Irradiações da Literatura Grega na cultura ocidental

Por: Renata de Albuquerque

Dizer que a Grécia é o berço da cultura ocidental é quase um clichê. Mas, você já parou para pensar de que maneira os clássicos gregos ecoam até os nossos dias? O professor, escritor e tradutor Donaldo Schüler não apenas pensou, como estudou a fundo e compartilha esse conhecimento com os leitores no livro Literatura Grega: Irradiações. Ele é Doutor em Letras e Livre-Docente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde foi professor de língua e literatura gregas. A seguir, ele fala sobre seu mais novo livro ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro?

Donaldo Schüler: A ideia vem de longe. Interessa-me a Literatura Comparada, a relação do que se escreve hoje com o que escreviam os gregos. A comparação revela continuidades, interrupções, diferenças. A literatura é construída por nossos interesses. Se lemos Homero, ele entra na esfera das nossas preocupações. Homero é autor vivo. Os leitores lhe dão vida.

O que levou em conta para escolher os autores gregos citados no livro?

DS: A seleção dos autores antigos já foi feita há muitos séculos. Noventa por cento do que os gregos escreveram está perdido. Estamos diante de ruínas. Cada geração constrói a sua própria Grécia. Enquanto refazemos a Grécia com o que resta, nós nos construímos a nós mesmos. A ênfase é dada por nossas preferências. Como estamos ligados à época em que escrevemos, o momento participa de nossas escolhas, nem sempre podemos dar conta da seleção  que fazemos. Dos autores mais recentes, figuram aqueles que entram no horizonte  dos nossos interesses.

Donaldo Schüler

Como foi feito o trabalho de realizar uma “ponte” entre os autores gregos e os autores mais “recentes”, como Machado de Assis, Borges, Guimarães Rosa e Shakespeare?

DS: Os autores que você cita são leitores de textos antigos. Quando Shakespeare põe em cena personagens de outros tempos, ele discute questões do seu tempo. Quem encena Shakespeare hoje está atento ao que acontece agora. O palco é um lugar de muitas ressonâncias. Os heróis buscados no sertão brasileiro preservam traços dos heróis de outros tempos. Mesmo a leitura de autores atuais nos leva às origens. Os textos de Machado de Assis conectam o Brasil com o mundo.

Sob que aspecto é possível dizer que a herança grega é ressignificada por autores mais atuais?

DS: Os gregos estão presentes mesmo quando  nossa atenção não está voltada a eles. Quando pensamos, afirmamos ou negamos o que eles pensaram. Eles são nossos interlocutores. Assim os preservamos vivos. O mundo se amplia quando ultrapassamos o que nos cerca. Nunca somos herdeiros passivos. O que não conquistamos não nos pertence.

Há algo na literatura grega que ainda persiste intocado? Ou: existem “irradiações” sem outras intervenções externas, que mantenham os conceitos inalterados desde a Grécia Antiga?

DS: O tempo modifica tudo.  O que experimentamos acontece pela primeira vez. Aquilo que não tocamos nos escapa.  Vivemos dias acelerados. Muitas são as vozes que advertem o excesso de informações. Se não decidimos parar para pensar, para meditar, para escrever, as informações  nos dilaceram. Paramos para viver.

Em sua opinião, qual a “irradiação” mais interessante enfocada pelo livro e por quê?

DS: O que escrevemos se divide no interesse dos leitores, a irradiação acontece assim. O leitor é ativo. O leitor desmonta e remonta o que lê. O leitor participa da invenção. Significativo é o texto que leva a inventar. O texto provoca, o interesse é a participação do leitor.

 

Conheça mais sobre a obra de Donaldo Schüler

Cinematografia: a poesia da narrativa em movimento

Por: Renata de Albuquerque

Cinematografia é a técnica de projetar imagens estáticas  e sequenciais em uma tela, com velocidade suficiente para dar movimento a elas. As imagens presentes nos 90 poemas de Paulo Lopes Lourenço reunidos em Cinematografia criam narrativas a partir desse conceito. Ilustrado por Fernando Lemos, este é o primeiro livro de poemas de Lopes Lourenço lançado no Brasil. Os textos aqui reunidos foram quase todos escritos durante a estada do autor no país – ele foi Cônsul Geral de Portugal em São Paulo entre 2012 e 2018. A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê:

 

Que autores o influenciam como poeta?

