Romance em versos de Aleksandr Puchkin ganha nova tradução

Para comemorar os 220 anos de Puchkin, o Blog da Ateliê republica um texto de Irineu Franco Perpétuo escrito para O Estado de São Paulo*.

Uma das obras fundamentais da literatura russa, ‘Eugênio Onêguin’ é um desafio para tradutores e até Vladimir Nabokov sofreu para verter o livro

Irineu Franco Perpetuo*, Especial para o Estado

A pedra de toque da literatura russa está chegando ao Brasil pela metade. A Ateliê Editorial acaba de lançar o primeiro volume do seminal romance em versos Eugênio Onêguin, de Puchkin, em cuidadosa tradução de Alípio Correia de Franca Neto e Elena Vássina, uma edição bilíngue com o mais luxuoso revisor que qualquer livro dessa área poderia ter: o pai fundador dos estudos de russo no Brasil, e maior tradutor que já houve desse idioma para o português, Boris Schnaiderman (1917-2016).

Isso significa que temos os quatro primeiros dos oito capítulos do romance – a apresentação do personagem-título, a carta em que Tatiana se declara a ele e a posterior rejeição de Onêguin, com a ação interrompida às vésperas da funesta comemoração do dia do santo da moça. Felizmente, está prometido um segundo volume, que deve trazer não apenas a conclusão da obra, como apêndices com variantes do texto, a célebre e descartada Viagem de Onêguin, ensaios sobre a obra e um texto no qual os tradutores explicam os princípios teóricos e técnicas que nortearam suas escolhas.

Aleksandr Puchkin

Descendente de africanos, morto prematuramente em um duelo, Aleksandr Puchkin (1799-1837) é o caso mais flagrante de desequilíbrio na recepção literária de um escritor em sua terra natal e no Brasil. Se, por aqui, ele é bem menos reconhecido e festejado do que autores como Dostoievski, Tolstoi e Chekhov, na Rússia é objeto de culto e veneração – o “sol da poesia russa”, de importância equivalente a Shakespeare para os ingleses, Goethe para os alemães, Dante para os italianos, Camões e Cervantes para os ibéricos. “Puchkin é nosso tudo”, cravou o literato Apollon Grigoriev (1822-1864), em frase constantemente citada. Uma boa dimensão do peso e do significado de Puchkin para a cultura russa é dado no romance Parque Cultural, lançado no Brasil pela editora Kalinka, no qual Serguei Dovlatov (1941-1990) descreve, com ironia mordaz, sua experiência como guia de um parque temático inteiramente dedicado ao autor de Eugênio Onêguin.

Um dos motivos para a discrepância entre o reconhecimento de Puchkin na Rússia e fora dela é o fato de parte substancial de sua obra estar em versos, sempre mais difíceis de manterem a força ao serem vertidos para línguas estrangeiras. É o caso, por exemplo, de Onêguin, definido pelo crítico Vissarion Bielinski (1811-1848) como “enciclopédia da vida russa”, custando ao autor nove anos de trabalho. Em uma célebre análise, Roman Jakobson (1896-1982) disse que “cada imagem de Púchkin é de uma polissemia tão elástica, e de uma capacidade assimilatória tão espantosa, que ela se insere facilmente nos mais variados contextos”.

Embora tenha inspirado espetáculos de dança de John Cranko e Deborah Colker, um longa-metragem de Ralph Fiennes e a mais bela ópera de Tchaikovski, o romance em versos vem constituindo um desafio ingrato para tradutores de todos os idiomas. O mais monumental fracasso foi o de Vladimir Nabokov, perfeitamente bilíngue, que empreendeu uma monumental versão da obra para o inglês, cujas notas de rodapé e comentários ocupam mais de mil páginas – o tripo do texto traduzido. Com uma abordagem literalista, abrindo mão dos aspectos poéticos da obra, Nabokov realiza uma verdadeira “autópsia” do texto, indispensável aos estudiosos de Puchkin, mas sua tradução passa muito longe de recriar o encanto e a musicalidade propiciados pela leitura do original.

No Brasil, a Record lançou, em 2010, uma versão de Dário Moreira de Castro Alves, recebida com pouco alarde. Para ilustrar as diferenças entre aquela edição e a atual, reproduzimos o mesmo trecho da missiva de Tatiana a Onêguin. 

Na tradução anterior: “Mal tu entrastes, conheci./E a desmaiar, por dentro ardia,/Há de ser ele, já pensava!/Não é verdade que eu ouvia/Em plena calma o teu falar:/Quando eu aos pobres assistia/E, orando, alívio então pedia/Contra a angústia a me agitar?” E na versão nova: “Mal você entrou, soube de olhá-lo,/Senti calor, senti um abalo,/E disse mentalmente: ‘Ei-lo’/Não foi verdade?, eu escutá-lo?/Ter-me falado na quietude,/Ao dar aos pobres um regalo/E orar para ter algum final o/Anseio da alma na inquietude?”

Ricamente anotada, a tradução de Correia e Vássina compartilha reflexões trazidas por Nabokov e pelo minucioso estudo realizado pelo semioticista Iuri Lotman (1922-1993). Resta torcer para que o lançamento do segundo volume não tarde, para que os leitores brasileiros possam desfrutar da obra-prima de Púchkin na íntegra.

