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Sensibilidade e suspense na trajetória de Grenoille, em O Perfume

Filme "O Perfume", baseado no romance de Patrick Süskind

… as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.

Patrick Süskind

O Perfume faz parte daquela categoria de livros devoráveis em poucas horas. Seu autor, Patrick Süskind, nascido alemão e tendo estudado História Moderna e Medieval na Alemanha e França, escreveu roteiros de televisão e contos, e O Perfume é seu romance de estréia. A adaptação fílmica, de 2006, levou a direção do também alemão Tom Tykwer e dois prêmios no European Film Awards (Melhor Fotografia e Prêmio de Excelência, se referindo à cenografia).

Süskind narra com maestria a história de Jean-Baptiste Grenouille, nascido em meio à decadência e sujeira das feiras de Paris no século XVIII. O bebê, expelido do útero da mãe do mesmo modo que esta arranca as tripas do ventre do peixe, é deixado à calçada. Logo, é revelado aos leitores o talento de Grenouille. Seu olfato vai além dos parâmetros humanos, sendo capaz de identificar cada nota e fragrância dos mais variados perfumes; de sentir cheiros aparentemente inexistentes como o do vidro; de percorrer quilômetros reconhecendo o que estiver no caminho. Contudo, Grenouille não possui cheiro próprio, tornando-se praticamente invisível em certas situações. No decorrer da história o dom de Jean-Baptiste permite que ele se insira no mundo dos perfumistas e, com isso, sua obsessão começa; ele está decidido a criar o melhor perfume do mundo. Um pequeno detalhe faz do protagonista um serial-killer. A criação de Grenouille, o melhor perfume já produzido na história, tem em sua essência a morte de treze mulheres.

As passagens no livro que detalham a busca do protagonista por odores inalcançáveis são poeticamente descritas. Formam-se imagens esvoaçantes e sensuais na mente do leitor, que o induzem a torcer a favor do assassino, o levam ao mundo olfativo de Grenouille, o seduzem. A sensibilidade de Süskind ao escolher as palavras encanta. Sua literatura é tão apaixonante, que foge da narração típica de seriais killers, provocando certa cumplicidade entre assassino e leitor, fazendo este torcer pelo sucesso daquele.

No longa-metragem Jean-Baptiste Grenouille é interpretado por Ben Whishaw, que transborda competência e evoca empatia do público, do mesmo modo que o livro o faz. Ainda há Dustin Hoffman, interpretando Giuseppe Baldini, perfumista mestre de Grenouille, e Alan Rickman, no papel de Antoine Richis. A voz do narrador – que é um ótimo recurso para introduzir o espectador à história, uma vez que o ato de narrar remete a tempos anteriores – é de John Hurt.

A versão de Tykwer transmite muito bem o sentimento do enredo original. Com atuações belíssimas, desperta compaixão pelo protagonista; com a fotografia poetiza as imagens de forma semelhante ao que o autor faz com as palavras; e com sequências de cortes bruscos e rápidos movimentos de câmera, leva o espectador a percorrer o ambiente juntamente com o perspicaz instinto olfativo de Grenouille. Esse último recurso é utilizado para mostrar o nascimento de Jean-Baptiste e permite um belíssimo jogo entre a vinda do protagonista e a podridão e decadência das feiras – e da sociedade – naquela época. Parece ser essa sujeira intragável que desperta o primeiro choro do assassino. Sabiamente, o longa-metragem ajusta as cores conforme a sensação de odor que o ambiente deve transmitir. Nas cenas que descrevem as ruas de Paris prevalecem os tons escuros, contrastando com o ambiente interno das perfumarias, com cenário vermelho e dourado, representando a sensualidade e opulência das classes superiores.

A surpresa maior fica por conta de um desfecho surpreendente, que não poderia ser mais simbólico para o protagonista. Ambas as obras são dotadas de delicadeza e sensibilidade, de excelente ritmo de narrativa, envolvendo leitores e espectadores o tempo todo. Romanticamente, filme e livro despedem-se através do narrador de forma poética e inesperada; um verdadeiro grand finale.

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann