Renato Tardivo

O Fantasma e o Autor

Renato Tardivo

Untitled

1992. 7 amigos recém-saídos da adolescência se encontram em uma casa de campo. A literatura atravessa seus ideais. Dois deles, Felipe (Caio Blat) e Rafa (Lee Taylor), escrevem seus livros e aconselham-se um com o outro. Em meio a drogas e sexo, cada um dos 7 amigos escreve uma carta para si mesmo e juntam todas em uma caixa que enterram. O pacto é desenterrá-las e lê-las uns para os outros 10 anos depois.

Um evento traumático marca a transição para os 10 anos seguintes. Em 2002, lá estão os amigos na mesma casa de campo dos pais de uma delas, Silvana (Maria Ribeiro), em seu primeiro reencontro após o passado trágico. É nesse fim de semana que se passa Entre Nós, filme dirigido por Paulo Morelli e que esteve em cartaz no circuito nacional no primeiro semestre deste ano.

Completam o elenco Carolina Dieckmann, Paulo Vilhena, Martha Nowill e Julio Andrade. Em que se pesem a boa direção de fotografia e as frequentes intervenções da trilha sonora com ares de suspense, a aposta da trama gira em torno dos conflitos vividos entre as personagens.

O roteiro trabalha com uma informação fundamental que, embora não seja explicitada no início, fica evidente para o espectador – mas não para as personagens. E o espectador (em 2014) é privilegiado também ao saber, por exemplo, que a seleção brasileira foi a campeã do mundial de 2002 e que a corrupção no país não acabou com a eleição de Lula – questões que ficam em aberto em uma das conversas dos amigos.

E esta é a chave para interpretar o filme: o suspense não se concentra no que vai ser, mas no que já foi. “Não sei o que é pior: não realizar nenhum sonho ou realizar todos”, diz Cazé (Julio Andrade), sintetizando o dilema que os assombra. Ganhar é perder, falar é calar.

O passado, morto e enterrado – mas também à iminência de vir à tona –, é o que pode promover fissuras, causar novos traumas, atualizar a culpa. A palavra – soterrada – é “memória do futuro”, para utilizar uma expressão do psicanalista inglês W. R. Bion. Entre nós, habita um fantasma – o autor da história. De todas elas.

 

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Perda Reconstruída

Renato Tardivo

Bilhete Seco, de Elisa NazarianO título da coletânea de contos de Elisa Nazarian, Bilhete Seco, inicialmente me chamou a atenção por dois motivos. O primeiro: ocorreu-me o conto “O Ventre Seco”, de Raduan Nassar, texto colérico que diz da relação do narrador com duas mulheres importantes de sua vida. O segundo: “bilhete seco”, se não chega a ser um paradoxo, causa alguma estranheza – bilhetes são molhados por excelência.

Bem, como não raro ocorre, eu poderia me desfazer dessas impressões ao fim da leitura. Mas, ao terminar o livro, foram justamente essas associações que me vieram, evidentemente transformadas por – e acrescidas de – outros elementos, de modo que, pensando agora, essas associações com efeito condensam os dois elementos que mais me capturaram no livro.

Os textos, escritos em prosa, trazem um eu-lírico feminino: questões cotidianas, perdas, relações familiares, angústias existenciais, o amor, o preparo de alimentos e a relação com a natureza são alguns dos temas explorados nas narrativas pela ótica de mulheres – o que não torna a obra panfletária; em vez disso, confere precisão e firmeza aos textos: as narradoras estão inteiras ali, reveladas em cada fresta.

A associação com “O Ventre Seco”, de Raduan Nassar, se confirma na medida em que o lirismo visceral de Eliza Nazarian parece partir do ventre das narradoras. E a tensão entre as palavras “bilhete” e “seco” se resolve justamente em um lirismo enxuto, urdido por frases curtas, orações coordenadas, em suma, por uma escrita seca. Que, não obstante, reconstrói perdas.

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Os Dois Lados da Escuta

Renato Tardivo

Ninfomaníaca, de Lars Von Trier

Ninfomaníaca (volumes I e II), de Lars Von Trier, é uma obra prima necessária e, ao mesmo tempo, sintomática dos dias atuais. Poucos conseguem, como ele, contar bem uma história ao cutucar com força nossas feridas, deixando estrias de sangue na pele – do corpo e da tela.

No primeiro filme, uma mulher, Joe, é encontrada na rua com sinais de espancamento por um homem mais velho, Seligman. Ele a leva para a sua casa e, mais que abrigo e calor, lhe oferece a escuta. Joe trata de reconstruir sua história, tendo Seligman (e o espectador) como testemunha.

O filme alterna o presente, em que Joe conta a história para Seligman em um dos quartos da casa dele, e o passado rememorado em flashbacks. Joe retoma a infância, a descoberta da sexualidade, as primeiras relações, a compulsão sexual na juventude, o reencontro com o primeiro homem.

O volume I termina em aberto, revelando cenas do II nos créditos. A busca incessante por prazer de Joe encontra, ao fim da primeira parte, o esgotamento. E tudo indica que a busca, no limite impossível, se voltará, no volume II, para o seu corpo e potencializará sua degradação.

O equilíbrio entre o tempo da ação e os flasbacks, no volume I, tende à perfeição. Mas, sendo um filme inacabado, há menos riscos. No entanto, as chances de a história se perder, sobretudo por uma possível banalização das cenas chocantes (como talvez tenha ocorrido em Anticristo, do mesmo diretor), não seriam pequenas no volume II.

Não é o que ocorre: a continuação é simplesmente sublime.

Aspectos que ficam em aberto na parte anterior são explorados: a relação (transferencial) entre Joe e Seligman, também ele um ser faltante, o mergulho radical de Joe nas perversões, sexuais e do capital (nesse sentido, o filme lembra O Cheiro do Ralo, produção nacional de 2005 dirigida por Heitor Dhália), sua inadequação às instituições e normas vigentes, as (outras) regras dentro das quais ela pode (incestuosamente) ser mãe.

Ninfomaníaca não é um tratado sobre perversões, nem um raio x da subjetividade de Joe. O filme, na figura da protagonista, é uma metáfora perfeita – e toda metáfora perfeita é, também, um paradoxo – das modalidades de vínculos que, mediados pelo chicote, estabelecemos na contemporaneidade: da cegueira de si e do outro, da destrutividade de todos.

Lars Von Trier, munido de sua conhecida câmera na mão, dos cortes dentro do plano, aspectos finamente trabalhados mas que conferem um caráter documental e despojado à narrativa fílmica, retoma eventos do volume I e os resolve de modo surpreendente. Mais ainda: o volume II, por projeto uma continuação, traz a temática da continuidade – e seus limites – no próprio enredo. Assim, se o filme não se perde na banalização da violência, tampouco se perde na redenção das personagens: a arma não disparar uma vez (desejo inconsciente?) não significa que ela não possa disparar depois.

De um lado da escuta – e do outro.

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

A Transmissão da Palavra ao Imaginário Infantil

Renato Tardivo

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Liev Tolstói (1828-1910), escritor russo, é o célebre autor de Guerra e Paz e Ana Karenina, obras que se tornaram marcos da literatura mundial. Também difundidos são os textos de inclinação anarquista que fazem do autor uma referência importante em estudos sobre política. No entanto, nem tão conhecidos do grande público – embora lidos  por milhões de crianças pelo mundo – são os escritos de Tolstói dirigidos às crianças. O escritor manteve uma escola, em sua propriedade próxima a Moscou, onde lecionava a camponeses pautado pelo princípio da liberdade.

