Resenhas

“Moleque de fábrica”: memória de um trabalhador

Por Carina Pedro *

O livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social” do sociólogo e professor José de Souza Martins é um mergulho profundo nas memórias do autor, da sua infância à maturidade, das difíceis relações familiares e profissionais estabelecidas entre o campo e a cidade, que ajudaram a formar o homem adulto e acadêmico, crítico de sua própria trajetória. São memórias com as quais muitos brasileiros vão se identificar, seja pela imigração de seus antepassados, pela infância no interior e na cidade (uma das do ABC paulista), em meados dos anos cinquenta, quando ser operário de fábrica era o destino certo da maioria dos trabalhadores. A obra é composta por catorze capítulos, um prólogo e uma conclusão, que nos fazem refletir sobre o Brasil de José e de outros tantos brasileiros.

No primeiro capítulo “Estranho Regresso”, Martins narra sua viagem a Portugal nos anos 70 e a descoberta da história de origem de seu pai, nascido em Santiago de Figueiró. Em pouco tempo, informações surpreendentes sobre sua família paterna foram reveladas, em especial, sobre sua avó Maria de Souza Martins, a Mãe Maria, e o contexto de nascimento de seu filho, Alberto, pai de Martins. Um dos indícios de que algo tinha sido omitido é o fato de Alberto ter herdado apenas o nome de sua mãe. No segundo capítulo “Encontro na Estação Victoria” podemos conhecer mais sobre a família materna do autor, que emigrou da Espanha duas vezes, a primeira para Argentina e a segunda e definitiva para o Brasil, onde após trabalharem nos cafezais, construíram sua própria casa de pau a pique no bairro caipira do Arriá em Pinhalzinho (SP). Entre as memórias compartilhadas, Martins nos revela como foi a morte de seu avô materno e de uma de suas tias, ainda pequena, tragédia que repercutiu na personalidade de sua mãe até os últimos dias.

No capítulo três, “Iniciação ao medo”, o autor nos conta sobre o início da sua vida escolar em um externato católico, com regras rígidas de comportamento, após a morte precoce do pai e a necessidade de sua mãe trabalhar. Outra mudança significativa na vida de Martins e seu irmão foi o segundo casamento de sua mãe, que os levou a morar na área rural, em um pequeno lote de terra em Guaianazes. No capítulo quatro, “A arca encantada”, temos um interessante relato de um evento ocorrido nessa passagem do autor pela roça: a busca de um baú cheio de moedas de ouro enterrado por um antigo senhor de escravos. No capítulo “A cachorra Lembrança”, a partir das dificuldades vivenciadas por Martins e sua família em Guaianazes, o autor faz uma profunda reflexão sobre as principais oposições entre a cultura caipira e a cultura urbana.

O autor com a mãe e o irmão, em 1948, em Guaianazes

O capítulo “Moleques de rua” traz algumas questões sobre a sociabilidade infantil no subúrbio operário. Como exemplo, brinquedo e brincadeira eram coisas diferentes para eles, sendo que o brinquedo só fazia sentido se resultasse em uma atividade coletiva na rua, considerada um território livre para brincar com bola de borracha, papagaio, peão, etc. No capítulo “A margem”, o sociólogo traz à tona a cultura da sova ou a violência doméstica praticada contra os imaturos, atitude que interpreta como uma transferência injusta para os filhos das adversidades da vida operária. Tal prática ocasionou a separação definitiva de sua mãe e seu padrasto. O capítulo “Cada dia do nosso pão” aborda uma nova fase da sua vida familiar e profissional, quando ainda adolescente consegue um emprego na Cerâmica São Caetano.

“Vida intransitiva” traz uma reflexão sobre os conflitos culturais vivenciados pelos imigrantes. O autor discute os dois casamentos de sua mãe, o primeiro com seu pai português, que representou a vitória da cultura europeia e a negação do mundo caipira, e o segundo com seu padrasto, que configurou um retorno sem sucesso para o meio rural. No capítulo dez, “A pulga e a fé”, Martins relata suas experiências nas religiões católica e protestante, sendo esta última considerada pelo autor uma importante influência no seu autodidatismo. Na sequência, em “Os mistérios da fábrica”, o leitor encontrará uma análise detalhada de quem fez parte do sistema fabril. Cumprindo seus deveres de trabalhador na Cerâmica São Caetano, Martins presenciou fatos inusitados, como o suposto aparecimento de um demônio para uma das operárias. Acontecimento que mais tarde virou objeto de estudo do sociólogo.

