Duplo Canto e Outros Poemas

Esmeralda-azul anil

Ouro-vermelho-laranja

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Que são as cores da luz

Como as cores da matéria

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Que são esponsais sem nome

Seja da carne ou do sangue

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Paixão breve duma noite

Que queimou entre olho-mão

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Laranja-vermelho-ouro

Azul anil-esmeralda

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Arco-íris retornado

À sua nuvem de origem

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Que dizer sabe e só ele

Em sonho o sabor sem-cor

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Dizer sabe em preto-branco

O indizível ponto cinza

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François Cheng

do livro Duplo Canto e Outros Poemas

Tradução de Bruno Palma

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Semana da Poesia

Dia 14/3 é o Dia Nacional da Poesia. Reservamos a semana desta data para publicarmos algumas de nossas poesias para vocês apreciarem. Além disso, todos os livros de poesia da Loja Virtual estarão com desconto de 30%, até o dia 18, domingo. Comemore essa data ao melhor estilo, lendo poesia, e aproveite para descobrir novos autores!

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Cantiga de Nossa Senhora da Modéstia

do nicho elipse ontem fresta

sem coroa ou aura à sobretesta

sem louvor barroco à testa

cheia de graça em enfesta

lindeira de urbe e floresta

névoa ao olho imanifesta

oculta por imolesta

flor ou bem que se requesta

coração que se empresta

a nenhum juro infunesta

em seu sol tarde seresta

de som noite que se apresta

ao ardor deste à ânsia desta

dada mão furtiva ou presta

príncipes de brim voile em véstia

rímel pó rouge à arte honesta

na esquina de amor ou festa

ao cadente beijo da hora é esta

sua luz vertia em réstia

nossa senhora da modéstia

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Affonso Ávila

de R$ 36 por R$ 25,20

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Elementos de Semiótica Tensiva - Claude ZilberbergTraduzido por Luiz Tatit, Ivã carlos Lopes e Waldir Beividas, lançamento da Ateliê Editorial apresenta os principais avanços da semiótica tensiva que, desde a década de 1980, vem sendo construída pelo autor

Elementos de Semiótica Tensiva, de Claude Zilberberg, mostra como articular “intensidade” e “extensidade”, bem como os seus subprodutos: a tonicidade (tônica, átona), o andamento (rápido, lento), a temporalidade (breve, longa) e a espacialidade (fechada, aberta). Além disso, propõe novos conceitos para a descrição do sentido, reservando um espaço teórico especial para os acontecimentos inesperados. Reaproveita, em outras bases, algumas conquistas da retórica e mesmo alguns termos gramaticais que se tornaram imprescindíveis para a eficácia do atual modelo.

Apesar de se considerar um continuador das pesquisas semióticas desenvolvidas em três décadas (1960, 1970, 1980) por Algirdas Julien Greimas e sua equipe, Claude Zilberberg chegou a um modelo de análise do sentido bastante particular que, agora, pode ser avaliado nas páginas desta obra. Amante das “tensões, dos equilíbrios instáveis e dos dinamismos das estruturas” (expressões de Greimas), Zilberberg organiza nesse livro uma semiótica que transpõe as célebres articulações do quadrado semiótico e mesmo as diretrizes narrativas tradicionalmente acolhidas pelos teóricos da Escola de Paris. No final do livro há um glossário, que permite a consulta rápida ao caráter orgânico dos conceitos fundados pelo autor.

Claude Zilberberg, co-diretor do Séminaire Intersémiotique de Paris, é um dos mais eminentes semioticistas em atividade. Entre suas obras estão as seguintes publicações: Essai sur les modalités tensives (John Benjamins, 1981), L’essor du poème. Information rythmique (Phoriques, 1985), Semiótica tensiva y formas de vida (Univer- sidad Autónoma de Puebla, 1999), Ensayos sobre semiótica tensiva (Universidad de Lima/FCE, 2000), Tensão e Significação (co-autoria com J. Fontanille, Discurso Editorial/Humanitas, 2001), Sémiotique et esthétique (org., com F. Parouty-David, Pulim, 2003), Razão e Poética do Sentido (Edusp, 2006), Semiótica tensiva (Universidad de Lima, 2006).

Teatro Russo - O Globo

Prosa e Verso - O Globo

Clique aqui para ler a matéria completa

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Elena Vássina, Arlete Cavalieri

Esta publicação traz um amplo debate sobre os  mais variados aspectos, que  cercam a história e a estética da arte teatral na Rússia. O exame  atento da interação orgânica entre as diferentes linguagens, que conformam o ato teatral, confere aos textos aqui presentes extremo interesse pelo alto grau de inovação investigativa na abordagem de questões cruciais para os estudos do fenômeno do teatro, tais como a arte do ator e a do encenador, a função do diretor, o papel do dramaturgo e do texto literário,  a criação do cenógrafo e do coreógrafo na estruturação do texto cênico. Saiba mais

História do PT, de Lincoln SeccoHistória do PT, livro de Lincoln Secco, será o centro do debate no próximo dia  07 de março, quarta-feira, às 18h30, promovido pelo CEDEM – Centro de  Documentação e Memória da UNESP.

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Até hoje não existia uma história do PT abrangente,  sintética e com a experiência do poder. Nem mesmo oficial feita pelo próprio partido. É uma tarefa difícil para um historiador se manter  equidistante das correntes internas do PT e do próprio ambiente político em que o partido agiu. Lincoln Secco, sem negar a vinculação  que ele (e boa parte de sua geração) teve com o PT, sem exaltá-lo ou  atacá-lo gratuitamente, supera os inúmeros estudos de caso e teses  acadêmicas sobre o período de formação do partido e oferece uma visão de conjunto da trajetória petista. Em vez de escrever um livro acadêmico ele preferiu uma história ensaística voltada aos que  ”trabalham” com o PT: jornalistas, cientistas políticos, pesquisadores  estrangeiros e militantes políticos.

A obra visa também os jovens. Por isso, traz um mapa das  tendências petistas ao longo de sua história, glossário do jargão interno e cronologia. A obra  acompanha a trajetória petista desde a greve da Scânia em 1978 até a  vitória de Dilma Rousseff. Mostra como o PT passou de um ator social  radical a um integrante da ordem política estabelecida, cresceu  eleitoralmente, perdeu seu ímpeto militante e se tornou uma máquina de  governo, atravessando escândalos de corrupção, perseguições de seus  adversários e chegando a uma surpreendente hegemonia política no Brasil.

Expositor

LINCOLN SECCO

Graduação em História – USP

Mestrado e Doutorado em História Econômica – USP

Livre Docente em História – USP

Debatedores

MARCOS DEL ROIO

Graduação em História – USP, Mestre em Ciência Política – UNICAMP

Doutor em Ciência Política – USP, Pós-doutorado em Estudos Internacionais – Universidade de Milão

Professor da UNESP – Campus de Marília

JOSÉ RODRIGUES MÁO JUNIOR

Graduação em História – USP

Mestrado e Doutorado em História Econômica – USP

Professor do Inst.Fed. de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo  - IFSP –  Cubatão

Mediadora

MARISA MIDORI DEAECTO

Graduação em História – USP

Mestrado e Doutorado em História Econômica – USP

Professora da ECA – USP

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Participe e convide seus amigos!

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Inscrições gratuitas c/ Sandra Santos pelo e-mail: ssantos@cedem.unesp.br

Data e horário:  7 de março de 2012 (quarta-feira) às 18h30

Local: CEDEM/UNESP – Centro de Documentação e Memória

Praça da Sé, 108 – 1º andar, esquina c/ Rua Benjamin Constant (metrô Sé)

(11) 3105 – 9903 – www.cedem.unesp.br

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Bruno Palma dialogou sobre seu trabalho de tradução de poesias com os participantes do evento “Livro Falado”, organizado pela escritora Simone Homem de Melo, na Casa Guilherme de Almeida, no último sábado, 25. Dentre os presentes na palestra estavam Plinio Martins, Ivan Teixeira e Aline Sato. Veja algumas fotos abaixo.

Afinador de Passarinhos - Gil Perini

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Gil Perini

O Afinador de Passarinhos

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– A Duquesa ficou louca!

Assim, sem um alô nem nada, o Codé me recebeu na porta da casa, assustado. Não teve abraço, gritaria, nada dessas comemorações barulhentas que a italianada costuma fazer nos reencontros.

Eu tinha acabado de chegar. Desembarquei da Mogiana, deixei a mala na chácara da beira da linha e desci. A velha Santa Rita lá, dentro do buraco, esparramada pelas encostas suaves que margeiam os dois córregos, semelhava cadáver insepulto abandonado em cova rasa. Casario decadente, torres de igrejas, mangueiras nos quintais.

– Morreu?

– Ainda não. Avança em todo mundo. Dois dias sem comer nem beber. Alguém tem de matar ela; ninguém tem coragem. Vai ocê, Goiano.

