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Entrevista com Waldecy Tenório que lançou Escritores, Gatos e Teologia

Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa

"Escritores, Gatos e Teologia", de Waldecy TenórioNo último dia 7 de maio, o professor, escritor e jornalista Waldecy Tenório lançou seu novo livro Escritores, Gatos e Teologia.  Nesta obra o autor continua com o tema já abordado em seu primeiro livro pela Ateliê – A Bailadora Andaluza –, que é aproximar Literatura e Teologia.

O lançamento foi na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho e teve a participação de muitos amigos e colegas. Durante o evento, Luciana Frateschi leu trechos da obra, e Luciana Celo cantou poemas musicados de Drummond, Cecília Meireles, Adélia Prado e outros, acompanhada pelo violão de Raphael Gemal.

Segue entrevista com o autor.

Ateliê – Em seu outro livro, A Bailadora Andaluza (Ateliê, 1996), já aparece a ideia do Sagrado e a relação entre Teologia e Literatura. Naquele caso, sua tese é demonstrada pela poesia de João Cabral de Melo Neto. Em Escritores, Gatos e Teologia sua tese é ampliada para outros autores. Como se deu aquela, e esta investigação? Deu trabalho aproximar literatura e teologia?

Waldecy Tenório – Você observou bem: a ideia do Sagrado e a relação entre literatura e teologia são temas centrais nesses dois livros, temas quase obsessivos que aparecem também em outros escritos meus. A experiência de ver esses temas na poesia de João Cabral foi uma verdadeira educação pela pedra. Diziam: João Cabral é ateu, não tem transcendência, não tem alma e tal… Ele mesmo alimentava isso e isso, por sua vez, alimentava minha pesquisa. Diziam: João Cabral é ateu.  Sim, e daí?  Deus também tem seu momento de ateísmo como nos lembra Chesterton. Mas ainda que João Cabral fosse simplistamente ateu, e não era. Uma coisa é o João Cabral empírico, outra coisa é a sua poesia. E essa poesia, como resumi-la?  Como a procura do “fino instante exato” em que o peixe (símbolo de Cristo ou da transcendência?) se pesque. O ponto de apoio era então a poesia de João Cabral. Já em Escritores, Gatos e Teologia  a pesquisa se abre para outros autores, quase todos também ateus, como esse extraordinário ateu que é Samuel Beckett, o tempo todo esperando Godot. Aqui entramos em contato com muitos autores e personagens como Virgílio e Dante, Dostoiévski e o Grande Inquisidor, Madame Bovary e Thèrese de Lisieux, Proust e Manuel Bandeira, Joyce e Santo Agostinho, Adélia Prado e Hilda Hilst, Riobaldo e o interlocutor cruel que o atormenta, Teilhard de Chardin e Saint-Exupéry, Drummond e Guimarães Rosa, os vagabundos de Beckett e aquela mulher de Sevilha dos poemas de João Cabral. E todos eles, ateus ou não, com suas perguntas pelo sentido nos encaminham para a teologia. O problema nisso tudo foi mesmo o computador,  que muitas vezes apagava o que eu escrevia, como uma atualização da ideia do inferno. Mas como quem pesquisa está sempre procurando a si mesmo, até o computador se tira de letra.

Ateliê – Fale um pouco de sua experiência como professor de literatura, lecionando introdução ao pensamento teológico.

Waldecy Tenório – Como no poema Morte e Vida Severina, eu procurava corromper com sangue novo a anemia religiosa que infectava muitos dos alunos. Às vezes dava certo, às vezes não. Era preciso cumprir programas e aquilo tomava muito tempo. Caia-se numa rotina desesperante e infelizmente era quase isso que se esperava. Eppur si mouve… Ainda bem, e quando se movia e dava certo, quando a bailadora ouvia a voz que lhe falava do fundo do tablado ou de sua própria vida, era sempre um deslumbramento. Um sorriso abria-se na face de cada um. Nós nos sentíamos conectados a uma internet diferente, e tome Drummond e Guimarães Rosa, João Cabral e Manuel Bandeira, poetas e escritores misturados com teólogos. Por um momento esquecíamos a vida que passa na televisão e ela se abria para outros sóis e outras verdades, a literatura mostrava a raiz teológica dos problemas humanos, e tudo era dádiva, e respirávamos outros ares e o mundo era uma diafania.

Ateliê – Como jornalista, o senhor foi colaborador de algumas revistas da Abril; editor do jornal O São Paulo, da arquidiocese de São Paulo; trabalhou em diversas editorias de O Estado de S. Paulo e encerrou sua carreira como um dos editores do suplemento “Cultura” deste jornal. Como o senhor vê a crítica literária feita atualmente pela imprensa brasileira?

Waldecy Tenório – Quase não vejo. E não digo isso como reparo aos poucos que ainda se ocupam de livros nas colunas dos jornais. Digo isso como um lamento por quase não termos mais espaço para isso, quase todo destinado aos assuntos que mais atraem os leitores. O “Cultura”, sucessor do famoso “Suplemento Literário” , abria-se para a crítica brasileira e estrangeira, era um espaço de debate de grandes temas. Não vejo hoje muito espaço nos jornais para isso. Mas se abrirem esse espaço…

Ateliê – O senhor assessorou o educador Paulo Freire na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Como foi aquela experiência? Foi possível colocar em prática na rede municipal de ensino ideias pedagógicas tão reprimidas durante a ditadura militar?

Waldecy Tenório – Como um dos assessores, eu tinha uma função discreta que me agradava muito. Paulo Freire me encarregava de ler determinados livros e, em algumas tardes, fazíamos uma espécie de seminário particular sobre os temas que eles abordavam. Isso nos aproximou e ele me deu um livro com a dedicatória: “Como se fôssemos velhos amigos”. O fato é que esses “seminários” alimentavam os debates que fermentavam a vida intelectual dos professores da rede. E claro que sempre surgiam resistências…

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Leia o release

Veja abaixo algumas fotos do lançamento.

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Escritores, Gatos e Teologia – Waldecy Tenório

Escritores, Gatos e Teologia – Waldecy TenórioLivro reúne ensaios de Waldecy Tenório, que “estavam espalhados por aí” e investiga a literatura, “testemunha da raiz teológica dos problemas humanos”

Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa

A Ateliê Editorial lança Escritores, Gatos e Teologia. Livro traz ensaios escritos por Waldecy Tenório, quase todos nascidos no ambiente universitário, frutos de cursos ministrados na pós-graduação em Ciências da Religião da PUC-SP, na pós-graduação em Letras, na USP, ou na forma de artigos publicados em livros coletivos e em revistas acadêmicas de diferentes universidades. Esses ensaios misturam ficção e não ficção, são variações de um mesmo tema – a literatura –, trazem uma “certa versão dos fatos”, e apresentam um viés interrogativo, próprio de uma investigação que não termina, como se cada ensaio fosse o mesmo ensaio que recomeça ad infinitum. Os ensaios recomeçam, porque, segundo o autor, a escrita é uma das formas de resistir ao sentimento de abandono que nos atormenta.

“Quem passar pelas páginas (deste livro) poderá aprofundar suas perguntas e ampliar suas dúvidas na companhia de autores e personagens como Virgilio e Dante, Dostoiévski e o Grande Inquisidor, Madame Bovary e Thérèse de Lisieux, Proust e Manuel Bandeira, Joyce e Santo Agostinho, Adélia Prado e Hilda Hilst, Riobaldo e o interlocutor cruel que o atormenta, Teilhard de Chardin e Saint-Exupéry, Drummond e Guimarães Rosa, os vagabundos de Beckett e aquela mulher de Sevilha dos poemas de João Cabral. Cada um ao seu modo, todos nos lembrarão o fragmento de Heráclito: “Se não se espera não se encontra o inesperado” e esta frase, vinda da noite dos tempos, é uma chave de leitura deste livro. Isto posto e uma vez que a crítica literária nasce de uma dívida de amor, eu o deposito primeiro em suas mãos, cara leitora, e depois nas suas, hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão…” (Waldecy Tenório)

Waldecy Tenório nasceu em Palmares (PE), estudou Humanidades no Seminário de Olinda, graduou-se em Letras Clássicas e fez o doutorado em Filosofia na Universidade de São Paulo. Professor do Colégio Equipe e do Colégio Santa Cruz, professor na graduação e na pós-graduação da PUC-SP (respectivamente Introdução ao Pensamento Teológico e Literatura e Teologia), assessor de Paulo Freire na Secretaria de Educação de São Paulo, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP. É autor de A Bailadora Andaluza: a Explosão do Sagrado na Poesia de João Cabral (Ateliê Editorial / Fapesp), e de O Amor do Herege: Resposta às Confissões de Santo Agostinho (Edições Paulinas), entre outros. Com Plinio Martins Filho organizou O Leitor Insone, uma homenagem ao crítico João Alexandre Barbosa publicado pela Edusp em 2007. Como jornalista, foi editor do caderno Cultura do jornal O Estado de S. Paulo. Apesar de aposentado, continua pesquisando, publicando artigos e resenhas em revistas acadêmicas e na grande imprensa, participando de seminários e ministrando cursos. 

Cursos do Espaço Revista Cult – 1º Sem./2014

Espaço Revista Cult

Espaço Revista Cult

LABORATÓRIO DE ESCRITA CRIATIVA

DE 11/03 A 24/06

Sem exigir conhecimentos prévios no campo da literatura ou experiência com escrita criativa, o laboratório pretende partilhar com seus participantes conhecimentos sobre o trabalho de ler e escrever como prática estética que é também experiência existencial.

Com Marcia Tiburi, doutora em Filosofia, Colunista da Revista CULT e autora de diversos livros de filosofia e de literatura, como Filosofia em comum (Record), Filosofia brincante (Record); dos romances Magnólia (Bertrand Brasil), A Mulher de costas (Bertrand Brasil), entre outros. E Evandro Affonso Ferreira, escreveu vários romances, entre eles Minha mãe se matou sem dizer adeus (Record) – Prêmio APCA Melhor romance de 2010, e O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam (Record) – Premio Jabuti de Melhor Romance de 2013.

 

FILOSOFIA FEMINISTA

De 12/03 a 28/05

O curso visa tanto contar a história do pensamento sexista feito contra as mulheres, bem como do pensamento feito por mulheres ao qual damos o nome de feminismo. O objetivo é recontar a história da filosofia como negação das mulheres e poder ver, no fim do túnel da história, o feminismo como filosofia crítica com vista à emancipação. Os homens que quiserem participar do curso deverão entrar vestidos de mulher.

Com Marcia Tiburi, doutora em Filosofia, Colunista da Revista CULT e autora de diversos livros de filosofia e de literatura, como Filosofia em comum (Record), Filosofia brincante (Record); dos romances Magnólia (Bertrand Brasil), A Mulher de costas (Bertrand Brasil), entre outros.

 

OFICINA DE CONTOS

12/03 a 02/04

Serão apresentadas as características de gênero, estilo, linguagem e ritmo. Para trabalho em casa, será sugerida a leitura de um conto, a fim de que os participantes tenham, sozinhos, uma experiência com aquela escrita. Ao longo do curso, cada participante produzirá um conto, que será lido e discutido na última aula.

Com Fabrício Corsaletti, formado em letras pela USP, foi professor de literatura e redação e editor assistente na Editora 34. É autor de Esquimó (Companhia da Letras, prêmio Bravo!) e Golpe de ar (Editora 34), e King Kong e cervejas (contos, Companhia das Letras) entre outros.

 

E-BOOK DO COMEÇO AO FIM

Dias 28 e 29/03

O curso aborda de forma teórica todos os aspectos relacionados ao e-book. As aulas temáticas seguem o fluxo de produção de um e-book do começo ao fim. Ou seja, da escolha do título até a comercialização; passando pela produção, pelos direitos autorais e pelo marketing. O curso é voltado a pessoas que trabalham ou pensam em trabalhar no mercado editorial.

Com Juliano Garcia Pessanha, escritor e ensaísta. Publicou a trilogia Sabedoria do nunca, Ignorância do sempre, Certeza do agora, além de Instabilidade perpétua, todos pela Ateliê Editorial.

 

A ARTE DE EDITAR REVISTAS

Dias 4 e 05/04

A oficina tem como objetivo produzir material poético e trabalhar a produção poética dos participantes de modo a apresentá-la no espaço comum, tornando-a, mesmo que por um curto período de tempo, parte da geografia dos lugares. Editar uma revista exige excelente qualificação profissional, repertório, domínio do segmento e técnicas cada vez mais sofisticadas. A disputa por um espaço destacado nas bancas de revista – que vendem centenas de títulos – e a conquista do leitor, definitivamente, não são tarefas fáceis.

Com Luara Calvi Anic (editora na revista Claudia, da Abril), Micheline Alves (diretora de núcleo da editora Trip), Kátia Lessa ( colunista da Folha de São Paulo e colaboradora da revista Serafina), Edu Hirama (diretor de arte da revista s/nº. Assina projetos de livros como A louca debaixo do branco, de Fernanda Young) e Ricardo Arcon (editor da revista Playboy).

 

A ARTE DE EDITAR UM LIVRO

De 7 a 12/04

O curso oferece um panorama completo de um processo de edição – da elaboração do projeto inicial à impressão. Reunidas em módulos temáticos, as aulas, de natureza teórica, capacitam os participantes a conhecer a fundo os mais modernos e eficientes métodos e técnicas de edição de um livro.

Com André Conti (editor da Companhia das Letras), Léo Wojdyslawski (advogado, especialista em Propriedade Imaterial), Aline Valli (produtora gráfica na Cosac Naify), Alexandre Martins Fontes (diretor-executivo da WMF Martins Fontes), Alexandre Barbosa de Souza (editor da Globo Livros), Elaine Ramos (diretora de arte da Cosac Naify), Juliana Vettore (jornalista responsável pelo departamento de comunicação da Companhia das Letras) e Débora Guterman (editora de ficção e não ficção da Saraiva).

Programação completa do Espaço Revista Cult

O maior privilégio de todos

ErichAlex Sens

Meu avô materno Erich tinha os olhos mais claros e azuis de Wissembourg. A pele do rosto, lisa como um veludo frio e esticado sobre ossos proeminentes e fortes, descia pelas bochechas esteticamente côncavas, uma planície onde minhas pequenas mãos de cinco anos de idade pousavam. Quando jovem, o queixo quadrado, as maçãs do rosto e o maxilar simetricamente desenhado para a fotografia de uma época em que eu ainda não tinha nascido, eram a moldura de um sorriso que vinha muitas vezes tímido — não no sentido de vergonha, mas de segredo, de palavra misteriosa querendo escorregar dos lábios para tombar no silêncio da minha infância.

Embora o tempo jogue sobre a memória uma chuva que embaça a nitidez das coisas nostálgicas, como uma pintura d’água sobre um vidro azul e amarelo, o verde resultante dessa mistura é o que lembro: seu sorriso, sua boina, suas calças largas, o bigode brilhante como lascas de gelo prateado, o olhar atento aos meus movimentos muito próximos à paleta cheia de cores.

Vô Erich pintava. Mas enquanto descansava para admirar o azul-cobalto na sombra de uma falésia inacabada, a paleta se equilibrava em um banquinho de madeira, muito baixo e muito estreito, sobre o qual mal cabia o seu cansaço ou a sua idade. É claro que a imagem permanece turva, chuvosa e limitada, mas ainda recordo das minhas mãos esticadas à frente do corpo, o ar com a textura de algodão molhado, de um gramado escuro como espinafre (seria noite ou seriam os amoreiras e os limoeiros sombreando o nosso quintal?), do andar escorregadio, da lentidão dos meus passos, dos meus dedos roliços e ansiosos muito próximos à massa pastosa da tinta branca, que, apertada num formato engraçado (eu sempre ria daquelas espirais coloridas, sobretudo das marrons, cor de couro, que remetiam imediatamente aos cocôs de cachorro dos desenhos animados), eu queria pegar, lambuzar a madeira, criar ali em sua paleta a minha tela definitiva — nem que para isso eu fizesse da abertura do dedão a minha lua sem cor, o buraco no céu pelo qual escapariam os desejos que eu sempre fazia antes de dormir, de olhos apertados e coração vibrante.

Assim, é preciso acrescentar que, além dessas características visuais, do sonho imagético em que ficou presa a figura plácida do vô Erich, alguns fatos são distintivamente indeléveis: adorava pimenta-do-reino; detestava soja em qualquer formato porque a Segunda Guerra havia maculado seu paladar (bem como lhe arrancara parte da falangeta do dedo médio da mão direita); fizera um anel com uma colher de prata, estendendo a herança do pai que havia feito o mesmo com a argola de uma granada durante a Primeira Guerra; gostava de tocar bateria e tudo que envolvesse instrumentos de percussão; tinha o dom mais fácil de um ser humano: o sorriso; mesmo quieto, mesmo silencioso, estava lá, sonhando com algo maior e mais concreto, embora isso permanecesse unicamente desenhado na mente, como um esboço de algo impossível e inalcançável; ansiava por morar na África do Sul, e penso como seriam suas telas caso tivesse vivido por lá até ver esmaecer a última estrela cadente dos seus olhos; tinha uma ideia romântica do Brasil, de suas palmeiras e praias, o que em parte ainda se mantinha extraordinariamente verdadeiro na década de 50, quando desembarcou com minha avó e minha mãe no inverno carioca, depois de semanas viajando num navio sobre as águas auspiciosas do Atlântico.

Antes de morrer, ele me deu um carrinho de madeira com esferas maciças se fazendo de rodas, um brinquedo bastante artesanal, porém bem-feito, que as crianças da escola Waldorf adoravam. Ainda lembro da minha hesitação divertida ao deslizar o carrinho sobre seu corpo enquanto ele lia na rede branca da varanda ou fingia dormir no sofá da sala.

Eu nunca conheci meu avô, levado pela cirrose hepática onze anos antes do meu nascimento. No entanto, a imaginação é poderosa e, de acordo com o escritor norueguês Tomas Espedal, ainda inédito no Brasil, “trabalhar com a linguagem é o maior privilégio de todos”. Escrever é poder moldar e colorir o tempo, mergulhar em suas fissuras mesmo que sejam todas líquidas, voláteis, inconstantes e surreais. “Você tem de saber escrever sobre qualquer coisa, senão não é um escritor”, palavras de Espedal. Esse “qualquer coisa” inclui a realidade transformada em ficção, a realidade que o escritor quer, mesmo que inventada, mesmo que temporária; uma realidade vibracional e criacional, sutil e sensível.

Excetuando os trechos em que descrevi contato com meu avô, o resto é verdade, colhido aqui e ali em conversas com minha mãe, cheias de uma saudade palpável e eterna. Entretanto, você pode olhar pelo prisma ficcional caso isso torne a leitura mais interessante. Como não concordar com Espedal que este é o maior privilégio de todos, quando você pode viver, através da palavra, fazendo uso do instrumento-linguagem, com alguém que nunca conheceu? Quando a morte pegar pela mão aqueles que amamos, nos resta o amor pela invenção, a cristalização da saudade e a linguagem como criadora de um universo possível e particular.

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

O psicolirismo cotidiano de Rita Moutinho

Leo Barbosa | zonadapalavra

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita MoutinhoNão há atividade que ponha o subconsciente mais à tona que o ato de fazer literatura. Se houver, talvez se estabeleça através dos sonhos. Então aqui se instaura a semelhança entre a literatura e a psicanálise: “Já que a literatura carrega nos seus flancos o não-consciente e já que a psicanálise traz uma teoria daquilo que escapa ao consciente, somos tentados a aproximá-las até confundi-las”, nas palavras do psicanalista Jean Bellemin-Noel. Afinal, ambas as ciências trabalham com a fala e tendem a revelar mais do que as linhas aparentam carregar.

Podemos inferir isso da leitura de Psicolirismo da Terapia Cotidiana, (Ateliê Editorial, 2013), de Rita Moutinho. Após anos de terapia, a autora segue em catarse, ainda que guiada pelo rigor formal dos seus versos, para aprender a conviver com suas incertezas, medos, pensamentos fúnebres, efemeridades e temor da finitude. Mas a esperança segue firme: “Minhas asas estão atrofiadas/ no meu céu são opacas as estrelas,/ mas todas as desgraças, vou prendê-las,/ para as horas não serem tão coitadas. […] Pra azul destino quero um passaporte./ A ave quer voar, não quer a morte!” (P64)

Nesse processo de transferência a cura pela palavra faz-se imprescindível. O eu-lírico necessita encontrar-se com o passado diante do terapeuta para que haja êxito em seu processo de superação. A psique da paciente responde com psicolirismo de forma condensada e derramada.

A obra é dividida em quatro estágios: “Tempo nublado”, “Tempo instável”, “Tempo parcialmente nublado, passando a límpido” e “Céu quase limpo com Clarões no Horizonte” e por estes vai interrogando por via da filosofia e de conhecimentos mitológicos. O eu-lírico sabe que agora é preciso caminhar sozinho. É hora de sair do divã e retomar a rotina que tanto foi marcada por chuvas de perdas, por céus nublados enquanto desejava um cotidiano ensolarado.

Rita Moutinho mostra-se uma poeta madura, conhecedora dos recursos de linguagem, do manejo dos versos, da forma, e consciente do estranhamento provocado pelas metáforas. Todavia, inevitavelmente, ao abusar do soneto, por vezes esbarra em rimas pobres como podemos conferir na página 93 da obra em questão. Peca em combinações do tipo: poucos/loucos, sangria/melancolia, ventosas/dolorosas, cura/alvura, artístico/místico etc.

Uma das marcas de Moutinho é o frequente uso de antíteses: “Venho disposta ao forte e ao frágil,/ extremar-me firme e também volátil./ Chego tão vida quanto morte,/ me faço aqui, como exilada./ Articulo a fala, me defino muda/ e penso, nas raias da filosofia:/ somos dois multiplicados ao nunca.” (P 91).

A última parte do livro assume tom de despedida como se o cotidiano se encerrasse, como uma rotina fosse quebrada pela desilusão de viver. Mas também assume novas perspectivas a partir da rebobinação de suas memórias como forma de fazer um balanço para poder prosseguir.

A poeta tem estilo próprio ainda que caminhe pela tradição. Narra com paixão seus dramas e tramas. A cada final dos seus poemas ouve-se um estampido. É a vida saindo. É a vida entrando. Aqui ela faz seu registro, convida-nos a “uma viagem interna, tendo a alma como lanterna”. Afinal, onde podemos encontrar verdade maior senão explorando a nossa realidade secreta que melhor se exprime em nosso cotidiano?

Acesse o livro no site da Ateliê

Comunhão em Quatro Tempos

Renato Tardivo

Literatura e Psicanálise

Se Freud não escreveu muito sobre a relação entre literatura e psicanálise – embora usasse e abusasse das citações literárias, se valesse de referências da literatura clássica para a criação de conceitos e o único prêmio que recebeu em vida tenha sido o Goethe –, alguns psicanalistas contemporâneos tomaram essa relação como objeto de investigação. Talvez possamos dividir esses estudiosos em duas vertentes: aqueles que vislumbram na psicanálise uma poderosa ferramenta de leitura e análise de texto (perspectiva iluminista adotada inclusive por alguns segmentos da crítica literária) e aqueles que propõem certa analogia entre as duas áreas e, nesse sentido, não se valem de conceitos psicanalíticos para traduzir uma obra (ou a biografia de seu autor), mas valorizam a psicanálise em seu potencial poético e libertador.

Há, ainda, obras literárias que lidam com aspectos da relação entre psicanálise e literatura. Também aqui podemos encontrar as duas vertentes tratadas acima: há textos, em prosa ou verso, que recorrem à psicanálise de modo didático e ilustrativo, mas há escritores que optam pela entrada da psicanálise pela via da criação, produzindo obras inventivas. Menciono, a esse propósito, Contos do Divã, de Sylvia Loeb, livro que já resenhei neste espaço (leia aqui a resenha). Além disso, como sabemos, é possível vislumbrar potencial literário em alguns relatos clínicos redigidos por psicanalistas. Vale lembrar que: 1) o próprio Freud explicitara nos Estudos Sobre a Histeria (1895) a semelhança entre seus casos clínicos e as novelas; 2) em carta enviada a Arthur Schnitzler (não revelada enquanto Freud era vivo), o pai da psicanálise se dirigira ao escritor como seu duplo; 3) novamente, cabe a menção ao Prêmio Goethe.

Barco e Mar

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita Moutinho

Ocorre que esses textos na interface da psicanálise e literatura são predominantemente escritos da perspectiva do analista. Menos comuns são os textos escritos da perspectiva do analisando. Psicolirismo da Terapia Cotidiana, que reúne excelentes poemas de Rita Moutinho, insere-se nessa vertente. O livro é composto por poemas em versos livres e também por sonetos, tanto o inglês, com os 14 versos unidos, como o que traz quartetos e tercetos separados. A autora declara na Apresentação que os sonetos foram escritos nos anos 2000 e os demais nos anos 80, mas todos os poemas dizem respeito ao seu período de análise (anos 80) e quase sempre dirigem-se ao analista.

Divididos em quatro tempos: “Tempo Nublado”, “Tempo Instável”, “Tempo Parcialmente Nublado Passando a Límpido”, “Céu Quase Limpo com Clarões no Horizonte”, o livro reúne a experiência de uma mulher em análise. Como se vê, trata-se da terapia cotidiana reescrita com psicolirismo – e o título do livro dialoga com Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), texto em que Freud se propõe a apresentar noções básicas de sua teoria.

A transferência, questão central na psicanálise e também nas artes, uma vez que ao entrar em contato com uma obra transferimos emoções e afetos, talvez seja um dos principais elementos do livro. Mas, sem a frieza dos textos teóricos, há uma espécie de resgate visceral da relação transferencial vivida com o analista, que, no início, sustenta a presença da persona lírica. Cito versos de alguns poemas da primeira parte: “Estou dissolvida, sem capacidade de luta, / sem verbalização que organize / o medo, o desconcerto, o dúbio”; “Futuro, nele crer, isso e mais nada”; “Doer, doer de novo / a dor que é passada”; “Ah, quando poderei sã navegar, / se sou a um só tempo barco e mar?”.

Casamento Estranho

Ao longo do livro, conceitos da psicanálise aparecem aqui e ali, mas não são o foco; ocupam um lugar invisível que adentramos porque os versos são endereçados ao profissional cuja escuta é atravessada por eles. O que atravessa o Psicolirismo da Terapia Cotidiana é a palavra, que se refere à palavra, para terminar na… palavra.

Se já não bastasse a qualidade dos poemas, eles ainda se perfazem em uma unidade narrativa: o caminho em direção à alta da paciente. Já perto do fim, mesmo “que não há fim no desfecho”, o “Soneto da Comemoração do Insight” é assim finalizado: “Sermos par na tristeza e na alegria, / metáfora de núpcias: terapia”. Com efeito, Rita Moutinho reconstrói com lirismo esse casamento estranho, em que um “beijo de despedida” é “fraudar as regras” e o sucesso implica separação, tornando público, mesmo que por meio da persona lirica, um processo tão íntimo e fazendo da experiência de separação com o analista uma possibilidade múltipla de comunhão e abertura com os outros: agora, leitores.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Literatura ou Psicanálise?

Renato Tardivo

Contos do Divã, de Sylvia LoebContos do Divã, da psicanalista e escritora Sylvia Loeb, coloca (já a partir do título) a seguinte pergunta: psicanálise ou literatura? Com efeito, a questão é antiga e, mais de uma vez, foi discutida pelo próprio Freud. Em Estudos sobre a Histeria (1893-95), o pai da psicanálise afirma que seus casos clínicos guardavam mais semelhanças com as novelas do que com os relatos científicos. De modo ainda mais contundente, em uma carta de 1922 endereçada ao escritor Arthur Schnitzler e que não veio à luz enquanto o psicanalista era vivo, Freud confessa: “Penso que o evitei a partir de uma espécie de temor de encontrar meu duplo”.

Entre nós, alguns são os estudiosos do tema: Noemi Moritz Kon (que, aliás, trabalhou em uma de suas pesquisas justamente a carta de Freud a Schnitzler e, em outra, construiu uma novela acerca do período de criação da psicanálise), Yudith Rosenbaum, Fabio Herrmann, Fernanda Sofio, entre outros.

Sylvia Loeb, em Contos do Divã, mergulha na questão sem precisar falar diretamente a respeito (a não ser no breve pós-escrito). O livro é uma coletânea de contos, e dos bons. Sua especificidade? São frutos da escuta clínica da autora, em sua vasta experiência enquanto psicanalista.

Na primeira parte, intitulada “pulsão de morte…”, a ambiência ficcional das narrativas é o consultório; na segunda, “… e outras histórias”, os relatos são ainda mais breves e, conquanto se refiram aos mistérios da alma humana, não são recortes de sessões de análise. Há, ainda, a seção “Um texto, quatro olhares”, com comentários sobre o livro, por Cristina Perdomo, Luís Carlos Menezes, Silvia Leonor Alonso e Sérgio Telles.

Nos contos da primeira parte, em vez de casos “bem sucedidos”, as narrativas dizem respeito a análises que não foram adiante – como se tivessem terminado antes do fim. E é nessa medida que os contos funcionam bem, porque exploram, a partir da relação entre analista e analisando, a dimensão trágica da existência.

Na segunda parte, quem conta é o narrador onisciente – em uma primeira interpretação, a própria analista, que amalgamaria vestígios de sua escuta nesses instantâneos. Mas podemos também sugerir que as outras histórias foram narradas pelos pacientes que, após a análise, mesmo “interrompida”, enfim puderam olhar para a própria destrutividade e transformá-la em poesia. Por que não?

Literatura ou psicanálise? – voltamos à questão. Diferentemente de registros que pretendem imitar a dinâmica de uma terapia por meio de roteiros técnicos, como ocorre na série televisa “Sessão de Terapia”, sobre a qual já escrevi neste espaço, Contos do divã é um relato visceral. Não se trata de vestir a literatura com os traços da psicanálise, e tampouco se pode afirmar que se está diante de uma psicanálise literária.

Psicanálise e literatura, aqui, comparecem com igual intensidade. Se a autora obtém êxito em escrever a clínica, é também justo dizer que os contos têm vida própria e não se subordinam à psicanálise. Ainda, se o trágico encontra nas artes um campo fértil, também a psicanálise lida com o seu atravessamento.

A opção “inconsciente” da autora pelos casos clínicos em que a “interrupção do tratamento era o mais evidente”, mesmo que a fim de “mostrar com todas as letras as dificuldades e os sofrimentos de todos os atores envolvidos”, como afirma Sylvia no pós-escrito, traz para e pela palavra a repetição do trauma com vistas à experiência de solidão – o que visa toda análise e o que nos provoca toda história. Elas sempre têm um fim.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

A Luz da Palavra

Priscila Nobre David resenha o livro de Renato Tardivo, que será lançado sábado, dia 16 de junho, na Livraria da Vila – Fradique, em São Paulo.


Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura ArcaicaEm Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, Renato Tardivo lança-se em uma viagem por duas terras, a da palavra e a da imagem, e é justamente na fronteira entre estas que a leitura desta obra torna-se imprescindível ao leitor interessado na comunicação estreita entre literatura e cinema. Falando em comunicação, escreve Tardivo nas páginas finais deste trabalho: “Passado e futuro ora se aproximam, ora se afastam, mas sempre se comunicam – naquilo que nomeamos presente. Sem embate, não há tempo, não há outro, não há nada”. Neste trecho derradeiro, Tardivo diz da temporalidade, tema primordial em Lavoura arcaica (livro e filme), assim como em seu próprio texto. Não menos importante seria notar que o trecho fala também da relação que se estabelece entre as duas linguagens analisadas no livro, a da escrita e a do cinema. Para esse percurso, o do estudo das obras, a teoria psicanalítica e a fenomenologia de Merleau-Ponty são companheiras, num delinear das travessias. São quatro as partes que compõem esse caminho: “A partir do livro”, “A descoberta do filme”, “A correspondência” e “Da linguagem aos sentidos: à linguagem”.

Em “A partir do livro” encontramos uma leitura profunda e atenta da obra de Raduan Nassar, que nos mostra o poder da palavra escrita. Ao nos levar pelos caminhos trilhados por André (protagonista do romance), Tardivo nos comunica dos pares autor/personagem, continente/conteúdo, que, nessa obra, além de atravessar o ato mesmo de escrever do artista, viabiliza a existência de seu personagem. Na descrição de André, encontramos passagens como: “Em alguns momentos, os contornos de André perdem-se concretamente nos (des)contornos do mundo” ou “continente e conteúdo se confundem” e até mesmo o termo “mistura insólita” que retornará, entre outros conteúdos, ao texto mais adiante. Ao escrever “o romance se constrói justamente entre o novo – lavoura – e o velho – arcaica: ele é o jorro que corre entre essas margens. Ao voltar os olhos para a história de sua família e (re)criá-la em um texto, André presentifica em si – e por extensão na narrativa – conflitos e forças passadas e futuras entre os restos de tempos primitivos e novas possibilidades de existência”, Tardivo inaugura a discussão que será a de maior relevância no decorrer de seu trabalho: a questão do tempo. E como esta, através de ferramentas como a escrita e o olhar da câmera, firma-se como criatura e criador, apresentando-se como presente, espaço que funde passado e futuro, sujeitos sempre articulados. Habitando a última parte do capítulo inicial, os dizeres “neste caso, é a própria palavra do pai que está contida no olhar de André” nos colocam em contato (pela primeira vez?) com a relação entre escrita e cinema que será cuidadosamente discutida no terceiro capítulo, assim como uma anunciação, como que oferecendo já na abertura uma parcela do fim.

Ao ler “A descoberta do filme”, deparamos com um passeio delicado pelas peculiaridades do olhar (cinematográfico) lançado à obra (literária). Através da análise de vários fragmentos de entrevistas com o diretor Luiz Fernando Carvalho, assim como com os demais componentes da equipe, entre eles o responsável pela fotografia do filme, Walter Carvalho, Tardivo recupera e destaca mais uma vez a temporalidade que pauta o encontro entre os dois campos, as duas criações artísticas. Ao discorrer a esse respeito – “na obra de Luiz Fernando Carvalho, o compromisso é com o texto de Raduan Nassar: é ao romance que o filme se endereça. O olhar do cineasta, que parte da palavra, procura – antes de tudo e a todo momento – retornar a ela” -, o autor atenta para os limites entre os dois terrenos, e através de contribuições psicanalíticas, como a retomada do termo après-coup, posiciona a imagem como anterior à palavra, o que confirma a ideia de um porvir (preciso título do livro), no sentido em que foi necessário ao diretor encontrar-se com a obra escrita (ou até, segundo o mesmo, encontrar-se na obra, novamente o porvir…), para nascer o filme, este que já estava vivo: “eu tinha visto um filme, não tinha lido um livro”. Há uma recuperação do tempo através da escrita e do olhar, tanto de André, como dos autores (escritor e cineasta) que não passa despercebida no texto de Tardivo, mas ao contrário, apresenta-se em seu texto como alicerce, que sustenta as frutíferas percepções apresentadas. Na história de André e sua família, há a partida e há o retorno, e entre eles um tempo que fica suspenso, petrificado. Não parece haver separação entre esses dois destinos, um remete ao outro – a presença constante do avanço e da transgressão. O fragmento do futuro já se encontra instalado no passado.

É com a procura que a obra de Tardivo se preocupa em especial. Em “A correspondência”, o trânsito entre as linguagens é discutido em suas minúcias. Escreve o autor a respeito da experiência do cineasta: “Ele se reconhece no texto. Adentra-o por entre as frestas das palavras”. Há nas palavras de Lavoura Arcaica algo de luminoso, que nos convida o olhar, e foi para a construção desse olhar, que a equipe de produção do filme se preparou, até realizar uma “escrita de luz na tela”. Foi ao avistar na escrita de Nassar aquilo que se escondia por entre as palavras, o que elas guardavam, que a escolha da fotografia do filme se deu, trabalhando com a transição entre luz e sombra, acompanhando a história reconstruída por André. Podemos dizer que foi no percurso entre literatura e cinema que se revelou a “luz da palavra”. A esse respeito, Tardivo escreve: “Assim, quando se trata de trabalhar a imagem do cinema a partir de Lavoura Arcaica, cujo cenário envolve concomitantemente tradição e transgressão, a atmosfera construída no filme deve propiciar a proliferação dos mistérios, do invisível”.

É interessante notar também nesse capítulo o retorno da correspondência entre Psicanálise e Fenomenologia, que acompanha o trajeto entre as duas linguagens (escrita e cinematográfica), visando traçar reflexões significativas. Remetendo ao conceito de perversão como possibilidade de interpretação do funcionamento psíquico do protagonista, Tardivo traz à discussão o movimento de circularidade encontrado no discurso e no olhar de André, mas, além disso, aborda os limites da relação entre as duas obras, num movimento que sempre envolve aproximação e distanciamento, transgressão e tradição, e que por fim, de alguma forma, sugere uma volta: na trajetória de André, a busca pela transformação só é possível através da preservação.

Ao encerrar o livro, em “Da linguagem aos sentidos: à linguagem”, Tardivo anuncia a seus leitores as reflexões desde o início já contidas em seu texto, em um movimento de contorno do passado, a fim de ressignificar a experiência, assim como fazia André. É interessante perceber contida na palavra “lavoura” a idéia de movimento, ao significar um cultivo da terra, e por sua vez no termo “arcaico”, o sentido de anterior. Também como o protagonista, Tardivo adentra os resquícios, passeia pelos detalhes, carrega os objetos antigos para a construção de um olhar. Em algum lugar ele escrevia: “O olhar é fundante da história”. Tanto na narração de André, como na análise das obras realizada neste livro, a ressignificação da história se dá através de um retorno ao futuro. É o vestígio de um retorno que possibilita o correr da travessia.

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Priscila Nobre David é formada em Psicologia pela Universidade São Marcos e em Comunicação Social – Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado.

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e é autor dos livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras).

O Menino do Pijama Listrado: a amizade de dois garotos que vivem os opostos na Segunda Guerra Mundial

Livro e filme O Menino do Pijama Listrado

John Boyne escreveu o rascunho de O Menino do Pijama Listrado, publicado em 2006, em dois dias e meio de pouco sono, segundo ele mesmo. O autor irlandês levou com a obra os prêmios People’s Choice Book of the Year e o Children’s Book of the Year, ambos de seu país natal. O Best-seller foi traduzido ao cinema em 2008, sob direção de Mark Herman, com uma escolha de elenco que vestiu com perfeição os personagens literários. A experiência cinematográfica agradou ao autor, que esteve presente nas gravações.

O enredo expõe a amizade de dois meninos que vivenciam os opostos da Segunda Guerra Mundial; um é filho de soldado e outro, um judeu. Com uma narração sutil, que nem uma vez menciona diretamente a guerra, John Boyne nos leva ao coração de Bruno, protagonista, doce jovem que encontra dificuldades em entender o contexto histórico em que está inserido. Infinitamente mais apaixonante no livro do que no filme, Bruno conquista o leitor a cada página com sua inocência, humor e infantilidade.

Personagem Bruno e sua mãeÉ com sofisticado humor que Bruno confronta seus pais a respeito da vida que lhe foi imposta, e com inigualável encanto que se aproxima de Shmuel, seu amigo de pijamas. Por vezes, o livro aproxima tanto o leitor do garoto, que apesar de ser narrado em terceira pessoa, engana por algumas páginas, dando a sensação de que o narrador é Bruno.

Além de um belíssimo enredo, o autor cria uma tensão a cada final de capítulo, que liga o leitor ao começo do capítulo seguinte. Boyne calmamente nos introduz à vida da família, nos insere na mentalidade de cada personagem e, muito veladamente, menciona o contexto nazista e apresenta as opiniões dos personagens em relação ao regime.

Em contrapartida ao velado regime do livro, o filme abre com os créditos sobre as cores da bandeira nazista, dilatando em seguida o plano para a bandeira completa. Isso não o faz merecedor de críticas, uma vez que lidamos com diferentes tipos de arte. O uso da cor, dos planos e movimentos de câmera, entre outros elementos, privilegia o cinema, que deve fazer uso deles. Mas somente um livro pode ser sutilmente intrigante; dizer muito e pouco simultaneamente.

O que caracteriza falha, no entanto, é o modo como o longa-metragem se faz infiel à literatura, com algumas mudanças significativas no enredo. Lamentavelmente, Bruno perde bastante da sua “graça” na transposição da obra. Sendo o personagem mais rico do livro, gera bastante expectativa para quem leu a obra antes.

De modo geral, os personagens foram linearizados e classificados em “bons” ou “maus”. O livro permite uma análise mais profunda dos personagens. Por vezes o tenente alemão Kotler pode ser até simpático, e a figura do tutor não se faz tão rigidamente.

A versão cinematográfica deixou de registrar a importância da amizade para ambos os meninos, bem como a diferença de amadurecimento que há entre os dois devido às diferentes experiências a que foram expostos. O laço criado entre os garotos no livro é mais forte; há mais compaixão e lealdade. Shmuel priva Bruno de algumas verdades, pois tem consciência do que está passando no campo de concentração, e sabe que Bruno não tem.

A força do filme está no elenco. As atuações dos pais de Bruno, interpretados por David Thewlis e Vera Farmiga, refletem bem o espírito do livro. Excelente é a atuação de Rupert Friend, no papel do Tenente Kotler, e, apesar de estar em segundo plano, é brilhante a forma como David Hayman emocionou com Pavel, o descascador de legumes. Todos os soldados aparecem com ímpar imponência, retratando fielmente a imagem de que eles gozavam na época.

O longa-metragem acabou sendo uma descrição mais forte, menos discreta quanto a violências e elementos mais perturbantes que caracterizam a guerra; contrapondo-se à doçura e sutileza do correspondente literário.

Pela primeira vez nesse blog, deixo escapar minha preferência pela literatura. Mas seja dito que O Menino do Pijama Listrado conquistará de qualquer forma. Até porque, o clímax, que é justamente o fim, foi mantido na adaptação. E como não sou estraga-prazeres, digo somente que achei genial.

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann

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