*IRINEU FRANCO PERPETUO É TRADUTOR E CRÍTICO

*O texto original pode ser lido aqui

Direitos Indígenas: uma questão de toda a sociedade

Os povos indígenas são os primeiros habitantes das terras brasileiras. Quando os portugueses atracaram na costa brasileira, o território já era ocupado. Entretanto, faz apenas pouco mais de 30 anos que direitos fundamentais das populações indígenas foram garantidos pela Constituição de 1988. Para celebrar essas três décadas e manter a discussão sobre o tema atual, Camila Loureiro Dias (Doutora em História) e Artionka Capiberibe (Doutora em Antropologia) organizaram Os Índios na Constituição, volume que reúne depoimentos de pesquisadores e intelectuais que exerceram papéis chave na definição dos direitos indígenas na Constituição Cidadã e de alguns dos atuais protagonistas dessa luta. A seguir, as organizadoras, professoras do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, falam sobre o projeto e sobre a atualidade da questão indígena no Brasil:

Como nasceu a ideia do projeto? 

Artionka: O projeto do livro é uma decorrência direta do Fórum “30 Anos da Constituição e o capítulo ‘Dos Índios’ na Atual Conjuntura”, organizado por nós e realizado em junho de 2018, dentro de uma política da Unicamp de divulgação do conhecimento acadêmico e de aproximação da universidade com outros setores da sociedade.

Camila: A ideia do Fórum Permanente, por sua vez, nasceu junto com a formulação de um projeto de pesquisa, hoje financiado pela Fapesp, que busca compreender o processo político e intelectual de definição dos direitos indígenas na Constituição de 1988.

Foi uma visita ao acervo do CEstA (antigo Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da USP, fundado pela professora Manuela Carneiro da Cunha), o que levou à ideia de realizar o Fórum. Lá encontramos um conjunto de documentos (folhetos, boletins, recortes de jornal, anotações pessoais, textos, formulários de proposição de emendas populares, entre outros) doados pela professora Manuela, que na época da Constituinte (1987-1988) era presidente da ABA, a Associação Brasileira de Antropologia, e fundadora da Comissão Pró-Índio – junto com o professor Dalmo Dallari, entre outros. Todas essas associações, e outras mais, tiveram um papel fundamental na mobilização social pelos direitos indígenas, desde o final da década de 1970. Algumas imagens de documentos desse acervo compõem o caderno de imagens do livro.

Ao mesmo tempo, estávamos no ano de 2018, quando a Constituição completava 30 anos e isso num contexto em que ela estava (e ainda está) sendo intensamente questionada, e em que o sentido do que nela está escrito tem sido disputado por forças políticas antagônicas. No caso dos direitos indígenas, entre aqueles que defendem os direitos de reserva e usufruto aos povos indígenas das terras que ocupam e aqueles que têm interesses comerciais nessas terras e nos seus recursos naturais.

Então surgiu a ideia de promover o encontro entre duas gerações de militantes pela causa indígena: os que atuaram na definição dos direitos indígenas durante a Constituinte e os que atuam na linha de frente, hoje, na defesa desses direitos. Assim seria possível aprender, pela história e pela memória, sobre o modo como os atuais direitos foram construídos, e isso nos seria um subsídio à nossa reflexão e atuação hoje.

O volume conta com depoimentos de pessoas que contribuíram para a definição dos direitos indígenas na Constituição de 1988. Como foi feita a escolha das pessoas que dariam os depoimentos ao livro?  

Camila Loureiro Dias, fotografada por Valério Paiva

Camila: O livro conta com os depoimentos de todos os que participaram do Fórum Permanente realizado na Unicamp e também com uma entrevista com o professor Dalmo Dallari, que não pôde participar do encontro, mas gentilmente aceitou conversar conosco. As pessoas convidadas a participar do Fórum são todas especialmente implicadas na causa, tanto há 30 anos como hoje, e falam de diferentes lugares. Ailton Krenak, nascido no Vale do Rio Doce, um intelectual iluminado, ilustre representante do movimento indígena, que fez uma memorável performance no Plenário em 1987 e hoje continua na luta depois de tantos reveses. Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga e articuladora da mobilização política e intelectual que foi responsável pela redação dos dois artigos e que também continua ativa e combativa, pautando a maneira de encaminhar o debate. O professor Dalmo Dallari, jurista, quem dava nome, descrevia e ensinava os conceitos: direitos originários, tutela; e que emana hoje um otimismo invejável. Por fim, José Carlos Sabóia, deputado constituinte, que nos revela a maneira como eram negociados os direitos no Congresso sem os freios do politicamente correto. As duas jovens lideranças indígenas que também vieram conversar conosco são igualmente figuras de destaque no cenário. Samantha Juruna (filha do Mário Juruna), percorre o país mobilizando sobretudo as mulheres na luta por saúde e educação e preza pela participação indígena na política institucional. Já Eloy Terena é advogado e doutor em antropologia, notável competente assessor jurídico da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Dessa forma temos um panorama do movimento social, da negociação política e do enquadramento jurídico da questão em dois momentos-chave: há 30 anos e hoje.

