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Bastidores da Produção Editorial

Bastidores Produção Editorial

Tereza Kikuchi

É com muita alegria que inauguro hoje meu primeiro post para o blog da Ateliê Editorial. Em primeiro lugar, quero agradecer Tomás Martins pelo gentil convite para participar desta equipe.

Aqui pretendo escrever com regularidade mensal sobre questões ligadas aos temas: livro e cultura, principalmente no que se refere ao trabalho dos profissionais destes setores e às mudanças que as novas tecnologias vêm impondo ao negócio do livro.

Escrevo em primeira pessoa, deixando claro que as opiniões e assuntos debatidos neste espaço foram elegidos por mim, não refletindo uma posição institucional da Ateliê Editorial, portanto polêmicas, acertos ou incorreções que por ventura surjam são de minha responsabilidade.

Introduções feitas, hoje quero convidá-los a conhecer os bastidores da produção editorial. Vocês sabem como um livro é feito?

No centro do palco, o Revisor

Imagine que você, caro leitor, tenha seu original aprovado por uma editora. Este texto, escrito com apreço e dedicação, ainda percorrerá um longo caminho. Primeiramente, o preparador ou revisor de texto realizará uma padronização geral do modo como o conteúdo é apresentado, seguindo o estilo adotado pela casa editorial.

E o que seria essa tal padronização? O texto já não está escrito e aprovado? Claro que sim, porém há certos elementos que no decorrer da escrita podem estar grafados de maneiras distintas. Por exemplo, os números, que ora são redigidos como algarismos, ora por extenso. Não se trata de um erro gramatical, mas de uma convenção. Algumas editoras costumam converter os dígitos para a forma extensa, quando eles podem ser reduzidos a uma palavra (um, dois, três, dez, vinte, cem). No entanto, mantêm a grafia em dígito nos casos em que a forma por extenso é composta por mais de uma palavra (22, 58, 1025).

A lista de convenções para padronização de textos é enorme: hierarquização das informações nas referências bibliográficas; regras para composição de notas de rodapé; uso de versaletes para siglas (USP, FGV, PUC) ou composição em caixa-alta e baixa (maiúscula apenas na primeira letra) nos casos em que as siglas podem ser pronunciadas (Unicamp, Unesp, Unifesp). Cada editora adota um padrão, mas o importante é que as informações estejam bem organizadas e coerentes com o estilo adotado.

Além de padronizar o texto, o preparador também realiza uma primeira leitura cuidadosa em relação à gramática e à ortografia do original, e aponta eventuais problemas semânticos, propondo correções ou melhorias.

Trata-se de um trabalho que exige formação especializada, atenção aos detalhes e muito amor à palavra escrita. Infelizmente, poucos sequer tomam conhecimento deste profissional, só se recordam de sua existência quando encontram erros numa publicação. Por este motivo, entre muitos outros, o profissional de texto na prática exerce uma carreira ingrata. Pois quando realiza seu trabalho com perfeição (o que, convenhamos, é humanamente impossível), não é notado, e quando alguém percebe um erro, torna-se automaticamente o vilão da história.

Este profissional tão importante para a produção de um livro bem editado (assim como outros profissionais que raramente são notados, como por exemplo o produtor editorial, o designer, o produtor gráfico, o iconógrafo, o infografista, o divulgador etc.) não é remunerado como deveria ser, apesar de realizar uma atividade que exige grande esforço intelectual e bagagem cultural.

E o pior de tudo, muitos acreditam que ele pode ser substituído pelo corretor ortográfico dos programas de edição!

Por que falar sobre este tema é importante, não só para os profissionais da área, mas também para o leitor?

Simples, porque ler um livro bem editado, produzido por uma equipe de profissionais competente e valorizada, faz toda a diferença, apesar de não ser tão visível a princípio.

Se você usufruiu de uma leitura agradável, com fluidez e conforto, acredite, isso se deve ao revisor e aos demais profissionais acima citados.

Fui motivada a escrever tudo isso, porque os profissionais desta área são desprestigiados, não só entre o público leigo, mas também no mercado editorial, o que é uma triste injustiça. Trazer à tona essas questões é uma modesta tentativa de retirar da coxia um profissional fundamental para que a qualidade das edições se mantenha.

Daí, vamos a outro ponto: muito se tem falado sobre a independência do autor, que por meio das novas tecnologias e dos modelos de negócio disponibilizados pelas grandes corporações, não necessitariam mais do editor ou dos demais profissionais. Ledo engano. Um bom livro – analógico ou digital – é uma obra coletiva, ou seja, apesar de destacar o escritor na capa (por seu trabalho de criação e pesquisa), o livro é como um filme: para existir, depende de inúmeros outros profissionais.

E um livro, objeto tão amado, sendo ele digital ou analógico, precisa ser produzido com todo cuidado que uma obra artística ou uma pesquisa científica merecem, a fim de que não se comprometa a qualidade do texto.

Caso o leitor um dia se depare com um livro ou e-book cheio de erros e mal desenhado, lembre-se, ali não há projeto editorial.

Até o próximo post. E um muito obrigado a todos os revisores!

Coluna da Tereza Kikuchi

Formada em Editoração pela eca-usp, escreve mensalmente para o Blog da Ateliê Editorial e quinzenalmente para o Blog Ideia de Marketing. Trabalha com livros há mais de uma década, coordenando projetos editoriais e desenvolvendo projetos gráficos. É organizadora do livro José Mindlin, Editor, publicado pela Edusp em 2004.