Lira dos Vinte Anos

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Talvanes Faustino*, que escreve sobre Lira dos Vinte Anos. Agradecemos a colaboração de Talvane e esperamos que todos apreciem a leitura!

No Solo Da Saudade Brotaram As Lembranças De Morrer Das Tripas Do Cadáver De Poeta Foi Feita A Lira Dos Vinte Anos

Quem nessa fronte que animava o gênio,

A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

Machado de Assis

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Maneco, para seus amigos da Faculdade de Direito de São Paulo, nascido sob o signo de virgem no dia 12 de setembro de 1831. Neste mesmo ano, poucos meses antes do nascimento daquele que viria a ser uma das vozes poéticas mais importantes das letras nacionais, o então imperador do Brasil, Dom Pedro I, abdicava no dia 7 de abril do trono, em favor do seu filho Pedro II[1]. Em 1845 Álvares entra para o colégio Pedro II no Rio de Janeiro, então capital do império. Três anos mais tarde, o jovem bardo, entra para a Faculdade de Direito, lugar onde travaria relações de amizade com Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, que segundo seus biógrafos eram seus melhores amigos, por escolha de Coelho Neto (1864-1934). Álvares de Azevedo, tornou-se o patrono da cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras[2] (ABL).

A Lira dos Vinte Anos é provavelmente a obra mais publicada de Álvares de Azevedo. Não é uma tarefa hercúlea encontrar edições desta belíssima obra: são inúmeras as opções e formatos. Assim como, não é impossível dizer, qual entre tantas, deve ser a preferência do leitor. A edição da Ateliê Editoral numa primeira mirada, não tem muito de especial. Mas, ao ler com mais atenção, vemos que nesta 4º edição há um ensaio introdutório a vida e obra de Álvares de Azevedo, a cargo do Dr. José Emílio Major Neto[3], que também fez as notas explicativas. São mais de 500 notas e estas servem como apoio ao leitor na busca pela compreensão da poesia do autor. Ao abrir o livro, nos deparamos com mais novidades, que tornam esta edição diferente de todas as outras que tive a oportunidade de ler. Esta é a primeira vez que vejo uma edição ilustrada da Lira dos Vinte Anos. As ilustrações ficaram a cargo de Ricardo Amadeo, suas ilustrações em preto e branco têm um charme muito especial e ajudam a vermos transformadas em imagem as belas palavras de Álvares de Azevedo. Para completar, temos uma cronologia da vida e obra do cantor da Lira, um vocabulário básico das palavras mais usadas e pequenos textos informativos sobre as influências de Álvares de Azevedo.

Numa resenha escrita por Machado de Assis, sobre o livro Lira Dos Vinte Anos, o velho bruxo, defende que estamos diante de um grande talento, mas que lhe faltou tempo, tempo não apenas para terminar os poemas que deixou incompletos, mas também, tempo para desenvolver sua poesia.

Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude, Álvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019)

Machado de Assis

Com isto Machado de Assis defende uma tese de que a pouca idade de Álvares de Azevedo e sua falta de experiência literária fizeram dele ainda um reflexo das suas influências. Machado fala obviamente de Lord Byron, poeta inglês e maior expressão do romantismo do seu país natal. Mas vale o destaque que Machado não perde de vista que Álvares é um “grande talento”. Mesmo ainda não tendo afirmado a sua individualidade, ele mostra na sua poesia que é destinado a imortalidade. Avançando na leitura vemos o Bruxo, tocar em outro tema caro, seria a sensibilidade demostrada nos poemas verdadeira?

O poeta português Fernando Pessoa, escreveu que “o poeta é um fingidor [..] que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente” e esta palavra “dor” é sem dúvida uma das palavras com as quais podemos explicar a obra de Álvares de Azevedo. Avançando no texto do mestre, vemos que ele toca no tema da sinceridade da dor do Sr. Azevedo, “Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revelava somente um verdadeiro talento; sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera” (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019). E segue voltando a destacar a realmente lamentável falta de tempo que a existência deu ao poeta.

Álvares de Azevedo viveu pouco, mas viveu o suficiente para colocar seu nome no panteão das letras nacionais. Sua poesia que trata de temas tão íntimos e caros ao ser humano que, mesmo após 168 anos da sua morte, encontram nas almas de seus leitores, um solo fértil de saudade, onde brotam as flores das lembranças de morrer, regadas com as lágrimas descridas, que alimentam as tripas que formas as cordas das lira dos vinte anos e na suas cabeças, brilha a glória moribunda do poeta da morte, brilha, Álvares de Azevedo.

