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Nheengatu – resgate da língua indígena

Indio

O nheengatu pertence à família linguística tupi-guarani. Surgiu no século XIX, como uma evolução natural da língua geral setentrional, em um desenvolvimento paralelo ao da língua geral paulista, que acabou se extinguindo.  Usado para catequisar os índios e como ação social e política luso-brasileira na Amazônia, o nheengatu foi mais falado que o português no Amazonas e no Pará até 1877. Atualmente, continua a ser falado por aproximadamente 8.000 pessoas na região do vale do Rio Negro.

Nheengatu, a Língua Geral Amazônica

Nheengatu, a Língua Geral Amazônica, no contexto das lutas e conquistas do movimento indígena no Baixo Tapajós, é tema de um documentário, gravado a partir de experiências e reflexões de estudantes, professores e pesquisadores que estão redescobrindo a língua.

“Continuar essa luta que a muito tempo nossos antepassados começaram, e não deixar morrer. Porque depois que o fogo se apaga, sobram só as cinzas. E essas cinzas são levadas pelo vento. Se forem levadas pelo vento fica muito difícil reconstruir aquele fogo. Por isso, sempre que a fogueira estiver apagando, nós povos indígenas e não indígenas que se deparam com a causa, vai lá e acrescente o seu tição (pedaço de lenha ou carvão) para que esse fogo nunca se apague. Vamos lutar!”

Jonas Tapajós – Aldeia de Arimum (Povo Arapium)

O vocabulário de Stradelli

Nascido na Itália, Ermanno Stradelli também buscou resgatar essa língua falada pelos índios que estava se perdendo. Viveu no Brasil por 43 anos, passando a maior parte deste tempo no Amazonas, onde se estabeleceu e conviveu com os missionários franciscanos italianos, participando de suas missões no interior. Foi quando conheceu o nheengatu, cujo estudo e pesquisa abraçou até o fim da vida. Ele mesmo era fluente em nheengatu e conhecia a fundo a cultura regional e indígena. Quando morreu em 1926, Stradelli deixou esta obra inédita, publicada postumamente em formato de revista pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1929.

Vocabulario-Portugues-Nheengatu de Ermano StradelliEm 2014 a Ateliê Editorial lança a obra em formato de livro – Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português. Preenchendo uma lacuna no conhecimento da língua que falamos hoje no Brasil, essencial para linguistas, professores e indigenistas.

Em Vocabulário Português-Nheengatu/Nheengatu-Português, o nheengatu foi mantido tal e qual o da primeira edição, de 1929. A ideia é que os leitores possam apreciar mais a lógica do texto e a imensa dificuldade – explicitada na “Nota Preliminar” – enfrentada pelo conde ao tentar compor o vocabulário de uma língua cuja versão escrita ainda não havia sido normatizada.

Mais sobre o vocabulário de Stradelli

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O vocabulário de Stradelli

Evaldo Ferreira | Jornal do Commercio | Estilo de Vida | Caderno C | Julho de 2014

Livro escrito no século 19 é reeditado e apresenta dicionário, em Nheengatu

Vocabulario-Portugues-Nheengatu de Ermano StradelliOs amazonenses não sabem, mas temos uma língua falada no vale do rio Negro que um dia foi praticamente a língua da Amazônia, o nheengatu, ou língua geral.

O nheengatu surgiu em tempos que se perderam, derivado do tronco tupi como uma evolução natural da língua geral setentrional. Os colonizadores portugueses até tentaram proibi-lo mas, em não conseguindo, acabaram por achar melhor utilizá-lo como veículo de comunicação para suas catequeses, ações sociais e políticas junto aos indígenas, e mesmo a população, que aprendera a falar a língua então utilizada mais que o próprio português.

Atualmente, cerca de oito mil pessoas continuam a falar do nheengatu no vale do rio Negro, mas quem quiser se aprofundar no conhecimento dessa riqueza que um dia poderá ser extinta uma boa oportunidade é ler o “Vocabulário Português –Nheengatu/ Nheengatu- Português”, escrito por Ermano Stradelli no final do século 19, em suas andanças pelo vale do Purus para o Vale do Negro. O vocabulário foi reeditado pela Ateliê Editorial, de São Paulo, este ano.

O conde italiano Ermano Stradelli, então com 27 anos, aventurava-se pela Amazônia desde 1879 até resolver estabelecer-se definitivamente no Amazonas em 1888. Ficou conhecido pela dedicação que teve pelo estudo nheengatu e de outras línguas indígenas .