Artionka: A partir de meados dos anos 1990, o direito indígena constitucionalmente garantido começou a ser atacado e, nos últimos dez anos, esse ataque, conduzido principalmente por parlamentares ligados ao agronegócio, foi se tornando cada vez mais intenso, colocando em risco as conquistas de 1988. Sendo assim, o objetivo do Fórum foi também dar espaço para quem está, neste momento, buscando impedir a perda dos direitos conquistados e ouvir que estratégias têm sido assumidas para fazer frente principalmente ao ataque voraz sobre o artigo 231 da Constituição Federal, aquele que garante a terra indígena como direito originário.

O Fórum Permanente “30 Anos da Constituição e o capítulo ‘Dos Índios’ na Atual Conjuntura” foi a origem do livro, que foi lançado no “Fórum Permanente: Terras Indígenas e Interesses Nacionais”. Qual a correspondência entre os dois eventos?

Artionka Capiberibe fotografada por Gustavo Rossi

Artionka: No Fórum sobre os 30 anos da Constituição apareceram, nas falas e no debate, alguns temas correlacionados ao direito à terra indígena. Dentre eles, destacaram-se, por um lado, uma discussão sobre interesses nacionais, principalmente em relação a questões de fronteiras e de exploração de recursos naturais, e, por outro lado, uma diferença entre modelos de desenvolvimento. Nesse sentido, a discussão dos dois Fóruns está absolutamente imbricada, pois a questão sobre o direito à terra envolve os modos de conceber seus usos. Assim, o Fórum deste ano deu oportunidade de aprofundar alguns questionamentos surgidos no Fórum anterior.

É preciso destacar que as terras indígenas, junto com as Unidades de Conservação, Reservas Extrativistas e Comunidades Quilombolas são hoje os principais redutos de defesa dos diferentes ecossistemas que compõe o bioma brasileiro. São elas que têm contido o avanço do desmatamento produzido pela fronteira agrícola, ao mesmo tempo, as populações indígenas e tradicionais têm enfrentado a cobiça sobre as riquezas existentes em seu solo (como os recursos hídricos) e subsolo, minérios, sobretudo. Nessa matéria, há uma convergência entre o conhecimento indígena e o científico, ambos não cessam de demonstrar como o esgotamento do uso dos recursos naturais é danoso à continuidade da existência do planeta como um todo.

Camila: Os dois Fóruns buscam responder às questões que estão na pauta presente. O Fórum sobre direitos indígenas foi realizado em junho de 2018, antes, portanto, do período eleitoral. Naquele momento, os principais desafios aos povos indígenas vinham do Legislativo e do Judiciário. De lá para cá vivemos tudo o que vivemos e foi eleito um presidente que claramente se posiciona contra a demarcação de terras indígenas e a favor da exploração econômica das reservas florestais brasileiras. São intenções indubitavelmente antagônicas ao espírito da Constituição.

Se o Fórum de 2018 nos permitiu analisar o processo de definição dos direitos constitucionais indígenas, o Fórum de 2019 ampliou a questão ao propor que a demarcação de terras indígenas é também direito e interesse de todos os cidadãos brasileiros. Isto porque, comprovadamente, os povos indígenas preservam as florestas e possuem um conhecimento milenar da sua biodiversidade e das técnicas eficientes de manejo dela. E todos nós precisamos das florestas preservadas e do conhecimento indígena, para termos garantido de que, no próximo decênio, não vamos morrer de calor, de que vamos ter água para beber e que teremos o que comer.

O primeiro Fórum fornece subsídio de reflexão sobre os direitos indígenas às terras. Mas o segundo amplia a questão e a maneira de abordá-la, associando terras indígenas aos vários interesses que as circundam. E o Fórum de 2019 também assumiu uma outra dimensão: a defesa da Universidade pública, que está sendo moral e financeiramente atacada pelo mesmo poder executivo, mas que cumpre uma importante função social que é a de promover debates qualificados sobre temas que são importantes para toda a sociedade. Um dos momentos comoventes do encontro foi a fala da deputada Joênia Wapichana, ao nos contar sobre sua atuação na Câmara em defesa das universidades.

Acampamento Terra Livre (Brasília, 2019) fotografado por Artionka Capiberibe

Há um ano, quando o livro começou a ser realizado, qual era a situação dos índios no Brasil? 

Camila: Já faz muitos anos que os povos indígenas têm enfrentado desafios impostos por grupos que têm interesse em explorar comercialmente suas terras e os recursos naturais nela existentes, independentemente do lugar em que se situavam os últimos governos no espectro político. Desde 2004 os povos indígenas acampam em Brasília para exigir seus direitos. A situação veio piorando gradativamente e sob o governo Dilma já era muito difícil. Depois só continuou piorando. Há um ano, o que estava em debate era o sentido do que estava escrito na Constituição. Estávamos discutindo o parecer 001 da AGU, de julho de 2017, e o Projeto de Lei 490/2007 em tramitação na Câmara. Mas, ainda depois disso, foram trágicos os momentos das eleições em que o mero discurso de um candidato a presidência bastava para ampliar em pelo menos um terço os ataques a lideranças e comunidades, as invasões de terra, etc.

O que mudou desde então? 

Camila: Desde que assumiu o poder, o presidente Jair Bolsonaro tem promovido uma série de mudanças na estrutura do executivo que tem como objetivo paralisar o processo demarcação e rever as terras já demarcadas. O grupo militar que está no poder é claramente a favor da abertura das terras indígenas à exploração comercial e não esconde o objetivo de instituir uma política indigenista que retoma os valores anteriores à redemocratização e à Constituição de 1988. Ou seja, esse livro que é resultado do Fórum do ano passado vem em boa hora, pois precisamos saber o que eram os direitos indígenas antes e depois da Constituição.

