Resenhas

O que Será?

Renato Tardivo*

Adélia Bezerra de Meneses

Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque, premiado ensaio de Adélia Bezerra de Meneses originalmente publicado em 1981, reflete com profundidade os primeiros quinze anos da obra do artista. Sua leitura hoje, quando Chico acaba de lançar o 38º álbum de estúdio, torna-se ainda mais interessante. Os desdobramentos de sua obra – ampliando-se também à prosa de ficção – parecem ter comprovado a precisão do exame empreendido por Adélia: “Nostalgia, utopia e crítica delineiam uma trajetória em espiral em que, num progressivo expandir-se, há a retomada, sempre, dos inícios, e a volta dos temas fulcrais” (p. 143).

As composições de Chico Buarque (canções e peças de teatro) são agrupadas nas seguintes categorias (que correspondem a capítulos do livro): Lirismo Nostálgico, As Canções de Repressão, Variante Utópica e Vertente Crítica. Assim, suas primeiras canções não abordam, ao menos não diretamente, temas políticos; apresentam, em vez disso, uma temporalidade mítica, na qual a realidade é posta entre parênteses. “Carolina”, em cujos “olhos fundos/guarda tanta dor”, talvez seja um dos principais emblemas do lirismo nostálgico. A canção, que rendeu uma série de interpretações nem sempre favoráveis (como a dos tropicalistas), “é extremamente significativa de um determinado momento histórico: aquele em que uma parcela da intelectualidade brasileira, alijada da práxis política, tende a se refugiar em situações de melancolia e inação: da janela, vê (ou não vê) o tempo passar” (p. 61).

Ocorre que, após os três primeiros álbuns, as composições de Chico privilegiam a “tensão para um futuro aberto […] A proposta dessas canções será a de mudança do presente” (p. 67). Em vez de “canções de protesto”, a autora propõe que nomeemos as produções desta fase de “canções de repressão”, pois trazem em sua estrutura a atmosfera que pairava sobre o Brasil – e, por conseguinte, sobre sua classe artística – do início dos anos 1970. “Apesar de você”, “Cálice”, “Angélica”, entre tantas outras, dão mostras de um autor sensível, vigoroso e maduro. Mobilizada por um presente repressor, a obra de Chico passa a desenhar (e desejar) novas (e não menos difíceis) formas de ser.

Um dos desdobramentos das canções de repressão é a potencialização da utopia – que resulta em “uma crítica não direta, mas que brota do confronto entre uma realidade ‘real’ e uma realidade possível” (p. 103). Uma das canções mais fortes nessa direção é “O que Será”: “projeção para um futuro absoluto, para aquilo que só pode existir por enquanto na fantasia, mas de que os homens se nutrem para o seu enfrentamento com a realidade” (p. 118). O futuro, já em aberto a partir das canções de protesto, se radicaliza enquanto absoluta incerteza. É como se, em sua vertente utópica, o compositor construísse um estatuto político para o impossível.

 

E a vertente crítica, conquanto já estivesse presente em canções anteriores, como “Pedro Pedreiro” (do primeiro disco), marca, segundo a autora, a produção mais recente (quando da escrita do ensaio) do compositor. A clássica “Construção”, os textos para teatro, “Bye-bye Brasil”, “Até o Fim”, a novela Fazenda Modelo e, em uma das leituras mais originais do livro, “Sabiá” – belíssima canção que, no entanto, se notabilizou pela rixa com “Para Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré – são composições pródigas “em crítica social, numa trajetória que parece corresponder a um percurso pessoal e político” (p. 143). A crítica de Chico se volta inclusive à própria capacidade de criar, como em “Essa Moça Tá Diferente” e “Agora Falando Sério” – crítica que, décadas mais tarde, se expressaria na angústia contida em seus romances. “Crise da sociedade. Crise da linguagem” (p. 154). Crise do Eu, podemos acrescentar – e, além da obra literária, composições posteriores como “Todo Sentimento” e “Futuros Amantes” tomariam essa direção.

Nostalgia (volta ao passado), utopia (construção do futuro) e crítica (leitura lúcida do presente) – a obra de Chico Buarque é, com efeito, atravessada por essas três vertentes. À flor da terra, à flor da pele, sua palavra é corpo por excelência e, como emblema da espiral vertiginosa que confere historicidade à sua obra, o corpo cantado por ele é “palavra/que se produz/muda”.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

 

Conheça outras obras de Adélia Bezerra de Meneses  

A Morte, o Acaso, a Vida

Renato Tardivo*

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, romance de Lima Barreto, autor homenageado na Flip deste ano, foi publicado pela primeira vez em 1919. Levou algumas décadas, contudo, para que a obra de Lima fosse amplamente distribuída. Triste Fim de Policarpo Quaresma, originalmente publicado em 1915, talvez seja seu romance mais célebre; com efeito, Policarpo é uma das personagens mais importantes da literatura brasileira. No romance que se ocupa da biografia de Gonzaga, no entanto, encontramos um Lima Barreto que equilibra com excelência sensibilidade e crítica. A obra acaba de receber uma caprichada edição, com inúmeras notas explicativas, um minucioso ensaio de Marcos Scheffel, além de ilustrações e fotografias do Rio de Janeiro do início do século.

