Escritoras de livros: literatura para além do Dia Internacional da Mulher

8 de março é Dia Internacional da Mulher. O significado desse dia tem mudado muito, conforme percebemos que as mulheres não precisam (nem devem) ser segregadas como algo à parte da sociedade. Não se trata de comemorar, mas de marcar a importância de promover direitos e igualdade entre homens e mulheres.

Em uma sociedade machista e patriarcal, durante séculos a mulher foi silenciada e colocada em um papel de subserviência. Muitas vezes, restava a elas apenas se expressar em cartas a familiares ou parentes; cartas que muitas vezes nem mesmo chegavam aos seus destinos. Os diários também são um importante documento histórico dessa realidade e, assim, escrever passa a ser uma atividade “consentida” às mulheres, ainda que, mesmo hoje em dia, se nos propusermos a fazer uma lista dos escritores que conhecemos, provavelmente o número de homens será bem maior que o de mulheres. É por isso que hoje o Blog Ateliê se dedica a mostrar alguns dos títulos publicados pela editora que foram escritos por mulheres. Acompanhe:

Antologia Poética – Luci Collin

Esta coedição com a Kotter reúne poemas escritos entre 1984 e 2018. A autora é ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. 

Yaser – Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaser. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora.

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes – Carina Marcondes Ferreira Pedro

A obra de Carina Marcondes Ferreira Pedro originou-se de uma preocupação em melhor compreender os fluxos de importação de bens de consumo – de objetos domésticos a materiais de construção, de “chita até locomotiva” – que caracterizaram o processo de internacionalização das últimas décadas do século XIX. A opção de pesquisa foi “colocar-se” bem junto à sua entrada na Província, depois Estado de São Paulo, no Porto de Santos. As casas importadoras, que se instalavam estrategicamente nas imediações do Porto, constituíram o “posto de observação” da autora. A ação de seus agentes importadores, o fio condutor que a levou pelos caminhos percorridos. 

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor – Eliete Eça Negreiros

O livro apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.
Eliete destaca três modalidades do amor na lírica violiniana: o amor breve, o amor melancólico e o amor feliz e vê no aspecto meditativo das canções uma espécie de educação sentimental na medida em que Paulinho da Viola descreve e reflete sobre os estados de apaixonamento.

Viagem a um Deserto Interior – Leila Guenther

“Se a arte não parece ter gênero, as experiências o têm: chegam aos poemas de nossos dias vozes marcadas por um espanto de vida a um tempo estoico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. São forças da voz de Leila Guenther, que movem quem a ouça”, escreve Alcides Villaça sobre o livro. 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel – Élide Valarine Oliver (trad)

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, o mais radicalmente satírico de toda a obra de Rabelais, reflete, na história de sua publicação, os perigos aos quais o próprio Rabelais se expôs, no fim da vida. Uma primeira edição parcial foi publicada em 1548, em Lyon. Em 1552, sai a edição definitiva, em Paris. Ao mesmo tempo, correm boatos de que Rabelais havia sido levado “acorrentado” à prisão. Nada se prova, mas o famoso médico e escritor desaparece, e morrerá, em circunstâncias desconhecidas, no ano seguinte. Teria presumíveis 70 anos, ou talvez mesmo 59. O livro tem como pressuposto continuar as aventuras do Terceiro Livro, onde Panurge busca resolver a dúvida se deve casar-se ou não.

Silêncios no Escuro – Maria Viana

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”.

“Dom Casmurro” de Machado de Assis

Por Renata de Albuquerque*

“Traiu ou não traiu?”

“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”

“Capitu amava Bentinho?”

É incrível que um romance publicado no fim do século XIX ainda hoje, em pleno século XXI, ainda pareça ser tão popular, ao menos na superfície. Afinal, até quem nunca abriu uma página de Dom Casmurro já ouviu falar em ao menos uma dessas frases. Claro que muito disso se deve  ao fato de que Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, publicado em 1899, tornou-se um clássico da literatura brasileira, solicitado em inúmeras provas de pré-vestibular como uma leitura obrigatória – o que o fez obrigatório também no currículo do Ensino Médio, desde que as pessoas escolhiam entre o “Clássico”, “Normal” e “Científico”. Talvez por isso também muita gente não consiga se encantar com a história contada por Bento de Albuquerque Santiago, o Casmurro do título, que na infância era chamado de Bentinho. Afinal,  nada do que é obrigatório parece interessante.  

