Renata de Albuquerque

Shakespeare e Cervantes, pedras fundamentais da literatura

Por: Renata de Albuquerque*

 

Em dez dias, o mundo perdeu dois dos mais importantes escritores da História: Cervantes e Shakespeare. O ano era 1616 e as notícias ainda não se espalhavam tão rápido quanto hoje. Em 22 de abril, em Madri, na Espanha, Miguel de Cervantes, poeta, dramaturgo e autor daquele que é considerado o primeiro romance moderno da literatura, Dom Quixote, faleceu. Sua morte foi registrada apenas no dia seguinte.

Miguel de Cervantes Saavedra

Miguel de Cervantes Saavedra

Dom Quixote, ou, no título e grafia originais, El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha, foi publicado em 1605 e conta a história de um fidalgo que alucina devido à leitura de romances de cavalaria, como, por exemplo, Tirant Lo Blanc, o primeiro romance de cavalaria ibérico. A partir disso, ele realiza incursões aventureiras ao lado do amigo Sancho Pança, de certa forma para imitar seus heróis.

“Desde suas primeiras páginas, o primeiro livro de cavalaria da Espanha parece querer nos advertir de que todo livro de cavalaria pressupõe um livro de cavalaria precedente, necessário para que o herói se torne cavaleiro”, explica Ítalo Calvino em seu Por Que Ler os Clássicos. Só esta razão já é suficiente para que quem queira entender melhor a grandiosidade de Dom Quixote recorra a Tirant Lo Blanc – que narra as façanhas de um cavaleiro andante que se transforma em grande general.

O livro de Cervantes é o segundo livro mais traduzido no mundo, ficando apenas atrás da Bíblia e inaugura o que chamamos de romance moderno, com personagens que defendem a paz e a justiça – valores, até hoje, muito enfocados na literatura.

Shakespeare

Como na Inglaterra o calendário gregoriano só foi adotado no século XVIII, a data de 23 de abril também foi, por muito tempo, considerada a data da morte do bardo inglês. Esta é a razão pela qual 23 de abril é data que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) escolheu para comemorar o Dia Mundial do Livro. Mas, devido a essa diferença de tempo na adoção do calendário gregoriano, hoje sabe-se que Shakespeare, na verdade, morreu em 3 de maio.

William Shakespeare

William Shakespeare

Além de poeta (escreveu mais de 150 sonetos), Shakespeare escreveu peças de teatro que definiram a dramaturgia desde então, tanto em termos de personagens quanto nos temas tratados. Sua influência é inequívoca e seus textos servem, até hoje, como base para filmes, musicais e até novelas.  Quem não se lembra de Romeo + Juliet, com Leonardo Di Caprio? Ou da novela O Cravo e a Rosa, inspirada em A Megera Domada?

A importância de Shakespeare é tamanha que sua obra inspirou também outros clássicos. Machado de Assis, por exemplo, é conhecido por aludir a Shakespeare em várias de suas obras. Foi essa ligação entre o autor inglês e o brasileiro que inspirou Helen Caldwell a escrever O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, um marco na crítica literária mundial, no qual pela primeira vez, em um estudo publicado em livro, levanta-se a hipótese de que Capitu poderia não ter traído Bento Santiago em Dom Casmurro. Lançado em 1960 e escrito por uma americana que tinha acesso ao então pulsante feminismo da época, O Otelo Brasileiro de Machado de Assis revolucionou a crítica, colocando novas questões nas possibilidades de análise de um clássico que, já então, havia sido publicado há mais de seis décadas.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Descendentes de Leonardo Da Vinci

Renata de Albuquerque

leonardo-da-vinci-retratoOs pesquisadores italianos Agnese Sabato e Alessandro Vezzosi anunciaram em abril a descoberta de descendentes da família do gênio Leonardo da Vinci.

Até então, acreditava-se que a família poderia ter sido extinta, mas as pesquisas, que começaram na década de 1970, mostraram o contrário. Segundo informações, foram encontrados 35 descendentes do autor de Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci.

Como o artista italiano não teve filhos, os descendentes são da linhagem de seus irmãos e irmãs. Os pesquisadores conseguiram reconstituir sua árvore genealógica e identificar sepulturas de familiares de Da Vinci com a ajuda de documentos encontrados em igrejas e em registros prediais.

