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“Entreatos”: monólogos de inspiração fantástica

Marcelo Castel Cid já escreveu um romance chamado Os Unicórnios e organizou a Antologia Fantástica da Literatura Antiga. De certa forma, sua literatura flerta com o fantástico. Agora, ele lança Entreatos, em que bebe nessa fonte para criar monólogos inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. A seguir, ele fala sobre seu novo livro para o Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia de escrever Entreatos?

Marcelo Castel Cid: Surgiu à primeira leitura do Novo Testamento, há muitos anos. O Livro dos Atos me impressionou particularmente, já naquela época.

Qual a origem de seu interesse pelo Livro dos Atos dos Apóstolos?

MCC: Não sei se essa informação é tão relevante, mas digo mesmo assim: não sou uma pessoa religiosa. Meu interesse pelos Atos se deu por seu valor literário e humano. Lendo a história dos primeiros cristãos, eu me pegava fascinado pela maneira como um obscuro culto oriental foi ganhando corações e mentes tão rapidamente, e em dois meios culturais muito diversos – entre os judeus monoteístas e entre os gregos e romanos politeístas. E isso aconteceu de uma maneira definitiva, como sabemos, uma vez que muitos, logo depois da conversão, já estavam dispostos a dar a vida pela nova religião. Isso em si é muito misterioso. Por mais que haja mal-entendidos ou ficção nos Atos, ter a certeza, como temos, de que tantos enfrentaram o martírio para testemunhar a verdade que sentiam nas palavras de um homem “do povo”, que seria também divino, torna a leitura uma experiência tocante.

 O seu conhecimento prévio da Bíblia – e do Livro dos Atos dos Apóstolos – foi “suficiente” para escrever Entreatos ou foi necessário voltar a essa parte da Bíblia para compor sua obra? Como se deu esse processo?

 MCC: Eu escrevi meus relatos com o livros dos Atos sempre à minha frente, mas não só. Li outros livros de história bíblica e cultural, além, é claro, de misturar várias narrativas numa só. Por exemplo, meu Dionísio Areopagita é uma mistura do relato bíblico com os textos de e sobre o Pseudo-Dionísio Areopagita, um místico do século V ou VI. Historicamente, não podem ser a mesma pessoa, mas literariamente é um recurso interessante misturar essas histórias.

Marcelo Castel Cid

No Prólogo, você escreve: “Claro, seria possível contar uma ou outra história com maior liberdade, usando a narrativa bíblica apenas como ponto de partida para outras divagações (como alguns autores já fizeram – por exemplo, Danilo Kis em maravilhosa narrativa sobre Simão Mago) – mas isso levaria “a intenção do texto” ao outro extremo – divergir da fonte, o que não é, por si só, um bom empreendimento literário”. Pode, por gentileza, explicar esse trecho ao leitor?

MCC: Com isso eu quis dizer que, na maior parte, segui o arco narrativo da Bíblia. Não quis contar uma “história alternativa”, como um daqueles livros ou filmes que imaginam “o que teria acontecido se…”. Acho o texto dos Atos muito literário por si só – a conversão de Paulo, por exemplo, é tão incrível que só pode ser real, miticamente real, pelo menos, mas sabemos que também historicamente…

Sei que muitos autores poderiam escrever boas histórias imaginando Paulo desistindo de tudo ainda no caminho de Damasco, e chegando a morrer um velho judeu ortodoxo, rememorando a história de Jesus – que poderia ter acabado já nesses primeiros anos, se ele não tivesse se tornado um apóstolo da fé que antes perseguia. Enfim, eu quis escrever “entre as linhas” do texto bíblico, não contra elas, especificamente.

Quão desafiador foi o processo de composição de Entreatos?

MCC: A escrita em si foi rápida, mas cada texto apresentou uma dificuldade específica. Acho que o texto mais difícil de escrever, e com o qual eu fiquei menos satisfeito, foi o do centurião Cornélio – simplesmente porque eu não consigo entender como e por que um centurião romano arriscaria tudo para abraçar uma obscura seita judaica do primeiro século. Acho que ninguém consegue entender isso, na verdade… No entanto, sabemos que isso aconteceu, tanto que em poucas gerações o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano.

Os personagens enfocados em Entreatos não são personagens “célebres” para o grande público. Essa escolha se deu com que finalidade?

MCC: As histórias dos Atos são boas, quase todas elas. Acho que o grande público conhece as principais, as de Pedro e Paulo, por exemplo. Várias personagens aparecem em cenas muito curtas, apesar de memoráveis, que outro autor poderia desenvolver em contos ou mesmo num romance. Eu escolhi aquelas que tinham algum desenvolvimento dramático mais ou menos completo, seja no texto bíblico, seja pela tradição.  Por exemplo, isso não está dito nos Atos, mas sabemos que o procônsul Lúcio Gálio (que na Bíblia tem uma atitude de indiferença com os cristãos) era irmão do filósofo Sêneca – o que abre várias possibilidades narrativas. Teria ele inveja do irmão? Seria ele também próximo ao imperador Nero? Seria ele também meio filósofo, meio estoico, e por isso propenso ao cristianismo? Aliás, os antigos cristãos achavam que o próprio Sêneca poderia ter sido cristão, até sobrevivem algumas cartas (naturalmente apócrifas) que ele teria trocado com o apóstolo Paulo.

Conheça a obra de Marcelo Castel Cid

Fetichismos Visuais: as contradições da comunicação na metrópole contemporânea

Por: Renata de Albuquerque

Em Fetichismos Visuais– Corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional, o antropólogo italiano  Massimo Canevacci lança um olhar sobre a experiência pós-moderna da cidade polifônica e suas contradições, lançando mão de um novo conceito: o metafetichismo. A seguir, Canevacci fala sobre o livro, que acaba de ser reeditado pela Ateliê Editorial:

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

Você optou por se distanciar das definições de Marx e Freud sobre fetichismo. Como define esse novo fetichismo que investiga no livro, à luz do mundo globalizado, da sociedade da informação e dos excessos em que vivemos?

Massimo Canevacci: Marx e Freud utilizam o conceito de fetichismo da mesma maneira colonial dos primeiros portugueses, que encontraram na África rituais sagrados que não entenderam e que classificaram como animistas, bárbaros, mágicos, primitivos. Feitiço é palavra que deriva da latim, facticius; isto é fabricado, coisa material sem espiritualidade. Por isso, animismo significa uma alma menor, uma quase-alma. Infelizmente, para Marx, fetichismo é parte da alienação; e, para Freud, da perversão (só masculina). Assim, eles continuam a utilizar esta palavra no sentido colonial e discriminativo, que foi difundido pelo pesquisador francês de Brosses. No sentido comum atual, fetichismo continua a ser estigmatizado como uma aura suja que circunda uma atitude ou define um site pornô. Para mim, o fetichismo visual – e ainda mais o digital – manifestam uma ruptura em relação a este sentidos clássicos ou populares. O conceito de fetichismo esconde um enigma que eu queria tentar de desvelar e que não é possível elaborar numa maneira tradicional.  Nesse sentido “cotidiano”, o fetichismo é aplicado à moda, publicidade, cinema, videoclipes, design, arquitetura e, claramente, no youporn. Mas esta palavra tornou-se vazia, porque não consegue penetrar o enigma daquele que se continua a chamar fetiche.

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O que é o “além do metafetichismo”? Qual a metáfora possível?

