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Importante obra do concretismo brasileiro foi recentemente reeditada: “Viva Vaia – Poesia 1949-1979”, de Augusto de Campos

"Viva Vaia", de Augusto de Campos

Clique na imagem para ver o encarte ampliado

"Viva Vaia" – Augusto de CamposLançada em 2001, a Ateliê Editorial publica nova edição do livro Viva Vaia, de Augusto de Campos, revisada e com a ortografia atualizada, considerada pelo poeta a edição mais completa dessa sua obra.

“Esta coletânea da minha poesia, abrangendo três décadas, teve sua primeira publicação em 1979 com a chancela da Editora Duas Cidades. Até então, meus poemas só haviam aparecido em livro em publicações de autor. Houve uma segunda edição em 1986, pela Editora Brasiliense. E mais quinze anos se passaram. A edição que agora oferece ao público a Ateliê Editorial é, de todas, a mais completa”. (Augusto de Campos, 2001)

Com projeto gráfico original, de Julio Plaza, essa edição devolveu a impressão cromática a alguns poemas como os “popcretos” Olho por OlhossO Anti- Ruído, e Goldweater, que foram expostos na Galeria Atrium, em 1964, juntamente com os quadros-objetos de Waldemar Cordeiro. Originalmente construídos com colagens de recortes de jornais e revistas, em dimensões de cartaz, e montados em chassis de madeira para a mostra, esses poemas não são fáceis de reproduzir.

As marcas do tempo e a grande redução a que têm de ser submetidos para se amoldarem às dimensões do volume tornam difícil a impressão. Mas com recursos digitais e fotográficos foi possível melhorar a sua reprodução e incluir o quarto poema da exposição dos “popcretos”, Goldweater, que faltou nas edições anteriores e, mesmo em preto e branco, também o Olho por Olho.

Por sua capacidade de sintetizar alguns princípios fundamentais da poesia concreta e de atingir o impacto almejado pelo movimento concretista, Viva Vaia se tornou a principal obra na carreira do autor. Este volume contém um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, e traz ainda o cd Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Acesse o livro “Viva Vaia” no site da Ateliê

 

Valéry e Nerval: o eu inesgotável

Felipe Fortuna | Valor Econômico | 04 de abril de 2014

Dois lançamentos permitem novas incursões na obra dos dois poetas franceses bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas

 

As numerosas diferenças entre Gérard de Nerval (1808-1855) e Paul Valéry (1871-1945) não são apenas as da cronologia, mas sobretudo de concepção da obra literária. Para o escritor de Les Filles Du Feu (1854), os símbolos do hermetismo – saturados de mensagens esotéricas e de vigoroso discurso místico – se transfiguravam em literatura. Já para o escritor de Charmes (1926), disciplina e rigor deveriam ser forças simultâneas na construção da prosa e da poesia, em repulsa a qualquer aspecto que não fosse determinado pelo intelecto.

Observa-se, no entanto, um interessante ponto em comum entre os dois escritores: ainda muito jovem, Nerval publicou sua tradução do Fausto, de Goethe, com qual ganhou notoriedade. Já Valéry escreveu, na velhice, um Mon Faust (1946) que só seria publicado postumamente: livro confessadamente “sem plano”, na forma de esboços que repercutem as derradeiras meditações do poeta na Europa em guerra.

Dois lançamentos da Ateliê Editorial – os Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval, e Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul Valéry – permitem novas incursões na obra desses poetas, bem como no trabalho de tradução de poesia para o português.

A seleção e tradução dos poemas de Nerval por Mauro Gama inclui As Quimeras, célebre conjunto de 12 sonetos, bem como as Outras Quimeras. Trata-se de um considerável desafio tanto para o tradutor quanto para quem, com acesso ao original, procure desvendar o sentido de todo o esoterismo trazido pelo poeta. Em Ártemis, por exemplo: “É a Décima-Terceira, agora… E ainda a primeira:/ E é a única sempre, ou o único instante:/ Pois és Rainha, Tu! primeira ou derradeira?/ És Rei, Único, tu, ou o último amante?…”

Nem sempre, porém, o tradutor consegue resolver as surpreendentes imagens do poeta – que caíram no gosto dos surrealistas, décadas depois. No conhecido soneto El Desdichado, espécie de autobiografia espiritual e fatídica, o quarteto inicial tem muita importância: “Eu sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,/ O príncipe aquitano em torre agora ruída./ Minha Estrela morreu; meu lude constelado/ Traz o sol negro e o horror da Angústia desmedida”. Lamenta-se que o tradutor não tenha conseguido manter a palavra “melancolia” no último verso, “Porte Le Soleil noir de La Mélancolie”. Essa palavra é essencial para compreensão do estado psíquico do poeta, além de estar inserida na sofrida tendência ao spleen que caracterizou tantos (senão todos) poetas românticos. A ideia de um “horror de Angústia desmedida” introduz elementos estranhos ao já singular estranhamento que provocam os poemas de Nerval.

A edição dos seus Cinquenta Poemas mereceria maior cuidado quanto à fixação do texto original, em que alguns casos foi transcrito com erros; e, nas traduções, maior atenção com o uso pessoalíssimo das maiúsculas, que conferem à mitologia e à vaga religião esboçadas pelo poeta aspectos ainda mais fascinantes.

Desafiadora, exigente, intelectualizada, a poesia de Paul Valéry manteve decisiva influência na modernidade. No Brasil, bastaria citar a concepção de um livro como Claro enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade, que se permite formas clássicas e indagações filosóficas, sob a égide de uma citação do poeta francês: “Os acontecimentos me aborrecem”, em contraponto a uma poesia anterior de engajamento político; ou então, entre alguns outros, o poema Fabula de Anfion (1947) (“gesto puro/ de resíduos, respira/ o deserto, Anfion”), de João Cabral de Melo Neto, a estabelecer diretrizes de uma psicologia da composição; ou então, por fim, “um ódio e um desprezo pelas coisas vagas”, o plano de “enxertar a matemática na poesia, o rigor em imagens livres”, princípios que são traduzidos e divulgados pelo concretismo.