Fui empurrado portão adentro e chegamos à varanda. Estavam todos lá, o bando de adolescentes ao redor da mesa, triturando uma baciada de laranjas pannazias. O Vitório me entregou a doze.

– Está carregada. Vai, vai.

Rodeei o cômodo da lavanderia e desci. Atrás do monte de lenha, amarrada, encontrei Duquesa, a pointer miúda que nos ensinara a caçar codornas. A mestra, que não ficava muito perto para que o caçador não espantasse a caça, nem tão longe que não a pudéssemos controlar, e que amarrava com elegância, levantava com vigor e trazia à mão, nas raras vezes em que acertávamos o tiro, rosnou, latiu e esticou a corda que a prendia. Em nome da caridade, eu deveria sacrificá-la.

Quem, um dia, já caçou com um perdigueiro, sabe o que vou dizer: ela me olhou de frente e ganiu. Parece que, por um instante, entre lucidez e loucura, ao ver a espingarda e o homem, Duquesa achou que iríamos caçar. Abanou o rabo, fez festas, ganiu novamente e avançou. Vi Duquesa trilhando codornas imaginárias; lembrei Baleia e suas preás gordas no céu.

Levantei a arma, fiz pontaria. A imagem de Duquesa diluiu-se à minha frente como se refletida em poça d’água soprada em manhã de vento. Fechei os olhos, senti um gosto de sal, apertei o gatilho.

Não me lembro do fragor do tiro, mas não consigo esquecer o silêncio que veio depois, só quebrado pelo empregado do armazém, que saiu arrastando alguma coisa pelo quintal coberto de folhas.

Retornei à varanda e eles ainda estavam lá. Ninguém disse palavra; viraram-me as costas. Mãos nos bolsos, saí calado como cheguei. Na rua, nem uma lata pra chutar.

Depois, reclamei da frieza da turma e o Codé disse que eles não queriam que eu os visse chorar; não ficava bem para caçadores. Foi bom. Eu também não queria que vissem como eu estava.

Até hoje penso que não foi com o tiro: foi com aquele silêncio que se seguiu que matei o caçador. O que estava dentro de mim e que eu, na verdade, não queria ser.

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Prêmios do livro: Melhor capa no Creativity Awards e no How Design Awards

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O Artista

Acabo de sair do cinema, onde optei – entre tantos filmes em cartaz que gostaria de ver – assistir a O Artista, com direção e roteiro de Michel Hazanavicius: um filme mudo sobre filmes mudos. A obra estreou no Brasil no último dia 10 e conta com dez indicações ao Oscar (entre elas, Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante – Bérénice Bejo) já tendo abocanhado três Globos de Ouro (Melhor Comédia/Musical, Melhor Ator – Jean Dujardin e Melhor Trilha Sonora).

Já no letreiro de entrada uma viagem no tempo começa. Com as características letrinhas tremidas e barulhinho de filme de rolo, o filme é introduzido com a mágica nostalgia dos anos 20. Ambientado nessa década, o enredo tem como principal personagem George Valentin, um célebre ator de filmes mudos da época, interpretado excepcionalmente bem por Jean Dujardin. Casado, bem-sucedido e com grande aceitação do público, George Valentin contracena com Peppy Miller – interpretada por Bérénice Bejo – em um dos pontos altos de sua carreira artística. Com direito a muita dança, música e sorrisos, os atores interpretam seus papéis no melhor estilo cinema mudo: com movimentos afetados, expressões faciais exageradas e uma alegria quase que desesperada. Ao longo dos anos, porém, o cinema mudo sofre ameaças devido ao surgimento do novo cinema; o falado. Os diretores, pensando sempre em agradar ao público, rapidamente começam a trabalhar a fim de produzir novos filmes que seriam sucessos de bilheteria, enquanto os atores se veem obrigados a adaptar-se. Entretanto, para uns é mais fácil do que para outros. Enquanto Peppy Miller está sempre em ascensão profissional, George Valentin se recusa a participar desse novo futuro: se aquele era o futuro, que os outros ficassem com ele. A partir daí a história se desenrola com vários momentos de tensão, alegria, romance e um inteligente humor.

Com brilhantes atuações – incluindo a do cachorro – o filme trata com sensibilidade de um momento histórico, de inseguranças, de atitudes e emoções humanas e possibilita reflexões a respeito de situações similares pelas quais o mundo passou, está passando e ainda passará, pelo menos enquanto houver o avanço tecnológico. Os figurinos e cenografia trabalham para uma ambientação realista, enquanto a sonoplastia e fotografia são recursos usados de forma muito inteligente de acordo com o momento do enredo.

O fato de o filme ser mudo envolve o público de uma forma diferente; em certos pontos é possível escutar com maior facilidade o choro do senhor que se sentou à sua frente, o suspiro da mulher ao seu lado, ou o seu próprio leve riso de carinho por um personagem ou cena. Isso gera uma espécie de cumplicidade entre as pessoas presentes na sala e faz com que todos percebam o tipo de experiência que o cinema pode proporcionar.

Absolutamente impecável, O Artista vale cada centavo do ingresso, cada indicação ao Oscar, cada choro e riso que provoca na plateia. É um filme realmente mágico, capaz de entrar na alma do público, consequência do visível esforço de todos os envolvidos na sua produção. Com todo mérito que lhe cabe, eu parabenizo e agradeço a execução de O Artista, pois creio que enquanto existirem no mundo manifestações artísticas desse nível ele será um bom lugar para se viver.

Cinema - Laura Ammann

Lição AproveitadaA partir de Amar,Verbo Intransitivo, obra-prima do Modernismo, livro mostra como Mário de Andrade “escreveu” um filme ou “viu” um livro e pode ajudar na leitura de qualquer outro filme

O livro A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade, escrito por João Manuel dos Santos Cunha e publicado pela Ateliê Editorial, foi originalmente a tese de doutoramento que o autor apresentou ao Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Esta obra apresenta uma versão reduzida do que foi a tese, embora mantenha a estrutura, as hipóteses e as conclusões relativas à pesquisa original. Este texto ainda incorpora as contribuições da Comissão Examinadora composta pelo cineasta e professor Nelson Pereira dos Santos (UNB e UFF), pelos doutores Telê Porto Ancona Lopez (USP), Marcia Hoppe Navarro (UFRGS), Robert Ponge (UFRGS), e também da orientadora Tânia Franco Carvalhal. Este livro situa Mário de Andrade na posição de “mestre” e reitera a sua contribuição para a cultura brasileira, destacando mais essa sua vertente: possibilitar a leitura da relação entre literatura e cinema no âmbito do Modernismo brasileiro. João Manuel dos Santos Cunha, como professor e crítico de cinema, sempre defendeu essa análise, de que é possível associar a paixão pelo cinema e a formação literária.

“No vasto campo dos estudos de literatura comparada, o professor João Manuel dos Santos Cunha escolheu como tema o encontro de Mário de Andrade com o cinema. O autor seduz, ‘andradinamente’, com todas as informações hoje disponíveis sobre as relações do cinema com a literatura, o que faz deste livro leitura obrigatória tanto nos cursos de letras como nos cursos de cinema. Para os que fazem cinema, na teoria e na prática, ou para aqueles que apenas veem filmes, este livro nos desvenda prazerosamente a mágica inventora de uma obra-prima do Modernismo brasileiro, Amar, Verbo Intransitivo. De como Mário de Andrade ‘escreveu’ um filme, ou ‘viu’ um romance.” (Nelson Pereira dos Santos em 13.03.1999 – participou da Comissão Examinadora da tese de doutoramento do autor)

João Manuel dos Santos Cunha é professor na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura Comparada (UFRGS), mestre em Literatura Brasileira (UFRGS), com pós-doutorado em Literatura e Cinema (Sorbonne-Nouvelle, Paris III). É também autor dos livros Mito e Cinema (EDUFPel) e A Tradução Criativa – A Hora da Estrela: Do Livro ao Filme (Mundial; EDUFPel), além de diversos artigos e ensaios publicados em revistas acadêmicas no Brasil e no exterior.

Escritas do DesejoEscritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise (Ateliê Editorial) é o tipo de livro indispensável àqueles que se interessam pela relação – fecunda e ambígua – entre literatura e psicanálise. Mas será útil também ao leitor que, interessado em cultura e ciências humanas, se dispuser a viajar, isto é, a lançar-se em busca do novo.

Onze são os ensaios que compõem o volume – organizado por Cleusa Rios P. Passos e Yudith Rosembaum. Além das organizadoras, assinam os capítulos: Adélia Bezerra de Menezes, Leda Tenório da Motta, Noemi Moritz Kon, Camila Salles Gonçalves, Philippe Willemart, Renato Mezan, Leyla Perrone-Moisés, Maria Rita Kehl e Márcia Marques de Morais. Como se vê, autores consagrados.

Conforme escrevem as organizadoras na Breve Apresentação, a maioria dos ensaios “compôs um colóquio sobre „Crítica Literária e Psicanálise‟, organizado em 2008, pelos departamentos de Teoria Literária e Literatura Brasileira da USP”. Talvez por isso, em que se pese a densidade das reflexões, a leitura seja fluida e agradável.