Bibliografia

ASSIS, M. D. (10 de Janeiro de 2019). Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo. Acesso em 28 de Maio de 2020, disponível em Blog Do Pensar Poético: https://pensarpoetico.wordpress.com/2019/01/10/resenha-lira-dos-vinte-anos-alvares-de-azevedo/#more-3438

ASSIS, M. D. (29 de Maio de 2020). ÁLVARES D’AZEVEDO (Poesias Diversas). Fonte: Machado De Assis UFSC: https://machadodeassis.ufsc.br/obras/poesias/POESIA,%20Poesias%20dispersas,%201855-1939.htm#%C3%81LVARESDAZEVEDO

AZEVEDO, Á. D. (2014). Lira Dos Vinte Anos. Cotia: Atiliê Editorial.


[1] Porém o pequeno príncipe não pôde assumir o trono por ter apenas 6 anos de idade. Como solução, se inicia o período regencial, que acaba em 1840 com o golpe da maioridade, voltando o poder para a dinastia Bragança, neste ano nosso poeta havia completado 9 primaveras.

[2] A cadeira da qual Álvares é patrono, segue atualmente ocupada pelo escritor Tarcísio Padilha.

[3] Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP (2007) e mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP (2001).

Talvanes Faustino

* Talvanes Faustino é natural de Maceió, Alagoas, graduando em História, porém, em processo de mudança para o curso de Letras, porque a literatura falou mais alto. É autor de livros de poesias e contos, todos publicados de forma independente. A primeira publicação é do livro Portal Da Escuridão Do Meu Olhar de 2012 e o último trabalho publicado é o conto “Pássaros e Morcegos” (2019). Além de Álvares de Azevedo, tem em autores como Machado de Assis, Victor Hugo, Graciliano Ramos e a influência e o aprendizado e o incentivo para continuar escrevendo.

Livros sobre Design são discutidos em clube de leitura

A designer gráfica Tereza Bettinardi sempre teve o hábito de ler muitos livros sobre design e de fazer indicações aos amigos e amigas, inclusive pelas redes sociais. Quando começou a quarentena, ela percebeu que o mercado editorial estava sofrendo muito os impactos do distanciamento social e também que “era muito difícil ler livros de ficção”. Foi então que teve uma ideia: criar um clube do livro no qual as pessoas pudessem discutir virtualmente livros sobre design. Assim nasceu o “Clube do Livro do Design”, que tem uma lista de leitura que inclui dois títulos da Ateliê Editorial: Morte aos Papagaios e A Forma do Livro. Leia a seguir a entrevista que Tereza concedeu ao Blog da Ateliê:

Tereza Bettinardi

Como foi a decisão de criar clubes de leitura?

Tereza Bettinardi: Sempre compartilhei livros de design que estava lendo pelos stories do instagram e muita gente me escrevia pedindo dicas de leitura. Quando entramos todos de quarentena, percebi duas coisas: que era muito difícil ler livros de ficção [simplesmente não conseguia me concentrar] e que um setor muito importante de atuação do meu estúdio – trabalho basicamente com design editorial, capas e livros – estava sentindo os efeitos da crise. Nesse meio tempo, fui convidada para gravar um vídeo-resenha para a Editora Ubu sobre um lançamento da área de design… e acabei me empolgando com o retorno das pessoas sobre o vídeo. Pensei que poderia propor algo que pudesse dar conta da falta de encontro e discussão sobre a nossa profissão e que, ao mesmo tempo, fosse possível movimentar um pouquinho o mercado editorial.

Como funcionam esses clubes: quantos são, quem participa, como são feitas as discussões?

TB: No começo fiz uma lista de seis livros todos em português e editados no Brasil [isso era muito importante!], cada um será lido mês a mês pelos participantes. A ideia é que seja um clube de leitura 100% digital. Depois percebi que vários livros que gostava e considero importantes ficaram de fora – alguns por não terem tradução nem nunca terem sido editados no Brasil. Foi aí que surgiu o segundo grupo [com livros em português e inglês]. A inscrição foi aberta e não tinha nenhum pré-requisito: pode ser estudante, designer recém-formado ou até mesmo de outras áreas. As discussões serão feitas através da plataforma slack e as aulas serão exibidas na plataforma zoom, por videoconferência.