Paulo Lopes Lourenço: Há muito ecletismo nas minhas referências, tanto nas literárias quanto nas plásticas ou visuais, que de resto são até mais marcantes do que as influências sobre os processos de escrita. A tradição poética portuguesa não me passou ao lado, claro, mas seria impossível ignorar anos e anos de paixão pelos clássicos russos ou pela literatura contista americana, ou até mesmo a “escrita automática”. E embora eu escreva de facto poesia, o que escrevo parece radicar mais nas artes visuais, em especial na fotografia e no cinema. Nesse sentido, tanto me sinto impelido a partir de uma peça do Brancusi, quanto por um romance do Scott Fitzgerald, um quadro do Hopper ou por uma canção indy bem escrita. O teatro e o cinema foram uma presença constante enquanto crescia.

 

O que este livro tem de diferente de seus livros anteriores?

PLL: O período que o livro cobre é biográfica e literariamente de transição. Nele se procurou uma certa condição de apaziguamento interior, um armistício íntimo entre o que procuro na escrita – uma liberdade mais irrestrita, a generosa transigência plástica das palavras, a sua possível transmutação estética – com um desejo de honestidade verbal. Nesse sentido, este é um livro mais sereno, mais convalescido, mas também menos inocente, sempre se auto-testando.

 

Por que a escolha do título Cinematografia?

PLL: Este livro poderia ter-se chamado Crónicas dos Primeiros Dias Velhos, expressão que aliás dá nome a um dos poemas da coletânea agora lançada. Cinematografia, porém, tem a vantagem de oferecer uma senha de acesso mais clara sobre o que proponho ao leitor e de algum modo me reconciliar com a ideia que sempre cultivei sobre o processo da escrita: uma fórmula, simultaneamente mais rica e mais limitada, de fazer cinema. Estes poemas poderiam ser fotogramas, fabricados visuais ou instalações. E embora contenham, também, uma experiência narrativa precisa e oculta, eles são a minha coleção particular e pessoal de curtas metragens.

 

Como foi feita a seleção dos poemas que fazem parte deste volume? Eles foram escritos especialmente ou selecionados dentro de universo mais amplo?

PLL: Estes poemas foram escritos nos últimos 7 a 8 anos, formando dois corpos distintos, onde coexistem temas diversos, mas no essencial unidos por uma certa procura de coerência: um mais antigo (e mais curto) e outro mais recente (e mais amplo). Ao longo dos últimos dois ou três anos, começou a surgir a ideia de os publicar como uma peça única que pudesse juntar dois períodos distintos de escrita e, ao fazê-lo, desvendar uma espécie de rito de passagem, de caminho interior consumado, mais reconciliado consigo próprio e, talvez por isso, um pouco mais irônico. Essa transição é, acredito, muito clara para quem lê o livro em sequência.

 

Este é seu primeiro livro publicado no Brasil, escrito durante o período em que morou em São Paulo e lançado no momento em que se despede de sua função como cônsul no país. De que maneira isto afeta a poesia deste livro, os personagens que fazem parte dele, os temas que de ele trata?

PLL: É inegável que muitos dos textos foram escritos nestes últimos 6 anos e que a minha estada aqui os marcou. Não é aliás por acaso que dedico o livro também a São Paulo, a que retribuo de modo muito sincero pelos anos gratos que aqui vivi. E sendo embora verdade que esta cidade tem uma densidade e um lastro próprios que fazem dela intensamente cinematográfica, seria exagerado porém dizer que ela afetou a razão de ser do livro. Ele teria acontecido provavelmente sem São Paulo, embora não lhe pudesse ser indiferente. Longe disso.

Ilustração de Fernando Lemos

A paisagem urbana de São Paulo é parte do cenário de Cinematografia? Como a cidade está presente no livro?

PLL: Há apenas um curto poema alusivo no livro que procura sintetizar o magnetismo da cidade a partir de um olhar conciso e despojado, mas quanto mais falamos sobre S.Paulo, mais corremos o risco de não lhe fazer justiça. Sempre me fascinei pela beleza anônima que se revela inesperadamente numa grande urbe. De uma forma ou de outra, porém, interessa-me mais o ponto de vista do que aquilo que se vê. Interessa-me mais a frase do que o sujeito.

 

No prefácio do livro, Manuel da Costa Pinto escreve: “Paisagens, ruas, casas, interiores, móveis e utensílios imantados de lembranças são, mais do que “correlato objetivo” (o procedimento fundamental da poesia moderna identificado por Eliot), coordenadas espaciais: como no cinema – entendido aqui como arte de esculpir o tempo –, colocam os seres em situação, transformando-os porém em aparição destinada a logo desaparecer, a irmanar-se às coisas”. Como o senhor idealizou esculpir essas imagens de maneira a colocá-las em movimento, criando essa cinematografia?

PLL: Foi de fato como Manuel Costa Pinto que me dei conta pela primeira vez dessa tentação cenográfica, como se de alguma forma eu convocasse figurantes com um determinado propósito cênico, para compor um quadro, uma paisagem ou uma cena, mas que não vingam além do desejo descritivo ou onírico que os anima. De certa forma, embora se tratem de poemas totalmente narrativos (há sempre uma história, um olhar, um pensamento, uma alusão ou até mesmo um axioma ensaiado por detrás de cada um dos textos), a sua natureza é a de uma abstração plástica. Nesse sentido, uma personagem tem a mesma importância que um substantivo ou uma imagem. Por trás de cada composição fotográfica ou de cada encenação, uma narrativa alusiva, um conto em miniatura ou até um esboço de novela – mas o que eu quero provavelmente compartilhar mesmo é a anti-história que se esconde por detrás dessa aparente – e ainda assim convicta – narrativa. É a contra-narrativa que eu busco. É o adjetivo que eu quero contar. Como no cinema, o que me interessa mais é o plano e o movimento da câmera.

Lista de livros para Fuvest 2019

Divulgado o Manual do Candidato para a Fuvest 2019 (clique aqui para baixar o PDF), hora de começar a ler ou reler as obras literárias obrigatórias.

Houve mudança em relação à lista de livros do vestibular passado, com a retirada da obra A Cidade e as Serras e a inclusão da obra A Relíquia, ambas do mesmo autor Eça de Queirós.

Essas alterações já estavam previstas desde 2016, quando o Conselho de Graduação da USP aprovou a lista de obras de leitura obrigatória para os vestibulares FUVEST 2017, 2018 e 2019.

Confira a relação completa das obras literárias de leitura obrigatória para o FUVEST 2019:

Nome do livro

Autor

Iracema

José de Alencar

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis

A Relíquia

Eça de Queirós

O Cortiço

Aluísio Azevedo

Vidas Secas

Graciliano Ramos

Minha Vida de Menina

Helena Morley

Claro Enigma

Carlos Drummond de Andrade

Sagarana

João Guimarães Rosa

Mayombe

Pepetela

As inscrições serão abertas no próximo dia 13, a partir das 12h e serão encerradas no dia 14 de setembro, também às 12h. As inscrições devem ser feitas no site da Fuvest.

A taxa de inscrição custará R$ 170 (mesmo valor do ano passado) e deverá ser paga por boleto bancário em bancos ou pela internet, até o dia 18 de setembro.

A primeira fase do vestibular ocorrerá no dia 25 de novembro e a segunda fase será nos dias 6 e 7 de janeiro de 2019.

Mais Informações, no site da Fuvest.
Confira o Pacote Livros para Fuvest da Ateliê Editorial.
Este pacote reúne livros da Coleção Clássicos Ateliê que cairão nos próximos vestibulares da Fuvest, com um desconto especial.

“Cenas em Jogo” conecta literatura, psicanálise e cinema

Por: Renata de Albuquerque

“Cenas em Jogo” é o título do livro que traz ao público o resultado do Doutorado do psicanalista, escritor e professor Renato Tardivo. No estudo, ele retoma a intersecção entre psicanálise, cinema e literatura, abordando diversos títulos, como Abril Despedaçado, O Cheiro do Ralo e Linha de Passe. Todas as obras analisadas por Tardivo são brasileiras e carregam consigo uma afinidade temática: “liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção, entre outras”. A seguir, o autor fala sobre o lançamento ao Blog da Ateliê:

O livro é resultado da sua tese de Doutorado. Que adaptações foram feitas ao texto original para transformá-lo em livro?