Inicialmente trabalhou como fotógrafo (a Sociedade Geogradica Italiana possui 62 dessas fotos expostas em Manaus entre julho e agosto do ano passado), virou comerciante na capital amazonense e passou a conviver com missionários franciscanos italianos, percorrendo com eles o rio Purus e seus afluentes, quando conheceu o nheengatu, pelo qual se apaixonou e estudou pelo resto da vida.

Para elaborar o vocabulário, Stradelli  contou com o auxílio de um indígena que, lógico, dominava o nheengatu, mas o próprio conde se tornou afluente na língua, cujas culturas regional e de referência conhecia extensamente.

indio

Proibida por duas vezes

Quando Stradelli morreu, em 1926, aos 74 anos, pobre, num casebre improvisado no leprosário do Umirisal, em Manaus, o vocabulário continuava com ele, inédito, e só foi publicado três anos depois, em formato de revista, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

“Longe de sermos um país monolíngue, no que respeita a fala cotidiana generalizada em todo o território nacional, somos um país bilíngue. No português que herdamos de Portugal, os brasileiros infiltraram uma segunda língua, popular, o nheengatu, que se falava aqui, duas vezes proibida por Portugal aos brasileiros , em 1727 e em 1757.  Não obstante, impregnou com sons e palavras a língua oficial e dominante, até então língua de repartição pública. O nheengatu (língua boa) ainda é falada em várias regiões e é, até mesmo, língua oficial em São Gabriel da Cachoeira,  no alto rio Negro”, explicou José de Souza Martins, na nota preliminar do “Vocabulário…”, da Ateliê.

Ainda de acordo com José de Souza Martins, “Stradelli não se limitou a arrolar vocábulos e as respectivas traduções, mas agregou-lhes uma gramática e preciosas considerações etnográficas de quem conhecia a língua vivencialmente. Esse cuidado é enriquecido pela incorporação de palavras nheengatu que já expressam a realidade social pós-tribal, resultante, sobretudo, da influência missionária invasiva, como é o caso de tupaocamiri (pequena casa de Deus), para designar capela, que não existe nas nossas sociedades indígenas: uma ideia portuguesa pronunciada em inventada palavra brasileira”, revelou

Imensa Dificuldade

Em Vocabulário Português-Nheengatu/Nheengatu-Português, o nheengatu foi mantido tal e qual o da primeira edição, de 1929. A ideia da editora é que os leitores possam apreciar mais a lógica do texto e a imensa dificuldade – explicitada na “Nota Preliminar” – enfrentada pelo conde ao tentar compor o vocabulário de uma língua cuja versão escrita ainda não havia sido (como de fato não o foi até hoje) normatizada.

 

Conheça mais sobre o Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

 

O Nheengatu que dá barato

José Ribamar Bessa Freire | Diário do Amazonas | 25 de maio de 2014

Capa do novo cd da banda Titãs

Capa do novo cd da banda Titãs

Tinha cara de bebê chorão. Morava na Ilha do Governador, no Rio. Não lembro mais o nome dele. Agnaldo ou Agnando, uma coisa assim, mas era conhecido como Pindá. Como qualquer vendedor de drogas em porta de escola, percorria diariamente universidades para abastecer a clientela, cujos vícios e gostos conhecia muito bem. Na UERJ, se esgueirava pelos corredores, qual felino de mansa pisada. Ia de sala em sala, levando a mercadoria. Silencioso e discreto, só abordava os consumidores potenciais sem presença de testemunhas. Um belo dia, sumiu. Dizem que foi preso.
Conheci-o há mais de vinte anos. Quem nos apresentou, se não me engano, foi Gilberto, um professor de engenharia, que era chegado na coisa e da qual era também dependente:
– Esse é Pindá, meu fornecedor. Mercadoria garantida. Pode confiar.
– Pindá é anzol em Nheengatu – eu disse, explicando que Nheengatu era uma língua de base tupi falada em todo o Rio Negro, tão viva que se tornaria depois, em 2002, língua cooficial no município de São Gabriel da Cachoeira (AM).
Bastou isso para que o tráfico se fizesse carne e habitasse entre nós. Pindá, um profissional sério, jogou o anzol e eu mordi a isca. Ele percebeu que eu, recém transferido do Amazonas para o Rio, passava por crise aguda de abstinência causada por suspensão brusca do uso do objeto do desejo. No dia seguinte, voltou, abriu sua maletinha e deu o bote pingando três pontos de exclamação:
– Olha aqui! Pra você! Coisa fina!
Ficou observando minha reação. Vi a mercadoria armazenada dentro de uma caixa de papel confeccionada sob medida, coberta por camada de pó branco e cristalino. Dava uma overdose.

A dopamina

 – Quanto custa? – perguntei, tentando esconder a ansiedade.
Mas ele percebeu o aumento na frequência dos meus batimentos cardíacos. Era experiente no trato com dependentes. Baseado – baseado mesmo – na vontade do consumidor de experimentar sensações mais fortes, costumava oferecer doses cavalares do produto, cada vez maiores. Deu o preço. Custava os olhos da cara somados ao olho do pescoço em francês. Uma fortuna!
– Muito caro. Quase um mês de salário. Tenho que pedir financiamento no banco – ironizei.
– É coisa rara. Tá todo mundo querendo. A doutora Ruth Monserrat, lá do Fundão, já fez uma encomenda. Aquele alemão, o Wolf Dietrich – conhece? – paga em euro ou em dólar. Não é caro não.
Tentei desvalorizar a mercadoria para baixar o preço:
– Tem até traça… – eu disse, apontando o pó.
– Não é traça. A caixa é de papel alcalino com cola anti-traça – ele disse. Parecia adivinhar que naquele momento meus neurônios já liberavam noradrenalina e dopamina. Ele nos entendia. Durante anos, nos consolou, fornecendo o que cada um de nós precisava.
Soprei o pó, tirei a mercadoria da caixa e comecei a folhear com cuidado. Era o Vocabulário da Língua Geral Portuguez-Nheengatú e Nheengatú-Portuguez, 768 páginas, escrito por Ermano Stradelli e editado em 1929, depois de sua morte, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A edição foi feita com material vagabundo, em papel jornal, mas se trata de raridade bibliográfica, que contém um tesouro, dificilmente encontrado nos sebos.
Disfarcei a emoção desdenhando:
– É. Ainda bem que tenho todo ele fotocopiado.
Mentira. Ele sabia que não era possível fotocopiar sem esfarinhar o livro. Ele sabia que eu ia comprar, eu sabia que ele sabia que eu sabia. O que se seguiu foi jogo de dissimulação, fingimento, embromação, rasteiras, camuflagem. No final, aconteceu o previsível: apesar de muito choro, mordi a isca do Pindá, comprei pelo preço que ele pediu, afinal o dicionário era inacessível, pois nunca havia sido reeditado.

Destino do Pindá

"Vocabulario-Portugues-Nheengatu", de Ermano StradelliAgora foi. A Editora Ateliê, de Cotia (SP), acaba de reeditar, em 2014, o dicionário de Stradelli, com revisão de Geraldo Gerson de Souza, orelha escrita por José de Souza Martins (USP) e apresentação de Gordon Brotherston e Lúcia Sá (Universidade de Manchester) que chamam atenção para os usos que pode ter:
– É possível utilizar o Vocabulário de Stradelli como um dicionário qualquer, procurando termos específicos, concordando ou discordando das definições do autor, estudando a morfologia e a fonética da língua. Isso não impede, todavia, que leitores interessados na Amazônia e sua história percorram as páginas desse impressionante trabalho na tentativa de ampliar seus conhecimentos sobre fauna, flora, medicina, pesca, caça, agricultura, astronomia, história, política, rituais e costumes, além de literatura e folclore indígena caboclo – tudo isso a partir do nheengatu.
Relembrar a história do Pindá foi a forma que encontrei para anunciar aqui o lançamento de obra tão importante para a Amazônia e para o Brasil. Concluo com três notas: uma pequena crítica sem qualquer demérito para a obra, uma informação sobre o destino de Pindá e uma notícia sobre o nheengatu, que está sendo cada vez mais falado, escrito e até cantado.
A crítica: a bibliografia citada nesta reedição foi atualizada com outros trabalhos, mas não há qualquer menção a muitos autores que pesquisaram o tema, entre os quais Aryon Rodrigues, referência obrigatória quando se trata de línguas tupi, nem qualquer indicação sobre a única história que se tem até hoje do nheengatu – Rio Babel, a história da línguas da Amazônia (Eduerj 2004 1ª edição e 2011 2ª edição) de autoria de um cliente chorão e meio cabotino do Pindá, o fornecedor de livros do professor Gilberto e de toda a Uerj.
O destino de Pindá: foi preso não por vender obras raras por preços exorbitantes, com estratégia de comercialização dos vendedores de droga, que atraem a presa, seduzem e manipulam a dependência. Foi preso por não pagar pensão alimentícia. Sumiu do mapa, levando com ele as fichas dos professores da UERJ que mantinha mais atualizadas do que aquelas que figuram na Plataforma Lattes.
A notícia: no facebook tem um grupo Nheengatu on line, com quase cem membros, onde diariamente se escreve e se troca informações nesta língua. Foi lá que os usuários tomaram conhecimento do dicionário de Stradelli, lançado no momento em que a banda dos Titãs apresenta Nheengatu, seu novo álbum com capa reproduzindo pintura do século XVI – Torre de Babel – de Pieter Bruegel.
No entanto, é uma pena que na divulgação do novo CD se reproduza um erro histórico com a afirmação de que o nheengatu é uma “língua artificial criada pelos jesuítas no Brasil”. Nem é artificial, nem foi criada pelos jesuítas, cuja contribuição consistiu em dotar com  ortografia uma língua que já existia – e que foi se modificando com o uso como qualquer língua – possibilitando sua divulgação escrita na catequese e sua expansão pelos rios da Amazônia. De qualquer forma, o esforço dos Titãs por recuperar as raízes históricas do Brasil confirma que o Nheengatu falado, escrito ou cantado até na França ainda pode dar o maior barato, como queria o saudoso Pindá.