Quantos são os participantes do clube?

TB: Temos mais de 150 participantes distribuídos em três grupos [tivemos que abrir uma turma extra, tamanho o interesse!]. Pessoas de diversos pontos do país [e alguns do exterior!]. Estamos muito empolgadas!

Como é feita a escolha dos livros do clube?

TB: Sempre comprei muitos livros na área, então são livros que já estão na minha biblioteca – alguns mais recentes e outros desde a época de estudante de design. A escolha levou em conta alguns critérios: autores importantes para o campo, ideias que precisam ser levadas à superfície e discutidas por mais gente e também livros que inspirem e tragam alguma leveza para este momento [estamos todos precisando, não é mesmo?].

Por que foi escolhido A  Forma do Livro?

TB: Sempre me intrigou muito a biografia do Jan Tschichold. O pensamento e a prática dele reúnem  duas grandes correntes estéticas que dominaram a tipografia do século XX: a ousada “nova tipografia” e os princípios da tipografia clássica, orientada pelas convenções seculares em vigor desde a Renascença. Esta coletânea de ensaios é muito importante, é quando Tschichold revê seus postulados da juventude e volta-se ao estudo e reflexão da tipografia tradicional e sobretudo aos vários  aspectos da composição tipográfica: página e mancha, parágrafos, grifos, entrelinhamento, tipologias, formatos e papéis, entre outros. Mesmo com mais de 14 anos de experiência no design editorial, este livro é [e sempre será] um refúgio, uma fonte valiosa de consulta e acredito que é peça fundamental para qualquer designer.

Por que foi escolhido Morte aos Papagaios?

TB: Li este livro pela primeira vez na época da faculdade. Coloquei na lista por ser um autor brasileiro, um livro escrito por um designer que tem uma prática relevante e que, ao mesmo tempo, consegue produzir alguma reflexão sobre o campo. São poucos que conseguem unir esses dois interesses e acredito que isso deve ser estimulado.

Em sua opinião, qual a importância de discutir livros sobre design? De que maneira eles contribuem para o repertório dos participantes do clube?

TB: É fundamental! Acho que no Brasil, o exercício da crítica em design ainda é muito incipiente e muitas vezes restrito ao meio acadêmico [sem grande interlocução com o meio profissional]. Por outro lado, existe um número crescente de designers que buscam se atualizar através dos livros… é preciso ficar atento a este movimento [sobretudo as editoras na escolha de seus títulos].

Homenagem a Olga Savary

Por José Armando Pereira da Silva*

A jornalista, escritora, tradutora e ensaísta Olga Savary, que faleceu, vitimada pela covid em maio de 2020, trabalhou com Massao Ohno por mais de uma década.

Massao e Olga Savary (1933 -2020) – uma associação improvável, que durou mais de dez anos. O profissionalismo de uma autora sempre empenhada e organizada se confrontando com o espirito boêmio do editor, que não respeitava prazos, falhava na distribuição dos livros, não prestava contas da vendas e não aceitava suas sugestões. Então, como explicar que confiasse a Massao a edição de sete de suas obras mais significativas e ainda o chamasse para trabalhos em outras editoras? Ela mesma responde: “Ele sabia fazer um livro”.

Suas habilidades de designer (e ousadia, como Altaonda, em grande formato, estampando na capa o retrato da autora) combinadas com a escolha dos ilustradores Calasans Neto, Manabu Mabe e Aldemir Martins, Tomie Ohtake, Guita Charifker, Kazuo Wakabayashi deram aos livros de Olga, com o reconhecimento literário, visibilidade para prêmios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sobre Retratos, concluía a jornalista Elizabeth Vieira: “Um belo livro. Que vale a pena ser lido. E visto” (Jornal da Tarde, 9.12.1989).

Na sua temporada carioca dos anos 1980, Olga foi sua anfitriã no meio literário, e se considera lançadora de seu nome fora do reduto paulistano. Foi quem o apresentou a Marly de Oliveira.

Outra afinidade os aproximou: o gosto pelo haicai. Olga estava entre as primeiras cultoras e divulgadoras do gênero no Brasil. Como praticante, ampliou o arco temático tradicional e liberou-se de estrita grade formal, sem fugir ao espirito das imagens-sínteses. Buscou lições dos mestres Bashō, Buson e Issa, que traduziu em O Livro dos Hai-kais (p. ), abrindo caminho para outros autores do gênero no catalogo de Massao. Quando voltou ao mestre, no preparo para a editora Hucitec de Hai-kais de Bashō, foi a ele que confiou a coordenação gráfica.

Também precursor, Magma mostra outra faceta da obra de Olga Savary. Provavelmente o primeiro livro integralmente de poesia erótica escrito por uma mulher no Brasil. Serve-lhe de capa obra de Tomie Ohtake – truque mais uma vez usado pelo editor: involucro minimalista de suave combinação cromática para um conteúdo ardente. O contrário se dá em Eden Hades, onde as representações da ave do paraíso, da mulher nua e de São Jorge matando o dragão, criadas por Guita Charifker, conduzem diretamente aos arquétipos míticos e sagrados que são dominantes nos poemas.

Olga Savary soma ao oficio poético trabalhos como jornalista, contista, tradutora e organizadora de antologias. Além dos clássicos do haicai, traduziu Borges, Cortazar, Fuentes, Lorca, Neruda e Octavio Paz. Organizou a Antologia Brasileira de Poesia Erótica (1984) e a Antologia da Nova Poesia Brasileira (1992), reunindo 334 poetas de todos os Estados brasileiros, na qual também convocou Massao para a supervisão gráfica. Sua obra tem recebido várias análises, sendo a mais abrangente no âmbito acadêmico a de Marleine Paula Toledo: Olga Savary – Erotismo e Paixão (2009).

Conheça mais sobre Massao Ohno e Olga Savary

*José Armando Pereira da Silva é Mestre em Teatro pela Universidade do Rio de Janeiro e em História da Arte pela USP. Pertence à Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) Publicou: Província e VanguardaThomas Perina – Pintura e PoéticaJoão Suzuki – Travessia do SonhoA Cena Brasileira em Santo AndréPaulo Chaves – Andamentos da Cor e Artistas na Metrópole – Galeria Domus, 1947-1951. Organizou: Guido Poianas – Retratos da CidadeVertentes do Cinema ModernoLuís Martins, um Cronista de Arte em São Paulo e José Geraldo Vieira – Crítica de Arte na Revista Habitat.  É autor de Massao Ohno, Editor (Ateliê Editorial).

Coração, Cabeça e Estômago: humor e crítica em um texto clássico

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Camila Justo*, que escreve sobre Coração, Cabeça e Estômago, escrito por Camilo Castelo Branco em 1862 . Agradecemos a colaboração de Camila e esperamos que todos apreciem a leitura!

A leitura da novela satírica publicada em 1862, Coração, Cabeça e Estômago poderá nos ajudar a conhecer  Camilo Castelo Branco, o autor, e outros aspectos de sua obra.  Em relação à estrutura: apresenta um preâmbulo, sob forma de diálogo entre os amigos Faustino Xavier Novaes e o editor (provavelmente o próprio Camilo Castelo Branco) em torno de um amigo em comum, morto há seis meses. O editor em questão recebe a incumbência de organizar, revisar e publicar o livro de memórias do falecido Silvestre da Silva; e três partes , a saber: 

A primeira é intitulada CORAÇÃO e é a mais longa. Ela abarca boa parte do livro e vai de 1844 a 1854. Nela, Silvestre da Silva, apresenta-se como um saloio ingênuo, sonhador e cheio de esperança, que deixa sua pequena aldeia em Soutelo e migra para Lisboa, onde”inicia seu noviciado amoroso”. Nesse período, suas atitudes e decisões são norteadas pelos sentimentos e excessos de sua imaginação.

Ele ama (ou melhor, tenta amar, sete mulheres), mas sempre de forma instantânea (apaixona-se à primeira vista) e leviana, fortemente influenciado pelos romances e poesia românticos que ávida e irrefletidamente consome.

Silvestre tenta reproduzir a todo custo o estilo de vida e padrões de comportamento adotados por seus heróis e poetas românticos preferidos,  o que acaba desencadeando uma série de situações ridículas e jocosas e, ao mesmo tempo, dignas de reflexão. 

As mulheres pelas quais Silvestre se apaixona apresentam traços de caráter e personalidade semelhantes entre si, reproduzindo sempre os mesmos padrões de escolha de objeto amoroso: todas elas são frívolas, vaidosas, cínicas e interesseiras, e não hesitam em trocá-lo por homens endinheirados na primeira oportunidade.

Depois de sete decepções amorosas consecutivas, Silvestre ainda conhece outras duas mulheres: Paula, “a mulher que o mundo respeita” (é cínica, hipócrita e calculista, trai o conde com o qual se casa por conveniência), mas como é rica, a alta sociedade lisboeta faz vistas grossas ao caso extraconjugal que mantém com o mestre-escola e mesmo sendo adúltera é adorada em seu meio social; e a última é Marcolina, “a mulher que o mundo despreza”, foi aliciada e vendida pela mãe aos 14 anos de idade a um barão. 

Com a morte deste, Marcolina, casa-se com Augusto, um antigo amor, que após o casamento revela-se um homem violento, perdulário, libertino e jogador e dilapida o dinheiro obtido com venda das joias que a esposa recebera de presente. Desesperada e tendo de sustentar suas irmãs, vê-se obrigada a se prostituir. Marcolina e Silvestre se conhecem no Cais do Sodré, justamente no momento em que ela tencionava dar cabo de sua própria vida, pois havia contraído tuberculose e se sentia abandonada pela família.

Ao ouvir sua triste história, Silvestre se compadece da moça e a leva para sua aldeia natal em Soutelo, em busca de ares mais puros e benfazejos à sua debilitada saúde.

No leito de morte, Marcolina declara seu amor por Silvestre, que, ao mesmo tempo, se dá conta de também a amava, pois segundo ele, Marcolina era a mais verdadeira, pura, sincera e santa que “as mulheres que o mundo respeita”.

A segunda parte denomina-se CABEÇA (sede da inteligência, da razão, do cálculo, da consciência, do planejamento e da premeditação) e estende-se por cinco anos (1855-1860), em que Silvestre da Silva, entediado com a monotonia, a tristeza e fealdade de sua aldeia, muda-se para a cidade do Porto, onde passa a trabalhar como jornalista e se interessa pela política local.  

Faz duras críticas aos romances românticos franceses, questionando os padrões de beleza de suas heroínas, sempre pálidas, magras e frágeis a que as jovens procuravam imitar à custa de forçados jejuns e noites mal dormidas e que mulher portuense do passado tinha aspecto bonito, vistoso, saudável, era bem fornida de carne, tinha as faces coradas e mais disposição de ânimo. Silvestre acaba se envolvendo em uma série de confusões com figuras ilustres da sociedade portuense, denuncia sua hipocrisia, pondo a nu seus aspectos ridículos, degradantes e comezinhos, o que lhe trará sérios problemas financeiros e profissionais, e este será o motivo que o fará regressar definitivamente à aldeia onde nasceu.

Ilustração do livro Coração, Cabeça e Estômago, feita por Gustavo Piqueira

A terceira, e última parte denomina-se ESTÔMAGO (órgão que representa o instinto de sobrevivência, nossas necessidades básicas, instintivas tais como comer, beber, procriar, dormir). Nesse período,  que vai de 1860-1861, o protagonista procura uma vida bucólica, serena e isenta de preocupações.   Silvestre nos conta as razões por que se casou com Tomásia e como isto se deu.

Pode -se dizer que o título da novela é uma espécie de metáfora da trajetória de seu protagonista: no início é um saloio ingênuo, romântico, atrapalhado, cheio de esperanças, mas à medida que se decepciona com as mulheres com quem tenta se relacionar e com a sociedade em que se insere, deixa-se corromper pelo meio, tornando-se amargurado, cético, acomoda-se se ao status quo, tanto é verdade que morre de caquexia, empanzinado de tanto comer.

Por fim,  outro aspecto digno de nota é o modo como Camilo Castelo Branco satiriza o Romantismo, movimento estético e filosófico, a que num primeiro momento parece estar associado. Isto se evidencia pela maneira concisa, desidealizada, sem aqueles floreios retóricos, tão caros aos românticos, como  Silvestre da Silva, o narrador da novela nos descreve a personagem Tomásia.

Segundo ele, Tomásia é uma jovem rústica, “escura de inteligência”, não sabia ler nem escrever e era desprovida de vaidade. Porém, ao ler a novela, tem se a impressão de que ela era uma mulher sincera, de coração puro, inocente, sensata, trabalhadora, temente a Deus, forte tanto física quanto moralmente e o mais admirável, dotada de um senso prático incomum às mulheres do século XIX, sobretudo, se a compararmos àquelas que Silvestre conheceu nas cidades de Lisboa e Porto . 

Desta forma , cabe lembrar que no mesmo ano de publicação desta obra veio a lume a novela passional  Amor de Perdição, considerada tanto pelos críticos e historiadores literários quanto pelo público, a obra-prima de Camilo Castelo Branco, mas  a leitura de Coração, Cabeça e Estômago deixa claro que sua produção literária  é mais vasta e diversificada e não se restringe às histórias fatalistas, de amores impossíveis, infelizes, repleto de lances trágicos ou melodramáticos, como muitos manuais de literatura do Ensino Médio querem nos fazer crer.

*Graduada em Letras Português/Espanhol pela UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba 2003), especializada em Literatura pela UNITAU (Universidade de Taubaté 2008/2009).

Livros sobre música

De Noel Rosa a Schoenberg, passando por Velhas Virgens e Adoniran Barbosa, o catálogo de livros sobre música da Ateliê é tão múltiplo que atende a todos os gostos. São mais de 20 títulos diferentes que abordam não apenas nomes clássicos da música popular brasileira mas também temas ligados à música, como semiótica, análise do discurso e outros.

Para quem acha que a música é fundamental para sobreviver ao cotidiano, a variedade dos títulos da Ateliê Editorial mostra que igualmente importante é aproveitar as múltiplas possibilidades que o assunto oferece para entender as mais diversas nuances que a obra de cada autor ou intérprete nos propõe. Há mais de um livro sobre Paulinho da Viola ou Chico Buarque, para deleite dos fãs que querem ir além dos lindos versos e das deliciosas melodias. Quer saber mais?

Então, confira alguns dos nossos títulos:

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor

Eliete Negreiros apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.

Melancolias, Mercadorias: Dorival Caymmi, Chico Buarque, o Pregão de Rua e a Canção Popular-Comercial no Brasil

Walter Garcia interpreta A Preta do Acarajé, de Dorival Caymmi, e Carioca, de Chico Buarque, como momentos de passagem de um sistema da canção popular-comercial brasileira. Abrangendo uma série de análises (letra, melodia, canto, harmonia, acompanhamento rítmico, dimensão comercial), o trabalho estuda esse sistema em sua formação, com os sambas das primeiras décadas do século XX, e em sua ruína, na virada para o século XXI.

Noel Rosa – O Humor na Canção

 Na análise das canções de Noel Rosa, Mayra Pinto mostra como o tom coloquial, próprio do samba, se apoia em estrofes construídas com base em paralelismos poéticos, entoativos e rítmico-musicais. A única alteração nessa “fórmula” está na letra, que a cada estrofe descreve com mais detalhes a situação do locutor.

Quase Tudo

Este é o esforço de uma banda em juntar caminhos. Reunir a dispersão que se tornou a música e a comunicação na internet em um novo pacote, uma nova proposta. Misturar rock, ficção, memória e reality show por escrito. A espinha dorsal são as 15 músicas do projeto Quase, lançado em etapas na internet e encartado em CD junto com o livro, que as expandiu em acordes, notas pessoais, imagens, emails furiosos entre os integrantes e dois contos inéditos.

Crítica e Criação – Um Estudo da Kreisleriana Op. 16 de Robert Schumann

Mónica Vermes analisa o intenso diálogo entre a obra de Schumann e o pensamento dos artistas e filósofos que lançaram os fundamentos do romantismo alemão. É nesse sentido que a peça de Schumann funcionou, segundo a autora, como um ponto de convergência entre crítica e criação.

Tropicália: Alegoria Alegria

Lançado em 1979, este estudo de Celso Favaretto tornou-se um clássico sobre o movimento da Tropicália, leitura imprescindível aos interessados pelo tema. O autor reconstitui os nexos entre as composições, os arranjos e as cenas que caracterizam os gestos particulares dos tropicalistas. Explica também as tendências gerais do movimento e mostra como ele desenhou uma nova estética para a música brasileira. Esta reedição, revisada e ampliada, conta com prefácio do músico e linguista Luiz Tatit.

Conheça mais títulos sobre música da Ateliê Editorial

A Carne, de Júlio Ribeiro

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Alessandra Portinari Maranca*, que escreve sobre A Carne, de Júlio Ribeiro. Agradecemos a colaboração de Alessandra e esperamos que todos apreciem a leitura!