Mas, por trás dessa obrigatoriedade que o vestibular “exige”, há um livro genial, construído com muita perspicácia, por um autor que faz da ironia sua melhor ferramenta de critica social, que constrói personagens complexos e que pode fazer com que o leitor tenha uma das experiências literárias mais interessantes de sua vida.

Dom Casmurro, que na infância fora chamado de Bentinho, narra o romance em primeira pessoa. Logo no segundo capítulo (depois de explicar o apelido, dado por um poeta) ele explica a razão que o leva a escrever aquele romance: “atar as duas pontas da vida”, rememorando sua existência. Entretanto, logo se vê que o ponto central da narrativa é o ciúme que Bentinho sente por Capitu.

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Bentinho e Capitu

Vizinhos. Assim são Bentinho e Capitu, duas crianças que convivem no Rio de Janeiro, por volta de 1857. Ele, mais abastado, é órfão de pai e mora com a mãe, dona Glória, o tio Cosme, a prima Justina e o agregado José Dias. Capitu, apelido de Capitolina, é filha de Dona Fortunata e Pádua. Capitu e Bentinho tornam-se amigos, mas apesar de nutrirem um sentimento que vai além da amizade, Bentinho é enviado ao seminário, onde conhece Ezequiel Escobar, de quem torna-se amigo. Mais tarde, Bentinho sai do seminário, vai estudar Direito e  casa-se com Capitu. Escobar também se casa com Sancha, amiga de Capitu. Nasce Ezequiel, filho de Capitu – e que Bento Santiago desconfia ser fruto de uma relação entre ela e Escobar (já que o nome da criança é dado em homenagem ao amigo).

O ciúme leva Bentinho a separar-se de Capitu, que vai com o filho para a Europa, onde morre. O filho volta, tenta reatar com Bentinho,  mas também morre. O amigo Escobar morre afogado no mar.

Tantas mortes são a razão pela qual as dubiedades – que tornam o romance tão genial – possível. Com todos mortos, só Bentinho (que narra a história) foi testemunha dela. E, com isso, pode contar o que melhor lhe convier.

A traição de Capitu

A dubiedade que marca o romance (a forma como é narrado, os interditos, a complexidade psicológica de Bentinho e Capitu, o comportamento singular do agregado José Dias)  é a chave para entender que a velha pergunta “traiu ou não traiu?” não é a parte que interessa a Machado de Assis.

Com Dom Casmurro, o escritor constrói uma obra muito maior do que seria se fosse dedicada a levar o leitor a descobrir se houve ou não infidelidade. O grande jogo consiste na chance que o autor dá ao leitor de desconfiar desse narrador (que deixa pistas de sua inconstância e nos dá motivos para tal desconfiança ao longo de todo o romance).

É bom dizer que nem sempre essa dúvida existiu. Apenas em 1960 (portanto mais de sessenta anos depois da publicação da primeira edição de Dom Casmurro), a pesquisadora Helen Caldwell trouxe a público seu estudo O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, em que defende a inocência de Capitu tomando por base indícios do próprio texto machadiano. Tudo isso explica porque Dom Casmurro é um livro imenso, talvez um dos mais importantes da literatura mundial. E ajuda a explicar porque, para além da obrigatoriedade escolar, ele merece ser lido por quem deseja tornar-se um leitor mais experiente, mergulhando nas águas fundas do raro estilo machadiano, cheio de humor e uma fina e aguda ironia, que coloca o leitor no como parte atuante do jogo narrativo.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Por: Renata de Albuquerque*

Uma das mais importantes obras do dramaturgo português Gil Vicente – considerado o pai do teatro português – o Auto da Barca do Inferno (ou Auto da Moralidade) foi escrita em 1517 e encenada, pela primeira vez, em 1531. O texto faz parte da trilogia das barcas, composta por esta e por outros dois textos, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória.

Devido à sua importância histórica para a literatura, o Auto da Barca do Inferno foi escolhido para ser o primeiro título de uma coleção criada pela Ateliê Editorial ainda nos primeiros anos de existência da editora. A ideia da coleção “Clássicos para o Vestibular” era oferecer aos alunos do ensino médio uma edição de qualidade de um livro clássico, que é sempre solicitado nas provas. O livro traz o texto na íntegra, precedido de um texto introdutório que traz análise do enredo, da linguagem, dos personagens, do contexto histórico e do autor. Logo depois, a coleção passou a chamar-se “Clássicos Ateliê”. Afinal, não são apenas os estudantes que merecem ler uma edição bem cuidada de um clássico. Inicialmente, a coleção era coordenada por Ivan Teixeira, professor livre-docente da ECA/USP e professor titular de Literatura Brasileira na FFLCH/USP. Depois do falecimento de seu criador, em 2013, a coleção passou a ser coordenada pelo professor José de Paula Ramos, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA, da mesma universidade.

Auto da Barca do Inferno

Por ser um auto de moralidade, a peça, de um só ato, é uma alegoria do Juízo Final, uma sátira à sociedade portuguesa do século XVI. O vocabulário – muito distante da maneira como falamos hoje – pode parecer um obstáculo ao entendimento. Mas, se ultrapassado, o texto se revela divertido, com uma comicidade envolvente.

O enredo é simples. Dois barqueiros – o Anjo e o Diabo – estão em um porto, em que recebem, cada um em sua barca, as almas dos passageiros, para transportá-las para o outro mundo. O Diabo convida cada alma para fazer parte de sua barca. O Anjo autoriza ou não outras almas a viajar em sua própria barca. Vai para  céu quem durante a vida seguiu os preceitos divinos. Vai para o inferno quem foi avarento, mesquinho ou cometeu outros pecados.

Os personagens – que são, na verdade, representações de tipos sociais – apresentam-se diante do espectador como em um desfile. Sua história vai definir seu destino. Apenas o parvo e os quatro cavaleiros, mártires da Igreja, que dedicaram a vida ao cristianismo, conseguem embarcar rumo à paz eterna na barca do paraíso.

Cada personagem representa um aspecto da sociedade portuguesa. O Fidalgo, por exemplo, é o tirano representante da nobreza. O Parvo simboliza o povo português, temente a Deus e de bom coração. O Judeu representa as pessoas que não são fieis à fé cristã. O Frade desobedece o voto de castidade e, por isso, também vai para o inferno. Figuras como o Onzeneiro, o Corregedor e o Procurador são alegorias dos burocratas que usam o poder político a seu favor.

É interessante notar que o Diabo fala e age com uma fina ironia e que, muitas vezes, suas intervenções parecem ser a voz do próprio autor. Já o Sapateiro, ainda que tenha-se confessado antes de morrer não conquista o céu – o Diabo o leva porque ele roubava seus clientes.

Gil Vicente

Gil Vicente

Nascido por volta de 1465, em Guimarães, o poeta Gil Vicente é considerado o pai do teatro português. Autor de um teatro popular – apesar de estar no ambiente da Corte Portuguesa – foi um entretenimento para a família real, mesmo contendo diversas críticas ao poder. O teatro de Gil Vicente é caracterizado pela sátira crítica.

Pai de cinco filhos – dois do primeiro casamento e três do segundo, contraído após a morte da primeira esposa – estudou na Universidade de Salamanca, na Espanha. Um dos primeiros registros com seu nome data de 1502, quando encena “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III. Em 1511 foi nomeado vassalo do rei e mais tarde, mestre da balança da Casa da Moeda (1513). Faleceu por volta de 1536, provavelmente em Évora.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Yaser”, de Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaserh. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora ao Blog da Ateliê:  

O que a levou à Palestina? O que a motivou a realizar essa jornada?


Eda Nagayama: O meu interesse e desejo de visitar a Palestina já vinha de alguns anos. Em 2014 havia me informado sobre custos e a possibilidade de me voluntariar na Cisjordânia. A oportunidade concreta veio de uma maneira inesperada. Em 2016, estava na Polônia como parte de um programa de intercâmbio acadêmico sobre trauma cultural quando, numa conversa com uma professora de Sociologia sobre refugiados, comentei sobre a Palestina: “Ah, você gostaria de ir para a Palestina? Conheço um programa de voluntariado”. Ela então me apresentou para o coordenador local do EAPPI – Programa de Acompanhamento Ecumênico em Palestina e Israel, do Conselho Mundial das Igrejas (WCC). Fui aprovada e enviada como única representante da Polônia naquele período. Chegando lá, num grupo internacional com finlandeses, noruegueses, ingleses e colombianos, o mais bizarro era parecer japonesa, ser brasileira e ter sido enviada pela Polônia.

A minha motivação para ir para a Palestina estava inicialmente relacionada a Israel. Ainda adolescente, fui muito impactada pelo Holocausto e a Segunda Guerra. Aprofundei e estudei o tema e também um pouco de cultura e literatura judaicas. Quando tive um pouco mais de informação sobre a situação na Palestina, voltei a me sentir afetada diante da opressão, da complexa disputa que se dá em torno da terra e da água, das narrativas dominantes sobre os acontecimentos. A Palestina era uma indagação, uma perplexidade que só iria aumentar após ter visitado vários memoriais e campos de concentração: Auschwitz, Treblinka, Majdanek, Belzec, Gross-Rosen, Plaszów, Theresienstadt, Sachsenhausen. O incomensurável sofrimento e injustiça do passado poderiam constituir uma justificativa absoluta para a opressão e violência contra um outro? O que acontecia na Palestina em nome desse Estado para um povo sem terra, como se terra sem povo?

Que atividades você desenvolveu ali, durante o tempo em que esteve no local?

EN: O programa visava a observação de violações de direitos humanos na Cisjordânia, parcela maior do território do Estado Palestino, separada da Faixa de Gaza. Os participantes do programa eram divididos em grupos e diferentes localidades: Jerusalém, Belém, Hebron, Tulkarm, Colinas do Sul de Hebron, Vale do Jordão e Yanoun, para onde eu fui destinada. As atividades envolviam a visita aos vilarejos da região e o acompanhamento de incidentes como demolição de construções, expropriação de terras, detenção de crianças, agressões e danos a propriedades e plantio, restrição à livre circulação, toque de recolher e punição coletiva. Com a ajuda de um facilitador local, coletávamos relatos e informações sobre os incidentes e produzíamos relatórios que eram distribuídos a outras entidades com envolvimento na situação.

Outra atividade que realizávamos era a presença protetiva visando diminuir ou refrear atos contra a população palestina através da mera presença de estrangeiros. Três vezes por semana fazíamos o acompanhamento da entrada dos alunos de uma escola à beira de uma rodovia em área C, utilizada por israelenses e palestinos. Um grupo de soldados israelenses estava sempre de vigília, de maneira mais ou menos ostensiva, tendo detido meninos em algumas ocasiões sob a acusação de atirarem pedras. Essa atuação era sempre muito tensa e ambivalente – difícil saber se a presença podia realmente ser protetiva, se não poderia justamente acirrar os ânimos. Os soldados podiam detê-los numa demonstração de força? Os meninos podiam se sentir encorajados pela nossa presença? Não vi nenhum menino atirando pedras nem enfrentando soldados. Em compensação, vi soldados detendo meninos, fazendo provocações – também dirigidas a nós. Os palestinos eram o inimigo e, por extensão, nós também. Nunca estive nessa posição – senti medo, indignação, dúvida.

Eda Nagayama fotografada por Lailson Santos

Por que decidiu escrever um livro da experiência que teve na Palestina?

EN: A experiência foi muito impactante e voltei para o Brasil afetada – a tensão é constante e muito distinta daquela provocada pela violência aqui e não corresponde à imagem do conflito na mídia internacional, vinculada à Faixa de Gaza e às bombas do Hamas, aos terroristas e homens-bomba da Segunda Intifada (2000-2005). Apesar de estar em Jerusalém à época de um atentado, copycat dos ataques utilizando caminhões em Nice e Berlim em 2016, a tensão não advinha daí, da ameaça desse tipo de crime, mas da sensação de vulnerabilidade, de arbitrária opressão a que estavam sujeitos os palestinos. Ouvi muitos relatos de pessoas sem futuro nem sonhos, que só queriam ser deixadas em paz. O que acontece na Cisjordânia é, para mim, uma maneira muito perversa de aniquilar indivíduos e um povo. Não é preciso tirar-lhes a vida, mas apenas restringir e privá-la através do abuso e arbitrariedade de força, regras e restrições, a tal ponto de não mais ser entendida como tal. Vida? Que vida? A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial.

Como conheceu Yaser e porque o escolheu para ser protagonista de seu livro?

EN: O vilarejo de Yanoun foi invadido em 2002 por colonos israelenses de assentamentos do entorno. Na época, havia aproximadamente 350 pessoas e foi então que o EAPPI começou através da presença de outsiders para que o vilarejo não fosse tomado e que ao menos parte das famílias pudesse retornar.

Hoje, os que restam não chegam a oitenta, todos parentes, já que era muito comum o casamento consanguíneo. Yaser morava na casa em frente à nossa e foi de sua família que estive mais próxima, podendo conhecer mais das tarefas diárias, da violência sofrida no passado, dos temores e incertezas do presente. Escolher Yaser como meu protagonista foi uma estratégia narrativa para criar mais coesão à diversidade de relatos e experiências, mas também uma forma de expressar meu afeto e respeito pela trajetória – sua e de sua família estendida, de seu povo.

A obra mistura ficção e relatos reais. Quais foram os desafios de equalizar esses dois registros?

EN: A maior questão é mesmo ética: tenho o direito de narrar? Posso “ocupar” Yaser – percorrer seus pensamentos e sentimentos, me apropriar da memória de eventos traumáticos? Foi uma fronteira difícil de constituir, encontrar a medida para que não predominasse o aspecto informativo ou denunciativo, e que o texto tivesse sensibilidade e qualidade literária. O livro, e também minha pesquisa de doutorado, refletem esse questionamento: quais os limites e decorrências da apropriação da realidade por uma alteridade, das distorções ficcionais produzidas por esse outro ao dar voz aos eventos?

Você já iniciou a elaboração do livro com o projeto de mesclar ficção na história real ou isso foi ocorrendo aos poucos, no processo de escrita?

EN: Eu comecei a escrever Yaser sabendo que iria “contaminar” a realidade de alguma ficção, não queria um relato jornalístico. Recebi a sugestão de adotar a minha perspectiva pessoal como voluntária para narrar os eventos. Não, não era isso de forma alguma. E, a princípio, não queria usar as palavras “judeu”, “israelense”, “palestino”, mas somente “um” e “outro” – adotando assim perspectivas relativas e não absolutas. Tal opção poderia gerar muita imprecisão e ambiguidade e assim comprometer justamente a legitimidade dos eventos, seu caráter testemunhal. Os palestinos deveriam ser os protagonistas – fundidos na figura de Yaser -, com um alinhavo ficcional mínimo. Não sei o que Yaser achou dessa sua versão, espero que possa se reconhecer e apreciar.

Quais foram suas inspirações para escrever o livro, do ponto de vista estético?

EN: Eu não sei se posso apontar inspirações literárias para escrever Yaser. A experiência predominou – em situações, paisagens e pessoas. Terra Prometida ou não, a Palestina é um lugar potente, umbigo do mundo que não permite que você permaneça isento ou que parta imune. E esse afetar foi e é fundamental para mim – que reside nos vazios e silêncios dos campos de concentração, que ecoa nas conversas que tive com refugiados ao longo dos anos – aqui em São Paulo, em abrigos na Itália, em um campo de refugiados na Grécia. A minha questão como escritora é encontrar narrativa para essa realidade de contundência, muitas vezes dolorosa e traumática. 

Aniversário da Ateliê: todo mundo em festa!

A Ateliê está comemorando mais um aniversário! E, para que todo mundo entre na festa com a gente, vai ter muito desconto e promoção durante todo o mês de fevereiro.

Todo o catálogo da editora está com 42% de desconto e, para melhorar, ainda vamos ter ofertas surpresa durante vários dias do mês. Então, a dica é ficar de olho diariamente nas nossas redes sociais e no nosso site: www.atelie.com.br porque são muitos e variados títulos, que terão os preços mais baixos em alguns dias do mês, sem aviso prévio. Isso é que é surpresa boa!

Confira a seguir alguns dos títulos mais queridos da Ateliê que estão em promoção:

Os Sertões – Campanha de Canudos

Euclides da Cunha é o autor homenageado da FLIP neste ano. Então, resolvemos dar uma forcinha para você conhecer melhor este clássico da literatura brasileira, um relato sobre a Guerra de Canudos, feito pelo repórter que marcou a nossa literatura. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. 

Livro Viva Vaia

Viva Vaia

Esta edição de Viva Vaia é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Gramática Integral da Língua Portuguesa

Esta gramática se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

No Rastro de Afrodite – Plantas Afrodisíacas e Culináriah

Por que algumas plantas e pratos são considerados afrodisíacos? É em torno dessa pergunta que giram as discussões deste livro. O autor, PhD em Botânica, analisa cientificamente mais de quatrocentas espécies vegetais. Com isso, ele pretende mostrar quais delas, de fato, exercem influência sobre o apetite sexual dos seres humanos. No Rastro de Afrodite apresenta também algumas receitas culinárias capazes de despertar a libido.

A Capa do Livro Brasileiro

O bibliófilo Ubiratan Machado reuniu mais de 1700 capas coloridas reunidas em uma só obra que analisa os 130 anos de História, desde a primeira capa que data de 1820. O autor oferece uma densa e coesa história das capas dos livros no Brasil. Obra que nasce original e clássica, é indispensável nas prateleiras de bibliófilos e historiadores.

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Paradeiro: o primeiro romance de Luís Bueno

Paradeiro é o romance de estreia de Luís Bueno e tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos (SP) em épocas e com personagens distintos. O exercício de estilo desafiou o autor. “Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra”, afirma Bueno, que é Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná (UFPR).A seguir, ele fala com o Blog da Ateliê.

Por que do título Paradeiro?

Luís Bueno: A palavra tem uma ambivalência entre o permanente e o efêmero, passageiro, que está na base do romance. Na esteira dessa ambivalência, o título evoca um lugar ao mesmo tempo metafórico e geográfico em que se foi parar – mas parar até quando? Existe inclusive uma expressão, “paradeiro desconhecido”, que é o ápice dessa ambivalência porque fala de um lugar desconhecido em que alguém está, ou seja, é toda parte e lugar nenhum. É nessa ambivalência que o livro se funda.

O livro se passa em São José dos Campos. Por que dessa escolha?

LB: A história da cidade faz dela um paradeiro ideal para este romance, pois ela é emblemática  desse jogo entre efemeridade e permanência. Uma permanência curiosa, resultado das experiências individuais que se mantêm muitas vezes como resíduos quando a paisagem e a dinâmica de ocupação do espaço urbano mudaram drasticamente. Desde os anos 1960, tem sido uma cidade industrial – abriga fábricas enormes como a GM e a Embraer –, mas antes disso era uma cidade sanatorial na qual uma pequena população local se misturava com uma população flutuante constituída de tuberculosos em tratamento. É, aliás, como cidade sanatorial que ela aparece, aqui e ali, na literatura brasileira, mencionada em romances como Floradas na Serra, de Dinah Silveira de Queirós, ou Território Humano, de José Geraldo Vieira. Antes disso, aparece como cenário de bangue-bangue em Quincas Borba, numa passagem em que é mencionada para dizer mal de um personagem secundário, cujo  cunhado “dera um tiro de garrucha num delegado em São José dos Campos”. Mais recentemente foi o lado de cidade tecnológica que a tornou o cenário da resistência a zumbis na saga As Crônicas dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira.

