Renato Tardivo

Interpretações entre a Literatura e a Psicanálise

Renato Tardivo

12'5x20 - 20mm lombadaInterpretações – Crítica Literária e Psicanálise reúne ensaios instigantes sobre o complexo parentesco entre essas duas áreas. Com efeito, as reflexões deste livro não incorrem nos dois problemas mais frequentes quando psicanálise e literatura são relacionadas: 1) a recusa prévia da possibilidade de diálogo, sobretudo por parte dos literatos, que podem ver na psicanálise apenas uma terapêutica ou um fazer normativo; 2) a aplicação direta de conceitos da psicanálise à literatura, de modo que o analista encontre no texto aquilo que ele próprio escondeu. Ao contrário, abordando diversas perspectivas dessa relação, os ensaios são divididos em duas seções: “O Ato Interpretativo”, que inclui reflexões sobre os dois fazeres, tendo a interpretação como mediadora, e “Faces da Interpretação”, que apresenta análises cuidadosas de obras literárias. Não sendo possível falar de todos, a seguir comentarei alguns desses textos.

Abre o conjunto o ensaio de Alfredo Bosi: “Psicanálise e Crítica Literária – Proximidade e Distância”. Recorrendo a clássicos da literatura e importantes pensadores da cultura, Bosi coteja possibilidades e limites implicados na relação entre as duas áreas. Entre os limites, talvez o mais significativo apontado pelo crítico seja o seguinte: “A Psicanálise conhece para curar, é uma ciência com vistas a uma terapêutica; a crítica literária, ao contrário, ao que eu saiba, nunca curou ninguém do vício de escrever, que continua compulsivo e impune”.

No ensaio seguinte, Adélia Bezerra de Menezes empreende um mergulho na “práxis da interpretação” presente nos dois campos e, como se continuasse o texto de Bosi, encaminha a reflexão do primeiro capítulo. Escreve a autora: “No paralelo que vim montando entre Interpretação literária e Interpretação psicanalítica, sempre ressaltando as semelhanças, há que se fazer uma distinção; uma diferença entre a práxis do crítico literário e a do psicanalista. É que, no caso específico da Psicanálise, há uma intenção terapêutica no uso da palavra”. E logo depois: “Essa eficácia terapêutica, no entanto, no encontro analítico, talvez se deva menos a uma ‘vontade interpretativa’ do que a um movimento de verbalizar, a um nomear, a uma passagem à palavra […] Assim, nem seria propriamente a interpretação que conta, mas mais propriamente a possibilidade que se oferece da presença de um outro atento, e que – para usarmos os termos de Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas – ‘ouve com devoção’”. Ou seja, vislumbra-se aqui uma psicanálise cujo fim não é a cura pelo conhecimento, mas a vivência de um método que, em seu fazer específico, guarda semelhanças com a literatura.

Em “Uma Visita aos Sonhos na Arte: Grete Stern e Henri Matisse”, João Frayze-Pereira propõe no âmbito da “psicanálise implicada”, aquela que “respeita a singularidade da obra e constrói interpretação para ela, derivando-a dela, na justa medida dela”, duas aproximações: primeiro com uma série de fotomontagens da fotógrafa alemã Grete Stern, depois com uma mostra de obras de Matisse. Com efeito, as interpretações propostas pelo autor são precisas em sua poeticidade, e os sonhos visitados, na arte, comunicam-se com os sonhos para a psicanálise.

Talvez o ensaio mais denso do livro seja “Escrita e Ficção em Psicanálise”, de Joel Birman. Nele, o psicanalista empreende um resgate da história da psicanálise, retoma aspectos importantes do pensamento de Freud, pontua as obras em que as questões aparecem e, em um texto esclarecedor, fundamenta a tese da “presença inequívoca da dimensão ficcional do psiquismo”. Com efeito, o deslocamento da teoria da sedução para a teoria do fantasma empreendido pela psicanálise, quer dizer, a distinção proposta por Freud entre realidade psíquica e realidade material, traz como decorrência a dimensão ficcional do psiquismo: cuja ordem é sexual, é atravessado pelo desejo e contém os fantasmas – mediadores entre o sujeito e o acontecimento real. Dessa perspectiva, problematizam-se todas as modalidades de registro, não apenas em psicanálise ou literatura, mas na história, que seria, portanto, também ela atravessada pela ficção.

