Tereza Kikuchi

Design pra quê?

Vírus da Leitura – Tereza Kikuchi

Tereza Kikuchi

Motivada pela recepção positiva dos leitores ao meu primeiro post aqui no Blog da Ateliê [Bastidores da Produção Editorial], resolvi manter o tema, desta vez para falar de um outro aspecto muito importante, o projeto gráfico.

Trabalhar no projeto gráfico de um livro é sempre uma aventura ímpar. Não existem fórmulas para conceber um bom projeto, mas existe uma extensa e rica tradição tipográfica por trás do ofício da edição. E esse conhecimento dos antigos tipógrafos e impressores deve ser valorizado, pois o objetivo de um bom designer de livro não é reinventar a roda, mas sim pensar sobre seu objeto de trabalho e se perguntar o porquê de suas escolhas. Se suas escolhas forem motivadas por questões puramente ornamentais, algo está errado.

Fazer um projeto gráfico significa refletir sobre problemas e buscar soluções eficientes. Normalmente o problema que o designer enfrenta é como tornar a leitura confortável. Se um texto puder ser lido com fluidez e clareza, a função do desenho da página foi cumprida.

Existem outras questões importantes que devem ser feitas e respondidas antes da elaboração do projeto gráfico de um livro, por exemplo:

  • Quais são as características do livro em que se está trabalhando?
  • Trata-se de um romance? Um livro de poesias? De literatura infantil? De referência? Um livro didático? Um livro de Arte?
  • Qual o público leitor deste livro? Adulto? Infantil? Juvenil? Especializado?
  • Haverá ilustrações, fotografias, infográficos, mapas? Será contratado um iconógrafo? Ilustradores? Fotógrafos? Quem será responsável pela edição das imagens?
  • Qual o número de laudas do original?
  • Qual formato [tamanho] de livro possibilita melhor resultado levando-se em conta custos, aproveitamento de papel e conforto para o leitor?
  • Que tipo de papel é mais adequado para o livro?
  • Qual a verba disponível para a impressão e acabamento da obra? Qual será a gráfica contratada? Que recursos técnicos a gráfica oferece? Haverá um produtor gráfico responsável pelo acompanhamento da impressão?
  • A casa editorial já é conhecida por seguir uma linguagem gráfica específica?
  • Como o livro será comercializado?
  • E, principalmente, quem é o responsável pela aprovação final do projeto?
[Quanto maior no número de questões respondidas, melhor a qualidade do briefing para a realização do trabalho].

***

Vamos supor que nosso livro em questão é um romance do Machado de Assis, com cerca de 140 laudas, destinado a estudantes pré-universitários.

Aparentemente simples, não é mesmo?

Vamos especificar ainda mais, digamos que se trata do Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma das mais importantes obras da literatura brasileira. A editora, preocupada em oferecer uma publicação especial aos leitores, edita uma obra com texto estabelecido segundo estudos filológicos consagrados, com o objetivo de tornar a edição, tanto quanto for possível, fidedigna ao original revisto pelo próprio autor.

Além disso, o livro apresenta notas diversas que procuram aproximar o leitor jovem às referências apresentadas por Machado de Assis em sua obra. Trata-se de uma edição comentada.

O livro será comercializado em livrarias e também submetido a vendas para Programas de Incentivo à Leitura de órgãos do Governo, para distribuição em bibliotecas e escolas públicas.

***

Agora, caro leitor, que tipo de pergunta você faria, se tivesse de desenvolver um projeto gráfico para o livro acima?

Você já sabe qual o público leitor almejado, quem é o autor, qual a especificidade do texto editado e como a obra será comercializada. Já conversou com o responsável pela aprovação do projeto (no caso, o editor) e descobriu que Machado de Assis também foi tipógrafo e que em seu livro, a composição do texto é parte da obra. Como ocorre na poesia concreta, forma e conteúdo apresentam o mesmo peso e são complementares (Veja, por exemplo, o capítulo “O Velho Diálogo de Adão e Eva”, todo ele composto por sinais de pontuação e indicação de falas).

Diálogo Adão e Eva

Se o livro será inscrito em licitações públicas, a primeira coisa que você precisa se perguntar é: quais são as regras para venda de obras a órgãos públicos? Existe alguma limitação quanto ao formato do livro, tipo de papel, tipo de capa?

