Coleção Clássicos Comentados Ateliê

A Coleção Clássicos Comentados Ateliê é uma das mais importantes coleções da editora. Iniciada em 2005, com a Balada do Velho Marinheiro, de Samuel Taylor Coleridge, o objetivo da coleção é trazer ao público obras fundamentais da literatura universal, ricamente comentadas com notas de rodapé e apresentações que ajudam o leitor do século XXI a compreender a relevância daquela leitura e seu contexto.

As traduções também são muito cuidadosas, feitas por especialistas que levam em conta todo o histórico de cada obra para  poder oferecer ao leitor brasileiro soluções de tradução literária que o instiguem. Grande parte dos livros da coleção foi publicada em coedição com a Editora Unicamp. O resultado são livros que venceram ou foram indicados aos mais importantes prêmios literários brasileiros, como é o caso do Prêmio Jabuti.

Conheça alguns títulos da Coleção Clássicos Comentados:

Geórgicas – Um poema sobre as práticas e as técnicas de agricultura. Este assunto que aparenta não despertar interesse é o pretexto que Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.) usa para tratar de temas grandiosos: a força do sentimento amoroso, as dificuldades humanas, o papel do trabalho. Para muitos, esta é a maior obra de Virgílio.

Palmeirim de InglaterraPalmeirim de Inglaterra não é apenas uma novela de cavalaria. O texto, escrito por Francisco de Moraes, faz parte de um ciclo, o que por si só explica a importância da obra. Nesta edição que a Ateliê acaba de lançar, os pesquisadores Lênia Márcia Mongelli, Raúl Cesar Gouveia Fernandes e Fernando Maués realizaram um minucioso e primoroso trabalho, transcrevendo a partir de várias fontes para poder chegar a um resultado fidedigno, que interferisse minimamente no estilo original – um dos pontos altos da obra.

A Trágica História do Doutor Fausto – Este volume reúne A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, e História do Doutor João Fausto, de 1587, de autor anônimo alemão. O primeiro texto foi traduzido por Luís Bueno e Caetano W. Galindo e o segundo por Mario Luiz Frungillo. O livro tem organização, notas e introdução de Luís Bueno e posfácio de Patrícia da Silva Cardoso.

A História das Aventuras de Joseph Andrews e seu Amigo o Senhor Abraham Adams é um livro de reconhecida importância histórica. Publicado em 1742, ele está na raiz de uma das duas grandes tendências do romance inglês no século XVIII. Acima de tudo, este é um romance envolvente e divertidíssimo, e deve proporcionar ao leitor agradáveis momentos na poltrona.

Eugênio Onêguin Vol. 1– O “romance em versos” Eugênio Onêguin é a expressão máxima do gênio de Aleksandr Púchkin (1799-1837), e representa para a literatura da Rússia o mesmo que OsLusíadas, A Divina Comédia, o Dom Quixote e as peças de Shakespeare representam respectivamente para Portugal, a Itália, a Espanha e a Inglaterra.

O que você está lendo?

Durante o isolamento social imposto pela pandemia de coronavírus, muita gente teve o privilégio de poder maratonar séries, ver filmes que estavam há muito numa lista e colocar as leituras em dia. A cultura e a arte são grandes aliados sempre, mas, no momento do distanciamento social, cultura e arte são uma janela para o mundo, uma forma de viajar e de manter a sanidade e a esperança diante de uma realidade tão dura.

Por isso, a Ateliê decidiu fortalecer ainda mais a comunidade de leitores que nos acompanha, com diversas ações nas redes sociais (a melhor forma de interação possível em tempos de isolamento). Uma dessas ações foi perguntar o que as pessoas estavam lendo no momento do isolamento.

As respostas foram muito diversas, o que mostra que as pessoas têm interesses diferentes e que essa troca de informações pode gerar curiosidade e fazer os leitores conhecerem títulos muito diferentes daqueles com que eles já estão familiarizados.

Poesia, textos acadêmicos, prosa, textos clássicos. Teve de tudo. Abaixo, compartilhamos algumas recomendações dos leitores:

Um Lance de Dados – Livro inovador que traz na poesia de Stéphane Mallarmé elementos visuais e gráficos até então quase desconhecidos para o público. Foi uma das inspirações da Poesia Concreta no Brasil.

Sonetos de Camões – Esta edição traz os poemas mais representativos do acervo camoniano, comentados por dois experientes professores de Literatura: Izeti F. Torralvo e Carlos C. Minchillo.

A Trágica História do Doutor Fausto – Reúne A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, e História do Doutor João Fausto, de 1587, de autor anônimo alemão. O primeiro texto foi traduzido por Luís Bueno e Caetano W. Galindo e o segundo por Mario Luiz Frungillo.

Passos da Semiótica Tensiva –  Luiz Tatit  apresenta conceitos estabelecidos pelo linguista Algirdas Julius Greimas, a trajetória de pesquisa de Claude Zilberberg,  e explica o que esta acrescentou àquela. A ênfase aqui é na prosódia e na tentativa de compreender como ela interfere na construção do sentido.

Coração, Cabeça e Estômago – Uma obra hilariante, fora dos padrões usuais de Camilo Castelo Branco. Por ser uma narrativa em primeira pessoa, seu ponto de vista é necessariamente parcial: o leitor acessa a uma das versões dos acontecimentos, segundo a sua ótica peculiar.

E você, o que está lendo?

Outlet Ateliê Editorial

Está no dicionário. Outlet é um centro comercial cujas mercadorias são comercializadas a preços mais baixos, em geral diretamente do produtor ao consumidor. E isso serve para roupas, equipamentos e até livros. Foi pensando neste conceito que a Ateliê criou o Outlet Ateliê.

Bastante comuns nos EUA, onde fazem até parte do roteiro turístico de cidades como Orlando, os outlets também existem no Brasil. Por aqui, marcas de roupa famosas usam suas “pontas de estoque” para atraírem um público interessado em consumir suas grifes, sem entretanto terem poder aquisitivo para isso. Nos outlets de lojas de roupa, nem toda a numeração ou cores estão disponíveis e muitas vezes há mercadorias com pequenos defeitos – e nada disso é um problema para quem consome em outlets.

Mas, o que dizer de um outlet de livros? Primeiro, é bom dizer que outlet de livros não é sebo. Os sebos, esses lugares que os leitores amam e onde acham raridades, vendem livros usados há pouco ou muito tempo. Não é incomum achar, no meio de um livro comprado num sebo, um bilhete do antigo leitor, um marcador de página gasto e ali esquecido por acaso.  

Já no outlet – especificamente no Outlet da Ateliê – entram no estoque apenas livros devolvidos. Não existem os “pequenos defeitos”: não faltam páginas nem outra característica que impeça a leitura da obra. O Outlet Ateliê se diferencia apenas porque este é um espaço onde os leitores podem encontrar livros devolvidos por outros leitores (ou outras livrarias). Por isso, correm o risco de ter pequenas manchas amarelas (por estarem guardados), marcas de manipulação ou pequenas avarias devido ao transporte. Essa é a razão pela qual muitos deles têm preços menores do que livros do catálogo normal.

Por outro lado, ele é a chance de tentar conseguir aquele livro esgotado, muito antes de encontrá-lo em um sebo, diretamente da editora, e em condições muito melhores do que se o livro fosse usado. E é justamente porque o estoque varia que vale a pena visitar essa seção do site com frequência, para saber, sempre, que novidades ela guarda para nós.

Quer conhecer? Acesse: https://www.atelie.com.br/publicacoes/categoria/outlet/

Um clássico não merece um triste fim

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Douglas Mendes Ornellas, que escreve sobre Triste Fim de Policarpo Quaresma. Agradecemos a colaboração de Douglas e esperamos que todos apreciem a leitura!

Algo que surpreende tanto pela qualidade de construção, quanto pela simplicidade e beleza não deve ser mantido como um segredo sob sete chaves, mas merece ser destacado e compartilhado. Assim como eu, acredito que muitos de vocês concordarão ainda mais quando esse “algo” se trata de um livro, certo? É exatamente esse o sentimento que tenho quando indico aos meus amigos, colegas de profissão e alunos as obras da Coleção Clássicos, da editora Ateliê Editorial.

Como um leitor assíduo, muito por conta da profissão e por formação como indivíduo, eu acho válido destacar aqui a imensa satisfação que senti ao adquirir algumas obras da coleção mencionada, dentre elas Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, Quincas Borba, de Machado de Assis, O Cortiço, de Aluísio Azevedo. No entanto, detenho-me aqui acerca do romance que atualmente estou relendo e utilizando em sala de aula: Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1881-1922).

Com sua primeira publicação em 1915, o romance deixou evidentes os motivos pelos quais faz parte (e com muito merecimento) do cânone da Literatura Brasileira. A obra, estudada como originária do período pré-modernista – um consenso entre estudiosos não como uma escola literária, mas como um momento precursor e importante que culminou no Modernismo Brasileiro – consegue se manter atual tanto no cenário de escrita literária, quanto no sociocultural.

A narrativa do grandioso Lima Barreto, ao contrário do que muitos leitores pensam quando vão “encarar” a leitura de um clássico, mostra-nos como é simples, do ponto de vista linguístico, e ao mesmo tempo complexa, ao adotar uma postura sensata e de riqueza crítica. Os contrastes, no entanto, não se limitam somente aos mencionados: as personagens são ricas, mesmo as secundárias, ao abordarem diferentes pontos de vista sobre a cidade, sobre as relações pessoais e acerca das construções sociais que ainda perduram e afetam a vida dos indivíduos fora das páginas.

Policarpo Quaresma, protagonista da obra, pode ser considerado a caricatura de um brasileiro com sentimento ufanista, grandiloquente, porém ingênuo em suas aspirações patrióticas, o que muitas vezes nos faz refletir, conforme a narrativa avança, sobre como a cegueira fanática, aquela que negligencia os problemas em nosso próprio espaço nacional, pode ser algo desolador para uma construção de mundo ideal. Além do emocional da personagem ser reafirmado em cada capítulo como cabisbaixo e introspectivo, a identidade de Quaresma também se mostra bem condensada sobre o que é o cidadão patriota: não se pode dizer que sua construção é baseada em indivíduos de uma determinada região ou que tenha características plurais, mas que, segundo o próprio narrador, “era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro”.

Será difícil leitores contemporâneos não se identificarem com as personagens do romance ou não perceberam diálogos com o contexto brasileiro atual. Personagens como Ricardo Coração dos Outros, que incorpora o indivíduo marginalizado em busca de ascensão; Ismênia, com seus conflitos intimistas e o peso que carrega de uma construção tradicionalista e patriarcal; Olga, que serve como um contraponto – de certa forma – para a personagem mencionada anteriormente; General Albernaz, como uma crítica a um modelo que está em ruínas, mas que se faz presente por meio das narrativas – bem como tantos outros – representam também muito dos que conhecemos e pertencem ao nosso cotidiano.

Por fim, é importante evidenciar como a leitura da obra torna-se prazerosa e instigante e, em certos momentos, até mesmo incômoda num sentido positivo a cada página, a cada novo avançar das situações que giram em torno do Quaresma. Certamente, muitas reflexões saltarão das páginas diretamente para o imaginário do leitor que se permite ser tocado sutilmente pelas palavras e que encontra no ato de ler uma possibilidade de se inserir em um novo mundo – um mundo que não se contenta somente com o que é dado de maneira pronta, mas com o que pode ser criado, renovado.

*Douglas Mendes Ornellas é  leitor assíduo desde jovem. “Viciei no mundo da leitura logo nos primeiros anos escolares”, diz ele, que é graduado em Letras (Português e Literaturas) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição. É professor de Linguagens no Ensino Fundamental II e em Pré-Vestibular. “Acredito em uma Educação libertadora e em democratização da Literatura.

O Avesso da Tela: corte, ponto

Renato Tardivo*

As duas operações mais básicas em um filme são a filmagem e a montagem. A primeira se refere à forma com que são feitos os registros, ou seja, à mise-en-scène – posição de câmera, efeitos de luz, interações entre os atores, cenários etc. Já a montagem diz respeito à escolha e à combinação das imagens. Dessas duas operações resulta o filme, uma narrativa que se vale de som e imagem e se constrói do encadeamento de quadros, planos e sequências. É, portanto, a sucessão de imagens, aliada ao código sonoro, que cria a nova realidade. Não se trata, contudo, de mera soma de registros. O encadeamento de imagem e som implica descontinuidade em sua percepção. Corte.         

Os 14 contos de Somente nos Cinemas, livro escrito por Jorge Ialanji Filholini, são cinematográficos por excelência. E não apenas porque tematizam o cinema em seus enredos, mas sobretudo porque se correspondem com a linguagem fílmica em sua forma. Nessa medida, as histórias tanto trazem o universo do cinema para o centro, por meio da metalinguagem e da intertextualidade, como também estabelecem diálogo com esse universo de forma indireta, sendo as narrativas resultado do imaginário e das fantasias das personagens.

Ainda, chama a atenção a recorrência de dois temas ao longo da coletânea: a ambiência ficcional – São Carlos, cidade do interior paulista – e a presença da morte. Falemos, primeiro, do último. “A morte é a vitória do tempo”, escreve o narrador-protagonista do conto “O Diário de JF”, parafraseando o crítico e teórico do cinema André Bazin (1918-1958). Mas, se as imagens pretendem imortalizar o que foi filmado, a operação, no limite, jamais se consuma. O filme sempre parte da tela preta e retorna a ela. E, durante a travessia, a morte se interpõe: nas transições, nos cortes, no que fica para trás, em tudo aquilo que o quadro não mostra.

Uma vez mais, forma e conteúdo coadunam-se. As frases do livro são curtas. Dissecam, pelo avesso, o universo retratado. Implicam descontinuidade em sua leitura. Há contos primorosos nesse sentido. “Projeto: Favela” é um deles. A narradora, responsável pela construção dos cenários, é chamada para um projeto, encabeçado por um gringo, e deve construir uma favela. “Cenários são atores sem fala”, ela escreve. O final do conto é arrebatador, ao trazer da invisibilidade personagens reais que, ao se apropriarem do cenário, inviabilizam a produção: “Uma criança me pede para ajudá-la a abrir a janela. Foi a primeira vez em que uma janela cenográfica teve uma visita do cotidiano sem roteiro e filmagem”.

“O Diário de JF” também apresenta um projeto que é abortado. Em forma de diário, o narrador-protagonista, um cinéfilo, relata o período em que realiza seu primeiro grande trabalho como assistente de produção. Metalinguagem e intertextualidade aliam-se, de modo que o conto encampa a potência do livro – o cinema na literatura; a literatura como cinema; vida que, motivada ao avesso pela morte, salta na tela: “Foi bonito. Uma pena, em meia hora vou morrer sufocado e todo vomitado ao lado dela”.

Retomando as duas operações básicas de um filme e transpondo-a para a literatura de Filholini, podemos propor que o enredo, os cenários e as personagens são trabalhados na chave da filmagem; já o encadeamento entre as frases, a combinação de elementos, a pontuação, isto é, a forma, que em última instância cria a nova realidade, é trabalhada na chave da montagem.