No capítulo doze “Na última manhã de Getúlio” é abordada a reação à morte de Getúlio Vargas, cuja trajetória cruza com a do fundador da Cerâmica São Caetano, o engenheiro Roberto Simonsen, pioneiro na adoção de direitos sociais e fundador da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Em “A greve” colocam-se outras questões relacionadas ao trabalho na fábrica, como a invisibilidade dos trabalhadores e sua alienação. Há, inclusive, uma crítica aos sindicatos da época, que não prestavam atenção nas crianças e adolescentes. Como ressalta Martins, o trabalho e sua disciplina eram vistos como algo benéfico pelos pais operários. O capítulo catorze, “A saída do labirinto”, é um relato sobre a chegada do autor à vida adulta, a saída da fábrica e o início no curso de Formação de Professores Primários do Instituto de Educação Dr. Américo Brasiliense, de onde saiu formado para ingressar no curso de Ciências Sociais da USP.

Escrever sua própria biografia, baseada nas memórias de um homem comum, que vivenciou a pobreza e as dificuldades que dela derivam, possibilitou ao sociólogo José de Souza Martins compartilhar uma história real, repleta de incertezas e angústias que lhe são próprias, assim como as alternativas encontradas para superar as inúmeras adversidades. Na conclusão do seu livro, após tantas lembranças significativas e comoventes, o autor insiste na necessidade de voltarmos a atenção para o operário de carne e osso, aquele que vai até a fábrica porque precisa e que nela entra como objeto e não como sujeito, com ele foi um dia. Além da consciência da exploração, esse trabalhador precisa se libertar de seu passado e encontrar caminhos para promover as mudanças. Um deles seria o encontro com a grande cultura, aquela que emancipa e provoca superações.

*Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Conheça o livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social”

 

A Margem da História

Renato Tardivo*

Arabia Brasilica, livro do professor e pesquisador italiano Alberto Sismondini, é fruto de um trabalho minucioso que busca identificar e analisar a influência da literatura árabe na produção de escritores brasileiros. O ensaio se debruça principalmente sobre a obra de Raduan Nassar (talvez o escritor brasileiro vivo mais reconhecido de nosso tempo) e Milton Hatoum (autor em franca atividade com protagonismo na literatura brasileira), mas também sobre o romance familiar de Salim Miguel. Como se vê, trata-se de autores de origem libanesa e, o que é mais importante, cuja origem se faz determinante em sua obra.

Mas Sismondini não se ocupa somente da obra desses três autores. Com rigor historiográfico (e geográfico), o ensaio explora elementos da presença do Líbano no Brasil, voltando a reflexão à própria literatura ao abordar aspectos da obra de Guimarães Rosa, Drummond, Jorge Amado, Ana Miranda, Alberto Mussa, entre outros, bem como a influência da literatura francesa nas obras de Nassar e Hatoum. Tais investigações visam dar corpo, então, aos principais propósitos do trabalho: buscar “um sentido para o conceito de ‘estilo oriental’”, o que se cumpre ao abordar “alguns temas paradigmáticos: a solidão, a utopia e o exílio […] a necessidade de entrelaçar o mal e o bem […] o amor pela tradição e a obsessão pelo trabalho, a experiência do infinito e da totalidade limitada”.

Os contos de As Mil e Uma Noites ganham destaque nas análises desenvolvidas no âmbito da literatura comparada. Isso ocorre, por exemplo, quando o autor assinala a presença da escrita a serviço da oralidade, tanto em um dos contos do célebre texto árabe (“Maryam a Cinteira”) como na novela Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar. Traços de As Mil e uma Noites são também encontrados na obra de Milton Hatoum. Em seu romance de estreia, Relato de um Certo Oriente, há inclusive menções explícitas ao texto árabe, o que não é aleatório: a estrutura do romance de Hatoum, com efeito, parece moldada em As Mil e Uma Noites.

Temas como “atopias”, “exílio” e “incesto” são desenvolvidos na última seção do livro, por meio da leitura de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, e Dois Irmãos, de Milton Hatoum. A força dos personagens “preteridos” – que se estende à linguagem mesma das narrativas – é lida em diálogo  com passagens da literatura árabe, uma vez mais sobretudo com os contos de As Mil e Uma Noites.

Finalmente, chama a atenção a temática do “estrangeiro”, que atravessa o livro. Ora, trata-de de um autor italiano, radicado em Portugal, analisando influências da literatura árabe na obra de autores brasileiros de origem libanesa. Mas, mesmo dentro desse escopo, o “estrangeiro” se expande, já que obras de outros autores brasileiros e influências da literatura de outros países são também consideradas. Nessa medida, este ensaio que aborda autores que escreveram “à margem da história”, é também ele um livro que procura o tempo todo lançar luz às margens ao habitá-las.

 

 

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

A arquitetura de Frei Galvão

Por Carina Marcondes Ferreira Pedro*

O livro Frei Galvão: Arquiteto do professor Benedito Lima de Toledo nos mostra, por meio de fontes textuais e iconográficas, uma São Paulo ainda pouco povoada, onde capelas, mosteiros e conventos eram os principais pontos de referência dos moradores e viajantes, período em que a influência portuguesa se fazia fortemente presente nos santos de devoção católicos e, consequentemente, na arquitetura religiosa. Foi nesse contexto que o frei Antônio de Sant’Anna Galvão, o Frei Galvão, teve uma importante atuação, projetando obras que marcaram a paisagem da cidade, como o Mosteiro da Luz.

