Escritas do DesejoEscritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise (Ateliê Editorial) é o tipo de livro indispensável àqueles que se interessam pela relação – fecunda e ambígua – entre literatura e psicanálise. Mas será útil também ao leitor que, interessado em cultura e ciências humanas, se dispuser a viajar, isto é, a lançar-se em busca do novo.

Onze são os ensaios que compõem o volume – organizado por Cleusa Rios P. Passos e Yudith Rosembaum. Além das organizadoras, assinam os capítulos: Adélia Bezerra de Menezes, Leda Tenório da Motta, Noemi Moritz Kon, Camila Salles Gonçalves, Philippe Willemart, Renato Mezan, Leyla Perrone-Moisés, Maria Rita Kehl e Márcia Marques de Morais. Como se vê, autores consagrados.

Conforme escrevem as organizadoras na Breve Apresentação, a maioria dos ensaios “compôs um colóquio sobre „Crítica Literária e Psicanálise‟, organizado em 2008, pelos departamentos de Teoria Literária e Literatura Brasileira da USP”. Talvez por isso, em que se pese a densidade das reflexões, a leitura seja fluida e agradável.

O conjunto, além da Breve Apresentação, é dividido em três partes: A Experiência e o Verbo, A Palavra Encobridora, A Emergência da Palavra. A primeira parte traz ensaios que mapeiam as articulações entre literatura e psicanálise enquanto uma problemática relevante. Vejamos, a propósito, o capítulo de abertura, “A Palavra Poética: Experiência Formante”, de Adélia Bezerra de Menezes. Ao finalizar a reflexão com a análise de poemas de Ferreira Gullar (“Traduzir-se”) e de Adélia Prado (“Arte”), Adélia Bezerra de Menezes é, também ela, inspiradora: “Essa coisa visceral, em que lateja um ritmo, está na imagem da tripa, mas também na do coração: o que o caracteriza, quando pensamos nele, é a sua presença acústica, antes de maisnada: o tum, tum; tum, tum: o pulsar”. Com efeito, tanto a literatura quanto a psicanálise lidam com o ritmo da vida – na e pela palavra.

Noemi Moritz Kon, ainda na primeira parte, habita a “íntima” e “conflituosa” relação entre “a psicanálise e a arte – e a literatura em particular”. Sua reflexão explora desde as ambiguidades de Freud com a figura do artista e a própria arte, até as aproximações e limites entre a psicanálise e a literatura, sobretudo a fantástica, por meio, dentre outros, de Merleau-Ponty, Barthes e Foucault. Escreve Kon: “Penso que, apesar das inclinações de Freud e de seu temor quanto a uma cumplicidade com o trabalho criador do artista, compreendido como anverso do trabalho do cientista que ele pretende prioritariamente ser, o que liga o ato psicanalítico ao ato artístico é justamente a capacidade criadora”.

Se a Parte I procura mapear um campo mesmo de diálogo entre literatura e psicanálise, a Parte II, A Palavra Encobridora, aborda problemas de pesquisa, ou seja, as reflexões são norteadas por uma questão. Sugestivamente, o ensaio que abre a seção, de Camila Salles Gonçalves, dialoga o tempo todo com o texto de Freud “Lembranças Encobridoras” (1899), em companhia, dentre outros, de Theodor Adorno, Isaias Melsohn e Fabio Herrmann. Vale citar o arremate de Gonçalves: “[...] há uma fabricação inconsciente dessa recordação bucólica, que encobre outros sentidos sob sua aparente banalidade. Acompanha um tipo de verdade que a literatura freudiana compõe, ainda que se esmere em demonstrar que o texto está além do princípio do prazer do próprio texto” (grifo meu). Isto é, à ânsia de elevar a psicanálise a um, digamos assim, estatuto de ciência, o pai da psicanálise cai (felizmente) na própria armadilha. Desencobre-se em Freud, a partir de Freud, uma verdade mais afeita à literatura do que à ciência.