Teatro é fantasia

Por: Milena O. Cruz e Renata de Albuquerque

No dia 27 de março comemora-se o Dia Mundial do Teatro. Para lembrar a data, O Blog da Ateliê entrevista Ana Maria de Abreu Amaral. Ela é Professora Titular de Teatro de Animação na ECA/USP, onde orienta pesquisas em pós graduação ligadas ao teatro de bonecos ou teatro de animação. Também é diretora do Grupo O CASULO – BonecObjeto e autora dos livros: Teatro de Formas Animadas, Teatro de Bonecos no BrasilO Ator e seus Duplos e Teatro de Animação (em processo final de tradução para o inglês, para ser editado por uma universidade dos Estados  Unidos), além do livro de poesias Rupturas – poemas em busca de um eixo. Acompanhe:

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Por que se interessou pelo teatro de animação?

Ana Maria de Abreu Amaral: A princípio, foram duas razões. Meu primeiro emprego foi numa  das bibliotecas infantis da Prefeitura de São Paulo, num bairro além da Freguesia do Ó (Cruz das Almas)  em que  poucas  crianças sabiam ler, ou quem lia  engolia logo os poucos livros disponíveis. D. Lenira Fracaroli,  idealizadora, diretora e organizadora dessa rede de bibliotecas infantis em bairros distantes, teve a ideia de nos oferecer, na sede, um curso rápido de uma semana sobre  construção de fantoches, e com isso a atitude das crianças mudou drasticamente. O interesse das crianças pelo teatro improvisado despertou e mudou totalmente  a atitude delas na biblioteca e o interesse pelos livros. Foi  incrível a mudança. Mas  acabei me cansando pela distância, quase ausência de transporte e pedi transferência para uma seção da Biblioteca Central.

Nessa época, antes de tudo, nem livros nem bibliotecas  me interessava. Tudo  que eu lia e vivia era poesia.  Convivia com os poetas jovens da época e a poesia era para mim então fundamental. Entre 1957 e 1960 publiquei  SINCOPE, depois Eu Inconcluso, depois Viagem ao Redor do Espelho, estimulada pela incrível saudação de Sergio Milliet e outros críticos e/ou poetas,  recebendo outras ótimas críticas. Mas foi um tempo curto. Por razões inesperadas, acabei indo para Nova Iorque. Trabalhei alguns meses na biblioteca de  Brooklin, depois na Biblioteca da Nações Unidas. E fui ficando, esquecida de voltar.

Mas… do inesperado surgiu um impacto. Foi quando os bonecos surgiram.Vieram vindo um dia pela 5ª Avenida acompanhados de máscaras, atores, tambores. Foi assim que o Bread and Puppet entrou na minha vida. Bonecos incríveis, enormes, tomando toda avenida, tristes, de branco e negro vestidos, em protesto mudo contra uma guerra que eu nem tinha até então noticia, a guerra do Vietnam. Foi assim enfim que o teatro de bonecos entrou de vez na minha vida. Tímida e queda, por curiosidade, sempre que podia ia ajudar a colar papel ou cellastic nas máscaras ou bonecos políticos de Peter Schumann que com suas incríveis esculturas e personagens enormes protestava já contra a  então  guerra do Vietnam. Essa foi a mudança da minha vida: boneco em teatro para adultos ou crianças por alguma razão virou paixão. Entrei nessa.  Aluguei um quase porão e passei a ter um ateliê onde confeccionávamos e ensaiávamos, pois cheguei a formar um grupo. Lá estreei meu primeiro espetáculo para adultos, político, e sobre um fato real: Palomares.  E assim mudou  minha vida. Até hoje.

Depois de 15 anos em  Nova Iorque, com dois filhos, achei melhor voltar, pois não queria que eles deixassem de ser e viver o Brasil.  Voltei de vez. Passei a dar aula na ECA/USP, achei fundamental ajudar a formar bonequeiros. E essa é minha família, até hoje.

 

Esta é uma modalidade destinada apenas ao público infantil ou também ao adulto?

AMAA: Antes  de tudo acho que arte, teatro, pintura, não tem idade. Não vejo diferença alguma entre teatro para e com crianças ou adultos. As crianças são mais sensíveis, mas por isso mesmo a gente precisa ter em relação a elas mais sensibilidade, pois nem tudo é bom para as crianças. E por influência de Peter Schumann [fundador do Bread and Puppet Theater] passei a entender e a falar com os adultos através de bonecos, de máscaras; mais tarde, usando objetos, formas abstratas que tanto crianças quanto adultos entendem e por meio das quais percebem melhor o sentido das coisas que nos rodeiam e não chegam só através das palavras, mas das formas, do choro, do medo, da fantasia e do riso.

