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Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci

Leonardo da Vinci

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 4.3.2013

O físico vienense Fritjof Capra, conhecido pelo best-seller Ponto de Mutação, admite que não poderia ter avaliado os trabalhos científicos do gênio renascentista Leonardo Da Vinci (1452- 1519) sem a ajuda de colegas especializados em outras disciplinas. Ele faz a revelação logo no começo de seu livro A Alma de Leonardo Da Vinci, que a editora Cultrix colocou no mercado quase que simultaneamente ao lançamento de Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, coedição luxuosa da Ateliê Editorial e a Editora Unicamp que reproduz 215 gravuras anatômicas do pintor. Capra fala também desses desenhos em seu livro. É possível, portanto, entender a razão de ter recorrido a colegas para empreender uma análise do pensamento científico de Da Vinci, definido por ele em entrevista exclusiva ao Estado, como a “síntese perfeita entre arte, ciência e tecnologia”.

A herança cultural deixada por Da Vinci é especialmente valiosa para nosso tempo, diz Capra, por ter sido o pintor um pesquisador sistêmico, “um observador da natureza que não teve influência direta sobre os cientistas que vieram logo depois dele – por não ter publicado suas descobertas -, mas que é fundamental para o século 21, quando problemas globais tendem a ser analisados segundo uma perspectiva interdisciplinar”.

A essência de sua “alma”, segundo Capra, é justamente “a conjunção de sua curiosidade intelectual com engenho experimental”. E coragem, faltou acrescentar. O livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, por exemplo, traz 1200 desenhos que não seriam possíveis sem que desafiasse a bula papal, partindo para a dissecção de cadáveres, punida em sua época com a excomunhão. Se Da Vinci vivesse hoje, arrisca Capra, ele seria um cientista holístico, lutando pela sustentabilidade. “É difícil afirmar categoricamente que Leonardo teria seguido esse caminho quando se trata de um gênio de personalidade complexa, mas tudo indica que sim.” Só um artista que definiu a pintura como fruto da observação da natureza e estudou a correlação dos padrões botânicos e animais, de acordo com Capra, podia dizer que “entender um fenômeno é associá-lo a outros fenômenos”. Séculos antes das especulações futuristas do filme Matrix, Da Vinci já levava em conta a similaridade de padrões nos mundos animal e vegetal.

Curiosamente, para um homem tão sábio, segundo Capra, não se encontra nos cadernos de anotações de Da Vinci uma só linha sobre suas emoções. Ele analisou esses caóticos cadernos de notas, tentando seguir o método empírico do artista – basicamente apoiado na observação dos fenômenos naturais -, mas não descobriu em nenhuma das 6 mil páginas, dispersas entre bibliotecas e museus, uma mísera referência à vida privada de Da Vinci. “Há só uma nota em que ele registra a morte do pai, ainda assim de passagem.”

Os estudos sistêmicos de Da Vinci são fundamentalmente diferentes da ciência mecanicista de Galileu (1564-1642) e Newton (1643-1727). Nem tudo se explica pelas leis da mecânica. Essas são ideias do século 17 que Leonardo não aprovaria se tivesse nascido nele. Capra apresenta a ciência das formas orgânicas de Da Vinci como “radicalmente diversa” de seus seguidores. “Como cientista, ele coloca a vida no centro de tudo, mostrando que os fenômenos naturais são interdependentes e interligados.” Esta, observa Capra, é com certeza uma boa lição para a ciência atual. “Ele foi o primeiro anatomista moderno, um ecofilósofo e ecocientista que não viu o corpo humano apenas como uma máquina.”

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

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O CORPO SEGUNDO O GÊNIO

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciInéditos no Brasil, Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, organizados por Charles D. O’Malley e John Bertrand de C.M. Saunders, reúnem 1200 desenhos anatômicos realizados por Da Vinci entre 1498 e 1513, dispostos em ordem cronológica e organizados em nove áreas de estudos, da anatomia comparada à embriologia. Traduzidos pela dupla Pedro Carlos Piantino Lemos e Maria Cristina Vilhena Carnevale, esses cadernos, aparentemente destinados a estudantes de Medicina, constituem mais que esboços dos sistemas anatomofuncionais. São obras artísticas de um gênio renascentista que viu no corpo mais que um instrumento para servir de modelo a pintores e escultores.

No tempo de Leonardo, os estudos anatômicos não tinham avançado muito em relação às pesquisas medievais baseadas na dissecação de animais, que, aliás, eram proibidas nos séculos 13 e 14 — primeiro por causa da influência da interdição árabe e, posteriormente, proibida pela bula papal. Por ter sido aluno de pintura de Verrocchio (1435-1488), Da Vinci dividia com o mestre o mesmo interesse científico – embora o instrutor não pintasse muitos nus e tivesse menos conhecimento de anatomia do que seria desejável para orientar um gênio.

Leonardo começou por observar e desenhar corpos de enforcados ainda em Florença. Ao se fixar em Milão, num esforço de esculpir uma estátua equestre de Francesco Sforza, dissecou um cavalo e fez belos desenhos.

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

O desenho anatômico mais antigo que se conhece de Leonardo é de 1487. O crânio visto acima é de 1489. Ele fornece ao observador informações sobre a oclusão dentária e anotações que remetem aos estudos de Avicena e Galeno. Os exemplares mais impressionantes dessa bela coleção de gravuras pertencem à série anatômica do “homem centenário” que ele dissecou em Florença, em que mostra a degeneração dos vasos sanguíneos dos idosos. Em outras palavras: a arteriosclerose.

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