Dia da Mulher: a igualdade de gênero ainda está longe de ser uma realidade

Por: Renata de Albuquerque

 

Mais um dia 8 de março vem e mais uma vez o “Dia da Mulher” entra em pauta. Há quem diga “não queremos flores”. Talvez seja melhor dizer “queremos respeito”. Muito já foi conquistado desde que as operárias americanas morreram no incêndio da fábrica de tecidos em Nova York, no século XIX. Mas, é inegável: ainda falta um longo caminho a percorrer até que a igualdade de gênero torne-se uma realidade.

Por isso, é preciso continuar falando, ressaltando as conquistas que já aconteceram e as que ainda estão por vir. Por isso, a Ateliê Editorial resolveu dar espaço a este tema e criou a campanha “Março, Mês da Mulher”.

A ideia foi aproveitar que o mês de março é todo dedicado à poesia (14/3 é o Dia Nacional da Poesia e 21/03 é Dia Mundial da Poesia) e unir os dois temas. Por isso, em março, todos os livros de poesia estão com desconto de 35%.

Se por um lado é a chance de economizar na compra de obras de um dos gêneros literários mais queridos dos leitores, por outro, é a oportunidade de conhecer a poesia escrita por mulheres, ouvir suas vozes e o que elas têm a dizer sobre si mesmas e sua condição.

Com o avanço da sociedade, elas passam a ser protagonistas de suas próprias histórias. E, para celebrar as mulheres e a poesia, veja abaixo algumas das muitas sugestões de livros que estão com desconto especial.

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Organização: Eliane Robert Morae

De R$82,00 Por R$ 53,30

Traz uma seleção do melhor da lírica erótica desde o século XVII até os dias de hoje, com nomes como Gregório de Matos, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Álvares de Azevedo e Ana Cristina César, entre muitos outros. Os versos se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante. Lado a lado, eles se reúnem aqui para dar voz a um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

 

Debaixo do Sol

Eunice Arruda

De R$36,50 Por R$ 23,72

A poeta da “Geração de 60”,  escreve, como ela mesma diz, pela “necessidade de captar as emoções, os pensamentos e devolvê-los depois ao mundo, transformados em outra linguagem: a da poesia”. Em Debaixo do Sol, a dicção lírico-amorosa-existencial continua a se destacar. A partir de uma escrita sintética, a poeta fala da condição humana, abraçada na comunhão com o outro e com o mundo.

 

Feito Eu

Elisa Nazarian

De R$31,00 Por R$20,15

Ao abrir as portas da memória autobiográfica, a escritora resgata o mais íntimo que existe em todos nós: o campo dos afetos. Sem rodeios nem melodramas, ela nos conduz delicadamente a esse universo tão particular quanto universal, sem o qual não nos saberíamos humanos. Em Feito Eu, ela trata dos momentos cotidianos, às vezes perturbadores, e explora o amor no que ele tem de mais visceral e doloroso. Seu verso, límpido e pungente, consegue ser confessional sem se tornar piegas.

 

Hipóteses de Amor

Annalisa Cima

De R$63,00 Por R$40,95

Uma das mais importantes poetas italianas da atualidade, teve o volume Ipotesi d’Amore  originalmente publicado em 1984 e depois traduzido por Alexandre Eulálio, amigo da escritora, e pelo poeta Ivo Barroso. Seus poemas, de intensa dramaticidade, falam principalmente de amor e amizade. Esta edição bilíngue, organizada por Maria Eugênia Boaventura e pelo próprio Ivo, traz também um conjunto de cartas trocadas entre Annalisa e Alexandre, além de um posfácio escrito por ela.

 

E tem muito mais em nossa seção de Poesias.

Ao finalizar sua compra digite o cupom “poesia” que o desconto será aplicado em todos os livros de poesia, exceto nos livros que já estiverem em promoção no outlet e pacotes promocionais.

Problemas para ler histórias de amor?

Por: Eliane Fernandes*

Eliane Fernandes

Como já contei em outro post, minha relação com os livros começou bem tarde. Imagino que se este universo fizesse parte de minha vida desde meus primeiros passos, hoje seria tudo muito diferente.

Quando se descobre que ler é muito bom e gratificante, tudo à sua volta parece mudar, assim como um primeiro amor.Tudo que se vê ajuda a lembrar de um livro: dos personagens, do cenário, da história.Os pensamentos quase sempre fogem da realidade, criando um mundo só seu.Entretanto não foi fácil seguir essa nova descoberta, alguns obstáculos foram colocados para que eu fosse provada, provas essas que eu resumo em: eu mesma e as outras pessoas.

Posso dizer que as primeiras páginas de leitura foram complicadas, afinal de contas eu não tinha o hábito de ler e, no começo de uma obra, geralmente, o autor apresenta os personagens, o local, deixando o m

ovimento do enredo mais para frente. Foi bem difícil lutar contra o sono, contra a vontade de assistir TV, de ouvir música ou até mesmo de ficar no Facebook.Mas fiz uma forcinha, afinal eu tinha que ganhar uma aposta e provar a mim mesma que eu era capaz de ler um livro inteiro. Depois do primeiro capítulo não consegui mais parar de ler, não me importava mais a aposta, eu queria mesmo era saber o final da história.

As pessoas também foram um obstáculo e tanto em minha “nova vida”.Primeiro porque todos estranhavam de eu estar carregando um livro para cima e para baixo, vinham várias perguntas e comentários como: “que livro é esse?”; “você está lendo?”; “você deveria ler ‘tal’ livro”; “este livro é inadequado”; “por que está lendo isso?”, “credo, você está lendo este livro?”; “não tinha nada melhor pra ler?” e mais uma infinidade de perguntas e comentários.Claro que algumas perguntas e observações são normais e pertinentes, entretanto eu percebia que algumas pessoas queriam moldar o meu gosto literário, fazendo críticas aos livros que eu escolhera para ler: por ser para jovens, por ter cenas picantes, por ser de príncipes e princesas, por ter vampiros… Enfim, haviam pessoas que se incomodavam pelo que eu lia, isso sem dúvida me deixava irritada e prejudicava minha leitura. Mas, mesmo assim, eu ouvia todas as críticas e comentários, pensando: “como resolver isso, sendo clara o bastante e que a pessoa não fique magoada?” Fácil:sendo sincera. Eu sempre ouvi tudo, mas também sempre deixei muito claro que era eu quem estava lendo, então não havia motivos para tanto alarde.Além disso, sempre deixei muito claro que se eu sentir vontade de ler eu lerei, independente da opinião de quem seja.O importante é eu gostar e ninguém mais.

No final de tudo foi fácil ler, primeiro eu tive que condicionar a mim mesma a uma nova rotina, tive que mostrar para o meu cérebro pouco treinado que ler é divertido.E quanto às pessoas? Hoje não ligo mais para o que dizem, geralmente eu ouço, viro a página e continuo lendo, o importante é a leitura me fazer feliz, então se eu me interessar pela história, pode ser de monstro, de pirata, de mocinho e bandido ou até mesmo sobre a lua, eu irei ler.

 

* Filha mais velha de uma família simples da capital da cidade de São Paulo, terminou o ensino médio em 2005. Formada em Ciências Econômicas, especializada em Finanças e prestes a tornar-se especialista em Perícia Criminal e Ciências Forenses.

 

Clássico, “O Ateneu”, de Raul Pompeia, ainda instiga leitores do século 21

“O Ateneu”, de Raul Pompeia, foi lançado há mais de um século, mas ainda instiga e provoca os leitores. A obra carrega em si características de diversas manifestações artísticas, como realismo, impressionismo e expressionismo, que se evidenciam no romance de dimensão autobiográfica do autor, Raul Pompeia, publicado pela primeira vez em 1888. Se, na época, ele foi recebido com estranhamento pela crítica, ainda hoje intriga leitores. Por isso, a Ateliê lança uma nova edição do clássico, com apresentação e notas de Emília Amaral, professora de Literatura e Doutora pela Unicamp, que fala ao Blog da Ateliê sobre o clássico:

 A edição traz ilustrações feitas pelo próprio Raul Pompéia. Ele era reconhecidamente um bom desenhista? Como essas imagens foram selecionadas para esta edição?

 Emília Amaral: Raul Pompeia era, sim, reconhecidamente, um excelente desenhista. Fazia caricaturas incríveis, e isso tem tudo a ver com a forma magistral como caracteriza seus personagens. As imagens desta edição são as mesmas feitas e escolhidas pelo autor desde a primeira edição da obra.

 

Esteticamente, quais são as inovações propostas por “O Ateneu”?

EA: Ele combinou de maneira brilhante estilos díspares e até então impensáveis numa mesma obra: o realismo, o naturalismo, o simbolismo, o parnasianismo.

 

Quanto de autobiográfico em relação ao autor, em sua opinião, há em “O Ateneu”?

EA: Bastante. Talvez nem tanto em termos factuais estritos, mas psicologicamente.
Por que Lúcia Miguel-Pereira teria classificado “O Ateneu” como um “romance estranho, diferente de tudo o que habitualmente se escrevia”?

EA: Justamente pela intersecção de estilos tão díspares, entre outros fatores.
Na opinião da senhora, o leitor do século XXI ainda é capaz de sentir esse estranhamento?

EA: Com certeza. Este livro, como toda grande obra, continua interessando e desafiando leitores por muito tempo.
Que interesse a obra desperta nos leitores de nossos dias, que ainda não leram este livro?

EA: Como se trata de um romance de formação, ele interessa muito, ao mostrar a passagem da adolescência para a vida adulta e assim trazer muitas questões existenciais pertinentes como objetos de reflexão.

Conheça outros títulos da Coleção Clássico Ateliê

Fernando (Cabral Martins) estuda Fernando (Pessoa)

Em Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa um dos mais importantes críticos pessoanos coloca luz sobre a teoria e a história da heteronímia

Renata de Albuquerque

Pode parecer ao leitor desavisado que não há novidade em um livro como Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa. Entretanto, o lançamento é um excelente roteiro para o entendimento da obra de Pessoa, pois traz uma visão geral da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno, cujos documentos originais foram encontrados em 1935, ano de sua morte, em 91 envelopes arquivados numa célebre arca – a que se acrescentavam outros cinquenta guardados numa mala e em um armário.

Além de uma nova leitura do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio, Fernando Cabral Martins faz, em sua obra, importante contribuição sobre a teoria e a história da heteronímia. A seguir, um dos mais importantes críticos pessoanos em atividade fala  com exclusividade ao Blog da Ateliê:

O senhor estuda a obra de Fernando Pessoa há décadas. O que o atrai na obra desse autor? Quais são, em sua opinião, as questões mais instigantes? Qual razão o levou a estudar Pessoa?

Fernando Cabral Martins: Na verdade, eu estudo a obra de Pessoa desde o princípio dos anos 80, quando comecei a dar aulas de literatura portuguesa na Universidade Nova de Lisboa. Antes disso, já era um leitor, com toda a paixão de leitura de Pessoa que era comum a tantos amigos meus, paixão que estava nesses anos num especial crescendo, com a publicação, tão longamente esperada, do Livro do Desassossego em 1982. Mas é verdade que só a partir dos anos 90 comecei a publicar mais regularmente sobre Pessoa e o Modernismo português. Hoje, o que me parece de maior importância é analisar e integrar a ficção narrativa que tem surgido nos últimos anos, bem como os seus múltiplos escritos de filosofia.

 

O que o motivou a escrever uma “Introdução aos estudos” do autor?

FCM: O que se tem passado nos últimos anos é, pois, um avanço muito considerável na publicação de inéditos e no conhecimento dos vários aspectos de uma obra muito vasta. De tal modo que me pareceu que era altura de tentar obter uma visão geral da história da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno.

 

Como foi realizado o trabalho que resultou neste livro? Como foi feita a pesquisa? O senhor teve acesso a manuscritos, cartas e outros materiais?

FCM: O trabalho de pesquisa foi começado há muitos anos, com um especial enfoque no espólio de Pessoa disponibilizado pela Biblioteca Nacional, que é um verdadeiro tesouro, pois reúne o conjunto dos escritos e cartas de uma vida intensa e inteiramente dedicada à literatura. A biblioteca de Pessoa, por sua vez, que também foi digitalizada e é hoje consultável online no site da Casa Fernando Pessoa, constituiu igualmente uma fonte assinalável de informação pertinente.

 

A obra é destinada apenas a leitores que não conhecem Fernando Pessoa ou pode ser recomendada também a quem já tem conhecimento sobre o autor?


FCM
: O meu objetivo foi propor uma descrição e um comentário coerentes e, tanto quanto possível, completos da obra de Pessoa, à luz das mais recentes publicações, e fazê-lo procurando manter uma exigência de clareza e simplicidade. Neste sentido, pode interessar tanto aos leitores que só agora se iniciam como àqueles que já o conhecem, pois a existência de um mapa é sempre útil para viajar num território extenso e cheio de caminhos que se bifurcam.

 

Existe alguma informação inédita que o senhor tenha encontrado durante sua pesquisa e colocado neste livro, como algum poema, por exemplo? Qual?

FCM: Eu ofereço, por exemplo, uma leitura nova do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio. Mas este livro tinha antes a intenção de apresentar uma panorâmica de Pessoa tal como se conhece hoje. Aliás, depois de 75 anos de edições de inéditos, pode dizer-se que pelo menos a sua poesia está praticamente toda publicada, e que já se conhece talvez o essencial da sua obra.

Manuscrito do poema “Deixo ao Cego e ao Surdo” contido no livro

Do ponto de vista teórico e de crítica literária, em sua opinião, há alguma inovação em sua obra (como, por exemplo, a maneira de apresentar ou organizar o conhecimento sobre Pessoa)? Qual?

FCM: Creio que, para além da própria escolha dos aspectos textuais e temáticos a comentar, o meu principal contributo poderá estar nos dois últimos capítulos, em que tento fazer a história e a teoria da heteronímia. Tentei considerar na sua dinâmica esse tão singular modelo de escrita literária que inventa heterônimos, vendo-o na lógica da sua evolução e não como um sistema fixado.

 

Fernando Paixão destaca, na orelha do livro, a capacidade de interrelacionar informações que, de qualquer modo, estão colocadas de maneira autônoma na obra. Tal estrutura foi criada com que objetivo?

FCM: Esse procedimento tem a ver, penso eu, com a natureza da literatura de Pessoa, que é um constante diálogo entre as posições (estéticas, filosóficas, políticas, religiosas, etc.) que as diferentes figuras heterônimas defendem. É esse o desafio, precisamente, o de tentar ver os traços que unem o que é diferente, a coerência geral por detrás das coerências parciais dos heterônimos, as linhas que ligam dos múltiplos esboços e fragmentos que Pessoa nos deixou e a interrelação entre os muitos gêneros, temas e planos que o ocuparam toda a sua vida. Porque Pessoa é um escritor único e complexo, mas que nos transmite ao mesmo tempo a sensação constante de um pensamento luminoso, que não foge às contradições e à complexidade do mundo, mas antes as torna a matéria-prima da sua arte.

 

Conheça outras obras de Fernando Cabral Martins

Ateliê lança Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa, escrita por Fernando Cabral Martins

Obra de um dos mais importantes críticos pessoanos é excelente roteiro para o entendimento do poeta português

Além de todo o trabalho conhecido de Fernando Pessoa, o autor deixou ainda um conjunto de textos inéditos. Segundo Fernando Cabral Martins, nos últimos anos foi considerável o avanço na publicação desse material, bem como no conhecimento dos vários aspectos de uma obra muito vasta. Por isso, em Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa ele buscou apresentar uma visão geral da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno, cujos documentos originais foram encontrados em 1935, ano de sua morte, em 91 envelopes arquivados numa célebre arca – a que se acrescentavam outros cinquenta guardados numa mala e em um armário.

“Se a obra poética de Pessoa pode ser hoje comparada a um sistema galático, composto de diversas constelações relacionadas aos seus escritos e escolhas estéticas, podemos então afirmar que a presente introdução serve como um verdadeiro mapa celeste”, diz o poeta e crítico Fernando Paixão na orelha da obra.

Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa constitui um excelente roteiro para o entendimento de um dos poetas mais importantes da língua portuguesa. A vida e a obra do autor são apresentadas de maneira integrada, em torno dos temas centrais de sua trajetória, tais como:  a linguagem modernista, a criação dos heterônimos, as ideias políticas e estéticas e os diferentes projetos literários. Ao mesmo tempo em que  oferece, por exemplo, uma leitura nova do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio, Fernando Martins explica que após 75 anos de edições de inéditos, pode dizer-se que pelo menos a poesia de Fernando Pessoa está praticamente toda publicada. Por isso, “o livro tem antes a intenção de apresentar uma panorâmica de Pessoa tal como se conhece hoje”, diz. “Meu objetivo foi propor uma descrição e um comentário coerentes e, tanto quanto possível, completos da obra de Pessoa, à luz das mais recentes publicações, e fazê-lo procurando manter uma exigência de clareza e simplicidade”, completa. Assim, o autor acredita que a obra pode interessar tanto a leitores iniciantes quanto aos antigos conhecedores da obra de Fernando Pessoa.

Fernando Cabral Martins é um crítico de referência nos estudos pessoanos e dedica-se ao autor há mais de duas décadas. No trabalho de pesquisa de Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa ele recorreu tanto ao espólio de Pessoa disponibilizado pela Biblioteca Nacional de Portugal, quanto à biblioteca do autor, que foi digitalizada e hoje pode ser consultada online no site da Casa Fernando Pessoa. Começou a estudar o poeta modernista no início dos anos 1990 e, desde então, sempre esteve envolvido com o acervo do autor, de quem organizou muitas edições para a editora lusitana Assírio &Alvim. Coordenou também um dicionário temático sobre Fernando Pessoa e o modernismo português, obra de referência nos estudos pessoanos. Fernando Cabral Martins também foi um dos organizadores de Poesia é Criação – Uma Antologia, obra da Ateliê que trata de um dos mais importantes artistas portugueses do século XX: Almada Negreiros.

 

Serviço

Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa

Formato: 14 x 21cm

Número de páginas: 264

ISBN:978-85-7480-753-9

Preço: R$ 42,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: http://blog.atelie.com.br/

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183/(11) 98384-3500

 

 

Como entendemos o mundo: estruturas mentais

Acompanhe a seguir a última parte do texto:

Frames, senso comum e comunidades interpretativas

Antônio Suárez Abreu*

“Frames são estruturas mentais que moldam a maneira como vemos o mundo.”[5]Frames contêm características e expectativas ligadas a uma situação.   Se pensamos em casamento, associamos imediatamente a essa situação características como vestido de noiva, igreja, alianças, padrinhos, festa, bolo de casamento etc.   Se pensamos em Natal, associamos imediatamente a essa situação características como nascimento de Cristo, árvore de natal, confraternização, presentes etc.  Todas essas particularidades estão também associadas a expectativas ou “scripts”.   Esperamos que, ao iniciar-se um casamento na igreja, o noivo esteja presente  no altar e que a noiva seja conduzida pelo pai até lá, vindos ambos da porta da igreja pela nave central.  Uma situação em que a noiva já estivesse previamente junto ao altar e o noivo fosse conduzido até lá pela mãe quebraria a expectativa desse frame, deixando os presentes à cerimônia bastante confusos e até mesmo emocionalmente abalados.

O conjunto de frames ligados às várias situações do nosso dia a dia compõe aquilo que chamamos senso comum, criando o que Robin Lakoff chama de comunidades interpretativas, em que as pessoas compartilham similaridades abstratas como gênero, simpatias políticas, preferências estéticas, profissões.  [6]

É preciso dizer que senso comum não se confunde com bom-senso e que, muitas vezes, não tem lógica alguma.  O senso comum, durante a Idade Média, era que a Terra era plana e que um navio que saísse do Mar Mediterrâneo, ultrapassando as “Colunas de Hércules” (estreito de Gibraltar), iria fatalmente cair num abismo.  O senso comum, para os partidários do regime nazista, era que os judeus eram uma raça inferiore daninha que precisava ser eliminada.

Bem, a partir desses exemplos, você já deve ter percebido que o senso comum e, portanto, as comunidades interpretativas estão sempre vinculados à uma cultura e a um  momento histórico.    A escritora Susan Sontag, em seu livro Doença como Metáfora[7], nos conta que, durante o Romantismo, a tuberculose era vista como uma variante da doença do amor.  Segundo ela, “Moças abatidas, de peito cavado, e rapazes pálidos e raquíticos competiam entre si como candidatos a essa doença incurável (na época), na maioria dos casos, incapacitante e de fato terrível.  “Quando eu era jovem”, escreveu Théophile Gautier [8], “não podia aceitar como poeta lírico alguém que pesasse mais de quarenta e cinco quilos’ ” .

Como um exemplo da força do comportamento das comunidades interpretativas vinculadas ao senso comum no campo da Medicina, é emblemático o caso da situação enfrentada pelo médico húngaro Ignaz Philipp Semmelweis (1818-1865), em uma clínica obstétrica em Viena, em 1846, na qual eram instruídos os estudantes de Medicina. Nessa clínica, a maioria das mulheres morria de febre puerperal.  Depois de cuidadosos estudos, Semmelweis desconfiou que elas eram contaminadas pelos estudantes que, ao saírem das aulas práticas de anatomia, em que manipulavam cadáveres, apenas limpavam as mãos no avental, antes de examinar as mulheres grávidas.   Semmelweis, então, obrigou os estudantes a lavar cuidadosamente as mãos depois de saírem da sala de anatomia, o que diminuiu drasticamente as mortes.    Mas, ao contrário do que se esperava, o diretor da clínica e os estudantes criticaram duramente Semmelweis que, logo depois, teve de abandonar a Áustria e voltar para sua terra natal, a Hungria.  Simplesmente, o senso comum dos médicos não aceitava que eles próprios fossem a causa da morte das mulheres.    Afinal, apenas a partir de 1870, as ideias de Pasteur começaram a ser aplicadas aos hospitais, principalmente aos hospitais militares, que passaram a ferver os instrumentos e as bandagens que seriam utilizados nos procedimentos cirúrgicos.

Louis Pasteur

Segundo Robin Lakoff, no livro há pouco citado, “o senso comum de uma ideia é determinado pela maneira como ela se acomoda  dentro de um frame aceito em um certo momento pela maioria das pessoas influentes.  E uma vez que uma ideia se torna senso comum, incluída em um frame aceito de modo geral, ela se torna muito resistente à mudança.  Outras ideias se agregam em torno dela dando-lhe credibilidade e fazendo com que sua renúncia seja até mesmo algo perturbador.   Nós precisamos de nossos frames e suposições convencionais.  Eles formam a cola que mantém juntas as culturas e permitem aos indivíduos, dentro dessas culturas, sentir-se como membros competentes de uma comunidade coesa.  Nós nos apegamos até mesmo a opiniões desacreditadas, não apenas por ignorância, mas por medo de que sejamos deixados sós, desconcertados, e não completamente humanos sem elas.” [9]

Concluindo, podemos dizer que, em termos de senso comum, o que nos afeta não são os fatos, mas a percepção que temos dos fatos  a partir dos nossos frames.   Vemos o mundo por meio de filtros.  Pomos coisas dentro de nossas cabeças e passamos a ver o mundo apenas a partir daquilo que está dentro dela.

 

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

 

Referências

BONFIM, Paulo.  Migalhas de Paulo Bonfim, Ribeirão Preto: Ed. Migalhas, 2014.

DAMÁSIO, António.  O Erro de Descartes, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

HOFSTADTER, Douglas & SANDER, Emmanuel. Surfaces and essences: analogy as the fuel and fire of thinking, New York: Basic Books, 2013.

 

LAKOFF, George. Don’t Think of an Elephant!, Vermont: Chelsea Green Publishing, 2014 [2004].

LAKOFF, Robin.  The Language War, Los Angeles: UniversityofCalifornia Press, 2000.

SONTAG, Susan.  Doença como Metáfora.  Aids e suas metáforas.  Trad. de Rubens Figueiredo e Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

[5]George Lakoff, Don’t think of an elephant! p. xi.  No original: Frames are mental strutures that shape the way we see the world.

[6]Robin Lakoff, The Language War, 2000, p. 13.

[7]Susan Sontag, Doença como metáfora.  Aids e suas metáforas, 2007, p. 31.

[8]Poeta, escritor e crítico literário francês do século XIX.

[9]Robin Lakoff, The Language War, 2000, pp. 49-50.  No original: the common sense of an idea is determined by its fit within a frame currently accepted by a majority of influential people. And once an idea becomes common sense, included in a generally accepted frame, it be- comes very resistant to change. Other ideas accrete around it, lending it credibility and making its abandonment even more disturbing. We need our frames and conventional assumptions. These forms the glue that holds cultures together and allows individuals within those cultures to feel like competent members of a cohesive community. We cling to even discredit beliefs, not only out of ignorance, but equally in fear that we would be left alone, bewildered, and not fully human without them.