Em Contos da Nova Cartilha­ – segundo livro de leitura (vol. 1), reúnem-se fábulas, contos, raciocínios e histórias verdadeiras escritos por Tolstói que facultam ao leitor a experiência da liberdade para criar, imaginar, pensar. Assim, não se trata de narrativas com uma simples “moral da história”; em outra direção, os textos convidam a pensar sobre seus dilemas, despertando o interesse pelo conhecimento. Com efeito, interessantes e inteligentes, as narrativas não se destinam apenas ao público infantil, mas a todo leitor que se dispuser a ampliar a gama de significações acerca de si, dos outros, do mundo.

Parece atravessar os textos a tese de que aprender é criar e, por extensão, de que não há pensamento ou filosofia que se justifiquem senão aqueles que se questionem continuamente. É emblemático, nesse sentido, o texto “O Tato e a Visão”, em que, no primeiro momento, o autor evidencia a tese de que “os dedos enganam, mas os olhos corrigem”, e, em seguida, desconstrói a verdade absoluta que se poderia encerrar na tese anterior explicitando que também “os olhos enganam, mas os dedos corrigem”. Essa confusão, no limite insuperável, se coloca sempre que há abertura à alteridade, na medida em que não há conhecimento a respeito do outro que o encerre.

Trocas mercantis, relações do homem do campo entre si e com a natureza, a luta pela sobrevivência, variadas são as temáticas das narrativas, que na presente edição são acrescidas de belíssimos desenhos produzidos a partir dos textos por crianças russas dos dias de hoje. Note-se, entretanto, que não se trata de ilustração no sentido de dar aos textos sua justa medida, uma vez que a justa medida das coisas – e da palavra – nunca se atinge, mas é a própria transmissão dos textos ao imaginário infantil que ganha forma também na comunicação que se estabelece no nível das diferentes linguagens – palavra e imagem –, deixando para sempre em aberto (o que provavelmente agradaria Tolstói) a questão: onde mora o saber, no professor ou no aluno?

Acesse o livro no site da Ateliê

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Filme de Formação

Renato Tardivo

Azul É A Cor Mais Quente (La Vie d’Adele – Chapitre 1 et 2, 2013), filme dirigido por Abdellatif Kechiche (diretor do excelente O Segredo do Grão, 2007), vem repercutindo por ter levado a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes e também o prêmio da crítica, mas também pelas cenas de sexo entre duas jovens.

Azul é a Cor Mais Quente, resenha de Renato Tardivo

A trama é baseada em uma história em quadrinhos para adultos, cujo título é justamente Le Bleu Est une Couleur Chaude, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh. Em ambos, uma jovem de 15 anos (Clémentine na HQ; Àdele, que significa “justiça”, no filme) cruza na rua com Emma, uma universitária com cabelos azuis. Àdele, dona de uma beleza enigmática, desperta a atração dos garotos, mas não se interessa por eles e delicadamente vai descobrindo o seu desejo por mulheres. A imagem de Emma entre os transeuntes e sua constante evocação por parte de Àdele (que tem um sonho erótico com a desconhecida) passa a ser emblema desse desejo.

O título original – A Vida de Àdele – é uma referência ao livro La Vie de Marianne, de Pierre de Marivaux, que Àdele lê no começo do filme. Ao longo das quase 3 horas de projeção, Àdele – dos 15 aos 20 e poucos anos – está em cena. Certamente, o período central – e decisivo – desta trajetória é o romance que vive com Emma, aquela que encontrara na rua e que, um pouco depois, reencontra em uma boate gay.

Como nos demais filmes de Abdellatif Kechiche, há aqui uma série de referências da cultura francesa e de suas ex-colônias, que conferem um caráter documental e político à ficção. Há sequências – como as de Àdele já professora de educação infantil – que lembram documentários. Mas isso não contamina a ficção, pelo contrário, reforça a tridimensionalidade das personagens e suas diferentes bagagens culturais, relações familiares, ambições etc.

É nessa medida que a câmera invade a privacidade de Àdele – em todos os âmbitos e não só, mas também, no sexual. Não há, portanto, apelação ou algo que o valha. Não se trata de um filme sobre sexo; trata-se de um filme de formação – sensível, plástico, enigmático. As quase três horas – que equivalem a alguns anos –  passadas em contato com Àdele não são suficientes para que deixemos o cinema convencidos de que a conhecemos. Desconcerto que provavelmente a própria personagem viva.

O azul, de início no cabelo de Emma, estende-se para diversos detalhes do filme – em tomadas internas e externas –, ou seja, para o mundo de Àdele. Que se deixa contaminar, corre riscos, empresta os seus próprios riscos para as telas de Emma, com quem pôde viver algo fundante que nunca tivera. A menina termina mulher. As três horas passam voando. Como a vida. A Vida de Àdele.

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Comunhão em Quatro Tempos

Renato Tardivo

Literatura e Psicanálise

Se Freud não escreveu muito sobre a relação entre literatura e psicanálise – embora usasse e abusasse das citações literárias, se valesse de referências da literatura clássica para a criação de conceitos e o único prêmio que recebeu em vida tenha sido o Goethe –, alguns psicanalistas contemporâneos tomaram essa relação como objeto de investigação. Talvez possamos dividir esses estudiosos em duas vertentes: aqueles que vislumbram na psicanálise uma poderosa ferramenta de leitura e análise de texto (perspectiva iluminista adotada inclusive por alguns segmentos da crítica literária) e aqueles que propõem certa analogia entre as duas áreas e, nesse sentido, não se valem de conceitos psicanalíticos para traduzir uma obra (ou a biografia de seu autor), mas valorizam a psicanálise em seu potencial poético e libertador.

Há, ainda, obras literárias que lidam com aspectos da relação entre psicanálise e literatura. Também aqui podemos encontrar as duas vertentes tratadas acima: há textos, em prosa ou verso, que recorrem à psicanálise de modo didático e ilustrativo, mas há escritores que optam pela entrada da psicanálise pela via da criação, produzindo obras inventivas. Menciono, a esse propósito, Contos do Divã, de Sylvia Loeb, livro que já resenhei neste espaço (leia aqui a resenha). Além disso, como sabemos, é possível vislumbrar potencial literário em alguns relatos clínicos redigidos por psicanalistas. Vale lembrar que: 1) o próprio Freud explicitara nos Estudos Sobre a Histeria (1895) a semelhança entre seus casos clínicos e as novelas; 2) em carta enviada a Arthur Schnitzler (não revelada enquanto Freud era vivo), o pai da psicanálise se dirigira ao escritor como seu duplo; 3) novamente, cabe a menção ao Prêmio Goethe.

Barco e Mar

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita Moutinho

Ocorre que esses textos na interface da psicanálise e literatura são predominantemente escritos da perspectiva do analista. Menos comuns são os textos escritos da perspectiva do analisando. Psicolirismo da Terapia Cotidiana, que reúne excelentes poemas de Rita Moutinho, insere-se nessa vertente. O livro é composto por poemas em versos livres e também por sonetos, tanto o inglês, com os 14 versos unidos, como o que traz quartetos e tercetos separados. A autora declara na Apresentação que os sonetos foram escritos nos anos 2000 e os demais nos anos 80, mas todos os poemas dizem respeito ao seu período de análise (anos 80) e quase sempre dirigem-se ao analista.

Divididos em quatro tempos: “Tempo Nublado”, “Tempo Instável”, “Tempo Parcialmente Nublado Passando a Límpido”, “Céu Quase Limpo com Clarões no Horizonte”, o livro reúne a experiência de uma mulher em análise. Como se vê, trata-se da terapia cotidiana reescrita com psicolirismo – e o título do livro dialoga com Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), texto em que Freud se propõe a apresentar noções básicas de sua teoria.