Capa do livro de Benedito Lima de Toledo

No primeiro capítulo, Mosteiro de Nossa Senhora da Luz: Origens, o autor escreve sobre Portugal, no século XV, mais especificamente, Carnide, próximo a Lisboa, onde se deu o aparecimento da imagem de Nossa Senhora da Luz a Pero Martins e sua humilde família. No local, foi construída uma ermida, sucedida por uma igreja, que foi finalizada somente no final do século XVI. Aspectos arquitetônicos inserem a obra no movimento artístico conhecido como maneirismo em Portugal. O capítulo seguinte, Uma Imagem em São Paulo, trata da chegada da imagem de Nossa Senhora da Luz ao Brasil e a construção da sua capela por Domingos Luís, o Carvoeiro, e sua mulher Ana Camacho, na São Paulo seiscentista.

Com o passar dos anos e a deterioração da capela, Frei Galvão ficou responsável pelo projeto do novo convento no Campo da Luz. Em uma planta de 1810, do engenheiro Rufino José Felizardo Costa, aparece a primeira indicação desse novo edifício, com um “pouso” e um “Jardim Público” nas proximidades. Outros registros importantes são as aquarelas do botânico William John Burchell, de 1827, em que o Mosteiro da Luz aparece exatamente como foi concebido por Frei Galvão, com detalhes arquitetônicos no “estilo jesuítico”. Mais tarde, as fotografias de Militão Augusto de Azevedo mostram alterações no frontispício, voltado para Avenida Tiradentes.

No terceiro capítulo, Muros que resistem ao Tempo, o autor discute a taipa de pilão, conhecida técnica construtiva do período colonial, herança dos invasores muçulmanos na Península Ibérica. Toledo ressalta que os taipeiros e sua técnica não receberam o devido reconhecimento, sendo o Mosteiro da Luz, uma das poucas construções preservadas em São Paulo. Outra característica relevante da Igreja da Luz, abordada no quarto capítulo, é sua planta octogonal, presente também na Capela da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, outro projeto relacionado ao Frei Galvão, que foi frade no Convento de São Francisco até sua mudança para o Mosteiro da Luz.

No capítulo seis, Implantação do Edifício, são detalhadas as principais semelhanças entre a Igreja da Luz e a citada Capela Terceira de São Francisco, entre elas, a planta octogonal, a mudança de eixo principal e o pórtico de ambas. Sobre a mudança do eixo principal, o autor ressalta a percepção espacial de Frei Galvão sobre a região da Luz, que a seu ver se tornaria o centro da cidade, por isso a construção deste novo frontispício voltado para atual Avenida Tiradentes. Nos interiores do convento também é perceptível a habilidade do Frei projetista, que desenhou um local bem arejado, até os dias de hoje, com boas acomodações e amplos corredores abertos para pátios com jardins.

No oitavo e último capítulo, Um Documento – O Risco, Benedito Lima de Toledo nos revela a existência de um documento raro, deixado por Frei Galvão, em uma parede do Mosteiro da Luz, onde viveu seus últimos anos de vida. Esse documento, o “risco”, nada mais era do que a representação de um projeto sobre uma superfície, feito, naquela época, com uma ponta afiada. O tal projeto, segundo Toledo, correspondia a um frontispício de uma igreja, que não se sabe a finalidade, mas que lembrava a Igreja do Seminário Episcopal, mais tarde, construída na mesma Avenida Tiradentes.

 

*Historiadora, designer de interiores e mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

História da Língua Portuguesa

Antônio Suárez Abreu*

Surge agora, pela Ateliê, uma nova reimpressão do livro História da Língua Portuguesa, organizado pelo Prof. Segismundo Spina, editado pela primeira vez em 2008.   É uma obra dirigida especialmente aos alunos de Letras, mas que será lida com facilidade por qualquer pessoa leiga que se interesse pela história do nosso idioma.  Além de explicar brevemente as características gramaticais de cada um dos períodos da história do Português, desde seu surgimento no século XII até os dias atuais, seus autores incluem, ao final de cada capítulo, análises de textos emblemáticos de cada um desses períodos, o que permite ao leitor um entendimento mais funcional e colorido da língua.

É preciso dizer que, durante os últimos quarenta anos, os estudos históricos da Língua Portuguesa foram postos em segundo plano, dando lugar apenas a estudos sincrônicos, obedecendo à cartilha de Ferdinand de Saussure, o que foi um erro.  Atualmente, a Linguística Histórica vem ganhando cada vez mais importância, uma vez que é possível e desejável conciliar seu conhecimento com o funcionamento da língua atual.   Esse é o ponto de vista da moderna Linguística Cognitiva, sobretudo quando trabalha com o fenômeno da Gramaticalização, ou faz uso do modelo da Teoria da Complexidade, uma vez que os processos cognitivos usados para processar a linguagem em uso são os mesmos que a levam sofrer mudanças ao longo do tempo. Joan Bybee, em seu recente livro Language Change, publicado em 2015, diz que “Entender a mudança linguística nos ajuda a entender os estados sincrônicos, suas estruturas e as variações encontrada neles.”

