Caravanas comentado

A pesquisadora Adélia Bezerra de Meneses, autora de Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque e Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque, comenta faixas do novo álbum de Chico Buarque, Caravanas:

Adelia Bezerra de Meneses

Dueto fornece o pretexto para uma  parceria de intérprete com  Clara  Buarque, um belo e afinadíssimo  dueto avô/neta. E é essa mesma parceria de gerações  que aparece, desta vez no processo da  composição, com  Chico Brown, que compôs a melodia de Massarandupió e a enviou ao avô. Chico  Buarque fez a letra e a ofereceu ao neto no dia do seu aniversário de 20 anos.  Entre  os jogos verbais   costumeiros  — … pió, piá, psiu  —  Chico Buarque  desvela experiências da meninice do neto, toda a convocação de uma infância de praia e areia e música, de mar e seu xuá. Uma infância que, no desejo,  deveria ser infindável,  que  na ampulheta do “relógio de areia”  seria  interminável:  “Devia o tempo de criança ir se  / arrastando até escoar, pó a pó / Num relógio de areia o areal de / Massarandupió.”  Mas a canção chega ao fim, a infância também teve que acabar: “Ó mãe, pergunte ao pai / quando  ele vai soltar a minha mão / Onde é que o chão acaba / E principia toda a arrebentação”.  Efetivamente o pai já deve ter soltado a mão do piá, que cresceu. E é como músico que o bacuri crescido  reencontra o avô, parceiro forte  pra aguentar “toda arrebentação” da vida.

Em Blues pra Bia o eu lírico propõe-se a  virar  menina pra poder namorar  a Bia, em cujo coração “meninos não têm lugar:   “Compus doce melodia / pra ela se enternecer / Rimei com melancolia / Meu dia a dia sem Bia / mas Bia não quer saber”.

Em  Desaforos,  abordando com humor ,  leveza  e ironia o ódio  das polarizações ideológicas, e que das redes sociais extravasou pra rua,  estabelece-se  um jogo  entre ferir/ proferir/ desaforo: “E que até proferes desaforos pro meu lado”, levando-se em conta a ambiguidade do termo “lado”, que significa não somente “direção”. Porque Chico tem lado, contrário ao de quem o desacata,  a dama  “florescida num viveiro /E em salões que nunca vi(u)”,  e a quem ele confessa  que nunca beberam do mesmo regato.

Na mesma linha , em  Casualmente,   o eu poético, com  sutileza e fina ironia,  responde aos “Vai pra Cuba!” que sempre lhe atiram,  contando  ter ouvido  uma canção … em Havana :  “No volverá nunca más / la canción sentimental /Que casualmente em La Habana / escuché cantar a uma mujer /Como ya no veré / Otra vez nada igual”.

Mas é na canção Caravanas – que não por acaso dá título ao CD inteiro  (assim como a canção  “Construção” , de 1971, foi usada para nomear o disco saído nesse ano) – que Chico ascende ao nível épico.  Caravanas  já nasceu  um clássico, uma obra prima, abordando  com contundência uma questão que é modulação  de antigo problema.  Não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro assiste-se a uma maré crescente de xenofobia (de xenos = estrangeiro, e fobia = medo ), agudizada com a questão das migrações, dos deslocamentos humanos,  dos êxodos de motivação  política ou econômica, em todo o globo;  e da exclusão social.  Medo:  medo do Outro diferente, seja ele mulato nordestino, preto pobre ou muçulmano  — alguém que  não tem nada a perder e que pode por em risco o espaço  e os bens dos mais ou menos abonados.  E que, demonizado, facilmente será  confundido com um terrorista, apavorando a gente “ordeira e virtuosa”. Efetivamente,   essa canção  trata  em primeira linha das descidas em grupo dos habitantes de morros  e favelas do  Rio de  Janeiro  para as praias da Zona Sul  —  sendo  interpretadas na  maioria das vezes como “arrastões”, provocando medo insano .  E, carreada pelo título – Caravana vem da palavra árabe  “qairauân” —  virão  as ambiguidades e os sentidos condensados do mar turquesa à la Istambul (trata-se do azul turquesa do mar do Rio de Janeiro, claro, mas não se pode esconder a raiz “turco”    que a palavra embute ),  ou  de  Arará  que é mais do que uma favela carioca  ( sabemos que o monte Ararat  é, na Bíblia,  o maciço localizado na Armênia,  onde parou a Arca de Noé, após o Dilúvio), ou do Jardim de Alá  —  a presença árabe é dominante na canção.

É inevitável estabelecer-se um parentesco com  Subúrbio, de 2006,  em que Chico convoca a periferia do Rio de Janeiro para que tome a palavra, dizendo que lá  “Não tem moças douradas /  expostas” (alusão à “Garota de Ipanema”,  de Vinicius e Jobim),  “Não tem turistas/Não sai foto nas revistas”. E sobretudo,  paroxismo da negatividade, verifica-se  uma coisa que no início é apresentada  no  positivo  (“lá tem”), mas violentamente negada na segunda metade da frase:  “Lá tem Jesus, e está de costas”. É essa uma expressão  de um potencial crítico extraordinário: apesar de  a imagem do Cristo do Corcovado ser vista também do subúrbio, ele  “está de costas” – com toda a simbologia do gesto e da expressão “dar as costas”. Mas  é muito interessante que, em “Subúrbio” , Chico Buarque se proponha a dar voz  a essa periferia – que fala pelo “rap”: “Fala, Penha/ Fala, Irajá/ Fala, Olaria/Fala, Acari, Vigário Geral/Fala Piedade / Fala Paciência… “ etc.

Volto a Caravanas: a alusão ao mundo potencialmente terrorista é inequívoca: “  Não há barreira que contenha esses estranhos /suburbanos tipo muçulmanos”.  A estranheza do Outro que ameaça a minha zona de privacidade (e propriedade privada)  tem que forjar bons motivos de exclusão: “diz que malocam seus facões e adagas  / Em sungas estufadas e calções disformes”. E assim como acontece   na literatura  racista relativamente aos negros, em que se superdimensionam seus atributos sexuais para mostrá-los mais perigosos, aqui também, o diz-que-diz religa sexualidade e violência: “Diz que eles têm picas enormes / e seus sacos são granadas”. Além disso, alude~se aos “negros torsos nus”  que deixam em polvorosa/  a gente ordeira e virtuosa que apela / pra polícia despachar de volta / o populacho pra favela / ou pra Benguela, ou pra Guiné.’ Chegamos aqui, inevitavelmente, ao núcleo  histórico da exclusão social deste país marcado pela mola social da escravatura: com a  alusão a Benguela e a Guiné, chegamos ao ponto inicial,  que  os versos finais da penúltima estrofe só fazem pontuar: “E essa zoeira dentro da prisão  / Crioulos empilhados no porão / De caravelas no alto mar”. Voltamos ao tempo do tráfico de escravos, ao navio negreiro.  No entanto,  é do tempo atual, do tempo de agora , a  invectiva “Tem que bater, tem que matar / engrossa a gritaria”., não?  E aqui, numa fórmula condensada, é oferecida uma genealogia à raiva, uma ligação entre medo-raiva-covardia: “filha do medo, a raiva é mãe da covardia”.   A violência seria total, mas a canção finaliza com uma dúvida . em suspenso: “Ou doido sou que escuto vozes/ Não há gente tão insana / Nem caravana do Arará.”    Será?

 

 

As canções preferidas

Conheça quais foram as canções de Chico Buarque que a pesquisadora Adelia Bezerra de Meneses na enquete da Folha de São Paulo, que elegeu “Construção” a canção mais icônica do compositor. Ela é autora de Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque e Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque,

CALA A BOCA BARBARA

Uma das mais intensas canções eróticas, que no entanto pode ser lida também no registro político. Há aí uma sobreposição das imagens da mulher e da terra (teluricamente considerada, com seus rios e  braços, relva e vazantes);  da mulher e da pátria pela qual se luta (nas trincheiras, nas entranhas). O refrão, à força de repetição,  recompõe o nome amado, o nome interdito: “CALA a boca BÁRbara”  —  CALABAR.

 

TODO SENTIMENTO      

Inapelavelmente lírica,  consagrando entre nós  a expressão “tempo da delicadeza”, essa canção redimensiona a categoria “tempo” (em violenta contraposição a “Roda Viva”, por exemplo). Só a maturidade poderia desvendar essa dimensão, a da reparação:  “preciso descobrir / no último momento / um tempo que refaz o que desfez / que recolhe todo o sentimento / e bota no corpo uma outra vez”.

 

O QUE SERÁ

Alçando os marginais e desvalidos a protagonistas da História  nessa sociedade de tão fundas sobrevivências oligárquicas, essa é uma grande canção  utópica, visionária e épica: um canto libertário e político, em que lateja o Eros do povo.

 

CONSTRUÇÃO 

Construção é realmente um texto emblemático da poesia “social” de Chico Buarque, um testemunho doloroso das relações aviltantes entre o capital e o trabalho. Nessa canção, tanto o protagonista (um elemento do proletariado, operário não qualificado da construção civil ) , quanto o enredo (a morte subsequente à queda dos “andaimes pingentes” , atrapalhando o sábado e o tráfego) e o tema dessa canção (a reificação do ser humano, e seu posterior aniquilamento, devido a condições de trabalho desumanizante) fazem dela uma canção paradigmática da “vertente crítica”. Mas o que é extraordinário é que essa canção que passa com tamanha força um recado social, seja uma das de mais rigoroso travejamento formal, e na qual a crítica à sociedade se faz através da linguagem. Com efeito, se formos analisá-la, além da intercambiabilidade das proparoxítonas, que apontam para o caráter eminentemente “substituível” daquele ser humano,  vemos que se deflagra, depois da queda e  morte do pedreiro,  uma desarticulação da linguagem, que se torna um ícone do corpo despedaçado do pedreiro, e do corpo social fragmentado. ”. O pedreiro sobe para cair: é essa a única ascensão que a vida lhe permite. E o resultado da queda é o despedaçamento. “Este é um tempo de homens partidos”, diz o Drummond de “Nosso Tempo” (referindo-se, por sinal, a uma outra Ditadura, a da época getulista). Construção é de um disco de 1971. Realmente, o mundo dos exílios, prisões, torturas e morte é um mundo dilacerado, desintegrado. Mundo da fragmentação, mundo de “homens partidos”. Em “Construção” pode-se decodificar não apenas o “problema social” do operário não qualificado, que se expõe à morte pela precariedade das condições de trabalho, mas, alargando-se o campo, pode-se ver aí a alegoria do corpo social fragmentado, de uma sociedade desintegrada e mutiladora, que isola os indivíduos.  Como nas grandes obras primas, detecta-se em sua estrutura as linhas de força da sociedade na qual ela foi engendrada.

Chico Buarque em Caravanas

Por Renata de Albuquerque

Chico Buarque acaba de lançar um novo álbum. Caravanas chega ao público seis anos depois do lançamento de Chico, mais recente trabalho de inéditas. O lançamento já seria, por si, um acontecimento, já que Chico Buarque é um compositor cultuado e fundamental na cultura brasileira. Mas, além disso, a faixa “Tua Cantiga” recebeu críticas pelo conteúdo que teria um viés machista (na letra, um homem diz à amante que largaria mulher e filhos para ficar com ela).

Para falar sobre o novo disco, o Blog da Ateliê convidou Adélia Bezerra de Meneses, professora de Teoria Literária e pesquisadora da obra de Chico Buarque. Ela é autora de Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque e Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque. Além disso, foi uma das personalidades que elegeu, em enquete da Folha de São Paulo, “Construção” como a canção mais icônica de Chico Buarque.

Quais são suas impressões sobre o novo trabalho de Chico Buarque?

Adelia Bezerra de Meneses: O alto voo dos  trabalhos do Chico se mantém neste último disco  – e isso é extraordinário:  ao longo de mais de 50 anos,  continuam a ser  fabricadas  obras primas!   Não apenas musicalmente, melodicamente , onde ele atinge um nível de sofisticação  que por  vezes demanda  uma escuta mais exigente (mas esse aspecto deixo aos críticos musicais  para se pronunciarem),   mas como  artista da palavra, como poeta. Ele  continua a nos “traduzir”, a nomear, a colocar em palavras sentimentos e emoções não verbalizados,  situações humanas de alta voltagem, e que se não fosse por sua poesia,  permaneceriam não formulados,  literalmente inarticulados.

 

Em um momento político tão complexo e sendo a senhora autora de “Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque”, como avalia o novo disco, sob este aspecto em especial?  

ABM:Toda poesia, toda produção literária, é engendrada de um solo histórico-social, Isso não significa que os dados “políticos”  tenham que aparecer tematicamente.  Mesmo canções inapelavelmente líricas, como “Tua Cantiga”, “Dueto” ou “Casualmente”  , que se afiguram como apolíticas, são “poesia-resistência”:  recusam a realidade opressora e massificadora, contrapondo-lhe a força do afeto.  Pois dizer o afeto numa realidade social adversa, em que até as emoções são terceirizadas, é resistir. Mas neste disco  Chico também  tematiza questões candentes.  Por vezes em filigrana. E entre os problemas da nossa época   (para além da corrupção e do desmoronamento político, bem como da perda da utopia) estão a polarização política, com o acirramento da Direita  e todos os retrocessos sociais  que daí derivam , engendrando um ódio destilado não apenas nas redes sociais, mas que escorre como bile nos confrontos e encontros de rua; e a  xenofobia, o medo  frente ao Outro,  o medo daquele que foi excluído, mas que pode aparecer e reivindicar seu espaço. Pois bem, esse novo CD do Chico  atravessa essas  questões,  tematiza embates com essa  direita  açulada, mas  sempre utilizando a ironia .

 

Houve uma importante discussão em torno da letra supostamente “machista” de “Tua cantiga”. Como autora de “Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque”, qual sua opinião a respeito?

ABM: Mais uma  vez, avulta  a estridência do politicamente correto por parte dos patrulheiros de plantão, que não entendem direito, mas se arvoram em censores.   Lembro-me de o Chico contar em entrevista que , quando compôs “ Mulheres de Atenas”, foi criticado porque o refrão dizia “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”… Como ele  poderia propor que essas mulheres, tão submissas, servissem  de exemplo? ).  Em relação a “Tua Cantiga”, há duas coisas a serem observadas: a primeira é que  o “eu lírico” ou “eu poético” não é identificável  ao autor-pessoa física, com RG e CPF, que escreveu (ou não)  “essas rimas”: o eu lírico é construção. A segunda é que  essa canção, que ilustra o lado inapelavelmente lírico de Chico cantor do amor, filia-se – enquanto tom e enquanto postura emocional  (não falo do aspecto formal) –  ao gênero de  uma “Cantiga de Amor”,  entroncada no Trovadorismo Medieval (séculos XII a XV),   em que a dama era a “senhora”  absoluta  do trovador.Os índices  de um amor nesse modelo – suspiro, lenço,  perfume, o soprar o nome, o vigia, o seguir de joelhos, a rainha (cruel,  talvez), a obediência incondicional (“deixa cair um lenço / que eu te alcanço / em qualquer lugar”) , o cuidado (“silentemente / vou te deitar / na cama que arrumei”), o serviço amoroso (“pisando em plumas / toda manhã / eu te despertarei), as juras de amor ( “Mas teu amante / sempre serei / Mais do que hoje sou”),  a aceitação da não reciprocidade…  tudo isso remete às   Cantigas Medievais,  sob o signo da vassalagem amorosa,  cujo tema era exatamente o sofrimento,  a “coita de amor”. (“Coita”: daí se originou a palavra “coitado”) . Sabemos que o amor cortês implica, por parte do “amador”,  uma paixão incondicional,  que infringe  regras e leis – aliás, há um traço necessariamente antimatrimonial nessa ligação, nos quadros do mundo feudal. Amor como força soberana, suserana, amor  vassalo, paixão avassaladora ,  que nem reciprocidade exige (“Entre suspiros/ pode outro nome / dos lábios te escapar/), embora aí lateje  o ciúme  (Terei ciúme / até de mim / no espelho ), num patamar de pura adoração: “na nossa casa / serás rainha”;  “de joelhos vou te seguir” – o poeta é um “precator”, um suplicante, e por  detrás de sua  súplica  paira necessariamente  a sombra do adultério. Só fora do casamento  oficial (encarado como aliança de interesses outros que os afetivos),  esse  amor poderia  existir, representando a primazia do sentimento sobre o institucional.  Dessa perspectiva, o  “largo mulher e filhos”  é  metáfora do amor absoluto, avassalador,  que infringe regras e vibra no diapasão  da experiência passional.

Deve-se censurar a Camões, que fora dos quadros do amor trovadoresco, em pleno século XVI, diz  num dos seus poemas que vai “servir de giolhos”  (joelhos) sua amada? Ou Shakespeare, por ter criado um Otelo tão inconveniente nos seus ciúmes?  A Poesia é “mimese”,  é representação do real, e o real não segue nenhuma cartilha de bom comportamento.

Vivemos  num caldo cultural em que várias águas se misturam: e há traços do amor (e como todo elemento humano, o amor é historicizado)   que subsistem e que atuam … e que , deitando raízes lá no século XII,   como no caso, existem  para além da época em que foram  expressos, e que são constituidoras da vivência amorosa dos seres humanos de outros tempos e de outros espaços.  Por sinal, qual é o “nosso tempo”  a que se refere a última estrofe?  (“E quando o nosso tempo passar / Quando eu não estiver mais aqui /lembra-te, minha nega / desta cantiga que fiz pra ti”) .  Eu apostaria na ambiguidade: o nosso tempo seria o tempo do Trovador do século XII que faz uma Cantiga de Amor à sua senhora  e do eu lírico do século XXI, que vive uma  paixão avassaladora e faz uma CANTIGA   para  sua “nega”.

Conheça as canções em que Adelia Bezerra de Meneses votou

Adelia Bezerra de Meneses comenta as canções de Caravanas

Orestes, tragédia atípica em que é preciso ponderar riso e dor

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Tradução (30 de setembro), a Professora Titular de Língua e Literatura Gregas (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa fala do trabalho de tradução da tragédia Orestes, de Eurípedes, recém-lançada pela Ateliê Editorial. Ela, que é diretora da Trupe de Tradução de Teatro Antigo (Trupersa) e coordenadora do Grupo de Tradução de Teatro (GTT/CNPq/UFMG)  revela, na entrevista, como foi o processo inovador que gerou o livro, e que demorou cerca de dois anos:

Como foi o processo de tradução?

Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa: O processo foi doído e divertido a um só tempo; aliás, isso é o que se espera de uma tragédia: prazer e dor.

O que diferenciou este trabalho dos anteriores (Medeia e Electra)?

TVRB: Com o Orestes a tática mudou; desta vez, traduzi o texto sozinha, sempre de madrugada (passava por momentos difíceis em casa, havia um ente querido em estado terminal e eu cuidava dela: era minha mãe…). A tradução era tempo de relaxamento e divertimento (Orestes tem trechos bem cômicos, é uma tragédia atípica). Depois de traduzido, submeti à Truπersa, para experimentação cênica, o texto. A partir daí voltamos a refazer tudo coletiva e funcionalmente, foi bom, muita briga (ágones gregos) e gargalhadas.

Quais foram os mais importantes desafios desta tradução?

TVRB: Em primeiro lugar o numero de versos: 1693 versos, para serem ajustados coletiva e cenicamente é muito; em segundo lugar foi o tom; ponderar riso e dor é coisa delicada, há medida certa em tudo. Além de, é claro, o distanciamento da Grécia antiga com o Brasil.

 

Qual background foi levado em conta (traduções anteriores, textos críticos etc) para compor este volume?

TVRB: Continuamos com a ideia de horizontalidade entre texto e cena; com os pressupostos de Augusto Boal, Paulo Freire e Millôr Fernandes. Desta vez, o prefácio de Paulo Rónai para Tutaméia foi importantíssimo. Lemos muito Guimarães Rosa e traduzimos com a dicção deste escritor; filosoficamente, nossa base foi René Girard e Michel Serres, há uma pitada de  Artaud e uma outra de Dubatti e muita, muita leitura dos comentadores antigos.

O dramaturgo francês Antonin Artaud

Qual o diferencial dele, em relação a outras traduções anteriores?

TVRB: Aprendemos mais; estamos mais maduros, menos ‘revolucionários’, mais seguros. Lidamos, ainda, de modo eclético com as intertextualidades, contudo, ficamos melhores nesse ‘malabarismo’, queremos que seja assim porque entendemos ser preciso inserir o teatro ático na cultura brasileira. Não é difícil, brasileiro adora teatro, sobretudo teatro antigo com suas paixões violentas e arrebatadoras.

 

O texto de apresentação traz o seguinte trecho: “Inaugurada na Antiguidade, a tragédia foi um fazer da polis ateniense, um instrumento eficaz de inserção de todos na realidade da convivência político-religiosa e na projeção de enfrentamentos dos problemas humanos. O teatro ático, por conseguinte, se moldou como um ensaio geral para a ação em tempo real e na vida pratica; tais textos, ademais, eram de fato eventos para todos, eles se convertiam em ação real”. Como conciliar a tragédia grega e o público do teatro do século XXI? Como ressignificá-la a partir da tradução (se é que essa ressignificação se faz necessária)?

TVRB: A tragédia é um meio para lidar com a violência essencial do humano, precisa dizer mais? Além disso, há, na tragédia, um modo grego de expressar  que fica entre o ‘prosaico e poético’, que ‘é escrito mas performatiza a oralidade’, que ‘congrega todos os gêneros poéticos da época’ (o épico, o lirico, o narrativo – incluindo a dança, o gestual/pictórico) e isso tudo junto, para mim, significa que há na tragédia uma miscelânea de belezas, agrados para todos os públicos. Além disso, os textos trágicos, criados no auge da sofística, tem fecundidade enorme em suas ambiguidades e isso é ótimo, pois ele carrega já em si muitos significados e talvez por isso se ambiente em todos os tempos e espaços.

 

O que um texto como Orestes pode despertar no leitor do século XXI? Quais questões e reflexões ele traz que podem ajudar a iluminar nosso atual contexto brasileiro?

TVRB: Orestes traz frente aos nossos olhos três jovens angustiados (Orestes, Electra, Pílades), divididos entre o dever político, o sentimento ético, a transgressão moral, a vingança, a divisão entre ‘o lado da mãe’ e o ‘lado do pai’. Perdidos e enlouquecidos na iminência da morte, eles se apoiam e daí surge a questão da amizade. Estes temas são eternos. Com Orestes, Pílades e Electra podemos entrar em suas aflições e compartilhar de suas angústias que são também nossas . ‘Assistindo’ Orestes, o Hamlet grego, podemos até mesmo vislumbrar saídas para situações que vivemos hoje. O grande desafio mesmo é o que Orestes propõe: como vamos aprender a ser donos de nós mesmos sem ferir mortalmente as pessoas que amamos?

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Guilherme de Almeida, tradutor de Wilhelm Busch

Por Renata de Albuquerque

 

A pesquisadora Simone Homem de Mello, que está lançando Histórias em Imagens e Versos – Wilhelm Busch Traduzido por Guilherme de Almeida, conta, nesta entrevista, como a obra de Wilhelm Busch começou a fazer parte de sua vida e como um jantar deu origem a um projeto audacioso de traduzir e reposicionar a obra do autor alemão considerado um dos precursores das histórias em quadrinho.

Quando tomou contato com a obra de Busch, foi na esfera infanto-juvenil?

Simone Homem de Mello No final do primeiro ano do ensino fundamental, a professora me deu de presente Juca e Chico, de Wilhelm Busch em tradução de Olavo Bilac. Ela escreveu o meu nome na página de rosto com uma caligrafia ornamental, altamente atraente.  Curiosamente, foi um dos únicos livros infantis que guardei ao longo da vida. Essa época coincide com a reedição que a Melhoramentos fez da série “Busch”, então ampliada e denominada “Juca e Chico”.

Quais são suas lembranças dessa época e que impressões essa obra lhe causou?

SHM: Depois de tanto tempo, recordo-me apenas do prazer de folhear o livro. Esse prazer retorna quando folheio a presente edição da Ateliê, editora conhecida pelo cuidado editorial e gráfico de seus livros. Mas também lembro que aquele livro da Melhoramentos – talvez a brevidade daqueles dísticos rimados, em contraponto com a imagem – me transmitia uma vivacidade euforizante. Talvez também tenha sido uma das primeiras experiências de se estar lendo “um livro inteiro”.

Simone Homem de Mello, em foto de Gabriela Pelosi

Quando percebeu que Busch ultrapassava a barreira do rótulo de infanto-juvenil? O que lhe causou essa percepção?

SHM: Foi quando eu estava estudando Letras Anglo-Germânicas na USP e me deparei com esse clássico da literatura alemã. Lembro-me quando atinei que era o mesmo autor daquele livro da infância. E, ao comentar o fato com amigos, descobri dois que também tinham Busch bem vivo como lembrança de infância. Uma surpresa semelhante à de uma geração que assistia à série de TV Sítio do Pica-Pau Amarelo na infância e só depois (re)descobriu que a música de abertura era de Gilberto Gil. De qualquer forma, o livro por meio do qual eu tinha conhecido a obra de Busch – Juca e Chico – era originariamente destinado a crianças. Sendo Busch, até mesmo na Alemanha, primordialmente identificado com a literatura infantil, esse ficou sendo durante muito tempo o lugar dele no meu repertório literário. Só quando descobri as traduções que Guilherme de Almeida havia feito de textos de Busch publicados em semanários humorísticos, notei que os textos veiculados pela Melhoramentos na década de 1940 como livros infantis tinham como alvo, em sua origem, o leitor adulto.

Por favor, fale brevemente sobre seu percurso como germanista.

SHM: Embora eu também tenha estudado Inglês e Português da Faculdade de Letras da USP, era o Alemão a minha primeira opção. Naquela época, grande parte da literatura alemã era traduzida por intermédio de outras línguas, como o inglês ou o francês. Daí a minha curiosidade por uma língua “rara”, com a qual não se tinha contato nem por meio de traduções. Prossegui formalmente os meus estudos como germanista durante o mestrado, na Universidade de Colônia, no qual abordei a relação entre texto e imagem na obra de Jochen Gerz, um artista que se iniciou na Poesia Concreta e depois aderiu à Arte Conceitual. No meu doutorado em Estudos da Tradução, na Universidade Federal de Santa Catarina, estudei e traduzi um autor alemão moderno, Arno Holz, que foi introduzido no repertório literário brasileiro por Augusto e Haroldo de Campos. Nos quase 20 anos que passei na Alemanha, sempre me dediquei muito à língua, à literatura e à cultura alemãs, associando essas investigações às minhas atividades de autora e tradutora.

Em que momento debruçou-se no estudo de Guilherme de Almeida? Seu interesse pela poesia alemã de alguma forma teve influência nisso?

SHM: Apenas quando retornei ao Brasil e passei a coordenar o Centro de Estudos de Tradução Literária na Casa Guilherme de Almeida me debrucei sobre a obra do poeta-tradutor paulista e o descobri como tradutor de Wilhelm Busch. A combinação de rigor e vivacidade em suas traduções, sobretudo da poesia francesa, me impressionou muito.

Wilhelm Busch em foto da década de 1860

Como nasceu a ideia do projeto deste livro? Por que acha importante ressignificar a obra de Busch, para além da esfera infanto-juvenil? O que acha que o grande público leigo pode ganhar com essa “nova visada” do autor alemão?

SHM: A ideia de editar Busch pela Ateliê veio do próprio Plínio Martins. Quando ele me visitou em Berlim, acompanhado de seu filho, na sequência da Feira de Frankfurt de 2008, fomos jantar no restaurante Max und Moritz (no bairro de Kreuzberg), um local que traz o nome dos heróis da história traduzida por Bilac como Juca e Chico. É um restaurante de comida tradicional alemã cujos pratos recebem os nomes de personagens da obra mais famosa de Busch. Na ocasião, o Plínio comentou comigo que pretendia reeditar Juca e Chico. Essa conversa ganhou significado posteriormente, quando “descobri” as traduções de Guilherme de Almeida. Quando propus este outro recorte da obra do Busch, ele concordou imediatamente em editar; afinal, esse autor alemão já fazia parte dos seus planos. O mais importante da presente edição da Ateliê, além de ela resgatar um autor satírico alemão para o público geral, fora da esfera infanto-juvenil, é o fato de ela destacar a arte da tradução como objeto central. A tradução geralmente é vista como um mero instrumento para a compreensão da obra original e até mesmo como um mal necessário, quando não dominamos uma língua da qual gostaríamos de ler. Esse livro mostra o grau de elaboração que a tradução pode atingir como obra de arte, como resultado estético autônomo. Sinceramente, não me recordo de ter visto nenhum livro no mercado editorial brasileiro que abordasse a literatura traduzida com tanta ênfase ao processo de escrita e de tradução.