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Homem Polivalente – Incomparável e genial Da Vinci

Luiz Fernando Vieira | A Gazeta – Cuiabá | 31 de setembro de 2013

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciComo o médico Roy Glover, professor de Anatomia e Biologia Celular da Universidade de Michigan, que revolucionou ao criar uma exposição de corpos humanos reais dissecados e preservados por um processo de “plastificação”, Leonardo da Vinci (1452-1519) elaborou um dos mais incríveis estudos sobre anatomia. A diferença é que o artista plástico e inventor italiano fez isso entre os séculos 15 e 16, criando um clássico tanto sob o ponto de vista científico como artístico. O estudo está no livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci (Editoras Unicamp e Ateliê).

Na obra estão mais de 1200 desenhos anatômicos de Da Vinci, distribuídos em 215 gravuras feitas em preto e branco que mostram a diferença entre um gênio e um mero desenhista.

Os registros são conhecidos por sua extraordinária beleza e precisão. Tamanha que eles antecederiam, em muito, trabalhos análogos que viriam a aparecer até o século XVII. O problema de Da Vinci é que ele não chegou a terminar e publicar o trabalho. Se o fizesse poderia ter revolucionado a medicina décadas antes do belga Andreas Vesaluis, chamado de “Pai da Anatomia”, que publicou seu De Humani Corporis Fabrica em 1543.

O material é fruto de 15 anos (1498 a 1513) de trabalho do artista, que desenhou órgãos e elementos de vários sistemas do corpo humano. Antes de partir para o registro, Da Vinci leu muitas obras de autores da medicina pré-renascentista, como Galeno de Pérgano (129-200), Mondino dei Luzzi (1270-1326) e Avicena (980-1037). Para aprofundar os estudos, participou de muitas dissecações de corpos humanos e de animais. Ele não só se preocupou em ver os órgãos e sistemas, mas procurou entender sua dinâmica, a forma como funcionavam, o que enriqueceu ainda mais o estudo.

Da Vinci foi além do que costumavam fazer os chamados “artistas-anatomistas”. Os autores do livro Charles O’Malley (Universidade de Stanford) e L.B Saunders (Universidade da Califórnia) explicam que era comum eles se aproximarem dos médicos para aperfeiçoar seus traços. Mas no caso do pintor italiano criador da Mona Lisa a anatomia era algo mais do que um simples coadjuvante da arte. Por isso ele adquiriu conhecimentos que ultrapassaram e muito os necessários para desempenhar sua arte, explicam os escritores.

Os próprios Charles O’Malley e J.B Saunders não se conformaram em fazer o básico para registrar os estudos de Da Vinci. Passaram um bom tempo organizando e traduzindo as anotações do italiano para o inglês. Na edição, as figuras foram dispostas em ordem cronológica com o objetivo de apresentar, passo a passo, o aprimoramento do artista italiano como anatomista. Além disso, para facilitara apreensão dos conteúdos, as informações foram organizadas em nove grandes áreas de estudo: Sistema Esquelético, Sistema Muscular, Anatomia Comparada, Sistema Cardiovascular, Sistema Nervoso, Sistema Respiratório, Sistema Digestório, Sistema Urogenital e Embriologia. As anotações de Da Vinci que acompanham as imagens oscilam entre um tom descritivo e explicativo e outro um tanto quanto autobiográfico e anedótico.

O mesmo zelo se pode atribuir aos tradutores para o português. O trabalho foi realizado pelo cirurgião cardíaco Pedro Carlos Piantino Lemos, professor de Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a tradutora Maria Cristina Vilhena Carnevale, e levou dez anos.