Renato Tardivo: Muito poucas. Desde a minha dissertação de mestrado, também publicada em livro pela Ateliê, percebi que desenvolvia uma escrita ensaística que, conquanto procurasse certo rigor acadêmico, tinha por objetivo principal ser acessível e comunicar-se com o leitor. Nesse sentido, a forma das análises está em íntima conexão com seu conteúdo, uma vez que, mais importante do que defender uma tese junto a este ou àquele grupo, procuro sempre uma forma autoral de expressão e, portanto, de abertura ao diálogo. De forma resumida, é a esta perspectiva que, ao fim do livro, dou o nome de “poético-crítica”.

O título do livro “Cenas em Jogo” remete ao “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho, que também faz parte do livro. De que maneira a problematização da ficção se coloca em “Cenas em Jogo”? Por que essa referência à obra de Coutinho e qual o impacto dela na sua obra?

RT: O capítulo em que me debruço sobre o filme “Jogo de Cena” é, do meu ponto de vista, um dos mais importantes do trabalho, uma espécie de clímax, porque, nele, discuto os temas principais da pesquisa e é a partir dele que o trabalho caminha para um desfecho. É nesta seção do livro, por exemplo, que destaco uma espécie de colapso provocado pela profusão de imagens, informações, discursos, isto é, certa banalização entre a realidade e o artifício. Como resistência a essa conjuntura, talvez a principal mensagem de “Jogo de Cena” seja convocar o espectador a viver o sobressalto inerente à ambiguidade entre ficção e realidade, o que não significa tomar puramente uma pela outra, mas impactar e ser impactado de modo a ampliar as experiências acerca de si e do outro. Dessa perspectiva, ficção e realidade se alimentam reciprocamente e contribuem para construções mais autênticas.

Como se deu a escolha dos títulos que seriam enfocados em sua tese? O que você levou em consideração para eleger cada um?

Renato Tardivo

RT: A escolha não foi imediata. Ao começar o doutorado, tinha consciência de que queria terminá-lo refletindo minha própria tomada de contato com obras literárias e cinematográficas, na interface da arte com a psicanálise. Mas não tinha clareza de como atingir esse objetivo. Foi então que percebi que se tratava de uma pesquisa de processo e que deveria retomar obras com as quais havia entrado em contato nos últimos anos, seja em sala de aula, em debates ou palestras. Por isso, também, retomar o trabalho anterior com o romance Lavoura Arcaica e o filme homônimo, que é o ponto de partida desse processo. Quando defini o corpus, notei que havia uma coerência temática entre as obras, embora diversas à aparência: liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção. Daí encontrei um campo fértil para refletir em que medida as leituras acrescentavam sentidos às obras e, reversivelmente, em que medida as obras acrescentavam sentidos à leitura, isto é, em que medida a tomada de contato com as obras pôde construir e fundamentar uma perspectiva de leitura.

Estudos que envolvam a intersecção dos campos da literatura, psicanálise e cinema não são exatamente uma novidade. Por outro lado, esta parece ser uma fonte inesgotável de pesquisa.  De que forma sua obra contribui para esse cenário?

RT: De fato, não são poucos os trabalhos que articulam os campos da literatura, do cinema e da psicanálise. No entanto, grande parte deles parece se apropriar das obras de arte a fim de validar conceitos da psicanálise, fazendo das obras mero receptáculo de teoria psicanalítica, sem contribuições à arte e à própria psicanálise. Em outra direção, encampando a perspectiva da psicanálise implicada, a partir do campo delineado por João A. Frayze-Pereira, orientador da minha pesquisa, procurei me aproximar das obras assumindo o potencial criativo e inventivo da psicanálise e, assim, buscando ampliar as possibilidades de sentido às obras e às leituras que se voltam a elas. Há, nessa medida, certa autonomia entre os ensaios.

Em sua opinião, qual foi o “achado”, a constatação, a “descoberta” mais interessante desse estudo?   

RT: Operar no plano da estética em diálogo com a psicanálise me permitiu desenvolver, no último capítulo do livro, aspectos caros à relação autor-leitor-obra, como “entre o vivido e o imaginado”, “realidade, ideologia, ficção” e minha proposta de “perspectiva poético-crítica”. Mas, sobretudo, mais do que chegar a um “achado”, espero que o trabalho tenha funcionado, parafraseando o esteta Luigi Pareyson, como “um fazer que, enquanto faz, inventa o modo de fazer”.

Conheça a obra de Renato Tardivo

“Konstantinos Kaváfis – 60 poemas” ganha nova edição

A literatura grega não é feita apenas de textos do período clássico da Idade Antiga. Autores mais recentes também reservam ao leitor experiências literárias impactantes, como é o caso de Konstantinos Kaváfis (1863 – 1933), considerado um dos mais importantes escritores cuja produção foi elaborada em grego moderno. Autor de mais de 150 poemas, teve sua obra reunida apenas postumamente.

 “Konstantinos Kaváfis – 60 poemas”, tem seleção e notas de Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores da cultura helênica no Brasil. Na obra, o leitor tem a oportunidade de entrar em contato com um universo esteticamente rico e provocador. A seguir, Trajano Vieira fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

Que alterações foram feitas em relação à primeira edição?

Trajano Vieira: A segunda edição mantém exatamente os princípios que nortearam a primeira: tentar apresentar ao leitor, através da linguagem poética, algo da expressividade estética de um autor extraordinário.

Como se deu o processo de tradução dos poemas para esta antologia, à época da primeira edição? Houve ajustes para esta segunda edição?

TV: O processo de tradução foi uma decorrência do processo de leitura dos poemas do autor. Aqueles textos que me tocavam mais, eu os tentava traduzir. Preservei as traduções que, pelo menos para o meu gosto, atingiram alguma qualidade estética. As demais, deletei. De um modo geral, costumo trabalhar assim: só consigo traduzir obras que, no processo de leitura, me motivam a vertê-las. Isso não é garantia de sucesso, apenas um princípio de trabalho.

 

No prefácio do livro, o senhor fala da poesia fantasmagórica e do exotismo dos personagens de Kaváfis. Poderia, por gentileza, falar um pouco sobre isso para os leitores que não conhecem esse autor?

TV: Trata-se da atmosfera que prevalece nos poemas de Kaváfis. Seus personagens são avessos ao banal e previsível. Normalmente suas atitudes sugerem naturezas excêntricas. Parecem viver num universo deslocado, em que não é mais possível realizar suas fantasias. Daí o tema da morte ser tão recorrente em sua produção. Quase nada do tempo histórico vale a pena ser vivido. O imaginário refinado se expande e domina as ações dos personagens. Um dos parâmetros fortes dessa experiência é o ideal clássico, o tom contemplativo avesso ao utilitarismo e à redundância cotidiana.

 

Konstantinos Kaváfis

O senhor destaca ainda a dimensão estética da linguagem de Kaváfis. O que se pode dizer a respeito disso?

TV: Destacam-se, em sua linguagem, o coloquialismo e o distanciamento da elocução, num padrão verbal de elevadíssimo domínio formal, fazendo às vezes pensar em T. S. Eliot. A erudição do autor se evidencia em seu conhecimento profundo da tradição greco-latina. Muito do desespero que se depreende de situações que ele representa se deve à constatação de que certo gosto literário se perdeu irremediavelmente na modernidade. Registre-se, entretanto, que sua poesia é tributária, por outro lado, de um forte traço da produção moderna: a ironia.

 

Como se dá a inserção de elementos teatrais na poesia do autor grego?

TV: Normalmente, através da configuração de um personagem exótico, que parece histórico, mas não é. Esse personagem desenvolve comportamento incomum diante de uma situação. Tal aspecto que denominaríamos ficcional prende a atenção do leitor, surpreendido com a imprevisibilidade da ação. A beleza é um parâmetro central para esse tipo de personagem, não só a beleza de certa forma física, mas a que se busca num determinado estado de espírito, impossível de perdurar ou até mesmo de se provar. Algumas vezes, fica no ar a sugestão de que nada vale a pena, porque até o êxtase mais intenso não passa de uma quimera na temporalidade transitória.

 

Existe um elemento de coloquialismo na poesia de Kaváfis que permitiria fazer uma aproximação deste poeta com a poesia de Drummond. O senhor pode falar brevemente a respeito, por favor?

TV: Haroldo de Campos, em sua tradução notável do poema mais famoso de Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, introduz, num certo momento, uma expressão de um poema de Drummond, correlata ao do poeta neogrego. A aproximação seria possível justamente por causa da confluência de ironia e registro coloquial, presente nos dois autores. Certa visão sobre a trágica experiência humana, um reflexo da percepção da brevidade da vida, é outro aspecto que poderia aproximar os dois autores. Contudo, as figuras emblemáticas da poesia de Kaváfis nada têm a ver com as representações de Drummond. A luxúria que retoma certa visão do classicismo tardio é algo que afasta o primeiro escritor do segundo. A melancolia diante da vulgaridade dos fatos cotidianos leva Kaváfis a outra direção, em que os personagens se arriscam e se excedem em sua incontida sensualidade. Esse tipo de risco é menos presente em Drummond, que se retrai muitas vezes diante da potencialidade do desastre.

 

O senhor considera que há um elemento de ironia na poesia de Kaváfis? Como ela se coloca na obra?

TV: A ironia está presente sobretudo no comportamento de personagens que cultivam a hiperestesia, diante da qual os fenômenos cristalizados pelo senso comum num certo contexto não têm nenhuma importância. É da ausência de ilusão sobre a positividade dos fatos históricos que nasce a ironia extremamente sutil com que o autor constrói a experiência incomum. Registre-se, contudo, que sua linguagem é bastante precisa. Ela não padece de indefinições redundantes, nem de evasões de transes surrealistas.

 

Conheça a obra de Trajano Vieira

 

“Moleque de fábrica”: memória de um trabalhador

Por Carina Pedro *

O livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social” do sociólogo e professor José de Souza Martins é um mergulho profundo nas memórias do autor, da sua infância à maturidade, das difíceis relações familiares e profissionais estabelecidas entre o campo e a cidade, que ajudaram a formar o homem adulto e acadêmico, crítico de sua própria trajetória. São memórias com as quais muitos brasileiros vão se identificar, seja pela imigração de seus antepassados, pela infância no interior e na cidade (uma das do ABC paulista), em meados dos anos cinquenta, quando ser operário de fábrica era o destino certo da maioria dos trabalhadores. A obra é composta por catorze capítulos, um prólogo e uma conclusão, que nos fazem refletir sobre o Brasil de José e de outros tantos brasileiros.

No primeiro capítulo “Estranho Regresso”, Martins narra sua viagem a Portugal nos anos 70 e a descoberta da história de origem de seu pai, nascido em Santiago de Figueiró. Em pouco tempo, informações surpreendentes sobre sua família paterna foram reveladas, em especial, sobre sua avó Maria de Souza Martins, a Mãe Maria, e o contexto de nascimento de seu filho, Alberto, pai de Martins. Um dos indícios de que algo tinha sido omitido é o fato de Alberto ter herdado apenas o nome de sua mãe. No segundo capítulo “Encontro na Estação Victoria” podemos conhecer mais sobre a família materna do autor, que emigrou da Espanha duas vezes, a primeira para Argentina e a segunda e definitiva para o Brasil, onde após trabalharem nos cafezais, construíram sua própria casa de pau a pique no bairro caipira do Arriá em Pinhalzinho (SP). Entre as memórias compartilhadas, Martins nos revela como foi a morte de seu avô materno e de uma de suas tias, ainda pequena, tragédia que repercutiu na personalidade de sua mãe até os últimos dias.