Não há diferenças quando o meio que usamos para nos expressar – seja uma figura humana, um ator ou um boneco, uma forma inusitada ou uma pedra, um fio fino e sutil, um rosto – nos transmite  emoção. E tudo fica muito mais amplo ou complexo.

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A introdução do livro Teatro de Animação diz que esse teatro tem se desenvolvido extraordinariamente. A que isso se deve?

AMAA: Acho que muita coisa muda quando se deixa de usar em excesso as palavras, apesar que as palavras podem ser também poéticas,  mas nem sempre… pois uma forma  ou figura, às vezes, fala muito mais.

O livro diz que o teatro de animação, por falta de parâmetros, muitas vezes é ignorado pela crítica especializada ou apresentado como inusitado. Nesse sentido, quais são os principais parâmetros para avaliar o teatro de animação?

AMAA: Não consigo definir esses parâmetros, mas o que existe  é pouco teatro bom de animação no palco. Ou há dificuldades de entrar e se manter em  cena, ou muito preconceito contra, quando o que mais aparece não é fruto de experimentação, busca ou pesquisa.

 

Fale, por gentileza, sobre as experiências que o teatro de animação proporciona ao público.  

AMAA: Teatro é fantasia. Acho que o bom é tudo que não é muito real. Ou quando não é resultado de pesquisa. E quando vai além do racional não é entendido. Mas se perturba é porque é bom, seja ele real ou poético.

 

Em um mundo em que as crianças se interessam cada vez mais cedo por produtos tecnológicos como tablets e celulares, o teatro de animação tem um desafio frente a esse público?

AMAA: O teatro de animação é, antes de tudo,  não realista. Mas, me parece às vezes que o que se está perdendo em meio a muita tecnologia é a poesia.

 

O lúdico perdeu lugar entre esse público ou não?

AMAA: Qual publico? O bom seria não se fazer muita distinção entre crianças, poetas, loucos e adultos. Ou que os adultos gozassem mais com fantasias.

 

Como enfrentar esse desafio? Como despertar o interesse das crianças nesse contexto?

AMAA: Acho que mais importante é despertar a criança que existe (ou existiu) nos adultos. E manter sempre vivo o lúdico e não levar a vida ou o dia-a-dia muito a sério.

Conheça outros livros que a Ateliê publicou sobre teatro 

Fuvest e Unicamp já divulgaram listas de obras obrigatórias

Renata de Albuquerque

A Fuvest e a Unicamp já divulgaram a lista de obras para leitura obrigatória do vestibular 2017. Na lista, estão clássicos como Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), O Cortiço (Aluísio Azevedo) e Iracema (José de Alencar).

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Pacote especial com 04 livros de leitura obrigatória da Fuvest 2017

A grande dificuldade, para quem vai prestar vestibular, é entrar em contato com essas obras clássicas, escritas há tanto tempo e tão distantes da realidade contemporânea. Por isso, na Coleção Clássicos Ateliê, além de textos fieis aos originais, cada título traz uma apresentação escrita por um especialista, que ajuda o leitor a entender a importância de cada livro.

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Pacote especial com 04 livros de leitura obrigatória da Unicamp 2017

Para melhorar, o pacote  Livros para Fuvest  e o pacote de  Livros para Unicamp está sendo vendido com desconto!

Veja a lista completa de livros da Fuvest 2017
Veja a lista completa de livros para Unicamp 2017

O Diário de Bordo do Velho Chico: um roteiro da vida real

Por: Renata de Albuquerque

Autora de O Velho Chico ou A Vida É Amável – livro homônimo à novela das 21h da Rede Globo, que estreia hoje, Dirce de Assis Cavalcanti diz que a viagem que fez na região, durante os anos 70, foi “um divisor de águas”. A sinopse e o enredo do livro O Velho Chico foram escritos a partir de uma experiência marcante, cheia de personagens, símbolos e histórias inesquecíveis. Acompanhe abaixo o que a autora diz sobre essa experiência:

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Como teve a ideia de escrever o livro O Velho Chico?

Dirce de Assis Cavalcanti: A viagem pelo Velho Chico a fiz a trabalho. Era, na época, Diretora do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, em Brasília, e decidimos fazer uma exposição com as Carrancas do rio São Francisco.

Qual a importância das carrancas no enredo do Velho Chico?

DAC: Preciso dizer que é o único rio do Brasil em que existiram, nasceram, procriaram, a princípio surgidas das mãos e da imaginação do velho Guarani, que “retirava do mato o pau que já vinha pronto”, como ele contava, e então era só ir descascando a cara, os dentes, a cabeleira, e a carranca pronta, primeiramente utilitária, depois ornamento, se tornava um símbolo, o símbolo do Velho Chico.
Destinadas a assustar os monstros aquáticos que os caboclos tanto temiam, eram colocadas na proa das embarcações, e quanto mais ameaçadoras fossem, melhor cumpriam sua missão.

A novela Velho Chico, que estreia hoje, tem o mesmo cenário de seu livro. Por que acha que essa região é tão marcante?

DAC: Para mim, como relato no “diário de bordo”, a vida se dividiu entre o antes e o depois do São Francisco. Conhecer aquela gente extraordinária na sua pobreza, no asseio de suas casas de chão de barro liso, como que encerado, na sua generosidade, coragem e simpleza, foi um presente dos céus. Sobretudo a população mais distante do mundo, na margem esquerda, é muito surpreendente. Uma mulher alta e magra, como eu conto no livro, que ia pagar promessa em Bom Jesus da Lapa para que lhe curasse uma papeira, me deu o significado da vida, numa frase, dita depois de contar tantas misérias por que passou, a perda do marido e de onze filhos por doença e má nutrição, ela, Ambrosina, me disse: …”mas a vida é amável, não é dona menina?”

Não vou dizer mais nada, está tudo no livro…

Raduan Nassar concorre ao Man Booker Prize

Por Renata de Albuquerque

Raduan Nassar foi indicado ao Man Booker International Prize, um dos mais importantes prêmios literários do mundo. Sua obra A Cup of Rage (tradução de Stefan Tobler para Um Copo de Cólera), publicado pela Penguin Modern Classics, foi uma das treze escolhidas pela comissão julgadora em um universo de 155 títulos participantes.

Esta é a primeira vez que obras traduzidas concorrem á premiação e, apesar de Um Copo de |Cólera ter sido lançado em 1978, só recentemente foi traduzido para o inglês, o que permitiu que participasse da seleção do Booker Prize. A lista final de concorrentes, com apenas seis títulos, será divulgada em 14 de abril e o vencedor será conhecido em 16 de maio. O prêmio vai pagar 50 mil libras, valor a ser dividido entre autor e tradutor.

Raduan Nassar tem apenas três obras editadas em livro. Além da novela Um Copo de Cólera, publicou o romance Lavoura Arcaica e o conto Menina a Caminho. Apesar de pequena, sua obra é uma das mais interessantes e singulares da literatura nacional do século XX. Tanto assim que é objeto de diversos estudos  críticos, entre eles Porvir que Vem Antes de Tudo: Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo.

 

Velho Chico: um rio, uma novela, um livro

Por Renata de Albuquerque

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Título da nova novela das 21h da Globo, Velho Chico é muito mais que isso. É também a maneira como as pessoas da região chamam o rio, com uma intimidade incomum. Mas isso talvez tenha explicação: parece que a história daquelas pessoas não poderia ser escrita sem que o Rio São Francisco existisse. E é isso que Dirce de Assis Cavalcanti retrata nas páginas de seu livro O Velho Chico ou A Vida É Amável.

O livro, homônimo da nova novela, é o relato de uma viagem da autora pelo Rio São Francisco feita na década de 70 – a mesma época em que a história da novela se inicia. Mas a novela é explicitamente uma obra de ficção, com um enredo que mistura rixas familiares, amores proibidos e um grande elenco, que conta com Tarcísio Meira, Rodrigo Santoro e Antonio Fagundes, entre outros. Na sinopse de Velho Chico, também há espaço para um fundo histórico (a construção de uma hidrelétrica faz parte da trama).

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Já o livro de Dirce de Assis Cavalcanti é “um relato factual, mas cheio de poesia”, como definiu José Mindlin, no prefácio da obra. O livro mistura relatos do que a autora testemunhou durante sua viagem com impressões, pensamentos e emoções do que sentiu ao visitar o lugar e conhecer os habitantes do local.