São 520 páginas e informações que explicam detalhadamente o lado anatomista do gênio italiano. Como acréscimos, Lemos criou marcações que ajudam o leitor a ligar o desenho ao comentário a que se refere. Os tradutores também inseriam termos médicos atuais que ajudam na localização do que foi descrito por Leonardo, pois na época boa parte do organismo humano ainda não tinha nome.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

O AUTOR – Leonardo da Vinci foi pintor, escultor, músico, cientista, arquiteto, engenheiro, inventor. Talvez nenhuma outra figura personifique tanto o ideal humanista do Renascimento quanto ele. Um homem polivalente que não se contentava em dominar uma dada técnica artística ou em registrar os mecanismos de uma invenção. Guiado por uma curiosidade insaciável, ele procurava entender o porquê dos diferentes fenômenos. Seus escritos, interesses e reflexões permitem acessar os mais variados aspectos de sua mente incisiva, questionadora e investigativa que, não por acaso, mergulhou na aventura científica de estudar e representar os elementos constitutivos do corpo humano. (Com assessoria)

Leonardo da Vinci, o desbravador do corpo humano

Alessandro Silva  | Jornal da Unicamp | 29 de julho a 4 de agosto de 2013

Artista italiano usou a matemática e o desenho para entender o funcionamento da “máquina” humana

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciViaje cinco séculos no tempo. Esqueça a internet, a televisão, o cinema e a fotografia. Houve uma época em que o homem teve que recorrer ao desenho para retratar sua viagem de descoberta rumo ao interior do corpo humano. Os portugueses nem haviam chegado ao Brasil quando Leonardo Da Vinci (1452-1519) começou um dos mais impressionantes levantamentos de anatomia para entender o funcionamento de órgãos, do esqueleto, dos músculos e tendões. Esta é a história pouco conhecida do artista-anatomista italiano – sim, além de pintor, escultor, músico, cientista, arquiteto, engenheiro e inventor, ele também atuou na medicina.

Ao longo de 15 anos (de 1498 a 1513), Leonardo desenhou órgãos e elementos dos sistemas anatomofuncionais do corpo humano em um estudo que começou pela leitura das obras de autores da medicina pré-renascentista, como Galeno de Pérgamo (129-200), Mondino dei Luzzi (1270-1326) e Avicena (980-1037). Ele também participou de dissecações do corpo humano e de diversos animais. Porém, jamais terminou e publicou a obra que, segundo pesquisadores, poderia ter revolucionado a medicina mais de 20 anos antes que o belga Andreas Vesalius, considerado o “Pai da Anatomia”, publicasse seu livro “De Humani Corporis Fabrica”, em 1543, obra que marca a fase inicial dos estudos modernos sobre anatomia.

Para entender as implicações e a importância dos estudos anatômicos realizados durante o Renascimento, basta imaginar que, por quase mil anos, questões religiosas e culturais impediram o homem de explorar o próprio corpo e de entender o funcionamento da máquina humana – as dissecações para a observação direta do corpo humano não eram permitidas nem adotadas pelas escolas de medicina medievais. É a história desse período e o contato com as imagens de mais de 1200 desenhos anatômicos produzidos pelo próprio Leonardo da Vinci que tornam interessante o livro “Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci” (Leonardo on the Human Body), publicado pelas editoras Unicamp/Ateliê.

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci“Com seus estudos anatômicos, Leonardo da Vinci ultrapassou os conhecimentos dos artistas de sua época, pois, ao observar o interior do corpo humano, viu de perto as características dos seus músculos e dos seus órgãos vitais, e mais ainda, tentou e conseguiu entender e dar explicações lógicas sobre os seus movimentos, sobre as suas ações e sobre as suas funções”, explica o cirurgião do coração Pedro Carlos Piantino Lemos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que traduziu o livro do inglês para o português, em parceria com a tradutora Maria Cristina Vilhena Carnevale.

Leonardo é tido como uma exceção entre os artistas que se propuseram a explorar a anatomia humana. Partiu dele, como destaca o professor da USP, a primeira descrição, observada em uma dissecação, de uma aterosclerose – o entupimento de uma artéria em decorrência do acúmulo de gordura.