Consciente da complexa articulação entre poesia e pensamento em Valéry, o tradutor Júlio Castañon Guimarães (ele mesmo poeta de cunho meditativo) publica agora Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, reunião bilíngue de dez poemas do autor de Charmes, entre os quais se encontram, além do poema que dá titulo ao livro, Ária de Semíramis e Palma.

O último dos poemas citados, Palma, dedicado à mulher, encerra aquele livro do poeta de maneira exemplar: trata do amadurecimento da poesia (e das obras de arte) por meio do trabalho que se dá com tempo e com a perseverança. Seus versos de sete sílabas sugerem leveza e contenção: é o comentário final, o acabamento de um conjunto elaborado. O tradutor brasileiro é competente ao transmitir o resultado: “Por mais que se dobre afeita/ A tais bem sem contenção,/ Sua figura é perfeita,/ E os frutos seus laços são./ Admira como vibra,/ E como uma lenta fibra/ Que divide este momento,/ Decide e, clara, descerra/ Toda a atração da terra/ E o peso do firmamento”.

Relembre-se como o símbolo implacável da poesia de Valéry, em Palma, pode ter induzido o citado João Cabral a singularizar objetos da paisagem (pedra, cana-de-açúcar, bananeira) como pretextos para tratar da arte poética praticada.

Fragmentos do Narciso, ao longo dos seus 315 versos alexandrinos, concentra parte vital das obsessões de Paul Valéry em sua poética. A imagem do narciso, se característica de muitos escritores do simbolismo europeu, tornou-se seminal para o poeta francês. O embate consigo mesmo, o diálogo permanente e tenso entre o eu e a sua imagem refletida (um falso outro a quem era necessário questionar e dirigir perguntas), o contraste entre o Único e Universal – eis alguns dos problemas trazidos por Valéry em seu poema. O narcisismo se posiciona no centro da obra do poeta, presente em diversas fases, tanto na prosa quanto na poesia (e o tradutor brasileiro também insere no livro o poema Narciso Fala: “Ah! A imagem é vã e os prantos eternos!/ (…) Ó forma obediente a meus olhos oposta!”).

A noção de fragmento expressa uma forma inacabada, um caráter ainda não definitivo do que o poeta pensa – e, também, o transito do mito de Narciso pela obra de Valéry, que o confrontava com o “inesgotável Eu”.

A tradução de Castañon Guimarães é meticulosa e seguramente atenta aos desafios apresentados pelo poeta francês, não apenas com relação ao metro, mas em especial às aliterações e às assonâncias, tão comuns em sua poesia. O tradutor, no prefácio, já demonstra sensível preocupação com o seu ofício, trazendo à discussão algumas ideias do próprio Paul Valéry sobre tradução poética. Mas, sempre preocupado, escreveu como posfácio ao livro uma “Nota sobre a tradução”, atraente exposição sobre a operação de traduzir Paul Valéry, na qual são elencados o gosto musical do poeta e o registro da sua voz ao declamar, entre outros aspectos que poderiam ser considerados na passagem para o português.

Do conjunto de problemas que toda tradução de poesia pode suscitar, o tradutor opta por um “microtrabalho das aproximações sonora” e por um genérico “mecanismo de compensação” a fim de mostrar, no outro idioma, que os versos franceses encontraram semelhança…

Como já se afirmou, a tradução de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas mostra zelo e consciência. Por isso mesmo, teria sido importante dar maior atenção a um conjunto de palavras que se encontra no fulcro de um poema que trata do Narciso e do narcisismo. Trata-se do grupo formado por “eau/ eaux/ onde” (água/ águas/ água). Paul Valéry traz uma combinação aparentemente aleatória com as três palavras ao longo do poema.

Na primeira aparição, “Je ne troublerai pas I’onde mystérieuse” (“Não turvarei a água em jogo misterioso”), o verbo turvar não transmite a necessária ideia de que a água estagnada não pode ser agitada ou tocada, caso contrário a imagem de Narciso desapareceria da superfície (como acontece no último verso, “Passa, e num tremor quebra Narciso, e foge…”). Nos versos 59 a 61, a palavra francesa “onde” aparece três vezes, formando um núcleo por si só: mas, tangido pelas exigências de rima, o tradutor prefere “remanso” para o verso “À cette onde jamais ne burrent les tropeaux!” (Nenhum tropel jamais bebeu desse remanso!).

Duas vezes o tradutor prefere traduzir “onde” por “vaga”, quando “das águas” e “às aguas” seriam plenamente aceitáveis. Afinal, em dois versos, Júlio Castañon Guimarães se resigna a traduzir “onde” por “onda”, cujo sentido em português é notavelmente distinto do francês literário mais arcaico.

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas”, com seus dez poemas, constitui atualmente a reunião mais generosa de poemas de Paul Valéry em língua portuguesa, uma vez que outras edições se limitavam a apenas um longo poema. Torna-se uma referência, pois, a partir de um trabalho lento e gradual que permite mirar com atenção tanto o eu do poeta quanto a imagem do seu tradutor.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Fragmentos do Narciso de Outros Poemas, de Paul Valéry

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê: Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas, de Gérard de Nerval

Felipe Fortuna é poeta, ensaísta e diplomata. Recentemente publicou o livro A Mesma Coisa (Topbooks)

Poesia e pensamento

Patricia Peterle  |  Jornal Rascunho |  Janeiro de 2014

Fragmentos do Narciso e Outros Poemas, de Paul ValéryPaul Valéry, herdeiro de Mallarmé, passou a ser considerado um mestre do simbolismo com a publicação de La jeune Parque, em 1917. Mas sua obra alçou-o além, para entre os maiores poetas franceses do século 20. O exercício poético de Valéry, que se inicia com alguns poemas publicados na revista simbolista La Conque, por volta de 1896, e segue com leituras de Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe e Huysmans, já assinala seu complexo percurso de escritura e reflexão sobre a poesia.

