Resenhas

Lira dos Vinte Anos

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Talvanes Faustino*, que escreve sobre Lira dos Vinte Anos. Agradecemos a colaboração de Talvane e esperamos que todos apreciem a leitura!

No Solo Da Saudade Brotaram As Lembranças De Morrer Das Tripas Do Cadáver De Poeta Foi Feita A Lira Dos Vinte Anos

Quem nessa fronte que animava o gênio,

A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

Machado de Assis

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Maneco, para seus amigos da Faculdade de Direito de São Paulo, nascido sob o signo de virgem no dia 12 de setembro de 1831. Neste mesmo ano, poucos meses antes do nascimento daquele que viria a ser uma das vozes poéticas mais importantes das letras nacionais, o então imperador do Brasil, Dom Pedro I, abdicava no dia 7 de abril do trono, em favor do seu filho Pedro II[1]. Em 1845 Álvares entra para o colégio Pedro II no Rio de Janeiro, então capital do império. Três anos mais tarde, o jovem bardo, entra para a Faculdade de Direito, lugar onde travaria relações de amizade com Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, que segundo seus biógrafos eram seus melhores amigos, por escolha de Coelho Neto (1864-1934). Álvares de Azevedo, tornou-se o patrono da cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras[2] (ABL).

A Lira dos Vinte Anos é provavelmente a obra mais publicada de Álvares de Azevedo. Não é uma tarefa hercúlea encontrar edições desta belíssima obra: são inúmeras as opções e formatos. Assim como, não é impossível dizer, qual entre tantas, deve ser a preferência do leitor. A edição da Ateliê Editoral numa primeira mirada, não tem muito de especial. Mas, ao ler com mais atenção, vemos que nesta 4º edição há um ensaio introdutório a vida e obra de Álvares de Azevedo, a cargo do Dr. José Emílio Major Neto[3], que também fez as notas explicativas. São mais de 500 notas e estas servem como apoio ao leitor na busca pela compreensão da poesia do autor. Ao abrir o livro, nos deparamos com mais novidades, que tornam esta edição diferente de todas as outras que tive a oportunidade de ler. Esta é a primeira vez que vejo uma edição ilustrada da Lira dos Vinte Anos. As ilustrações ficaram a cargo de Ricardo Amadeo, suas ilustrações em preto e branco têm um charme muito especial e ajudam a vermos transformadas em imagem as belas palavras de Álvares de Azevedo. Para completar, temos uma cronologia da vida e obra do cantor da Lira, um vocabulário básico das palavras mais usadas e pequenos textos informativos sobre as influências de Álvares de Azevedo.

Numa resenha escrita por Machado de Assis, sobre o livro Lira Dos Vinte Anos, o velho bruxo, defende que estamos diante de um grande talento, mas que lhe faltou tempo, tempo não apenas para terminar os poemas que deixou incompletos, mas também, tempo para desenvolver sua poesia.

Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude, Álvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019)

Machado de Assis

Com isto Machado de Assis defende uma tese de que a pouca idade de Álvares de Azevedo e sua falta de experiência literária fizeram dele ainda um reflexo das suas influências. Machado fala obviamente de Lord Byron, poeta inglês e maior expressão do romantismo do seu país natal. Mas vale o destaque que Machado não perde de vista que Álvares é um “grande talento”. Mesmo ainda não tendo afirmado a sua individualidade, ele mostra na sua poesia que é destinado a imortalidade. Avançando na leitura vemos o Bruxo, tocar em outro tema caro, seria a sensibilidade demostrada nos poemas verdadeira?

O poeta português Fernando Pessoa, escreveu que “o poeta é um fingidor [..] que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente” e esta palavra “dor” é sem dúvida uma das palavras com as quais podemos explicar a obra de Álvares de Azevedo. Avançando no texto do mestre, vemos que ele toca no tema da sinceridade da dor do Sr. Azevedo, “Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revelava somente um verdadeiro talento; sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera” (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019). E segue voltando a destacar a realmente lamentável falta de tempo que a existência deu ao poeta.

Álvares de Azevedo viveu pouco, mas viveu o suficiente para colocar seu nome no panteão das letras nacionais. Sua poesia que trata de temas tão íntimos e caros ao ser humano que, mesmo após 168 anos da sua morte, encontram nas almas de seus leitores, um solo fértil de saudade, onde brotam as flores das lembranças de morrer, regadas com as lágrimas descridas, que alimentam as tripas que formas as cordas das lira dos vinte anos e na suas cabeças, brilha a glória moribunda do poeta da morte, brilha, Álvares de Azevedo.

Bibliografia

ASSIS, M. D. (10 de Janeiro de 2019). Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo. Acesso em 28 de Maio de 2020, disponível em Blog Do Pensar Poético: https://pensarpoetico.wordpress.com/2019/01/10/resenha-lira-dos-vinte-anos-alvares-de-azevedo/#more-3438

ASSIS, M. D. (29 de Maio de 2020). ÁLVARES D’AZEVEDO (Poesias Diversas). Fonte: Machado De Assis UFSC: https://machadodeassis.ufsc.br/obras/poesias/POESIA,%20Poesias%20dispersas,%201855-1939.htm#%C3%81LVARESDAZEVEDO

AZEVEDO, Á. D. (2014). Lira Dos Vinte Anos. Cotia: Atiliê Editorial.


[1] Porém o pequeno príncipe não pôde assumir o trono por ter apenas 6 anos de idade. Como solução, se inicia o período regencial, que acaba em 1840 com o golpe da maioridade, voltando o poder para a dinastia Bragança, neste ano nosso poeta havia completado 9 primaveras.

[2] A cadeira da qual Álvares é patrono, segue atualmente ocupada pelo escritor Tarcísio Padilha.

[3] Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP (2007) e mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP (2001).

Talvanes Faustino

* Talvanes Faustino é natural de Maceió, Alagoas, graduando em História, porém, em processo de mudança para o curso de Letras, porque a literatura falou mais alto. É autor de livros de poesias e contos, todos publicados de forma independente. A primeira publicação é do livro Portal Da Escuridão Do Meu Olhar de 2012 e o último trabalho publicado é o conto “Pássaros e Morcegos” (2019). Além de Álvares de Azevedo, tem em autores como Machado de Assis, Victor Hugo, Graciliano Ramos e a influência e o aprendizado e o incentivo para continuar escrevendo.

Coração, Cabeça e Estômago: humor e crítica em um texto clássico

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Camila Justo*, que escreve sobre Coração, Cabeça e Estômago, escrito por Camilo Castelo Branco em 1862 . Agradecemos a colaboração de Camila e esperamos que todos apreciem a leitura!

A leitura da novela satírica publicada em 1862, Coração, Cabeça e Estômago poderá nos ajudar a conhecer  Camilo Castelo Branco, o autor, e outros aspectos de sua obra.  Em relação à estrutura: apresenta um preâmbulo, sob forma de diálogo entre os amigos Faustino Xavier Novaes e o editor (provavelmente o próprio Camilo Castelo Branco) em torno de um amigo em comum, morto há seis meses. O editor em questão recebe a incumbência de organizar, revisar e publicar o livro de memórias do falecido Silvestre da Silva; e três partes , a saber: 

A primeira é intitulada CORAÇÃO e é a mais longa. Ela abarca boa parte do livro e vai de 1844 a 1854. Nela, Silvestre da Silva, apresenta-se como um saloio ingênuo, sonhador e cheio de esperança, que deixa sua pequena aldeia em Soutelo e migra para Lisboa, onde”inicia seu noviciado amoroso”. Nesse período, suas atitudes e decisões são norteadas pelos sentimentos e excessos de sua imaginação.

Ele ama (ou melhor, tenta amar, sete mulheres), mas sempre de forma instantânea (apaixona-se à primeira vista) e leviana, fortemente influenciado pelos romances e poesia românticos que ávida e irrefletidamente consome.

Silvestre tenta reproduzir a todo custo o estilo de vida e padrões de comportamento adotados por seus heróis e poetas românticos preferidos,  o que acaba desencadeando uma série de situações ridículas e jocosas e, ao mesmo tempo, dignas de reflexão. 

As mulheres pelas quais Silvestre se apaixona apresentam traços de caráter e personalidade semelhantes entre si, reproduzindo sempre os mesmos padrões de escolha de objeto amoroso: todas elas são frívolas, vaidosas, cínicas e interesseiras, e não hesitam em trocá-lo por homens endinheirados na primeira oportunidade.

Depois de sete decepções amorosas consecutivas, Silvestre ainda conhece outras duas mulheres: Paula, “a mulher que o mundo respeita” (é cínica, hipócrita e calculista, trai o conde com o qual se casa por conveniência), mas como é rica, a alta sociedade lisboeta faz vistas grossas ao caso extraconjugal que mantém com o mestre-escola e mesmo sendo adúltera é adorada em seu meio social; e a última é Marcolina, “a mulher que o mundo despreza”, foi aliciada e vendida pela mãe aos 14 anos de idade a um barão. 

Com a morte deste, Marcolina, casa-se com Augusto, um antigo amor, que após o casamento revela-se um homem violento, perdulário, libertino e jogador e dilapida o dinheiro obtido com venda das joias que a esposa recebera de presente. Desesperada e tendo de sustentar suas irmãs, vê-se obrigada a se prostituir. Marcolina e Silvestre se conhecem no Cais do Sodré, justamente no momento em que ela tencionava dar cabo de sua própria vida, pois havia contraído tuberculose e se sentia abandonada pela família.

Ao ouvir sua triste história, Silvestre se compadece da moça e a leva para sua aldeia natal em Soutelo, em busca de ares mais puros e benfazejos à sua debilitada saúde.

No leito de morte, Marcolina declara seu amor por Silvestre, que, ao mesmo tempo, se dá conta de também a amava, pois segundo ele, Marcolina era a mais verdadeira, pura, sincera e santa que “as mulheres que o mundo respeita”.

A segunda parte denomina-se CABEÇA (sede da inteligência, da razão, do cálculo, da consciência, do planejamento e da premeditação) e estende-se por cinco anos (1855-1860), em que Silvestre da Silva, entediado com a monotonia, a tristeza e fealdade de sua aldeia, muda-se para a cidade do Porto, onde passa a trabalhar como jornalista e se interessa pela política local.  

Faz duras críticas aos romances românticos franceses, questionando os padrões de beleza de suas heroínas, sempre pálidas, magras e frágeis a que as jovens procuravam imitar à custa de forçados jejuns e noites mal dormidas e que mulher portuense do passado tinha aspecto bonito, vistoso, saudável, era bem fornida de carne, tinha as faces coradas e mais disposição de ânimo. Silvestre acaba se envolvendo em uma série de confusões com figuras ilustres da sociedade portuense, denuncia sua hipocrisia, pondo a nu seus aspectos ridículos, degradantes e comezinhos, o que lhe trará sérios problemas financeiros e profissionais, e este será o motivo que o fará regressar definitivamente à aldeia onde nasceu.

Ilustração do livro Coração, Cabeça e Estômago, feita por Gustavo Piqueira

A terceira, e última parte denomina-se ESTÔMAGO (órgão que representa o instinto de sobrevivência, nossas necessidades básicas, instintivas tais como comer, beber, procriar, dormir). Nesse período,  que vai de 1860-1861, o protagonista procura uma vida bucólica, serena e isenta de preocupações.   Silvestre nos conta as razões por que se casou com Tomásia e como isto se deu.

Pode -se dizer que o título da novela é uma espécie de metáfora da trajetória de seu protagonista: no início é um saloio ingênuo, romântico, atrapalhado, cheio de esperanças, mas à medida que se decepciona com as mulheres com quem tenta se relacionar e com a sociedade em que se insere, deixa-se corromper pelo meio, tornando-se amargurado, cético, acomoda-se se ao status quo, tanto é verdade que morre de caquexia, empanzinado de tanto comer.

Por fim,  outro aspecto digno de nota é o modo como Camilo Castelo Branco satiriza o Romantismo, movimento estético e filosófico, a que num primeiro momento parece estar associado. Isto se evidencia pela maneira concisa, desidealizada, sem aqueles floreios retóricos, tão caros aos românticos, como  Silvestre da Silva, o narrador da novela nos descreve a personagem Tomásia.

Segundo ele, Tomásia é uma jovem rústica, “escura de inteligência”, não sabia ler nem escrever e era desprovida de vaidade. Porém, ao ler a novela, tem se a impressão de que ela era uma mulher sincera, de coração puro, inocente, sensata, trabalhadora, temente a Deus, forte tanto física quanto moralmente e o mais admirável, dotada de um senso prático incomum às mulheres do século XIX, sobretudo, se a compararmos àquelas que Silvestre conheceu nas cidades de Lisboa e Porto . 

Desta forma , cabe lembrar que no mesmo ano de publicação desta obra veio a lume a novela passional  Amor de Perdição, considerada tanto pelos críticos e historiadores literários quanto pelo público, a obra-prima de Camilo Castelo Branco, mas  a leitura de Coração, Cabeça e Estômago deixa claro que sua produção literária  é mais vasta e diversificada e não se restringe às histórias fatalistas, de amores impossíveis, infelizes, repleto de lances trágicos ou melodramáticos, como muitos manuais de literatura do Ensino Médio querem nos fazer crer.

*Graduada em Letras Português/Espanhol pela UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba 2003), especializada em Literatura pela UNITAU (Universidade de Taubaté 2008/2009).

Um clássico não merece um triste fim

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Douglas Mendes Ornellas, que escreve sobre Triste Fim de Policarpo Quaresma. Agradecemos a colaboração de Douglas e esperamos que todos apreciem a leitura!

Algo que surpreende tanto pela qualidade de construção, quanto pela simplicidade e beleza não deve ser mantido como um segredo sob sete chaves, mas merece ser destacado e compartilhado. Assim como eu, acredito que muitos de vocês concordarão ainda mais quando esse “algo” se trata de um livro, certo? É exatamente esse o sentimento que tenho quando indico aos meus amigos, colegas de profissão e alunos as obras da Coleção Clássicos, da editora Ateliê Editorial.

Como um leitor assíduo, muito por conta da profissão e por formação como indivíduo, eu acho válido destacar aqui a imensa satisfação que senti ao adquirir algumas obras da coleção mencionada, dentre elas Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, Quincas Borba, de Machado de Assis, O Cortiço, de Aluísio Azevedo. No entanto, detenho-me aqui acerca do romance que atualmente estou relendo e utilizando em sala de aula: Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1881-1922).

Com sua primeira publicação em 1915, o romance deixou evidentes os motivos pelos quais faz parte (e com muito merecimento) do cânone da Literatura Brasileira. A obra, estudada como originária do período pré-modernista – um consenso entre estudiosos não como uma escola literária, mas como um momento precursor e importante que culminou no Modernismo Brasileiro – consegue se manter atual tanto no cenário de escrita literária, quanto no sociocultural.

A narrativa do grandioso Lima Barreto, ao contrário do que muitos leitores pensam quando vão “encarar” a leitura de um clássico, mostra-nos como é simples, do ponto de vista linguístico, e ao mesmo tempo complexa, ao adotar uma postura sensata e de riqueza crítica. Os contrastes, no entanto, não se limitam somente aos mencionados: as personagens são ricas, mesmo as secundárias, ao abordarem diferentes pontos de vista sobre a cidade, sobre as relações pessoais e acerca das construções sociais que ainda perduram e afetam a vida dos indivíduos fora das páginas.

Policarpo Quaresma, protagonista da obra, pode ser considerado a caricatura de um brasileiro com sentimento ufanista, grandiloquente, porém ingênuo em suas aspirações patrióticas, o que muitas vezes nos faz refletir, conforme a narrativa avança, sobre como a cegueira fanática, aquela que negligencia os problemas em nosso próprio espaço nacional, pode ser algo desolador para uma construção de mundo ideal. Além do emocional da personagem ser reafirmado em cada capítulo como cabisbaixo e introspectivo, a identidade de Quaresma também se mostra bem condensada sobre o que é o cidadão patriota: não se pode dizer que sua construção é baseada em indivíduos de uma determinada região ou que tenha características plurais, mas que, segundo o próprio narrador, “era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro”.

Será difícil leitores contemporâneos não se identificarem com as personagens do romance ou não perceberam diálogos com o contexto brasileiro atual. Personagens como Ricardo Coração dos Outros, que incorpora o indivíduo marginalizado em busca de ascensão; Ismênia, com seus conflitos intimistas e o peso que carrega de uma construção tradicionalista e patriarcal; Olga, que serve como um contraponto – de certa forma – para a personagem mencionada anteriormente; General Albernaz, como uma crítica a um modelo que está em ruínas, mas que se faz presente por meio das narrativas – bem como tantos outros – representam também muito dos que conhecemos e pertencem ao nosso cotidiano.

Por fim, é importante evidenciar como a leitura da obra torna-se prazerosa e instigante e, em certos momentos, até mesmo incômoda num sentido positivo a cada página, a cada novo avançar das situações que giram em torno do Quaresma. Certamente, muitas reflexões saltarão das páginas diretamente para o imaginário do leitor que se permite ser tocado sutilmente pelas palavras e que encontra no ato de ler uma possibilidade de se inserir em um novo mundo – um mundo que não se contenta somente com o que é dado de maneira pronta, mas com o que pode ser criado, renovado.

*Douglas Mendes Ornellas é  leitor assíduo desde jovem. “Viciei no mundo da leitura logo nos primeiros anos escolares”, diz ele, que é graduado em Letras (Português e Literaturas) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição. É professor de Linguagens no Ensino Fundamental II e em Pré-Vestibular. “Acredito em uma Educação libertadora e em democratização da Literatura.