Posteriormente você pode se perguntar, se o livro será vendido para o Governo e para as livrarias, é justo fazer edições diferenciadas? Ou é possível desenvolver soluções viáveis para ambos? Afinal, por que o que é destinado para o uso comunitário deve ter qualidade inferior ao que é destinado para a uso privado?

Após listar todas as limitações impostas pelas características da edição e pelo briefing do editor, o designer tomará algumas decisões orientadas pelas questões realizadas:

  • Qual o formato ideal para a leitura da obra? O livro precisa ser fácil de carregar? O leitor provavelmente carregará seu exemplar em bolsas e mochilas? Quando leio um livro, como eu o seguro?
  • Que tipo de papel é mais indicado para leituras extensas? O papel opaco reflete menos luz e isso pode ser mais confortável para os olhos? Qual gramatura ideal a fim de que o livro não se torne muito pesado e nem a tinta acabe vazando para o verso da folha?
  • Como o livro deve ser composto? Qual será a família tipográfica escolhida? Qual o posicionamento do texto em relação às margens? Qual o número ideal de linhas por página? Qual o tamanho do corpo da tipografia para o texto principal? Qual será o tamanho da entrelinha? Qual a quantidade média de caracteres por linha? Como será o espaçamento médio entre palavras e entre caracteres? Como será desenhado o cabeço, as notas de rodapé e a numeração de página? Como será composto o sumário? Quais são os estilos de parágrafo e de caracteres que o texto exige?…

A lista de questões que o designer precisa responder é muito grande. E suas decisões não são guiadas por valores do tipo, “eu gosto disso ou gosto daquilo”, “isso é bonito” e “isso é feio”. Ou pelo menos não deveriam ser balizadas por esse tipo de critério.

Pela mesma razão, a aprovação de um projeto gráfico não deveria se basear apenas no gosto pessoal do cliente. É preciso refletir sobre o trabalho realizado, buscar soluções responsáveis, inteligentes e práticas. Design não é Arte, o design deve ser fundamentado, precisa de argumentos que o sustente, deve responder a problemas e criar soluções eficazes. Um bom projeto gráfico precisa funcionar, não precisa chamar atenção, nem estar repleto de elementos decorativos.

Portanto, os designers de livro e todos os outros profissionais envolvidos na produção editorial devem ser valorizados, bem remunerados e respeitados. O trabalho executado não é tão simples, fácil e glamoroso como muitos podem supor.

Agora, se formos considerar a produção de um livro eletrônico, a lista de perguntas deve ser ainda mais extensa. A boa notícia: como os problemas referentes à leitura no ambiente digital ainda não foram resolvidos, temos espaço de sobra para buscar soluções eficientes para todos. Vamos tentar?

Por enquanto é só. Obrigada pela leitura e até o próximo post.

Coluna Vírus da Leitura – Tereza Kikuchi

Formada em Editoração pela ECA-USP, escreve mensalmente para o Blog da Ateliê Editorial e quinzenalmente para o Blog Ideia de Marketing. Trabalha com livros há mais de uma década, coordenando projetos editoriais e desenvolvendo projetos gráficos. É organizadora do livro José Mindlin, Editor, publicado pela Edusp em 2004.

Bastidores da Produção Editorial

Bastidores Produção Editorial

Tereza Kikuchi

É com muita alegria que inauguro hoje meu primeiro post para o blog da Ateliê Editorial. Em primeiro lugar, quero agradecer Tomás Martins pelo gentil convite para participar desta equipe.

Aqui pretendo escrever com regularidade mensal sobre questões ligadas aos temas: livro e cultura, principalmente no que se refere ao trabalho dos profissionais destes setores e às mudanças que as novas tecnologias vêm impondo ao negócio do livro.

Escrevo em primeira pessoa, deixando claro que as opiniões e assuntos debatidos neste espaço foram elegidos por mim, não refletindo uma posição institucional da Ateliê Editorial, portanto polêmicas, acertos ou incorreções que por ventura surjam são de minha responsabilidade.

Introduções feitas, hoje quero convidá-los a conhecer os bastidores da produção editorial. Vocês sabem como um livro é feito?

No centro do palco, o Revisor

Imagine que você, caro leitor, tenha seu original aprovado por uma editora. Este texto, escrito com apreço e dedicação, ainda percorrerá um longo caminho. Primeiramente, o preparador ou revisor de texto realizará uma padronização geral do modo como o conteúdo é apresentado, seguindo o estilo adotado pela casa editorial.

E o que seria essa tal padronização? O texto já não está escrito e aprovado? Claro que sim, porém há certos elementos que no decorrer da escrita podem estar grafados de maneiras distintas. Por exemplo, os números, que ora são redigidos como algarismos, ora por extenso. Não se trata de um erro gramatical, mas de uma convenção. Algumas editoras costumam converter os dígitos para a forma extensa, quando eles podem ser reduzidos a uma palavra (um, dois, três, dez, vinte, cem). No entanto, mantêm a grafia em dígito nos casos em que a forma por extenso é composta por mais de uma palavra (22, 58, 1025).

A lista de convenções para padronização de textos é enorme: hierarquização das informações nas referências bibliográficas; regras para composição de notas de rodapé; uso de versaletes para siglas (USP, FGV, PUC) ou composição em caixa-alta e baixa (maiúscula apenas na primeira letra) nos casos em que as siglas podem ser pronunciadas (Unicamp, Unesp, Unifesp). Cada editora adota um padrão, mas o importante é que as informações estejam bem organizadas e coerentes com o estilo adotado.

Além de padronizar o texto, o preparador também realiza uma primeira leitura cuidadosa em relação à gramática e à ortografia do original, e aponta eventuais problemas semânticos, propondo correções ou melhorias.

Trata-se de um trabalho que exige formação especializada, atenção aos detalhes e muito amor à palavra escrita. Infelizmente, poucos sequer tomam conhecimento deste profissional, só se recordam de sua existência quando encontram erros numa publicação. Por este motivo, entre muitos outros, o profissional de texto na prática exerce uma carreira ingrata. Pois quando realiza seu trabalho com perfeição (o que, convenhamos, é humanamente impossível), não é notado, e quando alguém percebe um erro, torna-se automaticamente o vilão da história.

Este profissional tão importante para a produção de um livro bem editado (assim como outros profissionais que raramente são notados, como por exemplo o produtor editorial, o designer, o produtor gráfico, o iconógrafo, o infografista, o divulgador etc.) não é remunerado como deveria ser, apesar de realizar uma atividade que exige grande esforço intelectual e bagagem cultural.

E o pior de tudo, muitos acreditam que ele pode ser substituído pelo corretor ortográfico dos programas de edição!

Por que falar sobre este tema é importante, não só para os profissionais da área, mas também para o leitor?

Simples, porque ler um livro bem editado, produzido por uma equipe de profissionais competente e valorizada, faz toda a diferença, apesar de não ser tão visível a princípio.

Se você usufruiu de uma leitura agradável, com fluidez e conforto, acredite, isso se deve ao revisor e aos demais profissionais acima citados.

Fui motivada a escrever tudo isso, porque os profissionais desta área são desprestigiados, não só entre o público leigo, mas também no mercado editorial, o que é uma triste injustiça. Trazer à tona essas questões é uma modesta tentativa de retirar da coxia um profissional fundamental para que a qualidade das edições se mantenha.

Daí, vamos a outro ponto: muito se tem falado sobre a independência do autor, que por meio das novas tecnologias e dos modelos de negócio disponibilizados pelas grandes corporações, não necessitariam mais do editor ou dos demais profissionais. Ledo engano. Um bom livro – analógico ou digital – é uma obra coletiva, ou seja, apesar de destacar o escritor na capa (por seu trabalho de criação e pesquisa), o livro é como um filme: para existir, depende de inúmeros outros profissionais.

E um livro, objeto tão amado, sendo ele digital ou analógico, precisa ser produzido com todo cuidado que uma obra artística ou uma pesquisa científica merecem, a fim de que não se comprometa a qualidade do texto.

Caso o leitor um dia se depare com um livro ou e-book cheio de erros e mal desenhado, lembre-se, ali não há projeto editorial.

Até o próximo post. E um muito obrigado a todos os revisores!

Coluna da Tereza Kikuchi

Formada em Editoração pela eca-usp, escreve mensalmente para o Blog da Ateliê Editorial e quinzenalmente para o Blog Ideia de Marketing. Trabalha com livros há mais de uma década, coordenando projetos editoriais e desenvolvendo projetos gráficos. É organizadora do livro José Mindlin, Editor, publicado pela Edusp em 2004.