A Carne, de Júlio Ribeiro, é um romance naturalista que consome e absorve o leitor. Um livro sobre uma mulher cuja vida lhe faz sádica, mais inteligente que os homens, e segura de si. Conforme li, fiquei admirada com o quão progressista e polêmicas para a época as ideias retratadas são. Lenita é uma mulher forte, estudada, com os mais diversos talentos e desejos próprios. Mas ao mesmo tempo é violenta, e expressa suas emoções descontando-as nos outros. Essa contradição é o fio que guia o livro: a emancipação feminina é se tornar um homem ou é ter liberdade para ser mulher como se quiser?

Isto é a maior questão do livro, para mim: como a sociedade lida quando uma mulher é tão violenta, e tão arrogante quanto um homem. Cometendo as mesmas atrocidades aos escravizados que os homens da casa cometiam, sendo arrogante quanto aos seus descobrimentos científicos e idealizando a caça de animais inocentes na floresta, Lenira é um “homem típico” do final do século XIX. E isso causa revolta e repulsa. O progressismo não se encontra somente na personagem principal, mas em pontuações que o narrador faz: “Amor eterno só em poesias piegas. Casamento, sem divórcio legal, regularizado, honroso, para ambas as partes, é caldeira de vapor sem válvulas de segurança, arrebenta.” Essa discussão sobre o que o casamento-prisão dessa época de fato significava para a mulher na prática era fortemente censurada em todos os meios. 

O seu romance com Barbosa não deixa de ter um quê de inovação e críticas implícitas: os dois personagens são parceiros de estudo, e fazem ciências juntos. Não há um jogo de forças marcante entre eles, que se tratam com uma refrescante horizontalidade, e essa igualdade de tratamento era ensurdecedora nesse período (o que, somado às descrições sexuais e à violência, talvez explique porque o livro fora tão polêmico na época). Contudo, ambos são dominados pelos desejos sexuais, que sob a ótica do narrador naturalista caracterizam uma decadência em relação ao patamar racional que atingiam anteriormente.

 A carne, na obra, é uma entidade, um personagem que tem desejos próprios e guia a narrativa, como o cortiço em “O Cortiço”, de uma maneira tipicamente naturalista 一 inclusive uma das poucas coisas “típicas” ali. A obra aborda de uma forma natural o desejo sexual, as “perversões”, e o sexo de forma geral, entre animais e entre seres humanos. Com descrições relativamente explícitas, o narrador constantemente coloca o sexo como um fator presente nos ares e nas consciências dos personagens.

Além disso, a obra não se isenta de críticas à sociedade paulista da época: “Até 1887 vivia-se em pleno feudalismo no interior da província de São Paulo” e seguem-se as descrições satíricas dos jogos de poder. As descrições dos costumes, e hábitos ultrapassados da elite cafeicultora são postos com forte satirização pelo narrador.

Contudo, devo fazer um aviso: o escritor não se isenta da misoginia ao combatê-la, como no trecho: “(Barbosa) conhecia a fundo a natureza, a organização caprichosa, nevrótica, inconstante, ilógica, falha, absurda, da fêmea da espécie humana; conhecia a mulher, conhecia-lhe o útero, conhecia-lhe a carne, conhecia-lhe o cérebro fraco, escravizado pela carne, dominado pelo útero; (…) e fora se deixar prender nos laços de uma paixão por mulher!”. Típico na literatura brasileira, o retrato da mulher como sedutora e manipuladora é comum. Mas aqui, a misoginia adquire um outro tom, que é o do naturalismo, afirmando que o gênero determina as capacidades mentais e comportamentos de uma pessoa. Durante o luto de seu pai, por exemplo, é afirmado que Lenira “entrara na convalescença do cataclismo orgânico”, e “feminizava-se” o que nas palavras do narrador implicaria em “perder a sede de ciência”, prática fortemente associada à homens. 

O desfecho, para mim, é o ápice da obra.  Recheado de ironia, ocorre a completa inversão dos papéis românticos e é colocado em discussão qual sexo seria de fato “irracional e impulsivo”. A Carne, além de um romance divertido, cítrico, e dinâmico, é um prato cheio para discutir a sociedade cafeeira paulistana do século XIX, seus papéis de gênero e o que é violência e amor para essa elite. 

*Alessandra Portinari Maranca tem 18 anos e é aluna do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. Ela também é professora do Cursinho Popular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e literatura é uma das suas maiores paixões.