“O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social” de Ecléa Bosi, volta às prateleiras

O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social é um daqueles livros essenciais para quem estuda ciências sociais e, especialmente, psicologia social. Escrito por Ecléa Bosi – professora de psicologia social da USP – e publicado pela primeira vez em 2003, ele ganha, agora, nova edição da Ateliê Editorial.

Na obra, Ecléa Bosi faz caminhos teóricos para tratar de memória, preconceito, conformismo e rebeldia. A autora procura tornar atuais as ideias de pensadores como Bergson, Benjamin, Gandhi e Simone Weil, e convida o leitor a dialogar sobre o que a memória recupera, redime e inspira. Dentro dessa perspectiva, os clássicos ajudam a compreender o cotidiano das metrópoles de hoje, com suas contradições entre lembrança e esquecimento.

O livro é um dos mais importantes títulos da autora, falecida em 2017. Sobre ele, Renato Tardivo escreveu:

“Atentando no início para os aspectos do cotidiano e seu dinamismo, o que os afasta das definições estanques e cronológicas (a que estamos mais acostumados) de História, Ecléa Bosi nos mostra que o tempo da memória não é o tempo morto dos calendários, mas o tempo ‘de outra história mais densa’, o tempo das pequenas coisas, dos gestos, o tempo que nos une a todos e que, por isso mesmo, escapa a qualquer apreensão definitiva”. (leia o texto completo aqui)

Além deste título fundamental, em 2019 a Ateliê também publica Velhos Amigos. O livro traz pequenas narrativas sobre as lembranças de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira. As histórias, que se colocam entre o conto e a crônica, tratam de episódios de amigos e família, em tom bem humorado.  A apresentação do livro é de Adélia Prado e as ilustrações, de Odilon Moraes.

 

Saiba mais sobre Ecléa Bosi

“O Língua” dá voz a índios e mamelucos, originalmente silenciados e oprimidos

O primeiro estranhamento do leitor acontece na capa. Língua é substantivo masculino? Sim. Neste caso, o termo é usado para indicar o intérprete que mediava as relações entre portugueses e índios, ainda durante o século XVI no Brasil. O romance de Eromar Bomfim alterna narradores para contar a história de Leonel, filho da índia Ialna e de Antônio Pereira, fazendeiro e padre. A seguir, Eromar, que também é autor também dos romances O Olho da Rua (Nankin Editorial) e Coisas do Diabo Contra (Ateliê Editorial), fala sobre o lançamento:

 

Como surgiu a ideia de O Língua?

Eromar Bomfim: Surgiu do desejo de narrar uma possível vivência psicológica do povo a partir da voz desse mesmo povo, no momento da formação de nossa sociedade, momento esse que lançou fundamentos psicossociais que parecem nos desunir e nos manter como uma nação não resolvida. Minha idéia era, então, criar personagens que, sendo nossos contemporâneos, tivessem existido no momento de mestiçagem de nossa sociedade e que pertencessem ao pólo oposto da sociedade dominante, narrando eles próprios, do seu ponto de vista, suas vivências. Por meio de um artifício literário, e baseado na idéia de que há sempre permanência na transformação, fiz meus personagens atravessarem séculos de existência.

O que significa língua, substantivo masculino?

EB: O termo “língua”, substantivo masculino, é sinônimo de “intérprete”. O língua era requisitado para intermediar o contato entre os portugueses e suas companhias militares na atividade de apresamento dos índios ou nas frentes de batalha.

 

O texto é ficcional, mas traz ao leitor alguns aspectos históricos. Poderia falar um pouco sobre como se deu a união destes dois universos? Qual deles prevalece no romance?

EB: Além de pesquisa etnográfica sobre os indígenas do Nordeste, li também a história da penetração dos colonizadores luso-brasileiros nos sertões nordestinos, notadamente no século XVII, momento de maior ataque a essas populações. Colhi episódios históricos dessa época, bem como pessoas reais que estiveram à frente desses episódios, e inseri neles personagens fictícios, justamente aqueles representantes do contingente anônimo e popular que a história oficial costuma desprezar. Posso dizer que os fatos históricos serviram de base sólida na qual eu plantei uma história totalmente fictícia.

 

Eromar Bomfim, fotografado por Hemerson Celtic

O romance tem diversos narradores. Quem são eles? O que você pretendeu com esta escolha estética?

EB: São quatro narradores, nenhum deles é branco. Os quatro se conheceram e participaram dos mesmos fatos narrados. É como se fosse uma história só, na qual todos tiveram participação, e que cada um contasse uma parte. Um deles é Gabiroba, filho de um escravo africano com uma índia. Este narrador orquestra as narrações dos demais. É ele que abre e fecha a história toda. Outro narrador é Aleixo, índio cariri, que vivia na região do Rio Itapicuru, na Bahia. É um personagem na linha dos heróis picarescos de nossa literatura. Um terceiro é Ascuri, índio anaió. Ele testemunhou a gênese da ambigüidade de caráter do brasileiro na pele de Leonel, o futuro Língua. Finalmente, a narradora Ialna, índia anaió, mãe de Leonel, guerreira, heroína, trágica, mas sempre mãe.

Essa multiplicidade de narradores, além de enriquecer o narrado, oferecendo sobre ele vários pontos de vista, resolveu problemas estruturais, por exemplo: eles não podiam contar a sua própria morte. Neste momento, a palavra é passada a outro narrador, resolvendo assim o problema.

 

O que é possível dizer sobre o personagem Leonel de Matos para os futuros leitores, que ainda não tiveram contato com o livro?

EB: Eu diria ao leitor que vale a pena pensar no personagem Leonel como nosso antepassado direto. O mameluco, filho de português com uma índia, vindo a ser, como dizia Darcy Ribeiro, o primeiro brasileiro. Antepassado que já não é nem índio nem branco. Desintegrado ou mal integrado na sociedade do pai, e arredio de sua origem materna, a qual, em larga medida tendeu a renegar, cometendo talvez o seu primeiro grande equívoco na vida. Equívoco que lhe vem da fascinação pela civilização branca que talvez ele devesse corrigir.

 

O que um livro com temática indígena pode dizer ao Brasil do século XXI?

EB: Não considero que eu tenha tratado de uma temática indígena nesse romance, mas de uma temática brasileira, ou do povo brasileiro. Meu personagem central, a rigor, não é um índio. É um mameluco. E é a partir disso que esse personagem pode dizer alguma coisa para o Brasil hoje: uma reflexão sobre a nossa formação identitária, como caminho para fazermos distinções culturais que caracterizam nosso modo de ser, incluindo nesse modo de ser atitudes destrutivas do outro ou integradoras, ou, na pior das hipóteses, extraviados de nós mesmos e de nossa origem, como eternamente estrangeiros em sua própria terra. Nesse sentido, quero crer que o romance O Língua cumpre uma das funções inerentes à arte literária que é restaurar emocional e criticamente o passado.

 

Conheça as obras de Eromar Bomfim

 

Filosofia, Pintura e Merleau-Ponty

Por: Renata de Albuquerque

A Pintura como Modelo para uma Filosofia da Expressão em Merleau-Ponty é uma leitura de Merleau-Ponty, sobre como pintura, filosofia, arte e pensamento podem contagiar-se mutuamente. O livro traz ao leitor uma reflexão sobre como o filósofo francês estabelece a relação entre pintura e filosofia. Um dos pontos de partida é a afirmação do filósofo que a pintura foi para Cézanne seu mundo e sua maneira de existir. O assombro que o pintor tem diante do mundo relaciona-se ao assombro que seria intrínseco ao filósofo para pensar o mundo. “A proposta é identificar como Merleau-Ponty elabora a passagem da percepção à expressão, e porque ele acorda à pintura um modelo possível para filosofia”, explica a autora, Ana Westphal.  A seguir, ela fala sobre o lançamento ao Blog da Ateliê:

Há uma complexa relação entre pintura e filosofia, de acordo com Merleau-Ponty. O que se pode dizer a respeito disso para o leitor que não teve contato com esse tema antes?

Ana Westphal: Imaginar a pintura como modelo para filosofia é, por um lado, algo que soa surpreendente àqueles que nunca leram a obra de Maurice Merleau-Ponty, e, por outro, complexo àqueles que pensam nos desdobramentos desta relação proposta à filosofia. Mas, se tal como nos diz Merleau-Ponty, pensar a prática reflexiva conforme a pintura – entendendo-se que as relações por ele estabelecidas no âmbito da pintura-filosofia, são sempre relações metafóricas -, causa-nos, em um primeiro momento, certo estranhamento, pelo próprio suporte ou “elemento constitutivo” que a pintura teria a oferecer ao discurso filosófico, ao olhá-las como ele as olha, somos levados ao encaminhamento da questão. Desse modo, para que o problema se nos apresente recoloco-o: de que modo esse homem-pintor aparece à Merleau-Ponty e o faz anexar os “procedimentos” da pintura à filosofia? À questão, resumidamente posta, vincula-se a essência do aparecer, ao olhar que restitui à presença o outro e o mundo. Assim sendo, ao tomar a pintura como modelo para filosofia, entende-se que Merleau-Ponty entrevê o sentido originário da linguagem pictural, interpretando-a como “materialização” dos olhares na inspeção do mundo, não quando esses olhares já se tornaram um sistema de significações, mas enquanto “lógica alusiva”, isto é, sem modelo exterior.

Merleau-Ponty deseja mostrar que há uma linguagem primeira que é anterior à linguagem sistematizada, linguagem que não tem seu sentido manifesto na correspondência de uma palavra a um conceito, isto é, um signo para uma significação já definida. Podemos dizer, grosso modo, que para Merleau-Ponty a linguagem é espontaneamente criada pelo entrelaçamento dos sentidos, e essa “linguagem sem pensamento” tem, para ele, sua potência de simbolização intimamente relacionada à motricidade e ao olhar. De certo modo, podemos dizer que o olhar é o fundo que sustenta a reflexão merleau-pontyana sobre a origem do sentido, é ele que coloca em movimento a articulação entre interioridade e exterioridade. Para Merleau-Ponty este movimento é reiterado pela pintura de Cézanne, no momento em que seu olhar encontra o mundo, momento em que o pintor toca o real e fá-lo falar na tela, o sentido que a visão lhe sussurra. Merleau-Ponty identifica, pelo que é próprio à pintura, uma ordem nascente, ordem que expõe a percepção, o corpo, o mundo, à novas articulações de sentido. Assim, se se pensa no Cézanne “de” Merleau-Ponty em Sens et Non-Sens, ali onde Merleau-Ponty afirma que a pintura foi para Cézanne seu mundo e sua maneira de existir, entende-se que sua pintura-vida é capaz de responder ao assombro do olho que olha o mundo. Para além da questão relacionada à transposição dos procedimentos da pintura à filosofia, percebe-se a crítica que Merleau-Ponty acorda à “filosofia de seu tempo”, crítica ao abandono do assombro filosófico enquanto atitude existencial, ao abandono de seu caráter interrogativo – atitude que Merleau-Ponty infere como essencial à reflexão filosófica. Assim, trata-se, para ele, de buscar uma linguagem capaz de neutralizar as sedimentações conceituais, uma linguagem que não esteja subsumida à razão. Nesse sentido, pode-se dizer que a pintura lhe aparece como experiência viva, em meio a um pensamento que reivindica à razão, um novo modo de olhar.

Que temas e aspectos da pintura, relacionada à filosofia, o livro coloca para o leitor?

Paul Cézanne

Lembro ao leitor que Merleau-Ponty não fala da pintura em sua ambitude geral. Desse modo, embora faça menções a Paul Klee, Leonardo da Vinci e outros, é, especificamente, a pintura de Paul Cézanne que Merleau-Ponty toma como referencial. Assim sendo, seja por sua originalidade absoluta, por sua explosão de veracidade, tão próxima a desvendar o enigma da natureza, do homem, ou pelo poder de subversão que sua obra impõe à história da arte, é Cézanne o pintor por ele escolhido. Desse modo, pode-se dizer que a pintura de Cézanne aparece à Merleau-Ponty como excelência do modelo requerido à filosofia. Pintura, cujo sentido, tomado de precisão, esclarece a passagem do mundo natural ao mundo da expressão – passagem que Merleau-Ponty vê como imagem da anexação do mundo pelo indivíduo. É a potência expressiva da pintura, o que o motiva sua escolhê-la: “a pintura nos reconduz à visão das próprias coisas (…) uma filosofia da percepção que queira reaprender a ver o mundo restituirá à pintura e às artes em geral seu lugar verdadeiro (…) trata-se, como na percepção – das próprias coisas – de contemplar e perceber o quadro segundo as indicações silenciosas de todas as partes que me são fornecidas pelos traços de pintura depositados na tela, até que, sem discurso e sem raciocínio, componham-se em uma organização rigorosa em que se sente de fato que nada é arbitrário... [Merleau-Ponty, 1948]

Descobrir o sentido primeiro, sem abandonar a situação do homem no mundo, esse é o desejo da pintura de Cézanne, essa é a filosofia que teria “abrangido tudo”, diz Merleau-Ponty. Percebe-se que Merleau-Ponty trabalha com a ideia de um fundo comum à criação, isto é, com a ideia da existência de uma unidade do “estilo humano” que está presente na obra, e que a torna “reconhecível” a todos os homens. Assim sendo, ao ater-se sobre o modelo cézanneano da visibilidade, Merleau-Ponty percebe que o artista retoma os dados que lhe chegam pela percepção, e os transforma a partir de um sistema interno de equivalências, ou seja, para ele a percepção do artista não produz o visível, ela o torna visível. Com efeito, se recuperarmos a fala de Cézanne, “a paisagem reflete-se, humaniza-se, pensa-se em mim”, nos é possível dizer que sua fala torna-se exemplar à Merleau-Ponty, ela põe às claras o movimento de seu pensamento. E então, o que a princípio parecia-nos um desvio, a pintura como modelo para filosofia, firma-se como possibilidade de permutação.

Maurice Merleau-Ponty

O livro se divide entre “O Mundo de Merleau-Ponty”, “O Corpo” e a conclusão “Merleau-Ponty encontra Cézanne”. Como estas partes se inter-relacionam?

Em linhas gerais, a proposta é identificar como Merleau-Ponty elabora a passagem da percepção à expressão, e porque ele acorda à pintura um modelo possível para filosofia. O pensamento parte do pressuposto de que ele não reduz a pintura às mudanças no âmbito do pensar, mas a toma a partir das relações que o pintor estabelece com o mundo que vê. Conquanto, pensar a relação estabelecida por Merleau-Ponty entre filosofia e pintura, sem uma familiarização com a obra, tornaria a leitura do trabalho impossível. É nesse sentido que os capítulos foram propostos. O mundo de Merleau-Ponty procura entender o desenvolvimento de seu pensamento a partir de leituras soltas e diversas, ou seja, sem que a linha do tempo ou a especificidade do tema fossem utilizados como guias. Em O Corpo procuro mostrar a importância que Merleau-Ponty afere à presença do corpo no mundo: o corpo merleau-pontyano aparece como articulador da gênese de sentido, ele é corpo que percebe e porque percebe, é capaz de metamorfosear o percebido em expressão. A conclusão, O olhar círculos que se envolvem – Merleau-Ponty encontra Cézanne, busca responder à questão posta no início:  em que consiste o privilégio que Merleau-Ponty acorda à pintura a ponto de pretendê-la modelo para filosofia?

Alguns aspectos da filosofia de Merleau-Ponty são baseados nas relações:  o ser em relação com o mundo leva à elaboração de uma “filosofia da ‘ligação’”, como pode-se ler no posfácio. Quais são as bases dessa filosofia que propõe relações e ligações e como ela impacta nossa relação com a arte?

O trecho mencionado na questão refere-se ao seguinte excerto do posfácio: “Merleau-Ponty fundamenta a necessidade do retorno às questões maiores da filosofia ao expô-las à problemática da encarnação, momento em que passa a elaborar uma filosofia da “ligação”: ligação do homem com ele mesmo, ligação do homem com o outro, ligação do homem com o mundo”.

Ao se refletir sobre essa reflexão, entende-se que para Merleau-Ponty a filosofia mantém uma relação de dependência com a vida, sua fala, se verdadeiramente expressiva, deve seguir o rastro do mundo, interrogando-o de maneira continuada. É nesse sentido que podemos dizer que Merleau-Ponty ao introduzir o mundo em sua contingência, infere à filosofia a necessidade de renunciar-se como positividade, como criação separada e isolada da vida dos homens. Se a filosofia não pode fugir do mundo, é necessário que ela se realize destruindo-se como filosofia separada, diz Merleau-Ponty em Fenomenologia da Percepção [1945]. Esta referência guiou-me na escrita do posfácio. É nesse sentido que digo ali, que Merleau-Ponty elabora uma filosofia da “ligação”. Trata-se de uma reexposição das questões maiores da filosofia à problemática da encarnação – crítica ao abandono do mundo percebido. Desse modo, no que concerne, especificamente, à filosofia, Merleau-Ponty percebe que ao afastar-se do rigorismo que cambia entre polos, ela, filosofia, estará novamente em presença de sua verdadeira inspiração.

A partir do exposto, não diria que a relação estabelecida por Merleau-Ponty, entre filosofia e pintura, altera nossa relação com a arte, pois como lhes disse, Merleau-Ponty não se propõe falar “de” pintura, mas “conforme” a pintura. Ora, e então como situarmo-nos em relação a isso? O referido abre-se como caminho, ou seja, leva-nos à compreensão do sentido de “conforme” a pintura. Desse modo, consideremos que é possível afirmar que Merleau-Ponty não desejou elaborar uma teoria estética, ou, dito de outro modo, que Merleau-Ponty, em seus escritos, não tomou a arte como unidade estética, isto é, como fundada em um sentir. Conquanto, caber-nos-á perguntar mais uma vez: como compreender o dito, se temos o hábito de tomar a arte, em sua origem, como intrinsicamente relacionada ao sensível? Estamos diante da seguinte situação: ao falar em expressão primordial – operação que constitui os signos em signos – Merleau-Ponty secundariza o plano do sentir, isto é, ele acentua o surgimento do sentido, em detrimento à especificidade do elemento sensível, a partir do qual esse sentido aparece. Assim, no caso da pintura, a obra surge à Merleau-Ponty como o suporte à articulação entre o dentro e o fora, obra que ao dar-se “na” expressão, realiza e revela um sentido novo. A ideia da ideia, reside aí… Grosso modo, Merleau-Ponty não está preocupado com a fruição da obra, mas com o processo de criação.  Atém-se, por assim dizer, ao movimento que vai da percepção à expressão.

 

50 Tons da Vida: a arte brota do cotidiano

Por Renata de Albuquerque

Roberto Livianu sempre soube que seria promotor de Justiça. Mas, só recentemente descobriu-se cronista. E a descoberta logo concretizou-se em “50 Tons da Vida: Crônicas da Nossa Vida” , que acaba de ser lançado pela Ateliê Editorial.

O fundador do Instituto Não Aceito Corrupção (que recebe o Prêmio Transparência e Fiscalização Pública em 2018) é autor e organizador de vários títulos, todos ligados ao tema da Justiça. “50 Tons da Vida: Crônicas da Nossa Vida” é seu primeiro livro de ficção e surgiu da ideia de publicar 50 crônicas para comemorar os 50 anos de idade do autor.

Mas, por que crônicas? “Sempre gostei de ler crônicas, desde a adolescência. É fácil nos identificarmos com esse tipo de texto, porque é curto, conciso. Sempre apreciei este gênero por permitir nele nos enxergarmos. Além disso, a crônica é, por natureza, um texto curto, inteligente e saboroso”, afirma o autor, que é leitor assíduo de Fernando Sabino, Lourenço Diaféria, Carlos Heitor Cony, Rubem Braga e Clarice Lispector.

Roberto Livianu: promotor e cronista

Ao contrário de muitos livros de crônica, entretanto, este “50 Tons da Vida” não foi feito para reunir uma seleção de textos. As crônicas foram escritas especialmente para o volume e de uma forma muito peculiar, que o próprio autor conta: “Meu filho sempre me provocava quando me via lendo crônicas. Ele dizia: ‘se gosta tanto de ler, quando vai começar a escrever as suas próprias, apenas quando tiver todas na cabeça?’. E eu nunca começava. Em dezembro de 2017 fui para Manaus dar uma palestra e numa confraternização aconteceu um bingo. O prêmio para o vencedor foi um pirarucu de 60kg. O voo entre Manaus e São Paulo demora mais de três horas. Então, aproveitei o tempo para escrever O Bingo Natalino do Pirarucu. Foi a primeira crônica que escrevi na vida”. Depois, Livianu escreveu mais duas crônicas: Ética da Bandidagem e Festa de Aniversário de Criança. A primeira inspirada em sua atuação profissional e a outra, na festa de aniversário de um sobrinho. “A partir daí surgiu a ideia de fazer 50 crônicas para comemorar meus 50 anos, que completei em julho em 2018”.

Livianu, que até dezembro de 2017 nunca havia escrito uma crônica, desafiou-se a si mesmo e, escreveu os 47 textos que faltavam para cumprir essa meta em apenas quinze dias. “Fui passar férias no Rio de Janeiro, mas choveu o tempo todo. Então aproveitei o tempo para anotar minhas ideias e transformá-las em crônicas”. Os temas são variados, mas têm como base a vivência pessoal do autor. “Cerca de 2/3 dos conteúdos têm base na realidade”, afirma.

O que as une é um olhar apurado que Livianu tem para o que chama de “miudezas” da vida: a percepção dos detalhes cotidianos, a vivência intensa da simplicidade, o “ver o que parece invisível”. “O que eu quero, com minhas crônicas, é compartilhar histórias e minha visão de mundo”, conclui.

Nós e as Palavras: textos sobre literatura portuguesa despertam interesse de leitores e professores

Levar a reflexão literária da academia ao leitor de literatura. Esta é a ambição de Nós e as Palavras, organizado pelos professores Patrícia Cardoso, presidente da ABRAPLIP – Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa – e Luís Bueno (autor de Capas de Santa Rosa). O livro, que surgiu a partir da proposta temática do XXVI Congresso Internacional  da ABRALIP, reúne textos de vários autores sobre o ensino de literatura portuguesa, a obra de autores portugueses e a circulação da literatura portuguesa em outros países. A seguir, os organizadores falam sobre a obra ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia de reunir em livro as reflexões oriundas do Congresso da Abralip? 

Resposta: A ideia de publicar os textos apresentados pode-se dizer que é natural. O objetivo de um Congresso é apresentar novas abordagens e ampliar o debate. E essa ampliação só ocorre de fato quando se olha para um público maior do que aquele que pôde estar no congresso, seja o público acadêmico, dedicado à área, seja um público mais amplo, de interessados e leitores em geral.

Qual a importância dessa compilação, em sua opinião?

R: A publicação desta coletânea faz parte do esforço de manter o debate vivo. São as novas abordagens, as descobertas críticas, as reflexões sobre o passado que permitem que a crítica e o pensamento se renovem. E se, como acontece neste Nós e as Palavras, reúnem-se reflexões diversas, com perspectivas diferentes, ainda é melhor. É mais uma ação de pensar a literatura portuguesa no Brasil, o que significa pensar a constituição cultural do Brasil e sua integração nesse universo tão amplo como é o da lusofonia.

 

Em sua opinião, o livro é destinado apenas a pesquisadores da área ou pode atrair o público leigo? Neste caso, o que este público pode encontrar que o interesse no livro?

R: O livro busca interessar um público que não seja apenas o de especialistas. A reflexão sobre literatura, de maneira geral, tem sempre a ambição de chegar ao leitor de literatura, de não ficar restrita aos estudiosos. No caso deste livro, há vários elementos por meio dos quais se procura atingir esse objetivo. É assim que nele o interessado irá encontrar uma grande variedade de temas. Há textos que tratam de questões importantes da literatura portuguesa, como a literatura medieval, as obras do Padre Vieira, de Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís, literatura contemporânea e literatura infantil, por exemplo. Mas também há toda uma sessão dedicada ao ensino de literatura em geral e de literatura portuguesa especificamente, assim como um conjunto de reflexões sobre a circulação da literatura portuguesa em outros países. Um outro elemento que enriquece o livro e pode despertar o interesse é o fato de ele trazer a experiência não apenas de professores que atuam no Brasil, mas também de colegas que atuam em outros contextos, como França, Itália, Suécia e Portugal.

 

Eça de Queirós

A questão do “tudo está dito”, que permeia o volume, se por um lado pode sugerir que não há mais nada a ser dito, por outro abre caminhos e possibilidades de reinterpretação; de lançar um novo olhar sobre o que já está posto. Como esta questão é tratada no livro?

R: O livro explora o grande desafio da crítica literária como uma prática reflexiva que sistematicamente se depara com abordagens canônicas as quais, ao mesmo tempo que servem de referência, constituem verdadeiros empecilhos para que novos olhares se lancem sobre os objetos de estudo. Assim, escritos por estudiosos com orientações acadêmicas diversas, os artigos que integram Nós e as Palavras são bons exemplos de exercícios de crítica literária que buscam lançar olhares renovados sobre temas e autores de grande representatividade.

 

De que maneira o Brasil lê literatura portuguesa hoje? Que implicações culturais há nesta leitura?

R: De um modo geral, a consolidação da produção literária brasileira, associada a um discurso de defesa de uma completa autonomia do Brasil em relação à matriz portuguesa, fez decrescer no nosso país o interesse pela literatura produzida em Portugal. Portanto, aquele espírito de autonomia orientou um processo que acabou por levar não apenas os leitores mas os próprios escritores ao desconhecimento de autores e temas antes intrinsecamente ligados ao contexto brasileiro de produção, como é o caso de Camões, do padre António Vieira, de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, entre tantos outros cujas obras contam-se entre as melhores produzidas no mundo. Trata-se, portanto, de uma perda no conhecimento de um repertório que muito contribui para compreender-se a própria cultura brasileira, o que  nela está em relação com a cultura portuguesa, a qual por razões históricas teve um papel determinante na formação da consciência literária entre nós. Os brasileiros foram-se distanciando de Portugal como essa matriz cultural. A prova de que a ignorância desses vínculos não representou seu efetivo apagamento é o que vem acontecendo nos últimos anos: no momento em que o país do fado transformou-se em destino turístico internacional, é com uma surpresa positiva que os brasileiros que o visitam ali se reconheçam. Este livro pretende contribuir para a consolidação desse reconhecimento de uma frutífera relação cultural através da literatura.

Quais são os principais “achados”, as novidades que este volume traz ao leitor? De que maneira sua leitura pode enriquecer o trabalho de professores da área de literatura (em geral)?  

R: O achado do livro é o próprio livro, como esforço de mapeamento da literatura portuguesa a partir de perspectivas variadas, de modo que a sua leitura se faça sem uma orientação fechada, restritiva. É a estratégia ideal para atrair tanto os que já conhecem os temas e autores abordados quanto aqueles que iniciam o percurso por essa literatura.

Um poema em homenagem a Jacó Guinsburg

Falecido no final de outubro, aos 97 anos, o tradutor, ensaísta e editor Jacó Guinsburg tem sido frequentemente homenageado, dada sua grande importância para o mercado editorial brasileiro. Autor de diversos livros, seu único título de poesias próprias, Jogo de Palavras, foi publicado meses antes de seu falecimento pela Ateliê Editorial.

A seguir, o arquiteto Jacó Sanowicz homenageia o grande editor com um poema, escrito após a leitura de “Jogo de Palavras”. “Li e reli os poemas durante uma noite quase inteira e de manhã resolvi escrever para ele. Sabia que era o único [livro] de poesia, apesar de [esta] estar embutida em todo o seu trabalho”, explica. Leia o poema a seguir:

 

parceiros parceiras,

ao jacó guinsburg

 

não me isento,

risco

corro o risco

que não risco

arrisco,

contrato refrato

distrato trato

no embalo

sussurro grito falo,

sangro aberto, forte,

meu norte,

verdadeiro magnético

imagético

declinado mágico

universo peito, pleito,

conceito respeito

Assinado: pelhtale