MC: A minha tentativa vai na direção de liberar tendencialmente o fetichismo das incrustações coloniais e modernas que continuam a ser divulgadas na contemporaneidade. Uma tentativa de separar fetichismo da alienação   ou reificação. Observar a potencialidade  de um conceito que vai além do dualismo objeto/sujeito, além do pensamento dicotômico em geral e afirmar uma antropologia não-antropocêntrica. Neste sentido, uma coisa, um objeto, uma mercadoria  ou – na minha palavra que unifica tudo isso,  facticidade – é possível perceber um lado vivente, de entidade, que tem uma sua biografia e sempre mais também uma biologia.  O meta-fetichismo tenta explorar o além do domínio que em parte está ainda incorporado no tradicional fetiche e verificar  a potencialidade de libertação das coisas de não ser só útil. O meta-fetichismo é a metáfora do  desejo difundido da meta-morfoses: mudar identidades, prazeres, formas, “corpos”, vidas…

Como o fetichismo que você define se coloca diante da nova realidade do voyeurismo que passou a existir a partir do advento da internet (caso, por exemplo, dos reality shows, que fazem tanto sucesso)?

MC: Voyerismo e narcisismo são duas palavras-chaves que foram inventadas antes da revolução digital ou da pessoa “normal” que vira famosa – mais que no sentido de Warhol (dos quinze minutos de fama) – por um reality show. Voyerismo e narcisismo cruzam a tela do computador, skin and screen, carne e pixel, e fundamentalmente o inconsciente não é mais uma articulação  dentro o “eu”. Ele se estende fora do sujeito e vai incorporando uma dilatação onde orgânico e inorgânico se misturam sempre mais. Isto é, sujeito e objeito… ou tecno-digital e tecno-cultura. Assim fetichismo por um lado vira uma das possível perversão normalizada apresentada da comunicação atual, entre dezenas e de cenas de outras; por outro lado, para mim, vira só um slogan ou melhor um símbolo vazio sem sentido. Este voyerismo adéqua a sua potência ao nível mais “normal” (desculpe a palavra) que cruza as antigas divisões de classes e vira a potencia da banalidade que se autorrepresenta. E agora todo o  mundo se pode autorrepresentar. Esse é o desafio da política e da antropologia comunicacional.

Andy Warhol: "todos têm direito a 15 minutos de fama"

Andy Warhol: “todos têm direito a 15 minutos de fama”

Como se coloca, dentro de sua hipótese, a questão da visão psicanalítica do “constituir-se pelo olhar do outro” versus o “reificar-se no olhar do outro”? Há alguma síntese possível que possa acolher o conceito de metafetichismo?

MC:  A clássica dialógica, seja psicanalítica que antropológica ou narrativa,  sempre afirmou que o indivíduo é tal enquanto existe o olhar do outro. É o outro que constrói a minha identidade. Mas alguns autores (me refiro a Adorno) afirmam que é impossível anular cada elemento reificado; que existe uma relação complexa entre reificação e objetivação. Quero dizer que não é possível purificar cada objeto de fragmentos reificados. Para amplificar o discurso, precisamos dizer que entra em cena também a petrificação, ou seja: como o mito é ainda presente na cultura cotidiana em cada experiência metropolitana ou indígena.   A objetivação é a natureza mediada pela cultura; a petrificação é a ratio mediada pela mitologia; a reificação é o objeto mediado pela indústria. Uma síntese é impossível: a síntese e a dialética estão mortas. É possível só aceitar o desafio de sincretizar os olhares: o olhar nunca é puro ou autêntico, mas felizmente é sempre híbrido e cheio de sintomas que manifestam a impuridade reprimida pelo domínio não somente ocidental.

Como se constitui a relação entre coisa, criatura e cultura a partir do conceito de metafetichismo?

MC: Esta composição – conceito para mim determinante em direção a uma nova narrativa  antropológica – deseja misturar, cruzar e atravessar  artes, performances, contos, vídeos, “digital storytellers” onde o meta-fetichismo elabora nas pragmáticas indisciplinadas modos outros de enfrentar natureza/cultura, criatura/coisa, mito/razão. Eu acho que muitos artistas em sentidos expandidos (incluindo cientistas) ou rituais em parte consumados (carnaval ou mega-concertos) tentam elaborar  este meta-fetichismo além do colonialismo, da reificação, da perversão ou do sentido “comum”. Aqui nasce a aliança e a dança entre meta-fetichismo e meta-morfoses.