A transferência, questão central na psicanálise e também nas artes, uma vez que ao entrar em contato com uma obra transferimos emoções e afetos, talvez seja um dos principais elementos do livro. Mas, sem a frieza dos textos teóricos, há uma espécie de resgate visceral da relação transferencial vivida com o analista, que, no início, sustenta a presença da persona lírica. Cito versos de alguns poemas da primeira parte: “Estou dissolvida, sem capacidade de luta, / sem verbalização que organize / o medo, o desconcerto, o dúbio”; “Futuro, nele crer, isso e mais nada”; “Doer, doer de novo / a dor que é passada”; “Ah, quando poderei sã navegar, / se sou a um só tempo barco e mar?”.

Casamento Estranho

Ao longo do livro, conceitos da psicanálise aparecem aqui e ali, mas não são o foco; ocupam um lugar invisível que adentramos porque os versos são endereçados ao profissional cuja escuta é atravessada por eles. O que atravessa o Psicolirismo da Terapia Cotidiana é a palavra, que se refere à palavra, para terminar na… palavra.

Se já não bastasse a qualidade dos poemas, eles ainda se perfazem em uma unidade narrativa: o caminho em direção à alta da paciente. Já perto do fim, mesmo “que não há fim no desfecho”, o “Soneto da Comemoração do Insight” é assim finalizado: “Sermos par na tristeza e na alegria, / metáfora de núpcias: terapia”. Com efeito, Rita Moutinho reconstrói com lirismo esse casamento estranho, em que um “beijo de despedida” é “fraudar as regras” e o sucesso implica separação, tornando público, mesmo que por meio da persona lirica, um processo tão íntimo e fazendo da experiência de separação com o analista uma possibilidade múltipla de comunhão e abertura com os outros: agora, leitores.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

“Se eu não fosse seu amigo, você me roubaria?”

Renato Tardivo

Sofia Coppola, jovem cineasta estadunidense, já se notabilizou por uma forma blasé de fazer cinema. A esse propósito, se em Um Lugar Qualquer (2010) ela exagera no estilo “nada acontece”, o significativo Encontros e Desencontros (2003) apresenta um bom contraste entre o minimalismo formal e o encontro desencontrado dos protagonistas (vividos por Bill Murray e Scarlett Johansson) em uma Tóquio repleta de luzes, anúncios, sons, imagens, línguas, pessoas.

Bling Ring

        Seu filme mais recente, The Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013), é uma ficção inspirada em fatos reais. O longa conta a história de um grupo de adolescentes de Los Angeles cujo hobby era invadir mansões de celebridades em Hollywood, revirar seus guarda-roupas e gavetas, roubar objetos de valor, dar uma volta em seus carros luxuosos.

        Antes de virar filme, as invasões provocadas pelos adolescentes foram tema de artigo na Vanity Fair, escrito por Nancy Jo Sales. Com efeito, os jovens não dominavam técnicas elaboradas de arrombamento nem eram especialistas em furar sistemas de segurança. As casas grandiosas estavam lá, praticamente abertas – uma chave debaixo do capacho, um vão não estreito o suficiente para a passagem do corpo de uma menina magra etc. Era fácil entrar.

        A proposta do filme é interessante: em um mercado cinematográfico em que esses mesmos jovens quase sempre aparecem como heróis, modelos a ser seguidos ou, no polo oposto, enquanto outsiders, atiradores suicidas e por aí vai, os jovens filmados por Sofia Coppola não são exatamente uma coisa nem outra. Rostos bonitos, bem cuidados e bem alimentados são também filhos (e frutos) de uma sociedade que promove a diversão instantânea e efêmera a todo custo.

        Para uma parte considerável da crítica, o filme perdeu a chance de explorar a fundo essa outra perspectiva da juventude: são abordados poucos aspectos de seus mundos familiares, o foco tampouco recai sobre seus dilemas existenciais etc. Ora, em se tratando de Sofia Coppola, seria mesmo muito improvável que o filme trouxesse esse tipo de densidade, mas, do meu ponto de vista, nem por isso é superficial. Ao contrário, The Bling Ring cumpre bem o projeto a que se propõe.