A história é narrada por Augusto Machado, biógrafo de Gonzaga. De saída, coloca-se uma questão extremamente atual, da qual tem se ocupado grande parte da literatura contemporânea: as pontes entre realidade e ficção. A linguagem documental é trabalhada no âmbito da ficção. O romance não segue um enredo linear, nem trabalha os conflitos do ponto de vista da narrativa clássica. Machado relata encontros com seu biografado, cuja morte anuncia no início do livro, dando voz a ele em diálogos, cartas, anotações deixadas. E é assim que tomamos contato com as inquietudes de Gonzaga diante daquilo que vê ao transitar pela cidade. E como são atuais suas reflexões acerca da hipocrisia que rege a civilização.

Conquanto flua desde o início, trata-se de um romance filosófico. Algumas passagens, como a que veremos, são memoráveis. Escreve Machado, referindo-se a anotações que Gonzaga lhe deixou:

 

“Não compreendi imediatamente a significação dessa fantasia; mas, referindo-a a este e aquele aspecto de sua vida, entendi bem que ele queria dizer que o Acaso, mais do que outro qualquer Deus, é capaz de perturbar imprevistamente os mais sábios planos que tenhamos traçado e zombar da nossa ciência e da nossa vontade. E o Acaso não tem predileções…”

 

Em que se considerem essa e outras passagens, é interessante constatar certa afinidade temática entre a obra de Sigmund Freud, criador da psicanálise, e a literatura do início do século passado: o olhar para além do que se mostra superficialmente, a vida que surge da morte e a morte de que é feita a vida, as tensões entre civilização e desejo, realidade e ficção, o estranho e o familiar… Esta talvez seja uma interessante chave de leitura para esse romance de Lima Barreto – uma biografia que começa em morte e termina em vida e na qual o biografado erra pelas ruas da metrópole com um olhar negativado.

Não há vida que resista às perturbações do Acaso. Mas, paradoxalmente, são essas perturbações que conferem identidade à personagem, à cidade, ao país. Ora, não seria justamente após a morte que, pelos olhos de Augusto Machado, se constrói a identidade de M. J. Gonzaga de Sá?

 

**Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

16/06: Bloomsday

Por Renata de Albuquerque

Todo dia 16 de junho é celebrado por quem é apaixonado por literatura e livros. Nesse dia é comemorado, ao redor de todo o mundo, o Bloomsday. Instituída na Irlanda, a data homenageia Leopold Bloom, o protagonista de Ulisses, de James Joyce, que durante o dia 16 de junho de 1904 revive em Dublin, a clássica odisseia de Homero.

Mas, Leopold Bloom vive sua odisseia em um romance realista, ambientado no século XX. As figuras mitológicas são representadas por pessoas comuns e as batalhas épicas são episódios do dia a dia. Nem por isso o livro é menos interessante. As experimentações estéticas e de linguagem que Joyce propõe em Ulisses ainda fazem deste um dos livros mais instigantes da história da literatura. Alguns o consideram hermético, complexo e difícil de ler. Outros, o tomam como um desafio.

“Joyce Era Louco?” enfoca a obra do escritor irlandês

A complexidade da obra de James Joyce é tamanha que ela talvez seja uma das mais estudados do mundo. Ulisses foi construído com recursos até então inéditos – mas posteriormente usados largamente na ficção moderna – como o discurso interior, a fragmentação da estrutura do romance e a alternância do foco narrativo.

Antônio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo traduziram a obra para o português. São trabalhos hercúleos, cujo legado é a possibilidade de cruzar referências e oferecer ao leitor como um todo um panorama riquíssimo daquilo que, para muitos, é “intraduzível”.

Não há uma data exata que marque o início das comemorações do Bloomsday. A  celebração do “Dia de Bloom” pode ter começado em 1924 ou 1925, quando amigos de James Joyce – que lançara o livro em 1922 – fizeram uma festa para o escritor, que, então, passava por dificuldades. Outra versão indica que a data passou a ser lembrada no fim dos anos 40, após a morte do irlandês. Mas, a hipótese mais aceita dá conta de que a celebração tenha se iniciado em 1954, data do aniversário de 50 anos do dia retratado no romance.

O fato é que o Bloomsday é hoje celebrado pelo mundo todo, com leituras de trechos do livro, em festas com encenações e bebida. Enquanto isso, James Joyce continua instigando leitores e críticos com sua obra universal.

Conheça alguns títulos sobre James Joyce

Silenciosamente e no Breu: Rosa e Carrascoza em “Silêncios no Escuro”

Renato Tardivo*

Silêncios no escuro, primeira obra de ficção adulta de Maria Viana, como já aponta o título, é construído por metáforas sensíveis. A referência mais direta talvez seja Guimarães Rosa, mas, entre os autores contemporâneos, os contos do livro também dialogam com a poética de João Carrascoza, um dos principais escritores brasileiros contemporâneos.

Por meio do trabalho com a palavra que diz ao não dizer, do retrato do Sol que ilumina ao se pôr, as narrativas não desvendam o mistério em seus desfechos. São metafísicas por excelência.

“Em nome do pai”, conto que abre o livro, é tocante. Mostra o triunfo da vida, ainda que na “17ª tentativa”, e, invertendo a ordem natural das coisas, coloca a vida como herdeira da morte.

“A cobra na cabaça” narra o encontro invisível entre duas pessoas, através da música, separadas ainda (para sempre?) pela “madeira da porta”. “Balaio de cabeças” dialoga com o clássico “A terceira margem do rio”, do já mencionado Guimarães Rosa: o desparecimento de um marca o surgimento da lenda.

Como nos contos de João Carrascoza, a temática da morte é frequente: a morte que “poupa de gritos dilacerantes”, em um dos contos mais longos do livro, “A praga”. Em “A santa que fugiu do altar”, pródigo em metafísica, Manuelinha lembra muito Niilinha, do conto “A menina de lá”, de Rosa. “Condensação e deslocamento”, noções fundamentais para a definição de sonho, por Freud, retrata algumas cenas, como em um filme (um sonho?), de modo que a ligação entre elas perfaça o percurso de uma vida, ainda em aberto.

A última narrativa, “Em busca do pai”, cujo título remete à primeira, a filha encontra o pai, em sonho, no céu. Sonhar, aqui, forma caráter; confere densidade à subjetividade. Uma vez mais, é a vida a herdeira da morte – silenciosamente e no breu.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

Para loucos por livros, um livro sobre livros

A Casa dos Seis Tostões é uma história bem contada, recheada de informações reais sobre livros, para o deleite de editores, escritores e demais profissionais do mercado editorial, amantes da arte do livro e da leitura. Lançamento da Ateliê Editorial, vai ser a próxima leitura da fotógrafa Lucia Mindlin Loeb, que trabalha com arte em livros e concedeu entrevista exclusiva para o blog 

 

Por Katherine Funke*

Se você está lendo este blog, possui certo grau de loucura por livros, digo, loucura suficiente para desejar e, quem sabe, comprar mais livros do que pode ler ou guardar. Ou, mais loucura ainda: paixão, e o bastante para transformar o livro em seu trabalho, em uma livraria, sebo ou biblioteca. Mais um passo, e aí já está escrevendo, revisando ou editando livros. E, como a fotógrafa e artista visual Lucia Mindlin Loeb, deixando o livro “atravessar” sua trajetória e vice-versa – a ponto de criar e editar livros aparentemente impossíveis ou incoerentes, com a mesma fotografia impressa em todas as páginas ou serrado em duas partes (veja a entrevista com a artista)

Isto ainda não é loucura suficiente? Então junte toda uma vida relacionada ao livro, case com alguém que também está escrevendo um livro, tenha um filho e, enquanto está corrigindo as provas do seu primeiro livro a ser publicado, e seu bebê ainda precisa ser amamentado, venda sua bela casa nas colinas da Califórnia e se mude para uma pequena cidade no interior do País de Gales, com mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias.

Casa dos seis tostoesEsta é a história de A Casa dos Seis Tostões – Perdido numa Cidade de Livros, lançamento da Ateliê Editorial. Um livro que remete a muitos, muitos outros livros, desde a capa, em que dimensões diferentes de tipografia convivem na página, enquadrados de modo a dar ideia de que aí estão três títulos em um só. Solução genial de design: afinal,não existe livro solitário. Pelo menos desde Mallarmé e seus textos sobre o livro como instrumento espiritual, sabemos que os livros se comunicam, se exigem, demandam interações infinitas, entre diferentes épocas, edições, editorações e escritas.

Esta saborosa obra de Paul Collins, traduzida do inglês americano por Marcello Rollemberg e Ana Maria Fiorini, deleita ao mesmo tempo bibliófilos, amantes da cultura do livro, assim como quem procura uma leitura leve, dotada da fluidez de um narrador “encarregado de ver divinamente”, diria Mallarmé no ensaio citado, capaz de contar “das relações entre tudo.”

É por isso que um público tão abrangente pode se deliciar com A Casa dos Seis Tostões: Collins consegue relacionar as marcantes diferenças entre britânicos e americanos com o jeito como é recebido por colegas de trabalho, por exemplo. Entrelaça sua vida pessoal mais visível – é uma história autobiográfica –, isto é, os cuidados com o bebê, com aquilo que profissionalmente oferece de mais mágico – uma pesquisa vasta, dinâmica, sobre diferentes etapas da literatura e da cultura do livro. É a vida em todas as suas circunstâncias, dentro e fora do livro.

Em Hay-on-Wye, Collins tem muitas oportunidades para entrar no assunto do livro,  desde descrever as aventuras do inusitado trabalho temporário como “especialista em literatura americana” em uma anárquica loja gigante de livros usados até o processo de edição de um novo título, sofrido por ninguém menos que o próprio autor.

Pesquisas

O ruim de um livro tão bom é que ele, de um modo ou outro, acaba. Mas, também, não acaba: a diversão posterior é pesquisar, por conta própria, as centenas de dados apresentados sobre autores raros ou conhecidos, fatos peculiares e edições marcantes da história do livro. A uma pessoa ansiosa por informação de qualidade, como eu e Collins, difícil, na verdade, é parar de pesquisar coisas como: desde quando os livros têm sobrecapas? Quando o livro passou a ser produto popular? Existiu mesmo o título I was Hitler’s Maid?

Outra pausa útil, provocada pelo autor durante a leitura, pode ser dada para que se pense em temas metafísicos como o da duração de um livro, não só como objeto físico (delicado, especialmente quando antigo), mas também do que foi lido: o modo como ecoa ou interage com o que surge décadas, ou séculos depois.

Outro tema, mais misterioso ainda, é como, apesar de serem tantos fatores em torno do sucesso de um livro, não há fórmula que possa antever o que vai se tornar um bestseller e o que, por outro lado, será colocado na pilha do saldão. Collins conta casos de fracasso e sucesso com facilidade, dando a entender que pesquisa o tema há tanto tempo quanto se entende como leitor.

Aliás, para que escrever um livro sobre livros se já existem tantos outros livros sobre livros? “Para quê? É preciso arriscar: é preciso escrever sobre o livro por uma libertação”, responderia o filósofo francês Jean-Luc Nancy, em um texto chamado “As Razões de Escrever” (em: Demanda – Literatura e Filosofia, Edufsc, 2016).

Libertar-se de quê? Bem, talvez de um modelo ou de uma expectativa. Sabe-se lá. Cada caso, um caso. Neste, Paul Collins encontra um modo totalmente original de contar um pedaço da sua vida em que esteve, mais do que nunca, mergulhado em livros.

Tarefa infinita

Hay On Wye

Hay On Wye

Collins encontrou uma atmosfera envolvente e dinâmica na Booth’s, um sebo gigante com várias sedes espalhadas pela cidade. Ali, contratado como especialista em literatura americana, ele trabalhou durante alguns meses, até dar por terminada a tarefa de organizar uma seção em um dos prédios.

Mas o problema (e a maravilha) de trabalhar na Booth’s parece ser o fato de que há livros demais para serem organizados, e diferentes modos de sistematização e hierarquização de acervo convivendo década após década nos vários imóveis pelos quais se espalha a livraria. Collins compara o modelo de negócios da Booth’s com o de concorrentes da cidade; ao mesmo tempo, também dá um ar muito humano, contraditório e engraçado para o antigo patrão e colegas de trabalho, revelando que, além de prestar atenção em livros, lia também as pessoas ao seu redor.

Ao final do seu contrato na Booth’s, e com seu próprio livro já na etapa da revisão final (que volta dos Estados Unidos pelo correio com dezenas de bilhetes cheios de dúvidas colados no manuscrito), Collins também decide voltar para casa.

O problema é que já não era tão estrangeiro assim em Hay-on-Wye, e já não tinha um lar para chamar de seu nos Estados Unidos: dilema existencial que, poderíamos dizer, foi antecipado por outro livro, O Estrangeiro, de Albert Camus – mas isto é outra história… O que importa é que Collins não parece se preocupar demais com o que vem depois. Ao contrário, cada uma das páginas desse seu delicioso livro de memórias, especialmente as páginas finais, condensam todo aquele tipo de “informação inútil” pelo qual nós, bibliófilos, escritores, jornalistas, editores, somos absolutamente apaixonados.

E, se não adianto nesta resenha mais nenhum desses detalhes, é porque consideraria um spoiler mais grave do que contar que, enfim, a família de Collins não fixa moradia em Hay-on-Wye.

* Escritora, jornalista e mestranda em Literatura pela UFSC. 

 

Pulsação viva

 Por: Renato Tardivo

tempo vivo da memoria

Qual é o tempo da memória?

Apressadamente, talvez respondêssemos ser o tempo passado. No entanto, O Tempo Vivo da Memória, livro clássico da Psicologia Social brasileira, escrito por Ecléa Bosi, trata de problematizar essa resposta, desde o título.

O livro reúne diversos ensaios que, tendo a temática da memória como fio condutor, incluem reflexões teóricas, dados de pesquisa de campo, análises de obras de arte e objetos da cultura, estudos sobre a obra de Simone Weil, entre outros.

Não se trata de um livro técnico ou com academicismos. Uma das características comuns a todos os capítulos é a profundidade dos temas que abordam e a simplicidade com que o fazem, de modo que se trate de um livro sobre todos nós e, como escreve José Moura Gonçalves Filho no texto da orelha, “um livro para todos”.

 

O vivido por acontecer

Atentando no início para os aspectos do cotidiano e seu dinamismo, o que os afasta das definições estanques e cronológicas (a que estamos mais acostumados) de História, Ecléa Bosi nos mostra que o tempo da memória não é o tempo morto dos calendários, mas o tempo “de outra história mais densa”, o tempo das pequenas coisas, dos gestos, o tempo que nos une a todos e que, por isso mesmo, escapa a qualquer apreensão definitiva. Com efeito, mais do que acessar o passado, a memória o faz reviver.

Amparada na Psicologia da Gestalt e Bergson, a autora considera que o passado se conserva, mas não de forma homogênea. Uma lembrança, ao virar figura, altera o fundo – o todo de que é parte. E vice-versa.

É assim que, do trabalho dos operários, Ecléa extrai verdadeiras joias: “combinam sob forma nova os fragmentos de matéria de um meio que é anômico, os detrimentos e migalhas da sociedade industrial, imprimindo a esses conjuntos o encanto que só poderia emanar da classe voltada como nenhuma outra para os valores de uso”.

O tempo vivo – portanto, por acontecer – da memória – portanto, vivido – é inapreensível e, concomitantemente, tudo o que temos.

 

Enraizamento e memória

Simone Weil

Simone Weil

Já havia tomado contato com este livro, cuja primeira edição é de 2003 e a segunda de 2004, em outras ocasiões. Fui aluno de Ecléa Bosi em 2002 – tempo em que as ideias a ser publicadas habitavam melodicamente suas aulas –, bem como o lera em 2005, para a seleção do mestrado em Psicologia Social. Nesse sentido, a releitura me trouxe a temática mesma da obra, convidando-me à revivescência de outros tempos.

Ao fim, quando cheguei aos estudos sobre a obra de Simone Weil, ocorreu-me algo que vivi recentemente. Conversava com meus pais sobre os últimos dias de vida do meu avô, talvez minha experiência mais próxima da morte de que tenho memória, e lembrei-me de um sonho que ele teve. Em coma profundo por alguns dias – e desacreditado pelos médicos –, meu avô despertou completamente lúcido. Consumido pelo câncer, ele nos contou um sonho… Estava aprisionado em uma aldeia indígena e, no julgamento que poderia condená-lo à morte, fora absolvido.

Além do sonho, de que também meus pais tinham memória, lembrei-me de que ele despertara com vontade de comer pastel de feira. Evidentemente, trazer um pastel para um paciente terminal feria as regras do hospital, de modo que, não sei se ajudado pelo fato de meu pai, filho dele, ser médico do hospital ou se contando com a compaixão da equipe médica, conseguimos trazer o tal pastel.

Lembro-me da cena: meu avô, pele e osso, mastigando com prazer, como se fosse hoje. Contudo, nem me pai nem minha mãe lembraram-se disso. “Há coisas de que só as crianças se lembram”, disse minha mãe. Em um primeiro momento me irritei: como não se lembravam de algo tão relevante? Sem a comprovação deles, estaria a veracidade de minha memória posta em cheque?

Mas logo me reconfortei no privilégio que ser o guardião do que uma cena como aquela implica: um pedacinho de minhas raízes, à iminência de nos deixar para se tornar memória, pulsando vivo dentro de mim a magia de uma herança por despertar, talvez não muito diferente da experiência de voltar de um coma irreversível.

A gênese de uma obra-prima do cinema brasileiro: Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho

Filme, que é do mesmo diretor de Velho Chico, vai além da mera adaptação e estabelece um diálogo com o livro que o originou

por Fabio Camarneiro*

lavourarcaica

Apesar de hoje parecer banal pensarmos o cinema como uma forma artística séria – a chamada “sétima” arte –, houve um lento processo para que os cineastas fossem reconhecidos para além de meros técnicos a serviço de uma dramaturgia na maioria das vezes pasteurizada. Um dos importantes pontos de virada nessa história é o célebre livro com as entrevistas que o francês François Truffaut (autor de Os incompreendidos, Jules e Jim, A noite americana, entre outros) realizou com o diretor Alfred Hitchcock, nome incontornável que,mesmo já bastante famoso, era contudo desprezado pelos, digamos assim, “meios intelectuais mais sérios”.

Durante a conversa com seu admirador francês, Hitchcock revela um pensamento bastante organizado a orientar cada escolha de cenário ou de luz, a escolha do elenco, a movimentação dos atores e da câmera, os cortes etc. Ou seja: há um objetivo bastante consciente em cada uma dessas escolhas, que forma esse imenso mosaico de imagens e sons que nós normalmente chamamos de “um filme”.

O livro Sobre o Filme Lavour’Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, retoma a ideia de que uma obra cinematograficamente relevante começa com um elaborado pensamento a partir da matéria fílmica. No caso do longa de estreia de Carvalho, a partir do romance de Raduan Nassar e de suas idiossincrasias literárias. Nas palavras do diretor, trata-se de um“trabalho de linguagem excepcional” que levou a uma aproximação bastante distinta da mera adaptação – a encenação do entrecho dramático – mas, ao invés disso, a um “diálogo” entre o filme e a obra original. Em certa passagem do livro, Carvalho – que atualmente dirige a novela Velho Chico – afirma que sua busca era “o exercício da narrativa não descritiva, hiperbólica, como a música árabe, a cerâmica, a dança. Eu perseguia o sensório. Era ele que me guiava.”

O resultado é um dos trabalhos mais originais e ao mesmo tempo mais celebrados do período conhecido como a chamada “Retomada” do cinema brasileiro, durante os anos 1990. Após a atividade cinematográfica ter chegado perto da extinção durante o governo do presidente Fernando Collor, era hora dos cineastas buscarem reencontrar o público. Nesse contexto, Carvalho ousou em realizar um filme longo (165 min.) e denso, com a fotografia deslumbrante de Walter Carvalho a ressaltar os estados de espírito dos personagens do romance de Raduan Nassar.

Um grupo de seis entrevistadores (José Carlos Avellar, Geraldo Sarno, Miguel Pereira, Ivana Bentes, Arnaldo Carrilho e Liliane Heynemann) coloca Carvalho para discorrer sobre suas opções estéticas em Lavoura Arcaica, mas também sobre sua formação (vendo filmes compulsivamente na Cinemateca do MAM do Rio de Janeiro), o início na profissão (como assistente de Walter Avancini na televisão), suas primeiras novelas (das quais destaca-se Renascer) e seu método ao lidar com o livro Lavoura Arcaica (o contato com elementos da cultura libanesa, mediterrânica). Durante essas conversas, aprendemos que o diretor, em busca da história de sua mãe, realizou uma viagem a Alagoas, guiado por sua antiga babá, que o fez reencontrar com as tradições da cultura no Nordeste brasileiro, tão presentes em sua origem. Ou de outra viagem ao Líbano, durante a preparação para Lavoura Arcaica, onde foi atrás dos elementos que povoariam as imagens e os sons do filme e, mais que isso, onde encontraria os fios com os quais teceria seu filme em um lento processo de imersão que, por meses, envolveu atores e equipe.

Assim, aprendemos que o diretor optou por montar o filme sequência por sequência, sem ter, de antemão, uma estrutura definida (um “começo, meio e fim” para o filme como um todo) – gesto inusitado, mas que Carvalho justifica ao lembrar que queria que uma imagem ou um som, em determinada sequência, pudesse “chamar” a sequência seguinte. Também ficamos sabendo que o diretor não trabalhou com um roteiro prévio, e que – apesar de ter bastante consciência do que buscava em cada cena – lançou mão do improviso com os atores. Nesse sentido, elogia especialmente a presença de Raul Cortez, cuja entrega ao método do diretor serviu de inspiração para todo o elenco.

A escolha do menino que interpreta o jovem André e do André adulto (Selton Mello) também guardam surpresas: se este empenhou-se em impressionar o diretor para ganhar o papel, aquele foi quase atropelado por uma pessoa da equipe, golpe de sorte que o levou, mais tarde, a ser a escolha do diretor.

As pequenas histórias se sucedem com graça, e o interesse do depoimento de Carvalho pode fascinar o leigo como interessar ao conhecedor de cinema, seja ele profissional ou mero diletante. Acima de tudo, Sobre o Filme Lavour’Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, nos aproxima da realização de uma obra-prima do cinema nacional a partir das palavras de seu autor – um dos maiores diretores da TV brasileira. Ao colocar em primeiro plano, ao invés das curiosidades de bastidor ou da vida pessoal do artista, a estética fílmica e as opções do realizador, o livro preenche uma lacuna que outrora era preenchida pela imprensa especializada, cujo papel torna-se cada vez menos pertinente em nosso país. Uma importante obra para pesquisadores e interessados pelo cinema brasileiro, bem como para o público em geral.

Fabio Camarneiro é professor no curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. É doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA/USP e mestre em Comunicação Impressa e Audiovisual pela mesma instituição.

 

Sementes de sentido em Girassol voltado para a terra podem germinar em aulas de interpretação de texto

Katherine Funke*

 

Em Girassol voltado para a terra (Ateliê Editorial, 2016), o escritor e psicanalista Renato Tardivo (SP) nos presenteia com sementes para histórias nunca ditas ou escritas por inteiro, mas certamente, por isso mesmo, íntegras: vividas ou vislumbradas de modo singular a cada leitura.

A alta concentração de sentido em um mínimo espaço escrito expande o poder da ficção à máxima potência. Quando bem feito, o microconto “explode” dentro do olho/corpo/mente do leitor. Já o primeiro texto do volume deixa essa provocação:

 

Volta

Há dias que, de tão reais, dão a volta toda. Viram ficção.

Um cronista teria uma história real para justificar a ideia central de “Volta”. Um contista convencional inventaria outra, talvez até mesmo duas, paralelas, mas não chegaria a conclusão alguma, deixando algumas pistas para esta verdade oculta. Já um romancista escreveria 300 páginas e este seria o slogan do livro…

Girassol voltado para terra 1

Ilustração de Anna Anjos

Tardivo, econômico e direto, opta por ocultar qualquer enredo superficial, qualquer enredo exemplar que dê uma forma fechada à história. Em vez disso, deixa vir à tona apenas a “verdade”, aquilo que é essencial e inegável, mas quase sempre fica oculto no cotidiano do próprio uso da linguagem. O “resto”, no caso, a história não contada, o que o levou a chegar a este aforisma conclusivo, é com o leitor.

Dessa forma, Girassol surge como esfinge que pede para ser decifrada ou poderá nos devorar. A epígrafe escolhida abre caminhos para o entendimento desta proposta do livro. É de Maurice Merleau-Ponty: “Toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”.

Embora traga contos curtíssimos, aforismas e sementes de sabedoria, o livro não nasceu rápido. Foram anos de maturação de cada palavra. Enquanto o escrevia, Renato lançou outros livros, continuou trabalhando, vivendo, elucidando e voltando aos dilemas, a cada dia.

A falta de pressa fez bem ao contista. Sementes de girassol precisam mesmo de tempo para, quando forem plantadas, eclodirem com toda força: de poesia.

 

Sala de aula

Quem pretende trabalhar com este livro em sala de aula recebeu um presente e tanto. Para quem quer propor exercícios de interpretação de texto, cada página do livro é uma possibilidade. Vejamos, por exemplo, a página 35 de Girassol voltado para a terra:

 

“Ponto final

 

Ela é exclamação; ele, interrogação.”

 

O que aconteceu? Alguém terminou um relacionamento? Mas quem? Como? Em um tempo em que a síntese está cada vez mais presente na vida cotidiana, instigar a interpretação de texto pede atenção plena do aluno e uso do pensamento lógico, além da sensibilidade poética. Estimula a expressão e a desinibição. Afinal, falar/escrever pouco, comunicar-se o tempo todo em códigos, pode levar a muitos malentendidos. Principalmente, o entendimento de si mesmo, que é a base da felicidade; depois, o entendimento do outro e do mundo, compreensão que é a base da comunicação e, portanto, de bons relacionamentos.

Para quem quer propor criação de texto, Girassol também surge como ponto de partida. De cada microconto, pode nascer um conto único, original, singular para cada leitor. Este é um exercício possível a partir do livro: os textos de Tardivo (com os devidos créditos, claro) podem ser levados para dentro de novos textos, tornando-se trechos de outras histórias.

Ilustração de Anna Anjos

Ilustração de Anna Anjos

Um segundo exercício de criação literária, um pouco mais complicado, é tentar, como Tardivo, chegar à exatidão com poucas palavras. Contudo, um bom microconto não pode desperdiçar tempo nem espaço. “Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas”, escreveu o uruguaio Horácio Quiroga no conhecido “Decálogo do perfeito contista”, um conjunto de ideias mais ou menos polêmicas sobre a arte do conto.

Quando tentamos aplicar essa premissa de Quiroga ao microconto, como fica? No micronto, todas as linhas, as primeiras e as últimas, coincidem em importância. Cada palavra, vírgula, pausa, ponto, deve assumir seu lugar exato, para que o contista passe adiante o vislumbre, a epifania ou iluminação profana que o levou a escrever.

Um exercício possível é propor uma ação incompleta e pedir para o aluno finalizar. Por exemplo: “Abriu o livro e leu…”? Cada um poderá completar como quer. Depois, colocar o título. Que pode fazer nascer, por exemplo, uma contradição iluminadora. (Como: “Cartório. Abriu o livro e leu seu atestado de óbito.” Acabo de inventá-lo; para ver como é um exercício fácil e divertido.)

Aprendi essa brincadeira boa com o escritor pernambucano Marcelino Freire,  em uma oficina literária em Curitiba (PR), e gosto de aplicar com os meus alunos. Adoro ver o que se passa a cada recriação da cena. Pode-se ir do poético ao escatológico, do humano ao desumano, do sublime ao diabólico, em menos de um minuto. Em duas ou três palavras diferentes. É o conhecimento do poder a linguagem exposto sem mediação.

Outro bom modo de iniciar-se na escrita de microcontos é escolher títulos abertos e propor aos alunos que escrevem sob este guarda-chuva inicial. Os títulos completam o sentido do que vem a seguir, em uma relação simbiótica que não se vê tão íntegra em todos os gêneros literários. O livro de Renato Tardivo está cheio de bons exemplos nesse sentido.

 

Olhos, foguetes, conchas

O cuidadoso trabalho gráfico da Ateliê Editorial torna o livro um ótimo presente. É um livro-objeto, com páginas cuidadosamente diagramadas e papel bem escolhido para dar vida e destaque aos microcontos.

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Na capa, o desenho de Anna Anjos mira o leitor: convida a abrir o livro e olhar para a terra para onde olha o Girassol, este solo onde linguagem é vida, onde vivemos todos, mas nem todos sabemos dizê-lo com tamanha precisão.

Nas páginas internas, os mesmos olhos abstratos e futuristas parecem ter se transformado em foguetes, onde o leitor pode entrar e partir para as dimensões ocultas nas verdades relevadas. Foguetes, sim, ou conchas, ou outra imagem à sua escolha (depende de quem olha, e quando o faz), isto é, lugares seguros onde se podem dizer certos segredos.

O chão que sustenta Girassol é formado de silêncios e de descobertas, vislumbres e epifanias. Portanto, solo fértil para o leitor atento, que se une ao movimento de Girassol. O escritor Nelson de Oliveira, no prólogo, destaca a interação proporcionada por esse tipo de escrita: o leitor é convidado a preencher a História, as camadas de história não-ditas, mas contidas na sabedoria do microconto.

Girassol Voltado para a Terra, com suas sementes de histórias, seus olhares, foguetes e conchas, nos convida a interagir e pensar. A leitura do livro de Renato Tardivo, se não elucida dilemas, ao menos nos mostra que pode valer a pena tentar. Mesmo que demore anos, que seja preciso antes outros voos, outros silêncios, este movimento de olhar para dentro (para a terra, de onde viemos, para onde vamos) é, talvez, o que nos falta em nossa rotina cada vez mais verborrágica, cheia de palavras mas tão vazia de sentido e plenitude.

 

 

* Escritora, 34 anos, está ministrando o Curso Livre de Contos na Biblioteca de Pirabeiraba (livre2016.tumblr.com ) , em Joinville (SC), em projeto selecionado pela Bolsa de Fomento à Literatura do Ministério da Cultura. Escreveu outra resenha de Girassol voltado para terra em seu blog pessoal, Histórias da Katherine (historiasdakatherine.wordpress.com) .

Âncora Medicinal: Um registro histórico sobre nutrição

Alex Sens*

Por mais que os meios de comunicação produzam e divulguem formas variadas de nutrição, hábitos alimentares e discutam culturas gastronômicas tão visualmente estimulantes a fim de se repensar a saúde e o bem-estar humano em diversas áreas do cotidiano, é uma tarefa mais difícil e talvez impossível tocar a história da alimentação, entender sua raiz, como ela teve início, onde e como se apoiam as publicações hodiernais e o quanto estas são ou não afetadas por antigas tradições. Existe um número absurdo de publicações impressas sobre como se alimentar bem, tanto a partir de receitas quanto a partir de pesquisas médicas, no entanto, a título de curiosidade e valor históricos, é interessante saber como chegamos até aqui, o que ainda comemos, bebemos e preparamos em comparação com nossos antepassados.

Sem t’tulo-8Publicado pela primeira vez em 1721 e reeditado com glossário e linguagem atualizada por uma equipe de professores universitários quase três séculos depois, o compêndio nutricional Âncora Medicinal — Para Conservar a Vida com Saúde, de Francisco da Fonseca Henriquez, não é apenas o primeiro tratado sobre alimentação em língua portuguesa, nem apenas um registro de historicidade médica, mas também, e sobretudo, uma obra que discute e enfatiza a importância de ter uma boa qualidade de vida e os meios para se obtê-la. O autor, mais conhecido como Dr. Mirandela, foi médico do rei D. João V e cuidadosamente criou essa espécie de manual que mostra em suas 300 páginas que tanto os alimentos quanto os sentimentos, as chamadas “paixões da alma”, afetam diretamente a saúde e o funcionamento do corpo.

Logo no início, o médico apresenta as seis coisas “não naturais” que conservam a saúde: o ar ambiente, o comer e o beber, o sono e a vigília, o movimento e o descanso, os excretos e os retentos, e finalmente as paixões da alma. Conforme explica, antes de longos capítulos em que destrincha cada um desses itens,

“quem respirar bons ares, quem, com moderação e prudência, usar bons alimentos, quem dormir com sossego as horas que bastem, quem fizer exercício como deve, quem trouxer a natureza bem regulada nas suas evacuações e quem não tiver paixões que lhe alterem a harmonia dos humores não pode deixar de ter boa saúde”.

Ao longo de várias seções, Dr. Mirandela cita os pensamentos e os legados de Pitágoras, Aristóteles e Hipócrates, usando a história para enfatizar suas próprias lições. Comenta a importância de comer com moderação, pois, mesmo os melhores alimentos, “tomados com insaciável voracidade”, são sempre danosos, além de discutir a frequência da alimentação e a famosa e antiga questão sobre o quanto comer no almoço e no jantar.

Algumas curiosidades saltam aos olhos durante a leitura das seções sobre alimentos específicos, como no caso dos pães, grãos e carnes, sendo estas “de animais machos melhores que as das fêmeas porque os machos têm maior calor e agilidade”, além da informação no capítulo sobre entranhas de que testículos de animais novos “nutrem muito”. Há um longo capítulo sobre ovos e peixes, outro sobre legumes, em que a chicória aparece como uma “hortaliça verdadeiramente toda medicamento” e a acelga que “purga as umidades da cabeça” quando seu sumo é sorvido pelo nariz. Em raízes, descobrimos que o cozimento da raiz e das sementes do aspargo era indicado para dor de dente. Em seguida, o médico registra uma rápida explicação sobre os diversos tipos de água, como bebê-la e sua temperatura ideal. Antes de concluir a edição com um glossário muito interessante que nos mostra o uso de algumas palavras de caráter médico do século XVIII, o leitor ainda descobre para quê e quando eram e não eram receitadas bebidas alcoólicas como cerveja e vinho, que quando doces, são recebidos pelas entranhas “com desejo”.

Âncora Medicinal é isso: um livro que mostra com clareza e simplicidade que a saúde se sustenta por duas bases muito ensinadas, repetidas e conhecidas até hoje: exercícios físicos e alimentação moderada. Além disso, é um retrato curioso, instigante, verdadeiro e às vezes estranho sobre um tempo distante num mundo distante, no entanto também muito próximos dos nossos.

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Velho Chico: um rio, uma novela, um livro

Por Renata de Albuquerque

RioSaoFrancisco

Título da nova novela das 21h da Globo, Velho Chico é muito mais que isso. É também a maneira como as pessoas da região chamam o rio, com uma intimidade incomum. Mas isso talvez tenha explicação: parece que a história daquelas pessoas não poderia ser escrita sem que o Rio São Francisco existisse. E é isso que Dirce de Assis Cavalcanti retrata nas páginas de seu livro O Velho Chico ou A Vida É Amável.

O livro, homônimo da nova novela, é o relato de uma viagem da autora pelo Rio São Francisco feita na década de 70 – a mesma época em que a história da novela se inicia. Mas a novela é explicitamente uma obra de ficção, com um enredo que mistura rixas familiares, amores proibidos e um grande elenco, que conta com Tarcísio Meira, Rodrigo Santoro e Antonio Fagundes, entre outros. Na sinopse de Velho Chico, também há espaço para um fundo histórico (a construção de uma hidrelétrica faz parte da trama).

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Já o livro de Dirce de Assis Cavalcanti é “um relato factual, mas cheio de poesia”, como definiu José Mindlin, no prefácio da obra. O livro mistura relatos do que a autora testemunhou durante sua viagem com impressões, pensamentos e emoções do que sentiu ao visitar o lugar e conhecer os habitantes do local.

O Velho Chico já seria uma leitura atraente, mesmo que se limitasse à descrição dos lugares que visitou (…) Mas foi além, pois soube fazer ressaltar o interesse humano do variado tipo de pessoas e vidas com que teve contato. Tudo isso (…) constituiu apenas uma parte do livro – a viagem exterior. Houve, porém, outra viagem, paralela, que Dirce conseguiu entremear com a primeira – uma viagem interior, que surpreende e impressiona, e que mantém sempre aceso o interesse do leitor”, escreve José Mindlin.

Um exemplo disso é um curto trecho ainda no início do livro, em que a autora escreve:

“A estrada e o rio. Uma caindo no outro de repente. Nos braços do outro. De repente: o rio. Sem se anunciar. Nem barrento, como diziam. Vestido de azul, à espera. Apressado e cantador. Por entre as pedras, corredeiro. Mesmo assim à espera.”

É nessa prosa cheia de imagens poéticas de Dirce de Assis Cavalcanti que o Rio São Francisco se desenha, aos poucos, mais personagem que paisagem. Um personagem fundamental para a existência das pessoas cuja relação com o rio é tão íntima que o chamam pelo familiar apelido de Velho Chico.

A nova novela Velho Chico não é baseada no livro de Dirce de Assis Cavalcanti, mas certamente guarda muitas semelhanças com ele: a paisagem, os personagens regionais, a beleza e a complexidade da vida local são ingredientes inescapáveis, tanto na sinopse da ficção quanto no relato da realidade. Dizem que a arte imita a vida – e a nova novela da Globo deve usar muitos elementos reais em seu enredo. Mas, no livro O Velho Chico ou A Vida É Amável, o que se pode perceber é que a autora consegue captar com poesia a realidade daquela região do Brasil. Se você já leu o livro, deixe seu comentário!