Seus Cadernos – um total de 261 volumes, somando mais de 26 mil páginas podem ser considerados um verdadeiro laboratório – “laboratório íntimo do espírito” – para inúmeras reflexões filosóficas, estéticas, religiosas e antropológicas. Neles, é possível adentrar em uma perene e densa pesquisa que motivou reflexões e incursões do poeta em diferentes áreas. Todo esse material de anotações, precioso para quem trabalha com a poesia (mas não só), deu origem a vários volumes ensaísticos.

Daí que Valéry congrega a polivalência – das figuras do pensador e do poeta. Aqui, sim, poesia é pensamento, é conhecimento, é um o processo cognitivo e estético. Esse exercício poético atrai Valéry: há um jogo difícil, enigmático, que se apresenta por si só como um estímulo e um desafio. Justamente por isso ele faz reverberar e multiplicar os vínculos métricos, as aliterações, as assonâncias. Em La jeune Parque, o leitor se depara com um progressivo acordar da autoconsciência em luta contra o apelo aos sentidos; o tema da vida e da morte, importante em toda a sua obra, pode ser lido em Le Cimetiére Marin (1920) . O “drama da inteligência”, com todo seu esforço de conhecimento – das esperanças e esperas até as tentações da ciência e da autoconsciência – permeia sua obra mais famosa, Charmes (1922), carmina em latim, aludindo assim à poesia como encantamento e fascinação.

A relação conflituosa e complexa entre existência e conhecimento, entre o eu e o mundo, perpassa, de algum modo, toda a sua produção, inclusive os textos teatrais publicados postumamente: Mon Faust e Le Solitaire. Talvez uma frase do discurso feito em homenagem a Goethe possa definir, ainda que falando de um outro, a própria poesia de Valéry: “Um poema deve ser uma festa do intelecto”.

O encontro com o texto de Paul Valéry não é fácil. Há um embate a ser travado e o leitor é desafiado a uma “meditação teórica” – que não tira em momento algum, no entanto, o prazer estético da leitura –; poesia e reflexão crítica estão imbricadas e formam uma grande trama em seus versos, como aponta Júlio Castafion Guimarães na introdução de Fragmentos de Narciso.

Isto se verifica tanto nos numerosos rascunhos dos poemas – documentos de extrema importância para o conhecimento da produção de Valéry – quanto de modo especial no universo de seus cadernos de anotações, os Cahiers, algumas milhares de folhas em que ao longo de dezenas de anos fez diariamente anotações dos mais variados tipos[…].

São apontamentos diversos sobre o “funcionamento do espírito” – ou melhor, sobre seu “pensamento”.

O modo de escrever e pensar de Valéry coloca suas anotações, mesmo consideradas as diferenças, lado a lado com os fragmentos de Novalis e das célebres páginas do Zibaldone de Giacomo Leopardi. Há uma espécie de subterrânea cumplicidade, mesmo na diferença, que enfatiza e aposta na função cognoscitiva do discurso literário. Todos eles – Valéry, Novalis e Leopardi – são conscientes de que o processo de “formação” e “apreensão” da realidade só pode ser concretizado mediante a deformação dessa mesma realidade.

DISCIPLINA ESPIRITUAL

A edição bilíngue de Fragmentos do Narciso e Outros Poemas faz parte da coleção de poesia da Ateliê Editorial, que já publicou, entre outros, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Annalisa Cima e Paulo Franchetti, com cuidadoso projeto gráfico. Fragmentos do Narciso é o poema que abre a coletânea, seguido por outras nove composições – Helena, Adormecida no Bosque, O Bosque Amigo, As Vãs Dançarinas, Narciso Fala, Episódio, Verão, Aria de Semiramis e Palma – que pertencem originalmente a dois livros: Album De Vers Anciens e o já mencionado Charmes. Para entender melhor a trajetória de alguns desses poemas – às vezes publicados inicialmente em revistas literárias, em seguida no formato de livro e ainda em diferentes coletâneas –, as Anotações prévias do tradutor são fundamentais. De fato, ele consegue estabelecer uma série de redes e enlaces dentro da própria obra poética de Valéry, e sugere pistas, “notas prévias”, para um possível “encontro”.

A reflexão sobre o homem, seu corpo também como fonte inesgotável de estudo – não se deve esquecer uma das primeiras publicações do poeta francês, dedicada ao método de Leonardo da Vinci –, deságua no que se denominou “seu narciso”. Como analisa Giuseppe Ungaretti, em 1925, escrever, para Valéry, não é um fim; é um meio de suprema disciplina espiritual, daí o uso das formas mais fechadas, as recorrências à tradição mais “rígida”, a obstinação em dominar a matéria mais hostil – um diálogo dramático que é encenado entre o ser e o conhecer. Para Ungaretti, poeta também hermético, Valéry emprega coragem para se debater com uma infinidade de recursos e de efeitos da palavra, de que podemos “ter um gostinho” através desses dez poemas tão bem traduzidos por Júlio Castañon Guimarães. A visão ungarettiana segue em consonância com as palavras de Eliot, quando este afirma que Paul Valéry ficará como o símbolo do poeta da primeira metade do século 20, mais do que Yeats ou Rilke.

O primeiro poema da coletânea trata de um tema bastante caro a Valéry, e que o acompanha por quase quarenta anos. Este fragmento é uma das suas poesias mais antigas, em cujos versos é colocada a dissimulação do trágico na consciência humana, que, por sua vez, o interroga:

[…]

Até os segredos dessa fonte que arrefece…

Até os segredos que me aflige desvendar,

Até o imo do amor de si sem mais recamo.

Nada pode ao silêncio da noite escapar…

A noite em minha pele sopra que eu a amo.
Sua voz suave a 
meus votos teme consentir;
Sob a 
brisa ela mal e mal chega a mentir,
Tanto e 
tanto o fremir de seu tácito templo
Do expansivo silêncio é 
o negativo exemplo.

Em 1945, a temática do narciso, revisitada por muitos autores e pintores, é retomada em L’ange. Aqui, Narciso não é mais um Narciso; o Homem que se conhece chora por não conseguir entender a si mesmo. Resta a pergunta: como entender algo que não é mortal?

