Tag Archive for novela

Quincas Berro D’água – O Apaixonante Vagabundo de Jorge Amado

Filme, Quincas Berro D’água, adaptação da obra de Jorge Amado

Esta adorável novela de Jorge Amado foi publicada pela primeira vez em 1959. Foi traduzida para dezenas de idiomas como o francês, inglês, grego, chinês e finlandês e substanciada no balé, teatro, programa de televisão e, em 2010, no cinema, com direção de Sérgio Machado.

Jorge Amado estava, em 1959, imerso na produção do romance de Vasco Moscoso de Aragão, quando lhe foi pedido que escrevesse um conto para um dos primeiros números da revista Senhor. O autor, relutante, deixou descansar Vasco Moscoso e em uma semana escreveu A Morte e a morte de Quincas Berro D’água.

Com o característico regionalismo das obras amadianas, A Morte e a morte de Quincas Berro D’água narra a trajetória de Joaquim Soares da Cunha, funcionário público que abdica de seu alto posto e família para levar uma vida fácil na Bahia mundana. Passa a estar sempre acompanhado de prostitutas e bebuns. Obtém admiração por parte de seus companheiros de submundo, sendo conhecido como paizinho.

O apelido Quincas berro D’água originou-se de um episódio bastante peculiar, em que o nosso beberrão protagonista é servido de um copo de água, pensando que é cachaça. Daí o grito de desespero. Ocorre então, uma de suas mortes e consequentemente, um funeral. Eis que o velório vira festança após algumas horas de choradeira: os colegas de gandaia, acreditando que tudo não passava de uma brincadeira de Quincas, levam o seu corpo para mais uma noitada. Ficam todos a passear Bahia a cima, Bahia abaixo e o livro se torna uma das narrativas mais divertidas do autor.

Já do título se fica conhecendo a pluralidade das mortes de Quincas, e a confusão em torno delas é evidenciada nos primeiros períodos da obra.Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro D’água. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira.

Os boatos e suposições contribuem para a incerteza dos fatos e tudo isso está a favor da imaginação do leitor. É aí que ele entra na história, se tornando íntimo dos personagens, formulando suas hipóteses e fazendo parte das estapafúrdias ocorrências póstumas do lendário Quincas.

O filme de Sérgio Machado dá mais ênfase à faceta cômica da história, abusando da falta de clareza sobre os acontecimentos. A adaptação do roteiro – de Sérgio Machado também – acrescenta alguns elementos novos ao enredo, não sendo uma adaptação inteiramente fiel da obra, mas transmite a alma do livro. A obra cinematográfica trabalhou muito bem a questão da regionalidade e sentimento baiano presente na narrativa literária e entreteve a plateia do início ao fim.

Fazem parte do elenco Paulo José, Marieta Severo e Mariana Ximenes. Paulo, no papel de Quincas, mostra que sabe fazer comédia. Com pouquíssimas falas, ele apresenta uma linguagem corporal hilariantemente convincente, parecendo ser o próprio Quincas retirado do livro. Palmas também aos companheiros de vagabundice Pé-de-vento, interpretado por Luis Miranda, e Pastinha, por Flavio Bauraqui.

O “vagabundo de tantas mortes”, como Zélia Gattai diz, é um personagem apaixonante. Eu acrescentaria que Quincas “são personagens apaixonantes”. Assim como suas mortes diversas, existem diversos Quincas, e cada morte simboliza a decadência de umdeles. Primeiramente, há a sua morte moral, decretada pela família, quando ocorre a renúncia da vida de prestígio que ele levava anteriormente. Ocorre então, a morte física – ao que tudo indica, pois até isso é dubitável – seguida de cerimônia de velório. Essa é a morte do Quincas subversivo, que não é aceita pelos companheiros. E por fim, há a terceira morte de Quincas; a mais poética e excêntrica de todas. Desta dispenso comentários e deixo a curiosidade para quem quiser se aventurar nos bordéis, botecos e terreiros baianos.

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann

Cada prato tem seu tempo de preparo. Assim é com o conto, a novela e o romance.

por Alex Sens | @alexsens

Até cinco minutos para tirar os talos das folhas de rúcula, cortar as rodelas de tomate e palmito, os gomos de muçarela de búfala, juntar os temperos, pulverizar tudo com novos sabores e regar a salada com azeite extra-virgem. Até uma hora para misturar a farinha, o leite, os ovos, o fermento, o chocolate em pó e o extrato de baunilha, colocar a massa no forno pré-aquecido e cortar o bolo ainda quente depois de assado. Até seis horas para fazer um Boeuf Bourguignon com cebolas e cogumelos glaceados, cortando a carne em cubos, fritando o bacon, dourando a cenoura, cortando as cebolas e derramando meia garrafa de Chianti sobre tudo. Cada receita, cada prato preparado, tem e precisa do seu próprio tempo de vida, assim como um corpo no qual se molda e órgãos vitais para que exista em plena harmonia com quem o concebeu. Assim também é a arte da ficção, com suas diferentes composições em prosa.

A salada é o conto: curta duração de preparo, poucos ingredientes, atenção maior dada ao tempero — a trama. O conto é uma forma narrativa de menor extensão, sem, no entanto, um tamanho exato definido. É menor do que uma novela, chegando muito próximo dela, fazendo charme como quem quer um pedaço da muçarela de búfala. Mas também é maior do que seu moderno desmembramento, dividido em subcategorias, chamadas de minicontos e microcontos, como no livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. O conto é menor porque nele cabe a fugacidade da história contada, é voltado para sua essência, pode começar no meio e terminar de forma inopinada, tem valor sentimental maior para o leitor de metrô ou o leitor de café, cuja disgestão se dá leve e despercebida como almoçar uma salada. Se a fome volta, lê outro conto, o lanche satisfaz o tempo estreito e logo vem a saudade dos personagens fugidios. Em Várias Histórias, de Machado de Assis, nenhum conto tem mais do que 30 páginas, mas nem por isso parece faltar temperos ou ingredientes, porque seu formato se mantém, se completa. Assim como em Refluxos, de Edson Valente, O Voo Noturno das Galinhas, de Leila Guenther, e Angu de Sangue, de Marcelino Freire. O conto surge entre fogueiras e noites estreladas, com rodas de amigos atentos, histórias a serem contadas enquanto o chá não esfria e a noite não se ilumina com a visita da alvorada.

O bolo é a novela: média duração, ingredientes medidos e pesados, atenção maior dada à quantidade de fermento e aos 180 graus do forno, para que não ultrapasse o tempo, extravasando a cor das bordas e as fendas que surgem do inchaço. A novela é uma outra forma narrativa que se equilibra perigosa entre o conto e o romance, maior do que aquele e menor do que este. Algumas novelas são equivocadamente chamadas de romance quando chegam às cem páginas, embora pareçam romances por sua divisão em partes ou capítulos, personagens mais profundos e duração da história maior do que no conto. Ao contrário do romance, e igualmente ao conto, a novela tem esse caráter lacônico, que quando parece estender-se, continuar seu caminho em direção ao romance, acaba. É maior do que o conto porque tem um desenvolvimento maior de enredo, com número igual ou maior de personagens, e menor do que o romance pelo menor uso de técnicas estilísticas de narrativa. O Filho do Crucificado, de Nelson de Oliveira, uniu ambos: novela e contos, em menos de 180 páginas. Alguns livros reúnem uma única novela, como A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e outros mais do que uma, parecendo, como objeto visualmente individualizado, um romance, como é o caso de A Trilogia de Nova York, de Paul Auster, cujo volume, como indica o título, traz três novelas.

Finalmente, o Boeuf Bourguignon é o romance: longa duração em sua feitura, muitos ingredientes, cada qual com seu tempo e modo de preparo, atenção redobrada nos detalhes, porque sem eles o sabor narrativo perde sua lógica. O romance é a ficção em prosa mais difundida, compartilhada, produzida e adaptada da literatura mundial. E. M. Forster, autor de Passagem para a Índia, afirmou que um romance não tem menos do que 50 mil palavras, e pela extensão da grande maioria é fácil diferenciar um romance de uma novela. Nada foi inventado além do romance, ele é seu próprio limite ilimitado, ou seja, não existe nada maior do que ele, só ele mesmo, de 50 mil palavras até a criação tornar-se exangue — tanto num único volume, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, ou Ao Farol, de Virginia Woolf, como em vários, quando a história é comumente longa, caso de Finnegans Wake, de James Joyce, e Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

A diferença entre os pratos está em seu modo de preparo e quais sabores carregam, sempre de acordo com seus chefes de cozinha, os escritores. Aqui, cada refeição pode ser repetida inúmeras vezes, saboreada sem moderação, e intercalada com outras tão interessantes quanto. Ler ou escrever um conto, uma novela, ou um romance nada mais é do que experimentar a vida ficcionada de diferentes formas: com os olhos, com as mãos, com garfo e faca, com uma simples colher. Vai querer sobremesa?