenhardt, o prefácio à segunda edição de Camila Salles Gonçalves – ótima porta de entrada às reflexões que se seguem – e, ao final, há o posfácio de Maria Helena Souza Patto, que também assina a orelha do livro, texto que mapeia historicamente a trajetória de João Frayze, dando luz à poesia inerente ao percurso trilhado pelo autor.

Nas Problemáticas, Frayze-Pereira delimita o campo a partir do qual ele irá abordar a complexa relação entre arte e psicanálise. O autor trabalha conceitos-chave –psicanálise implicada, experiência estética, entre outros – sempre comprometido com a História da Arte e com a entrada desta no campo das investigações psicológicas (e vice-versa): “A aproximação entre a Arte e a Psicologia não é um movimento recente. Muito anterior ao próprio advento da Psicologia como disciplina científica, na verdade, foi a própria Estética que se abriu à Psicologia que estava por vir”.

A seção Fundamentos reúne reflexões teóricas – problemas de pesquisa – que decorrem das problemáticas desenvolvidas anteriormente. Cabe destacar, aqui, o capítulo que fecha os Fundamentos: “O corpo como obra de arte: a unidade do múltiplo”. A temática da correspondência das artes e da unidade dos sentidos, do meu ponto de vista, é das mais relevantes nas discussões e análises empreendidas por Frayze-Pereira, presente tanto nas poéticas mais espinhentas – a análise sobre Van Gogh ou sobre a banalização do mal na arte contemporânea, por exemplo – quanto na “generosidade e gratidão” da artista Amélia Toledo, ensaio que encerra a seção Análises.

Vale dizer, foram incluídas duas análises na segunda edição do livro: “Arte e inveja na Era do Vazio”, questão extremamente atual na clínica psicanalítica e no ambiente das artes, e “Arte-crítica: Louise Bourgeois”, artista que mantém estreito vínculo com a psicanálise mas que, nem por isso, revela o enigma contido em suas produções, mas, em direção oposta, “Bourgeois figura entre tais artistas que assimilam a função da crítica em suas propostas plásticas”. Ao “subverter o instituído”, Louise Bourgeois, segundo João Frayze, antecipa historicamente “certa tendência da psicanálise contemporânea para a qual o fazer psicanalítico não é uma operação de descoberta de conteúdos psíquicos ocultos sob a conduta manifesta dos indivíduos, mas o processo interpretativo que Fabio Herrmann define como ruptura de campo. Trata-se de um processo, aparentado à arte, que interroga a lógica que inconscientemente fixa os modos do indivíduo ser no mundo, desconstruindo aquilo que se apresenta banalizado e consolidado na sua existência”.

Quanto às inconclusões, cada qual que extraia as suas. Arte, dor – inquietudes entre estética e psicanálise é um compêndio sobre esse tema, certamente útil a artistas e psicanalistas, mas também a leitores interessados. É que, em que se pese a densidade dos ensaios, a linguagem é fluida, límpida, e evita, com sucesso, certos academicismos que mais se prestam a afastar o leitor do texto. Arte, dor, ao contrário, captura o leitor e, sendo suficientemente bom, permite que ele se perca em suas (entre)linhas, para – quem sabe? – poder crescer em meio ao desassossego do doloroso caminho rumo à generosidade e gratidão.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte (IP-USP); autor do livro de contos Do avesso (Com-Arte) e de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp).