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O poder transformador dos livros

Vivian Nani Ayres | Brasileiros | Abril de 2014

Como se deu a publicação e difusão de livros comunistas no Brasil e na França 

Edição e Revolução: Leituras Comunistas no Brasil e na FrançaOs livros fazem revoluções? Podem existir muitos protestos diante dessa pergunta, mas não se pode negar que uma das principais armas contra as ideias que ousaram questionar o status quo foi a perseguição aos livros considerados “subversivos”. É difícil encontrar alguém que conteste o poder transformador dos livros. Mesmo aqueles que só têm contato com esse objeto em sua esfera privada sabem que ao fecharem um livro depois da leitura encontram diante do espelho uma pessoa diferente. O que dizer então a respeito da literatura que se propõem justamente a cumprir esse papel transformador?

O livro Edição e Revolução – Leituras Comunistas no Brasil e na França, organizado por Jean-Yves Mollier e Marisa Midori Deaecto, nos mostra o duro caminho percorrido pelas editoras comunistas nesses dois países para consolidar e multiplicar suas ideias. Caminho que, embora distinto, atravessou as esferas da produção, da difusão e do consumo nos dois lados do Atlântico. Na sessão sobre o Brasil, podemos observar esse movimento através dos artigos de Lincoln Secco, Dainis Karepovs, Flamarion Maués e Angélica Lovatto. Do lado francês, Jean-Yves Mollier, Marie-Cécile Bouju, Julien Hage e Serge Wolikow nos dão a dimensão da situação naquele país.

Seguindo pari passu os movimentos históricos mundiais durante o século 20, vemos os percalços e sucessos das edições revolucionárias. É uma história de lutas, tanto no âmbito da transformação da sociedade quanto na esfera da edição e difusão dos textos. Mas essas duas esferas se misturam profundamente, afinal trata-se de uma ideologia que é filha da ilustração.

Mais do que todos, os comunistas acreditaram no livro como um instrumento de transformação. E não estavam errados, como podemos constatar nos capítulos dessa obra. Tanto no Brasil quanto na França, acompanhamos o esforço dos partidos comunistas para se alicerçarem no universo da edição e comemoramos suas vitórias – frutos da resistência e da criatividade –, que só em parte foram apagadas pela queda da União Soviética.

Essas ideias viajavam pelo mundo, afinal, a partir de 1917 podia-se multiplicar a Revolução. Mas é também conhecido o papel de centro difusor cultural que a França exerceu sobre o Ocidente desde o século 19, atingindo de forma substancial o Brasil. A relação entre esses dois países se dá de muitas formas: diversos textos comunistas aportaram aqui em língua francesa, muitos outros foram vertidos ao português a partir de traduções francesas. Mas o livro em questão também nos mostra que não se tratou apenas de recepção. Os comunistas brasileiros inovaram nas ideias e nos métodos, uma vez que estavam atuando em um ambiente histórico completamente distinto.

É, sem dúvida, uma leitura fundamental para aqueles que desejam conhecer a história do comunismo no Brasil e na França. Mas é, acima de tudo, um alento e um estímulo para aqueles que acreditam no poder transformador dos livros e das ideias.

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Leia o release do livro

Nossos tesouros barrocos

Livro de renomado arquiteto faz viagem pelo patrimônio do barroco do Brasil do período colonial, incluindo as riquezas da cidade de Goiás, Pirenópolis, Pilar de Goiás e Jaraguá

Rogério Borges | O Popular | 20.02.2013

Esplendor do Barroco Luso-brasileiroJanelas feitas com malacacheta, um tipo de mineral transparente que substitui, com eficiência, os vidros. Adornos de madeira ricamente esculpidos que embelezam e dão uma marca muito particular a portais, altares, oratórios, móveis. Casas e edifícios feitos de taipa e adobe que resistem ao tempo e testemunham a história. O livro O Esplendor do Barroco Luso-Brasileiro, lançado recentemente pelo arquiteto e professor da USP Benedito Lima de Toledo, é uma viagem por soluções e características de um período em que a riqueza do ouro levou influências europeias na arte e na arquitetura para o interior mais profundo do Brasil.

As jazidas de Minas Gerais e Goiás, descobertas e exploradas pelos bandeirantes paulistas, fundaram povoamentos, núcleos urbanos que, na atualidade, transformaram-se em sítios e monumentos de inestimável valor.

A obra fala de joias da arquitetura e da arte colonial e barroca do País, como Ouro Preto e suas suntuosas igrejas, o legado de Aleijadinho, as construções de Olinda, o rococó mineiro, a contribuição das ordens religiosas, como os beneditinos e os franciscanos, os tesouros artísticos de Salvador e os diálogos com Portugal. Entre os locais abordados pelo trabalho, há um capítulo que disserta sobre a arquitetura e a arte da mineração em Goiás, com destaque par a as igrejas e os casarios da cidade de Goiás, Pilar de Goiás, Pirenópolis e Jaraguá.

Em entrevista ao POPUL AR, o autor do livro exalta o patrimônio goiano que ficou daquela época, sobretudo os templos da antiga Vila Boa e o arraial preservado que existe nos prédios antigos de Pilar. Para Benedito Lima, as cidades goianas têm um tesouro antropológico único em sua arquitetura que merece atenção.

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro

“PILAR DE GOIÁS É UM FATO DE PRIMEIRA IMPORTÂNCIA”

Em seu mais recente livro, o senhor aborda algumas cidades e construções do barroco, incluindo localidades goianas. De onde vem esse interesse pelo barroco, qual é o legado por ele deixado na época das bandeiras, do ciclo do ouro?

O barroco, em Portugal, foi um movimento de muito relevo e vieram para o Brasil naquela época profissionais de muita qualidade. O barroco tornou-se quase uma arte nacional, uma expressão do Brasil que surgiu no pós-Renascimento. Ele teve grande aceitação porque é uma arte emotiva, que tem grande poder de comunicação. Esses locais de Goiás, que têm uma paisagem belíssima, não podem ficar de fora. Minas Gerais também teve um surto muito importante do barroco e essa comunidade luso-brasileira produziu com muita força, muita vivacidade, uma arte de expressão muito emocional. Portugal era pequeno em extensão territorial, mas tinha um grande império colonial. Afluíram, então, para Portugal, influências do mundo inteiro. Eles passaram essas influências, principalmente para sua principal colônia, o Brasil.

O que há em Minas, Goiás é a expressão desse elemento que Portugal atingiu naquele momento.

Nas descrições que o senhor faz de cidades com construções do barroco em Goiás, há o uso recorrente do adjetivo “singelo”. O patrimônio barroco de Minas Gerais, por exemplo, é mais complexo. Quais são as explicações para essa diferença?

Em Minas Gerais, o descobrimento de ouro levou muita gente de São Paulo e de todo o mundo colonial para a região. Acontece que a arquitetura paulista, de todas, era a mais despojada, com suas casas de pilão. Nós tínhamos cidades inteiras em São Paulo feitas de casas de pilão. Um viajante chegou a dizer que várias cidades paulistas eram feitas de barro. Nós temos aqui o Museu de Arte Sacra que é um remanescente dessa realidade. Essa austeridade, São Paulo levou para outras regiões. Acontece que na região de Ouro Preto, antiga Vila Rica, veio gente diretamente de Portugal a começar pelo pai de Aleijadinho. Essa concentração de riqueza em Minas fez com que houvesse a riqueza correspondente no barroco local.

O senhor chama a atenção para o que encontrou em Pilar de Goiás. O senhor escreve em seu livro que a cidade histórica goiana é um “arraial preservado” em pleno século 21. Qual é a importância de termos um sítio conservado neste nível?

Do ponto de vista antropológico, Pilar de Goiás é um fato de primeira importância. Assim como uma área envoltória aqui em São Paulo, com uma capela muito singela, que é a de São Miguel Paulista, de 1622, esse aldeamento tem, do ponto de vista antropológico, um valor insubstituível. Foi a forma com que a urbanização começou a se desenvolver. Pelos jesuítas, que eram muito metódicos, como nós sabemos, e também por outras ordens religiosas, como os franciscanos, por exemplo. Isso tem, portanto, uma importância muito grande.

O senhor se surpreendeu com o que encontrou aqui em Goiás em suas pesquisas?

Nós tivemos alunos de Goiás aqui na Faculdade de Arquitetura da USP e eles sempre trouxeram dados novos, surpreendentes. Eu viajei aí para Goiás e gosto muito. Independente disso, os alunos que viajam para Goiás sempre trazem informações novas. E é isso o que a gente deseja. Aliás, em todos esses conventos de cidades antigas, há arquivos e esses arquivos contêm informações preciosas sobre os artistas daquela época. Hoje o artista é muito badalado, sai nas colunas de jornais. Na época colonial, não. Nós sabemos de muitos artistas apenas pelos registros das irmandades. Goiás fica devendo essa pesquisa em todos os acervos dessas irmandades.

E essas informações são recuperáveis?

Ah, sim. O acervo é composto, geralmente, por atas que as irmandades são obrigadas a fazer, contratos que firmam com os artistas e que têm de justificar perante os irmãos. Tudo fica lá registrado, às vezes de forma muito singela, mas o nome está lá. E quando se recupera o nome de um desses artistas, isso é para a arquitetura uma festa.

O nível de conservação das construções coloniais que o senhor encontrou aqui em Goiás deixou-o satisfeito ou preocupado?

Na verdade, nós temos um problema nacional. O patrimônio histórico não é prioridade de muitos governos. A conscientização da população é fundamental. A luta é da cultura brasileira, de todos nós. Nunca o pessoal entende que dá prestígio conservar um monumento. Geralmente, e aqui em São Paulo acontece muito, é mais importante fazer um viaduto, um túnel em sua gestão do que preservar o patrimônio. O viaduto dá espaço e o político gosta disso.

Nessa pesquisa pelas cidades coloniais brasileiras, o senhor também estudou o urbanismo desses centros. Há lições ou exemplos que podemos tirar desses núcleos que serviriam para as cidades atuais?

A primeira característica, importantíssima, é a afeição que a população tem pelas cidades. Quando os edifícios de referência — geralmente os das irmandades, da Câmara e Cadeia – ganham a afeição da população, isso é mais importante do que qualquer valor outro. Porque é a própria cultura da população. Isso, em Goiás, eu senti em diversos lugares. Neles, a população gosta desse patrimônio e temos que fazer uma frente única para fazer com que os governos entendam esses anseios do povo.

Perfil

Benedito Lima de Toledo é um dos nomes de maior prestígio da arquitetura brasileira. Livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, sempre ampliou sua área de atuação para a arte e o patrimônio histórico em produções acadêmcias. Autor de 12 livros – em vários deles recupera histórias que pareciam perdidas, sobretudo de recantos menos conhecidos de São Paulo –, Benedito é membro da Academia Paulista de Letras e já ganhou a medalha Rodrigo de Melo Franco de Andrade, nas comemorações dos 50 anos do Iphan, e o Prêmio Vaz de Caminha, do governo de Portugal.

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Barrocos

Imagem do livro "Esplendor do Barroco"

Imagem do livro "Esplendor do Barroco"

Benedito Lima de Toledo mostra como a escola nascida na Europa foi aprimorada no Brasil

José Maria Mayrink | O Estado de S. Paulo | 17.2.2013

A história, costumes e arte se mesclam, se completam e se explicam nas páginas de Esplendor do Barroco Luso-brasileiro, de Benedito Lima de Toledo, professor titular de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo. Ao longo dos últimos 50 anos esse paulistano do bairro da Liberdade fez com dedicação e gosto, no Brasil e em Portugal, estudos e pesquisas de campo para transmitir aos alunos as lições que agora enriquecem este livro em texto, fotos e desenhos.

São informações e observações do próprio autor e de outros profissionais por ele citados, sobre a evolução do Barroco no litoral e no interior brasileiros, onde arquitetos, pedreiros e engenheiros militares construíram igrejas, conventos, chafarizes e fortalezas hoje presentes na paisagem de cidades como Belém, São Luís, Recife, Salvador, Rio, São Paulo, Ouro Preto, Congonhas e mais umas dezenas de localidades de Minas. Essa riqueza se estende a colégios e missões do Rio Grande do Sul, ao casario de antigas aldeias de Goiás e às fortificações de beira-mar, como a dos Reis Magos, em Natal (RN).

O Barroco nasceu com o Maneirismo, no fim do Renascimento, cresceu na França e se espalhou por outros países da Europa, com destaque para Portugal, de onde missionários e colonizadores o trouxeram para o Brasil. Aqui, a nova escola ganhou autonomia, com vida própria e mais beleza, nas mãos de artistas como Francisco Antônio Lisboa, o Aleijadinho, e outros mestres do Ofício nas cidades históricas de Minas. O traçado e as construções das cidades de Portugal, quase sempre encarapitadas em morros e interligadas por estradas precárias, reproduziram-se nas metrópoles e nos arraiais da Colônia. Ilustrações de Coimbra e Lisboa ao lado de Salvador, na Bahia do século 19, comprovam a semelhança.

Imitação? Para Benedito Toledo, os portugueses aprimoraram o Barroco no Brasil, sobretudo em Minas, onde a riqueza do ouro permitiu enriquecer altares nas igrejas e embelezar obras civis. A nacionalização de um estilo cada vez mais aprimorado levou ao Rococó, nas décadas seguintes, chegando até o século 19. Para o professor da FAU, o Rococó não é sinônimo de decadência, como às vezes se pinta, mas evolução notável no estilo importado de Portugal. Arquitetos, desenhistas e pedreiros portugueses souberam aproveitar recursos brasileiros para dar originalidade a seu trabalho. Frutas regionais e figuras locais, como índios e escravos, ornamentam chafarizes e altares.

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro, de Benedito Lima de ToledoA contribuição das ordens religiosas para o Barroco ocupa três dos 17 capítulos do Esplendor do Barroco Luso-brasileiro. O autor, que nessas páginas se projeta como historiador, exalta o trabalho dos padres jesuítas com seus conventos, colégios e aldeias. Inspiradas na planta da igreja de Gesú, em Roma, suas construções se enquadram no Maneirismo. “Suas igrejas se identificam logo pela regularidade formal, sem a expansão do Barroco”, observa Benedito Toledo em entrevista ao Estado. Os construtores jesuítas eram disciplinados, inventivos e multiprofissionais.

Seus conventos e colégios tinham a configuração de aldeias com preocupação didática de garantir espaço para danças e teatro em terreiros ou pátios. Os irmãos jesuítas (não sacerdotes) levantavam paredes de igrejas, mas também construíam barcos e até navios de grande porte para navegar rios e oceano.

O livro ressalta, entre as obras dos jesuítas, a capela de São Miguel Paulista, na capital, a Aldeia de Carapicuíba e templos de outras cidades da região. A arte colonial paulista é pobre e despojada, em comparação com o esplendor das igrejas de Minas, mas algumas preciosidades merecem atenção. Um exemplo se encontra na capela de São Miguel Paulista, de 1622. “Notável é a banca de comunhão com seus balaústres de jacarandá torneado, tendo ao meio montantes que lembram os mainéis dos retábulos”, observa o autor, acrescentando a informação de que “junto às paredes de cada lado aparecem duas graciosas figuras femininas arrematando a peça. ”Na avaliação do arquiteto e urbanista Lúcio Costa, citado pelo professor da FAU, essa banca de comunhão é “das mais antigas e autênticas expressões conhecidas da arte brasileira”.

O barroco dos frades franciscanos tem bons exemplos em São Paulo – o Mosteiro da Luz, construído por Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, e o conjunto do Largo de São Francisco, com igreja paroquial, convento e igreja da Ordem Terceira. Outras construções dos frades se destacam no Rio, Salvador e João Pessoa e outras cidades do Nordeste. Os monges beneditinos sobressaem com seus mosteiros do Rio, Salvador e Olinda. O Barroco de todas essas construções caracteriza não apenas os imóveis, mas se identifica ainda nas peças de celebração litúrgica e nas pinturas.

A azulejaria também é marca do Barroco nas igrejas, palácios e casarões do Brasil Colonial. Presente nas construções do litoral, o azulejo não chegou, no entanto, a Minas, por causa da dificuldade de transporte. A carga que vinha da Europa em navios teria de ser levada para o interior no lombo de burros. Os construtores mineiros recorreram então à madeira, imitando o desenho dos azulejos, para cobrir paredes de casas e templos.

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A síntese do Brasil em uma ferrovia centenária

Exposição e livro mostram a construção da imagem nacional em fotografias como a reproduzida ao lado, que registra as obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré no coração da Amazônia

Boris Kossoy | O Globo | 8.12.2012

Estrada de Ferro Madeira-Mamoré

No século XIX, com o desenvolvimento da fotografia, as imagens visuais técnicas ingressaram na vida cotidiana do homem e da sociedade. Embora seu valor documental seja insubstituível como meio de informação, é importante que nos perguntemos sempre: qual é a verdade que nos mostra a imagem fotográfica? A verdade do registro da aparência, da indiscutível semelhança com o objeto-modelo materializada por um sistema de representação visual e moldada segundo um processo de criação/construção. De realidades. Um documento, pois, que se presta a comprovar múltiplas “verdades”: históricas, ideológicas, políticas, étnicas, religiosas. É nesse terreno de ambiguidades interpretativas que desliza a imagem fotográfica, ao mesmo tempo em que preserva a memória visual da cena passada, uma fonte histórica que não escapa do necessário exame crítico.
A partir de tal reflexão pensamos a fotografia e também a possibilidade de se lançar um olhar ao passado através e a partir das imagens da câmera, que é o objeto do projeto Um Olhar sobre o Brasil – A Fotografia na Construção da Imagem da Nação: 1833-2003 (Objetiva). Além de compor a obra, as fotos selecionadas no volume compõem uma exposição homônima, que está em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, até 23 de janeiro.
Procurou-se, neste projeto, reunir um corpus documental que registrasse aspectos expressivos de fatos sociais, políticos, culturais, religiosos, científicos, artísticos, entre tantos outros, fios que tecem a trama histórica de uma nação. No entanto, as fontes fotográficas não se bastam em si mesmas: é preciso dar “voz” às mensagens codificadas nas imagens, ultrapassar sua tênue superfície iconográfica e buscar por significados não explícitos, ao nível das mentalidades, das ideologias.
O desafio do projeto residiu na construção de um roteiro que pudesse, de forma didática, conduzir o espectador pelos caminhos de luzes e sombras que permeiam a história do Brasil, segundo uma abordagem que privilegiasse a imagem fotográfica. Uma forma de dar um rosto, uma imagem, uma feição concreta aos cenários, personagens e fatos de uma história que, como todas as histórias, continua a ser, quase que exclusivamente, pensada e interpretada a partir do signo escrito. Um percurso iconográfico, enfim, onde imagens-síntese e micro-histórias se articulam e dialogam visando à construção da imagem da nação. Trata-se de um olhar sobre o Brasil, como, obviamente, exigem muitos outros olhares, outras imagens e outras leituras.
Neste ano em que se comemora o centenário da inauguração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, destacamos uma dessas imagens-síntese que registra um aspecto da dramática implantação de uma ferrovia no interior da floresta amazônica. Trata-se de uma empreitada de gigantes levada a cabo entre 1907 e 1912 e que custou a vida de milhares de trabalhadores vitimados pela malária, disenteria e outras moléstias tropicais. Dana Merrill, fotógrafo norte-americano, foi especialmente contratado para a documentação das obras da ferrovia. A imagem que se vê registra aspecto do deslocamento dos trilhos da Madeira Mamoré Railway (Estrada de Ferro Madeira-Mamoré) em função de deslizamento de aterro causado pelas fortes chuvas e inundações que assolavam a região.
A ferrovia construída na fase áurea da borracha ligava Porto Velho e Guajará Mirim, numa distância de 370 quilômetros, aproximadamente, por via fluvial e onde existem cerca de 20 acidentes do rio, entre cachoeiras, corredeiras e saltos. Sua implantação se deveu ao compromisso assumido pelo Brasil de conceder uma passagem para a Bolívia sobre o Rio Madeira – episódio que ficou conhecido como “Questão do Acre”. O objetivo era permitir o escoamento de borracha até Porto Velho e, daí, seguir por via fluvial até encontrar o rio Amazonas, por onde prosseguia o trajeto até alcançar o Oceano Atlântico, tal como foi consignado pelo Tratado de Petrópolis, em 1903.
Desde o século XIX os ingleses levaram sementes de seringueiras (Hevea Brasiliensis) para suas colônias do sudeste asiático, e as plantaram sistematicamente em terrenos onde vingaram bem. Graças a um planejamento eficaz, a borracha asiática chegou ao mercado internacional derrubando os preços da borracha da Amazônia. Decorre da crise da borracha a crise da própria ferrovia que, aos poucos, foi sendo desativada.
Cem anos nos separam do primeiro apito do trem que, apesar de todo o sacrifício de recursos e vidas, chegou tarde ao destino. Em 2005, a ferrovia foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e, em fevereiro deste ano, foi instalado o Comitê Pró-candidatura da EFMM a Patrimônio Mundial da Unesco.
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Boris Kossoy é coordenador do livro Um Olhar Sobre o Brasil: A Fotografia na Construção da Imagem da Nação: 1833-2003 (Objetiva) e curador da exposição homônima de fotos, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake. É professor titular do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor de Fotografia e História (Ateliê Editorial) e Dicionário histórico-fotográfico brasileiro (IMS), entre outros livros.
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Conheça a trilogia de Boris Kossoy publicada pela Ateliê

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