A Parte III, A Emergência da Palavra, apresenta análises de poéticas, conjunto de obras de um autor, ou um conto literário, sempre na interface da literatura com a psicanálise. No ensaio “Bovarismo e Modernidade”, Maria Rita Kehl vale-se da expressão fundada a partir de Emma, célebre personagem do romance Madame Bovary, de Flaubert, para refletir o bovarismo nacional presente em Machado de Assis e a permanência desses traços no contexto

contemporâneo. Mas não nos apressemos. O que seria “bovarismo”? Leiamos com a psicanalista: “O termo já se incorporou ao senso comum, mas vale lembrar que é uma expressão cunhada pelo psiquiatra francês Jules de Gaultier em 1902 [...] a fim de designar „todas as formas de ilusão do eu e insatisfação, desde a fantasia de ser um outro até a crença no livre-arbítrio‟”. Mas, como nos lembra Kehl, a possibilidade de tornar-se um outro, nas sociedades capitalistas, está inscrita no laço social. O problema está colocado, portanto. E, se “tornar-se um outro implica reconhecer o caráter simbólico da dívida para com os antepassados, de modo a não se deixar capturar pelas armadilhas da culpa”, o problema transforma-se em “uma das figuras mais expressivas da subjetividade moderna”, podendo ser encaminhado, também, pela psicanálise.

E muito mais poderia ser dito a respeito destes e dos demais ensaios de Escritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise. Se, como diz Lacan a partir de Hegel, “o desejo é o desejo do outro”, a leitura dessas “escritas” irá, com efeito, nutrir o leitor desejoso por compartilhamento – um dos alimentos de que mais necessitamos.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Arte, Dor - João A. Frayze-PereiraO livro Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise (Ateliê Editorial), de João A. Frayze-Pereira, foi recentemente lançado em segunda edição – revista e ampliada (a primeira edição é de 2006).

João Frayze é psicanalista, livre-docente pela USP e crítico de arte. Arte, dor reúne uma série de trabalhos que fazem do autor um dos nomes mais importantes – talvez o maior deles – em Psicologia da Arte no Brasil.

Os capítulos, embora independentes entre si, compõem uma tese; tese que se desenvolve pelo negativo, isto é, pela incansável desconstrução da realidade ingênua, de conceitos cristalizados, em suma, por aquilo que o fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty, um dos autores mais apreciados por Frayze-Pereira, denominava “questionamento da fé-perceptiva”. Não por acaso, o capítulo final intitula-se “Inconclusão: psicanálise e crítica de arte” (grifo meu).

Mas de que trata o livro?

“Situada entre a Estética e a História da Arte”, a Psicologia da Arte “requer a presença da psicanálise”, uma vez que “a abertura do psicólogo social para a arte dependerá principalmente de sua disposição, como espectador da arte, para introduzir-se nesse campo abissal [...] correndo o risco da vertigem e o da perda de pontos fixos”. Assim, o intérprete, “ao se abrir para o campo das obras”, terá de se haver com “questões de ordem transferencial” e, “consequentemente, comprometer-se”. Daí, segundo Frayze-Pereira, a psicanálise se impor como uma perspectiva necessária dentro desse “jogo interdisciplinar”.

Portanto, como já diz o próprio subtítulo, o livro irá abordar “inquietudes entre Estética e Psicanálise”. Cabe esclarecer, contudo, que muitas são as possibilidades de se inclinar a essa relação. A postura assumida por Frayze-Pereira, tal qual explicitada pelo próprio na Introdução do livro, é a seguinte: “diante do novo, diante de uma obra em processo ou em exposição, isto é, sempre em vias de se fazer e um enigma a nos interrogar, não são a ‘escuta clandestina’ e o ‘olhar oblíquo’ os meios privilegiados para referenciar nas margens ou no bastidor, nas lacunas ou no silêncio, a ‘potência do irrepresentável’? (os termos entre aspas [incluídos por Frayze-Pereira] são de Murielle Gagnebin)”. Continua o autor: “é o não-dito (ou o não-visível) que é capaz de revelar criativamente uma história ou uma sucessão de acontecimentos no decorrer da análise de uma obra. E nesse processo de instauração de uma leitura é o ponto de vista do espectador que paulatinamente se infiltra no campo da criação, uma vez que a obra também se faz tributária do olhar que a interroga”.