O Som da Imagem

Oliviero Pluviano | Carta Capital | 7 de maio de 2014

RARAMENTE pensamos na morte. Existe um antídoto que nos impede de lembrar a todo instante que tudo acaba, que nascemos de un polvo (como os espanhóis chamam o momento da geração) e fatalmente voltaremos a ser poeira. É a mesma defesa psicológica a impedir que nos aterrorize nas noites estreladas a nossa condição de infinitésimos habitantes da Terra com os corpos celestes. Quem sabe esse remédio milagroso se chame vida? A morte dos outros passa perto de nós todos os dias: quem nunca viu um motoboy agonizando no asfalto em uma poça de sangue? Foi pensando nisso que segurei por um mês a mão da minha mãe doente. Sedada no hospital por um câncer, no último dia de sua vida acordou de repente, me acariciou e disse: “É uma pena, gostava tanto de viver” e mergulhou definitivamente no coma.

Estou lendo um livro delirante, mas extremamente lúcido, a Viagem ao Fim da Noite (1932) do gênio francês Louis-Ferdinand Céline, que afirmava saber demais e ainda não conhecer o suficiente. Ele também roça a morte quando escreve que “talvez a idade que se aproxima, traiçoeira, nos anuncie o pior. Já não há mais muita música para fazer a vida dançar. Toda a juventude já foi morrer ao fim do mundo no silêncio da verdade. A verdade é uma agonia interminável. A verdade deste mundo é a morte”.

O ex-embaixador italiano no Brasil La Francesca e eu nos especializamos em exploradores e viajantes italianos na América Latina do fim do século XIX e, como bons aposentados, viajamos livremente atrás de suas pegadas. Estivemos em um 4×4 no Chaco paraguaio, seguindo os passos de Guido Boggiani, pintor, fotógrafo e etnólogo, morto por um índio chamacoco em 1902 (veja O Som da Imagem de Carta Capital 766).

Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português, de E. StradelliTambém foi trágica e incomum a morte do conde Ermanno Stradelli, que chegou em Manaus em 1879 e terminou seus dias em 1926, sozinho e doente de hanseníase, no leprosário de Umirizal, nos arredores da capital amazonense. E pensar que apenas quatro anos antes produzira o único vocabulário do nheengatu, a língua geral dos povos da Bacia Amazônica, somente agora publicado pela Ateliê Editorial. Isso em nada lhe serviu para evitar seu dramático epílogo.

O calçadão da praça do Teatro Amazonas em Manaus, mostra desde os tempos de Stradelli aquele jogo de ondas em branco e preto que inspirou Burle Marx em Copacabana. Reproduz o encontro das águas claras do Rio Solimões com as águas escuras do Rio Negro. Para outros, representa a eterna luta entre a vida e a morte, o terrível duelo entre o bem e o mal. Mas será que são opostos?

Ao falar da morte, este meu texto sinistro só pode acabar com uma lembrança tocante de Claudio Abbado, em minha opinião o maior maestro de todos os tempos, falecido no dia 20 de janeiro aos 80 anos. Ele amava especialmente Carlo Gesualdo (1566-1613), “príncipe dos músicos”, senhor de Venosa, enigmático madrigalista da morte. Matou sua esposa Maria d’Avalos, considerada a mais bela mulher de Nápoles, e seu amante. Viu todos os seus filhos morrerem, e passou um ano entre a vida e a morte vítima do feitiço de uma bruxa. Disso tudo nasceu aquela obra prima tardo-renascentista que é Tenebrae. Ouça no YouTube a versão do quarteto Hilliard Ensemble, e você vai entender a predileção de Abbado por esse compositor da inquietude, inovador do cromatismo, precursor da decomposição tonal. Isso tudo envolto em um mistério mortal que ainda nos fascina…

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Leia o release do livro: Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português