Artionka: No espaço de um ano, houve uma mudança política significativa no país. O Brasil elegeu um presidente da República que é declaradamente anti-indígena, como se percebe no anúncio que fez, ainda na campanha eleitoral, de que, caso se elegesse, não haveria “nenhum centímetro a mais para demarcação” e de que ele iria aprovar uma lei em favor do armamento de produtores rurais, sinalizando para conflitos armados em torno da propriedade de terras o que atinge diretamente as populações indígenas em regiões sob pressão de atividades econômicas e que ainda não têm suas terras demarcadas, os Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul são um dos exemplos disso.

Buscando cumprir a primeira promessa, na reestruturação administrativa do governo –feita por meio da Medida Provisória-870 e, portanto, sujeita a aprovação do Congresso Nacional – o governo Bolsonaro retirou a Funai (Fundação Nacional do Índio) do Ministério da Justiça e a dividiu entre o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), ficando o setor de demarcação de terras na alçada do MAPA, que é conduzido por uma líder do agronegócio, ou seja, a raposa tomaria conta do galinheiro. Essa decisão gerou uma disputa política que reuniu o movimento indígena, o movimento dos indigenistas que trabalham na Funai e a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, articulada e coordenada pela deputada indígena Joênia Wapichana. Essa aliança conseguiu recentemente uma importante vitória, mudou o texto da MP-870, mantendo toda a Funai no Ministério da Justiça, agora a Medida Provisória segue para o Senado.

A grande mudança, em relação ao ano passado, me parece ser o deslocamento do local da disputa. Se antes o Congresso Nacional era o território prioritário de embate em torno de direitos e políticas públicas voltadas às populações indígenas, agora, a batalha principal se concentra no executivo.

Como a sociedade pode interferir nessa questão e qual a importância de preservar os direitos garantidos aos índios pela Constituição de 1988?

Camila: Os direitos dos índios têm sido ameaçados por vários grupos interessados na exploração comercial de suas terras e dos recursos naturais nelas existentes. Não somente o agronegócio, mas também mineradoras e garimpeiros, madeireiros, empreiteiras, traficantes de drogas e de pessoas, caçadores, pescadores, enfim, a lista é grande. A população das áreas urbanas ignora a realidade dos povos indígenas no Brasil. E a população das áreas rurais, em muitos lugares do Brasil, está em competição direta com esses povos.

O que isso tem a vem com os possíveis leitores desse livro? Por um lado, é bom lembrar que nossos padrões de consumo, tanto alimentar quanto tecnológico, fazem pressão sobre essas terras. Quando comemos carne, estamos comendo a floresta amazônica, e quando trocamos de celular estamos alimentando também a demanda pelos minérios que estão sob as terras indígenas. Portanto, a sociedade interfere nessas questões primeiro por meio dos seus hábitos cotidianos.

Por outro lado, essas terras comprovadamente desempenham papel estratégico para a preservação ambiental e, portanto, viabilidade do planeta. Além disso, as terras indígenas pertencem à União. São terras públicas. Ou seja, é importante para toda a sociedade que os direitos indígenas constitucionais sejam preservados.

Então, a população também pode interferir no processo começando por se perguntar quem se beneficia realmente da exploração comercial dos recursos ambientais das terras indígenas. É a toda população ou são apenas alguns grupos? É preciso também conhecer e aprender a respeitar esses povos. E é preciso, enfim, aliar-se a eles na luta pela preservação das suas terras e dos direitos que são de todos.

Acampamento Terra Livre (Brasília, 2019) fotografado por Artionka Capiberibe

Artionka: Quando o Estado se isenta de promover políticas que auxiliem no reconhecimento e valorização de populações minoritárias, quando ele se ausenta da responsabilidade sobre a existência e bem-estar dessas populações, ele transmite um recado: que não se deve a essas populações respeito, solidariedade, reconhecimento sobre sua importância para o conjunto da sociedade. Então, quando um ente do Estado, como o executivo, não só cruza os braços em relação às populações indígenas, mas destila um verdadeiro discurso de ódio contra elas, o efeito disso não pode ser outro se não o preconceito e a violência contra essas populações que ao longo da história de construção do país sempre foram menosprezadas e massacradas. A prova de que esse discurso de ódio tem um efeito prático são as crescentes ameaças e assassinatos de lideranças indígenas e o aumento vertiginoso das invasões de terras indígenas, desde o segundo turno da campanha eleitoral de 2018.

Os direitos sociais e sua garantia plena são fundamentais para que a sociedade tenha um norte sobre aquilo que é necessário e justo. Ao mesmo tempo, para que essa garantia se dê é preciso o apoio da sociedade. O livro, ao recuperar a memória da construção do capítulo “Dos Índios” e expor a luta pela sua garantia, é um meio importante de alerta sobre o respeito e o cuidado que este país deve historicamente às populações indígenas.

Nota: “A publicação do livro teve apoio do Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp, com verba da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). As atividades resultantes no livro e nos Fóruns Permanentes 2018 e 2019 receberam apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa, da Pró-Reitoria de Ensino e Extensão e da Pró-Reitoria de Graduação da Unicamp, assim como da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio de Projeto de Auxílio à Pesquisa (Camila Loureiro Dias, O Capítulo Dos Índios: direitos, história e historiografia (1988-2018), processo n. 2018/12386-4). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade das autoras e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.”