Paradeiro: uma carta para Pedro

O escrito e psicanalista Renato Tardivo escreve uma “carta aberta” a Pedro, protagonista de Paradeiro, romance de Luís Bueno que recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2019

São Paulo, 26 de dezembro de 2019.

Caro Pedro,

Espero que me perdoe a intromissão. Não nos conhecemos; ou, para ser mais preciso, você não me conhece. Eu soube de eventos importantes da sua vida por meio do romance Paradeiro, escrito por Luís Bueno e do qual você, aos 23 anos, é um dos protagonistas. Presumo que você não tivera a oportunidade de ler o romance, levando em conta, inclusive, que ele seria publicado no longínquo 2018. O livro possui três camadas narrativas, por assim dizer. Uma delas traz como protagonista uma mulher madura, cujo nome não se menciona e que, ao descobrir tardiamente um câncer, decide (decide?) se suicidar. Boa parte dessa camada é narrada em primeira pessoa por essa mulher. Outra camada se ocupa da vida de Bibiana, uma senhora em estado de demência (e quanta sabedoria ela anuncia!). A maior parte dessa outra camada é narrada pela própria Bibiana em um texto sem pontuação – pretendo voltar a tratar disso nesta carta. E, por fim, perfaz o livro a seção que o traz como protagonista. Em toda essa camada, o leitor tem a oportunidade de conhecer uma série de cartas remetidas por você em 1938 a familiares e amigos, e, em algumas delas, ler suas críticas literárias encaminhadas à “Revista Acadêmica”. É assim que sua identidade se constitui no livro: dirigindo-se ao outro. Não é bonito? Por este motivo, Pedro, não me ocorreria outra forma de comentar o livro Paradeiro senão remetendo uma carta a você.     

Posso imaginar (não mais que imaginar) o baque que você sentiu ao receber o diagnóstico de tuberculose e, por causa disso, ter de se exilar em São José dos Campos para se submeter, naquele ano de 38, a um tratamento repleto de incertezas. Deixar o Rio e o convívio com Murilo Miranda, Moacyr Werneck e Carlos Lacerda, para citar apenas alguns de seus companheiros, não deve ter sido nada fácil. Sei disso, porque sua angústia se revela nas cartas. Talvez você tenha pressentido o que diria a protagonista (sem nome) do romance: “A morte é exatamente isso. Feder fortemente e ninguém sentir”. É curioso, não obstante, que o cheiro dela seja sentido, circunstância que atesta justamente a sua condição de viva. Também em suas cartas, Pedro, mais que a angústia, o que salta mesmo é sua vontade de viver e seguir discutindo os temas que tanto lhe interessavam: literatura e igualdade.

O romance Paradeiro, mais do que flertar com a morte, é um livro sobre a vida! Você acredita que (muito diferente da sua experiência, evidentemente) também eu tenho uma história em São José dos Campos? Como, nas férias da infância, eu viajava com a família para o litoral norte de São Paulo, São José ficava na metade do caminho. Passar por lá, então, era, por um lado, ruim: significava que ainda tínhamos pela frente metade do trajeto (que, de longo, eu ainda não sabia, não tinha nada). Mas era também a chance de comer no único McDonald’s que havia na região, e isso era, à época, o suficiente para me deixar animado. Como vê, eu não conhecia nada de São José dos Campos, o que dirá de sua acolhida aos tísicos? Sequer à praça Afonso Pena eu fora. Mas bons livros sobre a vida, como o é Paradeiro, estabelecem uma intimidade insuspeita com o leitor. Não é isso que também dizem as críticas que você publicava na “Acadêmica”?

E, por falar em intimidade, suponho que você jamais tenha conversado com Bibiana. Mas, e com a personagem sem nome? É possível (apenas possível) que, em algum momento da vida, ao menos um “bom dia” vocês tenham trocado. Eu creio que uma conversa entre vocês três seria tão enriquecedora! Mas isso não importa. Ao contrário, é a autonomia entre as três trajetórias e seus sutis pontos da tangência que fazem do romance um belo livro. E é assim mesmo que, sem que vocês três se encontrem propriamente, o encontro pode enfim ocorrer em sua máxima potência: no imaginário do leitor.

É difícil (e seria leviano da minha parte) afirmar quem é a personagem mais sofrida. Mas me ocorre que Bibiana, a mais velha entre os protagonistas, foi arrancada da mãe e da pátria na infância, casou-se ainda menina, casou-se de novo, viveu sob a opressão da tia e, se já não bastasse, perdeu dois filhos! Um deles você conheceu, sabia? Pois eu sei. Enfim, quanta dor e fome de vida. O entusiasmo com que você leu Vidas Secas, romance excepcional de Graciliano Ramos publicado enquanto você se tratava da tuberculose, quiçá também tome essa direção. De qualquer modo, creio que Bibiana seja a personagem mais mítica do romance. O discurso dela, sempre em letras minúsculas, não possui (como já anunciei) pontuação; não tem começo, não tem fim: é. A outra protagonista, que vaga entre São José e Jacareí por alguns dias em busca de dar cabo da própria vida, parece caminhar para esta descoberta, qual seja, a de que a vida, em ultimíssimo caso, não tem começo, não tem fim: é. Mas percebo que, agora, já exagero em minhas divagações.

Pedro, não poderia deixar, ainda, de registrar meus agradecimentos a você, por apresentar-me ao romance Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira, sobre o qual você escreveu na “Acadêmica”; obra que, em suas palavras, como Vidas Secas, “veio para envelhecer sempre nova”. Pois saiba que amanhã mesmo eu irei atrás do meu exemplar de Amanhecer. O que você muito provavelmente não soubesse é que esta imagem – o envelhecer sempre novo – costura a sua história, a de Bibiana e a da mulher cujo nome desconhecemos. Mas arrisco afirmar que você o intuiu, ou não teria dito em carta à sua mãe que São José dos Campos era o seu paradeiro: “O lugar onde vim parar é aquele em que eu pararia de vez. Mas não parei, e por isso parei por aqui”. Também eu paro por aqui.

Com o abraço do

Renato    

Sobre Espantalhos e Limões Espremidos: Farsas e Tragédias na reedição do livro Os Males do Tabaco e Outras Peças em um Ato

Paulo Maia*

O humor e a brevidade estão presentes nos oito textos desta reunião editorial de Os Males do Tabaco que chega agora à sua terceira edição (2001, 2003, 2019). Vemos aqui estudos cômicos de Tchekhov (cena, cenas monólogos, estudo dramático, peça e farsas) que em alguns casos evoluem para a tragédia cômica. É o caso da versão de 1902 da cena monólogo em um ato intitulada “Os Males do Tabaco”. Ivan Ivánovitch Niukhin é um melancólico bufão revoltado que, a mando da mulher, vem falar sobre os tais malefícios. De todo modo, uma conferência não passa de uma conferência. Preso às entranhas do cotidiano e da memória, acerta as contas com a própria vida numa tragédia cômica inundada pela digressão. Seu humor é claramente desesperado e trágico, e a profundidade do conflito existencial vem à tona misturada aos detalhes cotidianos mais corriqueiros e aparentemente insignificantes. Assim, entre o desejo de libertação e as panquecas, a genialidade do estilo tchekhoviano vai sendo costurada a cada digressão pela espera de uma conferência que nunca virá. A resignação e o enclausuramento da personagem tornam os elementos risíveis imediatamente aflitivos, pois nos reconhecemos como espantalhos. É certamente um dos clássicos maiores do escritor.

Já sua primeira versão, que abre a presente edição, atem-se à superfície cômica, sem grandes aprofundamentos existenciais. Apesar do argumento em torno de um conferencista que acaba por não fazer nenhuma conferência e mistura sua fala com assuntos diversos de sua vida pessoal, a real angústia perante aquilo que foi vivido e o desejo intenso por livrar-se da própria história é desenvolvido magistralmente apenas na segunda versão, na qual os males do tabaco revelam-se como os males da própria vida. Entre Márkel Iványtch Niúkhin e Ivan Ivánovitch Niukhin existe o abismo da confissão explícita e desnudada perante sua plateia.    

Bufão melancólico

Svetlovídov, do belíssimo estudo dramático O Canto do Cisne, também pode ser considerado como um bufão melancólico. O velho ator que, bêbado, dorme sentado no camarim após sua apresentação, não quer voltar para casa e enfrentar a solidão. Lembra-se da mulher pela qual era apaixonado, quando ela pediu que ele abandonasse o palco: Compreendi então que não existe nenhuma arte sagrada, que tudo é sonho e ilusão […] Interpretar os clássicos com seu ponto Iványtcha leva-o do êxtase às lágrimas : O vigor jorra de todas as minhas veias como um chafariz […] Não passo de um limão espremido, um picolé, um prego enferrujado […] Se rimos da sua desgraça, é um riso triste – ou, como tantas vezes presenciei nas plateias de Niukhin, um riso contido, tenso.

A peça em um ato O Urso encena uma situação humorada do credor que interrompe um luto de oito meses para cobrar a viúva da dívida deixada pelo falecido marido que, mesmo injusto e infiel, acaba por encerrar Popova num estado de ânimo tal que jurou não tirar o luto nem frequentar a sociedade até o dia do meu próprio enterro… Mas eis que a dívida torna-se paixão e a desavença, um prolongado beijo na boca.  A farsa em um ato O Pedido de Casamento parte da tentativa do excessivamente hipocondríaco Ivan Vassílievitch Lomov de casar com Natália Stepánovna, mas rapidamente revela adisputa entre famílias pela posse de terras e pela qualidade canina de seus animais. Após todo tipo de injúrias lançadas entre o pai de Natália e o futuro casal – Seu moleque! Seu fedelho! Rato velho – o matrimônio se efetua, mas sem dar trégua às polêmicas que percorrem toda farsa: Ora, e assim começa a felicidade conjugal! Champagne!           

No caso das Bodas, por exemplo, mesmo que o tema da corrupção acabe sendo o desfecho moral da cena em um ato, e que o noivo dê sinais claros de ter sido motivado por razões financeiras para casar, é o humor dinâmico das situações segue seu curso na festa de casamento através de tipos diversos, como o confeiteiro grego e o telegrafista. A mãe da noiva diz logo no início o quanto o novo marido da filha é inoportuno, e a festa aguarda a presença de um militar que dará mais nobreza ao evento – mas Revúnov – Karaúlov se mostra enfadonho ao descrever os detalhes técnicos da marinha.

A farsa O Jubileu trata do aniversário de quinze anos do Banco de Crédito Mútuo N. O diretor-presidente, na expectativa de receber os acionistas para a leitura de um discurso escrito por ele mesmo, acaba recebendo as reclamações de Nastássia Fiódorovna Mertchútkina sobre a demissão do marido de uma repartição médico- militar. Mas o conteúdo da reclamação não possui relação alguma com a responsabilidade do banco. No entanto, tal é a insistência de Mertchútkina que Chipútchin dá a ela o dinheiro reclamado para poder vê-la fora dali.        

Outra vez não vemos a densidade do conflito existencial angustiado presente na segunda versão de Os Males do Tabaco, O Canto do Cisne e também na farsa em um ato Trágico à Força. Todas possuem traços evidentes de humor, mas estes traços não parecem estar em primeiro plano. Pode-se dizer que, no caso das outras peças do livro, o humor é mais protagonista, ou seja, a comicidade parece ser mais importante que as tragédias existenciais humanas.