Para trabalhar com essa implicação entre psicanálise e arte, o autor recorre inicialmente ao já citado Merleau-Ponty e a Michel Foucault. É a partir – e por meio – desses dois autores que Frayze-Pereira nos apresenta uma leitura densa e crítica da psicanálise, que é atravessada o tempo todo pelo paradoxo implicado na relação arte-dor, inquietação primeira e última deste belo trabalho.

Além da Introdução e da Inconclusão, o livro é divido nas seções Problemáticas, Fundamentos e Análises. Ainda, a publicação conta com o prefácio de Jacques Leenhardt, o prefácio à segunda edição de Camila Salles Gonçalves – ótima porta de entrada às reflexões que se seguem – e, ao final, há o posfácio de Maria Helena Souza Patto, que também assina a orelha do livro, texto que mapeia historicamente a trajetória de João Frayze, dando luz à poesia inerente ao percurso trilhado pelo autor.

Nas Problemáticas, Frayze-Pereira delimita o campo a partir do qual ele irá abordar a complexa relação entre arte e psicanálise. O autor trabalha conceitos-chave –psicanálise implicada, experiência estética, entre outros – sempre comprometido com a História da Arte e com a entrada desta no campo das investigações psicológicas (e vice-versa): “A aproximação entre a Arte e a Psicologia não é um movimento recente. Muito anterior ao próprio advento da Psicologia como disciplina científica, na verdade, foi a própria Estética que se abriu à Psicologia que estava por vir”.

A seção Fundamentos reúne reflexões teóricas – problemas de pesquisa – que decorrem das problemáticas desenvolvidas anteriormente. Cabe destacar, aqui, o capítulo que fecha os Fundamentos: “O corpo como obra de arte: a unidade do múltiplo”. A temática da correspondência das artes e da unidade dos sentidos, do meu ponto de vista, é das mais relevantes nas discussões e análises empreendidas por Frayze-Pereira, presente tanto nas poéticas mais espinhentas – a análise sobre Van Gogh ou sobre a banalização do mal na arte contemporânea, por exemplo – quanto na “generosidade e gratidão” da artista Amélia Toledo, ensaio que encerra a seção Análises.

Vale dizer, foram incluídas duas análises na segunda edição do livro: “Arte e inveja na Era do Vazio”, questão extremamente atual na clínica psicanalítica e no ambiente das artes, e “Arte-crítica: Louise Bourgeois”, artista que mantém estreito vínculo com a psicanálise mas que, nem por isso, revela o enigma contido em suas produções, mas, em direção oposta, “Bourgeois figura entre tais artistas que assimilam a função da crítica em suas propostas plásticas”. Ao “subverter o instituído”, Louise Bourgeois, segundo João Frayze, antecipa historicamente “certa tendência da psicanálise contemporânea para a qual o fazer psicanalítico não é uma operação de descoberta de conteúdos psíquicos ocultos sob a conduta manifesta dos indivíduos, mas o processo interpretativo que Fabio Herrmann define como ruptura de campo. Trata-se de um processo, aparentado à arte, que interroga a lógica que inconscientemente fixa os modos do indivíduo ser no mundo, desconstruindo aquilo que se apresenta banalizado e consolidado na sua existência”.

Quanto às inconclusões, cada qual que extraia as suas. Arte, dor – inquietudes entre estética e psicanálise é um compêndio sobre esse tema, certamente útil a artistas e psicanalistas, mas também a leitores interessados. É que, em que se pese a densidade dos ensaios, a linguagem é fluida, límpida, e evita, com sucesso, certos academicismos que mais se prestam a afastar o leitor do texto. Arte, dor, ao contrário, captura o leitor e, sendo suficientemente bom, permite que ele se perca em suas (entre)linhas, para – quem sabe? – poder crescer em meio ao desassossego do doloroso caminho rumo à generosidade e gratidão.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte (IP-USP); autor do livro de contos Do avesso (Com-Arte) e de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp).

Fonte: Revista Brasileiros

Duplo Canto, de François Cheng

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Fonte: O Estado de S. Paulo | Sabático

Orlando Furioso no Estadão

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Filme "O Perfume", baseado no romance de Patrick Süskind

… as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.