O Velho Chico já seria uma leitura atraente, mesmo que se limitasse à descrição dos lugares que visitou (…) Mas foi além, pois soube fazer ressaltar o interesse humano do variado tipo de pessoas e vidas com que teve contato. Tudo isso (…) constituiu apenas uma parte do livro – a viagem exterior. Houve, porém, outra viagem, paralela, que Dirce conseguiu entremear com a primeira – uma viagem interior, que surpreende e impressiona, e que mantém sempre aceso o interesse do leitor”, escreve José Mindlin.

Um exemplo disso é um curto trecho ainda no início do livro, em que a autora escreve:

“A estrada e o rio. Uma caindo no outro de repente. Nos braços do outro. De repente: o rio. Sem se anunciar. Nem barrento, como diziam. Vestido de azul, à espera. Apressado e cantador. Por entre as pedras, corredeiro. Mesmo assim à espera.”

É nessa prosa cheia de imagens poéticas de Dirce de Assis Cavalcanti que o Rio São Francisco se desenha, aos poucos, mais personagem que paisagem. Um personagem fundamental para a existência das pessoas cuja relação com o rio é tão íntima que o chamam pelo familiar apelido de Velho Chico.

A nova novela Velho Chico não é baseada no livro de Dirce de Assis Cavalcanti, mas certamente guarda muitas semelhanças com ele: a paisagem, os personagens regionais, a beleza e a complexidade da vida local são ingredientes inescapáveis, tanto na sinopse da ficção quanto no relato da realidade. Dizem que a arte imita a vida – e a nova novela da Globo deve usar muitos elementos reais em seu enredo. Mas, no livro O Velho Chico ou A Vida É Amável, o que se pode perceber é que a autora consegue captar com poesia a realidade daquela região do Brasil. Se você já leu o livro, deixe seu comentário!

Agora é científico: quem lê é mais feliz que quem não lê

Por Renata de Albuquerque

meninalendo

“O leitor tem a chance de viver a vida de muitos personagens”; “Quem lê, viaja sem sair do lugar”. Você já ouviu ou leu essas frases, com certeza. A sensação de felicidade que um leitor experimenta – e que era difícil de comprovar, porque só quem lê é que sente – deixou de ser empírica e agora pode ser comprovada cientificamente.

Pesquisadores da Universidade de Roma 3 (Itália), fizeram uma pesquisa com 1100 pessoas e concluíram que quem lê é mais feliz. No estudo, intitulado The happiness of reading, eles escrevem: “Leitores, na Itália, encaram a vida em uma perspectiva mais positiva, em comparação com não-leitores e sabem como aproveitar seu tempo livre de uma maneira mais enriquecedora e mais cheia de propósitos”.

O estudo se restringiu à população italiana. Mas alguém discorda que isso vale para todas as partes do mundo?

 

 

Ateliê fecha 2015 com poesia

Por Renata de Albuquerque

2015 foi um ano cheio de dificuldades: econômicas, políticas, sociais. Mas, como disse Nietzsche, “nós temos a arte para não sucumbirmos junto à verdade”. Por isso, a Ateliê resolveu apostar na poesia para celebrar o final do ano e presenteia seus leitores com três obras que, se não são feitas apenas de versos, tecem-se de poética, criam imagens cheias de significações transcendentes e fazem da linguagem uma ferramenta lúdica de fruição:

 

Desconhecer, Ricardo Lima

desconhecer

Obra contém 40 poemas, escritos ao longo de três anos – todos sem título, sem tema definido e em letras minúsculas. Isso porque, para o autor, o mais importante é a unidade formada por todos eles. “No caso dos meus poemas penso que títulos seriam limitadores, pois iriam sugerir uma leitura, direcionar a interpretação. Além disso, como os poemas são sempre curtos, a inexistência de títulos possibilita uma leitura mais ininterrupta do livro, como se fosse um grande poema”.

Poema da página 11 de Desconhecer

nasci para cultivar

mundo

que não verei

 

neto do meu filho

cidadezinha asiática

sombra de algumas sementes

 

nasci para cultivar uma encosta

com floresta.