A seção dedicada às análises apresenta ensaios saborosos que acrescentam sentidos ao leitor que já tomou contato com as obras e funcionam como convite à leitura daquelas que o leitor ainda não conhece. A temática do espelho, cara tanto à literatura quanto à psicanálise, o Unheimlich, definido por Freud como “o estranho que é familiar”, o Édipo, enfim, esses e outros temas relevantes comparecem nas interpretações lançadas às obras de, entre outros, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Chico Buarque.

Por fim, vale dizer que o livro – organizado pelas também autoras Cleusa Rios P. Passos e Yudith Rosembaum – resulta interessante para o estudioso da área, mas, conquanto os ensaios não sejam herméticos, servirá ao leitor que, no mínimo, viva a literatura e se inquiete com a complexidade da mente humana.

Conheça mais sobre a obra Interpretações – Crítica Literária e Psicanálise

 

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social (USP) e professor universitário, escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

O Desejo na Literatura e na Psicanálise

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Nesta quarta-feira (03/09), a Livraria da Vila – Lorena recebe para um bate-papo o autor, psicanalista e colunista da Ateliê Renato Tardivo. Na ocasião o autor falará sobre a construção do desejo na literatura, abordando a vertente realidade/ficção. O psicanalista Niraldo de Oliveira Santos norteará sua fala, abordando o imperativo de felicidade, que é imposto ao sujeito, abrindo a discussão sobre a articulação desejo x gozo na contemporaneidade, principalmente os modos de satisfação/”empuxo ao gozo” e os efeitos disso no corpo.

 

Livraria da Vila – Lorena (auditório): Alameda Lorena 1731 – Jardim Paulista

Horário: 19h30 às 21h30

Entrada Gratuita

Inscrições: maisainda2014@gmail.com

Está Querendo Ser Meu Analista?

Renato Tardivo

SigmundFreud

 

Como além de escritor sou psicanalista com atuação clínica, escuto com alguma frequência comentários assim: “A clínica deve ser um rico material para a sua ficção…”; ou perguntas do tipo: “Você se inspira em seus pacientes para criar suas personagens?”. Vamos refletir a respeito.

Acredito na proximidade entre literatura e psicanálise. Quem já leu alguma coisa do Freud há de concordar que sua escrita não é alheia à literatura, tanto do ponto de vista do estilo quanto do conteúdo. Assim como outros psicanalistas, vislumbro maior parentesco da psicanálise com as artes e a literatura do que, por exemplo, com as ciências naturais. A questão foi tema desta coluna em outras ocasiões, como aqui. Isso não significa, no entanto, que um escritor de ficção se valha de sua clínica como material para a sua literatura. Explico.

Da mesma forma que há certo fetiche em torno da figura do psicanalista enquanto aquele que tudo sabe porque possui uma bola de cristal, há a crença, igualmente equivocada, segundo a qual o que distingue um trabalho terapêutico é o material trazido pelo paciente. Até pode haver eventos que o paciente conte apenas em análise, mas o que diferencia a situação terapêutica de uma conversa entre amigos confidentes, por exemplo, é sobretudo o tipo de escuta exercida pelo analista.

Dessa perspectiva, o analista é aquele que acompanha o paciente; é um interlocutor diferenciado que capta o que é dito, pensado e sentido para além do manifesto, da superfície, do cotidiano. O autor, no consultório, é o cliente; não o analista – este assume a condição de espectador que assiste à obra do outro e, assim, pode ajudá-lo a elaborar situações difíceis, sofrer menos, encontrar fontes de satisfação e dar conta de fruí-las etc.

Evidentemente, um escritor – como de resto todo ser humano – deve sempre ampliar suas possibilidades de contato com o mundo. Isso ocorre ao vivenciar obras de arte, ler, atualizar-se em relação à política e à cultura, viajar, aproveitar ao máximo as relações interpessoais etc., e, assim, conhecer-se melhor: olhar para fora é também olhar para dentro, e vice-versa. Nessa vertente, o ofício exercido na clínica compõe a visão de mundo do escritor-psicanalista como um de seus múltiplos elementos, e não como fonte de inspiração direta.

Mas há exceções. Um projeto literário pode se debruçar sobre o parentesco com a psicanálise e ser bem-sucedido. Neste espaço, resenhei dois belos livros escritos dessa perspectiva, um do ponto de vista da analista, outro do ponto de vista da analisanda. Esses livros, no entanto, possuem a especificidade de serem criados a partir das relações entre literatura e psicanálise; não podem ser tomados como regra.

De resto, a questão central talvez seja mesmo esta: o analista é espectador das histórias (que escuta); não o autor delas. Não há, portanto, motivo para considerar que os dilemas dos pacientes coloquem o escritor-psicanalista em vantagem em relação aos demais. E não se trata apenas, como talvez pensem alguns, de respeitar os limites éticos. Um psicanalista pode escrever sobre uma situação clínica, mesmo sem ser ficcionista, e ainda assim deve respeitar esses limites – não oferecendo elementos que permitam que o paciente seja identificado, por exemplo.

Por essas e outras, da próxima vez que me perguntarem se me inspiro em meus pacientes para criar minhas personagens, vou retrucar: “Por quê? Está querendo ser meu analista?”.

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Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social (USP) e professor universitário, escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

O Fantasma e o Autor

Renato Tardivo

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1992. 7 amigos recém-saídos da adolescência se encontram em uma casa de campo. A literatura atravessa seus ideais. Dois deles, Felipe (Caio Blat) e Rafa (Lee Taylor), escrevem seus livros e aconselham-se um com o outro. Em meio a drogas e sexo, cada um dos 7 amigos escreve uma carta para si mesmo e juntam todas em uma caixa que enterram. O pacto é desenterrá-las e lê-las uns para os outros 10 anos depois.

Um evento traumático marca a transição para os 10 anos seguintes. Em 2002, lá estão os amigos na mesma casa de campo dos pais de uma delas, Silvana (Maria Ribeiro), em seu primeiro reencontro após o passado trágico. É nesse fim de semana que se passa Entre Nós, filme dirigido por Paulo Morelli e que esteve em cartaz no circuito nacional no primeiro semestre deste ano.

Completam o elenco Carolina Dieckmann, Paulo Vilhena, Martha Nowill e Julio Andrade. Em que se pesem a boa direção de fotografia e as frequentes intervenções da trilha sonora com ares de suspense, a aposta da trama gira em torno dos conflitos vividos entre as personagens.

O roteiro trabalha com uma informação fundamental que, embora não seja explicitada no início, fica evidente para o espectador – mas não para as personagens. E o espectador (em 2014) é privilegiado também ao saber, por exemplo, que a seleção brasileira foi a campeã do mundial de 2002 e que a corrupção no país não acabou com a eleição de Lula – questões que ficam em aberto em uma das conversas dos amigos.

E esta é a chave para interpretar o filme: o suspense não se concentra no que vai ser, mas no que já foi. “Não sei o que é pior: não realizar nenhum sonho ou realizar todos”, diz Cazé (Julio Andrade), sintetizando o dilema que os assombra. Ganhar é perder, falar é calar.

O passado, morto e enterrado – mas também à iminência de vir à tona –, é o que pode promover fissuras, causar novos traumas, atualizar a culpa. A palavra – soterrada – é “memória do futuro”, para utilizar uma expressão do psicanalista inglês W. R. Bion. Entre nós, habita um fantasma – o autor da história. De todas elas.

 

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Perda Reconstruída

Renato Tardivo

Bilhete Seco, de Elisa NazarianO título da coletânea de contos de Elisa Nazarian, Bilhete Seco, inicialmente me chamou a atenção por dois motivos. O primeiro: ocorreu-me o conto “O Ventre Seco”, de Raduan Nassar, texto colérico que diz da relação do narrador com duas mulheres importantes de sua vida. O segundo: “bilhete seco”, se não chega a ser um paradoxo, causa alguma estranheza – bilhetes são molhados por excelência.

Bem, como não raro ocorre, eu poderia me desfazer dessas impressões ao fim da leitura. Mas, ao terminar o livro, foram justamente essas associações que me vieram, evidentemente transformadas por – e acrescidas de – outros elementos, de modo que, pensando agora, essas associações com efeito condensam os dois elementos que mais me capturaram no livro.

Os textos, escritos em prosa, trazem um eu-lírico feminino: questões cotidianas, perdas, relações familiares, angústias existenciais, o amor, o preparo de alimentos e a relação com a natureza são alguns dos temas explorados nas narrativas pela ótica de mulheres – o que não torna a obra panfletária; em vez disso, confere precisão e firmeza aos textos: as narradoras estão inteiras ali, reveladas em cada fresta.

A associação com “O Ventre Seco”, de Raduan Nassar, se confirma na medida em que o lirismo visceral de Eliza Nazarian parece partir do ventre das narradoras. E a tensão entre as palavras “bilhete” e “seco” se resolve justamente em um lirismo enxuto, urdido por frases curtas, orações coordenadas, em suma, por uma escrita seca. Que, não obstante, reconstrói perdas.

Leia mais textos de Renato Tardivo para o Blog da Ateliê

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Os Dois Lados da Escuta

Renato Tardivo

Ninfomaníaca, de Lars Von Trier

Ninfomaníaca (volumes I e II), de Lars Von Trier, é uma obra prima necessária e, ao mesmo tempo, sintomática dos dias atuais. Poucos conseguem, como ele, contar bem uma história ao cutucar com força nossas feridas, deixando estrias de sangue na pele – do corpo e da tela.

No primeiro filme, uma mulher, Joe, é encontrada na rua com sinais de espancamento por um homem mais velho, Seligman. Ele a leva para a sua casa e, mais que abrigo e calor, lhe oferece a escuta. Joe trata de reconstruir sua história, tendo Seligman (e o espectador) como testemunha.

O filme alterna o presente, em que Joe conta a história para Seligman em um dos quartos da casa dele, e o passado rememorado em flashbacks. Joe retoma a infância, a descoberta da sexualidade, as primeiras relações, a compulsão sexual na juventude, o reencontro com o primeiro homem.

O volume I termina em aberto, revelando cenas do II nos créditos. A busca incessante por prazer de Joe encontra, ao fim da primeira parte, o esgotamento. E tudo indica que a busca, no limite impossível, se voltará, no volume II, para o seu corpo e potencializará sua degradação.

O equilíbrio entre o tempo da ação e os flasbacks, no volume I, tende à perfeição. Mas, sendo um filme inacabado, há menos riscos. No entanto, as chances de a história se perder, sobretudo por uma possível banalização das cenas chocantes (como talvez tenha ocorrido em Anticristo, do mesmo diretor), não seriam pequenas no volume II.

Não é o que ocorre: a continuação é simplesmente sublime.

Aspectos que ficam em aberto na parte anterior são explorados: a relação (transferencial) entre Joe e Seligman, também ele um ser faltante, o mergulho radical de Joe nas perversões, sexuais e do capital (nesse sentido, o filme lembra O Cheiro do Ralo, produção nacional de 2005 dirigida por Heitor Dhália), sua inadequação às instituições e normas vigentes, as (outras) regras dentro das quais ela pode (incestuosamente) ser mãe.

Ninfomaníaca não é um tratado sobre perversões, nem um raio x da subjetividade de Joe. O filme, na figura da protagonista, é uma metáfora perfeita – e toda metáfora perfeita é, também, um paradoxo – das modalidades de vínculos que, mediados pelo chicote, estabelecemos na contemporaneidade: da cegueira de si e do outro, da destrutividade de todos.

Lars Von Trier, munido de sua conhecida câmera na mão, dos cortes dentro do plano, aspectos finamente trabalhados mas que conferem um caráter documental e despojado à narrativa fílmica, retoma eventos do volume I e os resolve de modo surpreendente. Mais ainda: o volume II, por projeto uma continuação, traz a temática da continuidade – e seus limites – no próprio enredo. Assim, se o filme não se perde na banalização da violência, tampouco se perde na redenção das personagens: a arma não disparar uma vez (desejo inconsciente?) não significa que ela não possa disparar depois.

De um lado da escuta – e do outro.

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

 

A Transmissão da Palavra ao Imaginário Infantil

Renato Tardivo

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Liev Tolstói (1828-1910), escritor russo, é o célebre autor de Guerra e Paz e Ana Karenina, obras que se tornaram marcos da literatura mundial. Também difundidos são os textos de inclinação anarquista que fazem do autor uma referência importante em estudos sobre política. No entanto, nem tão conhecidos do grande público – embora lidos  por milhões de crianças pelo mundo – são os escritos de Tolstói dirigidos às crianças. O escritor manteve uma escola, em sua propriedade próxima a Moscou, onde lecionava a camponeses pautado pelo princípio da liberdade.

Em Contos da Nova Cartilha­ – segundo livro de leitura (vol. 1), reúnem-se fábulas, contos, raciocínios e histórias verdadeiras escritos por Tolstói que facultam ao leitor a experiência da liberdade para criar, imaginar, pensar. Assim, não se trata de narrativas com uma simples “moral da história”; em outra direção, os textos convidam a pensar sobre seus dilemas, despertando o interesse pelo conhecimento. Com efeito, interessantes e inteligentes, as narrativas não se destinam apenas ao público infantil, mas a todo leitor que se dispuser a ampliar a gama de significações acerca de si, dos outros, do mundo.

Parece atravessar os textos a tese de que aprender é criar e, por extensão, de que não há pensamento ou filosofia que se justifiquem senão aqueles que se questionem continuamente. É emblemático, nesse sentido, o texto “O Tato e a Visão”, em que, no primeiro momento, o autor evidencia a tese de que “os dedos enganam, mas os olhos corrigem”, e, em seguida, desconstrói a verdade absoluta que se poderia encerrar na tese anterior explicitando que também “os olhos enganam, mas os dedos corrigem”. Essa confusão, no limite insuperável, se coloca sempre que há abertura à alteridade, na medida em que não há conhecimento a respeito do outro que o encerre.

Trocas mercantis, relações do homem do campo entre si e com a natureza, a luta pela sobrevivência, variadas são as temáticas das narrativas, que na presente edição são acrescidas de belíssimos desenhos produzidos a partir dos textos por crianças russas dos dias de hoje. Note-se, entretanto, que não se trata de ilustração no sentido de dar aos textos sua justa medida, uma vez que a justa medida das coisas – e da palavra – nunca se atinge, mas é a própria transmissão dos textos ao imaginário infantil que ganha forma também na comunicação que se estabelece no nível das diferentes linguagens – palavra e imagem –, deixando para sempre em aberto (o que provavelmente agradaria Tolstói) a questão: onde mora o saber, no professor ou no aluno?

Acesse o livro no site da Ateliê

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Filme de Formação

Renato Tardivo

Azul É A Cor Mais Quente (La Vie d’Adele – Chapitre 1 et 2, 2013), filme dirigido por Abdellatif Kechiche (diretor do excelente O Segredo do Grão, 2007), vem repercutindo por ter levado a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes e também o prêmio da crítica, mas também pelas cenas de sexo entre duas jovens.

Azul é a Cor Mais Quente, resenha de Renato Tardivo

A trama é baseada em uma história em quadrinhos para adultos, cujo título é justamente Le Bleu Est une Couleur Chaude, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh. Em ambos, uma jovem de 15 anos (Clémentine na HQ; Àdele, que significa “justiça”, no filme) cruza na rua com Emma, uma universitária com cabelos azuis. Àdele, dona de uma beleza enigmática, desperta a atração dos garotos, mas não se interessa por eles e delicadamente vai descobrindo o seu desejo por mulheres. A imagem de Emma entre os transeuntes e sua constante evocação por parte de Àdele (que tem um sonho erótico com a desconhecida) passa a ser emblema desse desejo.

O título original – A Vida de Àdele – é uma referência ao livro La Vie de Marianne, de Pierre de Marivaux, que Àdele lê no começo do filme. Ao longo das quase 3 horas de projeção, Àdele – dos 15 aos 20 e poucos anos – está em cena. Certamente, o período central – e decisivo – desta trajetória é o romance que vive com Emma, aquela que encontrara na rua e que, um pouco depois, reencontra em uma boate gay.

Como nos demais filmes de Abdellatif Kechiche, há aqui uma série de referências da cultura francesa e de suas ex-colônias, que conferem um caráter documental e político à ficção. Há sequências – como as de Àdele já professora de educação infantil – que lembram documentários. Mas isso não contamina a ficção, pelo contrário, reforça a tridimensionalidade das personagens e suas diferentes bagagens culturais, relações familiares, ambições etc.

É nessa medida que a câmera invade a privacidade de Àdele – em todos os âmbitos e não só, mas também, no sexual. Não há, portanto, apelação ou algo que o valha. Não se trata de um filme sobre sexo; trata-se de um filme de formação – sensível, plástico, enigmático. As quase três horas – que equivalem a alguns anos –  passadas em contato com Àdele não são suficientes para que deixemos o cinema convencidos de que a conhecemos. Desconcerto que provavelmente a própria personagem viva.

O azul, de início no cabelo de Emma, estende-se para diversos detalhes do filme – em tomadas internas e externas –, ou seja, para o mundo de Àdele. Que se deixa contaminar, corre riscos, empresta os seus próprios riscos para as telas de Emma, com quem pôde viver algo fundante que nunca tivera. A menina termina mulher. As três horas passam voando. Como a vida. A Vida de Àdele.

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Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Comunhão em Quatro Tempos

Renato Tardivo

Literatura e Psicanálise

Se Freud não escreveu muito sobre a relação entre literatura e psicanálise – embora usasse e abusasse das citações literárias, se valesse de referências da literatura clássica para a criação de conceitos e o único prêmio que recebeu em vida tenha sido o Goethe –, alguns psicanalistas contemporâneos tomaram essa relação como objeto de investigação. Talvez possamos dividir esses estudiosos em duas vertentes: aqueles que vislumbram na psicanálise uma poderosa ferramenta de leitura e análise de texto (perspectiva iluminista adotada inclusive por alguns segmentos da crítica literária) e aqueles que propõem certa analogia entre as duas áreas e, nesse sentido, não se valem de conceitos psicanalíticos para traduzir uma obra (ou a biografia de seu autor), mas valorizam a psicanálise em seu potencial poético e libertador.

Há, ainda, obras literárias que lidam com aspectos da relação entre psicanálise e literatura. Também aqui podemos encontrar as duas vertentes tratadas acima: há textos, em prosa ou verso, que recorrem à psicanálise de modo didático e ilustrativo, mas há escritores que optam pela entrada da psicanálise pela via da criação, produzindo obras inventivas. Menciono, a esse propósito, Contos do Divã, de Sylvia Loeb, livro que já resenhei neste espaço (leia aqui a resenha). Além disso, como sabemos, é possível vislumbrar potencial literário em alguns relatos clínicos redigidos por psicanalistas. Vale lembrar que: 1) o próprio Freud explicitara nos Estudos Sobre a Histeria (1895) a semelhança entre seus casos clínicos e as novelas; 2) em carta enviada a Arthur Schnitzler (não revelada enquanto Freud era vivo), o pai da psicanálise se dirigira ao escritor como seu duplo; 3) novamente, cabe a menção ao Prêmio Goethe.

Barco e Mar

Psicolirismo da Terapia Cotidiana, de Rita Moutinho

Ocorre que esses textos na interface da psicanálise e literatura são predominantemente escritos da perspectiva do analista. Menos comuns são os textos escritos da perspectiva do analisando. Psicolirismo da Terapia Cotidiana, que reúne excelentes poemas de Rita Moutinho, insere-se nessa vertente. O livro é composto por poemas em versos livres e também por sonetos, tanto o inglês, com os 14 versos unidos, como o que traz quartetos e tercetos separados. A autora declara na Apresentação que os sonetos foram escritos nos anos 2000 e os demais nos anos 80, mas todos os poemas dizem respeito ao seu período de análise (anos 80) e quase sempre dirigem-se ao analista.

Divididos em quatro tempos: “Tempo Nublado”, “Tempo Instável”, “Tempo Parcialmente Nublado Passando a Límpido”, “Céu Quase Limpo com Clarões no Horizonte”, o livro reúne a experiência de uma mulher em análise. Como se vê, trata-se da terapia cotidiana reescrita com psicolirismo – e o título do livro dialoga com Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), texto em que Freud se propõe a apresentar noções básicas de sua teoria.

A transferência, questão central na psicanálise e também nas artes, uma vez que ao entrar em contato com uma obra transferimos emoções e afetos, talvez seja um dos principais elementos do livro. Mas, sem a frieza dos textos teóricos, há uma espécie de resgate visceral da relação transferencial vivida com o analista, que, no início, sustenta a presença da persona lírica. Cito versos de alguns poemas da primeira parte: “Estou dissolvida, sem capacidade de luta, / sem verbalização que organize / o medo, o desconcerto, o dúbio”; “Futuro, nele crer, isso e mais nada”; “Doer, doer de novo / a dor que é passada”; “Ah, quando poderei sã navegar, / se sou a um só tempo barco e mar?”.

Casamento Estranho

Ao longo do livro, conceitos da psicanálise aparecem aqui e ali, mas não são o foco; ocupam um lugar invisível que adentramos porque os versos são endereçados ao profissional cuja escuta é atravessada por eles. O que atravessa o Psicolirismo da Terapia Cotidiana é a palavra, que se refere à palavra, para terminar na… palavra.

Se já não bastasse a qualidade dos poemas, eles ainda se perfazem em uma unidade narrativa: o caminho em direção à alta da paciente. Já perto do fim, mesmo “que não há fim no desfecho”, o “Soneto da Comemoração do Insight” é assim finalizado: “Sermos par na tristeza e na alegria, / metáfora de núpcias: terapia”. Com efeito, Rita Moutinho reconstrói com lirismo esse casamento estranho, em que um “beijo de despedida” é “fraudar as regras” e o sucesso implica separação, tornando público, mesmo que por meio da persona lirica, um processo tão íntimo e fazendo da experiência de separação com o analista uma possibilidade múltipla de comunhão e abertura com os outros: agora, leitores.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

“Se eu não fosse seu amigo, você me roubaria?”