No capítulo três, “Iniciação ao medo”, o autor nos conta sobre o início da sua vida escolar em um externato católico, com regras rígidas de comportamento, após a morte precoce do pai e a necessidade de sua mãe trabalhar. Outra mudança significativa na vida de Martins e seu irmão foi o segundo casamento de sua mãe, que os levou a morar na área rural, em um pequeno lote de terra em Guaianazes. No capítulo quatro, “A arca encantada”, temos um interessante relato de um evento ocorrido nessa passagem do autor pela roça: a busca de um baú cheio de moedas de ouro enterrado por um antigo senhor de escravos. No capítulo “A cachorra Lembrança”, a partir das dificuldades vivenciadas por Martins e sua família em Guaianazes, o autor faz uma profunda reflexão sobre as principais oposições entre a cultura caipira e a cultura urbana.

O autor com a mãe e o irmão, em 1948, em Guaianazes

O capítulo “Moleques de rua” traz algumas questões sobre a sociabilidade infantil no subúrbio operário. Como exemplo, brinquedo e brincadeira eram coisas diferentes para eles, sendo que o brinquedo só fazia sentido se resultasse em uma atividade coletiva na rua, considerada um território livre para brincar com bola de borracha, papagaio, peão, etc. No capítulo “A margem”, o sociólogo traz à tona a cultura da sova ou a violência doméstica praticada contra os imaturos, atitude que interpreta como uma transferência injusta para os filhos das adversidades da vida operária. Tal prática ocasionou a separação definitiva de sua mãe e seu padrasto. O capítulo “Cada dia do nosso pão” aborda uma nova fase da sua vida familiar e profissional, quando ainda adolescente consegue um emprego na Cerâmica São Caetano.

“Vida intransitiva” traz uma reflexão sobre os conflitos culturais vivenciados pelos imigrantes. O autor discute os dois casamentos de sua mãe, o primeiro com seu pai português, que representou a vitória da cultura europeia e a negação do mundo caipira, e o segundo com seu padrasto, que configurou um retorno sem sucesso para o meio rural. No capítulo dez, “A pulga e a fé”, Martins relata suas experiências nas religiões católica e protestante, sendo esta última considerada pelo autor uma importante influência no seu autodidatismo. Na sequência, em “Os mistérios da fábrica”, o leitor encontrará uma análise detalhada de quem fez parte do sistema fabril. Cumprindo seus deveres de trabalhador na Cerâmica São Caetano, Martins presenciou fatos inusitados, como o suposto aparecimento de um demônio para uma das operárias. Acontecimento que mais tarde virou objeto de estudo do sociólogo.

No capítulo doze “Na última manhã de Getúlio” é abordada a reação à morte de Getúlio Vargas, cuja trajetória cruza com a do fundador da Cerâmica São Caetano, o engenheiro Roberto Simonsen, pioneiro na adoção de direitos sociais e fundador da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Em “A greve” colocam-se outras questões relacionadas ao trabalho na fábrica, como a invisibilidade dos trabalhadores e sua alienação. Há, inclusive, uma crítica aos sindicatos da época, que não prestavam atenção nas crianças e adolescentes. Como ressalta Martins, o trabalho e sua disciplina eram vistos como algo benéfico pelos pais operários. O capítulo catorze, “A saída do labirinto”, é um relato sobre a chegada do autor à vida adulta, a saída da fábrica e o início no curso de Formação de Professores Primários do Instituto de Educação Dr. Américo Brasiliense, de onde saiu formado para ingressar no curso de Ciências Sociais da USP.

Escrever sua própria biografia, baseada nas memórias de um homem comum, que vivenciou a pobreza e as dificuldades que dela derivam, possibilitou ao sociólogo José de Souza Martins compartilhar uma história real, repleta de incertezas e angústias que lhe são próprias, assim como as alternativas encontradas para superar as inúmeras adversidades. Na conclusão do seu livro, após tantas lembranças significativas e comoventes, o autor insiste na necessidade de voltarmos a atenção para o operário de carne e osso, aquele que vai até a fábrica porque precisa e que nela entra como objeto e não como sujeito, com ele foi um dia. Além da consciência da exploração, esse trabalhador precisa se libertar de seu passado e encontrar caminhos para promover as mudanças. Um deles seria o encontro com a grande cultura, aquela que emancipa e provoca superações.

*Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Conheça o livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social”