A publicação em português dos Cadernos Anatômicos de Leonardo é resultado de dez anos de trabalho dos tradutores brasileiros. São 520 páginas e informações que explicam detalhadamente o lado anatomista do gênio italiano. Como acréscimos, Lemos criou marcações que ajudam o leitor a identificar o desenho ao comentário a ele referente. Os tradutores também inseriram termos médicos atuais que ajudam na localização das coisas descritas por Leonardo – na época em que ele aventurou-se pelo corpo humano, boa parte do organismo humano ainda não tinha nome. Inovador

Inovador

No Renascimento, artistas como Leonardo aproximaram-se de médicos-anatomistas para retratar melhor a forma humana em pinturas e esculturas. Eles foram chamados de “artistas-anatomistas”, segundo Charles O’Malley (Universidade de Stanford) e J.B. Saunders (Universidade da Califórnia), que organizaram e traduziram, do italiano para o inglês, os textos de anatomia de Leonardo da Vinci. “Embora fosse fundamentalmente um artista, [Leonardo] considerava a anatomia como sendo algo mais que simples coadjuvante da arte. Essa atitude o levou a prosseguir com seus estudos, de tal maneira que seus conhecimentos anatômicos ultrapassaram aqueles que seriam suficientes para desempenhar sua arte”, afirmam no livro.

De fato, os desenhos desse estudo de Leornardo são anotações, um roteiro de pontos que seriam ainda detalhados e esclarecidos para a publicação de um tratado de anatomia. Os detalhes, os cortes e os ângulos das figuras impressionam pelo realismo e respeito pela proporcionalidade que existe no corpo humano. A influência da engenharia e da matemática é visível: roldanas, formas geométricas e engrenagens estão presentes nas gravuras, ao lado de estruturas ósseas, de conjuntos de tendões e músculos, indícios de que ele recorreu a cálculos para interpretar os movimentos e a funcionalidade dos elementos anatômicos que observou.

De sua experiência em outras áreas, Leonardo trouxe diversas inovações para o estudo da anatomia, dentre elas a utilização da injeção de cera derretida nos ventrículos do cérebro de um cadáver para facilitar a sua dissecação.

Para a época, o desenho de Leonardo era um avanço surpreendente diante das caricatas e simples ilustrações encontradas, por exemplo, na obra de Mondino dei Luzzi, denominada “Anothomia”. Havia um menosprezo do valor pedagógico da imagem nos estudos medievais de anatomia. Uma imagem do Mondino mostra, ao fundo, um professor lendo um texto de anatomia, escrito em latim e sem figuras, enquanto seus alunos, à sua frente, auxiliados por um tutor, dissecam um corpo humano. No Renascimento, essa dinâmica de aprendizado foi rompida e os estudos de anatomia nunca mais foram os mesmos, pois o próprio professor passou a mostrar diretamente no cadáver os aspectos dos elementos anatômicos.

“O livro [de Leonardo] é uma contribuição fundamental para a compreensão do desenho como meio de conhecimento, uma ferramenta de construção do pensamento visual”, avalia a professora Lygia Arcuri Eluf, do Instituto de Artes (IA) da Unicamp. “Leonardo da Vinci é um grande precursor de um período bastante interessante da história do mundo ocidental, conhecido no campo das artes como ‘maneirismo’, no qual parece que todas as possibilidades de um mundo novo se abrem para os artistas.”

Com a morte do artista, discípulo herda desenhos

Apesar do brilhantismo da obra de anatomia de Leonardo da Vinci, o trabalho dele desapareceu durante vários séculos até ser encontrado e publicado. Após a morte do artista-anatomista, em 1519, todos os desenhos e textos que ele produziu foram herdados por seu discípulo Francesco Melzi, que os guardou até 1570. A partir daí, os caminhos percorridos pelas folhas dos diversos cadernos de Leonardo, particularmente as folhas dos seus estudos de anatomia, são pouco conhecidos. Em 1690, conforme pesquisas dos tradutores americanos, há evidências de que elas já estavam na Biblioteca Real de Windsor, na Inglaterra, como parte da coleção real.

O primeiro esforço para levar os desenhos e os textos anatômicos para o conhecimento público ocorreu em 1898, com a publicação de alguns deles por Theodore Sabachnikoff, voltada mais para a curiosidade dos leitores e para o fato de ser uma novidade e menos para a importância do estudo realizado. Apenas no século passado, houve um trabalho adequado para organizar os desenhos e traduzir os textos, o que resultou na edição do livro de O’Malley e Saunders – o original da tradução portuguesa publicada pela Editora da Unicamp e pela Ateliê Editora.