Renato Tardivo

Sofia Coppola, jovem cineasta estadunidense, já se notabilizou por uma forma blasé de fazer cinema. A esse propósito, se em Um Lugar Qualquer (2010) ela exagera no estilo “nada acontece”, o significativo Encontros e Desencontros (2003) apresenta um bom contraste entre o minimalismo formal e o encontro desencontrado dos protagonistas (vividos por Bill Murray e Scarlett Johansson) em uma Tóquio repleta de luzes, anúncios, sons, imagens, línguas, pessoas.

Bling Ring

        Seu filme mais recente, The Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013), é uma ficção inspirada em fatos reais. O longa conta a história de um grupo de adolescentes de Los Angeles cujo hobby era invadir mansões de celebridades em Hollywood, revirar seus guarda-roupas e gavetas, roubar objetos de valor, dar uma volta em seus carros luxuosos.

        Antes de virar filme, as invasões provocadas pelos adolescentes foram tema de artigo na Vanity Fair, escrito por Nancy Jo Sales. Com efeito, os jovens não dominavam técnicas elaboradas de arrombamento nem eram especialistas em furar sistemas de segurança. As casas grandiosas estavam lá, praticamente abertas – uma chave debaixo do capacho, um vão não estreito o suficiente para a passagem do corpo de uma menina magra etc. Era fácil entrar.

        A proposta do filme é interessante: em um mercado cinematográfico em que esses mesmos jovens quase sempre aparecem como heróis, modelos a ser seguidos ou, no polo oposto, enquanto outsiders, atiradores suicidas e por aí vai, os jovens filmados por Sofia Coppola não são exatamente uma coisa nem outra. Rostos bonitos, bem cuidados e bem alimentados são também filhos (e frutos) de uma sociedade que promove a diversão instantânea e efêmera a todo custo.

        Para uma parte considerável da crítica, o filme perdeu a chance de explorar a fundo essa outra perspectiva da juventude: são abordados poucos aspectos de seus mundos familiares, o foco tampouco recai sobre seus dilemas existenciais etc. Ora, em se tratando de Sofia Coppola, seria mesmo muito improvável que o filme trouxesse esse tipo de densidade, mas, do meu ponto de vista, nem por isso é superficial. Ao contrário, The Bling Ring cumpre bem o projeto a que se propõe.

        Os muitos estímulos – roupas, músicas, drogas, cores, velocidade –, essa frágil efervescência de que é feita a sociedade do espetáculo é captada pela lente de Coppola sem anestésicos – aquelas sequências introspectivas tão frequentes em Encontros e Desencontros, por exemplo –, salvo exceções. As tomadas internas nos carros trepidam – há inclusive um plano-sequência interrompido por uma colisão de automóveis, como os que estamos acostumados a ver em alguns filmes latino-americanos recentes –, o garoto, escondido em seu quarto, usa sapatos de Paris Hilton e batom, atrizes famosas aparecem (fazendo o papel de si mesmas) quase como figurantes em festas badaladas… Em suma, o filme de ficção é altamente documental.

        Então, se por um lado a direção de Coppola parece mais agressiva, é porque a agressividade pertence ao mundo. E aqui tem lugar a já conhecida sutileza da cineasta, que não espetaculariza uma sociedade já tão espetacularizada. Assim, cenas reais de televisão aparecem poucas vezes, as indicações de que a história é em flashback são minimalistas e, principalmente, a realidade da profusão de imagens e informações é aquela onde o mais é menos e o caminho para se tornar celebridade é cínico: não é que apenas se roubem celebridades (pessoas), rouba-se sobretudo a celebridade (condição).

        “Se eu não fosse seu amigo, você me roubaria?”, pergunta o garoto para a líder do grupo, de algum modo já se colocando no lugar da celebridade que queriam (e iriam) se tornar. A pergunta é pertinente ao extremo e parece abarcar os elementos mais importantes da situação. Sofia Coppola deixa sutilmente o recado de que a reflexão deve partir da realidade, não do filme. E, nesse sentido, seu filme não é superficial. Superficial é este mundo. Somos nós.

Coluna-Resenhas-Renato-Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).