As pessoas encarregadas de escrever os capítulos da História da Língua Portuguesa compõem um time de primeira linha.  Assim, Amini Boainain Hauy  ficou responsável por descrever a parte mais antiga do Português, desde o século XII até o século XIV; Dulce de Faria Paiva ficou com a tarefa de trabalhar com  o Português do século XV até o século XVI, passando o bastão a Segismundo  Spina, que trabalhou os séculos XVI e XVII.  A seguir, Rolando Morel Pinto ficou encarregado do século XVIII, Nilce Sant’Anna Martins, do século XIX e, finalmente, Edith Pimentel Pinto, do século XX.   O resultado é um harmonioso relato de fatos linguísticos relacionados a importantes momentos históricos e culturais, dando ao leitor uma visão privilegiada do panorama linguístico de Portugal, Brasil e de outros países lusófonos ao longo de oito séculos.  Parabéns a Ateliê, por contribuir para essa importante tarefa!

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita(Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça as obras de Antônio Suárez Abreu

O que Será?

Renato Tardivo*

Adélia Bezerra de Meneses

Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque, premiado ensaio de Adélia Bezerra de Meneses originalmente publicado em 1981, reflete com profundidade os primeiros quinze anos da obra do artista. Sua leitura hoje, quando Chico acaba de lançar o 38º álbum de estúdio, torna-se ainda mais interessante. Os desdobramentos de sua obra – ampliando-se também à prosa de ficção – parecem ter comprovado a precisão do exame empreendido por Adélia: “Nostalgia, utopia e crítica delineiam uma trajetória em espiral em que, num progressivo expandir-se, há a retomada, sempre, dos inícios, e a volta dos temas fulcrais” (p. 143).

As composições de Chico Buarque (canções e peças de teatro) são agrupadas nas seguintes categorias (que correspondem a capítulos do livro): Lirismo Nostálgico, As Canções de Repressão, Variante Utópica e Vertente Crítica. Assim, suas primeiras canções não abordam, ao menos não diretamente, temas políticos; apresentam, em vez disso, uma temporalidade mítica, na qual a realidade é posta entre parênteses. “Carolina”, em cujos “olhos fundos/guarda tanta dor”, talvez seja um dos principais emblemas do lirismo nostálgico. A canção, que rendeu uma série de interpretações nem sempre favoráveis (como a dos tropicalistas), “é extremamente significativa de um determinado momento histórico: aquele em que uma parcela da intelectualidade brasileira, alijada da práxis política, tende a se refugiar em situações de melancolia e inação: da janela, vê (ou não vê) o tempo passar” (p. 61).

Ocorre que, após os três primeiros álbuns, as composições de Chico privilegiam a “tensão para um futuro aberto […] A proposta dessas canções será a de mudança do presente” (p. 67). Em vez de “canções de protesto”, a autora propõe que nomeemos as produções desta fase de “canções de repressão”, pois trazem em sua estrutura a atmosfera que pairava sobre o Brasil – e, por conseguinte, sobre sua classe artística – do início dos anos 1970. “Apesar de você”, “Cálice”, “Angélica”, entre tantas outras, dão mostras de um autor sensível, vigoroso e maduro. Mobilizada por um presente repressor, a obra de Chico passa a desenhar (e desejar) novas (e não menos difíceis) formas de ser.

Um dos desdobramentos das canções de repressão é a potencialização da utopia – que resulta em “uma crítica não direta, mas que brota do confronto entre uma realidade ‘real’ e uma realidade possível” (p. 103). Uma das canções mais fortes nessa direção é “O que Será”: “projeção para um futuro absoluto, para aquilo que só pode existir por enquanto na fantasia, mas de que os homens se nutrem para o seu enfrentamento com a realidade” (p. 118). O futuro, já em aberto a partir das canções de protesto, se radicaliza enquanto absoluta incerteza. É como se, em sua vertente utópica, o compositor construísse um estatuto político para o impossível.

 

E a vertente crítica, conquanto já estivesse presente em canções anteriores, como “Pedro Pedreiro” (do primeiro disco), marca, segundo a autora, a produção mais recente (quando da escrita do ensaio) do compositor. A clássica “Construção”, os textos para teatro, “Bye-bye Brasil”, “Até o Fim”, a novela Fazenda Modelo e, em uma das leituras mais originais do livro, “Sabiá” – belíssima canção que, no entanto, se notabilizou pela rixa com “Para Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré – são composições pródigas “em crítica social, numa trajetória que parece corresponder a um percurso pessoal e político” (p. 143). A crítica de Chico se volta inclusive à própria capacidade de criar, como em “Essa Moça Tá Diferente” e “Agora Falando Sério” – crítica que, décadas mais tarde, se expressaria na angústia contida em seus romances. “Crise da sociedade. Crise da linguagem” (p. 154). Crise do Eu, podemos acrescentar – e, além da obra literária, composições posteriores como “Todo Sentimento” e “Futuros Amantes” tomariam essa direção.

Nostalgia (volta ao passado), utopia (construção do futuro) e crítica (leitura lúcida do presente) – a obra de Chico Buarque é, com efeito, atravessada por essas três vertentes. À flor da terra, à flor da pele, sua palavra é corpo por excelência e, como emblema da espiral vertiginosa que confere historicidade à sua obra, o corpo cantado por ele é “palavra/que se produz/muda”.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

 

Conheça outras obras de Adélia Bezerra de Meneses  

A Morte, o Acaso, a Vida

Renato Tardivo*

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, romance de Lima Barreto, autor homenageado na Flip deste ano, foi publicado pela primeira vez em 1919. Levou algumas décadas, contudo, para que a obra de Lima fosse amplamente distribuída. Triste Fim de Policarpo Quaresma, originalmente publicado em 1915, talvez seja seu romance mais célebre; com efeito, Policarpo é uma das personagens mais importantes da literatura brasileira. No romance que se ocupa da biografia de Gonzaga, no entanto, encontramos um Lima Barreto que equilibra com excelência sensibilidade e crítica. A obra acaba de receber uma caprichada edição, com inúmeras notas explicativas, um minucioso ensaio de Marcos Scheffel, além de ilustrações e fotografias do Rio de Janeiro do início do século.

A história é narrada por Augusto Machado, biógrafo de Gonzaga. De saída, coloca-se uma questão extremamente atual, da qual tem se ocupado grande parte da literatura contemporânea: as pontes entre realidade e ficção. A linguagem documental é trabalhada no âmbito da ficção. O romance não segue um enredo linear, nem trabalha os conflitos do ponto de vista da narrativa clássica. Machado relata encontros com seu biografado, cuja morte anuncia no início do livro, dando voz a ele em diálogos, cartas, anotações deixadas. E é assim que tomamos contato com as inquietudes de Gonzaga diante daquilo que vê ao transitar pela cidade. E como são atuais suas reflexões acerca da hipocrisia que rege a civilização.

Conquanto flua desde o início, trata-se de um romance filosófico. Algumas passagens, como a que veremos, são memoráveis. Escreve Machado, referindo-se a anotações que Gonzaga lhe deixou:

 

“Não compreendi imediatamente a significação dessa fantasia; mas, referindo-a a este e aquele aspecto de sua vida, entendi bem que ele queria dizer que o Acaso, mais do que outro qualquer Deus, é capaz de perturbar imprevistamente os mais sábios planos que tenhamos traçado e zombar da nossa ciência e da nossa vontade. E o Acaso não tem predileções…”

 

Em que se considerem essa e outras passagens, é interessante constatar certa afinidade temática entre a obra de Sigmund Freud, criador da psicanálise, e a literatura do início do século passado: o olhar para além do que se mostra superficialmente, a vida que surge da morte e a morte de que é feita a vida, as tensões entre civilização e desejo, realidade e ficção, o estranho e o familiar… Esta talvez seja uma interessante chave de leitura para esse romance de Lima Barreto – uma biografia que começa em morte e termina em vida e na qual o biografado erra pelas ruas da metrópole com um olhar negativado.

Não há vida que resista às perturbações do Acaso. Mas, paradoxalmente, são essas perturbações que conferem identidade à personagem, à cidade, ao país. Ora, não seria justamente após a morte que, pelos olhos de Augusto Machado, se constrói a identidade de M. J. Gonzaga de Sá?

 

**Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

16/06: Bloomsday

Por Renata de Albuquerque

Todo dia 16 de junho é celebrado por quem é apaixonado por literatura e livros. Nesse dia é comemorado, ao redor de todo o mundo, o Bloomsday. Instituída na Irlanda, a data homenageia Leopold Bloom, o protagonista de Ulisses, de James Joyce, que durante o dia 16 de junho de 1904 revive em Dublin, a clássica odisseia de Homero.

Mas, Leopold Bloom vive sua odisseia em um romance realista, ambientado no século XX. As figuras mitológicas são representadas por pessoas comuns e as batalhas épicas são episódios do dia a dia. Nem por isso o livro é menos interessante. As experimentações estéticas e de linguagem que Joyce propõe em Ulisses ainda fazem deste um dos livros mais instigantes da história da literatura. Alguns o consideram hermético, complexo e difícil de ler. Outros, o tomam como um desafio.

“Joyce Era Louco?” enfoca a obra do escritor irlandês

A complexidade da obra de James Joyce é tamanha que ela talvez seja uma das mais estudados do mundo. Ulisses foi construído com recursos até então inéditos – mas posteriormente usados largamente na ficção moderna – como o discurso interior, a fragmentação da estrutura do romance e a alternância do foco narrativo.

Antônio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo traduziram a obra para o português. São trabalhos hercúleos, cujo legado é a possibilidade de cruzar referências e oferecer ao leitor como um todo um panorama riquíssimo daquilo que, para muitos, é “intraduzível”.

Não há uma data exata que marque o início das comemorações do Bloomsday. A  celebração do “Dia de Bloom” pode ter começado em 1924 ou 1925, quando amigos de James Joyce – que lançara o livro em 1922 – fizeram uma festa para o escritor, que, então, passava por dificuldades. Outra versão indica que a data passou a ser lembrada no fim dos anos 40, após a morte do irlandês. Mas, a hipótese mais aceita dá conta de que a celebração tenha se iniciado em 1954, data do aniversário de 50 anos do dia retratado no romance.

O fato é que o Bloomsday é hoje celebrado pelo mundo todo, com leituras de trechos do livro, em festas com encenações e bebida. Enquanto isso, James Joyce continua instigando leitores e críticos com sua obra universal.

Conheça alguns títulos sobre James Joyce

Silenciosamente e no Breu: Rosa e Carrascoza em “Silêncios no Escuro”

Renato Tardivo*

Silêncios no escuro, primeira obra de ficção adulta de Maria Viana, como já aponta o título, é construído por metáforas sensíveis. A referência mais direta talvez seja Guimarães Rosa, mas, entre os autores contemporâneos, os contos do livro também dialogam com a poética de João Carrascoza, um dos principais escritores brasileiros contemporâneos.

Por meio do trabalho com a palavra que diz ao não dizer, do retrato do Sol que ilumina ao se pôr, as narrativas não desvendam o mistério em seus desfechos. São metafísicas por excelência.

“Em nome do pai”, conto que abre o livro, é tocante. Mostra o triunfo da vida, ainda que na “17ª tentativa”, e, invertendo a ordem natural das coisas, coloca a vida como herdeira da morte.

“A cobra na cabaça” narra o encontro invisível entre duas pessoas, através da música, separadas ainda (para sempre?) pela “madeira da porta”. “Balaio de cabeças” dialoga com o clássico “A terceira margem do rio”, do já mencionado Guimarães Rosa: o desparecimento de um marca o surgimento da lenda.

Como nos contos de João Carrascoza, a temática da morte é frequente: a morte que “poupa de gritos dilacerantes”, em um dos contos mais longos do livro, “A praga”. Em “A santa que fugiu do altar”, pródigo em metafísica, Manuelinha lembra muito Niilinha, do conto “A menina de lá”, de Rosa. “Condensação e deslocamento”, noções fundamentais para a definição de sonho, por Freud, retrata algumas cenas, como em um filme (um sonho?), de modo que a ligação entre elas perfaça o percurso de uma vida, ainda em aberto.

A última narrativa, “Em busca do pai”, cujo título remete à primeira, a filha encontra o pai, em sonho, no céu. Sonhar, aqui, forma caráter; confere densidade à subjetividade. Uma vez mais, é a vida a herdeira da morte – silenciosamente e no breu.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

Para loucos por livros, um livro sobre livros

A Casa dos Seis Tostões é uma história bem contada, recheada de informações reais sobre livros, para o deleite de editores, escritores e demais profissionais do mercado editorial, amantes da arte do livro e da leitura. Lançamento da Ateliê Editorial, vai ser a próxima leitura da fotógrafa Lucia Mindlin Loeb, que trabalha com arte em livros e concedeu entrevista exclusiva para o blog 

 

Por Katherine Funke*

Se você está lendo este blog, possui certo grau de loucura por livros, digo, loucura suficiente para desejar e, quem sabe, comprar mais livros do que pode ler ou guardar. Ou, mais loucura ainda: paixão, e o bastante para transformar o livro em seu trabalho, em uma livraria, sebo ou biblioteca. Mais um passo, e aí já está escrevendo, revisando ou editando livros. E, como a fotógrafa e artista visual Lucia Mindlin Loeb, deixando o livro “atravessar” sua trajetória e vice-versa – a ponto de criar e editar livros aparentemente impossíveis ou incoerentes, com a mesma fotografia impressa em todas as páginas ou serrado em duas partes (veja a entrevista com a artista)

Isto ainda não é loucura suficiente? Então junte toda uma vida relacionada ao livro, case com alguém que também está escrevendo um livro, tenha um filho e, enquanto está corrigindo as provas do seu primeiro livro a ser publicado, e seu bebê ainda precisa ser amamentado, venda sua bela casa nas colinas da Califórnia e se mude para uma pequena cidade no interior do País de Gales, com mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias.

Casa dos seis tostoesEsta é a história de A Casa dos Seis Tostões – Perdido numa Cidade de Livros, lançamento da Ateliê Editorial. Um livro que remete a muitos, muitos outros livros, desde a capa, em que dimensões diferentes de tipografia convivem na página, enquadrados de modo a dar ideia de que aí estão três títulos em um só. Solução genial de design: afinal,não existe livro solitário. Pelo menos desde Mallarmé e seus textos sobre o livro como instrumento espiritual, sabemos que os livros se comunicam, se exigem, demandam interações infinitas, entre diferentes épocas, edições, editorações e escritas.

Esta saborosa obra de Paul Collins, traduzida do inglês americano por Marcello Rollemberg e Ana Maria Fiorini, deleita ao mesmo tempo bibliófilos, amantes da cultura do livro, assim como quem procura uma leitura leve, dotada da fluidez de um narrador “encarregado de ver divinamente”, diria Mallarmé no ensaio citado, capaz de contar “das relações entre tudo.”

É por isso que um público tão abrangente pode se deliciar com A Casa dos Seis Tostões: Collins consegue relacionar as marcantes diferenças entre britânicos e americanos com o jeito como é recebido por colegas de trabalho, por exemplo. Entrelaça sua vida pessoal mais visível – é uma história autobiográfica –, isto é, os cuidados com o bebê, com aquilo que profissionalmente oferece de mais mágico – uma pesquisa vasta, dinâmica, sobre diferentes etapas da literatura e da cultura do livro. É a vida em todas as suas circunstâncias, dentro e fora do livro.

Em Hay-on-Wye, Collins tem muitas oportunidades para entrar no assunto do livro,  desde descrever as aventuras do inusitado trabalho temporário como “especialista em literatura americana” em uma anárquica loja gigante de livros usados até o processo de edição de um novo título, sofrido por ninguém menos que o próprio autor.

Pesquisas

O ruim de um livro tão bom é que ele, de um modo ou outro, acaba. Mas, também, não acaba: a diversão posterior é pesquisar, por conta própria, as centenas de dados apresentados sobre autores raros ou conhecidos, fatos peculiares e edições marcantes da história do livro. A uma pessoa ansiosa por informação de qualidade, como eu e Collins, difícil, na verdade, é parar de pesquisar coisas como: desde quando os livros têm sobrecapas? Quando o livro passou a ser produto popular? Existiu mesmo o título I was Hitler’s Maid?

Outra pausa útil, provocada pelo autor durante a leitura, pode ser dada para que se pense em temas metafísicos como o da duração de um livro, não só como objeto físico (delicado, especialmente quando antigo), mas também do que foi lido: o modo como ecoa ou interage com o que surge décadas, ou séculos depois.

Outro tema, mais misterioso ainda, é como, apesar de serem tantos fatores em torno do sucesso de um livro, não há fórmula que possa antever o que vai se tornar um bestseller e o que, por outro lado, será colocado na pilha do saldão. Collins conta casos de fracasso e sucesso com facilidade, dando a entender que pesquisa o tema há tanto tempo quanto se entende como leitor.

Aliás, para que escrever um livro sobre livros se já existem tantos outros livros sobre livros? “Para quê? É preciso arriscar: é preciso escrever sobre o livro por uma libertação”, responderia o filósofo francês Jean-Luc Nancy, em um texto chamado “As Razões de Escrever” (em: Demanda – Literatura e Filosofia, Edufsc, 2016).

Libertar-se de quê? Bem, talvez de um modelo ou de uma expectativa. Sabe-se lá. Cada caso, um caso. Neste, Paul Collins encontra um modo totalmente original de contar um pedaço da sua vida em que esteve, mais do que nunca, mergulhado em livros.

Tarefa infinita

Hay On Wye

Hay On Wye

Collins encontrou uma atmosfera envolvente e dinâmica na Booth’s, um sebo gigante com várias sedes espalhadas pela cidade. Ali, contratado como especialista em literatura americana, ele trabalhou durante alguns meses, até dar por terminada a tarefa de organizar uma seção em um dos prédios.

Mas o problema (e a maravilha) de trabalhar na Booth’s parece ser o fato de que há livros demais para serem organizados, e diferentes modos de sistematização e hierarquização de acervo convivendo década após década nos vários imóveis pelos quais se espalha a livraria. Collins compara o modelo de negócios da Booth’s com o de concorrentes da cidade; ao mesmo tempo, também dá um ar muito humano, contraditório e engraçado para o antigo patrão e colegas de trabalho, revelando que, além de prestar atenção em livros, lia também as pessoas ao seu redor.

Ao final do seu contrato na Booth’s, e com seu próprio livro já na etapa da revisão final (que volta dos Estados Unidos pelo correio com dezenas de bilhetes cheios de dúvidas colados no manuscrito), Collins também decide voltar para casa.

O problema é que já não era tão estrangeiro assim em Hay-on-Wye, e já não tinha um lar para chamar de seu nos Estados Unidos: dilema existencial que, poderíamos dizer, foi antecipado por outro livro, O Estrangeiro, de Albert Camus – mas isto é outra história… O que importa é que Collins não parece se preocupar demais com o que vem depois. Ao contrário, cada uma das páginas desse seu delicioso livro de memórias, especialmente as páginas finais, condensam todo aquele tipo de “informação inútil” pelo qual nós, bibliófilos, escritores, jornalistas, editores, somos absolutamente apaixonados.

E, se não adianto nesta resenha mais nenhum desses detalhes, é porque consideraria um spoiler mais grave do que contar que, enfim, a família de Collins não fixa moradia em Hay-on-Wye.

* Escritora, jornalista e mestranda em Literatura pela UFSC. 

 

Pulsação viva

 Por: Renato Tardivo

tempo vivo da memoria

Qual é o tempo da memória?

Apressadamente, talvez respondêssemos ser o tempo passado. No entanto, O Tempo Vivo da Memória, livro clássico da Psicologia Social brasileira, escrito por Ecléa Bosi, trata de problematizar essa resposta, desde o título.

O livro reúne diversos ensaios que, tendo a temática da memória como fio condutor, incluem reflexões teóricas, dados de pesquisa de campo, análises de obras de arte e objetos da cultura, estudos sobre a obra de Simone Weil, entre outros.

Não se trata de um livro técnico ou com academicismos. Uma das características comuns a todos os capítulos é a profundidade dos temas que abordam e a simplicidade com que o fazem, de modo que se trate de um livro sobre todos nós e, como escreve José Moura Gonçalves Filho no texto da orelha, “um livro para todos”.

 

O vivido por acontecer

Atentando no início para os aspectos do cotidiano e seu dinamismo, o que os afasta das definições estanques e cronológicas (a que estamos mais acostumados) de História, Ecléa Bosi nos mostra que o tempo da memória não é o tempo morto dos calendários, mas o tempo “de outra história mais densa”, o tempo das pequenas coisas, dos gestos, o tempo que nos une a todos e que, por isso mesmo, escapa a qualquer apreensão definitiva. Com efeito, mais do que acessar o passado, a memória o faz reviver.

Amparada na Psicologia da Gestalt e Bergson, a autora considera que o passado se conserva, mas não de forma homogênea. Uma lembrança, ao virar figura, altera o fundo – o todo de que é parte. E vice-versa.

É assim que, do trabalho dos operários, Ecléa extrai verdadeiras joias: “combinam sob forma nova os fragmentos de matéria de um meio que é anômico, os detrimentos e migalhas da sociedade industrial, imprimindo a esses conjuntos o encanto que só poderia emanar da classe voltada como nenhuma outra para os valores de uso”.

O tempo vivo – portanto, por acontecer – da memória – portanto, vivido – é inapreensível e, concomitantemente, tudo o que temos.

 

Enraizamento e memória

Simone Weil

Simone Weil

Já havia tomado contato com este livro, cuja primeira edição é de 2003 e a segunda de 2004, em outras ocasiões. Fui aluno de Ecléa Bosi em 2002 – tempo em que as ideias a ser publicadas habitavam melodicamente suas aulas –, bem como o lera em 2005, para a seleção do mestrado em Psicologia Social. Nesse sentido, a releitura me trouxe a temática mesma da obra, convidando-me à revivescência de outros tempos.

Ao fim, quando cheguei aos estudos sobre a obra de Simone Weil, ocorreu-me algo que vivi recentemente. Conversava com meus pais sobre os últimos dias de vida do meu avô, talvez minha experiência mais próxima da morte de que tenho memória, e lembrei-me de um sonho que ele teve. Em coma profundo por alguns dias – e desacreditado pelos médicos –, meu avô despertou completamente lúcido. Consumido pelo câncer, ele nos contou um sonho… Estava aprisionado em uma aldeia indígena e, no julgamento que poderia condená-lo à morte, fora absolvido.

Além do sonho, de que também meus pais tinham memória, lembrei-me de que ele despertara com vontade de comer pastel de feira. Evidentemente, trazer um pastel para um paciente terminal feria as regras do hospital, de modo que, não sei se ajudado pelo fato de meu pai, filho dele, ser médico do hospital ou se contando com a compaixão da equipe médica, conseguimos trazer o tal pastel.

Lembro-me da cena: meu avô, pele e osso, mastigando com prazer, como se fosse hoje. Contudo, nem me pai nem minha mãe lembraram-se disso. “Há coisas de que só as crianças se lembram”, disse minha mãe. Em um primeiro momento me irritei: como não se lembravam de algo tão relevante? Sem a comprovação deles, estaria a veracidade de minha memória posta em cheque?

Mas logo me reconfortei no privilégio que ser o guardião do que uma cena como aquela implica: um pedacinho de minhas raízes, à iminência de nos deixar para se tornar memória, pulsando vivo dentro de mim a magia de uma herança por despertar, talvez não muito diferente da experiência de voltar de um coma irreversível.