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A Caça, um filme que aproxima dois continentes

A Caça

Mari Merlim | Fotografia e Cinematografia

Com muito orgulho, tenho o prazer de anunciar um projeto novo, inédito e que vai fazer História, além de contar uma.

A Caça será o primeiro curta-metragem a respeito do Congo, dirigido por um congolês e falado no dialeto “lingala”. Não se tem registro ainda de nenhum filme falado no dialeto local do país e sob esse contexto!

O sonho da realização e a iniciativa são do nosso querido amigo Refslim Mimpiya, que chegou ao Brasil há alguns anos para fazer Cinema e agora quer compartilhar com os brasileiros um pouco mais da cultura de sua nação, e relacioná-la ao Brasil.

O enredo da história trata de uma fábula que circula no Congo, a respeito de um caçador que, sem sucesso na caça da floresta e tendo de alimentar sua família, encontra um demônio e faz um pacto com ele. O gênero do filme é uma mistura de suspense, terror e fantasia.

Para fechar com um elenco perfeitamente adequado, o diretor Refslim Mimpiya e a produtora Giulia Milori buscam em São Paulo, homens e mulheres congoleses, que falem  “lingala” com fluidez. Os castings acontecem na cidade de São Paulo mesmo.

As gravações acontecerão em agosto desse ano, em uma fazenda tradicional  da cidade de São Carlos, a Fazenda Santa Maria (conhece?),  um local histórico que dispõe de locações adequadas ao ambiente cinematográfico. Agora, nesta fase da produção, nossa equipe busca parcerias e patrocínios de diversos setores do mercado e todas as pessoas interessadas na ideia,  para fortalecermos a projeção do filme, estruturar sua realização e torná-lo um registro marcante da História. Saiba como ajudar o projeto

Assista o vídeo para entender mais sobre o projeto:

Vergonha da Condição Humana

A Caça

Renato Tardivo

Há mais de um século, Sigmund Freud, fundador da psicanálise, propôs a existência da sexualidade infantil. Como era de se esperar, houve muita resistência a essas ideias – e, ainda hoje, há muita discordância. O célebre trabalho de Freud em que elas aparecem são os “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade Infantil”, publicado em sua primeira versão em 1905.

Há mais de meio século, psicanalistas da primeira geração de pós-freudianos, talvez Melanie Klein mais notadamente, aprofundaram o conceito de pulsão de morte, inaugurado por Freud, ao afirmarem a presença de sentimentos como o ódio desde a mais tenra infância. O clássico Inveja e Gratidão, no qual Klein propõe que bebês vivenciam o ódio e a inveja, foi publicado em 1946. Polêmicas à parte, a assunção de que crianças podem ser más foi reconhecida pela humanidade ainda mais tardiamente e, ao que tudo indica, tem encontrado forte resistência até hoje.

Essas questões são o mote do perturbador A Caça, mais recente filme do dinarmaquês Thomas Vinterberg; cineasta pertencente ao movimento Dogma 95, do qual também faz parte Lars von Trier, diretor dos clássicos Dançando no Escuro e Dogville. Vinterberg consagrou-se em 1998 ao dirigir um dos filmes mais importantes do cinema contemporâneo: Festa de Família.

Em A Caça, que rendeu o prêmio de melhor ator na última edição do Festival de Cannes para Mads Mikkelsen, uma mentira propagada por uma menina, acusando um professor de creche (melhor amigo do pai dela) de abuso sexual, atinge proporções bárbaras.

O enredo de A Caça dialoga com outros filmes do movimento Dogma: a maldade extrema pautada pela injustiça (Dançando no Escuro), o caráter excludente de grupos (Dogville), a complexidade dos vínculos familiares (Festa de Família e Melancolia). Mas, nesse filme de Vinterberg, há a inclusão de um novo elemento: a infância.

A Caça não é um filme sobre sexualidade ou abuso sexual; é de agressividade que se trata. As dificuldades que a humanidade encontra para se abrir ao diferente e as tendências agressivas para manutenção da (suposta) ordem, isto é, a falta de compaixão pelo outro complexifica-se aqui ao se expor que nem as crianças estão imunes a tais feridas. Mas o filme não culpabiliza a infância. Em vez disso, A Caça é um tapa na cara de uma coletividade que, ao não elaborar questões primitivas, permanece infantilizada – e deixa esse legado para as gerações mais novas.

A questão no Brasil, vale dizer, é atualíssima, em tempos de debate sobre a pertinência da redução da maioridade penal. Adultos infantilizados resolverão o problema culpabilizando as crianças? No filme A Caça, desfeitos os mal-entendidos, a suposta reconciliação entre o professor e aqueles que o retaliaram é apenas mais uma forma de expressão da hipocrisia sobre a qual se pauta a sociedade. Nesse caso, não poderíamos pensar como uma saída analogamente hipócrita a caça a menores infratores? Seja como for, o filme de Vinterberg é uma daquelas (necessárias) obras que envergonham o espectador de sua condição humana.