No Renascimento, desenho mudou e ajudou a ciência

Até o final da Idade Média, o desenho apresentava figuras que deveriam ser adoradas, a exemplo de outras culturas do passado, mas o Renascimento alterou esse caráter e permitiu que os artistas representassem o mundo, segundo a professora Lygia Arcuri Eluf, do IA.

Além disso, da era medieval para o Renascimento, os artistas tiveram à sua disposição a descoberta de materiais que ajudaram a modernizar o desenho até então realizado, tais como pedras para litogravuras de diferentes gradações, além da criação de ferramentas de escrita, como penas de metais. “Sem esses materiais, o desenho não aconteceria”, explica a professora, especialista em desenhos e gravuras.

Para ela, o papel do desenho nesse período era o de registrar como os artistas entendiam e viam o mundo por meio de investigação de toda a natureza. Era como se o homem, após um período de estagnação durante a Idade Média, iniciasse um processo de redescoberta do mundo, a exemplo das múltiplas áreas de interesse de Leonardo da Vinci, que se envolveu com pintura, escultura, música, ciência, arquitetura, engenharia e anatomia.

Nesse período, o valor pedagógico do desenho ganhou prestígio, principalmente com o surgimento da imprensa e do livro, segundo o médico Pedro Carlos Piantino Lemos, tradutor da obra de Leonardo da Vinci para o português. Até então, os médicos recusavam o uso de qualquer coisa que pudesse distrair a atenção durante a leitura dos textos. “Na Idade Média, não se levava em conta a figura, apenas o texto puro”, afirma o professor da Universidade de São Paulo (USP).

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

Mario Bresighello | Guia da Folha | 27.4.2013

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciA genialidade polivalente de Leonardo da Vinci (1452-1519) está sintetizada nas investigações anatômicas que realizou entre 1485 e 1515. São esboços e desenhos de membros e órgãos de corpos humanos que o próprio Leonardo dissecava, à noite e às escondidas, em hospitais de Florença, Milão e Roma.

Compilados após sua morte, os trabalhos, de forte impacto visual, são acompanhados dos comentários do artista na escrita “ao contrário” inventada por ele, nos quais interpreta os conhecimentos que adquiria com a atividade.

Se, num primeiro momento, pode-se pensar que ela servia para que aperfeiçoasse sua linguagem figurativa, fica evidente que, pouco a pouco, ganha precisão e método de pesquisa científica, sem deixar de ser uma experiência estética única.

Os “Cadernos Anatômicos” chegaram a Inglaterra no século 17 e pertencem à família real inglesa. Lá permanecem desde então, como parte do acervo da biblioteca do Castelo de Windsor. Foram publicados pela primeira vez na primeira década do século 20.

Autor: Leonardo da Vinci

Tradução: Pedro Carlos Piantino Lemos e Maria Cristina Vilhena Carnevale

Editora: Ateliê Editorial e Editora Unicamp

Avaliação: Ótimo

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

Angélica Barros | Revista de História da Biblioteca Nacional

Artista, engenheiro, matemático, cartógrafo, músico, inventor, geólogo. Além desses predicados, Leonardo da Vinci (1452-1519) era um exímio anatomista. Com seus desenhos, ele compôs um estudo extraordinário de referência para o conhecimento do corpo humano. Estes cadernos trazem o que pretendia ser um pioneiro tratado de anatomia, que nunca foi terminado, reunindo desenhos e esboços resultantes de uma pesquisa de 15 anos (1498-1513), e a dissecação de dois corpos humanos. Traduzido inicialmente do italiano para o inglês, a obra surpreende pela minúcia de cada uma das 250 gravuras e mais de 1200 desenhos.

O trabalho foi organizado cronologicamente para facilitar a leitura, o entendimento e a evolução nas descrições do artista. Inclui ainda textos de referência detalhada das anotações do autor e um pequeno mapa de indicações para que o leitor possa apreciar cada um dos desenhos em sua plenitude. Saiba mais sobre o livro

Revista de Historia

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci

Leonardo da Vinci

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 4.3.2013

O físico vienense Fritjof Capra, conhecido pelo best-seller Ponto de Mutação, admite que não poderia ter avaliado os trabalhos científicos do gênio renascentista Leonardo Da Vinci (1452- 1519) sem a ajuda de colegas especializados em outras disciplinas. Ele faz a revelação logo no começo de seu livro A Alma de Leonardo Da Vinci, que a editora Cultrix colocou no mercado quase que simultaneamente ao lançamento de Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, coedição luxuosa da Ateliê Editorial e a Editora Unicamp que reproduz 215 gravuras anatômicas do pintor. Capra fala também desses desenhos em seu livro. É possível, portanto, entender a razão de ter recorrido a colegas para empreender uma análise do pensamento científico de Da Vinci, definido por ele em entrevista exclusiva ao Estado, como a “síntese perfeita entre arte, ciência e tecnologia”.

A herança cultural deixada por Da Vinci é especialmente valiosa para nosso tempo, diz Capra, por ter sido o pintor um pesquisador sistêmico, “um observador da natureza que não teve influência direta sobre os cientistas que vieram logo depois dele – por não ter publicado suas descobertas -, mas que é fundamental para o século 21, quando problemas globais tendem a ser analisados segundo uma perspectiva interdisciplinar”.

A essência de sua “alma”, segundo Capra, é justamente “a conjunção de sua curiosidade intelectual com engenho experimental”. E coragem, faltou acrescentar. O livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, por exemplo, traz 1200 desenhos que não seriam possíveis sem que desafiasse a bula papal, partindo para a dissecção de cadáveres, punida em sua época com a excomunhão. Se Da Vinci vivesse hoje, arrisca Capra, ele seria um cientista holístico, lutando pela sustentabilidade. “É difícil afirmar categoricamente que Leonardo teria seguido esse caminho quando se trata de um gênio de personalidade complexa, mas tudo indica que sim.” Só um artista que definiu a pintura como fruto da observação da natureza e estudou a correlação dos padrões botânicos e animais, de acordo com Capra, podia dizer que “entender um fenômeno é associá-lo a outros fenômenos”. Séculos antes das especulações futuristas do filme Matrix, Da Vinci já levava em conta a similaridade de padrões nos mundos animal e vegetal.

Curiosamente, para um homem tão sábio, segundo Capra, não se encontra nos cadernos de anotações de Da Vinci uma só linha sobre suas emoções. Ele analisou esses caóticos cadernos de notas, tentando seguir o método empírico do artista – basicamente apoiado na observação dos fenômenos naturais -, mas não descobriu em nenhuma das 6 mil páginas, dispersas entre bibliotecas e museus, uma mísera referência à vida privada de Da Vinci. “Há só uma nota em que ele registra a morte do pai, ainda assim de passagem.”

Os estudos sistêmicos de Da Vinci são fundamentalmente diferentes da ciência mecanicista de Galileu (1564-1642) e Newton (1643-1727). Nem tudo se explica pelas leis da mecânica. Essas são ideias do século 17 que Leonardo não aprovaria se tivesse nascido nele. Capra apresenta a ciência das formas orgânicas de Da Vinci como “radicalmente diversa” de seus seguidores. “Como cientista, ele coloca a vida no centro de tudo, mostrando que os fenômenos naturais são interdependentes e interligados.” Esta, observa Capra, é com certeza uma boa lição para a ciência atual. “Ele foi o primeiro anatomista moderno, um ecofilósofo e ecocientista que não viu o corpo humano apenas como uma máquina.”

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

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O CORPO SEGUNDO O GÊNIO

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciInéditos no Brasil, Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, organizados por Charles D. O’Malley e John Bertrand de C.M. Saunders, reúnem 1200 desenhos anatômicos realizados por Da Vinci entre 1498 e 1513, dispostos em ordem cronológica e organizados em nove áreas de estudos, da anatomia comparada à embriologia. Traduzidos pela dupla Pedro Carlos Piantino Lemos e Maria Cristina Vilhena Carnevale, esses cadernos, aparentemente destinados a estudantes de Medicina, constituem mais que esboços dos sistemas anatomofuncionais. São obras artísticas de um gênio renascentista que viu no corpo mais que um instrumento para servir de modelo a pintores e escultores.

