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Os Dois Lados da Escuta

Renato Tardivo

Ninfomaníaca, de Lars Von Trier

Ninfomaníaca (volumes I e II), de Lars Von Trier, é uma obra prima necessária e, ao mesmo tempo, sintomática dos dias atuais. Poucos conseguem, como ele, contar bem uma história ao cutucar com força nossas feridas, deixando estrias de sangue na pele – do corpo e da tela.

No primeiro filme, uma mulher, Joe, é encontrada na rua com sinais de espancamento por um homem mais velho, Seligman. Ele a leva para a sua casa e, mais que abrigo e calor, lhe oferece a escuta. Joe trata de reconstruir sua história, tendo Seligman (e o espectador) como testemunha.

O filme alterna o presente, em que Joe conta a história para Seligman em um dos quartos da casa dele, e o passado rememorado em flashbacks. Joe retoma a infância, a descoberta da sexualidade, as primeiras relações, a compulsão sexual na juventude, o reencontro com o primeiro homem.

O volume I termina em aberto, revelando cenas do II nos créditos. A busca incessante por prazer de Joe encontra, ao fim da primeira parte, o esgotamento. E tudo indica que a busca, no limite impossível, se voltará, no volume II, para o seu corpo e potencializará sua degradação.

O equilíbrio entre o tempo da ação e os flasbacks, no volume I, tende à perfeição. Mas, sendo um filme inacabado, há menos riscos. No entanto, as chances de a história se perder, sobretudo por uma possível banalização das cenas chocantes (como talvez tenha ocorrido em Anticristo, do mesmo diretor), não seriam pequenas no volume II.

Não é o que ocorre: a continuação é simplesmente sublime.

Aspectos que ficam em aberto na parte anterior são explorados: a relação (transferencial) entre Joe e Seligman, também ele um ser faltante, o mergulho radical de Joe nas perversões, sexuais e do capital (nesse sentido, o filme lembra O Cheiro do Ralo, produção nacional de 2005 dirigida por Heitor Dhália), sua inadequação às instituições e normas vigentes, as (outras) regras dentro das quais ela pode (incestuosamente) ser mãe.

Ninfomaníaca não é um tratado sobre perversões, nem um raio x da subjetividade de Joe. O filme, na figura da protagonista, é uma metáfora perfeita – e toda metáfora perfeita é, também, um paradoxo – das modalidades de vínculos que, mediados pelo chicote, estabelecemos na contemporaneidade: da cegueira de si e do outro, da destrutividade de todos.

Lars Von Trier, munido de sua conhecida câmera na mão, dos cortes dentro do plano, aspectos finamente trabalhados mas que conferem um caráter documental e despojado à narrativa fílmica, retoma eventos do volume I e os resolve de modo surpreendente. Mais ainda: o volume II, por projeto uma continuação, traz a temática da continuidade – e seus limites – no próprio enredo. Assim, se o filme não se perde na banalização da violência, tampouco se perde na redenção das personagens: a arma não disparar uma vez (desejo inconsciente?) não significa que ela não possa disparar depois.

De um lado da escuta – e do outro.

Leia mais textos de Renato Tardivo para o Blog da Ateliê

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

Filme de Formação

Renato Tardivo

Azul É A Cor Mais Quente (La Vie d’Adele – Chapitre 1 et 2, 2013), filme dirigido por Abdellatif Kechiche (diretor do excelente O Segredo do Grão, 2007), vem repercutindo por ter levado a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes e também o prêmio da crítica, mas também pelas cenas de sexo entre duas jovens.

Azul é a Cor Mais Quente, resenha de Renato Tardivo

A trama é baseada em uma história em quadrinhos para adultos, cujo título é justamente Le Bleu Est une Couleur Chaude, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh. Em ambos, uma jovem de 15 anos (Clémentine na HQ; Àdele, que significa “justiça”, no filme) cruza na rua com Emma, uma universitária com cabelos azuis. Àdele, dona de uma beleza enigmática, desperta a atração dos garotos, mas não se interessa por eles e delicadamente vai descobrindo o seu desejo por mulheres. A imagem de Emma entre os transeuntes e sua constante evocação por parte de Àdele (que tem um sonho erótico com a desconhecida) passa a ser emblema desse desejo.

O título original – A Vida de Àdele – é uma referência ao livro La Vie de Marianne, de Pierre de Marivaux, que Àdele lê no começo do filme. Ao longo das quase 3 horas de projeção, Àdele – dos 15 aos 20 e poucos anos – está em cena. Certamente, o período central – e decisivo – desta trajetória é o romance que vive com Emma, aquela que encontrara na rua e que, um pouco depois, reencontra em uma boate gay.

Como nos demais filmes de Abdellatif Kechiche, há aqui uma série de referências da cultura francesa e de suas ex-colônias, que conferem um caráter documental e político à ficção. Há sequências – como as de Àdele já professora de educação infantil – que lembram documentários. Mas isso não contamina a ficção, pelo contrário, reforça a tridimensionalidade das personagens e suas diferentes bagagens culturais, relações familiares, ambições etc.

É nessa medida que a câmera invade a privacidade de Àdele – em todos os âmbitos e não só, mas também, no sexual. Não há, portanto, apelação ou algo que o valha. Não se trata de um filme sobre sexo; trata-se de um filme de formação – sensível, plástico, enigmático. As quase três horas – que equivalem a alguns anos –  passadas em contato com Àdele não são suficientes para que deixemos o cinema convencidos de que a conhecemos. Desconcerto que provavelmente a própria personagem viva.

O azul, de início no cabelo de Emma, estende-se para diversos detalhes do filme – em tomadas internas e externas –, ou seja, para o mundo de Àdele. Que se deixa contaminar, corre riscos, empresta os seus próprios riscos para as telas de Emma, com quem pôde viver algo fundante que nunca tivera. A menina termina mulher. As três horas passam voando. Como a vida. A Vida de Àdele.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

“Se eu não fosse seu amigo, você me roubaria?”

Renato Tardivo

Sofia Coppola, jovem cineasta estadunidense, já se notabilizou por uma forma blasé de fazer cinema. A esse propósito, se em Um Lugar Qualquer (2010) ela exagera no estilo “nada acontece”, o significativo Encontros e Desencontros (2003) apresenta um bom contraste entre o minimalismo formal e o encontro desencontrado dos protagonistas (vividos por Bill Murray e Scarlett Johansson) em uma Tóquio repleta de luzes, anúncios, sons, imagens, línguas, pessoas.

Bling Ring

        Seu filme mais recente, The Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013), é uma ficção inspirada em fatos reais. O longa conta a história de um grupo de adolescentes de Los Angeles cujo hobby era invadir mansões de celebridades em Hollywood, revirar seus guarda-roupas e gavetas, roubar objetos de valor, dar uma volta em seus carros luxuosos.

        Antes de virar filme, as invasões provocadas pelos adolescentes foram tema de artigo na Vanity Fair, escrito por Nancy Jo Sales. Com efeito, os jovens não dominavam técnicas elaboradas de arrombamento nem eram especialistas em furar sistemas de segurança. As casas grandiosas estavam lá, praticamente abertas – uma chave debaixo do capacho, um vão não estreito o suficiente para a passagem do corpo de uma menina magra etc. Era fácil entrar.

        A proposta do filme é interessante: em um mercado cinematográfico em que esses mesmos jovens quase sempre aparecem como heróis, modelos a ser seguidos ou, no polo oposto, enquanto outsiders, atiradores suicidas e por aí vai, os jovens filmados por Sofia Coppola não são exatamente uma coisa nem outra. Rostos bonitos, bem cuidados e bem alimentados são também filhos (e frutos) de uma sociedade que promove a diversão instantânea e efêmera a todo custo.

        Para uma parte considerável da crítica, o filme perdeu a chance de explorar a fundo essa outra perspectiva da juventude: são abordados poucos aspectos de seus mundos familiares, o foco tampouco recai sobre seus dilemas existenciais etc. Ora, em se tratando de Sofia Coppola, seria mesmo muito improvável que o filme trouxesse esse tipo de densidade, mas, do meu ponto de vista, nem por isso é superficial. Ao contrário, The Bling Ring cumpre bem o projeto a que se propõe.

        Os muitos estímulos – roupas, músicas, drogas, cores, velocidade –, essa frágil efervescência de que é feita a sociedade do espetáculo é captada pela lente de Coppola sem anestésicos – aquelas sequências introspectivas tão frequentes em Encontros e Desencontros, por exemplo –, salvo exceções. As tomadas internas nos carros trepidam – há inclusive um plano-sequência interrompido por uma colisão de automóveis, como os que estamos acostumados a ver em alguns filmes latino-americanos recentes –, o garoto, escondido em seu quarto, usa sapatos de Paris Hilton e batom, atrizes famosas aparecem (fazendo o papel de si mesmas) quase como figurantes em festas badaladas… Em suma, o filme de ficção é altamente documental.

        Então, se por um lado a direção de Coppola parece mais agressiva, é porque a agressividade pertence ao mundo. E aqui tem lugar a já conhecida sutileza da cineasta, que não espetaculariza uma sociedade já tão espetacularizada. Assim, cenas reais de televisão aparecem poucas vezes, as indicações de que a história é em flashback são minimalistas e, principalmente, a realidade da profusão de imagens e informações é aquela onde o mais é menos e o caminho para se tornar celebridade é cínico: não é que apenas se roubem celebridades (pessoas), rouba-se sobretudo a celebridade (condição).

        “Se eu não fosse seu amigo, você me roubaria?”, pergunta o garoto para a líder do grupo, de algum modo já se colocando no lugar da celebridade que queriam (e iriam) se tornar. A pergunta é pertinente ao extremo e parece abarcar os elementos mais importantes da situação. Sofia Coppola deixa sutilmente o recado de que a reflexão deve partir da realidade, não do filme. E, nesse sentido, seu filme não é superficial. Superficial é este mundo. Somos nós.

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

A Caça, um filme que aproxima dois continentes

A Caça

Mari Merlim | Fotografia e Cinematografia

Com muito orgulho, tenho o prazer de anunciar um projeto novo, inédito e que vai fazer História, além de contar uma.

A Caça será o primeiro curta-metragem a respeito do Congo, dirigido por um congolês e falado no dialeto “lingala”. Não se tem registro ainda de nenhum filme falado no dialeto local do país e sob esse contexto!

O sonho da realização e a iniciativa são do nosso querido amigo Refslim Mimpiya, que chegou ao Brasil há alguns anos para fazer Cinema e agora quer compartilhar com os brasileiros um pouco mais da cultura de sua nação, e relacioná-la ao Brasil.

O enredo da história trata de uma fábula que circula no Congo, a respeito de um caçador que, sem sucesso na caça da floresta e tendo de alimentar sua família, encontra um demônio e faz um pacto com ele. O gênero do filme é uma mistura de suspense, terror e fantasia.

Para fechar com um elenco perfeitamente adequado, o diretor Refslim Mimpiya e a produtora Giulia Milori buscam em São Paulo, homens e mulheres congoleses, que falem  “lingala” com fluidez. Os castings acontecem na cidade de São Paulo mesmo.

As gravações acontecerão em agosto desse ano, em uma fazenda tradicional  da cidade de São Carlos, a Fazenda Santa Maria (conhece?),  um local histórico que dispõe de locações adequadas ao ambiente cinematográfico. Agora, nesta fase da produção, nossa equipe busca parcerias e patrocínios de diversos setores do mercado e todas as pessoas interessadas na ideia,  para fortalecermos a projeção do filme, estruturar sua realização e torná-lo um registro marcante da História. Saiba como ajudar o projeto

Assista o vídeo para entender mais sobre o projeto:

No cinema, dois papéis sob medida

O Estado de S. Paulo | 12.03.2013

“Não tem um papel pra mim?”, perguntou Gilberto Mendes, já nonagenário, num encontro com o casal Tragtenberg – Lívio, compositor, e Rita, cineasta -, quando soube que ela estava rodando o longa New Gaza. Não havia papel, mas Rita tratou de rapidamente arrumar-lhe uma ponta. Criou o papel do avô gói do personagem principal, um judeu ortodoxo falido, mas de fino faro comercial, que tira a sorte grande em pleno Bom Retiro ao abrir uma fabriqueta e contratar bolivianos clandestinos para fazer bandeiras dos EUA e exportá-las para o Oriente Médio, atendendo ao florescente mercado dos protestos árabes em que se queimam tantas bandeiras americanas.

O conto original, Processo de Paz, passa-se no Oriente Médio. Rita é que o transplantou para SP. E é de outro nonagenário ativíssimo, Jacó Guinsburg, de 92 anos, chefe da Editora Perspectiva. “Gravei duas cenas, uma aqui em casa, outra no ferryboat do Guarujá”, diz Gilberto, entusiasmado como um menino com sua estreia como ator aos 91 anos. O filme deve estrear ainda este ano na telona.

Entrementes, Gilberto já faz um “warm up” para voltar ao set de filmagem proximamente: “Serei um pianista de cabaré da área portuária de Santos. Vou tocar piano, imagine”. O longa, que inicia filmagens em 2013, tem a direção de seu filho Odorico Mendes, e é um policial. / J.M.C.

O Cotidiano São os Outros

O Som ao Redor
Renato Tardivo

O Som ao Redor (2012), estreia do pernambucano Kleber Mendonça Filho em longas-metragens, talvez já seja o filme brasileiro mais aclamado dos últimos anos, tendo recebido, entre outros, os importantes prêmios em Roterdã e Copenhague, além de ser incluído na lista dos 10 melhores filmes do ano do New York Times.

O filme aborda a banalização da violência – como fizeram outras produções brasileiras (Cidade de Deus, O Invasor, Tropa de Elite 1 e 2, entre outros) –, traz para o cerne a questão da invisibilidade social – temática trabalhada em documentários recentes e ficções documentais (Estamira, Linha de Passe e os filmes de Sergio Bianchi são alguns exemplos) – e, sobretudo, é um trabalho de linguagem cinematográfica (imagem e som) muito bem realizado. Os superlativos endereçados ao filme são merecidos.

A história se passa em uma única rua de um bairro de classe média de Recife – exceção feita a algumas cenas em Bonito (município próximo à capital pernambucana), no qual um dos personagens, Francisco (W. J. Solha em excelente performance), mantém uma propriedade rural.

Francisco, que possui muitos imóveis em Recife, onde reside, é praticamente o “dono” da rua em que se passa a trama, e é avô de personagens importantes. Seu enigmático sorriso, um rasgo no rosto, revela  um patriarca autoritário e bondoso, seguro e carente, tranquilo e tenso.

Há diversos núcleos na trama; às vezes eles se encontram, às vezes não. E, se Francisco é o “dono” da rua, no polo oposto, os personagens que se relacionam de fato com os demais são os três guardas, liderados pelo personagem de Irandhir Santos, os quais, um tanto “fora de lugar”, chegam para oferecer serviços de segurança particular aos moradores.

A câmera transita entre o interior (das residências e personagens) e o exterior. Dentro, ouve-se a imagem de fora; fora, ouve-se a imagem de dentro. O foco narrativo são os ruídos. A temática do filme, universal, é abordada pelo mergulho no particular e, nessa medida, ela se universaliza ainda mais.

O filme mostra que, no âmbito sociológico, continuamos a nos organizar sob a égide do Senhor/escravo, o que também ocorre no âmbito psicológico: a televisão do vizinho é maior, o casal perfeito é impossível, o corpo intenso só se relaciona com a máquina. E a máquina, que traz o gozo imediato, leva a vida para sempre.

Os corpos são fronteiras em que se alojam “cão de guarda”, “guarda-noturno”, “guarda-costas”. O estampido que leva o sorriso a uma família é o mesmo que traz a desgraça. Ninguém escapa. O cotidiano são os outros. Que gritam – em nós – silêncio.
Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

A Luz da Palavra

Priscila Nobre David resenha o livro de Renato Tardivo, que será lançado sábado, dia 16 de junho, na Livraria da Vila – Fradique, em São Paulo.


Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura ArcaicaEm Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, Renato Tardivo lança-se em uma viagem por duas terras, a da palavra e a da imagem, e é justamente na fronteira entre estas que a leitura desta obra torna-se imprescindível ao leitor interessado na comunicação estreita entre literatura e cinema. Falando em comunicação, escreve Tardivo nas páginas finais deste trabalho: “Passado e futuro ora se aproximam, ora se afastam, mas sempre se comunicam – naquilo que nomeamos presente. Sem embate, não há tempo, não há outro, não há nada”. Neste trecho derradeiro, Tardivo diz da temporalidade, tema primordial em Lavoura arcaica (livro e filme), assim como em seu próprio texto. Não menos importante seria notar que o trecho fala também da relação que se estabelece entre as duas linguagens analisadas no livro, a da escrita e a do cinema. Para esse percurso, o do estudo das obras, a teoria psicanalítica e a fenomenologia de Merleau-Ponty são companheiras, num delinear das travessias. São quatro as partes que compõem esse caminho: “A partir do livro”, “A descoberta do filme”, “A correspondência” e “Da linguagem aos sentidos: à linguagem”.

Em “A partir do livro” encontramos uma leitura profunda e atenta da obra de Raduan Nassar, que nos mostra o poder da palavra escrita. Ao nos levar pelos caminhos trilhados por André (protagonista do romance), Tardivo nos comunica dos pares autor/personagem, continente/conteúdo, que, nessa obra, além de atravessar o ato mesmo de escrever do artista, viabiliza a existência de seu personagem. Na descrição de André, encontramos passagens como: “Em alguns momentos, os contornos de André perdem-se concretamente nos (des)contornos do mundo” ou “continente e conteúdo se confundem” e até mesmo o termo “mistura insólita” que retornará, entre outros conteúdos, ao texto mais adiante. Ao escrever “o romance se constrói justamente entre o novo – lavoura – e o velho – arcaica: ele é o jorro que corre entre essas margens. Ao voltar os olhos para a história de sua família e (re)criá-la em um texto, André presentifica em si – e por extensão na narrativa – conflitos e forças passadas e futuras entre os restos de tempos primitivos e novas possibilidades de existência”, Tardivo inaugura a discussão que será a de maior relevância no decorrer de seu trabalho: a questão do tempo. E como esta, através de ferramentas como a escrita e o olhar da câmera, firma-se como criatura e criador, apresentando-se como presente, espaço que funde passado e futuro, sujeitos sempre articulados. Habitando a última parte do capítulo inicial, os dizeres “neste caso, é a própria palavra do pai que está contida no olhar de André” nos colocam em contato (pela primeira vez?) com a relação entre escrita e cinema que será cuidadosamente discutida no terceiro capítulo, assim como uma anunciação, como que oferecendo já na abertura uma parcela do fim.

Ao ler “A descoberta do filme”, deparamos com um passeio delicado pelas peculiaridades do olhar (cinematográfico) lançado à obra (literária). Através da análise de vários fragmentos de entrevistas com o diretor Luiz Fernando Carvalho, assim como com os demais componentes da equipe, entre eles o responsável pela fotografia do filme, Walter Carvalho, Tardivo recupera e destaca mais uma vez a temporalidade que pauta o encontro entre os dois campos, as duas criações artísticas. Ao discorrer a esse respeito – “na obra de Luiz Fernando Carvalho, o compromisso é com o texto de Raduan Nassar: é ao romance que o filme se endereça. O olhar do cineasta, que parte da palavra, procura – antes de tudo e a todo momento – retornar a ela” -, o autor atenta para os limites entre os dois terrenos, e através de contribuições psicanalíticas, como a retomada do termo après-coup, posiciona a imagem como anterior à palavra, o que confirma a ideia de um porvir (preciso título do livro), no sentido em que foi necessário ao diretor encontrar-se com a obra escrita (ou até, segundo o mesmo, encontrar-se na obra, novamente o porvir…), para nascer o filme, este que já estava vivo: “eu tinha visto um filme, não tinha lido um livro”. Há uma recuperação do tempo através da escrita e do olhar, tanto de André, como dos autores (escritor e cineasta) que não passa despercebida no texto de Tardivo, mas ao contrário, apresenta-se em seu texto como alicerce, que sustenta as frutíferas percepções apresentadas. Na história de André e sua família, há a partida e há o retorno, e entre eles um tempo que fica suspenso, petrificado. Não parece haver separação entre esses dois destinos, um remete ao outro – a presença constante do avanço e da transgressão. O fragmento do futuro já se encontra instalado no passado.

É com a procura que a obra de Tardivo se preocupa em especial. Em “A correspondência”, o trânsito entre as linguagens é discutido em suas minúcias. Escreve o autor a respeito da experiência do cineasta: “Ele se reconhece no texto. Adentra-o por entre as frestas das palavras”. Há nas palavras de Lavoura Arcaica algo de luminoso, que nos convida o olhar, e foi para a construção desse olhar, que a equipe de produção do filme se preparou, até realizar uma “escrita de luz na tela”. Foi ao avistar na escrita de Nassar aquilo que se escondia por entre as palavras, o que elas guardavam, que a escolha da fotografia do filme se deu, trabalhando com a transição entre luz e sombra, acompanhando a história reconstruída por André. Podemos dizer que foi no percurso entre literatura e cinema que se revelou a “luz da palavra”. A esse respeito, Tardivo escreve: “Assim, quando se trata de trabalhar a imagem do cinema a partir de Lavoura Arcaica, cujo cenário envolve concomitantemente tradição e transgressão, a atmosfera construída no filme deve propiciar a proliferação dos mistérios, do invisível”.

É interessante notar também nesse capítulo o retorno da correspondência entre Psicanálise e Fenomenologia, que acompanha o trajeto entre as duas linguagens (escrita e cinematográfica), visando traçar reflexões significativas. Remetendo ao conceito de perversão como possibilidade de interpretação do funcionamento psíquico do protagonista, Tardivo traz à discussão o movimento de circularidade encontrado no discurso e no olhar de André, mas, além disso, aborda os limites da relação entre as duas obras, num movimento que sempre envolve aproximação e distanciamento, transgressão e tradição, e que por fim, de alguma forma, sugere uma volta: na trajetória de André, a busca pela transformação só é possível através da preservação.

Ao encerrar o livro, em “Da linguagem aos sentidos: à linguagem”, Tardivo anuncia a seus leitores as reflexões desde o início já contidas em seu texto, em um movimento de contorno do passado, a fim de ressignificar a experiência, assim como fazia André. É interessante perceber contida na palavra “lavoura” a idéia de movimento, ao significar um cultivo da terra, e por sua vez no termo “arcaico”, o sentido de anterior. Também como o protagonista, Tardivo adentra os resquícios, passeia pelos detalhes, carrega os objetos antigos para a construção de um olhar. Em algum lugar ele escrevia: “O olhar é fundante da história”. Tanto na narração de André, como na análise das obras realizada neste livro, a ressignificação da história se dá através de um retorno ao futuro. É o vestígio de um retorno que possibilita o correr da travessia.

Acesse o livro na Loja Virtual

Participe do lançamento

Priscila Nobre David é formada em Psicologia pela Universidade São Marcos e em Comunicação Social – Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado.

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e é autor dos livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras).

O Artista

O Artista

Acabo de sair do cinema, onde optei – entre tantos filmes em cartaz que gostaria de ver – assistir a O Artista, com direção e roteiro de Michel Hazanavicius: um filme mudo sobre filmes mudos. A obra estreou no Brasil no último dia 10 e conta com dez indicações ao Oscar (entre elas, Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante – Bérénice Bejo) já tendo abocanhado três Globos de Ouro (Melhor Comédia/Musical, Melhor Ator – Jean Dujardin e Melhor Trilha Sonora).

Já no letreiro de entrada uma viagem no tempo começa. Com as características letrinhas tremidas e barulhinho de filme de rolo, o filme é introduzido com a mágica nostalgia dos anos 20. Ambientado nessa década, o enredo tem como principal personagem George Valentin, um célebre ator de filmes mudos da época, interpretado excepcionalmente bem por Jean Dujardin. Casado, bem-sucedido e com grande aceitação do público, George Valentin contracena com Peppy Miller – interpretada por Bérénice Bejo – em um dos pontos altos de sua carreira artística. Com direito a muita dança, música e sorrisos, os atores interpretam seus papéis no melhor estilo cinema mudo: com movimentos afetados, expressões faciais exageradas e uma alegria quase que desesperada. Ao longo dos anos, porém, o cinema mudo sofre ameaças devido ao surgimento do novo cinema; o falado. Os diretores, pensando sempre em agradar ao público, rapidamente começam a trabalhar a fim de produzir novos filmes que seriam sucessos de bilheteria, enquanto os atores se veem obrigados a adaptar-se. Entretanto, para uns é mais fácil do que para outros. Enquanto Peppy Miller está sempre em ascensão profissional, George Valentin se recusa a participar desse novo futuro: se aquele era o futuro, que os outros ficassem com ele. A partir daí a história se desenrola com vários momentos de tensão, alegria, romance e um inteligente humor.

Com brilhantes atuações – incluindo a do cachorro – o filme trata com sensibilidade de um momento histórico, de inseguranças, de atitudes e emoções humanas e possibilita reflexões a respeito de situações similares pelas quais o mundo passou, está passando e ainda passará, pelo menos enquanto houver o avanço tecnológico. Os figurinos e cenografia trabalham para uma ambientação realista, enquanto a sonoplastia e fotografia são recursos usados de forma muito inteligente de acordo com o momento do enredo.

O fato de o filme ser mudo envolve o público de uma forma diferente; em certos pontos é possível escutar com maior facilidade o choro do senhor que se sentou à sua frente, o suspiro da mulher ao seu lado, ou o seu próprio leve riso de carinho por um personagem ou cena. Isso gera uma espécie de cumplicidade entre as pessoas presentes na sala e faz com que todos percebam o tipo de experiência que o cinema pode proporcionar.

Absolutamente impecável, O Artista vale cada centavo do ingresso, cada indicação ao Oscar, cada choro e riso que provoca na plateia. É um filme realmente mágico, capaz de entrar na alma do público, consequência do visível esforço de todos os envolvidos na sua produção. Com todo mérito que lhe cabe, eu parabenizo e agradeço a execução de O Artista, pois creio que enquanto existirem no mundo manifestações artísticas desse nível ele será um bom lugar para se viver.

Cinema - Laura Ammann

A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário Andrade #Semanade22

Lição AproveitadaA partir de Amar,Verbo Intransitivo, obra-prima do Modernismo, livro mostra como Mário de Andrade “escreveu” um filme ou “viu” um livro e pode ajudar na leitura de qualquer outro filme

O livro A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade, escrito por João Manuel dos Santos Cunha e publicado pela Ateliê Editorial, foi originalmente a tese de doutoramento que o autor apresentou ao Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Esta obra apresenta uma versão reduzida do que foi a tese, embora mantenha a estrutura, as hipóteses e as conclusões relativas à pesquisa original. Este texto ainda incorpora as contribuições da Comissão Examinadora composta pelo cineasta e professor Nelson Pereira dos Santos (UNB e UFF), pelos doutores Telê Porto Ancona Lopez (USP), Marcia Hoppe Navarro (UFRGS), Robert Ponge (UFRGS), e também da orientadora Tânia Franco Carvalhal. Este livro situa Mário de Andrade na posição de “mestre” e reitera a sua contribuição para a cultura brasileira, destacando mais essa sua vertente: possibilitar a leitura da relação entre literatura e cinema no âmbito do Modernismo brasileiro. João Manuel dos Santos Cunha, como professor e crítico de cinema, sempre defendeu essa análise, de que é possível associar a paixão pelo cinema e a formação literária.

“No vasto campo dos estudos de literatura comparada, o professor João Manuel dos Santos Cunha escolheu como tema o encontro de Mário de Andrade com o cinema. O autor seduz, ‘andradinamente’, com todas as informações hoje disponíveis sobre as relações do cinema com a literatura, o que faz deste livro leitura obrigatória tanto nos cursos de letras como nos cursos de cinema. Para os que fazem cinema, na teoria e na prática, ou para aqueles que apenas veem filmes, este livro nos desvenda prazerosamente a mágica inventora de uma obra-prima do Modernismo brasileiro, Amar, Verbo Intransitivo. De como Mário de Andrade ‘escreveu’ um filme, ou ‘viu’ um romance.” (Nelson Pereira dos Santos em 13.03.1999 – participou da Comissão Examinadora da tese de doutoramento do autor)

João Manuel dos Santos Cunha é professor na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura Comparada (UFRGS), mestre em Literatura Brasileira (UFRGS), com pós-doutorado em Literatura e Cinema (Sorbonne-Nouvelle, Paris III). É também autor dos livros Mito e Cinema (EDUFPel) e A Tradução Criativa – A Hora da Estrela: Do Livro ao Filme (Mundial; EDUFPel), além de diversos artigos e ensaios publicados em revistas acadêmicas no Brasil e no exterior.

A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade

Fonte: ICnews | Isabel Furini

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Lição Aproveitada - Modernismo e Cinema em Mário de AndradeQuem gosta de cinema não só de assistir a filmes, mas de entender o fascínio que ele exerce sobre algumas cabeças brilhantes, como no caso de Mário de Andrade, vai deleitar-se com a leitura de A Lição Aproveitada, (Ateliê, 352 p., 2011), especialmente estudantes e profissionais das áreas de Letras, Cinema e Artes em geral, que desejem entender o início do cinema no Brasil e a influência que exerceu sobre a literatura. João Manuel dos Santos Cunha, professor na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura Comparada (UFRGS), pós-doutorado em Literatura e Cinema (Sorbonne-Nouvelle, Paris III), realizou uma longa pesquisa que revela o impacto que a narratologia cinematográfica exerceu sobre Mario de Andrade e seus contemporâneos. Mário de Andrade escreveu na revista Klaxon (N. 1, p. 2, maio de 1922): “A cinematografia é a criação artística mais representativa de nossa época. É preciso observar-lhe a lição.”

João Manuel dos Santos Cunha fez uma densa pesquisa e conseguiu organizá-la de maneira que a linguagem e a didática ficaram muito claras e agradáveis para o leitor. Ele segue os passos de Mário de Andrade e mostra também o caminho do cinema desde o seu início. É interessante conhecer a visão que Mário de Andrade foi desenvolvendo numa época em que o cinema era só visual, sem som e arte muda.

No começo dos anos trinta, iniciou-se o cinema falado. A genialidade de Mário de Andrade permitiu-lhe ver a potencialidade da voz narrativa cinematográfica, considerou-a “arte infante”, pois ele entendeu que essa arte se desenvolveria com o tempo.

Em 1915, O Nascimento de uma Nação, (The Birth of a Nation, Griffith, USA, 1915), coloca em cena um personagem que se converteria em símbolo do cinema. Esse personagem é Carlitos, de Charles Chaplin. Esse personagem foi considerado peça chave para a cinematografia avançar como arte narrativa.

Após o impacto da Semana da Arte de 1922, é lançada a revista Klaxon, para refletir sobre arte. Andrade tinha a capacidade de refletir sobre as manifestações culturais de sua época. Entre os modernistas, ele se destaca na produção de crítica cinematográfica, numa época em que essa crítica estava nascendo.

“Como intelectual lúcido que busca refletir sobre as manifestações da cultura de seu tempo, Mário vai abordar o cinema como crítico, a partir de sua experiência como espectador constante nas salas de cinema e como teórico da arte moderna, utilizando o cinema como um referencial, ‘a criação mais representativa’ de sua época.”

O professor João Manuel dos Santos Cunha afirma que aprender uma lição não é repeti-la, mas recriá-la. Carlitos foi um mestre do cinema, e aqueles que o admiravam, como Mário de Andrade, entenderam e recriaram a visão narratologica desse personagem. Mário não era favorável à copia, aos artifícios, mas procurava a vida, o ser do personagem. Para ele, romance e cinema tinham suas próprias vozes.

O autor revela-nos um Mário de Andrade muito humano, um homem com visão de futuro, que entendeu a capacidade do cinema de contar histórias. E esse é também o objetivo do romance, contar uma história, mas romance e cinema têm linguagens, técnicas e meios diferentes.

Mario de Andrade argumentou contra o fato de forçar a “intenção da modernidade em detrimento da observação da realidade”. E a literatura, o cinema, a pintura e a escultura exigem observação do mundo, pois falam da realidade humana.

O livro A Lição Aproveitada leva-nos pelo mundo da literatura e do cinema e ajuda-nos a conhecer melhor a visão de Mário de Andrade. Vale a pena conferir.