Nessa operação engenhosa de correspondência entre imagem e palavra, os cenários – universos forjados – são contaminados pela vida e, reversivelmente, São Carlos – cidade real – é transformada em cidade cenográfica: “Sanca é traiçoeira. Quando você está de boa, vem a cidade e na maciota te queima”. Por meio dessa ambiência, as personagens e, por extensão, o leitor têm a oportunidade de se prolongarem ao infinito, como também afirmava André Bazin a respeito da tela do cinema, na exata medida em que são visitados pela morte.

Campo e contracampo, literatura e cinema, avessos. Não é aleatório que o narrador do conto “O Eldorado” escreva: “Nunca mais sairia do Cine Joia. O avesso do cenário. O drama cinematográfico. Nenhum detalhe excluído da tela. A vida deveria morar em um filme”. Ponto. 

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Professor Colaborador do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, dos livros Cenas em Jogo – Literatura, Cinema, Psicanálise (Ateliê/Fapesp) e do volume de microcontos Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

William Morris – Sobre as Artes do Livro

Sempre que é preciso apontar um marco inicial do movimento de private press, o marco é a publicação de The Story of the Glittering Plain. De autoria de William Morris, o objetivo da obra era recuperar a beleza do livro, perdida em meio às tiragens cada vez mais apressadas e descuidadas da imprensa regular. Editado por Gustavo Piqueira, responsável pela introdução e revisão técnica, William Morris – Sobre as Artes do Livro traz à tona este tema. A seguir, Gustavo Piqueira, que com Samia Jacintho  elaborou o projeto gráfico da edição, fala sobre ela com o Blog Ateliê:

Como surgiu a ideia do projeto de editar este livro?

Gustavo Piqueira: A ideia partiu do Plinio Martins Filho, a partir de uma coletânea de textos de Morris publicada em inglês, em 1982, intitulada “The Ideal Book”. A princípio meu envolvimento no projeto seria bem menor: eu me limitaria a escrever um posfácio e executar o projeto gráfico. A coisa começou a mudar quando, ao ler o conteúdo, percebi que alguns dos textos eram conferências proferidas por Morris com o auxílio da projeção de slides (slides ausentes da versão impressa do original em inglês) e que um texto comentando imagens que o leitor não poderia ver, sobre temas tão específicos como “xilogravuras de Um no século XV”, se constituiria em algo extremamente árduo e, para boa parcela de leitores, desinteressante. Do mesmo modo, senti falta de uma profusão de imagens mostrando a produção de Morris na Kelmscott Press, dele colocando em prática aquilo que pregava. Então, por conta própria, comecei a rechear o conteúdo com um vasto aparato iconográfico que passei a pesquisar. E esse trabalho foi tão intenso que acabou me levando a mexer em todo o resto: uma considerável revisão técnica na tradução, a troca do breve posfácio por uma introdução de maior fôlego, etc. No fim, quando me dei conta, havia transformado o livro quase que totalmente.

Para quem ainda não teve contato com o livro, poderia falar brevemente sobre o que foi o “Arts and Crafts” e o que ele representou?

GP: Muito mais do que um movimento calcado em pilares estéticos, o Arts and Crafts surgiu na Inglaterra como um arcabouço de princípios ideológicos em contraposição aos efeitos colaterais da industrialização que transformava o país durante o século XIX quando, em paralelo aos propalados benefícios do progresso, a produção em massa começava a ser associada à desumanização e o produto que saía das fábricas à materialização dessa degradação em forma de feiura. Assim, bebendo num passado idealizado do folclore inglês e da Idade Média, com suas guildas e artesãos, os partidários das “Artes e Ofícios” pregavam um retorno à valorização da manufatura, à valorização do homem por trás do objeto — inclusive em suas condições de trabalho. Enalteciam o processo de produção, defendiam a beleza não como ornamento fútil, mas como expressão da verdade: a verdade de seus materiais e execução, a verdade de sua identidade cultural particular. 

Do Reino Unido, o movimento se espalhou por outros países da Europa e pelos Estados Unidos, com diversos graus de intensidade e originalidade. No entanto, a insustentabilidade de sua base fundamental — a negação da indústria — logo tornou-o obsoleto, com seu idílio medieval esmagado pelo horror da Primeira Guerra e sua frágil teoria solapada pelo modernismo, que, ao seguir na direção contrária e abraçar as máquinas, definiu o caminho a ser percorrido pelo século XX. A ruptura, contudo, não é tão profunda quanto se costuma avaliar: alguns membros fundadores da Deutscher Werkbund são oriundos do Arts and Crafts alemão. E, com Mies van der Rohe, Peter Behrens e Walter Gropius entre seus integrantes, a associação foi uma espécie de gênese da escola mãe do modernismo, a Bauhaus.

Já no século XIX havia uma preocupação com a volta da manufatura e com uma “industrialização desenfreada”. De que maneira esta discussão pode ser transposta para o século XXI?

GP: Penso que não é nem um pouco difícil encontrar alguns paralelos com o crescente incômodo gerado por nossa completa submissão à revolução tecnológica corrente, que também vem gerando uma reação no sentido de se revalorizar algumas práticas e saberes do fazer manual. 

Qual a importância de William Morris para o design (e, em particular, para o design dos livros)? Qual o legado da Kelmscott Press para o mercado editorial?

GP: Morris buscou, na Kelmscott Press, elevar os princípios de composição e produção aos mais altos padrões, com alguns deles até hoje reverberando como paradigmas do “livro ideal” — principalmente a defesa da unidade visual da página, da integração de texto, imagens, ornamentos, mancha e demais elementos como partes de um único sistema. O “belo livro” seria a soma de todas as suas dimensões — nem só forma, nem só conteúdo. O modelo editorial da Kelmscott Press, assim como de todas as outras private presses do período, também frutifica até hoje — seja nas pequenas tiragens extremamente caprichadas de alguns livros (muitos deles artesanais), seja naquilo que denominamos como “editoras independentes”. Visualmente, porém, seus livros não parecem ter deixado herdeiros. Não há como passar incólume por um Kelmscott Chaucer, mas ele é admirado em sua opulenta excentricidade, não como algo que lançou as bases para o que hoje associamos ao “belo livro”. O fato é que, numa análise puramente formal, o programa estético que ele desenvolveu para a Kelmscott Press não deixou quase nenhum fruto visível no design do livro moderno. Suas fontes Troy e Golden nunca exerceram a influência por ele imaginada. O inconfundível design de página, em seu gritante contraste das margens com a pesada mancha de texto, também não. Nem a igualmente densa moldura ornamentada. Até mesmo a fonte Bodoni, que no livro ele classifica como possuidora de uma “feiura sufocante”, passou longe de se ver eternizada como o tipo mais ilegível já criado (outra de suas afirmações).

“Com todas as suas idiossincrasias, Morris sempre se mostrou muito coerente e devotado a um único deus — ao único deus possível: a sua, perdoe- me o termo um tanto desgastado, arte”. Quais são as idiossincrasias a que este trecho se refere? 

GP: A produção de Morris foi tão prolífica que seria possível redigir biografias nas quais, aparentemente, trataríamos de pessoas diferentes: o idealista que imprimia seus próprios livros em casa, o designer que ditava a moda nos living rooms londrinos abastados, o radical líder socialista, o nostálgico medievalista, o bem-sucedido homem de negócios, o protetor do patrimônio histórico, o autor de literatura hoje classificada como fantástica… Penso que, ao se combinar todas essas possibilidades, é fácil entender o que eu chamo de idiossincracias e aparentes contradições em sua trajetória. Mas, como afirmo no texto introdutório, não considero isso um problema. Pelo contrário, do choque de tudo isso brotou uma produção extremamente original e consistente.

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