No tempo de Leonardo, os estudos anatômicos não tinham avançado muito em relação às pesquisas medievais baseadas na dissecação de animais, que, aliás, eram proibidas nos séculos 13 e 14 — primeiro por causa da influência da interdição árabe e, posteriormente, proibida pela bula papal. Por ter sido aluno de pintura de Verrocchio (1435-1488), Da Vinci dividia com o mestre o mesmo interesse científico – embora o instrutor não pintasse muitos nus e tivesse menos conhecimento de anatomia do que seria desejável para orientar um gênio.

Leonardo começou por observar e desenhar corpos de enforcados ainda em Florença. Ao se fixar em Milão, num esforço de esculpir uma estátua equestre de Francesco Sforza, dissecou um cavalo e fez belos desenhos.

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

O desenho anatômico mais antigo que se conhece de Leonardo é de 1487. O crânio visto acima é de 1489. Ele fornece ao observador informações sobre a oclusão dentária e anotações que remetem aos estudos de Avicena e Galeno. Os exemplares mais impressionantes dessa bela coleção de gravuras pertencem à série anatômica do “homem centenário” que ele dissecou em Florença, em que mostra a degeneração dos vasos sanguíneos dos idosos. Em outras palavras: a arteriosclerose.

Acesse o livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci na loja virtual da Ateliê

Novo Lançamento: Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci
Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa
Pintor, escultor, músico, cientista, arquiteto, engenheiro, inventor… Talvez nenhuma outra figura personifique tanto o ideal humanista do Renascimento quanto Leonardo da Vinci. Este homem polivalente, todavia, não se contentava em dominar uma dada técnica artística ou em registrar os mecanismos de uma invenção: guiado por uma curiosidade insaciável, ele procurava entender o porquê dos diferentes fenômenos. Seus escritos, interesses e reflexões permitem acessar os mais variados aspectos de sua mente incisiva, questionadora e investigativa que, não por acaso, mergulhou na aventura científica de estudar e representar os elementos constitutivos do corpo humano.
Lançamento da Ateliê Editorial e Editora Unicamp Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci reproduz os mais de 1200 desenhos anatômicos de Leonardo, distribuí­dos em 215 gravuras feitas em preto e branco. Conhecidas por sua extraordinária beleza e precisão, tais imagens antecederam, em muito, trabalhos análogos que viriam a aparecer até o século XVII. Na presente edição, as figuras foram dispostas em ordem cronológica com o objetivo de apresentar, passo a passo, o aprimoramento de Leonardo como anatomista. Além disso, para facilitar a apreensão dos conteúdos, elas foram organizadas em nove grandes áreas de estudo: Sistema Esquelético, Sistema Muscular, Anatomia Comparada, Sistema Cardiovascular, Sistema Nervoso, Sistema Respiratório, Sistema Digestório, Sistema Urogenital e Embriologia.
As anotações de Da Vinci que acompanham as imagens oscilam entre um tom descritivo e explicativo e outro um tanto quanto autobiográfico e anedótico. Tais textos foram traduzidos do italiano para o inglês pelos eméritos professores Charles D. O’Malley e John Bertrand de C. M. Saunders, responsáveis também pela introdução biográfica que avalia a posição de Leonardo no desenvolvimento histórico da anatomia e do desenho anatômico. Coube aos já premiados Pedro Carlos Piantino Lemos e Maria Cristina Vilhena Carnevale verter todo esse trabalho monumental para o português.
Artistas, ilustradores, médicos, estudantes, professores e apreciadores do gênio extraordinário de Leonardo vão encontrar nos mais de 1200 desenhos aqui apresentados a união perfeita entre arte e ciência. Cuidadosamente detalhados, precisos, belos e vibrantes, eles permanecem ainda hoje, após cinco séculos, entre as melhores representações anatômicas jamais feitas.
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