Patrick Süskind

O Perfume faz parte daquela categoria de livros devoráveis em poucas horas. Seu autor, Patrick Süskind, nascido alemão e tendo estudado História Moderna e Medieval na Alemanha e França, escreveu roteiros de televisão e contos, e O Perfume é seu romance de estréia. A adaptação fílmica, de 2006, levou a direção do também alemão Tom Tykwer e dois prêmios no European Film Awards (Melhor Fotografia e Prêmio de Excelência, se referindo à cenografia).

Süskind narra com maestria a história de Jean-Baptiste Grenouille, nascido em meio à decadência e sujeira das feiras de Paris no século XVIII. O bebê, expelido do útero da mãe do mesmo modo que esta arranca as tripas do ventre do peixe, é deixado à calçada. Logo, é revelado aos leitores o talento de Grenouille. Seu olfato vai além dos parâmetros humanos, sendo capaz de identificar cada nota e fragrância dos mais variados perfumes; de sentir cheiros aparentemente inexistentes como o do vidro; de percorrer quilômetros reconhecendo o que estiver no caminho. Contudo, Grenouille não possui cheiro próprio, tornando-se praticamente invisível em certas situações. No decorrer da história o dom de Jean-Baptiste permite que ele se insira no mundo dos perfumistas e, com isso, sua obsessão começa; ele está decidido a criar o melhor perfume do mundo. Um pequeno detalhe faz do protagonista um serial-killer. A criação de Grenouille, o melhor perfume já produzido na história, tem em sua essência a morte de treze mulheres.

As passagens no livro que detalham a busca do protagonista por odores inalcançáveis são poeticamente descritas. Formam-se imagens esvoaçantes e sensuais na mente do leitor, que o induzem a torcer a favor do assassino, o levam ao mundo olfativo de Grenouille, o seduzem. A sensibilidade de Süskind ao escolher as palavras encanta. Sua literatura é tão apaixonante, que foge da narração típica de seriais killers, provocando certa cumplicidade entre assassino e leitor, fazendo este torcer pelo sucesso daquele.

No longa-metragem Jean-Baptiste Grenouille é interpretado por Ben Whishaw, que transborda competência e evoca empatia do público, do mesmo modo que o livro o faz. Ainda há Dustin Hoffman, interpretando Giuseppe Baldini, perfumista mestre de Grenouille, e Alan Rickman, no papel de Antoine Richis. A voz do narrador – que é um ótimo recurso para introduzir o espectador à história, uma vez que o ato de narrar remete a tempos anteriores – é de John Hurt.

A versão de Tykwer transmite muito bem o sentimento do enredo original. Com atuações belíssimas, desperta compaixão pelo protagonista; com a fotografia poetiza as imagens de forma semelhante ao que o autor faz com as palavras; e com sequências de cortes bruscos e rápidos movimentos de câmera, leva o espectador a percorrer o ambiente juntamente com o perspicaz instinto olfativo de Grenouille. Esse último recurso é utilizado para mostrar o nascimento de Jean-Baptiste e permite um belíssimo jogo entre a vinda do protagonista e a podridão e decadência das feiras – e da sociedade – naquela época. Parece ser essa sujeira intragável que desperta o primeiro choro do assassino. Sabiamente, o longa-metragem ajusta as cores conforme a sensação de odor que o ambiente deve transmitir. Nas cenas que descrevem as ruas de Paris prevalecem os tons escuros, contrastando com o ambiente interno das perfumarias, com cenário vermelho e dourado, representando a sensualidade e opulência das classes superiores.

A surpresa maior fica por conta de um desfecho surpreendente, que não poderia ser mais simbólico para o protagonista. Ambas as obras são dotadas de delicadeza e sensibilidade, de excelente ritmo de narrativa, envolvendo leitores e espectadores o tempo todo. Romanticamente, filme e livro despedem-se através do narrador de forma poética e inesperada; um verdadeiro grand finale.

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann

Fonte: ICnews | Isabel Furini

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Lição Aproveitada - Modernismo e Cinema em Mário de AndradeQuem gosta de cinema não só de assistir a filmes, mas de entender o fascínio que ele exerce sobre algumas cabeças brilhantes, como no caso de Mário de Andrade, vai deleitar-se com a leitura de A Lição Aproveitada, (Ateliê, 352 p., 2011), especialmente estudantes e profissionais das áreas de Letras, Cinema e Artes em geral, que desejem entender o início do cinema no Brasil e a influência que exerceu sobre a literatura. João Manuel dos Santos Cunha, professor na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura Comparada (UFRGS), pós-doutorado em Literatura e Cinema (Sorbonne-Nouvelle, Paris III), realizou uma longa pesquisa que revela o impacto que a narratologia cinematográfica exerceu sobre Mario de Andrade e seus contemporâneos. Mário de Andrade escreveu na revista Klaxon (N. 1, p. 2, maio de 1922): “A cinematografia é a criação artística mais representativa de nossa época. É preciso observar-lhe a lição.”

João Manuel dos Santos Cunha fez uma densa pesquisa e conseguiu organizá-la de maneira que a linguagem e a didática ficaram muito claras e agradáveis para o leitor. Ele segue os passos de Mário de Andrade e mostra também o caminho do cinema desde o seu início. É interessante conhecer a visão que Mário de Andrade foi desenvolvendo numa época em que o cinema era só visual, sem som e arte muda.

No começo dos anos trinta, iniciou-se o cinema falado. A genialidade de Mário de Andrade permitiu-lhe ver a potencialidade da voz narrativa cinematográfica, considerou-a “arte infante”, pois ele entendeu que essa arte se desenvolveria com o tempo.

Em 1915, O Nascimento de uma Nação, (The Birth of a Nation, Griffith, USA, 1915), coloca em cena um personagem que se converteria em símbolo do cinema. Esse personagem é Carlitos, de Charles Chaplin. Esse personagem foi considerado peça chave para a cinematografia avançar como arte narrativa.

Após o impacto da Semana da Arte de 1922, é lançada a revista Klaxon, para refletir sobre arte. Andrade tinha a capacidade de refletir sobre as manifestações culturais de sua época. Entre os modernistas, ele se destaca na produção de crítica cinematográfica, numa época em que essa crítica estava nascendo.

“Como intelectual lúcido que busca refletir sobre as manifestações da cultura de seu tempo, Mário vai abordar o cinema como crítico, a partir de sua experiência como espectador constante nas salas de cinema e como teórico da arte moderna, utilizando o cinema como um referencial, ‘a criação mais representativa’ de sua época.”

O professor João Manuel dos Santos Cunha afirma que aprender uma lição não é repeti-la, mas recriá-la. Carlitos foi um mestre do cinema, e aqueles que o admiravam, como Mário de Andrade, entenderam e recriaram a visão narratologica desse personagem. Mário não era favorável à copia, aos artifícios, mas procurava a vida, o ser do personagem. Para ele, romance e cinema tinham suas próprias vozes.

O autor revela-nos um Mário de Andrade muito humano, um homem com visão de futuro, que entendeu a capacidade do cinema de contar histórias. E esse é também o objetivo do romance, contar uma história, mas romance e cinema têm linguagens, técnicas e meios diferentes.

Mario de Andrade argumentou contra o fato de forçar a “intenção da modernidade em detrimento da observação da realidade”. E a literatura, o cinema, a pintura e a escultura exigem observação do mundo, pois falam da realidade humana.

O livro A Lição Aproveitada leva-nos pelo mundo da literatura e do cinema e ajuda-nos a conhecer melhor a visão de Mário de Andrade. Vale a pena conferir.

Filme Lavoura Arcaica do romance de Raduan Nassar

Há diferenças significativas entre as transições de tempo e espaço em um livro e em um filme. Lavoura arcaica (1975), romance de Raduan Nassar, é uma prosa poética que flui de forma assombrosa. Com efeito, é possível que apenas uma palavra sirva de ponte entre tempos longínquos – lugares distintos.

A narrativa, de atmosfera trágica, consiste na volta de um filho para casa, onde houve uma relação incestuosa com uma das irmãs. André, o narrador-personagem, costura os estilhaços que assolaram sua família em texto. É o que ele também realiza, dessa vez nas condições de narrador e personagem do filme homônimo (2001, dir. L. F. Carvalho), ao voltar o olhar àquilo que viveu e costurar os flashes de memória em um fluxo mais ou menos contínuo.

Ao cortar e costurar as cenas na montagem, o cineasta Luiz Fernando Carvalho o faz identificado com o olhar do protagonista da trama. Porque, no texto de Raduan Nassar, o narrador-personagem assume a seguinte condição: ao mesmo tempo em que rememora o drama, ele também o contempla, digamos assim, de fora. André busca, por meio do olhar, constituir-se enquanto sujeito.

Olhar e discurso se fundem em sua trajetória. É a posição privilegiada do narrador que lhe permite montar as sequências de imagens e, ao mesmo tempo, são essas imagens que disparam a sua narração. André reconstrói a sua história ao mesmo tempo que dirige o olhar àquilo que viveu.

“O eu futuro se ilumina num eu passado”, eis o “movimento instantâneo e incessante” chamado presente, diz Jean Epstein. E é só no cinema que ele pode ser assim representado, pois, como nos lembra Merleau-Ponty, é a sucessão de imagens que cria a nova realidade.

Em Lavoura arcaica, a reciprocidade entre o discurso e o olhar contemplativo parece ser a correspondência, no filme, para o fato de o protagonista, ao transitar de uma margem à outra do romance, confundir-se com essas margens. Nestas, trágico e lírico se fundem; cada palavra é densamente carregada de sentidos, e André conta a história, a despeito do trágico desfecho, ou por causa dele, muito saudoso. Sua trajetória é a própria passagem do tempo: a passagem do tempo é a sua trajetória.

Irrecuperável e imprescindível, o tempo pesa sobre André com toda a sua intensidade. O exercício de composição da narrativa vai implicar que ele reviva, ou melhor, viva pela primeira vez de novo a sua história. Em última instância, os estilhaços dolorosos de que é feito Lavoura arcaica são os mesmos que, ao constituírem o narrador-personagem, constituem-se também por ele. A verdadeira lavoura, então, é o campo de batalha no qual digladiam pai e filho, o velho e o novo, livro e filme.

Fecundar essa lavoura é empreender ressignificações: lançar-se de volta ao porvir. A realização amanhã daquilo que (não) houve ontem. Mais ou menos como os contornos de uma fotografia, sempre a revelar com precisão onde estávamos, sem contudo jamais dizer onde estamos. Ou mesmo uma sucessão delas, em 24 quadros por segundo, que no melhor dos casos dá conta de um movimento sempre fugidio.

Colunista de Cinema e Literatura Renato Tardivo

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Edição monumental da Divina Comédia, uma das obras capitais da literatura, recupera as ilustrações originais do pintor renascentista Sandro Botticelli

Fonte: Cult

Divina Comédia, de Dante Alighieri, na Cult

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Lincoln Secco descreve as forças em confronto no PT e analisa sua trajetória

Fonte: Carta Capital

Carta Capital resenha livro História do PT, de Lincoln Secco

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Filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), de Stanley Kubrick

O filme Laranja Mecânica é um dos mais influentes do currículo do diretor Stanley Kubrick. Adaptado da obra homônima, de Anthony Burgess, o filme de 1971 traz Malcolm McDowell, com 28 anos, como protagonista em uma atuação brilhante. Ele interpreta Alex, personagem delinquente que causa repulsa por escandalizar a Inglaterra futurista e estranhamento por falar nadsat – dialeto criado por Burgess baseado no russo, inglês e cockney. O nome original, em inglês, A Clockwork Orange, deriva da expressão cockney “as queer as a clockwork Orange”. A palavra queer, usada para designar homossexuais, é também sinônimo de estranho.

