Resenhas

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (quinta parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana publicamos a última parte do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

cancioneiro

Sexta Sugestão         

Talvez o leitor estranhe que Petrarca tanto enalteça seu ídolo, uma Laura

que possivelmente não poderia ser estrela de um filme. Qualquer tentativa de desmitizá-la a banalizaria. Laura jamais poderá descer das alturas rarefeitas da imaginação. Será sempre uma mulher vislumbrada. Mas o que o poeta escreveu sobre ela, a propósito dela, e sobretudo, o que conseguiu extrair do poço sem fundo de suas próprias experiências e fantasias, não foram, nem possivelmente nunca o serão, exploradas como ele as explorou. Inclusive porque a linguagem de Petrarca é   – ela própria, em si – uma fabulosa criação pessoal:

Se amor não é, qual é meu sentimento?petrarca 5

Mas se ele é amor, por Deus, que coisa é e qual?

Se boa, de onde lhe vem a ação mortal?

Se má, por que é tão doce seu tormento? (p. 239).

 

 

 

 

A atualidade de Petrarca consiste, afinal, no seguinte paradoxo: ele anacroniza os poetas contemporâneos! Ao lermos seu Cancioneiro, percebemos o quanto os poetas modernos e contemporâneos beberam em suas fontes, o quanto lhe devem em pedágio.

Em vista disso, leitor, não se preocupe com o tom aparentemente monocórdico de seus versos. A monocordia não é dele, é dos poetas que vieram após ele. É dos poetas que o assimilaram.

A leitura do Cancioneiro possui o mérito de revelar o quanto na literatura moderna e contemporânea já estava in nuce em Petrarca. Porque o que Petrarca descobriu não foi um tipo de poesia, mas a própria poesia moderna, como ela se expandiu, como – a partir de Dante – tomou nova direção: a de Petrarca.

Petrarca descobriu a inquietude contemporânea, o desassossego, e com ele os inumeráveis caminhos que daí partem, e vão desaguar, inclusive… em Fernando Pessoa!

Tudo o que se relaciona com o eu do poeta, com o homem que subjaz ao criador, está em Petrarca.

O autor do Cancioneiro só não descobriu um elemento essencial que define nosso mundo: o eu ampliado de Baudelaire ou de Nietzsche, bem como o “eu” inflado e não totalmente perscrutado das massas, das multidões. Porque a realidade é que Petrarca foi um Robinson Crusoé de si. Faltou-lhe imaginar o nós, verdadeiro e ilusório que resultou da explosão atômica do eu, e nos levou à noosfera alucinada e alucinante de nossa realidade contemporânea.

Eis porque a poesia moderna é necessária, possui seu universo peculiar, e sob certos aspectos se afastou de Petrarca, e nada deve a ele.

Ela veio completar Petrarca, mas não aprisioná-lo em fórmulas.

A poesia, portanto, permanece viva e criativa, e inclusive continua a inspirar-se no mundo do grande inspirador do autor do Cancioneiro, Agostinho de Hipona que escreveu:

Grande abismo é o homem, Senhor! Contais os fios de seus cabelos (…) porém seus cabelos são muito mais fáceis de contar que os afetos e movimentos de seu coração.[1]

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[1] Cit. in: Peter Brown. Santo Agostinho, uma Biografia. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Editora Record, 2005. p . 209.

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (quarta parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana damos continuidade à publicação do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

 

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Quinta Sugestão

 

Esqueça o aspecto “amante” de Petrarca.  Ele é, além do mais, um ciumento incomparável. Reserva Laura, a física, para si, comprazendo-se em exibir a outra Laura, a meta-física, a que está além do corpo, a imaginária, para o leitor. Que este a imagine quanto quiser – e puder! O poeta não se importa de desenhá-la ou pintá-la verbalmente:

 

Verdes panos, ou de rubro tingidos

                        não vestiram té agora,

                        nem trança de ouro mulher envolveu

tão bela como essa que me espolia

                        do juízo, e do rumo da liberdade

consigo me arrasta, pois não sustenho

nem jugo menos grave. (p. 81).

 

Apegue-se, portanto, ao Poeta! Ele é mais interessante que a própria mulher que celebra, tanto assim que poucos retratos “imaginários” dela ficaram, e no entanto, são inúmeras, e sempre atuais, as edições do Cancioneiro. Repare como Petrarca possui finura:

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pela esperança que é de amor a filha,

e em tua acerba vida te conserva,

da intempérie livra esta alfombra;

 

veremos depois juntos, maravilha,

sentar-se a mulher nossa sobre a erva

e fazer dos braços sua própria sombra.(p. 89).

 

De tão suspiroso que o poeta é, corre o risco de saturar-nos! Mas como supor saturação quando o ouvimos confessar com humildade:

 

Eu sou daqueles que o choro renova;

            e é bom que sem engano

as lágrimas que emano

mostrem nos olhos a minha alma inteira:

como é minha bandeira

falar dos olhos dela

(não há coisa mais bela

ou algo que me toque tão lá dentro),

corro muito e reentro

lá onde a dor mais fundo me enregela,

e com o coração punem-se as luzes

que na estrada de Amor me foram cruzes. (p., 95).

 

Não esqueça, leitor, que Petrarca está sempre consciente de que seu corpo é uma sarça ardente!  Às vezes – e isso é uma heresia que me permito – chego a pensar que ele transferia para Laura seus impulsos sexuais, tendo em seus braços outra mulher. Esta, porém, super-tangível. A outra seria a que ele verdadeiramente abraçava? Não sejamos insolentes. A tanto não me arrisco. Leiamos apenas o que ele escreve:

 

Amor, tu que consegues por encantopetrarca3

            Uma só alma em dois corpos habitar,

o que faz nela ser tão peculiar

o querer menos, quando a quero tanto? (p. 109).

 

 

Acrescentemos, um tanto abusivamente, que talvez Petrarca estivesse a evocar a frase do Mestre: “Serão dois numa só carne”!

Reitero-lhe, leitor: o poeta, na sua condição de amante, poderá “decepcionar” o público de hoje, que poderia exigir-lhe mais atenção ao tato. Na sua condição, porém, de poeta Petrarca nunca decepciona. O que vemos sobrenadar às suas imagens e metáforas são tábuas de naufrágio, mediante as quais o poeta sempre se salva. É isso que o imortalizou, mesmo quando se queixa de que sua amada Laura não dava a mínima atenção à sua poesia. Mulheres amadas sempre existiram, e existirão, mas poetas capazes de tornar uma única mulher inesquecível são raros. Eis por que o próprio Petrarca comenta:

 

Oh dor, por que devo ir

fora do rumo a magoar a quem amo?

Deixa que eu vá aonde o prazer me acalanta.

Já de vós não reclamo,

olhos serenos sobre o mortal fluir

nem dela que de tal modo me encanta.

            (…)

mas cada vez que para mim olhais

de vós mesmos ficais sabendo mais. (p. 143).

 

Leitor, procure descobrir a poesia desse gênio que amou a natureza tanto quanto a mulher, e por vezes, a despiu imaginativamente com tanta volúpia que muitos, ainda hoje, a despeito de nossa decantada permissividade, não seriam capazes de fazê-lo:

 

E digo que há um instante,

                        qual eu não a tinha visto até agora,

se me despiu; e isso deixou gelado

o coração na hora.

E o será sempre, indo nós de braço dado.

 

Mesmo com todo o medo e tremor meu,

já que ela me dera tanta firmeza,

a abracei com fineza,

para mais aprender dos olhos seus:

e ela que removera já o seu véu,      

me disse: Amigo, agora tens certeza

de toda a minha beleza;

pede quanto convier aos anos teus.

            Senhora, eu disse, há muito tempo meus

Afetos pus em vós, todo inflamado.

Por isso, neste estado

Querer ou não querer está suposto.-

Com voz então de timbre mavioso

respondeu, e com um rosto

que o meu temor tornou esperançoso: petrarca 4

raro do mundo foi na grande turba

quem ouvindo falar do meu valor

não sentisse fervor

mesmo que de somente uma centelha:

e a adversária minha que o bem perturba

tudo apaga: lá vive-se ao sabor

e reina outro senhor

que uma vida tranqüila aconselha. (p.207).

 

Através de seu Cancioneiro, Petrarca permanece atual, necessário a um mundo que pensa vivenciar o amor à revelia da imaginação. O poeta dá-nos lições concretas de imaginação corporal. Um mundo – como o nosso – que aprendeu a desnudar as mulheres, ganharia muito aprendendo com Petrarca a desnudá-las na presença de suas almas.

Dizem os estudiosos que os elementos naturais, os lamentos dos pássaros, a brisa do verão, o murmúrio das águas são – “homólogos dos suspiros do poeta, do seu rio de lágrimas, e das palavras de Laura. Essa interação do sentimento e da natureza não se limita ao registro da tristeza. O soneto 192 repousa, ao contrário, na relação natureza/alegria, do mesmo modo que na quarta estrofe da canção: Chiare fresche e dolci acque” se descreve uma chuva de flores amorosas”[1]:

 

Dos belos ramos caía

tão doce na memória,

uma chuva de flor em seu regaço;

e sentada eu a via,

humilde em tanta glória,

coberta já da auréola qual um laço.

uma flor no seu braço

outra na loura trança,

eram ouro e opala

que estavam a adorná-la;

uma pousava em terra, uma outra em dança

no ar, vagamente flor,

parecia dizer:Aqui reina Amor.

 

Em tais momentos, o Poeta do Cancioneiro deixa de ser renascentista, fundador do lirismo ocidental, e se torna simplesmente um Poeta Vivo, tão vivo como a primeira criança que haja, por acaso, nascido na primeira hora deste dia!

 

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[1] Christian Bec: Fundamentos de Literatura Italiana.Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1984. p..86).

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (primeira parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que, a partir de hoje e nas próximas quatro semanas, vamos publicar aqui no Blog da Ateliê algumas sugestões de como tornar a leitura do Cancioneiro mais aprazível e próxima do leitor do século XXI. O texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca é do  poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

“Sempre me interessei pela poesia de Petrarca. Não sou um entendido nela, mas um leitor apaixonado por ela. Escrevi este texto inspirado na  excelência da tradução do Pozenato, visto que que um leitor capaz de degustar o original italiano,  não precisa recorrer à versão esplêndida que o Pozenato realizou para a língua portuguesa. Meu texto é uma homenagem afetuosa ao Pozenato, para  agradecer-lhe o serviço que prestou à Cultura Brasileira. Não é admirável que um autor – do gabarito do Pozenato – dedique cinco anos a uma tarefa de tal envergadura?”, pergunta o autor, antes de iniciar suas sugestões:

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Capa da edição do Cancioneiro, que concorreu ao Prêmio Jabuti de tradução

Primeira Sugestão:

Siga ao pé da letra o conselho de Roland Barthes: deleite-se, primeiramente, com o prazer do texto. Na medida do possível – e do razoável – esqueça o que lhe ensinaram sobre os Clássicos, sobre sua perenidade, sobre o que teriam sido, ou poderiam ter sido. Ponha entre parênteses as elucubrações de historiadores da literatura e críticos. Seja você mesmo: saboreie o texto, o texto nu, a poesia de Petrarca na sua esplendorosa e erótica nudez de mulher que saiu do banho. Afaste de si as sutilezas de teóricos que tendem a considerar você um pobre diabo! Tenha auto-estima; diga-lhes que você é capaz de ler um grande clássico. mesmo que ele seja um gigante, e você um pigmeu.

 

 

Segunda Sugestão:

Agradeça ao ficcionista e poeta José Clemente Pozenato por ter traduzido essa obra-prima da literatura italiana, a maior de todas depois da Divina Comédia – ou melhor, ao lado dela. Agradeça-lhe o imenso serviço que prestou à literatura de língua portuguesa. Lembre-se de que, pela primeira vez em nosso idioma, alguém pode ler o Cancioneiro como ele é – ou como Petrarca teria apreciado que o lessem, se falasse a nossa língua. Antes de o Pozenato verter seus versos para nossos ouvidos – sim, principalmente para nossos ouvidos, uma vez que, no tempo de Petrarca, Gutenberg não havia inventado a imprensa – existia um hábito entre os medievais que praticamente esquecemos: a leitura em voz alta. Atente nisto: a tradução de Pozenato não só é uma recriação verbal de alta excelência, mas principalmente, constitui um esforço de invenção acústica a partir de uma criação melódica insuperável. Pozenato conseguiu quase sempre, diria gentilmente: sempre,  transpô-la para o português preservando-lhe a melodia de nascença. Cá e lá, o tradutor foi obrigado a recorrer a algumas jóias guardadas nos baús de cedro de nossos dicionários antigos, como o substantivo “louçania” e o adjetivo “loução”. Como manter em toda a versão, sem quebra de tensão e agrado, o tilintar saboroso das rimas? Lembre-se que boa parte do gosto de uma iguaria provém de seus condimentos. Na primeira vez que provamos determinado prato, podemos não apreciá-lo totalmente. Com o tempo, verificamos que seu sabor tornou-se para nós mais delicioso.

Nesta altura, não considero inoportuno referir a você um episódio pessoal: em 1960, tentei pela primeira vez ler o Cancioneiro na sua versão original. Vi logo que não possuía vocabulário suficiente para tal aventura, tampouco argúcia e finura para apreender os requebros lexicais e sintáticos de seu autor. Anos depois, aventurei-me novamente a ler o Poeta. Fiquei sempre com a sensação de o ter lido pela metade. Com a tradução do Pozenato, pude realizar uma leitura cuidadosamente bilíngue. Só então avaliei, com a devida justiça, o trabalho do tradutor! Ele será lembrado, em nossa terra, pelo apreciadores da grande literatura!

Ficções Psicanalíticas

Renato Tardivo*

psi nova temporada

Recentemente, estreou a segunda temporada de Psi, série com texto e direção geral do psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris. Embora não se trate de uma série de consultório, como In Treatment (adaptada no Brasil com o título Sessão de Terapia e direção de Selton Mello), a linguagem privilegiada é a psicanalítica.

Os episódios, mais ou menos independentes entre si,se passam em São Paulo e giram em torno de Carlo Antonini (em ótima interpretação de Emílio de Mello), espécie de alter ego do próprio Calligaris. Seu ofício de psicanalista de consultório é abordado, conquanto não incida ali o foco narrativo. Psi reúne situações de clínica extensa, isto é, eventos para além do consultório aos quais a psicanálise tem algo a dizer.

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Como em In Treatment, um dos pontos positivos é abordar a humanidade do psicanalista. A tônica da primeira temporada é mais ou menos a seguinte: Antonini demonstra desinteresse pelas histórias (banais) dos pacientes que o procuram, e não titubeia em encaminhá-los para Valentina (Cláudia Ohana), sua colega de ofício, ex-aluna e ex-amante – Valente, como ele a chama, é sua principal interlocutora. Enquanto isso, no outro extremo, o psicanalista se atrai por histórias (surpreendentes) de não pacientes.

Claro está, o público-alvo não são psicanalistas ou psicoterapeutas. Nesse sentido, vale ressaltar que se trata de uma trama de ficção: não há preocupação com a verossimilhança nas histórias. Essa ressalva, contudo, não isenta parte da primeira temporada (sobretudo a primeira metade) do seguinte problema: Antonini, que vê o mundo pela lente da psicanálise, se confunde com um super-herói. Suas interpretações excessivamente didáticas e suas atitudes têm o poder de salvar pessoas, famílias, em suma, de resolver situações complicadíssimas.

Ao longo da segunda metade da primeira temporada, os textos ficam menos afetados. Carlo segue desinteressado pelos sintomas dos clientes – o que talvez equivalha ao bloqueio criativo de um artista –, mas deixa a posição de super-herói e o roteiro passa a explorar também aquilo que ele não dá conta de resolver. Resultado: a série fica mais interessante.

Há mudanças na vida de Antonini na segunda temporada (até o momento em que este texto foi escrito, ela está no quarto episódio), mas a tônica se assemelha à do fim da temporada anterior: roteiros equilibrados e um Carlo Antonini mais humano. Há, ainda, um reforço no time de diretores dos episódios, com nomes como o de Tata Amaral.

Quem está familiarizado com as ficções e, sobretudo, com as crônicas de Contardo Calligaris irá notar semelhanças entre elas e Psi. Com efeito, a série adota uma linguagem que problematiza o cotidiano pela lente da psicanálise, trazendo elementos para refletir a loucura e, principalmente, a normalidade presentes em nossa rotina por uma lógica que subverte o senso comum.

Mas a crença exagerada no poder da psicanálise às vezes enfraquece a trama. Se, em vez de trazê-la em sua vertente iluminista, o roteiro explorasse o potencial ficcional da psicanálise, o resultado poderia ser mais interessante – realidade e ficção, amalgamadas pela psicanálise, compareceriam em equilíbrio, fazendo justiça à premissa de Freud de que nosso psiquismo se constitui enquanto ficção. Essa observação vale para Psi e para as demais ficções de Contardo Calligaris: resultam demasiadamente psicanalíticas.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Conheça as obras sobre psicanálise já publicadas pela Ateliê

A dissipação da raça humana

O tema da solidão, quando tratado pela ficção científica, resulta em obras como Perdido em Marte, The Leftovers e Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano

Alex Sens*

Condição primária do artista, estando sua arte ainda num plano essencialmente virtual ou absolutamente real, a solidão não só é ferramenta para a potencialização do pensar, através da observação e da concentração, como é também o alimento da criatividade. Colocada na esfera da ficção, a solidão torna-se melancólica, mas necessária, portanto um meio que apresenta um fim, sendo este a sua ideia principal, o tema. Só a arte, com seu poder imagético, pode transferir para os nossos sentidos o que na prática é ainda impossível, improvável, impalpável. É isso que faz a ficção, sobretudo a ficção científica, seja na literatura ou no cinema, onde arte e ciência se encontram e se conectam intimamente por uma tênue linha de percepção e risco, por isso mesmo uma linha fascinante. Usando o poder da imaginação, o homem já criou inúmeros cenários apocalípticos e suas consequências, hipóteses filosóficas sobre o esvaziamento do planeta, desaparecimentos misteriosos, o fim da espécie humana e a vida extraterrestre.

Matt Damon, em "Perdido em Marte"

Matt Damon, em “Perdido em Marte”

Desde as primeiras teorias sobre o fim do mundo e sobre uma profunda mudança estrutural no nosso planeta, o cinema, a TV e a literatura vem expressando o estranho e dominante papel da solidão. Surgiram recentemente nesse cenário o filme Perdido em Marte, baseado no livro homônimo de Andy Weir, e que conta a história de um astronauta que precisa sobreviver no planeta vermelho enquanto espera por ajuda, e a série televisiva “The Leftovers”, também baseada num romance de Tom Perrota e que narra o inexplicável desaparecimento de 2% da população mundial, uma metáfora para o “arrebatamento cristão”. Seguindo a mesma linha dessa dissipação humana e o poder da solidão sobre quem fica ou, numa outra visão, quem é abandonado, o italiano Guido Morselli escreveu em 1973 o romance Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano (Ateliê Editorial, tradução de Maurício Santana Dias, 168 páginas).

dissipatio

Como reflexo de seu desejo pela solidão, o autor, torturado por ruídos que atrapalhavam seu processo criativo, projetou e construiu uma pequena casa entre as pradarias de Gavirate, e nela pode dar voz a um personagem que um dia acorda sozinho no mundo. Narrado por este personagem cujo nome permanece oculto assim como a causa principal do romance, o livro não se apoia somente em seu monólogo de caráter filosófico, ontológico, histórico e misterioso, mas também na essência de um mundo solitário e suas assustadoras, mas realistas, possibilidades. Há cachorros, gatos, pássaros, vacas, ratos e toda sorte crescente de animais, mas não pessoas. Conhecemos a cidade de Crisópolis e suas cercanias em — excetuado pela narração precisa e envolvente — absoluto silêncio, com hotéis vazios, carros parados no meio da estrada, camas faltando corpos, uma paisagem inteira onde “permanece ainda aquilo que é orgânico e vivo, mas não humano”. A figura solipsista discorre primeiro sobre uma tentativa de suicídio e o restante vem de sua incansável busca por um conhecido. Em dado momento, quando já sabemos que sua personalidade misantropa de repente sente necessidade de um contato humano, o leitor pode se perder numa possibilidade de sonho, também questionada pelo personagem, este único sobrevivente do que chama de “Evento”. Também temos aqui um narrador não-confiável, cuja amizade com um psiquiatra e passagens por internações beira uma provável esquizofrenia ou uma realidade inventada por ela. Um dos pontos mais brilhantes do livro acontece quando o tempo é medido em semanas pela espessura do bolor num pedaço de queijo, revelando o quanto a inteligência perceptiva pode ser adaptada à falta de um simples calendário.

Tudo, desde a narrativa de Morselli, que cometeu suicídio antes da publicação do livro, passando pela exploração do conceito de solidão e suas respostas emocionais, pelo caos aparentemente organizado de um mundo desabitado, chegando a uma espécie de ascese filosófica que mantém, ou pelo menos tenta manter, a sanidade do personagem, faz de Dissipatio H. G. um breve, rico e apurado tratado da solidão, uma pedra preciosa e cinzenta cravada no temor ou na atração pela condição de se estar só consigo mesmo, com a fatalidade da vida ou com a inevitável condenação ao autoconhecimento.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. PublicouEsdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

 

A anatomia de Leonardo da Vinci

Cecilia Felippe Nery*

 

cadernos capa

Desde os primórdios da criação, o homem descobriu no desenho uma forma de representar – e registrar – fatos da vida e do cotidiano, visando ainda entender sua existência no mundo de maneira a aprimorá-la. Hoje pode ser banal, mas há pouco mais de 500 anos um dos grandes desafios era desbravar o corpo humano para conhecer sua intricada anatomia de músculos, esqueleto e órgãos fundamentais para a vida.

É neste cenário que surgem os artistas-anatomistas e, dentre eles, o gênio italiano Leonardo di Ser Piero Da Vinci, ou simplesmente Leonardo Da Vinci, um expoente do Renascimento que foi ainda cientista, matemático, engenheiro, inventor, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Seu interesse pela anatomia levou-o a desenhar órgãos e elementos dos sistemas anatomofuncionais do corpo humano que, anos depois, foram reunidos, junto a anotações, no livro Leonardo on the Human Body, com tradução do italiano para o inglês de Charles Donald O`Malley e John Bertrand de Cusance Morant Saunders.

Desenhos-Anatomicos3Em 2012 a obra ganhou uma versão em português – Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci -, publicada pela Ateliê Editorial/Unicamp, com tradução de Maria Cristina Vilhena Carnevale e Pedro Carlos Piantino Lemos. O livro tem 520 páginas com informações e mais de 1.200 desenhos de Leonardo feitos ao longo de 15 anos (1498-1513), tendo por base os tratados médicos de Galeno de Pérgamo (129-200), de Mondino del Luzzi (1270-1326) e de Avicena (980-1037), além da dissecação de peças anatômicas de animais e de corpos humanos. Com esse material, Da Vinci pretendia fazer um Tratado de Anatomia, que não chegou a concluir.

Os tradutores brasileiros trabalharam em Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci durante dez anos. A obra reúne os esboços de caráter artístico e técnico, acrescida do conteúdo teórico e prático das anotações do artista, segundo os sistemas anatomofuncionais do corpo humano na sequência cronológica em que foram feitos. O livro conta com uma parte introdutória em que traz interessantes fatos históricos dos estudos anatômicos durante o Renascimento, e das ilustrações anteriores aos desenhos de Leonardo Da Vinci, durante e depois dele.

 

Desenhos-Anatomicos2

Influência da matemática

Na época do Renascimento, os artistas se aproximavam dos médicos-anatomistas para melhor retratar o corpo humano em suas obras. Da Vinci, no entanto, considerava a anatomia “como algo mais que simples coadjuvante da arte” e, com isso, “adquiriu conhecimentos anatômicos que ultrapassaram aqueles que seriam suficientes para desempenhar sua arte”, descrevem os tradutores. O artista, porém, não chegou a ser um anatomista, pois estudou a anatomia de forma pouco sistemática, atendo-se mais aos aspectos que lhe interessavam artisticamente. “Mas foi o que mais conseguiu estabelecer vínculo mais estreito entre arte e anatomia, alcançando com seus desenhos anatômicos maior grau de perfeição até então alcançado por um artista-anatomista”, afirmam.

Embora alguns dos esboços de Da Vinci não tenham a perfeição de um desenhista-anatomista, as ilustrações são esplêndidas, com forte influência dos conhecimentos matemáticos do artista. Elas mostram uma evolução no trabalho de reprodução, aprendida por meio do conhecimento das leituras, a execução de algumas dissecações de animais e a inspeção da superfície do corpo humano vivo. Não é comprovado que Leonardo tenha realizado diversas dissecações humanas. A única que executou, de fato, no intuito de desvendar a disposição dos vasos do corpo humano foi a do “homem centenário”, realizada na cidade de Florença, entre 1504 e 1506.

A maior exatidão nos seus desenhos é feita a partir de 1489. Leonardo criou um método que consistia em representar cada tema sob quatro aspectos, propiciando ao observador uma visão do elemento anatômico tal qual o veria ao caminhar ao seu redor, analisando-o sob todos os ângulos. Um método que utilizaria durante toda a sua carreira anatômica.

Os esboços e as anotações de Leonardo ficaram muito tempo perdidos. Logo após sua morte, eles foram herdados por Francesco Melzi, seu discípulo, que os guardou até 1570. Mas depois foram dispersados e passaram por caminhos desconhecidos. Só no século passado que o trabalho de Da Vinci pode ser ordenado no livro de O’Malley e Saunders, trazendo assim à luz da humanidade o brilhantismo do artista, e que os brasileiros também podem conhecer na obra em português da Ateliê Editorial e Unicamp.

 

*Jornalista formada pela Puccamp, pós-graduada em Jornalismo Internacional (PUC-SP) e Jornalismo Literário (ABJL). Mantém o blog de literatura “Sobre Leituras e Observações” – www.leituraseobservacoes.blogspot.com

Quando não há mais sujeito e objeto

Renato Tardivo*

 

Viagem a um Deserto Interior é o mais recente livro de Leila Guenther. Seus poemas e microcontos agrupam-se em cinco seções: “Paisagens de Dentro”, “O Deserto Alheio”, “Castelo de Areia”, “Um Jardim de Pedra” e “A Possibilidade de Oásis”. Nota-se, portanto, uma (bem-sucedida) intenção narrativa oferecendo de antemão continente às narrativas do livro. Não é aleatório que o “espaço” seja o tema mais relevante da obra; aliás, ele está indicado em diversas palavras-chave: “viagem”, “deserto”, “interior”, “paisagens”, “castelo”, “jardim”, “oásis”.

Mas, se há deslocamento do interior de si para o interior do outro, da fragilidade da areia para a dureza da pedra, da aridez do deserto ao oásis (ou à possibilidade dele), há deslocamento também entre os versos dos poemas e os microcontos, o que confere ainda mais movimento à viagem. Aqui, poesias são narrativas e narrativas, poesias.

Imagem2Há algo de Drummond – cuja referência chega a ser explicitada – no modo de abordar o desconcerto de mundo, nos desfechos surpreendentes, no olhar ao mesmo tempo simples e profundo. Leila, ainda, repete alguns temas (suas pedras no meio do caminho?),de modo a marcar a passagem do tempo, a efemeridade do instante: a mulher sem filhos, as noites das estações do ano, as referências orientais…

E, no fim, há oásis? Cabe ao leitor empreender a sua própria descoberta. Leila nos ajuda, e muito, sugerindo trajetórias, habitando os continentes possíveis e impossíveis, da caixa de sapatos (em que consegue caber) ao desejo de ser trapezista (o que ainda não é).

Mas, talvez,a dica mais preciosa esteja em “Mushin” (em uma tradução livre, “suspensão do pensamento”):

 

Quando não há mais sujeito e objeto

como saber se aquele que mata

não é o mesmo que é morto?

 

 

Conheça outras obras de Leila Guenther

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Está Querendo Ser Meu Analista?

Renato Tardivo

SigmundFreud

 

Como além de escritor sou psicanalista com atuação clínica, escuto com alguma frequência comentários assim: “A clínica deve ser um rico material para a sua ficção…”; ou perguntas do tipo: “Você se inspira em seus pacientes para criar suas personagens?”. Vamos refletir a respeito.

Acredito na proximidade entre literatura e psicanálise. Quem já leu alguma coisa do Freud há de concordar que sua escrita não é alheia à literatura, tanto do ponto de vista do estilo quanto do conteúdo. Assim como outros psicanalistas, vislumbro maior parentesco da psicanálise com as artes e a literatura do que, por exemplo, com as ciências naturais. A questão foi tema desta coluna em outras ocasiões, como aqui. Isso não significa, no entanto, que um escritor de ficção se valha de sua clínica como material para a sua literatura. Explico.

Da mesma forma que há certo fetiche em torno da figura do psicanalista enquanto aquele que tudo sabe porque possui uma bola de cristal, há a crença, igualmente equivocada, segundo a qual o que distingue um trabalho terapêutico é o material trazido pelo paciente. Até pode haver eventos que o paciente conte apenas em análise, mas o que diferencia a situação terapêutica de uma conversa entre amigos confidentes, por exemplo, é sobretudo o tipo de escuta exercida pelo analista.

Dessa perspectiva, o analista é aquele que acompanha o paciente; é um interlocutor diferenciado que capta o que é dito, pensado e sentido para além do manifesto, da superfície, do cotidiano. O autor, no consultório, é o cliente; não o analista – este assume a condição de espectador que assiste à obra do outro e, assim, pode ajudá-lo a elaborar situações difíceis, sofrer menos, encontrar fontes de satisfação e dar conta de fruí-las etc.

Evidentemente, um escritor – como de resto todo ser humano – deve sempre ampliar suas possibilidades de contato com o mundo. Isso ocorre ao vivenciar obras de arte, ler, atualizar-se em relação à política e à cultura, viajar, aproveitar ao máximo as relações interpessoais etc., e, assim, conhecer-se melhor: olhar para fora é também olhar para dentro, e vice-versa. Nessa vertente, o ofício exercido na clínica compõe a visão de mundo do escritor-psicanalista como um de seus múltiplos elementos, e não como fonte de inspiração direta.

Mas há exceções. Um projeto literário pode se debruçar sobre o parentesco com a psicanálise e ser bem-sucedido. Neste espaço, resenhei dois belos livros escritos dessa perspectiva, um do ponto de vista da analista, outro do ponto de vista da analisanda. Esses livros, no entanto, possuem a especificidade de serem criados a partir das relações entre literatura e psicanálise; não podem ser tomados como regra.

De resto, a questão central talvez seja mesmo esta: o analista é espectador das histórias (que escuta); não o autor delas. Não há, portanto, motivo para considerar que os dilemas dos pacientes coloquem o escritor-psicanalista em vantagem em relação aos demais. E não se trata apenas, como talvez pensem alguns, de respeitar os limites éticos. Um psicanalista pode escrever sobre uma situação clínica, mesmo sem ser ficcionista, e ainda assim deve respeitar esses limites – não oferecendo elementos que permitam que o paciente seja identificado, por exemplo.

Por essas e outras, da próxima vez que me perguntarem se me inspiro em meus pacientes para criar minhas personagens, vou retrucar: “Por quê? Está querendo ser meu analista?”.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social (USP) e professor universitário, escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

O Nheengatu que dá barato

José Ribamar Bessa Freire | Diário do Amazonas | 25 de maio de 2014

Capa do novo cd da banda Titãs

Capa do novo cd da banda Titãs

Tinha cara de bebê chorão. Morava na Ilha do Governador, no Rio. Não lembro mais o nome dele. Agnaldo ou Agnando, uma coisa assim, mas era conhecido como Pindá. Como qualquer vendedor de drogas em porta de escola, percorria diariamente universidades para abastecer a clientela, cujos vícios e gostos conhecia muito bem. Na UERJ, se esgueirava pelos corredores, qual felino de mansa pisada. Ia de sala em sala, levando a mercadoria. Silencioso e discreto, só abordava os consumidores potenciais sem presença de testemunhas. Um belo dia, sumiu. Dizem que foi preso.
Conheci-o há mais de vinte anos. Quem nos apresentou, se não me engano, foi Gilberto, um professor de engenharia, que era chegado na coisa e da qual era também dependente:
– Esse é Pindá, meu fornecedor. Mercadoria garantida. Pode confiar.
– Pindá é anzol em Nheengatu – eu disse, explicando que Nheengatu era uma língua de base tupi falada em todo o Rio Negro, tão viva que se tornaria depois, em 2002, língua cooficial no município de São Gabriel da Cachoeira (AM).
Bastou isso para que o tráfico se fizesse carne e habitasse entre nós. Pindá, um profissional sério, jogou o anzol e eu mordi a isca. Ele percebeu que eu, recém transferido do Amazonas para o Rio, passava por crise aguda de abstinência causada por suspensão brusca do uso do objeto do desejo. No dia seguinte, voltou, abriu sua maletinha e deu o bote pingando três pontos de exclamação:
– Olha aqui! Pra você! Coisa fina!
Ficou observando minha reação. Vi a mercadoria armazenada dentro de uma caixa de papel confeccionada sob medida, coberta por camada de pó branco e cristalino. Dava uma overdose.

A dopamina

 – Quanto custa? – perguntei, tentando esconder a ansiedade.
Mas ele percebeu o aumento na frequência dos meus batimentos cardíacos. Era experiente no trato com dependentes. Baseado – baseado mesmo – na vontade do consumidor de experimentar sensações mais fortes, costumava oferecer doses cavalares do produto, cada vez maiores. Deu o preço. Custava os olhos da cara somados ao olho do pescoço em francês. Uma fortuna!
– Muito caro. Quase um mês de salário. Tenho que pedir financiamento no banco – ironizei.
– É coisa rara. Tá todo mundo querendo. A doutora Ruth Monserrat, lá do Fundão, já fez uma encomenda. Aquele alemão, o Wolf Dietrich – conhece? – paga em euro ou em dólar. Não é caro não.
Tentei desvalorizar a mercadoria para baixar o preço:
– Tem até traça… – eu disse, apontando o pó.
– Não é traça. A caixa é de papel alcalino com cola anti-traça – ele disse. Parecia adivinhar que naquele momento meus neurônios já liberavam noradrenalina e dopamina. Ele nos entendia. Durante anos, nos consolou, fornecendo o que cada um de nós precisava.
Soprei o pó, tirei a mercadoria da caixa e comecei a folhear com cuidado. Era o Vocabulário da Língua Geral Portuguez-Nheengatú e Nheengatú-Portuguez, 768 páginas, escrito por Ermano Stradelli e editado em 1929, depois de sua morte, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A edição foi feita com material vagabundo, em papel jornal, mas se trata de raridade bibliográfica, que contém um tesouro, dificilmente encontrado nos sebos.
Disfarcei a emoção desdenhando:
– É. Ainda bem que tenho todo ele fotocopiado.
Mentira. Ele sabia que não era possível fotocopiar sem esfarinhar o livro. Ele sabia que eu ia comprar, eu sabia que ele sabia que eu sabia. O que se seguiu foi jogo de dissimulação, fingimento, embromação, rasteiras, camuflagem. No final, aconteceu o previsível: apesar de muito choro, mordi a isca do Pindá, comprei pelo preço que ele pediu, afinal o dicionário era inacessível, pois nunca havia sido reeditado.

Destino do Pindá

"Vocabulario-Portugues-Nheengatu", de Ermano StradelliAgora foi. A Editora Ateliê, de Cotia (SP), acaba de reeditar, em 2014, o dicionário de Stradelli, com revisão de Geraldo Gerson de Souza, orelha escrita por José de Souza Martins (USP) e apresentação de Gordon Brotherston e Lúcia Sá (Universidade de Manchester) que chamam atenção para os usos que pode ter:
– É possível utilizar o Vocabulário de Stradelli como um dicionário qualquer, procurando termos específicos, concordando ou discordando das definições do autor, estudando a morfologia e a fonética da língua. Isso não impede, todavia, que leitores interessados na Amazônia e sua história percorram as páginas desse impressionante trabalho na tentativa de ampliar seus conhecimentos sobre fauna, flora, medicina, pesca, caça, agricultura, astronomia, história, política, rituais e costumes, além de literatura e folclore indígena caboclo – tudo isso a partir do nheengatu.
Relembrar a história do Pindá foi a forma que encontrei para anunciar aqui o lançamento de obra tão importante para a Amazônia e para o Brasil. Concluo com três notas: uma pequena crítica sem qualquer demérito para a obra, uma informação sobre o destino de Pindá e uma notícia sobre o nheengatu, que está sendo cada vez mais falado, escrito e até cantado.
A crítica: a bibliografia citada nesta reedição foi atualizada com outros trabalhos, mas não há qualquer menção a muitos autores que pesquisaram o tema, entre os quais Aryon Rodrigues, referência obrigatória quando se trata de línguas tupi, nem qualquer indicação sobre a única história que se tem até hoje do nheengatu – Rio Babel, a história da línguas da Amazônia (Eduerj 2004 1ª edição e 2011 2ª edição) de autoria de um cliente chorão e meio cabotino do Pindá, o fornecedor de livros do professor Gilberto e de toda a Uerj.
O destino de Pindá: foi preso não por vender obras raras por preços exorbitantes, com estratégia de comercialização dos vendedores de droga, que atraem a presa, seduzem e manipulam a dependência. Foi preso por não pagar pensão alimentícia. Sumiu do mapa, levando com ele as fichas dos professores da UERJ que mantinha mais atualizadas do que aquelas que figuram na Plataforma Lattes.
A notícia: no facebook tem um grupo Nheengatu on line, com quase cem membros, onde diariamente se escreve e se troca informações nesta língua. Foi lá que os usuários tomaram conhecimento do dicionário de Stradelli, lançado no momento em que a banda dos Titãs apresenta Nheengatu, seu novo álbum com capa reproduzindo pintura do século XVI – Torre de Babel – de Pieter Bruegel.
No entanto, é uma pena que na divulgação do novo CD se reproduza um erro histórico com a afirmação de que o nheengatu é uma “língua artificial criada pelos jesuítas no Brasil”. Nem é artificial, nem foi criada pelos jesuítas, cuja contribuição consistiu em dotar com  ortografia uma língua que já existia – e que foi se modificando com o uso como qualquer língua – possibilitando sua divulgação escrita na catequese e sua expansão pelos rios da Amazônia. De qualquer forma, o esforço dos Titãs por recuperar as raízes históricas do Brasil confirma que o Nheengatu falado, escrito ou cantado até na França ainda pode dar o maior barato, como queria o saudoso Pindá.

Robert Creeley

André Caramuru Aubert | Jornal Rascunho | Maio de 2014

A Um – Poemas, de Robert CreeleyO poeta norte-americano Robert Creeley (1926-2005) é, entre seus conterrâneos e contemporâneos, um dos mais conhecidos (ou menos desconhecidos) no Brasil. Além da qualidade de sua obra, talvez tenha ajudado, para isso, o fato de Creeley ter estado em São Paulo e conhecido alguns de nossos poetas. O fato é que ele deixou por aqui alguns admiradores importantes, como Ruy Vasconcelos e, principalmente, Régis Bonvicino, editor e tradutor de uma excelente coletânea brasileira (A UM, Poemas. Ed. bilíngue, Ateliê Editorial, 1997).

Ainda assim, diante de tudo o que Robert Creeley produziu, o que temos dele em português é muito pouco. Os quarenta e um poemas presentes em A UM, embora bastante representativos (são uma mistura de sugestões do próprio autor com os prediletos do tradutor), não passam de uma gota no oceano diante de alguém que escreveu continuamente por cerca de sessenta anos, e cuja obra completa, em inglês, espalha-se em dois volumes com mais de mil e duzentas páginas no total.

Creeley é uma unanimidade. Discípulo de William Carlos Williams e admirado por este, foi um líder do grupo Black Mountain, embora sua poesia muitas vezes ficasse distante da de outros membros. Elo de ligação entre os Beats e os poetas da San Francisco Renaissance, e entre os grupos de Nova York e da Califórnia, ele conseguia circular com desenvoltura entre poetas como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, de um lado, e Charles Olson e Denise Levertov, de outro. Conhecido por sua generosidade, Creeley gostava de dar aulas e não se cansava de orientar novos poetas. Em função da combinação de sua personalidade com uma produção rigorosa e intensa, Creeley foi influente como talvez nenhum outro poeta de sua geração. Segundo alguns, um “poeta de poetas” por excelência.

A temática de Robert Creeley, como bom discípulo de W. C. Williams, gira primordialmente em torno das pequenas coisas, de cenas do cotidiano, de rápidas impressões de viagem. Econômico e preciso, suas quebras de linha são únicas. Embora afirmasse que, em poesia, a forma deveria se subordinar ao conteúdo, poucos poetas contemporâneos são mais formalmente rigorosos do que ele. Creeley possuía, segundo Williams, “o mais sutil sentido da medida desde Ezra Pound”. O que faz com que, estruturados a partir de um íntimo conhecimento dos sons, da respiração e dos ritmos da língua inglesa, os poemas de Creeley sejam muito difíceis de traduzir, especialmente para uma língua tão diferente da dele quanto é o português (Régis Bonvicino já chamava a atenção para isso na introdução a A UM). Mas penso que, apesar dos percalços e das limitações no resultado final, o esforço vale a pena, tanto para quem traduz quanto para quem lê.

Para esta introdução a Robert Creeley, procurei incluir alguns poemas de cada uma das etapas de sua carreira. Evitei apenas os que já haviam aparecido em português, especialmente na seleção de Régis Bonvicino (mesmo sabendo que ali estão algumas das mais belas composições de Creeley) porque, se por um lado eu não poderia pretender fazer uma tradução melhor, por outro, afinal de contas, eles já estão disponíveis em livro, em português. 

RETURN
Quiet as is proper for such places;
The street, subdued, half-snow, half-rain,
Endless, but ending in the darkened doors.
Inside, they who will be there always,
Quiet as is proper for such people —
Enough for now to be here, and
To know my door is one of these.

RETORNO
Silenciosa como é próprio para lugares assim;
A rua, calma, meio neve, meio chuva,
Sem fim, mas terminando nas portas escuras.
Dentro, aqueles que estão sempre lá,
Silenciosos como é próprio para pessoas assim —
Bastando por ora estar ali, e
Saber que a minha porta é uma destas.

MIDNIGHT
When the rain stops
and the cat drops
out of the tree
to walk

away, when the rain stops,
when the others come home, when
the phone stops,
the drip of water, the

potential of a caller
any Sunday afternoon.

MEIA-NOITE
Quando a chuva para
e o gato desce
da árvore
para sair

andando, quando a chuva para,
quando os outros voltam pra casa, quando
o telefone para,
os pingos d’água, a

possibilidade de um telefonema
uma tarde de domingo qualquer.

FOR HELEN
… If I can
remember anything, it
is the way ahead
you made for me, specifically:

wet-
ness, now the grass
as early it
has webs, all the lawn
stretched out from
the door, the back
one with a small crabbed
porch. The trees
are, then so high, a huge encrusted
sense of grooved trunk,
I can
slide my finger along
each edge.

PARA HELEN
… Se eu posso
me lembrar de algo, é
do caminho que
você abriu para mim, especificamente:

umi-
dade, agora a relva
como mais cedo, tem
teias, todo o campo
estendido para além da
porta, a de trás
para um pequeno, insignificante
alpendre. As árvores
estão, então, tão altas, um forte sentimento de
incrustrados e adequados troncos,
eu posso
deslizar meu dedo por
cada ponta.

AS YOU COME
As you come down
the road, it swings
slowly left and the sea
opens below you,
west. It sounds out.

ENQUANTO VOCÊ VEM
Enquanto você vem
pela estrada, ela vira
lentamente à esquerda e o mar
se abre abaixo de você,
a oeste. Isso se mostra.

THEN
Don’t go
to the mountains,

again — not
away, mad. Let’s

talk it out, you
never went anywhere.

I did — and here
in the world, looking back

on so-called life
with its impeccable

talk and legs and breasts,
I loved you

but not as some
gross habit, please.

Your voice
so quiet now,

so vacant, for me,
no sound, on the phone,

no clothes, on the floor,
no face, no hands,

— if I didn’t want
to be here, I wouldn’t

be here, and would
be elsewhere? Then.

ENTÃO
Não vá
para as montanhas,

de novo — não
embora, zangada. Vamos

resolver isso, você
nunca foi a lugar algum.

Eu fui — e aqui
no mundo, olhando para trás

na assim chamada vida
com suas impecáveis

conversas e pernas e seios,
eu amei você

mas não enquanto algum
hábito grosseiro, por favor.

Sua voz
tão quieta agora,

tão vazia, para mim,
nenhum som, no telefone,

nenhuma roupa, no chão
nenhuma face, nem mãos,

— se eu não quisesse
estar aqui, eu não estaria

aqui, e estaria
em outro lugar? E então.

SEA
Ever
to sleep,
returning water.

*

Rock’s upright,
thinking.

*

Boy and dog
following
the edge.

*

Come back, first
wave I saw.

*

Old man at
water’s edge, brown
pants rolled up,
white legs, and hair.

*

Thin faint
clouds begin
to drift over
sun, im-
perceptibly.

*

Stick stuck
in sand, shoes,
sweater, cigarettes.

*

No home more
to go to.

*

But that line,
sky and sea’s,
something else.

*

Adios, water —
for another day.

MAR
Sempre
para dormir,
a água voltando.

*

As rochas à direita,
pensando.

*

Garoto e cachorro
seguindo
pela beira.

*

De volta, a
primeira onda que vi.

*

Um velho na
beira d’água, calças
marrons enroladas nas pernas,
pernas brancas, e cabelos.

*

Leve desmaio
nuvens começam
a vaguear por sobre
o sol, im-
perceptivelmente.

*

Galho preso
na areia, sapatos,
agasalho, cigarros.

*

Sem uma casa mais
para onde ir.

*

Mas aquela linha,
de céu e mar,
alguma coisa a mais.

*

Adiós, água —
até um outro dia.

FIRST RAIN
These retroactive small
instances of feeling

reach out for a common
ground in the wet

first rain of a faded
winter. Along the grey

iced sidewalk revealed
piles of dogshit, papers,

bits of old clothing, are
the human pledges,

call them, “We are here and
have been all the time.” I

walk quickly. The wind
drives the rain, drenching

my coat, pants, blurs
my glasses, as I pass.

PRIMEIRA CHUVA
Estas pequenas e retroativas
instâncias do sentimento

alcançam um terreno
comum na umidade

primeira chuva em um
desbotado inverno. Ao longo do cinzento

e gelado meio-fio revelam-se
pilhas de cocô de cachorro, papéis,

pedaços de roupas velhas, são
os rastros humanos,

chame-os, “nós aqui estamos e
estivemos por todos os tempos.” Eu

caminho ligeiro. O vento
conduz a chuva, encharcando

meu casaco, calças, borra
meus óculos, enquanto eu passo.

HOTEL
It isn’t in the world of
fragile relationships

or memories, nothing
you could have brought with you.

It’s snowing in Toronto.
It’s four-thirty, a winter evening,

and the tv looks like a faded
hailstorm. The people

you know are down the hall,
maybe, but you’re tired,

you’re alone, and that’s happy.
Give up and lie down.

HOTEL
Não está no mundo dos
relacionamentos delicados

ou memórias, nada que
você possa ter trazido com você.

Está nevando em Toronto.
São quatro e meia, uma tarde de inverno,

e a tv parece uma opaca chuva de
granizo. As pessoas que você

conhece estão lá embaixo, no saguão,
provavelmente, mas você está cansado,

você está só, e isso é bom.
Desista, e deite-se.

HERE
Up a hill and down again.
Around and in —

Out was what it was all about
but now it’s done.

At the end was the beginning,
just like it said or someone did.

Keep looking, keep looking,
keep looking.

AQUI
Colina acima, e abaixo novamente.
Em volta dela e para ela —

Fora estava tudo o que contava
mas agora está terminado.

No final estava o começo,
como se costuma dizer ou alguém disse.

Fique olhando, fique olhando,
fique olhando.

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