Em Paradeiro o que interessa é a relação entre essas várias cidades que são uma só, a dinâmica histórica de um lugar que muda radicalmente em poucas décadas, no qual também muda a experiência daqueles que vivem ali. Não é porque estamos no mesmo lugar e no mesmo tempo, expostos às mesmas mudanças, que nosso paradeiro é o mesmo.

Mas vale a pena lembrar que São José dos Campos não é o único cenário do livro: o Guarujá, que aliás também passou por uma transformação enorme, ainda que de outra natureza, no mesmo período, também é. Assim como, mais episodicamente, as cidades portuguesas de Leiria e Ruge Água.

Luís Bueno

Podemos dizer que a doença é um fio que liga os personagens, ainda que não necessariamente os defina. Qual a razão para trazer este tema à literatura?

LB: A doença de fato não define os personagens, mas os coloca numa posição privilegiada para reverem o que são. Um ditado diz que para morrer basta estar vivo, mas os vivos em geral não se ocupam tanto assim da morte. Doenças como a tuberculose antes do emprego dos antibióticos, o câncer e o Alzheimer até hoje, no entanto, colocam a vida em relação direta com a ideia de morte: não tem como escapar. Ora, a doença e a morte são experiências radicalmente pessoais que, ao mesmo tempo, são forçosamente partilhadas por todo mundo. A doença é elemento fundamental na criação de um tipo de relação específica entre indivíduos que interessa ao romance, uma relação que não nasce de um contato direto, mas de experiências comuns vividas por pessoas muito diferentes.

Há uma parte do romance que é epistolar. Como se deu a escolha de inserir esse gênero dentro de uma obra que não é apenas feita da troca de cartas?

LB: A forma epistolar ajuda a compor a caracterização de um dos protagonistas, um rapaz na faixa dos 20 anos que vai a São José dos Campos em 1938 para se tratar de uma tuberculose. Ele não é da cidade, não se integra a ela, então, como era usual, mantém correspondência com os amigos de fora, de onde sua vida deveria em tese ter continuado a transcorrer. As cartas concretizam essa situação e permitem que ele revise, nesse contato ao mesmo tempo tão precário e tão íntimo, suas amizades e suas crenças. A troca de correspondência é uma experiência que se transformou demais nas duas últimas décadas. Nosso tempo, afinal de contas, é o da comunicação imediata. No entanto, contrariando as aparências, o contato permanece cheio de ambiguidades, ainda precário e ao mesmo tempo íntimo.

O livro traz uma variedade de vozes, estilos, narradores e datas. Qual o desafio desse tipo de escrita?

LB: Juntamente com a estrutura geral dos capítulos, que giram em torno de um mote central, esse foi o maior desafio na elaboração do romance. Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra. Sua relação se dá num outro plano, naquilo que partilham mal sabendo que partilham. Para isso funcionar, seria preciso que cada plano fosse escrito de maneira distinta, de maneira que o leitor pudesse identificar cada um desses planos com facilidade. Era necessário também que não houvesse diferenças enormes de registro entre eles. Unidade e distinção ao mesmo tempo, assim como acontece, no plano do enredo, com as vidas que pouco e tudo têm a ver umas com as outras. Esse é o desafio difícil que procurei vencer. O leitor poderá verificar se deu tudo certo ou não.

Você teve uma preocupação com a fidelidade aos fatos históricos, ao escrever o romance, ou eles são apenas pano de fundo?

LB: Gosto de pensar que os “fatos históricos” integram a estrutura da narrativa, sendo mais que pano de fundo. Procurei ser preciso – sempre pensando na precisão que se pode esperar de um texto ficcional – porque isso contribui para que o leitor tenha uma impressão mais forte de realidade. E também porque me interessava que o livro se ligasse à realidade do lugar onde ele foi escrito e onde sua trama tem lugar.

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