 

 

 

Girassol Voltado para a Terra, Renato Tardivo

grassol

A intenção de Tardivo era a de que seu terceiro livro de ficção fosse um romance. No entanto, ele explica, frases curtas, enredos concisos, mistérios cotidianos e existenciais foram surgindo.Depois de entrar nas redes sociais, diz, passou a se interessar pelo exercício da comunicação imediata e concisa.“Há um ou outro poema também, mas, em que se pese a transgressão de gênero, considero que se trata de um livro escrito em prosa”, define.

Metamorfose

Ela arrancou o texto à unha, enrodilhou-se em suas

frases. Envergonhadas, letras escorriam – como lágrimas –

das pernas.

 

Porta-retratos, Marise Hansen

portaretrato

Com apresentação de Ricardo Aleixo e quarta-capa escrita por Arnaldo Antunes, Porta-retratos é a estreia de Marise Hansen na poesia, que compila poemas escritos entre 2011 e 2014. Os temas variam: a lua, a solidão, o amor, a espera, o tempo, o mar, os mitos, mas costumam, em comum, estabelecer estreito vínculo com imagens, vistas sob novas perspectivas. “Muitos de meus poemas surgem de imagens, de momentos, de flagrantes. Gosto do ato de enquadrar, de encontrar ângulos, expressões de rosto, paisagens, contrastes e luzes”, esclarece a autora.

Peso Leve

Pesa

Transitar entre o invisível

Tanto quanto pesa

Esta poesia substantiva,

Tangível.

 

 

Esta poesia substantiva

De coisas e verbos

No infinitivo

Em que o tangível

É tão – e só –

Infinito.

 

Preconceito racial?

Por: Renata de Albuquerque*

 

O dia 20 de novembro foi escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra em 2003. A data lembra a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, que aconteceu em 1695. Há quem diga que lembrar a data com um feriado não é necessário,  já que o Brasil é um país de mestiços e que a escravidão acabou há muito tempo. Mas será que não há mesmo racismo no país que foi o último de seu continente a abolir a escravidão, em 1888?

O preconceito no Brasil é tão forte que até mesmo Machado de Assis foi vitimado por ele. O escritor carioca, que fundou a Academia Brasileira de Letras e é considerado um dos mais importantes autores brasileiros, passou por um processo de  “embranquecimento”.

No início do século XX – Machado morreu em 1908 – ainda era vigente o pensamento segundo o qual os negros não eram capacitados para o trabalho intelectual. Machado de Assis, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira de origem portuguesa, era descendente de escravos alforriados. Mas, para torná-lo um exemplo, um modelo brasileiro, foi preciso “branqueá-lo”.

Machado de Assis por volta dos 25 anos

Machado de Assis por volta dos 25 anos

A "foto oficial" de Machado de Assis

A “foto oficial” de Machado de Assis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até mesmo o atestado de óbito do escritor carioca afirma que ele era branco, ainda que sua máscara mortuária ateste o contrário. A foto “oficial” de Machado ameniza os traços africanos que ele pudesse vir a ter. Uma depuração que foi possível graças a uma prática comum de então: a reaplicação de produtos químicos para reavivar os traços das imagens. O cabelo alisado e esbranquiçado, a pele clareada; o nariz mais afilado; os lábios escondidos por barba e bigode, para parecerem mais finos na foto de perfil.

Em 1939, em pleno Estado Novo, comemorou-se o centenário de Machado de Assis. A Ditadura Vargas aproveitou a oportunidade para fazer dele um mito nacional. A exposição “Machado de Assis” foi organizada pelo Instituto Nacional do Livro (INL). Estreou o  filme Um Apólogo – Machado de Assis, de Humberto Mauro, realizado pelo Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE). Fotos de Machado “branqueado”  passaram a enfeitar escolas recém-inauguradas e sua imagem passa a ilustrar moedas de 500 réis.

Houve um tempo em que nem mesmo a qualidade literária daquele que muitos consideram o maior escritor brasileiro de todos os tempos não era suficiente para deixar a questão da cor da pele em segundo plano. Recentemente, em 2011, quando muitos achavam que o racismo era uma questão superada, a propaganda de um banco retratou o escritor por meio de um ator de pele branca.

O racismo ainda é uma triste realidade que ainda é preciso combater.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de si: o querer e o poder de personagens femininas nos primeiros contos de Machado de Assis.

 

Conheça as obras de Machado de Assis publicadas pela Ateliê

Conheça as obras sobre Machado de Assis publicadas pela Ateliê