O conjunto, além da Breve Apresentação, é dividido em três partes: A Experiência e o Verbo, A Palavra Encobridora, A Emergência da Palavra. A primeira parte traz ensaios que mapeiam as articulações entre literatura e psicanálise enquanto uma problemática relevante. Vejamos, a propósito, o capítulo de abertura, “A Palavra Poética: Experiência Formante”, de Adélia Bezerra de Menezes. Ao finalizar a reflexão com a análise de poemas de Ferreira Gullar (“Traduzir-se”) e de Adélia Prado (“Arte”), Adélia Bezerra de Menezes é, também ela, inspiradora: “Essa coisa visceral, em que lateja um ritmo, está na imagem da tripa, mas também na do coração: o que o caracteriza, quando pensamos nele, é a sua presença acústica, antes de maisnada: o tum, tum; tum, tum: o pulsar”. Com efeito, tanto a literatura quanto a psicanálise lidam com o ritmo da vida – na e pela palavra.

Noemi Moritz Kon, ainda na primeira parte, habita a “íntima” e “conflituosa” relação entre “a psicanálise e a arte – e a literatura em particular”. Sua reflexão explora desde as ambiguidades de Freud com a figura do artista e a própria arte, até as aproximações e limites entre a psicanálise e a literatura, sobretudo a fantástica, por meio, dentre outros, de Merleau-Ponty, Barthes e Foucault. Escreve Kon: “Penso que, apesar das inclinações de Freud e de seu temor quanto a uma cumplicidade com o trabalho criador do artista, compreendido como anverso do trabalho do cientista que ele pretende prioritariamente ser, o que liga o ato psicanalítico ao ato artístico é justamente a capacidade criadora”.

Se a Parte I procura mapear um campo mesmo de diálogo entre literatura e psicanálise, a Parte II, A Palavra Encobridora, aborda problemas de pesquisa, ou seja, as reflexões são norteadas por uma questão. Sugestivamente, o ensaio que abre a seção, de Camila Salles Gonçalves, dialoga o tempo todo com o texto de Freud “Lembranças Encobridoras” (1899), em companhia, dentre outros, de Theodor Adorno, Isaias Melsohn e Fabio Herrmann. Vale citar o arremate de Gonçalves: “[...] há uma fabricação inconsciente dessa recordação bucólica, que encobre outros sentidos sob sua aparente banalidade. Acompanha um tipo de verdade que a literatura freudiana compõe, ainda que se esmere em demonstrar que o texto está além do princípio do prazer do próprio texto” (grifo meu). Isto é, à ânsia de elevar a psicanálise a um, digamos assim, estatuto de ciência, o pai da psicanálise cai (felizmente) na própria armadilha. Desencobre-se em Freud, a partir de Freud, uma verdade mais afeita à literatura do que à ciência.

A Parte III, A Emergência da Palavra, apresenta análises de poéticas, conjunto de obras de um autor, ou um conto literário, sempre na interface da literatura com a psicanálise. No ensaio “Bovarismo e Modernidade”, Maria Rita Kehl vale-se da expressão fundada a partir de Emma, célebre personagem do romance Madame Bovary, de Flaubert, para refletir o bovarismo nacional presente em Machado de Assis e a permanência desses traços no contexto

contemporâneo. Mas não nos apressemos. O que seria “bovarismo”? Leiamos com a psicanalista: “O termo já se incorporou ao senso comum, mas vale lembrar que é uma expressão cunhada pelo psiquiatra francês Jules de Gaultier em 1902 [...] a fim de designar „todas as formas de ilusão do eu e insatisfação, desde a fantasia de ser um outro até a crença no livre-arbítrio‟”. Mas, como nos lembra Kehl, a possibilidade de tornar-se um outro, nas sociedades capitalistas, está inscrita no laço social. O problema está colocado, portanto. E, se “tornar-se um outro implica reconhecer o caráter simbólico da dívida para com os antepassados, de modo a não se deixar capturar pelas armadilhas da culpa”, o problema transforma-se em “uma das figuras mais expressivas da subjetividade moderna”, podendo ser encaminhado, também, pela psicanálise.

E muito mais poderia ser dito a respeito destes e dos demais ensaios de Escritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise. Se, como diz Lacan a partir de Hegel, “o desejo é o desejo do outro”, a leitura dessas “escritas” irá, com efeito, nutrir o leitor desejoso por compartilhamento – um dos alimentos de que mais necessitamos.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo