
“É preciso estar possuído pelo demônio para ter êxito em uma arte.” A frase é de Voltaire, mas poderia ser de qualquer outro artista que tenha sentido essa espécie de possessão durante sua criação artística. A esta possessão também damos o nome de inspiração. Em busca de uma definição para ela, corri os dedos sobre algumas dezenas de livros de minha pequena (e em expansão ad infinitum) biblioteca. Não encontrei nada. Nem em grandes ensaios literários a inspiração ganha algum esboço analítico. E. M. Forster a coloca como um “estado”, e tanto não deixa de sê-lo como nos leva de volta à ideia de possessão, outro estado no qual o corpo se entrega ao estranho e por ele é guiado. O artista seria um possuído espontâneo?
Verbo precedente do latim inspirare, inspirar é soprar para dentro – e também comunicar. Em termos biológicos, a inspiração é uma das duas fases da respiração pulmonar: os pulmões se expandem aumentando de volume, a pressão interna cai, o ar se desloca do exterior para o interior através das vias respiratórias. Por outro lado, em sentido mais figurado e romântico, a inspiração é a intuição primeira que um artista tem antes de criar uma obra de arte. Ela está ligada à percepção, a estímulos sensoriais, à imaginação e à inteligência. Num sentido teológico, a inspiração segue o mesmo fluxo desse rio quimérico, sendo uma espécie de comunicação divina. Daí retorna-se à ideia de possessão, à presença de um espírito que fala com o corpo ou que nele impera durante a criação. No campo artístico, a inspiração era e ainda é chamada de Musa, sobretudo para escritores românticos que extraíam do mundo e principalmente da natureza a fonte de suas obras; pode vir tanto de fora quanto de dentro do escritor, embora este “de dentro” seja um tanto pernicioso. Pernicioso porque o que vem de dentro é imagem concebida a partir de outra(s) que tenha(m) vindo de fora. A inspiração interior pura não existe, aquela que pinga na mente do escritor sobressaltando-o, porque, esbarrando em teorias psicanalíticas, ela faz parte do subconsciente, o porão sombrio e impalpável da criatividade. Quando deixamos a psicanálise e a psicologia de lado, só podemos cair no conceito de inspiração enquanto sopro divino. E retomando a biologia, podemos pensar que a inspiração é igualmente misteriosa, automática, mas não programável – como a de caráter artístico.
Discutir as próprias inspirações e entender todos os impulsos por trás delas é entregar-se a uma vertigem atemporal. Parte do que me inspira surge com a espontaneidade e eficiência de uma lâmpada sendo acesa: subitamente a frase ou a imagem ilumina o escuro caminho da escrita, revelado enquanto a linguagem é esticada em seus próprios limites. Não é comum, mas muitas vezes fui “possuído” ou “iluminado” por histórias quase completas, com personagens, lugares, vozes, enredo, em questão de segundos, como se estas histórias, antes pequenos brotos coloridos enterrados no negrume do inconsciente, desabrochassem em explosões florais de perfumes e pétalas carnudas. A outra parte do que me inspira é mais evidente no ato em que a inspiração se dá. São músicas, filmes, conversas, fotografias, sabores, os chamados estímulos sensoriais. Capto instintivamente essa comunicação sensorial, logo transformada em esboço que se transformará ou não em literatura. Antes de desejar a inspiração como uma característica específica da personalidade artística, é preciso saber observar. E observar sem medo. Observar até ser engolido pelo objeto observado. É a partir de uma observação arguta, de qualquer coisa, que a inspiração torna-se mais palpável, mais rica, e para tê-la, para exercitá-la, é preciso também interesse.
Alguns meses atrás eu estava sentado num dos bancos de um shopping, folheando um pequeno livro do Coetzee em frente a uma loja de roupas esportivas, quando um funcionário começou a despir um dos manequins. Instantaneamente me perguntei: e se o único corpo que esse cara despiu até hoje foi o de um manequim? Seria um fato interessante, incomum e ligeiramente irônico numa contemporaneidade tão estimulada sexualmente, onde corpos brotam aos montes e objetos são transformados em sujeitos para sua autossatisfação. Eu também, vítima dos estímulos, não só vi ironia e erotismo na cena, mas um pouco de tristeza, de drama, e comecei a inventar uma vida para aquele funcionário. Como a morte, a inspiração tem esse poder de surpreender quando menos se espera. E diferentemente dela, não há luto, a não ser que se considere a ideia como ser vivo, cujo falecimento se dá na conclusão de seu processo criativo.
Inspire-se. E observe – também os funcionários das lojas de roupas esportivas. Minha história sobre aquele funcionário morreu dias depois sem conclusão. Seu espírito vaga por aí, em busca de alguém que queira ser possuído.


O filme Linha de Passe (2008) foi dirigido pela dupla afinada Walter Salles e Daniela Thomas. E, se não há um único diretor, tampouco há um (só) protagonista – apesar da Palma de Ouro em Cannes para (a suposta protagonista) Sandra Corveloni.
Quatro filhos e uma mãe grávida: cinco são as personagens principais; quase seis (além de Sandra, o elenco principal é composto por João Baldasserini, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues e Kaique Jesus Santos). “Futebol é coletivo”, diz, no filme, o técnico de uma peneira. Linha de Passe também.
O filho caçula, criança ainda, procura o pai; seu irmão, às portas da maioridade, procura uma chance como jogador de futebol; o outro, jovem adulto, procura Jesus numa igreja evangélica; o mais velho (já é pai), protagonista das ruas paulistanas, é um motoboy que procura ser visto.
As quatro histórias se alinham sobre uma São Paulo sombria; assustadoramente real. E se elas se alinham é porque têm muito em comum – partem e voltam ao mesmo núcleo: a mãe. O filho não encontra o pai, a peneira não deixa passar nada (“só tem lixo”), Jesus trai com armadilhas do destino, a visibilidade não se encontra. Como a pia da casa deles, sempre entupida, não há vazão nesses quatro caminhos.
Não é aleatória, portanto, a importância da personagem de Sandra Corveloni: espécie de condensação desses destinos, também ela sem vazão, pois ainda presa às marcas do passado e prestes a dar à luz mais uma dor. Tampouco é por acaso o fato de Corveloni, estupenda atriz de teatro, ter cumprido tão bem o papel: em que se pese toda a importância da personagem, ela não poderia se sobressair em relação aos demais, ou, paradoxalmente, sua atuação fracassaria.
Atriz e personagem cumprem à risca a função. A bola, como na verdadeira linha de passe, não cai. Desde o argumento até a montagem, é tudo muito equilibrado, além de bem executado. O time possui volume de jogo. Jogo no qual atores e plateia não se veem, excluídos e elites não se veem, patrão e empregado não se veem. Somos invisíveis atrás da viseira do capacete, invisíveis atrás do vidro escurecido do carro.
Crianças invisíveis atrás do volante de um ônibus.
“Cegos que, vendo, não veem”, como escreveu Saramago, mas aqui sem o recurso ao realismo mágico senão o mergulho no dia-a-dia mesmo de uma grande metrópole: “anda, anda, anda”.
É ficção, mas poderia ser documentário. Fosse documentário, passaria facilmente por ficção. Mais ou menos como um pênalti aos 45 do segundo tempo. E a grande chance de dar certo… anda, anda, anda… na vida.

Dentre as inúmeras programações da Balada Literária, Adrienne Myrtes lançará seu novo romance Eis o Mundo de Fora, no último dia da festa literária, domingo, às 18h, no Centro Cultural b_arco, em São Paulo. O evento será seguido pelo festa de encerramento da Balada, às 20h.
Este é o sexto ano da Balada Literária, que tem Marcelino Freire como curador e Augusto de Campos como homenageado.
O professor Aziz Ab’Saber recebeu nesta última terça, 15, o Troféu Juca Pato, durante a cerimônia de encerramento do Congresso Brasileiro de Escritores, promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE). O Prêmio Intelectual do Ano é entregue a personalidades que publicaram no ano anterior obra relevante para a conjunção política e econômica do país.
O guia 50 Livrarias de Buenos Aires será apresentado na próxima sexta-feira, 18 de novembro, às 19 horas, na Fundação Centro de Estudos Brasileiros (Funceb), na capital argentina. A apresentação acontece dento do seminário organizado pela Funceb para debater as políticas de apoio ao livro no Brasil e na Argentina, com a participação de representantes dos dois países, Bernardo Gurbanov, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e o presidente da Biblioteca Nacional da Argentina.Fonte: Revista Dante Cultural
Em edição comemorativa, a Revista Dante Cultural publicou uma resenha da edição bilíngue da Divina Comédia (Ateliê Editorial) – de Dante Alighieri –, traduzida por João Trentino Ziller e ilustrada por Sandro Botticelli.
O livro Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise (Ateliê Editorial), de João A. Frayze-Pereira, foi recentemente lançado em segunda edição – revista e ampliada (a primeira edição é de 2006).
João Frayze é psicanalista, livre-docente pela USP e crítico de arte. Arte, dor reúne uma série de trabalhos que fazem do autor um dos nomes mais importantes – talvez o maior deles – em Psicologia da Arte no Brasil.
Os capítulos, embora independentes entre si, compõem uma tese; tese que se desenvolve pelo negativo, isto é, pela incansável desconstrução da realidade ingênua, de conceitos cristalizados, em suma, por aquilo que o fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty, um dos autores mais apreciados por Frayze-Pereira, denominava “questionamento da fé-perceptiva”. Não por acaso, o capítulo final intitula-se “Inconclusão: psicanálise e crítica de arte” (grifo meu).
Mas de que trata o livro?
“Situada entre a Estética e a História da Arte”, a Psicologia da Arte “requer a presença da psicanálise”, uma vez que “a abertura do psicólogo social para a arte dependerá principalmente de sua disposição, como espectador da arte, para introduzir-se nesse campo abissal [...] correndo o risco da vertigem e o da perda de pontos fixos”. Assim, o intérprete, “ao se abrir para o campo das obras”, terá de se haver com “questões de ordem transferencial” e, “consequentemente, comprometer-se”. Daí, segundo Frayze-Pereira, a psicanálise se impor como uma perspectiva necessária dentro desse “jogo interdisciplinar”.
Portanto, como já diz o próprio subtítulo, o livro irá abordar “inquietudes entre Estética e Psicanálise”. Cabe esclarecer, contudo, que muitas são as possibilidades de se inclinar a essa relação. A postura assumida por Frayze-Pereira, tal qual explicitada pelo próprio na Introdução do livro, é a seguinte: “diante do novo, diante de uma obra em processo ou em exposição, isto é, sempre em vias de se fazer e um enigma a nos interrogar, não são a ‘escuta clandestina’ e o ‘olhar oblíquo’ os meios privilegiados para referenciar nas margens ou no bastidor, nas lacunas ou no silêncio, a ‘potência do irrepresentável’? (os termos entre aspas [incluídos por Frayze-Pereira] são de Murielle Gagnebin)”. Continua o autor: “é o não-dito (ou o não-visível) que é capaz de revelar criativamente uma história ou uma sucessão de acontecimentos no decorrer da análise de uma obra. E nesse processo de instauração de uma leitura é o ponto de vista do espectador que paulatinamente se infiltra no campo da criação, uma vez que a obra também se faz tributária do olhar que a interroga”.
Para trabalhar com essa implicação entre psicanálise e arte, o autor recorre inicialmente ao já citado Merleau-Ponty e a Michel Foucault. É a partir – e por meio – desses dois autores que Frayze-Pereira nos apresenta uma leitura densa e crítica da psicanálise, que é atravessada o tempo todo pelo paradoxo implicado na relação arte-dor, inquietação primeira e última deste belo trabalho.
Além da Introdução e da Inconclusão, o livro é divido nas seções Problemáticas, Fundamentos e Análises. Ainda, a publicação conta com o prefácio de Jacques Leenhardt, o prefácio à segunda edição de Camila Salles Gonçalves – ótima porta de entrada às reflexões que se seguem – e, ao final, há o posfácio de Maria Helena Souza Patto, que também assina a orelha do livro, texto que mapeia historicamente a trajetória de João Frayze, dando luz à poesia inerente ao percurso trilhado pelo autor.
Nas Problemáticas, Frayze-Pereira delimita o campo a partir do qual ele irá abordar a complexa relação entre arte e psicanálise. O autor trabalha conceitos-chave –psicanálise implicada, experiência estética, entre outros – sempre comprometido com a História da Arte e com a entrada desta no campo das investigações psicológicas (e vice-versa): “A aproximação entre a Arte e a Psicologia não é um movimento recente. Muito anterior ao próprio advento da Psicologia como disciplina científica, na verdade, foi a própria Estética que se abriu à Psicologia que estava por vir”.
A seção Fundamentos reúne reflexões teóricas – problemas de pesquisa – que decorrem das problemáticas desenvolvidas anteriormente. Cabe destacar, aqui, o capítulo que fecha os Fundamentos: “O corpo como obra de arte: a unidade do múltiplo”. A temática da correspondência das artes e da unidade dos sentidos, do meu ponto de vista, é das mais relevantes nas discussões e análises empreendidas por Frayze-Pereira, presente tanto nas poéticas mais espinhentas – a análise sobre Van Gogh ou sobre a banalização do mal na arte contemporânea, por exemplo – quanto na “generosidade e gratidão” da artista Amélia Toledo, ensaio que encerra a seção Análises.
Vale dizer, foram incluídas duas análises na segunda edição do livro: “Arte e inveja na Era do Vazio”, questão extremamente atual na clínica psicanalítica e no ambiente das artes, e “Arte-crítica: Louise Bourgeois”, artista que mantém estreito vínculo com a psicanálise mas que, nem por isso, revela o enigma contido em suas produções, mas, em direção oposta, “Bourgeois figura entre tais artistas que assimilam a função da crítica em suas propostas plásticas”. Ao “subverter o instituído”, Louise Bourgeois, segundo João Frayze, antecipa historicamente “certa tendência da psicanálise contemporânea para a qual o fazer psicanalítico não é uma operação de descoberta de conteúdos psíquicos ocultos sob a conduta manifesta dos indivíduos, mas o processo interpretativo que Fabio Herrmann define como ruptura de campo. Trata-se de um processo, aparentado à arte, que interroga a lógica que inconscientemente fixa os modos do indivíduo ser no mundo, desconstruindo aquilo que se apresenta banalizado e consolidado na sua existência”.
Quanto às inconclusões, cada qual que extraia as suas. Arte, dor – inquietudes entre estética e psicanálise é um compêndio sobre esse tema, certamente útil a artistas e psicanalistas, mas também a leitores interessados. É que, em que se pese a densidade dos ensaios, a linguagem é fluida, límpida, e evita, com sucesso, certos academicismos que mais se prestam a afastar o leitor do texto. Arte, dor, ao contrário, captura o leitor e, sendo suficientemente bom, permite que ele se perca em suas (entre)linhas, para – quem sabe? – poder crescer em meio ao desassossego do doloroso caminho rumo à generosidade e gratidão.

Escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte (IP-USP); autor do livro de contos Do avesso (Com-Arte) e de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp).