Lançamentos Ateliê Editorial atendem aos mais diversos gostos

Um clássico da literatura russa com nova tradução; um volume que discute uma questão atualíssima da política; poesia francesa da melhor qualidade; ou monólogos inspirados em literatura fantástica e na Bíblia? Desde o início de 2019 até agora, os lançamentos da Ateliê Editorial parecem atender aos mais variados gostos, com títulos para leitores das mais diversas idades. Ainda há muito por vir, como a reedição de Velhos Amigos, de Eclea Bosi, por exemplo. Mas enquanto mais novidades não chegam, você confere quatro novos títulos da editora que já estão nas prateleiras:

O Azul e o Mar – Eduardo de Campos Valadares selecionou poemas de três fases de Paul Valéry – Charmes, Clássicos e o longo poema “A Jovem Parca” – para compor este volume, chamado O Azul e o Mar, uma coedição com a Editora UFMG. Um trabalho de tradução que, segundo o tradutor, foi uma “festa da imaginação”, expressão que cria eco na “festa do intelecto” que, segundo o poeta francês, deve ser o poema.

Leia um trecho:

O SILFO

Nem visto nem quisto

Eu sou o perfume

Breu e vagalume

De vento me visto!

Nem visto nem quisto

Genial ou acaso?

Enfim me conquisto

Encerrado o caso!

Nem ler nem reter?

Mais lúcido ser

Mais promessas falsas!

Nem visto nem quisto

Eis o nu que avisto

Entre duas calças!

Eugênio Onêguin – Romance em versos, escrito por Aleksandr Púchkin ganhou tradução de Elena Vássina e Alípio Correia de Franca Neto, com consultoria de Bóris Schnaiderman. A história do aristocrata entediado, que relaciona ficção e vida real, tornou-se um clássico da literatura russa, influenciando autores como Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov.

Leia um trecho:

III

Tendo servido com honra e garbo,

O pai só emprestava dinheiro,

Dava três bailes no ano e ao cabo

Torrou seu patrimônio inteiro.

A sorte guarda Eugênio Onêguin:

Para Madame foi entregue,

Então Monsieur a substituiu.

Infante inquieto, mas gentil.

Monsieur lAbbe, pobre francês,

Pra não afadigar a criança,

Em tudo a instruía com folgança,

Sem regras chatas, sisudez;

Birras causavam sua revolta

E a guiava ao Lietni Sad pra volta.

Entreatos – Marcelo Castel Cid, autor de Os Unicórnios e organizador da Antologia Fantástica da Literatura Antiga volta a fazer ficção flertando com a literatura fantástica. Desta vez, o resultado é Entreatos, um livro constituído por monólogos  inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. “Eu escrevi meus relatos com o livros dos Atos sempre à minha frente, mas não só. Li outros livros de história bíblica e cultural, além, é claro, de misturar várias narrativas numa só”, afirma o autor. 

Leia um trecho:

Queres que eu repita minha doutrina? Seria tarefa difícil, pois que eu falava segundo a inspiração do momento, mesclando num único fôlego as proezas do  demiurgo ou dos anjos, as dinastias de emanações do verdadeiro Criador, passagens de Homero e de Heráclito, o obscuro, do Trismegisto, de nossos profetas. Como resultado dessa loucura com método, numa parte da terra honravam-me como o Filho de Deus, noutra como o Espírito Santo, noutra como a própria divindade feita homem. A Helena, porém, chamavam aqui Minerva ou Sofia, ali Eva primeva, acolá a Ovelha Desgarrada, aquela cuja alma por milênios tem vagado entre Potências.

Os Índios na Constituição – Pouco mais de 30 anos depois da promulgação da Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã – a primeira na História da República na qual os povos indígenas passaram a contar com um capítulo específico e tiveram seus direitos também foram reconhecidos –, o volume organizado por Camila Loureiro Dias e Artionka Capiberibe reúne depoimentos de pessoas que exerceram papéis importantes na definição dos direitos indígenas na Constituição e de alguns dos atuais protagonistas na luta pela sua manutenção face às diversas ações contemporâneas que visam a reduzi-los.

Leia um trecho:

Na década de 1970, o Plano de Integração da Amazônia é proclamado pelo governo; um plano de estradas, hidrelétricas, minérios – época em que se começa Carajás. O Programa Grande Carajás só aparece em 1980, mas já se começa a mineração do que será Carajás – e, para isso, constrói-se a Hidrelétrica de Tucuruí para fornecer eletricidade, estradas, enfim, tudo isso é feito depois de 1970 e nesse contexto. Evidente que esses interesses estavam presentes na Constituinte. E tivemos que engolir. Sobre o porquê de a gente ter tido que engolir tanto, vou mencionar em grandes linhas. José Carlos Sabóia vai falar das várias etapas da Constituição e dos arranjos que foram feitos.

Entrevista com o poeta Majela Colares

Majela Colares acaba de publicar O Retorno de Bennu, que leva ao leitor poesia em prosa, aforismos, versos livres e uma poesia caudalosa, que inspira o leitor. A seguir, o Blog republica uma entrevista que o autor concedeu ao “Poesia Diversa” , de Hilton Deives Valeriano

1) – Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?

Meu contato inicial com a poesia ocorreu através dos Romances de Feira, hoje conhecidos por Cordéis, quando menino. Lia-os intensivamente. Era uma leitura sempre muito emocionante. Romance do Pavão Misterioso, Peleja do Cego Aderaldo e Zé Pretinho, A Batalha de Oliveiros com Ferrabraz, As Aventuras de João Grilo, A Morte dos Doze Pares de França, (uma versão da canção de Rolando em cordel), estes são os que mais marcaram minhas lembranças. Eram leituras que eu fazia às vezes solitariamente e em outros momentos lia, com muita empolgação, em voz alta, para os amigos. Outra forma de poesia que tive contato muito cedo, talvez antes mesmo dos cordéis, foi a Cantoria. O verso improvisado. Mestres do improviso como Antônio Nunes de França, Dimas Batista, Otacílio Batista, Pedro Bandeira, Diniz Vitorino, dentre outros, foram os primeiros que ouvi improvisando um Galope à beira-mar, um Martelo Alagoano, um Mourão voltado, um Quadrão Mineiro, um Desafio. Esse contato inicial foi com a poesia popular nordestina. Com o tempo, misturou-se a essa experiência popular, as leituras dos clássicos. Primeiramente Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Camões…

2) – Como é seu procedimento ao escrever um poema?
Não existe um procedimento padrão. O poema emerge espontaneamente. Não escrevo poemas quando me encontro em estado emotivo, quer proveniente de uma situação agradável ou desagradável, (estado de inspiração), nem tão pouco em momentos puramente racionais (estado cerebral). O poema dá sinais… pisca o olho… sorri… no mais das vezes, de início, apenas capto a idéia. O momento de elaboração de um poema, em mim, acontece quando me aproximo o máximo dele, é uma sensação muito boa. É um estado que vai além da razão e da emoção, um estado que não sei definir… apenas percebo quando atinjo. Aí o poema começa a ganhar forma. Somente o que escrevo nesse estado que a mente alcança, para mim indefinido e imprescindível, é que considero poesia.

3) – O que é poesia para Majela Colares?
Conheço duas definições de poesia que acho maravilhosas. Uma afirma: “a poesia é a arte de dizer apenas com palavras o que apenas palavras não podem dizer”. A outra definição diz: “poesia é tirar de onde não tem e colocar onde não cabe”. São definições inteligentes que podem levar a outras. Eu nunca pensei em definir poesia. Poderia, no rastro das anteriores, afirmar: “poesia é algo que de forma alguma pode ser dito e, de repente, alguém diz”. Penso, no entanto, que poesia é muito mais do que isto. Enfim é algo indefinível.

Capa de “O Retorno de Bennu”

4) – Como você vê o atual panorama da poesia brasileira contemporânea? Quais poetas você destacaria?

O atual momento da poesia brasileira é muito rico e marcante, no entanto pouco explorado. Existem grandes poetas escrevendo na atualidade. Nomes que merecem muito mais respeito, admiração e divulgação… que deveriam estar em seus verdadeiros e devidos lugares. Existe também muita gente sendo aclamada de poeta, nomes bastante famosos, e tudo o que escrevem ou escreveram de poesia não tem absolutamente nada. São meramente produtos da mídia. Não citarei nomes… com certeza cometeria injustiça. Esta diferenciação de quem é poeta e quem não é, de quem realmente é grande poeta, ou não, o tempo cuidará de fazê-la.

5) – Sendo um representante da poesia nordestina, como você vê a relação entre tradição poética e movimentos de vanguarda?
Escrevo poesia por necessidade existencial. Para responder, às vezes, inconscientemente questionamentos que me surgem até em sonhos. Ou num sinal de transito. A estética do poema, penso ser fundamental e muito tenho trabalhado isso. A tradição poética é, a meu ver, elemento imprescindível para a construção de uma obra poética. Um movimento de vanguarda é importante na medida da qualidade poética, estética e de pensamento que venha apresentar como alternativa para um estilo já existente. Em meu primeiro livro Confissão de Dívida, encontra-se poemas concretos, poemas visuais, sonetos, oitavas camonianas, poemas em versos livres… no segundo livro Outono de Pedra, (que é um poema único, longo) encontra-se tudo isso e mais algumas passagens onde entra a estética do cantador-repentista nordestino. Tudo isso foi resultado de leituras e influencias. Mas com o passar do tempo tomei consciência do que realmente a poesia queria de mim. As influencias das vanguardas passaram e restaram apenas alguns bons experimentos. Hoje ainda adoto estéticas variadas, mas a minha grande preocupação e comprometimento esta com a inovação da linguagem poética, com a fundição do signo, a implosão da sintaxe. Quanto ao fato de ser um representante da poesia nordestina me orgulha muito, mas não enxergo a coisa bem assim. Penso que ao invés de representantes regionais: sulistas, nortistas, mineiros, paulistas, cariocas, nordestinos, existem representantes da poesia brasileira. Trabalho para ser um deles.

Majela Colares


6) – A inovação em termos de poesia é sempre necessária? Existe uma tradição perene em regiões especificas do nosso país, como o Grande Nordeste?

Se a inovação for pra melhor é necessária. Sempre será. Se analisarmos Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Joaquim Cardozo e João Cabral de Melo Neto, (nordestinos), Mario Quintana, (gaucho) e Carlos Drummond Andrade, (mineiro), verificaremos que existem diferenças estéticas e temáticas, mas nenhuma se identifica mais com esta ou com aquela região. (Com exceção à temática de João Cabral). Penso não existir uma tradição perene em regiões específicas do nosso país.

7) – O que você diria como forma de conselho para aqueles que estão se iniciando na prática da poesia?

Que leiam muito, principalmente poesia… que o ato de leitura seja dez, vinte, cem vezes mais frequente do que o ato de escrever.

“Eugênio Onêguin”, romance em versos de Aleksandr Púchkin, ganha nova tradução

O “romance em versos” Eugênio Onêguin é a expressão máxima do gênio de Aleksandr Púchkin (1799-1837), e representa para a literatura da Rússia o mesmo que OsLusíadas, A Divina Comédia, o Dom Quixote e as peças de Shakespeare representam respectivamente para Portugal, a Itália, a Espanha e a Inglaterra.
Púchkin é considerado o fundador da literatura russa moderna, o maior ícone cultural da Rússia, e seu Eugênio Onêguin já foi chamado de “enciclopédia da vida russa”, de leitura obrigatória em escolas. A Ateliê Editorial acaba de publicar uma edição bilíngue, traduzida pelo poeta e tradutor Alípio Correia de Franca Neto e pela pesquisadora russa Elena Vássina. O trabalho teve a consultoria de Bóris Schnaiderman, em um dos últimos trabalhos deste grande estudioso. A seguir, Alípio Correia de Franca Neto e Elena Vássina respondem juntos a perguntas do Blog Ateliê sobre a obra:

Esta é uma obra fundamental da literatura russa e já possui outra tradução em português. Qual o diferencial desta edição?

Resposta: A tradução é uma atividade dual, envolvendo capacidades individuais de interpretação e de escrita. Logo, uma tradução sempre envolverá uma maneira diferente de ler e de materializar essa leitura na escrita.

Quanto a traduções precedentes, só conhecemos uma versão brasileira do Eugênio Onêguin, cuja iniciativa deve ser considerada, pela envergadura do trabalho, mas que está inçada de imprecisões do ponto de vista de sua poeticidade  e no que concerne a interpretações pontuais de passagens e conceitos. São conhecidos, pelo menos, 10 excelentes  e diferentes traduções de Eugênio Onêguin para língua inglesa; há 16 traduções para o francês; 6 traduções para o espanhol e assim por diante.

Quais foram os maiores desafios da tradução deste volume, levando-se em conta o fato de que este é um romance em versos?

Resposta: O maior desafio, mesmo, é “manter o pulso”, em termos da depuração da linguagem em reescrituras sucessivas, à proporção que se avança  na tradução de um poema tão longo, universalmente conhecido pela “leveza” de seu estilo, a qual deve fazer, claro, parte da poeticidade da tradução –  um estilo que, como disse Tchekhov acerca do pé de uma bailarina, exige o máximo de esforço para o máximo de graça.

Como foi o processo de tradução e adaptação da forma poética? De alguma maneira ela obedece às estruturas da língua russo ou foi feita de modo que o leitor brasileiro pudesse reconhecer o ritmo da poesia a partir das referências de nossa língua?

Elena Vássina

Resposta: A estruturação do poema em português mimetiza um sem-número de estruturas poéticas do original, como, por exemplo, metro, esquemas rímicos, aliterações, assonâncias, ambiguidades, valores tonais. A tradução preserva conteúdos semânticos equivalentes em cada verso, apenas raras vezes deslocados ligeiramente a versos na sequência; preserva paralelismos, recorrência vocabular, aspectos da sintaxe e a maior parte da pontuação (que Michael Hamburger chamava de “a respiração” do poema). Apenas a especificidade do esquema rímico, no que concerne à distribuição de rimas masculinas e femininas, não foi seguida à risca, já que, como está explicado em palavras sobre a tradução no final do segundo volume,  a adoção desse cerceamento poderia resultar em soluções demasiado perifrásticas comparativamente ao original, esse sendo um problema relativo à constituição das línguas, já que o número de palavras oxítonas em português é simplesmente menor do que o de palavras paroxítonas.

Este trabalho foi parcialmente supervisionado pelo Prof. Bóris Schnaiderman, que atuou como consultor desta tradução. Quais foram as contribuições dele para o volume?  De que maneira seu trabalho pode ser percebido aqui?  

Alípio Correa de Franco Neto: O prof. Bóris sentia profundamente o português e o russo, e era uma homem de grande erudição, sensibilidade poética – ou seja, um leitor ideal, contribuindo continuamente com comentários os mais minuciosas sobre imprecisões ocasionais.

Elena Vássina: Em 2008 apresentei ao Professor Bóris um projeto de tradução de “Evguiêni Oniêguin”, obra fundamental da literatura russa que faria o talentoso tradutor de poesia com minha modesta colaboração. O Professor logo ficou muito interessado no projeto e aceitou nosso convite de fazer revisão da tradução e ajudar com o cotejo. Ficaram as recordações das muitas horas que passamos juntos conversando sobre “Evguiêni Oniêguin”, e das diversas páginas que ele nos deixou com suas anotações e listas de correções e sugestões de tradução batidas em sua fiel Olivetti portátil.

O Professor Boris ficou muito entusiasmado ao ler o rascunho da tradução das primeiras estrofes feitas por Alípio, que, segundo o Professor, conseguiu acertar muito bem o estilo do romance em versos e resolver aquilo que o próprio Schnaiderman definiu como “a grande dificuldade” na tradução da obra:“[Púchkin utilizou nela] uma linguagem muito singela e incisiva, sua poesia muitas vezes está bem próxima da prosa e, ao mesmo tempo, é fundamentalmente poesia” (Entrevista com Boris Schnaiderman, 2016, p.40).

Alípio Correia de Franca Neto

O livro faz parte da Coleção Clássicos Comentados. Como ele ajuda o leitor a entrar no universo da literatura russa (em especial desta obra fundamental para aquela cultura)?

Resposta: o livro é composto de um rico aparato de notas, enformadas por tradições críticas da obra,  vazadas em linguagem acessível, e às voltas com problemas culturais e de tradução.

Em sua opinião, este livro tenta ser didático para o leitor que nunca antes teve contato com a obra de Púchkin ou ele deve despertar a atenção apenas dos estudiosos da língua e literatura russa?

Resposta: O livro visa a ser didático, do ponto de vista de seu material paratextual e de textos críticos paradigmáticos da obra, consignados no final do segundo volume, embora, como todo clássico, seja destinado tanto ao leigo como o especialista.

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“O Azul e o Mar”: edição bilíngue com poemas de Paul Valéry

Eduardo de Campos Valadares selecionou poemas de três fases de Paul Valéry – Charmes, Clássicos e o longo poema “A Jovem Parca” – para compor este volume, chamado O Azul e o Mar, uma coedição com a Editora UFMG. Um trabalho de tradução que, segundo o tradutor, foi uma “festa da imaginação”, expressão que cria eco na “festa do intelecto” que, segundo o poeta francês, deve ser o poema.

“Os leitores bilíngues perceberão que a presente tradução busca privilegiar uma ambientação da poesia de Paul Valéry considerando-se a realidade linguística atual”, informa Valadares, Doutor em Física que vive em Minas Gerais, é professor na UFMG, já traduziu Stefan George e também é autor de poesia. A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê:

Como foi feita a seleção dos poemas de O Azul e o Mar?

Eduardo de Campos Valadares: O meu ponto de partida foi o poema “Cemitério Marinho”, cuja tradução foi publicada no Brasil na década de 80 do século passado. Quando a li senti que nela a voz do poeta não fluía como no original. Resolvi então fazer a minha versão. Toda a obra poética de Paul Valéry é de domínio público e se encontra na internet. Selecionei os demais poemas por afinidade estética, pensando na sua universalidade.

Quais foram os maiores desafios da tradução deste volume?

ECV: Foram inúmeros. A poesia de Valéry é muito elaborada e requer extremo cuidado. Depois de ter o manuscrito aprovado pelos editores, reescrevi mais da metade do texto e fiz mudanças até o último minuto. Tudo isso foi possível graças ao apoio da produção. Eu diria que esta obsessão foi imprescindível. Neste processo a poesia de Paul Valéry foi se revelando de forma surpreendente.

Eduardo de Campos Valadares: física e poesia

O que diferencia este volume de outras edições dos poemas de Valéry em português?

ECV: Eu li a tradução de Rilke para o alemão e me dei conta que poderia ousar sem me sentir traidor do poeta. Cada idioma oferece oportunidades linguísticas únicas. Em  minha releitura dos poemas de Valéry explorei suas inúmeras possibilidades de exegese. Por ter traduzido anteriormente o poeta alemão Stefan George (Crepúsculo, Iluminuras), da mesma escola de Valéry – ambos foram discípulos de Mallarmé – me senti à vontade para explorar novas possibilidades, buscando sempre expressar a voz do poeta na língua portuguesa.

A questão da construção poética é bastante importante para Paul Valéry, bem como a questão da racionalidade. De que maneira isso impactou o seu trabalho de tradução para o português?

ECV: Eu sou um tradutor intuitivo. Utilizei todos os recursos ao meu alcance, incluindo ferramentas encontradas na internet, como dicionários de rimas, separador automático de sílabas, dicionários on-line, etc.  Senti visceralmente o que significa viver no século XXI e revisitar uma poesia clássica escrita há cem anos.

O refinamento estético e a inserção de temas filosóficos na poesia de Paul Valéry representaram, de alguma maneira, uma dificuldade em seu trabalho de tradutor?

ECV: Eu gosto de desafios impossíveis. Por isso encarei a poesia de Paul Valéry. O fato de ser um físico me ajudou muito na minha interlocução poética, às vezes lúcida, muitas vezes insana.

Paul Valéry

Em sua opinião O Azul e o Mar é uma boa introdução do trabalho de Valéry para quem nunca teve contato com a obra do poeta?

ECV: Eu creio que sim. Este foi o meu primeiro contato com a poesia de Valéry. Traduzi-lo me fez sair de um luto de cinco anos. Foi uma feliz coincidência, já que este tema reverbera nos poemas que traduzi.

E para aqueles que já são admiradores de sua poesia, o que este livro traz de novo?

ECV: Esta nova versão traz o frescor de um noviço que se aventura por um universo desconhecido. A poesia de Paul Valéry é um convite a refletir sobre a vida e o mundo, por isso admite novas percepções.

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