        Os muitos estímulos – roupas, músicas, drogas, cores, velocidade –, essa frágil efervescência de que é feita a sociedade do espetáculo é captada pela lente de Coppola sem anestésicos – aquelas sequências introspectivas tão frequentes em Encontros e Desencontros, por exemplo –, salvo exceções. As tomadas internas nos carros trepidam – há inclusive um plano-sequência interrompido por uma colisão de automóveis, como os que estamos acostumados a ver em alguns filmes latino-americanos recentes –, o garoto, escondido em seu quarto, usa sapatos de Paris Hilton e batom, atrizes famosas aparecem (fazendo o papel de si mesmas) quase como figurantes em festas badaladas… Em suma, o filme de ficção é altamente documental.

        Então, se por um lado a direção de Coppola parece mais agressiva, é porque a agressividade pertence ao mundo. E aqui tem lugar a já conhecida sutileza da cineasta, que não espetaculariza uma sociedade já tão espetacularizada. Assim, cenas reais de televisão aparecem poucas vezes, as indicações de que a história é em flashback são minimalistas e, principalmente, a realidade da profusão de imagens e informações é aquela onde o mais é menos e o caminho para se tornar celebridade é cínico: não é que apenas se roubem celebridades (pessoas), rouba-se sobretudo a celebridade (condição).

        “Se eu não fosse seu amigo, você me roubaria?”, pergunta o garoto para a líder do grupo, de algum modo já se colocando no lugar da celebridade que queriam (e iriam) se tornar. A pergunta é pertinente ao extremo e parece abarcar os elementos mais importantes da situação. Sofia Coppola deixa sutilmente o recado de que a reflexão deve partir da realidade, não do filme. E, nesse sentido, seu filme não é superficial. Superficial é este mundo. Somos nós.

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Contrafluxo de Consciência

Renato Tardivo

Coisas do Diabo Contra, de Eromar Bomfim

Dalton Trevisan, Sérgio Sant’anna, Raduan Nassar; mais recentemente, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Rinaldo de Fernandes, Marcelino Freire. Pode-se dizer que já há uma tradição em histórias cruéis na literatura brasileira; histórias em que diversas formas violentas de transgressão da lei ocupam papel central.

Coisas do Diabo Contra, romance de Eromar Bomfim, insere-se nessa temática. O livro se destaca inicialmente pelo projeto gráfico (ao fim, aliás, o leitor poderá relacionar aspectos materiais do livro com a trama narrada): antes do primeiro capítulo, uma série de fotografias de primeiros planos de uma metrópole alude a um cotidiano sombrio e feito de interrupções. E são justamente as interrupções que movimentam essa história: a morte que traz morte em uma cadeia interminável que transborda para a própria linguagem.

Matias Tavares de Aragão, após a morte da esposa, sente-se impelido a matar um homem. Leopoldo Tavares de Aragão, seu filho, presencia o gesto que trará desdobramentos para a sua vida e, por extensão, para a história (narrada por um empregado de Matias). O leitor talvez encontre aqui algo de Camus: as personagens erram contra si mesmas e, assim, constroem (ou destroem?) a sua trajetória (e a dos outros). Ao fluxo de consciência, contudo, equilibram-se descrições da geografia da cidade de São Paulo. Com efeito, um dos méritos do romance é este entrelaçamento entre mundo interno e mundo externo, consciência e mundo.

A banalização do mal, na trama, talvez seja alegórica das modalidades de vínculos que estabelecemos na contemporaneidade, mas com uma diferença fundamental. Enquanto no cotidiano (aquele das fotografias do início) o crime se presta à desimplicação dos sujeitos, em Coisas do Diabo Contra, o movimento é radicalmente oposto: ao escancarar que a história se movimenta pelo desligamento, o leitor certamente sairá deste livro mais implicado ao mundo em que vive e que constrói/destrói.