Conheça as obras de Paul Valéry publicadas pela Ateliê

Inventos líricos

Daniel Benevides | Brasileiros |  1 de janeiro de 2014

"Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas", tradução de Mauro GamaFigura única na literatura mundial, em sua autenticidade, gênio e loucura, Gérard de Nerval (1808-855) deixou um legado de prosa e poesia sombrias, mas de uma beleza estranha e fascinante. Nesta edição caprichada, bilíngue, de 50 de seus poemas, vê-se claramente como sua imaginação febril borrava os limites entre o romantismo tardio e uma nova percepção do mundo, crítica, tanto realista quanto fantástica, embrionária do que seria o Modernismo, um século depois. Nesse sentido ele pode ser alinhado com Poe e Baudelaire (que muito o admirava), mas como bem nota Mauro Gama, o excelente tradutor, Nerval não dava tanta importância ao “poético” ou à ideia de obra e autoria, estava por demais preso a seus fantasmas, que acabaram levando-o ao suicídio, tradutor celebrado do Fausto, de Goethe, e autor de romances e novelas marcantes (Umberto Eco considera Sylvie um dos maiores livros já escritos), era um poeta intuitivo, que evocava seres mitológicos refundindo-os em “suas pulsões e procuras subjetivas”. Tome-se como exemplo o famoso poema “El Desdichado”, que T.S. Eliot cita em seu Terra Desolada. Logo na primeira linha, revela uma força que raramente se vê na poesia: “Eu sou o Tenebroso – o Viúvo – Inconsolado”, terminando com “o grito de uma fada”. De arrepiar.

Acesse o livro no site da Ateliê

 

O psicolirismo cotidiano de Rita Moutinho

Leo Barbosa | zonadapalavra

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoNão há atividade que ponha o subconsciente mais à tona que o ato de fazer literatura. Se houver, talvez se estabeleça através dos sonhos. Então aqui se instaura a semelhança entre a literatura e a psicanálise: “Já que a literatura carrega nos seus flancos o não-consciente e já que a psicanálise traz uma teoria daquilo que escapa ao consciente, somos tentados a aproximá-las até confundi-las”, nas palavras do psicanalista Jean Bellemin-Noel. Afinal, ambas as ciências trabalham com a fala e tendem a revelar mais do que as linhas aparentam carregar.

Podemos inferir isso da leitura de Psicolirismo da Terapia Cotidiana, (Ateliê Editorial, 2013), de Rita Moutinho. Após anos de terapia, a autora segue em catarse, ainda que guiada pelo rigor formal dos seus versos, para aprender a conviver com suas incertezas, medos, pensamentos fúnebres, efemeridades e temor da finitude. Mas a esperança segue firme: “Minhas asas estão atrofiadas/ no meu céu são opacas as estrelas,/ mas todas as desgraças, vou prendê-las,/ para as horas não serem tão coitadas. […] Pra azul destino quero um passaporte./ A ave quer voar, não quer a morte!” (P64)

Nesse processo de transferência a cura pela palavra faz-se imprescindível. O eu-lírico necessita encontrar-se com o passado diante do terapeuta para que haja êxito em seu processo de superação. A psique da paciente responde com psicolirismo de forma condensada e derramada.

A obra é dividida em quatro estágios: “Tempo nublado”, “Tempo instável”, “Tempo parcialmente nublado, passando a límpido” e “Céu quase limpo com Clarões no Horizonte” e por estes vai interrogando por via da filosofia e de conhecimentos mitológicos. O eu-lírico sabe que agora é preciso caminhar sozinho. É hora de sair do divã e retomar a rotina que tanto foi marcada por chuvas de perdas, por céus nublados enquanto desejava um cotidiano ensolarado.

Rita Moutinho mostra-se uma poeta madura, conhecedora dos recursos de linguagem, do manejo dos versos, da forma, e consciente do estranhamento provocado pelas metáforas. Todavia, inevitavelmente, ao abusar do soneto, por vezes esbarra em rimas pobres como podemos conferir na página 93 da obra em questão. Peca em combinações do tipo: poucos/loucos, sangria/melancolia, ventosas/dolorosas, cura/alvura, artístico/místico etc.

Uma das marcas de Moutinho é o frequente uso de antíteses: “Venho disposta ao forte e ao frágil,/ extremar-me firme e também volátil./ Chego tão vida quanto morte,/ me faço aqui, como exilada./ Articulo a fala, me defino muda/ e penso, nas raias da filosofia:/ somos dois multiplicados ao nunca.” (P 91).

A última parte do livro assume tom de despedida como se o cotidiano se encerrasse, como uma rotina fosse quebrada pela desilusão de viver. Mas também assume novas perspectivas a partir da rebobinação de suas memórias como forma de fazer um balanço para poder prosseguir.

A poeta tem estilo próprio ainda que caminhe pela tradição. Narra com paixão seus dramas e tramas. A cada final dos seus poemas ouve-se um estampido. É a vida saindo. É a vida entrando. Aqui ela faz seu registro, convida-nos a “uma viagem interna, tendo a alma como lanterna”. Afinal, onde podemos encontrar verdade maior senão explorando a nossa realidade secreta que melhor se exprime em nosso cotidiano?

Acesse o livro no site da Ateliê

Geografia do inconsciente & outras catarses

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoRonaldo Cagiano 

Uma das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea, autora, dentre outros, de Romanceiro dos Amantes (1999) e Sonetos de Amores Mortos (2006) a escritora, crítica e ensaísta carioca Rita Moutinho acaba de lançar uma nova safra poética, numa incursão que lhe proporcionou um profundo mergulho existencial, dialogando com a psicanálise para explicitar poeticamente questões íntimas, sentimentais e artísticas, abordadas ao longo sua trajetória afetiva e intelectual, a partir a da visão de um paciente em terapia.

Realizando uma profunda simbiose com a obra freudiana, tanto no título quanto nos textos poéticos, Psicolirismo da Terapia Cotidiana (Ateliê Editorial, SP, 2013, 194 pgs., R$ 46) recorre à experiência da autora com a psicanálise, panoramizando vários anos de suas sessões de análise, por meio de um percurso crítico e ao mesmo tempo catártico dessa viagem ao insondável do inconsciente, tanto individual quanto coletivo.

Não é a apologia da terapia psicanalítica ou qualquer outra tentativa de homologação do cenário de um consultório nem mesmo a extrapolação da reserva entre terapeuta e paciente que a autora mapeia, como se fosse extensão de um longo processo de descoberta ou cura que o leitor vai encontrar nessa obra.

Aqui, é a poesia possível que ela procura – e encontra – na angústia, na inquietação metafísica, no desassossego da alma, nos vácuos espirituais, na instabilidade dos afetos e emoções. Enfim, é a tentativa poética de desmistificar também as relações do ser diante dessa dolorosa geografia nos anos em que o divã por testemunha e os escuros íntimos como cúmplices contribuíram para que a poeta realizasse a transição entre  os cipoais do mundo exterior e os labirintos e nuvens dos becos-sem-saída de nossos temores e agruras.

Cada poema é uma projeção onírica do desejo de superar perdas, vazios, silêncios, incômodos, apartheids, insularidade psicológica e tudo o que apequena o ser diante da opressão e das urgências que a nossa própria condição nos impõe. E em cada verso, a artista que dosa sua inquietude com o facho luminoso de um lirismo tenso e denso, parece ir des(a)fiando o fio de Ariadne, para percorrer até o fim o espanto e a dúvida de um caminho escuro, mas passível de ser alcançado, para neutralizar os minotauros que ainda vicejam e atormentam.

Dividida em quatro momentos – Tempo nublado, Tempo instável, Tempo parcialmente nublado, passando a limpo e Céu quase limpo com clarões no horizonte – a poética de Rita Moutinho desloca-se pelas estações da mente e do corpo, entre versos livres e  forma fixa, alternando tradição e vanguarda, num claro indício de simbiose entre os próprios estados que o indivíduo experimenta em sua quotidiana lida, no campo interior e na vida prática.

Por meio dessa poesia que celebra as ancestrais dicotomias de que somos forjados, a poeta, com peculiaridade estilística e paixão, narra suas paixões e seus fracassos, seus delírios e suas esperanças, suas explosões e seus recolhimentos, suas chamas e seus definhamentos, pluricanta quedas e tormentos e faz da depurada arquitetura de seus versos, uma catapulta para compreender esse recalcitrante dilema, essa luta dialética (que também é ética e estética) entre Eros x Thanatos, vida x morte, da qual não escapamos, mas podemos remediar, exorcizando lutos e lutas, como ela o faz, com maestria e pungência, moldura de novo olhar sobre o que a cerca e a faz sentir viva.

Em Rita Moutinho, a palavra em pleno estado de graça encontra o seu apogeu para juntar os cacos de nossas andanças e recriar, como num caleidoscópio, ou numa polifonia de gritos & sussurros,  todas as possibilidades de transformar a memória desse caos e as débâcles do viver e sentir, ressignificando a vida até então pressurizada nos containeres da individualidade, das conveniências, das demandas e urgências de uma civilização contemporânea que elegeu, de forma fetichista, o mercado e a competição, colocando em combate permanente o ser e o ter.

Rita nos diz que é possível sair dessas algemas, romper amarras, implodir as celas do pensamento, que não há confessionário nem terapia maior que a palavra, cuja profilaxia e eficácia desmantela com o que nos aprisiona, inviabiliza e proscreve. Pois ela nos assegura e sinaliza que “Quem faz um poema abre uma janela./ Respira, tu que está numa cela/ abafada,/ esse ar que entra por ela./ Por isso é que os poemas têm ritmo/ – para que possas profundamente respirar./ Quem faz um poema salva um afogado”.

E é nessa “Viagem interna,/levando a alma/ como lanterna” que a poeta nos aponta o caminho. Bem o disse Freud: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” Assim como Rita o fez, sua clínica pessoal é o poema, instância em que a subjetividade se expõe sem mesuras, porém sem apelação sentimentaloide, para interditar toda melancolia e realizar uma reflexão objetiva, ainda que sob o pálio de uma inflexão pessoal e intimista, sobre suas vivências e seus confrontos, sobre seus contatos e seus desconfortos, algo tão humano e universal.

E nesse balanço-testemunho-testamento, a mulher ressurge a partir da percepção da poeta que, agudíssima, enfrenta a travessia, para compreender, além das enfermidades que tantas vezes esterilizam corpo & alma, a sensação de nossa finitude e de neutralidade dos oásis nos desertos de nossos questionamentos, pois nos evocando mais a busca do que o encontro de verdades prontas, Rita Moutinho desfere o golpe de misericórdia contra o estanque e imutável das convicções inúteis: “Minhas certezas se evaporam,/ e as perguntas são rarefeitas como gases./ Suas respostas?/ São miragens, não oásis.”

Acesse o livro no site da Ateliê

Comunhão em Quatro Tempos

Renato Tardivo

Literatura e Psicanálise

Se Freud não escreveu muito sobre a relação entre literatura e psicanálise – embora usasse e abusasse das citações literárias, se valesse de referências da literatura clássica para a criação de conceitos e o único prêmio que recebeu em vida tenha sido o Goethe –, alguns psicanalistas contemporâneos tomaram essa relação como objeto de investigação. Talvez possamos dividir esses estudiosos em duas vertentes: aqueles que vislumbram na psicanálise uma poderosa ferramenta de leitura e análise de texto (perspectiva iluminista adotada inclusive por alguns segmentos da crítica literária) e aqueles que propõem certa analogia entre as duas áreas e, nesse sentido, não se valem de conceitos psicanalíticos para traduzir uma obra (ou a biografia de seu autor), mas valorizam a psicanálise em seu potencial poético e libertador.

Há, ainda, obras literárias que lidam com aspectos da relação entre psicanálise e literatura. Também aqui podemos encontrar as duas vertentes tratadas acima: há textos, em prosa ou verso, que recorrem à psicanálise de modo didático e ilustrativo, mas há escritores que optam pela entrada da psicanálise pela via da criação, produzindo obras inventivas. Menciono, a esse propósito, Contos do Divã, de Sylvia Loeb, livro que já resenhei neste espaço (leia aqui a resenha). Além disso, como sabemos, é possível vislumbrar potencial literário em alguns relatos clínicos redigidos por psicanalistas. Vale lembrar que: 1) o próprio Freud explicitara nos Estudos Sobre a Histeria (1895) a semelhança entre seus casos clínicos e as novelas; 2) em carta enviada a Arthur Schnitzler (não revelada enquanto Freud era vivo), o pai da psicanálise se dirigira ao escritor como seu duplo; 3) novamente, cabe a menção ao Prêmio Goethe.

Barco e Mar

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita Moutinho

Ocorre que esses textos na interface da psicanálise e literatura são predominantemente escritos da perspectiva do analista. Menos comuns são os textos escritos da perspectiva do analisando. Psicolirismo da Terapia Cotidiana, que reúne excelentes poemas de Rita Moutinho, insere-se nessa vertente. O livro é composto por poemas em versos livres e também por sonetos, tanto o inglês, com os 14 versos unidos, como o que traz quartetos e tercetos separados. A autora declara na Apresentação que os sonetos foram escritos nos anos 2000 e os demais nos anos 80, mas todos os poemas dizem respeito ao seu período de análise (anos 80) e quase sempre dirigem-se ao analista.

Divididos em quatro tempos: “Tempo Nublado”, “Tempo Instável”, “Tempo Parcialmente Nublado Passando a Límpido”, “Céu Quase Limpo com Clarões no Horizonte”, o livro reúne a experiência de uma mulher em análise. Como se vê, trata-se da terapia cotidiana reescrita com psicolirismo – e o título do livro dialoga com Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), texto em que Freud se propõe a apresentar noções básicas de sua teoria.

A transferência, questão central na psicanálise e também nas artes, uma vez que ao entrar em contato com uma obra transferimos emoções e afetos, talvez seja um dos principais elementos do livro. Mas, sem a frieza dos textos teóricos, há uma espécie de resgate visceral da relação transferencial vivida com o analista, que, no início, sustenta a presença da persona lírica. Cito versos de alguns poemas da primeira parte: “Estou dissolvida, sem capacidade de luta, / sem verbalização que organize / o medo, o desconcerto, o dúbio”; “Futuro, nele crer, isso e mais nada”; “Doer, doer de novo / a dor que é passada”; “Ah, quando poderei sã navegar, / se sou a um só tempo barco e mar?”.

Casamento Estranho

Ao longo do livro, conceitos da psicanálise aparecem aqui e ali, mas não são o foco; ocupam um lugar invisível que adentramos porque os versos são endereçados ao profissional cuja escuta é atravessada por eles. O que atravessa o Psicolirismo da Terapia Cotidiana é a palavra, que se refere à palavra, para terminar na… palavra.

Se já não bastasse a qualidade dos poemas, eles ainda se perfazem em uma unidade narrativa: o caminho em direção à alta da paciente. Já perto do fim, mesmo “que não há fim no desfecho”, o “Soneto da Comemoração do Insight” é assim finalizado: “Sermos par na tristeza e na alegria, / metáfora de núpcias: terapia”. Com efeito, Rita Moutinho reconstrói com lirismo esse casamento estranho, em que um “beijo de despedida” é “fraudar as regras” e o sucesso implica separação, tornando público, mesmo que por meio da persona lirica, um processo tão íntimo e fazendo da experiência de separação com o analista uma possibilidade múltipla de comunhão e abertura com os outros: agora, leitores.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Entrando nos Clusters de Pedro Marques

Marcelo Veronese

Clusters, de Pedro MarquesO título vem como que forjado na capa grossa, Clusters incrustado fundo com letras que parecem ter sido datilografadas numa máquina de escrever para não deixar as palavras lineares, para que no extremo início os caracteres já se vissem livres de qualquer objetivo, isentos de fazerem de sua união qualquer significado final, sem alvos, e ainda assim pesados, chumbo no papel duro, sulco no olho (que o dedo pode revelar plano, talvez) enquanto o nome do poeta desce pela margem direita, de lado, paralelo à esquerda cor de vinho (uma lombada caudalosa), nome como numa escrita vertical que antes cruzou o título – como acontecerá dentro do livro, na relação entre os títulos dos poemas e os próprios versos: Clusters aperta o gatilho da mente, o autor escapa da cena – e o leitor entra…

Eu leio e releio a dedicatória, como quem se cumprimenta demoradamente, eu pulo o prefácio porém me deparo com uma introdução em prosa, eu a leio sem atenção, eu quero os versos – poemas! – e, assim que leio “I” de Olfativas, tudo o que li na prosa volta à minha mente, mesmo sem eu querer “voltar”, quero ir adiante, releio o poema porque “massa”, “conjunto”, “música”? Sim, é isso; não, não só isso: ali em “I” há poucos versos e muito mais coisa, bem ali leio tanto e tantas vezes que me rendo, sim, tudo o que veio antes é verdade, toda a prosa falava da poesia, que então se mostra muito mais livre e forte e alta que eu não tenho coragem de escrever uma palavra sobre este poema.

A tentação é voltar mais atrás e ler o que Lêdo Ivo disse sobre os livro, mas não: eu não me rendi ao que não entendo. Eu me rendo a uma novidade que, confesso, não esperava que coubesse logo ali, de início, naqueles poucos versos, e isso me perturba agudamente, é estranho, percebo que reli o “mesmo” poema várias vezes, como se a releitura não me desse outros modos e as várias maneiras de senti-lo. De modo que, no fundo, penso já se encontrar concentrada ali tudo, ou muito já exposto de antemão numa composição feita para uma única leitura, e em verdade, isso é fazer um poema (digo, um único e imortal poema), isso é estilo em poesia, essência e plural, conjunto e isolação, Pedro abre seu livro com um alcance inimaginável pra mim, esse que tem medo de não conseguir contar o que viu e o que ainda sente, que até então achava que não sabia quem era ele, o poeta, nem quem era Clusters, mas pensava saber o que era poesia.

Ok, uma palavra (que vale por duas): maravilhado – espanto e admiração…

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Pedro Marques é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp. Editor e colaborador da Revista de Poe­sia Lagartixa e do site Crítica & Companhia. Organizou a Antologia da Poesia Parnasiana Brasileira e co-organizou a Antologia da Poe­sia Romântica Brasileira, ambas em 2007. Pela Ateliê publicou Manuel Bandeira e a Música – com Três Poemas Visitados.

Nasce um poeta

Cida Sepulveda

“Uma brisa folheia o jardim…”

Imagem inusitada e simples. Qual criança não saberia arriscar-se a uma interpretação? Trabalhando com jovens de 11 a 15 anos, tenho percebido o valor da poesia no estímulo à prática da leitura e escrita. A poesia, no sentido estrito, tem a vantagem de ser “não formal”, permite maior flexibilidade no tocante à compreensão e à própria produção textual de aprendizes da escrita. Então, quando leio um poema, meu primeiro pensamento é para o jovem leitor: ele conseguirá dialogar com estes versos? Essa prática me faz refletir sobre o sentido da escrita, ou seja, para quem é dirigida?

As respostas ficam em aberto.

Livro "Clusters",  Pedro MarquesToda essa introdução para falar do livro de poemas Clusters, de Pedro Marques, Ateliê Editorial, 2010. Livro composto por partes com subtítulos – partes temáticas. Não temas de conteúdo, mas de formas. O autor tenta montar um conjunto de diferentes vozes. O título do livro: Clusters, que significa ramalhetes, agrupamentos, grupo de ilhas, crescer em cachos, é uma escolha muito feliz. Que livro de poema não é um cluster? As ilhas são: “Olfativas”, “Tragédias”, “Alguma Canção”, “Variação Meninas”, “Títulos Estrangeiros”, “Em Cena com o Absurdo”, “Originalidades”, “Quebradeira”, “O Jogo das Definições” e “Droga Moderna”. São títulos instigantes porque incomuns, nada clichês.

Com bela apresentação de Lêdo Ivo, Clusters é praticamente o 1º livro de Pedro Marques. A inovação formal se dá através de uma linguagem que se alimenta de clássicos como Manuel Bandeira e Drummond, sem ignorar Manoel de Barros e Gonçalo Tavares.

Em Clusters, há preciosidades, tais como: “À espera real dos bárbaros” que, delicadamente, desvela ambientes de terror, desde os mesopotâmios, passando pelas guerras modernas e pelo capitalismo predatório – tudo em linguagem básica, sem pirotecnias. É como se o poeta pincelasse o que vê, acrescentando ao seu esboço uma falsa indiferença que o salva do melodrama.

No poema “Primeiro gol”, o artista segue a mesma linha de construção: esboça, com a ponta afiadíssima de um pincel imaginário, o movimento de um jogo de futebol, o barulho das comemorações de um gol e encaixa nesse cenário Soledade, uma moça que trabalha em sua velha máquina de costura manual. A narração do movimento do jogo é, na verdade, moldura para iluminar Soledade.

“Avenida da Saudade” é um poema claro, ritmado. Traduz melancolia e paisagem. Balada para Manuel Bandeira e Drummond? É o espelho em que o cotidiano do passado se reflete.

No poema “Bandolim” o poeta evoca a infância, tempo imaginário, poesia latente. Jogos de imagens, impressões e tempos, criam atmosfera idílica e envolvem o leitor em doce melancolia.

“Iniciação” retrata a relação de duas crianças. O retrato vai se compondo até a menina se tornar mocinha. A sequência linear dos acontecimentos é interrompida pela revelação da moça:

– Estou triste
– Por quê?
– Não tenho motivo, só frio!

A frase, colocada com tanta placidez, apavora. O poeta deseja é isto mesmo: apavorar, tirar-nos do limbo cotidiano que nos enterra vivos.

O poema “No way” é um texto de vanguarda que critica o intelecto enquanto valor em si mesmo. Provocativo e irônico, ataca o pedantismo que abunda nas academias e seus arredores.

Menina, de fato és bela!

Mas não te quero

Seria preciso namorar,
conhecer passado
                  família
      teu gato

Quero aventura de puta!

Contigo há trabalho filosófico

E como sou preguiçoso
pra voar com Camões:

Não te quero não

“Em cena com o absurdo”, outra parte de Clusters, temos pétalas de prata como estas:

Se Édipo aparecesse
lá nos Estados Unidos
pegava uma cana

Ou ainda:

Ela detesta a série Máquina Mortífera,
adora novela das oito,
contesta a revista Carícia
e acha o Latino muito louco

Moça de família,
inteligente e bem educada,
sem nenhuma patente anomalia

Pergunta-se à patrícia:

Você é a favor da pena de morte?
Pelo fim da violência, of course!

E a legalização do aborto?
Que absurdo! Tem culpa a criança?

Crítica social através de poesia que fala direto ao homem comum, sem perder a elegância, a profundidade, enfim, a beleza que é o objetivo maior do artista. Mas por que pétalas de prata e não de ouro? Não tem aí nenhuma alusão ao valor literário da obra. Pétala de prata soa mais delicado, menos brilhoso, mais sutil. Definitivamente, nasce um poeta em Clusters.

Pedro Marques é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp. Editor e colaborador da Revista de Poe­sia Lagartixa e do site Crítica & Companhia. Pela Ateliê, publicou também o livro Manuel Bandeira e a Música – com Três Poemas Visitados.

Uma leitura do livro Deste Lugar, de Paulo Franchetti

Sibila | Solange Fiuza Cardoso Yokozawa |

"Deste Lugar", de Paulo FranchettiPublicado em 2012 pela Ateliê Editorial, Deste Lugar, de Paulo Franchetti, é um livro que faz diferença no panorama da poesia brasileira mais recente. Em lugar do pobre chocalho de palavras em que se converteu parte dessa poesia, seduzida por uma autorreferencialidade esvaziada de sentido histórico, o livro de Franchetti fornece a imagem de um homem movido por uma angústia ancestral e tentando responder a ela, consciente, entretanto, do caráter provisório das respostas.

Em um primeiro momento, parece tratar-se de um livro de poesia erótica, com a sexualidade amorosa transfigurada em cerimônia e rito verbal, em ritmo e metáfora. Mas talvez haja um impulso criador mais profundo na base desse livro, diante do qual Eros, com suas luzes e sombras, seria uma das principais tentativas de resposta, senão a principal, a julgar inclusive pelo número de poemas que reverenciam esse deus ao cultuar o erotismo dos corpos e a pessoa amada. Trata-se do tempo, ou melhor, da consciência da finitude e de como lidar com o irremediável supremo, a morte. É ela que, mitificada, espreita o casal em um momento de breve fulgor em que falavam de amor: “Ali falamos de amor, enquanto a morte/espiava da janela e o fim da tarde descia/sobre os corpos cansados” (p.22). Em um longo e significativo metapoema que dá a ver a oficina do poeta, a escrita em processo, lê-se: “Falam de amor estes rabiscos,/da ausência, da morte antecipada” (p.95). Em outro poema de ambiência onírico-medieval, os que entraram na morte “cozinham o coração morno/nas mãos em concha”, “Enquanto nós, que desde aqui olhamos,/evitamos com cuidado nos aproximar da casa/e caminhamos a esmo, com as mãos em concha,/com a morte dentro” (p.55).

A ideia de uma subjetividade diante do decurso do tempo já está posta na epígrafe de abertura, tirada de Watching the Wheels, de John Lennon: I’m just sitting here watching the wheels. Por um lado, a lyrics de Lennon sintetiza a situação recorrente do sujeito lírico dos poemas, o qual, em um lugar sempre delimitado, o espaço de onde vê, sente e fala, “deste lugar”, fica olhando conscientemente o movimento incessante do mundo. Por outro, a escolha de uma letra de música parece encerrar uma atitude despretensiosa, antilivresca e avessa ao eruditismo pedante, a mesma que está na base do modernismo, e que é significativa porque assumida por quem é conhecedor da melhor tradição lírica, por um poeta que é também crítico, respondendo por importantes ensaios sobre a poesia clássica japonesa, Camilo Pessanha, a poesia concreta, entre tantos outros. Nesse sentido, vale destacar ainda as citações de fontes bastante diversas que são incorporadas aos poemas e reconhecidas graficamente, por meio do itálico, como tais, numa estratégia que lembra as notas de The Waste Land, com as quais pretendia Eliot desarmar os críticos que o tinham acusado de plágio.

O sujeito que assiste conscientemente à passagem do tempo, que sabe termos entrado na morte desde que nascemos, em lugar de fugir a esmo da que carrega consigo, olha-a frente a frente e tenta encontrar experiências que instaurem um tempo livre da morte, um tempo de intensidades, que confira sentido a este estar aqui. A poesia, a literatura, as artes, todas são, de acordo com o antigo topos, uma tentativa de permanência diante do que é breve e passa. Entretanto, a poesia mais autêntica constitui uma possibilidade por excelência de superação de nossa condição de seres temporais, descontínuos, separados do mundo, na medida em que realiza, como propõe Emil Staiger (1975) ao descrever a essência lírica, uma fusão entre o eu e o mundo, o passado e o presente, uma vibração em uníssono com o todo, que deixa poeta e leitor livres, por instantes, do medo da morte, bem como em um estado de suspensão provisória que é também anulação da individualidade descontínua, antecipação da morte.

Mas se a palavra poética apresenta-se essencialmente como uma saída diante do irremediável, há outras experiências que também nos resgatam provisoriamente do tempo, ou definitivamente, se recriadas em ritmo e imagem. Três dessas experiências, intimamente ligadas, aparecem como núcleos centrais de criação dos poemas de Deste Lugar: a memória, o erotismo dos corpos e a natureza. Intimamente ligadas porque a poesia erótica é o memento de um grande amor e recupera amiúde, em conformidade com a tradição lírica, elementos da natureza para tratar o amor e a amada. Por sua vez, a memória pode estar espacializada em ambiente natural, como também só permanecem como objeto de uma memória saudosa os seres e as coisas e os espaços que amamos, as pessoas que nos amaram.

Se, desde os gregos, memória e poesia estão interligadas, já que a deusa da memória, Mnemósine, é também a mãe das nove musas que inspiram a poesia, a arte da criação, na modernidade, a recorrência literária insistente à memória pode ser lida como tentativa de instaurar uma experiência verdadeira em um mundo inautêntico, de que seria exemplar a obra monumental de Proust. Não é diferente com o poeta Paulo Franchetti, cuja filiação poética mais direta remonta à alta modernidade literária. Em Deste Lugar, não poucos poemas se alimentam da memória pessoal, dentre os quais vale citar uma das peças mais bonitas do livro:

Em algum lugar, o pomar
abriga: as horas
do dia, as raízes úmidas.
Voo de pássaro, quase audível
amadurecer.
Caem agora os abacates,
o orvalho nas teias
e a sombra dos cães
sob a lua cheia.
O terreiro da tribo,
intocado.
Brilham, mais doces,
as laranjas do lado do poente.
A mão que as colhia
e descascava.
Tenho andado à volta.
Sempre um pouco além,
ou atrás, ou antes,
o pomar, as longas
esperas, o tempo quieto.
Aqui, ali. Em toda parte. (p.92)

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Paulo Franchetti é professor titular no Departamento de Teoria Literária da Unicamp e presidente da editora da mesma universidade. Escreveu, entre outros, Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa. Seu livro de haicais, Oeste, representa uma das mais admiráveis experiências na recente poesia brasileira. Para a Coleção Clássicos Ateliê organizou também O Primo Basílio, Dom Casmurro e Iracema, estes dois últimos em parceria com Leila Guenther.