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Ecos de Eros: elos

Décio Pignatari

A erótica poesia organismo de Décio Pignatari

Frederico Barbosa | Cult | 1.2.2013

A recente morte de Décio Pignatari, aos 85 anos, faz ecoar estas palavras do poeta e crítico mexicano Octavio Paz: “Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra”. A multiplicidade da atuação de Pignatari, como criador da poesia concreta, crítico, teórico da literatura e da arte, semioticista, romancista, tradutor, dramaturgo, professor e principalmente, como provocador e polemista, ou seja, sua biografia intelectual tem sido lembrada e é incensada em necrológicos muito bem intencionados e esclarecedores do impulso criativo e da inquietação que, de fato, sempre marcaram a atuação de Pignatari. No entanto, reforçar estas características de seu comportamento intelectual pode muito bem levar a uma visão empobrecedora de sua obra, principalmente do seu legado poético.

Vamos, aqui, apenas apontar uma característica marcante da poesia de Décio Pignatari, reunida no seu “quase-testamento poético”, como grafou em dedicatória no meu exemplar de Poesia Pois É Poesia (1950-2000), a sexualidade como leitmotiv da sua obra, como questão recorrente e explícita que conduz toda obra poética de Pignatari, desde O Carrossel (1950) até os seus últimos poemas. Ou seja, ir contra a corrente e insistir que a poesia de Pignatari apresenta uma coerência interna impressionante, que sua poética é tão obsessiva quanto a de João Cabral, que ele sempre manteve o “arco teso” da poesia, para usar sua própria metáfora, cujo teor sexual é evidente. E, acima de tudo, mostrar que a poesia de Décio é erótica, nada “fria e calculista” como acusavam os inimigos dos concretistas, como o descreve Augusto de Campos no seu poema Soneterapia: “O Concretismo é frio e desumano/ dizem todos (tirando uma fatia)/ e enquanto nós entramos pelo cano/ os humanos entregam a poesia”.

No entanto, é impossível abordar a obra de Décio sem lembrar que, em 1955, em troca de cartas entre Pignatari, então na Europa, e Augusto de Campos, os jovens criam o conceito e o nome “poesia concreta”, que assim iria ser conhecido em todo o mundo. No Plano-piloto para a Poesia Concreta, Pignatari e os irmãos Campos apresentam a seguinte proposta: “poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas, dando por encerrado o ciclo histórico do verso”. Esta frase muitas vezes foi lida como intransigente e redutora, pois estariam afirmando que não se poderia mais escrever poesia em versos. Mas Pignatari, num texto anterior, já afirmara: “Finalmente, cumpre assinalar que o concretismo não pretende alijar da circulação aquelas tendências que, por sua simples existência, provam sua necessidade na dialética da formação da cultura. Ao contrário, a atitude crítica do concretismo o leva a absorver as preocupações das demais correntes artísticas, buscando superá-las pela empostação coerente, objetiva, dos problemas”.

Multiplicidade programática

A leitura atenta de Poesia Pois É Poesia (1950-2000) ressalta a “evolução crítica de formas” que leva o poeta a “absorver as preocupações” não só “das demais correntes artísticas” mas também de outras artes, meios e recursos diversos que possam contribuir para tal evolução. Em outras palavras, a multiplicidade de sua poesia já estava prevista por ele mesmo ao iniciar o seu percurso de 50 anos. Podemos mesmo considerá-la programática.

Poesia Pois É Poesia (1950-2000) se divide em três partes bem distintas. A primeira, “Poesia Pois É”, apresenta os poemas anteriores à criação da Poesia Concreta. Textos como “O Lobisomem”, “Hidrofobia em Canárias” ou “Fadas para Eni” apresentam imagens contundentes de uma sexualidade quase animal. Mas é em “O Jogral e a Prostituta Negra” que lemos os versos mais impactantes desta fase: “Onde eras a mulher deitada, depois/ dos ofícios da penumbra, agora/ És um poema: / Cansada cornucópia entre festões de/ rosas murchas / É à hora carbôni-/ ca e o sol em mormaço/ entre sonhando e insone/ A legião dos ofendidos demanda/ tuas pernas em M/ silêncios moenda do crepúsculo.”

Aqui já se apresenta, “entre sonhando e insone”, em 1950, o leitor e futuro tradutor (ou tridutor, pois se trata de inovadora tradução tríplice) do poema “A Tarde de um Fauno”, de Mallarmé, lá se revelam também as suas reflexões sobre o encerramento do “ciclo histórico do verso”, quando a palavra “carbônica” é separada em dois versos e o futuro poeta concreto visualizando as pernas da prostituta “em M”. Mas o que nos interessa aqui, é que o eu lírico transforma a mulher, e o próprio ato sexual, em poema, o que seria retomado diversas vezes em sua poesia.

Na segunda parte do livro, “Pois É Poesia”, a sexualidade terá um papel ainda mais crucial, seja nos dois primeiros “Stèle Pour Vivre”, que termina com “buce-fálica”, imagem hermafrodita que ecoa nas figuras do “Stèle Pour Vivre No. 4 –  Mallarmé Vietcong”, no poema “Zenpriapolo” e nos “Ideogramas Verbais” “homem/women”, seja no “abrir as portas/ abrir as pernas/ abrir os corpos”, seja no aspecto fálico da letra I inicial de LIFE, seja no priapismo implícito das torres no “Torre de Babel”. Mas é no magnífico “Organismo”, poema que reproduz, em zoom, a penetração sexual que Pignatari consegue o que já perseguia em “O Jogral e a Prostituta Negra”, transformar o ato sexual em poema.

A mesma tendência se percebe na terceira parte do livro, que reúne os poemas pós-concretos de Pignatari. A imagem hermafrodita ressurge em “Bibelô”, a tensão sexual paira em quase todos os poemas para explodir na suruba multilinguística que é o último poema do livro, “Mais Dentro”: “caninos de saliva / denteiam / o dentro das coxas / ego femen” .

Um dos poemas derradeiros do livro, “Ideros: Stèle Pour Vivre No. 6”, parece confirmar a hipótese que vimos seguindo. Em meio a um mar de “logos” (palavras, conceitos), flutuam blocos de montar com os termos “EROS, ECOS, EGOS, ELOS”,  recombinados em diferentes ordens. Seria eros o elo que liga todos os ecos dos eus em meio a um mar de discursividade? Ou seja, estaria o poeta deixando um recado no seu “quase-testamento” de que a sexualidade é um leitmotiv fundamental da sua obra, como afirmamos no início? Evocando Freud, ID EROS?

Estaria apenas reforçando o que explicita no belo “Valor do Poema”, em que afirma, para encerrar poema e assunto: “Valem meus poemas por haverem valido infinitas carnes ternas externas e internas das que amei amo amarei. Valem os vales”.

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