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Livre Captura

Renato Tardivo

Ilustração do livro "Perseu, Medusa & Camille Claudel"

Vida Trágica e Intensa

A vida trágica e intensa de Camille Claudel (1864-1943), as esculturas que deixou (e as que destruiu), os  “valores” que enfrentou, o relacionamento amoroso com Rodin, também escultor, são facetas que fazem da artista um nome cultuado, admirado, respeitado. Não por acaso, não são raros os registros sobre sua vida e sua obra.

Em 1988, Bruno Nuyteen levou às telas o filme Camille Claudel, no qual retrata os conflitos da escultora francesa com a família, a passagem de aprendiz à amante de Rodin, a relação intensa com o irmão, Paul Claudel, e os delírios paranoides que disparam seu confinamento em um manicômio, onde permaneceria até sua morte, aos 79 anos, cerca de 30 anos depois.

Recentemente outro cineasta, Bruno Dumont, dirigiu Camille Claudel 1915, cuja estreia no Brasil está prevista para agosto, com Julliete Binoche no papel de Camille, filme que retrata os anos de internação da escultura – e, nessa medida, é uma espécie de continuação do filme de 1988, que termina quando a escultora é internada.

 

 

Perseu, Medusa & Camille Claudel – Sobre a Experiência de Captura Estética

 

Capturas

O ensaio Perseu, Medusa & Camille Claudel – sobre a experiência de captura estética, da psicanalista e artista plástica Ada Morgenstern, apresentado inicialmente como dissertação de mestrado em Psicologia Social à Universidade de São Paulo, é um estudo de fôlego acerca da captura que se instalou entre Ada e a escultura Perseu e Medusa, de Claudel, quando aquela deparou com esta, em exposição na Pinacoteca SP, em 1997: “captura que a escultura Perseu e Medusa de Camille Claudel produziu em mim e na qual me vejo mergulhada, intrigada, fascinada, numa busca incessante de sentidos. Busco sentidos que possam operar não tanto para me libertar dessa captura, mas, quem sabe, para me manter dentro dela, dentro e fora ao mesmo tempo. Uma livre captura”.

Conquanto a autora seja psicanalista – e a psicanálise, com efeito, compareça como um dos (não o único) referenciais teóricos do ensaio –, que não se espere um exercício de psicanálise aplicada às artes, como tantos trabalhos que se debruçam sobre essa problemática. Isto é, a autora definitivamente não parte de conceitos da psicanálise para explicar ou decifrar a inquietante escultura, como tampouco parte da vida da autora a fim de buscar chaves interpretativas para a obra.

Em outra direção, conforme se explicita no prefácio esclarecedor de João A. Frayze-Pereira, que orientou a dissertação de mestrado de Morgenstern, trata-se de um exercício de psicanálise implicada. No esteio de Paul Ricoeur e de Frayze-Pereira, Morgenstern adota o ensaio de Freud sobre o Moisés de Michelangelo como paradigmático da psicanálise implicada, uma vez que, diferentemente do que faz no também célebre trabalho sobre Leonardo da Vinci, Freud, no artigo sobre o Moisés, “utiliza o trabalho psicanalítico como um olhar crítico e racionalista frente à fascinação exercida pela obra de arte”.

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Implicações: o espaço do entre

Assim, recorrendo a filósofos e estetas como Merleau-Ponty, Pareyson, Gombrich; a psicanalistas implicados à arte – além de Frayze-Pereira, entre os autores contemporâneos destacam-se Renato Mezan, André Green e, sobretudo, Noemi Moritz Kon, que também assina o belo texto da orelha do livro –; a historiadores, como o helenista Jean-Pierre Vernant, entre muitos outros autores, Ada Morgenstern compartilha generosamente com o leitor, implicada do início ao fim, as marcas que o seu encontro com a escultura de Camille Claudel provocou – e ainda provoca.

Há, evidentemente, questões sobre a vida de Camille, mas, honrando Merleau-Ponty, o foco da captura vivenciada por Ada reside no encontro estabelecido entre ela e a obra, nos “interperfis”, para usar terminologia da autora, espaço invisível e que, justamente por isso, potencializou a construção de uma trama tanto intelectual quanto sensível.

De acordo com Merleau-Ponty, no ensaio “A Dúvida de Cézanne”, de que Ada tão bem se vale, não é a vida do artista que explica sua obra, mas é a obra que pode iluminar a vida. O espectador – crítico de arte, psicanalista, esteta, filósofo – que mergulhar nesse desafio terá, inevitavelmente, de lidar com seus próprios fantasmas, já que, dessa perspectiva, ler a obra implica acessá-la em si mesmo. E existe caminho mais frutífero para dar continuidade a uma obra? Não tenho dúvidas de que a leitura do ensaio de Ada Morgenstern responderá – e com muitos elementos novos – essa pergunta retórica.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).