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Falsas dedicatórias

Lincoln SeccoAutógrafos perigosos que, certa vez, rondaram um sebo paulistano

Lincoln Secco | Brasileiros | 1.2.2013
Há muitos anos, um sebo na Rua Rodrigo Silva, próximo à Praça da Sé, em São Paulo, exibia uma pilha de livros muito estranha. Era uma mesma obra em centenas de cópias com uma dedicatória a um conhecido governador cleptomaníaco. Todavia, o autor teve o trabalho de colar uma tarja em cima da dedicatória de todos os exemplares!
A dedicatória de uma obra pode ser a mais enganosa de todas. Naquele caso, o autor repetia um gesto de artistas que homenageavam seu mecenas. E também repetia outro gesto comum: o arrependimento, quando tempos e vontades já haviam mudado. Terá sorte o autor cujas conveniências ditarem mudanças no próprio original antes que ele se torne livro.
Há as dedicatórias intempestivas, como a de Marx ao seu sogro: ele se desculpa por dedicar-lhe uma brochura, mas se diz impaciente para esperar oportunidade melhor! Há as recusadas: diz-se que Darwin recusou a dedicatória que talvez Marx lhe fizesse no próximo volume de O Capital, mas Engels disse que os outros volumes seriam dedicados à liebling Jenny… Há dedicatórias em troca de favores, há óbvias e as íntimas, mas as mais intrigantes são as que não foram feitas. Hannah Arendt faria uma a Heidegger, mas não o fez. Escreveu depois em uma nota que havia “permanecido fiel e infiel” a ele, “ambas as coisas com amor”.
A dedicatória de exemplar tem outro caráter. Pode ser a um amigo ou a um desconhecido que foi a um lançamento. Poderíamos pensar que a dedicatória de obra (que já vem impressa)  sobrevive mais que a de exemplar (manuscrita), mas como explica Gérard Genette em seus Paratextos Editoriais (Ateliê Editorial), a massificação dos livros causou uma busca pela individualização do exemplar. Uma primeira edição de Mário de Andrade autografada tem um valor maior de mercado.
A esse respeito, permita o leitor outra pequena memória de alfarrábio. Há anos eu frequentava um sebo na Boca do Livro paulistana, cujo dono se afeiçoara de mim. Conversávamos e esticávamos a conversa ao bar da esquina. Certa vez, mostrou-me parte de sua biblioteca. Ele tinha coleções magníficas: todas as edições de Euclides da Cunha em todas as línguas. Toda a coleção Documentos Brasileiros, de José Olympio, e a Brasiliana também. Dicionários setecentistas, autores modernistas autografados e assim por diante. Lá pelas tantas, falava-me de Há Uma Gota de Sangue em Cada Poema, obra juvenil de Mário de Andrade com uma dedicatória manuscrita.
Depois, outros tragos nos fizeram mais confidentes. Contou-me, sorumbático, que falsificava alguns autógrafos. Que imitava a caligrafia de vários autores com perfeição. Às vezes, arrancava a folha de guarda de um exemplar de outra edição, envelhecia a página e substituía a mesma folha em uma edição mais rara. E, assim, colocava o exemplar à venda em seu sebo. Descobri, desde então, que também as dedicatórias de exemplar são perigosas.
Não o julguei e continuamos amigáveis até sua morte. Comprei muitos livros dele a bom preço, mas nunca um exemplar com dedicatória!
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Lincoln Secco é Professor de História Contemporânea na Universidade de São Paulo e autor de, entre outros livros, História do PT (Ateliê Editorial).
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Mensalão: o julgamento da história

Hoje, o discurso principal do PT é o social, não mais o ético ou o marxista
Lincoln Secco | Folha de S. Paulo | Opinião
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Historicamente, o PT acumulou três camadas de discurso: ideológica, ética e social. Embora fossem inseparáveis, elas tinham temporalidades diversas e provinham, respectivamente:
– dos aportes marxistas que o PT recebeu na sua fundação;
– de uma militância que transitava para a ordem, mas ainda se via fora dela:
– e da experiência das comunidades eclesiais de base.
Já em 2002, o PT acreditou que era preciso ocultar o discurso socialista para eleger Lula. Foi em 2005, porém, que o partido viveu a maior crise de sua história. Naquele ano, o escândalo do mensalão derrubou o discurso sobre a “ética na política” e abateu o seu núcleo dirigente. A crise foi uma ruptura na sua história. Pela primeira vez na história, o PT assumia o papel de vilão no teatro das Comissões Parlamentares de Inquérito.
Com a exceção de vozes isoladas no partido, como José Dirceu, que se recusou a renunciar ao mandato de deputado para evitar a sua cassação, a maioria das figuras públicas petistas se escondeu para salvar a própria pele. E quando todos vaticinavam o fim de Lula e do PT, eis que eles se erguem dos escombros com aquilo que tinha sobrado do patrimônio histórico petista. Era o discurso social, que assumia o primeiro plano.
Isso fez a oposição acreditar que o povo aceitava a corrupção em troca de recursos do Esado. Não percebia que, apesar de tudo, as classes desamparadas apoiariam o PT, em nome dos programas governamentais que interessavam a elas. Obviamente não foi assim que os dirigentes petistas pensaram. Uns saíram, outros simplesmente voltaram à rotina. Mas o PT mudou.
Aquela agremiação de forte marca social incorporou outra base. Mais de três quartos dos atuais filiados ingressaram durante os dois mandatos de Lula. Talvez atraídos pelas oportunidades de carreira que um partido de governo oferece, mas também pela identificação de classe. Não é que os novos filiados sejam necessariamente avessos aos conteúdos socialistas, mas a forma discursiva que encantava a velha militância de classe média parece ser de outro tempo.
O julgamento de STF não mudará este PT. O respaldo que ele tem não depende do que se lê nos autos do processo. É que o julgamento político já foi feito. Se os réus vierem a ser condenados, nada de novo se acrescentará à imagem do partido. Se forem absolvidos, quem lhes devolverá os anos de ostracismo?
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Lincoln Secco é professor de história contemporânea na USP e autor de História do PT
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Em vez de escrever um livro acadêmico ele preferiu uma história ensaística voltada aos que “trabalham” com o PT: jornalistas, cientistas políticos, pesquisadores estrangeiros e militantes políticos. A obra visa também os jovens. Por isso, traz um mapa das tendências petistas ao longo de sua história, glossário do jargão interno e cronologia.
A obra acompanha a trajetória petista desde a greve da Scânia em 1978 até a vitória de Dilma Rousseff. Mostra como o PT passou de um ator social radical a um integrante da ordem política estabelecida, cresceu eleitoralmente, perdeu seu ímpeto militante e se tornou uma máquina de governo, atravessando escândalos de corrupção, perseguições de seus adversários e chegando a uma surpreendente hegemonia política no Brasil. Saiba mais
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Ateliê lança hoje o livro História do PT, de Lincoln Secco

Primeiro livro sobre a história do PT, o autor, que é professor da Universidade de São Paulo, se lança, neste volume, em um projeto corajoso
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Livro História do PT, de Lincoln SeccoA Ateliê Editorial lança no próximo dia 17 de agosto, quarta-feira, das 18 às 21h, História do PT. Escrito por Lincoln Secco, livro é produto da convergência num só autor, do professor da USP, do pesquisador, do escritor, do bibliófilo, e finalmente da testemunha ocular da história. A Livraria João Alexandre Barbosa fica à avenida Prof. Luciano Gualberto, travessa J, 374, no prédio da antiga reitoria, na Cidade Universitária, em São Paulo.
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Até hoje não existia uma história do PT. Nem mesmo oficial feita pelo próprio partido. É uma tarefa difícil para um historiador se manter equidistante das correntes internas do PT e do próprio ambiente político em que o partido agiu. É isto o que o historiador Lincoln Secco, professor da USP, conseguiu. Sem negar a vinculação que ele (e boa parte de sua geração) teve com o PT, sem exaltá-lo ou atacá-lo gratuitamente, o autor superou os inúmeros estudos de caso e teses acadêmicas sobre o período de formação do partido e ofereceu uma visão de conjunto da trajetória petista. Em vez de escrever um livro acadêmico ele preferiu uma história ensaística voltada aos que “trabalham” com o PT: jornalistas, cientistas políticos, pesquisadores estrangeiros e militantes políticos.
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A obra visa também os jovens. Por isso, traz um mapa das tendências petistas ao longo de sua história, glossário do jargão interno e cronologia. O autor acompanha a trajetória petista desde a greve da Scania em 1978 até a vitória de Dilma. Mostra como o PT passou de um ator social radical a um integrante da ordem política estabelecida, cresceu eleitoralmente, perdeu seu ímpeto militante e se tornou uma
máquina de governo, atravessando escândalos de corrupção, perseguições de seus adversários e chegando a uma surpreendente hegemonia política no Brasil.
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Lincoln Secco é paulistano, casado, tem 42 anos. Foi militante de base na periferia de São Paulo no PCB e no próprio PT nos anos 1980-1990. Ingressou na USP em 1987 como estudante de Letras e, depois, fez História (graduação, mestrado e doutorado). Desde 2003 é professor de História Contemporânea na USP. Foi finalista do prêmio Jabuti com o livro Caio Prado Junior: o sentido da Revolução (Boitempo). Agora se lança como autor da primeira história do PT pela editora Ateliê.