Tag Archive for arquitetura

Nossos tesouros barrocos

Livro de renomado arquiteto faz viagem pelo patrimônio do barroco do Brasil do período colonial, incluindo as riquezas da cidade de Goiás, Pirenópolis, Pilar de Goiás e Jaraguá

Rogério Borges | O Popular | 20.02.2013

Esplendor do Barroco Luso-brasileiroJanelas feitas com malacacheta, um tipo de mineral transparente que substitui, com eficiência, os vidros. Adornos de madeira ricamente esculpidos que embelezam e dão uma marca muito particular a portais, altares, oratórios, móveis. Casas e edifícios feitos de taipa e adobe que resistem ao tempo e testemunham a história. O livro O Esplendor do Barroco Luso-Brasileiro, lançado recentemente pelo arquiteto e professor da USP Benedito Lima de Toledo, é uma viagem por soluções e características de um período em que a riqueza do ouro levou influências europeias na arte e na arquitetura para o interior mais profundo do Brasil.

As jazidas de Minas Gerais e Goiás, descobertas e exploradas pelos bandeirantes paulistas, fundaram povoamentos, núcleos urbanos que, na atualidade, transformaram-se em sítios e monumentos de inestimável valor.

A obra fala de joias da arquitetura e da arte colonial e barroca do País, como Ouro Preto e suas suntuosas igrejas, o legado de Aleijadinho, as construções de Olinda, o rococó mineiro, a contribuição das ordens religiosas, como os beneditinos e os franciscanos, os tesouros artísticos de Salvador e os diálogos com Portugal. Entre os locais abordados pelo trabalho, há um capítulo que disserta sobre a arquitetura e a arte da mineração em Goiás, com destaque par a as igrejas e os casarios da cidade de Goiás, Pilar de Goiás, Pirenópolis e Jaraguá.

Em entrevista ao POPUL AR, o autor do livro exalta o patrimônio goiano que ficou daquela época, sobretudo os templos da antiga Vila Boa e o arraial preservado que existe nos prédios antigos de Pilar. Para Benedito Lima, as cidades goianas têm um tesouro antropológico único em sua arquitetura que merece atenção.

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro

“PILAR DE GOIÁS É UM FATO DE PRIMEIRA IMPORTÂNCIA”

Em seu mais recente livro, o senhor aborda algumas cidades e construções do barroco, incluindo localidades goianas. De onde vem esse interesse pelo barroco, qual é o legado por ele deixado na época das bandeiras, do ciclo do ouro?

O barroco, em Portugal, foi um movimento de muito relevo e vieram para o Brasil naquela época profissionais de muita qualidade. O barroco tornou-se quase uma arte nacional, uma expressão do Brasil que surgiu no pós-Renascimento. Ele teve grande aceitação porque é uma arte emotiva, que tem grande poder de comunicação. Esses locais de Goiás, que têm uma paisagem belíssima, não podem ficar de fora. Minas Gerais também teve um surto muito importante do barroco e essa comunidade luso-brasileira produziu com muita força, muita vivacidade, uma arte de expressão muito emocional. Portugal era pequeno em extensão territorial, mas tinha um grande império colonial. Afluíram, então, para Portugal, influências do mundo inteiro. Eles passaram essas influências, principalmente para sua principal colônia, o Brasil.

O que há em Minas, Goiás é a expressão desse elemento que Portugal atingiu naquele momento.

Nas descrições que o senhor faz de cidades com construções do barroco em Goiás, há o uso recorrente do adjetivo “singelo”. O patrimônio barroco de Minas Gerais, por exemplo, é mais complexo. Quais são as explicações para essa diferença?

Em Minas Gerais, o descobrimento de ouro levou muita gente de São Paulo e de todo o mundo colonial para a região. Acontece que a arquitetura paulista, de todas, era a mais despojada, com suas casas de pilão. Nós tínhamos cidades inteiras em São Paulo feitas de casas de pilão. Um viajante chegou a dizer que várias cidades paulistas eram feitas de barro. Nós temos aqui o Museu de Arte Sacra que é um remanescente dessa realidade. Essa austeridade, São Paulo levou para outras regiões. Acontece que na região de Ouro Preto, antiga Vila Rica, veio gente diretamente de Portugal a começar pelo pai de Aleijadinho. Essa concentração de riqueza em Minas fez com que houvesse a riqueza correspondente no barroco local.

O senhor chama a atenção para o que encontrou em Pilar de Goiás. O senhor escreve em seu livro que a cidade histórica goiana é um “arraial preservado” em pleno século 21. Qual é a importância de termos um sítio conservado neste nível?

Do ponto de vista antropológico, Pilar de Goiás é um fato de primeira importância. Assim como uma área envoltória aqui em São Paulo, com uma capela muito singela, que é a de São Miguel Paulista, de 1622, esse aldeamento tem, do ponto de vista antropológico, um valor insubstituível. Foi a forma com que a urbanização começou a se desenvolver. Pelos jesuítas, que eram muito metódicos, como nós sabemos, e também por outras ordens religiosas, como os franciscanos, por exemplo. Isso tem, portanto, uma importância muito grande.

O senhor se surpreendeu com o que encontrou aqui em Goiás em suas pesquisas?

Nós tivemos alunos de Goiás aqui na Faculdade de Arquitetura da USP e eles sempre trouxeram dados novos, surpreendentes. Eu viajei aí para Goiás e gosto muito. Independente disso, os alunos que viajam para Goiás sempre trazem informações novas. E é isso o que a gente deseja. Aliás, em todos esses conventos de cidades antigas, há arquivos e esses arquivos contêm informações preciosas sobre os artistas daquela época. Hoje o artista é muito badalado, sai nas colunas de jornais. Na época colonial, não. Nós sabemos de muitos artistas apenas pelos registros das irmandades. Goiás fica devendo essa pesquisa em todos os acervos dessas irmandades.

E essas informações são recuperáveis?

Ah, sim. O acervo é composto, geralmente, por atas que as irmandades são obrigadas a fazer, contratos que firmam com os artistas e que têm de justificar perante os irmãos. Tudo fica lá registrado, às vezes de forma muito singela, mas o nome está lá. E quando se recupera o nome de um desses artistas, isso é para a arquitetura uma festa.

O nível de conservação das construções coloniais que o senhor encontrou aqui em Goiás deixou-o satisfeito ou preocupado?

Na verdade, nós temos um problema nacional. O patrimônio histórico não é prioridade de muitos governos. A conscientização da população é fundamental. A luta é da cultura brasileira, de todos nós. Nunca o pessoal entende que dá prestígio conservar um monumento. Geralmente, e aqui em São Paulo acontece muito, é mais importante fazer um viaduto, um túnel em sua gestão do que preservar o patrimônio. O viaduto dá espaço e o político gosta disso.

Nessa pesquisa pelas cidades coloniais brasileiras, o senhor também estudou o urbanismo desses centros. Há lições ou exemplos que podemos tirar desses núcleos que serviriam para as cidades atuais?

A primeira característica, importantíssima, é a afeição que a população tem pelas cidades. Quando os edifícios de referência — geralmente os das irmandades, da Câmara e Cadeia – ganham a afeição da população, isso é mais importante do que qualquer valor outro. Porque é a própria cultura da população. Isso, em Goiás, eu senti em diversos lugares. Neles, a população gosta desse patrimônio e temos que fazer uma frente única para fazer com que os governos entendam esses anseios do povo.

Perfil

Benedito Lima de Toledo é um dos nomes de maior prestígio da arquitetura brasileira. Livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, sempre ampliou sua área de atuação para a arte e o patrimônio histórico em produções acadêmcias. Autor de 12 livros – em vários deles recupera histórias que pareciam perdidas, sobretudo de recantos menos conhecidos de São Paulo –, Benedito é membro da Academia Paulista de Letras e já ganhou a medalha Rodrigo de Melo Franco de Andrade, nas comemorações dos 50 anos do Iphan, e o Prêmio Vaz de Caminha, do governo de Portugal.

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Barrocos

Imagem do livro "Esplendor do Barroco"

Imagem do livro "Esplendor do Barroco"

Benedito Lima de Toledo mostra como a escola nascida na Europa foi aprimorada no Brasil

José Maria Mayrink | O Estado de S. Paulo | 17.2.2013

A história, costumes e arte se mesclam, se completam e se explicam nas páginas de Esplendor do Barroco Luso-brasileiro, de Benedito Lima de Toledo, professor titular de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo. Ao longo dos últimos 50 anos esse paulistano do bairro da Liberdade fez com dedicação e gosto, no Brasil e em Portugal, estudos e pesquisas de campo para transmitir aos alunos as lições que agora enriquecem este livro em texto, fotos e desenhos.

São informações e observações do próprio autor e de outros profissionais por ele citados, sobre a evolução do Barroco no litoral e no interior brasileiros, onde arquitetos, pedreiros e engenheiros militares construíram igrejas, conventos, chafarizes e fortalezas hoje presentes na paisagem de cidades como Belém, São Luís, Recife, Salvador, Rio, São Paulo, Ouro Preto, Congonhas e mais umas dezenas de localidades de Minas. Essa riqueza se estende a colégios e missões do Rio Grande do Sul, ao casario de antigas aldeias de Goiás e às fortificações de beira-mar, como a dos Reis Magos, em Natal (RN).

O Barroco nasceu com o Maneirismo, no fim do Renascimento, cresceu na França e se espalhou por outros países da Europa, com destaque para Portugal, de onde missionários e colonizadores o trouxeram para o Brasil. Aqui, a nova escola ganhou autonomia, com vida própria e mais beleza, nas mãos de artistas como Francisco Antônio Lisboa, o Aleijadinho, e outros mestres do Ofício nas cidades históricas de Minas. O traçado e as construções das cidades de Portugal, quase sempre encarapitadas em morros e interligadas por estradas precárias, reproduziram-se nas metrópoles e nos arraiais da Colônia. Ilustrações de Coimbra e Lisboa ao lado de Salvador, na Bahia do século 19, comprovam a semelhança.

Imitação? Para Benedito Toledo, os portugueses aprimoraram o Barroco no Brasil, sobretudo em Minas, onde a riqueza do ouro permitiu enriquecer altares nas igrejas e embelezar obras civis. A nacionalização de um estilo cada vez mais aprimorado levou ao Rococó, nas décadas seguintes, chegando até o século 19. Para o professor da FAU, o Rococó não é sinônimo de decadência, como às vezes se pinta, mas evolução notável no estilo importado de Portugal. Arquitetos, desenhistas e pedreiros portugueses souberam aproveitar recursos brasileiros para dar originalidade a seu trabalho. Frutas regionais e figuras locais, como índios e escravos, ornamentam chafarizes e altares.

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro, de Benedito Lima de ToledoA contribuição das ordens religiosas para o Barroco ocupa três dos 17 capítulos do Esplendor do Barroco Luso-brasileiro. O autor, que nessas páginas se projeta como historiador, exalta o trabalho dos padres jesuítas com seus conventos, colégios e aldeias. Inspiradas na planta da igreja de Gesú, em Roma, suas construções se enquadram no Maneirismo. “Suas igrejas se identificam logo pela regularidade formal, sem a expansão do Barroco”, observa Benedito Toledo em entrevista ao Estado. Os construtores jesuítas eram disciplinados, inventivos e multiprofissionais.

Seus conventos e colégios tinham a configuração de aldeias com preocupação didática de garantir espaço para danças e teatro em terreiros ou pátios. Os irmãos jesuítas (não sacerdotes) levantavam paredes de igrejas, mas também construíam barcos e até navios de grande porte para navegar rios e oceano.

O livro ressalta, entre as obras dos jesuítas, a capela de São Miguel Paulista, na capital, a Aldeia de Carapicuíba e templos de outras cidades da região. A arte colonial paulista é pobre e despojada, em comparação com o esplendor das igrejas de Minas, mas algumas preciosidades merecem atenção. Um exemplo se encontra na capela de São Miguel Paulista, de 1622. “Notável é a banca de comunhão com seus balaústres de jacarandá torneado, tendo ao meio montantes que lembram os mainéis dos retábulos”, observa o autor, acrescentando a informação de que “junto às paredes de cada lado aparecem duas graciosas figuras femininas arrematando a peça. ”Na avaliação do arquiteto e urbanista Lúcio Costa, citado pelo professor da FAU, essa banca de comunhão é “das mais antigas e autênticas expressões conhecidas da arte brasileira”.

O barroco dos frades franciscanos tem bons exemplos em São Paulo – o Mosteiro da Luz, construído por Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, e o conjunto do Largo de São Francisco, com igreja paroquial, convento e igreja da Ordem Terceira. Outras construções dos frades se destacam no Rio, Salvador e João Pessoa e outras cidades do Nordeste. Os monges beneditinos sobressaem com seus mosteiros do Rio, Salvador e Olinda. O Barroco de todas essas construções caracteriza não apenas os imóveis, mas se identifica ainda nas peças de celebração litúrgica e nas pinturas.

A azulejaria também é marca do Barroco nas igrejas, palácios e casarões do Brasil Colonial. Presente nas construções do litoral, o azulejo não chegou, no entanto, a Minas, por causa da dificuldade de transporte. A carga que vinha da Europa em navios teria de ser levada para o interior no lombo de burros. Os construtores mineiros recorreram então à madeira, imitando o desenho dos azulejos, para cobrir paredes de casas e templos.

Acesse o livro na Loja Virtual da Ateliê

Restaurar monumentos?

Restauração

por Isabel Furini | ICNews

Os antigos romanos já falavam da necessidade de preservar a história, pois ela educa e ajuda a entender o presente. Uma maneira de preservar a história de uma cidade é cuidar dos monumentos e dos prédios antigos. Nessa tarefa são chamados engenheiros, arquitetos, historiadores e restauradores, pois exige uma equipe multidisciplinar competente para não prejudicar aquilo que se deseja preservar.

Em 2008, quem passava pelo Paço da Liberdade, em Curitiba, observava as obras de restauração. No mesmo ano, a Praça Tiradentes foi reformada para valorizar os calçamentos de cunho arqueológico, datados da metade do século XIX, dando visibilidade aos achados. Tanto o Paço da Liberdade quanto o antigo calçamento da Tiradentes fazem parte da história da capital do Paraná.

Alguns livros nos ajudam a entender melhor os conceitos e os trabalhos de preservação. Como se iniciou o interesse pela preservação de monumentos históricos? Que conceitos moviam esses estudiosos que defendiam e defendem a proteção da arquitetura das cidades? Para entender um pouco mais do assunto, vamos falar de dois livros.

Leia o artigo completo com as resenhas de Catecismo da Preservação de Monumentos (Max Dvorák) e Preservação do Patrimônio Arquitetônico da Industrialização (Beatriz Mugayar Kühl).

"Não é preciso derrubar árvore", diz arquiteto Carlos Motta

(Matéria de MARIO CESAR CARVALHO – Ilustrada)

Marcelo Justo/Folhapress

Em 2001, o designer e arquiteto Carlos Motta recebeu um fax da Ikea, no qual a rede de móveis que tem lojas de Pequim a Nova York o consultava sobre a possibilidade de fornecer 1 milhão de cadeiras e 500 mil mesas.

Ele nem titubeou diante do negócio milionário: “Não dá para atender. Como dar garantia para o resto da vida para uma quantidade dessas?”.

A exposição que Motta, 58, abre amanhã no Museu da Casa Brasileira, onde também lança um livro, radicaliza mais o processo: todos os móveis são de madeira reciclada, ou “madeira de redescobrimento”, como prefere.

A ideia de dar garantia aos móveis e de reaproveitar tábuas que já foram ponte ou assoalho fazem parte de um mesmo conceito: o de que a madeira é material nobre, que não pode ser descartado.

“Não precisamos derrubar árvore nenhuma para criar móveis. Está tudo aí”, disse.

Motta é um dos principais designers do país. Tem móveis em lugares tão díspares quanto a Pinacoteca do Estado e a basílica de Aparecida.

“Na minha lista pessoal, ele está sempre nos primeiros lugares”, diz Sergio Rodrigues, 82, espécie de patrono do mobiliário brasileiro.

Irritação

Os móveis de madeira velha têm propósito ecológico e estético. O primeiro é óbvio. Ao segundo, acrescenta responsabilidade social. “Pessoas que trabalham nesses móveis têm de ganhar bem”.

O viés estético é um pouco mais complexo. Motta diz que sempre teve grande irritação com o mobiliário feito com madeira reciclada, consagrado em São Paulo pelos “móveis velhos” do Embu.

“Sempre me entristeceu como a madeira velha é usada no interior. É tudo baseado no colonial brasileiro, mas quem copia, copia mal.”

Motta parte de outra escola, a de Sergio Rodrigues e de Zanini Caldas (1919-2001).

Os móveis de madeira velha buscam a essência das coisas, diz ele: “Mexo menos na matéria-prima. Interessa-me muito o simples, o básico, o óbvio. Se sente frio, pegue um casaco. Tá cansado? Toma uma cadeira”.

O resultado dessa simplificação lembra a arquitetura brutalista de Paulo Mendes da Rocha, de quem ele foi estagiário, mas tem um quê oriental, segundo Motta. Muitos dos objetos lembram as linhas de um ideograma.

A curadora de design Adélia Borges diz que o uso de madeira velha põe em xeque a defesa dos materiais sintéticos em voga na Europa.

“Esse trabalho mostra que é bobagem esse discurso de que a madeira tem de ser abandonada. Há usos ecologicamente corretos dela.”

Para azar dos brasileiros, a nova linha de móveis caiu no gosto de europeus e americanos. Há um mês, Motta expôs em Paris e vendeu um cabideiro feito à mão por R$ 57,7 mil. Num leilão da Phillips de Pury, o lance mínimo de uma cadeira era de R$ 27,7 mil.

Um contraponto aos preços estratosféricos será mostrado na exposição. É uma cadeira feita para as Havaianas. Deve custar de R$ 600 a R$ 700, segundo o designer.

CARLOS MOTTA – MÓVEIS DE MADEIRA REUTILIZADA
Quando: de amanhã a 4/7, de ter. a dom., das 10h às 18h
Onde: Museu da Casa Brasileira, av. Brig. Faria Lima, 2.705, tel. 0/ xx/11/3032-3727
Quanto: R$ 2 e R$ 4; dom., grátis