Anthony Burgess estreou como escritor aos 39 anos e tem, entre suas obras, ficção, não ficção, peças de teatro, biografias e uma introdução à linguagem de James Joyce. Laranja Mecânica, seu décimo oitavo livro, foi publicado na Inglaterra em 1962, época em que o autor esteve inclinado a escrever mais do que o habitual em razão de se preocupar com o bem estar da esposa após sua morte. Ele recebera, em 1960, a notícia de que havia pouco tempo de vida em razão de um tumor cerebral. O diagnóstico era de somente um ano restante. Neste ano, o autor escreve 5 livros e meio. O “meio livro” era Laranja Mecânica. Fez-se erronia a previsão, Burgess termina a obra e vive até 1993.

Tanto livro quanto filme são ambientados em uma Inglaterra futura, onde os níveis de violência alcançam o intolerável, sendo o governo igualmente desumano em suas medidas de repressão. A elaboração do vocabulário nadsat, falado por Alex e seus amigos, é parte do caráter científico-ficcional da obra. Algumas edições vêm acompanhadas de glossário, algo que o autor não aprovava. Segundo Burgess, faz-se desnecessário seu uso para a compreensão da obra. O objetivo era causar estranhamento. De fato, as incógnitas literárias se transformam em um recurso interessante que acentua a violência já existente. Provocam a mesma sensação que cenas de “violência velada” em filmes. Vem-me à mente um exemplo: em Cães de Aluguel, dirigido por Quentin Tarantino, há a cena em que ocorre o famoso corte de orelha. É mostrado ao espectador o início do movimento, que dá a ele a dica do que irá se passar, criando um ambiente de tensão. A câmera então se distancia do desafortunado e do torturador e o espectador fica às cegas – com a câmera focada na parede – imaginando o que se passa. Por fim, a sonoplastia se encarrega de provocar em nós reações que só o cinema pode despertar. O grande elemento que torna essa cena clássica é essa “violência escondida”, que deixa metade do trabalho à imaginação do espectador e, consequentemente, ao seu repertório pessoal, que aumenta o seu grau de envolvimento com a obra.

Paradoxalmente, esse distanciamento da violência é o que a torna mais real. É o que difere um elegante filme violento de um simples filme de ação com sangue. Na literatura a imagem não é trabalhada da mesma forma; está não só suscetível à imaginação do leitor, como depende dela. E é exatamente esse recurso que Burgess intensifica com o uso dos neologismos.

No filme de Kubrick, assim como na cena de Tarantino usada como exemplo, a música é importante intensificador da estética da violência. Cena clássica aquela em que Alex agride um senhor ao mesmo tempo em que canta Singing in the Rain. As belíssimas músicas de Ludwig Van Beethoven possuem um papel de peso junto à mente ultraviolenta de Alex. Essa característica musical do personagem é um dos aspectos mais bem trabalhados na tradução do livro ao filme. Neste, é impressionante como a violência parece ser algo comum e acessível. A facilidade com que os delinquentes em questão praticam atos violentos, enquanto os espectadores – esperamos – se sentem apreensivos ao ver as cenas, é o elemento chave durante o filme. A discussão aqui, trazida do livro, é o ponto máximo em que a violência pode chegar.

O filme foi fortemente criticado pelo caráter de extrema violência e, a pedido do diretor, irritado com as críticas, foi retirado de veiculação na Inglaterra. Ainda foi proibido em diversos países e, a respeito disso, Burgess declarou “mais vale optar pela violência do que não optar por nada”.

A adaptação de Kubrick se baseia na edição americana do livro Laranja Mecânica, que contém o glossário – a contragosto do autor – e tem cortado o último capítulo. O motivo alegado foram “razões conceituais”; uma vez que o capítulo em questão é mais otimista em relação ao restante da obra. Nas edições inglesas e nas traduções para outros idiomas – inclusive nas brasileiras – o capítulo final é mantido. Essa adaptação ao filme não prejudicou o trabalho de transposição da obra, mas deixou-a mais interessante. O fim dúbio da versão cinematográfica imortaliza o olhar penetrante de Malcolm McDowell e questiona o tratamento que Alex recebe do governo. Seus métodos, sua eficácia, seu propósito. É possível recuperar mentes ultraviolentas em uma sociedade em que impera a ambição, o medo e a repressão?

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann