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Poesia por dentro e por fora

Igor Fagundes – Jornal Rascunho

Depois de Interior Via Satélite, ou ainda agora, em seu não ultrapassado instante, a crítica inquietamente se pergunta em que medida atinge o interior de um livro mantendo-se fora dele; em que medida, satélite, se faz via de proximidade extrema com o que persiste longe; em que medida, estrangeira, da geologia de um livro revela-se íntima; em que medida, íntima, se contradiz uma vez mais estrangeira, pois, afinal, “estar perto da própria coisa não está longe do extravio”.

Em que medida parece a pergunta e a resposta de uma obra debruçada nos limites do próprio limite, daquele ínterim no qual as coisas começam, dimensionam-se e esboçam seu suposto fim que as distingue quando em fronteira com as demais; quando, no além do limítrofe, cada coisa encontra o abismo como o seu princípio e, de pequenas, passam a infladas e inchadas de grandeza. No fronteiriço, em que, antes de apartadas, encontram-se unidas, o que as inscreve fora duma da outra comemora o mútuo pertencimento: a segunda é parte da primeira e vice-versa, num círculo de cores investido de inclusões recíprocas onde toda exterioridade culmina ilusória, pois necessariamente dentro de outra e de outro plano que, por sua vez, paira dentro de algum, também, nunca fora de, na medida em que (sempre na medida em que) todos se erguem dentro de uma misteriosa abertura, telúrica e originária, a qual, fora de qualquer medida, pode conceder todas ao conceber-se como o único dentro (im)possível: “o poema é o ponto que suspende esse tecido/ que edifica em torno o vazio que dá abrigo/ à urgência da terra e à possibilidade/ de perder-se nas encruzilhadas”.

Não estranha, portanto, que a obra de Marcos Siscar nos suspenda e nos lance nas encruzilhadas de uma escrita que entrecruza prosa e verso de modo artisticamente responsável e jamais modernosamente gratuito, na exploração das alfândegas discursivas que fundam a afundam aquilo que pertence (e não) exclusivamente a um e a outro território de forma e estrutura, arriscando-se apontar o mais essencial – aquilo a que ambos pertencem: não só ao limite a partir do qual se desdobram, mas o ainda-não-limite a que pertence o próprio limite como dobra sem o qual o poético não pode desdobrar-se como a voz do silêncio que é. Segundo os ditames do movimento com que as palavras exibem seu peso em diferentes graus de contundência e leveza, o poeta escreve segundo o ritmo deste corpo gravitacional e dançante (ora flutuante) entre a pausa e a ânsia, entre o salto par ao céu e o raizamento na terra, entre o avanço e o recuo de si mesmo porquanto hesitante de estar dentro ou fora de. Não no que diz respeito apenas ao dimensionamento espacial, mas sobretudo no que (já não) narra o tempo como um antes, agora e depois. Depois e antes, a memória, em Interior Via Satélite desobriga a crítica a uma exterioridade, posto que inviável. Exterior, apenas, o que ficou por criticar-se, esquecido. O livro, então, satélite da crítica, parece “alterar o espaço do visível por adiamento, até reconhecer o invisível que está em jogo no visível”.

Quando o interior da obra entra pelos olhos de quem lê, dela não se escreve o que se mira, mas o que se admira: o que, junto de nós, em nossas juntas, já nos mirou e adentrou para que pudéssemos mirar e adentrar. O que, adentrado, não pode mais ser visto, porque “ver é estar fora do lugar que se vê” e, dentro de onde nada se enxerga, encontramo-nos com a verdade desta cegueira que é o mundo nascido e multiplicado para além da visibilidade. O que nos admira, enfim, e em especial neste livro, é essa persistente falta de alcance do limite em que as coisas dão-se à vista e misteriosamente se encobrem para, paradoxalmente, se mostrarem e nos alcançar. É a revelação de que estamos sempre perto do longe, pois não há mensurável distância para o que, sem-lugar, ou em todos, chama-nos e chama-se Infinito.

[Resenha publicada no Jornal Rascunho na edição de junho de 2010]

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Resenhas na Edição 146 da Revista Cult

Ficção Interrompida

Diógenes Moura

Violência, amor, sexo, tormento e solidão nas grandes cidades brasileiras captados de maneira quase cinematográfica. Eis a explicação para o subtítulo deste livro de contos do pernambucano Diógenes Moura: “uma caixa de curtas”. Nas 41 pequenas narrativas que integram a obra, são expostos os questionamentos e o drama de homens comuns, identificados apenas com as iniciais de seus nomes. Por vezes, dá-se a impressão que passamos de um conto a outro como que num plano-sequência, a plasmar a fatalidade e a contingência dos personagens – recurso talvez explicado pelos conhecimentos de fotografia adquiridos pelo autor, curador de fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Post retirado da Revista Cult

Interior via Satélite

Marcos Siscar

Pode-se dizer que Marcos Siscar (1964) é uma de nossas vozes poéticas inovadoras. Seu percurso mostra um trabalho rigoroso e comprometido com a poesia, que se reflete na atividade como pesquisador e professor de teoria literária (hoje na Unicamp), em uma intensa atuação no que poderíamos chamar de “reflexão-prática” poética. O que vemos neste seu novo livro é um prosseguimento da busca por pensar e experimentar os impasses da poesia, suas possibilidades de acontecimento no contemporâneo, a partir da “crise de verso” (Mallarmé).

Se em Metade da Arte – publicado em 2003, mas reunindo sua produção desde 1990 – prevalece o poema escrito em versos, com cortes e enjambements, e em O Roubo do Silêncio (2006) temos um livro todo composto de poemas em prosa, neste Interior via Satélite, Siscar opta por uma oscilação entre essas “formas”, problematizando mais radicalmente a questão dos cortes e da pontuação no poema. E o jogo que se explicita aqui, logo no título paradoxal, é o próprio gesto poético de inverter e confrontar distâncias, propondo não apenas novos olhares, mas novos mundos: “o mar como um livro rigoroso” (da epígrafe Haroldo de Campos), o livro como um oceano, um planeta. Mas também um lugar (do) vazio: o poema como o “corte que dá forma ao vazio que quer dizer um mundo”.

Post retirado da Revista Cult