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Livre Captura

Renato Tardivo

Ilustração do livro "Perseu, Medusa & Camille Claudel"

Vida Trágica e Intensa

A vida trágica e intensa de Camille Claudel (1864-1943), as esculturas que deixou (e as que destruiu), os  “valores” que enfrentou, o relacionamento amoroso com Rodin, também escultor, são facetas que fazem da artista um nome cultuado, admirado, respeitado. Não por acaso, não são raros os registros sobre sua vida e sua obra.

Em 1988, Bruno Nuyteen levou às telas o filme Camille Claudel, no qual retrata os conflitos da escultora francesa com a família, a passagem de aprendiz à amante de Rodin, a relação intensa com o irmão, Paul Claudel, e os delírios paranoides que disparam seu confinamento em um manicômio, onde permaneceria até sua morte, aos 79 anos, cerca de 30 anos depois.

Recentemente outro cineasta, Bruno Dumont, dirigiu Camille Claudel 1915, cuja estreia no Brasil está prevista para agosto, com Julliete Binoche no papel de Camille, filme que retrata os anos de internação da escultura – e, nessa medida, é uma espécie de continuação do filme de 1988, que termina quando a escultora é internada.

 

 

Perseu, Medusa & Camille Claudel – Sobre a Experiência de Captura Estética

 

Capturas

O ensaio Perseu, Medusa & Camille Claudel – sobre a experiência de captura estética, da psicanalista e artista plástica Ada Morgenstern, apresentado inicialmente como dissertação de mestrado em Psicologia Social à Universidade de São Paulo, é um estudo de fôlego acerca da captura que se instalou entre Ada e a escultura Perseu e Medusa, de Claudel, quando aquela deparou com esta, em exposição na Pinacoteca SP, em 1997: “captura que a escultura Perseu e Medusa de Camille Claudel produziu em mim e na qual me vejo mergulhada, intrigada, fascinada, numa busca incessante de sentidos. Busco sentidos que possam operar não tanto para me libertar dessa captura, mas, quem sabe, para me manter dentro dela, dentro e fora ao mesmo tempo. Uma livre captura”.

Conquanto a autora seja psicanalista – e a psicanálise, com efeito, compareça como um dos (não o único) referenciais teóricos do ensaio –, que não se espere um exercício de psicanálise aplicada às artes, como tantos trabalhos que se debruçam sobre essa problemática. Isto é, a autora definitivamente não parte de conceitos da psicanálise para explicar ou decifrar a inquietante escultura, como tampouco parte da vida da autora a fim de buscar chaves interpretativas para a obra.

Em outra direção, conforme se explicita no prefácio esclarecedor de João A. Frayze-Pereira, que orientou a dissertação de mestrado de Morgenstern, trata-se de um exercício de psicanálise implicada. No esteio de Paul Ricoeur e de Frayze-Pereira, Morgenstern adota o ensaio de Freud sobre o Moisés de Michelangelo como paradigmático da psicanálise implicada, uma vez que, diferentemente do que faz no também célebre trabalho sobre Leonardo da Vinci, Freud, no artigo sobre o Moisés, “utiliza o trabalho psicanalítico como um olhar crítico e racionalista frente à fascinação exercida pela obra de arte”.

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Implicações: o espaço do entre

Assim, recorrendo a filósofos e estetas como Merleau-Ponty, Pareyson, Gombrich; a psicanalistas implicados à arte – além de Frayze-Pereira, entre os autores contemporâneos destacam-se Renato Mezan, André Green e, sobretudo, Noemi Moritz Kon, que também assina o belo texto da orelha do livro –; a historiadores, como o helenista Jean-Pierre Vernant, entre muitos outros autores, Ada Morgenstern compartilha generosamente com o leitor, implicada do início ao fim, as marcas que o seu encontro com a escultura de Camille Claudel provocou – e ainda provoca.

Há, evidentemente, questões sobre a vida de Camille, mas, honrando Merleau-Ponty, o foco da captura vivenciada por Ada reside no encontro estabelecido entre ela e a obra, nos “interperfis”, para usar terminologia da autora, espaço invisível e que, justamente por isso, potencializou a construção de uma trama tanto intelectual quanto sensível.

De acordo com Merleau-Ponty, no ensaio “A Dúvida de Cézanne”, de que Ada tão bem se vale, não é a vida do artista que explica sua obra, mas é a obra que pode iluminar a vida. O espectador – crítico de arte, psicanalista, esteta, filósofo – que mergulhar nesse desafio terá, inevitavelmente, de lidar com seus próprios fantasmas, já que, dessa perspectiva, ler a obra implica acessá-la em si mesmo. E existe caminho mais frutífero para dar continuidade a uma obra? Não tenho dúvidas de que a leitura do ensaio de Ada Morgenstern responderá – e com muitos elementos novos – essa pergunta retórica.

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Vergonha da Condição Humana

A Caça

Renato Tardivo

Há mais de um século, Sigmund Freud, fundador da psicanálise, propôs a existência da sexualidade infantil. Como era de se esperar, houve muita resistência a essas ideias – e, ainda hoje, há muita discordância. O célebre trabalho de Freud em que elas aparecem são os “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade Infantil”, publicado em sua primeira versão em 1905.

Há mais de meio século, psicanalistas da primeira geração de pós-freudianos, talvez Melanie Klein mais notadamente, aprofundaram o conceito de pulsão de morte, inaugurado por Freud, ao afirmarem a presença de sentimentos como o ódio desde a mais tenra infância. O clássico Inveja e Gratidão, no qual Klein propõe que bebês vivenciam o ódio e a inveja, foi publicado em 1946. Polêmicas à parte, a assunção de que crianças podem ser más foi reconhecida pela humanidade ainda mais tardiamente e, ao que tudo indica, tem encontrado forte resistência até hoje.

Essas questões são o mote do perturbador A Caça, mais recente filme do dinarmaquês Thomas Vinterberg; cineasta pertencente ao movimento Dogma 95, do qual também faz parte Lars von Trier, diretor dos clássicos Dançando no Escuro e Dogville. Vinterberg consagrou-se em 1998 ao dirigir um dos filmes mais importantes do cinema contemporâneo: Festa de Família.

Em A Caça, que rendeu o prêmio de melhor ator na última edição do Festival de Cannes para Mads Mikkelsen, uma mentira propagada por uma menina, acusando um professor de creche (melhor amigo do pai dela) de abuso sexual, atinge proporções bárbaras.

O enredo de A Caça dialoga com outros filmes do movimento Dogma: a maldade extrema pautada pela injustiça (Dançando no Escuro), o caráter excludente de grupos (Dogville), a complexidade dos vínculos familiares (Festa de Família e Melancolia). Mas, nesse filme de Vinterberg, há a inclusão de um novo elemento: a infância.

A Caça não é um filme sobre sexualidade ou abuso sexual; é de agressividade que se trata. As dificuldades que a humanidade encontra para se abrir ao diferente e as tendências agressivas para manutenção da (suposta) ordem, isto é, a falta de compaixão pelo outro complexifica-se aqui ao se expor que nem as crianças estão imunes a tais feridas. Mas o filme não culpabiliza a infância. Em vez disso, A Caça é um tapa na cara de uma coletividade que, ao não elaborar questões primitivas, permanece infantilizada – e deixa esse legado para as gerações mais novas.

A questão no Brasil, vale dizer, é atualíssima, em tempos de debate sobre a pertinência da redução da maioridade penal. Adultos infantilizados resolverão o problema culpabilizando as crianças? No filme A Caça, desfeitos os mal-entendidos, a suposta reconciliação entre o professor e aqueles que o retaliaram é apenas mais uma forma de expressão da hipocrisia sobre a qual se pauta a sociedade. Nesse caso, não poderíamos pensar como uma saída analogamente hipócrita a caça a menores infratores? Seja como for, o filme de Vinterberg é uma daquelas (necessárias) obras que envergonham o espectador de sua condição humana.