Paulo Maia como Niukhin

Trágico à Força talvez seja um bom meio termo. Ironicamente, o protagonista anuncia: Isso não é uma farsa, é uma tragédia! Ivan Ivánovitch Tolkatchov entra em cena ofegante, esgotado, carregando diversos objetos, e suplica a Muráchkin que lhe dê um revólver, pois não ficará entre os vivos. Diz Ivan: Sou um trapo, um palerma, um idiota! Por que é que eu vivo? Qual o objetivo? […] Para que este nunca acabar de sofrimentos físicos e morais? Que se possa ser mártir de uma ideia, isso eu compreendo, mas ser mártir de algo que nem o diabo sabe […] Para mim chega! O texto, aliás, caberia muito bem na boca de outro Ivan, o Niukhin de 1902. A farsa gira em torno das reclamações de Tolkatchov sobre o excesso de atividades que lhes são impostas, de modo que Muráchkin seria seu confidente e ombro amigo durante o desabafo do veranista. Mas eis que, no desfecho da peça, o próprio Muráchkin passa a pedir favores quando descobre o próximo destino do amigo. Revela-se, portanto, de modo bem humorado, dinâmico, verborrágico e aflitivo o quanto as pessoas usam as outras em prol dos próprios interesses disfarçando-os de favores pessoais: Não por obrigação, mas por amizade! […] A alma humana é sugada e Tolkatchov não aguenta mais: Monte em cima você também! Sirva-se! Esfole o homem! Dê-lhe o golpe de misericórdia! […] Tenho sede de sangue! 

* Paulo Maia é ator e baterista. Doutorando em filosofia, encena a segunda versão do monólogo Os Males do Tabaco desde 2015, tendo percorrido 11 casas até a finalização desta resenha, em 2019.              

O Primo Basílio, de Eça de Queirós

O Primo Basílio é talvez a mais conhecida das obras de Eça de Queirós no Brasil. Adaptada para o cinema e a televisão, o romance realista  publicado em 1878 relata o triângulo amoroso de  Luísa, seu marido Jorge e o primo dela, Basílio, em uma trama que coloca luz na hipocrisia da sociedade burguesa lisboeta da época.

Luísa e Jorge têm boa condição financeira e um casamento morno, apesar dos presentes que ele dá a ela. Ele é engenheiro e, durante uma viagem que faz a trabalho, o primo de Luísa, Basílio, vai visitá-la. Reacende-se então um romance entre os ex-namorados da época da adolescência. Luísa é retratada como uma mulher sonhadora, leitora de romances românticos que se ilude com a chegada do primo. Eles vivem uma paixão intensa que ao longo do tempo também arrefece.

Nesse contexto, a criada Juliana é o contraponto realista da protagonista. Ao perceber que Luísa e Basílio têm um caso (e que inclusive se encontram em um quarto alugado especialmente para os amantes), Juliana passa a chantagear a patroa, depois de ter descoberto cartas trocadas entre os primos. Luísa sugere a Basílio que fujam para Paris, mas ele a deixa em Lisboa.

Então, Luísa é humilhada por Juliana e obrigada a oferecer presentes à empregada, inclusive substituindo-a nas tarefas domésticas. Quando Jorge volta de viagem, percebe algo estranho e diferente na relação entre a esposa e a subalterna, pois as chantagens de Juliana são cada vez maiores. Para tentar se livrar do problema, Luísa pede ajuda a um amigo, Sebastião, que ameaça Juliana e retoma as cartas que ela havia interceptado. Entretanto, a seguir, Juliana morre.

Enquanto isso, Luísa também adoece e Jorge descobre, na correspondência da mulher, uma carta de Basílio. Para poupar a mulher de alguma notícia negativa que pudesse ter chegado na carta, Jorge decide abrir a correspondência. Assim, descobre do caso entre os primos. Confronta Luísa sobre a situação e ela, então, também morre.

Análise

O Primo Basílio é, em essência, uma crítica ao Romantismo e a tudo o que ele exalta: a idealização do amor romântico de que “padece” Luísa é o que a leva a morrer, em última instância. Mas Eça de Queirós não deixa também de criticar a burguesa da época, sua mediocridade, a beatice de fachada, o conservadorismo e a vida de aparências são alvos constantes do romance. Até o amor devoto de Jorge é ridicularizado e transformado em sofrimento pela esposa traidora.

Assim, o romance se alinha ao Realismo: a influência que o ambiente exerce sobre as personagens, a irracionalidade ligada à sexualidade (traço presente no Naturalismo) e uma ironia cruel e inteligente.  

O foco narrativo é em terceira pessoa. O narrador é onisciente e o tempo, cronológico (apesar dos flashbacks em que a sonhadora Luísa lembra do casamento e das doces promessas dos primeiros tempo com Jorge e também com Basílio).

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Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras: Um brinde à resistência das livrarias brasileiras

por Katherine Funke*

Será que voltaremos tanto no tempo que livreiros favoráveis à liberdade de pensamento terão de criar um fundo falso nas estantes da loja? É impossível não sair da leitura do Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras, de Ubiratan Machado, sem essa pergunta na cabeça.

O livro traz informações históricas mais do que úteis – inspiradoras – sobre modos de sobrevivência de cem livrarias brasileiras, desde o comércio jesuíta dos séculos 17 e 18 até as mais recentes, como a Livros & Livros, fundada em 1988 e que ainda resiste bravamente aberta dentro da Universidade Federal de Santa Catarina.

Quem já viveu bons momentos em uma livraria vai ser transportado a outros espaços-tempo folheando a publicação. Eu mesma, lendo sobre a Livros & Livros, não posso deixar de ser lançada ao dia em que autografei meu primeiro livro de contos na sua grande loja do centro de Florianópolis, um grande espaço com dois andares, muito bem decorado, infelizmente já extinto. Cada um com suas lembranças – e quantas são, para quem ama livros e livrarias!

Impossível não se apaixonar pela história de cada livreiro. Este manual – que nada tem de “pequeno”, nem no formato, nem na profundidade da pesquisa empreendida pelo autor – está mais para labirinto onde cem quixotes de três séculos se encontram conosco, os quixotes-leitores, do lado de fora do livro.

O método mais gostoso de ler este Pequeno Guia, aliás, é levá-lo para ler em uma pequena livraria da sua cidade, e desfrutar dos muitos causos e dados sentindo o sabor de fazer parte dessa espécie de movimento contracultural chamada loja de livros.

Escolhi uma chamada “Barba Ruiva”,  já no seu terceiro endereço no centro de Joinville, onde divide espaço com uma cafeteira e tem uma parede adornada com a placa “Rua Marielle Franco – Brasil”. Levanto os olhos por um momento e vejo o livreiro, o ruivo e barbado Fernando Koenig, pendurado numa escada para alcançar um volume desejado por uma cliente. Sorrio e volto às páginas impressas em papel pólen, absorta pela leitura.

Labirinto

O guia segue a linha do tempo, linearmente, conforme vai apresentado experiências de livreiros de diversas regiões do território nacional. O autor da obra, Ubiratan Machado, avisa logo de entrada que o guia está incompleto. Mas nem mesmo os mapas e as enciclopédias conseguem dar conta de tudo. Ele explica que se esforçou para abranger livrarias de todos os Estados – mas alguns livreiros não se dedicaram a colaborar com informações para a pesquisa.

Jorge Luis Borges, se fosse Machado, faria uma narrativa inversa, talvez: inventaria as histórias ocultadas por esses livreiros e deixaria para o prefácio um resumo da pesquisa informativa. Mas a Ubiratan Machado cabe a paixão pelo detalhe, pelo dado histórico, checado, apurado, contrastado com depoimentos & notícias de jornal, e a isso também é preciso amar e agradecer com o mais profundo respeito, em tempos de apagamento e constante reescrita da História.

Por causa da pesquisa de Machado, ficamos sabendo que interessados em comprar livros marxistas ou de filosofia durante a ditadura, em Belém (PA), tinham uma alternativa combativa na livraria Jinkings. Seu proprietário a fundou em 1965, depois de ter passado quatro meses encarcerado por ordem militar. Raimundo Jinkings, desafiando o regime, criou uma estante com fundo falso para atender às encomendas consideradas subversivas pela censura.

O autor conseguiu levantar não só detalhes sobre a rotina das lojas, como também relacioná-los com o contexto político e social das fases de abertura, desenvolvimento e, às vezes, do fechamento das livrarias selecionadas para compor o guia.

Assim, ele informa que o dono da rede Nobel de Livrarias veio para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, direto da Itália. Cláudio Milano se fixou em São Paulo, em 1943, e depois de algum tempo vivendo como encadernador, passou a distribuir livros. E também ficamos sabendo de um folclore vigente a respeito de um truque de Henfil e sua turma mineira em Belo Horizonte, nos anos 1960: entrar na livraria Itatiaia com as pastas escolares infladas de ar para sair de lá com as pastas cheinhas de volumes surrupiados…

O cuidadoso trabalho de edição da obra faz com que cada livraria seja apresentada com seu selo ou logo, e algumas imagens histórias. Impossível não passar alguns minutos detida pela fotografia da página 156, que retrata um evento dentro da livraria Brasiliense.

Sem dúvida, este livro é um presente à inteligência e um brinde à resistência de livreiros, editores, escritores e leitores do Brasil. Em tempos de fechamento de livrarias e de muitas mudanças no âmbito governamental do país em relação à educação, arte e cultura, o Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras cristaliza o amor ao saber com um cuidado inigualável.

 * Mestre e doutoranda em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Conheça outras obras de Ubiratan Machado

“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê


 
*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Figurações do Oitocentos: literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus

Por: Carina Marcondes Ferreira Pedro*

O livro Figurações do Oitocentos, organizado por Paulo Motta Oliveira, coordenador do Grupo de Estudos Oitocentistas da Universidade de São Paulo, contém ensaios que discutem a literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus. O leitor poderá saber mais sobre o trabalho de autores como Émile Zola, Abel Botelho, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar e Jane Austen. Os ensaios foram divididos no livro em duas partes: “Entre Tempos e Culturas”, a primeira, e “Religião, História e Crítica”, a segunda.

A primeira parte inicia-se com o ensaio “Émile Zola e Abel Botelho: Dois Olhares, Distintas Nações”, de autoria de Paulo Motta Oliveira. Como recorte, Oliveira seleciona os romances “A Besta Humana” de Zola e o “Barão de Lavos” de Botelho para analisar as realidades das classes sociais de seus países. Nessa comparação, o autor encontra uma forte classe dominante na França e a ausência da mesma em Portugal.  O segundo ensaio “As viagens de Adelbert von Chamisso: Da Literatura à Ciência, da Alemanha ao Brasil”, de Karin Volobuef, trata da obra de Chamisso, autor pouco conhecido no Brasil, embora tenha tido uma breve passagem pelo país. A ensaísta observa que a narrativa do autor é rica e instigante, cheia de expressões poéticas, ao mesmo tempo em que é fluente e objetiva, como a de um homem da ciência ao narrar as intempéries vivenciadas em viagens marítimas.

O terceiro ensaio “As Primeiras Impressões são as que ficam? Jane Austen Retorna ao Cinema”, de Carla Alexandra Ferreira, aborda apagamentos ou relativizações que a obra de Austen sofreu ao ser adaptada para o cinema nos anos 2000. Apesar de alguns pontos fortes do filme “Orgulho e Preconceito”, como o reforço das diferenças sociais que existiam no contexto histórico de Austen, a obra cinematográfica celebra o romance em um nível muito além do apresentado pela escritora em seu livro. Daí a necessidade de situar historicamente temas como o casamento e o amor na obra de Austen.

Coração, Cabeça e Estômago, obra de Camilo Castelo Branco

A ensaísta Flavia Maria Corradin aborda no quarto ensaio “Camilo Castelo Branco Revisitado pela Moderna Dramaturgia” a obra desse autor, considerado o mais importante do romantismo português, por conta de sua originalidade. De acordo com a ensaísta, a intertextualidade está presente nas paródias, estilização e paráfrases de Branco. O último ensaio da primeira parte do livro, de autoria de Renata Soares Junqueira, “Máscaras, Transmutações e Outras Formas do Duplo no Moderno Teatro de Branquinho da Fonseca” diz respeito a esse autor, considerado um dos grandes modernistas portugueses, não somente nas produções literárias, contos e novelas, como também nas obras teatrais. Em suas ficções, a narrativa é marcada por poesia em prosa com personagens que incorporam princípios do romantismo, como o individualismo obsessivo.

 

Na segunda parte do livro, os dois primeiros ensaios discutem a questão da religião na sociedade oitocentista. O primeiro “Cristo Revisitado”, de Aparecida de Fátima Bueno, retoma a obra de Eça de Queiroz, analisando a crítica severa do autor à Igreja Católica do século XIX, com destaque para o romance A Relíquia. Queiroz apresenta um Cristo dessacralizado, que não esconde seus atos falhos, o oposto da visão institucional transmitida aos fiéis pela Igreja.

Eça de Queirós

A obra de Eça de Queiroz continua sendo analisada no segundo ensaio pela perspectiva do orientalismo, mas dessa vez acompanhada pela obra de Machado de Assis. De autoria de Osmar Pereira Oliva, o ensaio intitulado “Eça e Machado e as Reescritas do Livro de Gênesis” destaca em Eça de Queiroz a crítica severa ao clero e a adoção da teoria darwinista, a partir da releitura do Livro de Gênesis. Já em Machado de Assis, a análise da releitura do Livro de Gênesis contribui para identificar a visão deste autor sobre o Oriente, visto que a Bíblia é um texto “paradigmático da cultura oriental” e fundamental nas sociedades ocidentais.

No terceiro ensaio “Quando o Medo Vence o Amor. O Estabelecimento do Domínio Filipino em Oliveira Martins”, de Patrícia Cardoso, é discutida a presença do sebastianismo na obra do historiador Oliveira Martins, que o considera um fenômeno cultural lusitano. Tal fenômeno é utilizado para dar sentido ao passado em seus romances, como em “Febo Moniz”, em que o discurso historiográfico é permeado pela ficção. O quarto ensaio “Gonçalves Dias e a Burocracia Imperial: Favores e Afrontas”, de Wilton José Marques, trata do reconhecimento de Gonçalves Dias como um dos grandes intelectuais do Império e, simultaneamente, rastreia sua inserção no funcionalismo público do segundo reinado do Brasil. Dias queria ser reconhecido como poeta nacional pelos seus méritos literários e não pela via da “lisonja fácil”. A temática indianista é presente em seus poemas, que possuem um tom nacionalista e elementos “de uma nova escola literária”, como foi reconhecido por José de Alencar, seu contemporâneo.

Iracema, de José de Alencar

Iracema, de José de Alencar

O quinto ensaio “Papel da Crítica na Fixação do Indianismo: o Caso José de Alencar”, de Mirhiane Mendes de Abreu, discute o papel do escritor José de Alencar como crítico literário de indianistas contemporâneos, com destaque para as “Cartas sobre a Confederação dos Tamoios”, em que analisou o livro de José Gonçalves de Magalhães. O ensaio ainda destaca outros importantes debates literários com participação de José de Alencar, cuja temática principal era o problema linguístico na literatura local, considerado um dos aspectos controversos da instituição da literatura nacional brasileira. A presença da categoria nacional na retórica oitocentista é o destaque do sexto ensaio, “Retórica do Romantismo”, de Eduardo Vieira Martins. O ensaísta discorreu sobre cinco tratados de retórica: Lectures on rhetoric and belle letres, de autoria do escocês Hugh Blair, “Lições Elementares de Eloquência Nacional” e “Lições Elementares de Poética Nacional” do português Francisco Freire de Carvalho, “Lições de Eloquência Nacional” do padre pernambucano Miguel do Sacramento Lopes Gama e os “Elementos de Retórica Nacional”, de Junqueira Freire. Para Martins, a análise da retórica oitocentista permite uma releitura do romantismo a partir dos valores que orientavam as produções literárias da época, evitando o anacronismo na crítica realizada nos dias atuais.

 

* Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

“Jogo de Palavras”: Dobras da Vida

Renato Tardivo*

Jacó Guinsburg, professor emérito da Escola de Comunicações e Arte da USP, está entre os maiores críticos de teatro do Brasil. É, também, um importante editor, destacando-se pela veiculação de obras de vanguarda, comprometidas com a disseminação de reflexão e cultura.

Qual não é, então, a grata surpresa ao deparar com Jogo de Palavras, livro que reúne uma série de poemas de Guinsburg, escritos entre 2012 e 2018?

Aos 97 anos, o autor revela (e talvez descubra) mais uma habilidade, com poemas que conjugam a um só tempo a maturidade de quem já viveu quase um século e o vigor de quem está começando, como lemos em “Visão”: “Do fundo negro da cidade / ele quis vislumbrar / a luz branca da verdade, / mas só lhe foi dado ver / o céu opaco da cidade”.

Ao atravessar temas como política, memória e questões existenciais, a principal marca dos poemas é o jogo de opostos, “as dobras da vida”, que Guinsburg conduz com humor, densidade e, sobretudo, habilidade.

Não há escapismo (a não ser, ironicamente, para a Pasárgada-Brasília) nem niilismo, mas uma sensatez profunda, o que não amortece a potência “da sombra” entre um verso e outro, uma palavra e outra, em suma, um extremo e outro: “Da sombra noturna / de meus desejos / desprendeu-se / a imagem soturna / dos rostos / que não revejo”.

Não por acaso, os poemas têm ritmo, movimento. Os versos procuram o amanhã, a história, a verdade, a própria poesia: “[…] / na esperança do amanhã / desfeito no amanhecer” (em “Sempre”); “[…] / é a nossa história / que a história / historia…” (em “História”); “[…] / Qual verdade? / A verdade da verdade. / É verdade?” (em “Verdade”); “[…] / o escritor / escreve / o inscrito / no circunscrito / do escrito.” (em “Escritor”).

Com efeito, o jogo, circularidade reversível, não tem fim: em perspectivismo infinito, a vida ramifica-se em dobras.

 

Conheça a obra de Jacó Guinsburg

**Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, dos livros Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp), Cenas em Jogo – Literatura, Cinema, Psicanálise e do volume de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê).