Renata de Albuquerque

16/06: Bloomsday

Por Renata de Albuquerque

Todo dia 16 de junho é celebrado por quem é apaixonado por literatura e livros. Nesse dia é comemorado, ao redor de todo o mundo, o Bloomsday. Instituída na Irlanda, a data homenageia Leopold Bloom, o protagonista de Ulisses, de James Joyce, que durante o dia 16 de junho de 1904 revive em Dublin, a clássica odisseia de Homero.

Mas, Leopold Bloom vive sua odisseia em um romance realista, ambientado no século XX. As figuras mitológicas são representadas por pessoas comuns e as batalhas épicas são episódios do dia a dia. Nem por isso o livro é menos interessante. As experimentações estéticas e de linguagem que Joyce propõe em Ulisses ainda fazem deste um dos livros mais instigantes da história da literatura. Alguns o consideram hermético, complexo e difícil de ler. Outros, o tomam como um desafio.

“Joyce Era Louco?” enfoca a obra do escritor irlandês

A complexidade da obra de James Joyce é tamanha que ela talvez seja uma das mais estudados do mundo. Ulisses foi construído com recursos até então inéditos – mas posteriormente usados largamente na ficção moderna – como o discurso interior, a fragmentação da estrutura do romance e a alternância do foco narrativo.

Antônio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo traduziram a obra para o português. São trabalhos hercúleos, cujo legado é a possibilidade de cruzar referências e oferecer ao leitor como um todo um panorama riquíssimo daquilo que, para muitos, é “intraduzível”.

Não há uma data exata que marque o início das comemorações do Bloomsday. A  celebração do “Dia de Bloom” pode ter começado em 1924 ou 1925, quando amigos de James Joyce – que lançara o livro em 1922 – fizeram uma festa para o escritor, que, então, passava por dificuldades. Outra versão indica que a data passou a ser lembrada no fim dos anos 40, após a morte do irlandês. Mas, a hipótese mais aceita dá conta de que a celebração tenha se iniciado em 1954, data do aniversário de 50 anos do dia retratado no romance.

O fato é que o Bloomsday é hoje celebrado pelo mundo todo, com leituras de trechos do livro, em festas com encenações e bebida. Enquanto isso, James Joyce continua instigando leitores e críticos com sua obra universal.

Conheça alguns títulos sobre James Joyce

Arabia Brasilica: o fio da memória costurado por Raduan Nassar, Milton Hatoum e Salim Miguel

Por: Renata de Albuquerque

Sem ter formação arabista, o italiano Alberto Sismondini, nascido em Ventimiglia, aproximou-se da cultura do Oriente fazendo um movimento parecido que o levara, na juventude, a aproximar-se da França, país fronteiriço à sua cidade natal. “Para ter a percepção de não estar a apodrecer no recanto mais recôndito da província italiana, era preciso ser bilíngue”, afirma. Foi por sentir falta de estar próximo de uma cultura “tão importante quanto a francesa” e por ler a literatura de autores libaneses francófonos que fez contato mais próximo com a cultura árabe.

Esta familiaridade o levou a conhecer a literatura de autores como Salim Miguel, Raduan Nassar e Milton Hatoum, que se tornaram seu objeto de estudo no livro Arabia Brasilica. A seguir, Alberto Sismondini, que é Mestre e Doutor em Literatura Comparada e Tradução Literária pela Universidade de Siena, subdiretor do Centro de Línguas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Membro do Centro de Literatura Portuguesa da mesma Universidade desde 2006, fala sobre sua obra:

 

Alberto Sismondini

O que despertou seu interesse no estudo da cultura árabe?

Alberto Sismondini: Não tenho uma formação de arabista. De alguma forma, quando já vivia em Coimbra, estava a ressacar  com a falta de uma cultura de proximidade tão importante como a francesa. Gosto do francês e  das marcas da cultura francesa impressas no imaginário colectivo global, daqueles signos que Annie Ernaux aproveita nas suas narrativas, tal como uma ferramenta para revigorar a memória dos leitores e desta forma criar uma atmosfera empática de partilha de eventos. Acho que a literatura francesa viveu uma fase de franca popularidade ao virar do século, melhor dizer, do milénio, como puderam testemunhar as recentes atribuições do prémio Nobel a Le Clézio, a Patrick Modiano, além do naturalizado francês Gao Xingjian. Em Itália e Portugal, autores como Daniel Pennac, Muriel Barbery e Amélie Nothomb vendem bem.  Pela prática do francês, isto é ler livros de autores francófonos, conheci os trabalhos de Amin Maalouf, Sélim Nassib e, a seguir, os de Farjallah Haïk, autores libaneses que escolheram o francês como língua de comunicação literária. Nessa altura lia os trabalhos de Yasmina Traboulsi publicados pela «Mercure de France».Pois, o Líbano é considerado em França um país importante, o filho varão da francofonia; os jovens libaneses desde sempre eram considerados campeões em «dictée» , o ditado francês, um autêntico rito de passagem na aprendizagem da língua. Conhecia o Líbano como importante centro editorial do Oriente Médio. No início, confesso, a aproximação à cultura árabe deu-se pela francofonia. A seguir, veio a leitura morosa das Mil e uma noites na primeira tradução italiana do árabe, coordenada por Francesco Gabrieli, um bem conseguido projecto da editora Einaudi (1948). As Mil e  uma noites representam a meu ver um autêntico tratado de cultura árabe clássica.  Sinto-me também grato para com os colegas  da Universidade de São Paulo que, pelo seus escritos, me iniciaram de forma acádemica,  Safa Jubran, Michel Sleiman e Mamede Jarouche, este último com a sua própria tradução de alto cariz filológico das Mil e uma noites …

O que o levou a estudar a obra de Raduan Nassar, Milton Hatoun e Salim Miguel? Como se deu essa escolha?

AS: Uma autêntica epifania literária: Milton Hatoum apareceu em Coimbra na quarta-feira de cinzas de 1999 a apresentar a edição portuguesa do seu Relato de um certo Oriente. Foi um deslumbramento, o exotismo amazonense sobreposto ao exotismo orientalista,tudo redigido numa língua tão elevada! A seguir, foram publicados em Portugal Lavoura arcaica e Um copo de cólera de Raduan Nassar e Dois irmãos de Milton. Deu vontade para ler mais:relembro também de ter conseguido arranjar em Lisboa um exemplar brasileiro do Menina a caminho.

Enquanto no Brasil se  aproximavam as celebrações dos 500 anos da carta do achamento, surgiu Nur na escuridão de Salim Miguel, fiquei intrigado e avancei para ter mais bibliografia dele… e a consegui ter. Quem muito me apoiou nessa procura foi a docente de Literatura Brasileira  em Coimbra, Maria Aparecida Ribeiro.

Arabia Brasilica reúne três autores cujas escritas são, a princípio, muito singulares. O que os liga ou aproxima em termos literários? Por outro lado, o que os distingue? 

AS: Acho que todos foram grandes consumidores de literatura na fase da sua formação.  Um elo comum a meu ver existe e é representado por um trabalho constante com a memória. Salim exerce o seu magistério de escritor expressando a memória da imigração no país  ou de eventos marcantes da história nacional (p. ex. o Golpe de 1964) com a linguagem polida e eficaz de jornalista. É natural que a história da diáspora libanesa ao Brasil seja por ele celebrada em Nur na escuridão. Em Raduan Nassar , cujo Lavoura arcaica foi traduzido em francês com o título La Maison de la mémoire, tal como em Milton Hatoum a memória passa por um processo de ficcionalização da realidade, aqui vislumbram-se as tais leituras da fase de formação: muitos dos meus “queridos franceses” mas também, para Raduan,  Almeida Faria e a sua A Paixão.    De Salim Miguel é bem salientar o papel importante que ele teve em publicar autores da África lusófona  censurados pela mordaça salazarista e impossibilitados de publicar no seu país.

Qual a importância, em sua opinião, de trazer à tona a cultura árabe dentro do contexto brasileiro?

AS: O Brasil é terra de acolhimento desde sempre, cerca de 7 milhões de Brasileiros têm  ascendentes árabes e certas práticas estão bem disseminadas: se alimentar-se é um acto cultural, então é só consumir uma refeição  a base de quibe e esfirra numa lanchonete qualquer do país e podemos afirmar que  todos  os brasileiros «praticam» a cultura árabe.

O Brasil sempre foi um país com tradição de acolher imigrantes. Atualmente, por conta da grande tensão e das guerras no Oriente Médio, há uma onda de imigração bastante forte de pessoas que fogem de seus países para virem ao Brasil. Em sua opinião, essa receptividade histórica continua viva ou há preconceito contra os recém-chegados? 

AS: Quando se fala de imigração no Brasil, logo penso em Graça Aranha e o seu Canaã, repetidamente citado por Salim Miguel no seu Jornada com Rupert. A dialéctica entre Milkau e Lentz voltou à tona, também no Brasil. Há dois anos, após uma conferência, cujo tema era a imigração italiana em São Paulo, um simpático casal catarinense confessou o seu desassossego em ver grupos  de migrantes económicos haitianos serem deslocados para o sul do Brasil… A migração de grupos coesos pobres que até podem subverter a ordem institucionalizada de um território, cria espanto, o mesmo que o Drummond criança, em Minas,  sentia a ouvir os turcos falar uma língua desconhecida ( que ele chama de «língua-problema») jogando cartas “com alaridos”. Acho seja uma questão antropológica de posse de espaços. A intolerância surge entre quem está incumbido a partilhar espaços com comunidades de estrangeiros recém-chegados, daí as piadas, cultura oral transcrita para folhetins, que no século passado vitimaram no Brasil  carcamanos, turcos, portugas… A alta cultura não tem medo da miscigenação, mas quem faz alta cultura institucionalizada não mora nas favelas, nem nos bairros onde mora o povão…

Ainda há ganhos/trocas culturais novas que podem ser verificadas nesta nova onda de imigração? Quais? 

AS: Acho que sim, muitos dos novos imigrantes vindos do Oriente Médio têm formação secundária o até superior e poderão contribuir a enriquecer a sociedade e a economia brasileiras, com projectos inovadores.

De alguma maneira a literatura pode atenuar as diferenças entre as duas culturas ou, por outro lado, ela as aprofunda? Em outras palavras, os autores estudados pelo senhor são profundamente brasileiros e profundamente árabes ou essas características são excludentes? Como isso acontece?

AS: Estamos a falar de autores profundamente brasileiros. Ninguém dos três  teve ou tem conhecimentos aprofundados da fala árabe. A questão das origens não interferiu com a plena adesão à cidadania brasileira, cujo resultado, a partir da segunda geração de migrantes, é a perda da fala de origem dos antepassados. Isso acontecia no antigamente, agora as novas gerações tenham mais recursos, devido à globalização.  No meu livro apenas defendo a inserção de formas narrativas orientais, de padrões artísticos presentes seja na cultura do Levante  como na dos autores libaneses francófonos analisados  (Maalouf, Nassib, Haïk) em paralelo com os brasileiros.

A arquitetura muito além da invenção de Oscar Niemeyer

Por Renata de Albuquerque

Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer, obra organizada por Ingrid Quintana Guerrero e Paulo Bruna e recém-lançada pela Ateliê Editorial, traz ao público textos com análises sobre pontos da criação do arquiteto carioca que parecem esgotados, mas não estão: sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latino-americana. Autor do ensaio “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, que faz parte do livro, o Professor Livre-Docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) Rodrigo Queiroz fala hoje sobre a contribuição que a obra pode dar ao público:

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

Rodrigo Queiroz: Os quatro ensaios abordam aspectos fundamentais para a devida compreensão da obra de Oscar Niemeyer. Por se tratar de uma obra vastíssima e cercada pela ideia – dada pelo próprio arquiteto – de que “arquitetura é invenção”, a compreensão da dimensão histórica dessa obra tão importante, por vezes, acaba sendo eclipsada pelo mito da criação, da originalidade e da invenção. Na verdade, como qualquer outro grande arquiteto, Niemeyer possui um procedimento de trabalho e uma estratégia projetual que nos permite compreender o pensamento de um dos maiores nomes da arte e da arquitetura moderna.

É evidente que quatro ensaios não têm o objetivo de esgotar um tema que permite infinitas interpretações. Contudo, os ensaios aqui publicados abordam justamente aspectos ainda pouco discutidos sobre Niemeyer e sua obra.

O ensaio assinado pelo Prof. Paulo Bruna, “A obra de Oscar Niemeyer em São Paulo”, como o próprio nome já diz, discorre sobre os projetos de Niemeyer construídos em São Paulo, com destaque para os edifícios de habitação e escritórios localizados na região central da capital paulista. É possível perceber nesses projetos o apuro de Niemeyer na implantação dos edifícios, assim como a precisa relação com o contexto da cidade existente, aspectos pouco abordados nas obras de arquitetos pertencentes ao movimento moderno, invariavelmente lidos pela chave da forma abstrata que se sobrepõe ao contexto, à memória e ao tempo da cidade histórica.

Já Hugo Segawa, em “Entre dois pavilhões: a repercussão internacional de Oscar Niemeyer”, dedica-se à análise do impacto internacional da obra de do arquiteto carioca. Trata-se de uma reflexão importante pois nos permite compreender a recepção do ambiente estrangeiro à obra de Niemeyer, assim como seu reconhecimento internacional como um mito da arquitetura moderna.

Em “O espaço sagrado em Oscar Niemeyer e alguns desdobramentos na América Latina”, Ingrid Quintana Guerrero aborda os templos religiosos projetados por Niemeyer. Se uma das principais premissas da arquitetura moderna foi justamente a negação do caráter simbólico inerente à sua função, é natural imaginar que o tema do templo religioso sempre foi visto como um tabu pelo movimento moderno, principalmente pela sua vertente construtiva. Contudo, no caso das igrejas projetadas por Niemeyer, é possível diagnosticar o diálogo do arquiteto com a história do espaço religioso, seja na Igreja de São Francisco de Assis (1943), na Pampulha, cujas superfícies remetem inequivocamente à arquitetura religiosa colonial e ao Barroco; seja na Catedral Metropolitana de Brasília (1958), onde a cúpula que historicamente iluminou das igrejas, assume a escala da própria catedral; ou como na Capela de Nossa Senhora de Fátima (1958), diálogo franco com a Capela de Ronchamp, um dos mais conhecidos projetos de Le Corbusier, mestre de Oscar Niemeyer.

Laboratório de Ensaios do Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos – CTA (1947). Fonte: Hugo Segawa

Meu texto, “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, aborda o período de transição da obra do arquiteto, durante a segunda metade da década de 1950. Trata-se de um momento no qual o arquiteto revê o aspecto compositivo dos seus edifícios e, paulatinamente, substitui as formas carregadas de elementos acessórios por formas simplificadas, cujo contorno, na maioria das vezes, define-se pela própria solução estrutural do projeto.

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

RQ: Claro que o livro se presta como um importante conteúdo para estudantes, profissionais, docentes e pesquisadores da área da arquitetura e urbanismo. Contudo, por se tratar de um personagem de conhecimento público, e pelos ensaios fugirem, em certa medida, de uma estrutura eminentemente acadêmica, parece natural que o livro desperte o interesse de um público maior que o especializado.

 

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

RQ: Sim, há uma vasta bibliografia sobre a obra de Oscar Niemeyer. Mas devemos lembrar que a imensa maioria deles é composta por títulos que não têm como objetivo se aprofundar na análise de sua obra. Invariavelmente, são livros de grandes formatos, com ricos ensaios fotográficos, que se enquadram mais na categoria de livros de arte, os conhecidos “coffe table books”. O livro “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer” vem, justamente, conferir conteúdo a um tema ainda muito conhecido e interpretado pela imagem.

 

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica? 

RQ: Sim, Niemeyer ainda precisa de uma publicação à altura de sua obra. Um livro de maior fôlego, e de perfil quase enciclopédico, uma espécie de “obra completa”. O livro “Quatro Ensaios” é um primeiro passo para a devida e merecida compreensão da obra de um dos principais personagens da história brasileira e da arquitetura moderna.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

RQ: Propositalmente, Niemeyer sempre reduziu a importância de suas obras com um discurso surpreendentemente despretensioso. A presença de suas obras no imaginário e no cotidiano do povo brasileiro faz desse arquiteto uma figura singular, sem paralelo entre seus pares, seja no Brasil ou no exterior. Cabe a nós, professores e pesquisadores de sua obra, sistematizar um conhecimento tão rico e vasto e fornecer as informações necessárias à compreensão do maior arquiteto brasileiro.

Os corpos de Joyce

Por Renata de Albuquerque

Em Joyce Era Louco?, o Professor e tradutor Donaldo Schüler discute a criação literária de James Joyce a partir dos ensinamentos de Lacan e das teorias psicanalíticas. Assim, realiza uma análise da escrita de Joyce e das significações que ela sustenta. A seguir, em uma entrevista exclusiva para o Blog da Ateliê, ele fala de seu novo livro:

O título remete a uma citação de Lacan. O senhor pode explicar brevemente ao leitor, que ainda não teve contato com o livro, qual a importância dessa referência, já que tanto para Lacan quanto na obra de Joyce a linguagem é um elemento essencial de (des)construção do sujeito e da literatura (respectivamente)?

Donaldo Schüler: A loucura é a origem, a organização vem depois, são os dois momentos salientados por Nietzsche na Origem da tragédia: Dioniso e Apolo.  Dioniso é embriaguez, a loucura dionisíaca quebra regras, ponto de partida para a  invenção artística. Apolo está ligado ao que Lacan chama “saber fazer”. O saber fazer é animado pela embriaguez originária. A embriaguez, como tema, atravessa a obra de Joyce. Dioniso desconstrói, Apolo reconstrói, duas faces da mesma invenção.

O Professor Donaldo Schüler

Como teve a ideia para o livro Joyce Era Louco?

DS: Primeiro foi a tradução do  “Ulisses”, feita por Antônio Houaiss. Como professor de grego, levei meus alunos a saltar do mundo de Homero para a turbulenta Dublin de princípios do século XX, sacudia pela rebeldia das vanguardas. Apareceram concomitantemente traduções e reflexões dos irmãos Campos. Aconteceu em Paris, nos anos 70 do século passado, um ano inteiro dedicado a Joyce pelo inventivo psicanalista Jacques Lacan. As análises de Lacan foram gravadas em fita e estenografadas. Publicações feitas por sociedades psicanalíticas em vários países, também no Brasil, despertaram interesse.  Em 2005 apareceu a versão autorizada das lições de Lacan com o título “Le Séminaire, livre XXIII”. Solicitações contínuas para destrinchar o enredado texto de Lacan levaram-me a escrever “Joyce era louco?”. O livro confronta o Seminário, livro XXIII de Jacques Lacan com a obra literária  de James Joyce. Lacan focaliza a criação literária. Entra em discussão o corpo, o psicanalista divide o corpo do escritor em duas etapas: o corpo que adquiriu nos seus anos de formação e o corpo que o escritor passou a desenvolver a partir de um momento traumático em sua juventude.  A  obra literária é o corpo em que o escritor reside. Inadequado é procurar uma biografia fora da produção literária. O corpo do escritor é o corpo que ele artisticamente produziu.

Qual seu  objetivo com esta obra?

DS: A loucura é preocupação constante de poetas, escritores e teóricos desde Homero. Psiquiatras ocupam-se com a loucura desde princípios do século XIX. A loucura mereceu a atenção de psicanalistas desde os primeiros anos do século XX. Já que psicanalistas examinam textos literários, a teoria psicanalítica não pode ser ignorada por teóricos da literatura. Meu objetivo é participar da discussão para compreender melhor a invenção literária.

O que os leitores podem esperar desta obra, sendo o senhor tradutor do escritor irlandês?

DS: A obra literária é um corpo vivo e original. Traduzido, o corpo literário passa a viver em outro espaço, em outra língua. O tradutor sente a transfiguração no ato de traduzir. Joyce revive na tradução em corpo transfigurado. A tradução participa da invenção literária. O rio narrativo que atravessa a obra de Joyce continua a fluir. O tradutor é leitor de sua própria tradução. No texto reinventado, tradutor e leitor convivem. Todo leitor é tradutor. A obra lida é reinventada na experiência do leitor. A obra terá tantos corpos quantos forem os leitores.

James Joyce

O livro será lançado durante uma exposição de arte. Como se dá essa relação entre arte, psicanálise e literatura na obra de Joyce?

DS: A artista plástica, Elida Tessler, visita a obra de James Joyce, em várias ocasiões. Destaco Claviculário e Dubling. Um dos estojos de Claviculários é dedicado à tradução brasileira do Finnigans Wake. Elida destaca palavras e as grava em chaves, mistério penetra o metal, oferecido ao olhar, ao tato. A obra literária ganha um corpo imprevisto. O mistério aproxima literatura, arte e psicanálise. Ler em cada uma dessas atividades é decifrar mistérios. Quem decifra entra no labirinto sem saída e sem centro. No labirinto caminhos confluem e se dispersam.  Em Dubling, a cidade de Dublin se alarga e se desdobra. Garrafas, destinadas a fluir no rio da vida, encerram palavras que ecoam e se duplicam em quem as experimenta.  Na obra de Joyce, todas as artes convergem.

No início do livro, o senhor cita os gregos, sendo este universo bastante familiar ao senhor, já que traduziu diversas obras de autores como Homero e Sófocles e é professor de Língua e Literatura Grega. De que maneira seu conhecimento da cultura grega o influenciou no trabalho com Joyce? Que ligações, presentes neste novo livro, é possível estabelecer entre Joyce e os gregos, já que para o próprio autor irlandês esta é uma referência essencial, como nos lembra Ulisses?

DS: Em Joyce,  sou levado aos gregos por Joyce. Os gregos fundam o Ocidente.  Ao fundar Joyce funde e confunde. Todos os séculos ressoam na obra de Joyce. Finnegans Wake é uma ópera universal, Ocidente e Oriente colidem, ressoam.  Os gregos nos ensinaram a inventar. Joyce frequenta os gregos para reinventar, ele e os artistas de sua geração e da geração que o precedeu: Wagner, Nietzsche, Salvador Dalí, Picasso, o cinema, cineastas, poetas líricos… Estamos em presença de uma nova Renascença. Esta Renascença está à altura do Renascença dos séculos XIV, XV e XVI.

A pergunta, que é título do livro, parece, em alguma medida, uma pequena provocação ao leitor. Ela tem uma resposta para o senhor? O leitor pode encontrar essa resposta no livro?

DS: Provocar (de provocare) significa chamar para fora. Obra que não provoca não é lida. A leitura nos chama para fora de nós mesmos. Toda pergunta, por lançar ao não saber, inquieta. Acomodados vivem confortavelmente, não inventam. Por que  inventar? Se estamos acomodados sobre um abismo – hipótese que não pode ser excluída – necessitamos de vozes que nos despertem para reinventar caminhos. Repousar  ofende a condição humana, só a ação humaniza.

Conheça outros livros de Donaldo Schüler

Além da ficção: livros sobre o mesmo período retratado pela nova novela das seis, “Novo Mundo”

Por: Renata de Albuquerque*

Leopoldina e D. Pedro

A nova novela das seis, “Novo Mundo”, é uma ficção que tem como pano de fundo acontecimentos históricos. É uma novela de época, mas as próprias autoras, Thereza Falcão e Alessandro Marson, avisam que o objetivo não é ser didático quanto à História do período. Como é comum na dramaturgia, estão misturadas na história de “Novo Mundo” ficção e realidade.

Na nova trama das seis, estão presentes personagens históricos, como Dom Pedro (interpretado por Caio Castro) e Leopoldina (Letícia Colin). Mas os protagonistas são os ficcionais Anna Millman (Isabelle Drummond) e Joaquim Martinho (Chay Suede). Apesar do tom ficcional, a novela pretende mostrar como surgiram traços importantes da cultura brasileira, como o famoso “jeitinho brasileiro”.

Para aprofundar-se nesse tema, vale a leitura do clássico Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e também de Era no Tempo do Rei – Atualidade das Memórias de um Sargento de Milícias, de Edu Teruki Otsuka, que mostra como o romance de Manuel Antônio de Almeida se organiza conforme uma lógica regida por conflitos interpessoais, que se manifestam no romance de maneiras diversas, mas que podem ser unificadas na noção de rixa.

 

 

Na novela das seis, a questão da língua promete gerara situações cômicas, já que a protagonista vivida por Isabelle Drummond é jovem inglesa professora de Português de Leopoldina. O tema também está em Travessias – D. João VI e o Mundo Lusófono, organizado por Paulo Motta Oliveira. Os ensaios reunidos no livro propõem-se a lançar novos olhares sobre a vinda da corte portuguesa ao Brasil, a partir de objetos e pontos de vista bastante diversificados. Os textos se inserem em um contexto atual em que se procuram estabelecer, de maneira mais efetiva, laços reais, e cada vez mais necessários, entre os Países de Língua Oficial Portuguesa.

 

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Dia da Mulher: a igualdade de gênero ainda está longe de ser uma realidade

Por: Renata de Albuquerque

 

Mais um dia 8 de março vem e mais uma vez o “Dia da Mulher” entra em pauta. Há quem diga “não queremos flores”. Talvez seja melhor dizer “queremos respeito”. Muito já foi conquistado desde que as operárias americanas morreram no incêndio da fábrica de tecidos em Nova York, no século XIX. Mas, é inegável: ainda falta um longo caminho a percorrer até que a igualdade de gênero torne-se uma realidade.

Por isso, é preciso continuar falando, ressaltando as conquistas que já aconteceram e as que ainda estão por vir. Por isso, a Ateliê Editorial resolveu dar espaço a este tema e criou a campanha “Março, Mês da Mulher”.

A ideia foi aproveitar que o mês de março é todo dedicado à poesia (14/3 é o Dia Nacional da Poesia e 21/03 é Dia Mundial da Poesia) e unir os dois temas. Por isso, em março, todos os livros de poesia estão com desconto de 35%.

Se por um lado é a chance de economizar na compra de obras de um dos gêneros literários mais queridos dos leitores, por outro, é a oportunidade de conhecer a poesia escrita por mulheres, ouvir suas vozes e o que elas têm a dizer sobre si mesmas e sua condição.

Com o avanço da sociedade, elas passam a ser protagonistas de suas próprias histórias. E, para celebrar as mulheres e a poesia, veja abaixo algumas das muitas sugestões de livros que estão com desconto especial.

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Organização: Eliane Robert Morae

De R$82,00 Por R$ 53,30

Traz uma seleção do melhor da lírica erótica desde o século XVII até os dias de hoje, com nomes como Gregório de Matos, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Álvares de Azevedo e Ana Cristina César, entre muitos outros. Os versos se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante. Lado a lado, eles se reúnem aqui para dar voz a um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

 

Debaixo do Sol

Eunice Arruda

De R$36,50 Por R$ 23,72

A poeta da “Geração de 60”,  escreve, como ela mesma diz, pela “necessidade de captar as emoções, os pensamentos e devolvê-los depois ao mundo, transformados em outra linguagem: a da poesia”. Em Debaixo do Sol, a dicção lírico-amorosa-existencial continua a se destacar. A partir de uma escrita sintética, a poeta fala da condição humana, abraçada na comunhão com o outro e com o mundo.

 

Feito Eu

Elisa Nazarian

De R$31,00 Por R$20,15

Ao abrir as portas da memória autobiográfica, a escritora resgata o mais íntimo que existe em todos nós: o campo dos afetos. Sem rodeios nem melodramas, ela nos conduz delicadamente a esse universo tão particular quanto universal, sem o qual não nos saberíamos humanos. Em Feito Eu, ela trata dos momentos cotidianos, às vezes perturbadores, e explora o amor no que ele tem de mais visceral e doloroso. Seu verso, límpido e pungente, consegue ser confessional sem se tornar piegas.

 

Hipóteses de Amor

Annalisa Cima

De R$63,00 Por R$40,95

Uma das mais importantes poetas italianas da atualidade, teve o volume Ipotesi d’Amore  originalmente publicado em 1984 e depois traduzido por Alexandre Eulálio, amigo da escritora, e pelo poeta Ivo Barroso. Seus poemas, de intensa dramaticidade, falam principalmente de amor e amizade. Esta edição bilíngue, organizada por Maria Eugênia Boaventura e pelo próprio Ivo, traz também um conjunto de cartas trocadas entre Annalisa e Alexandre, além de um posfácio escrito por ela.

 

E tem muito mais em nossa seção de Poesias.

Ao finalizar sua compra digite o cupom “poesia” que o desconto será aplicado em todos os livros de poesia, exceto nos livros que já estiverem em promoção no outlet e pacotes promocionais.

Clássico, “O Ateneu”, de Raul Pompeia, ainda instiga leitores do século 21

“O Ateneu”, de Raul Pompeia, foi lançado há mais de um século, mas ainda instiga e provoca os leitores. A obra carrega em si características de diversas manifestações artísticas, como realismo, impressionismo e expressionismo, que se evidenciam no romance de dimensão autobiográfica do autor, Raul Pompeia, publicado pela primeira vez em 1888. Se, na época, ele foi recebido com estranhamento pela crítica, ainda hoje intriga leitores. Por isso, a Ateliê lança uma nova edição do clássico, com apresentação e notas de Emília Amaral, professora de Literatura e Doutora pela Unicamp, que fala ao Blog da Ateliê sobre o clássico:

 A edição traz ilustrações feitas pelo próprio Raul Pompéia. Ele era reconhecidamente um bom desenhista? Como essas imagens foram selecionadas para esta edição?

 Emília Amaral: Raul Pompeia era, sim, reconhecidamente, um excelente desenhista. Fazia caricaturas incríveis, e isso tem tudo a ver com a forma magistral como caracteriza seus personagens. As imagens desta edição são as mesmas feitas e escolhidas pelo autor desde a primeira edição da obra.

 

Esteticamente, quais são as inovações propostas por “O Ateneu”?

EA: Ele combinou de maneira brilhante estilos díspares e até então impensáveis numa mesma obra: o realismo, o naturalismo, o simbolismo, o parnasianismo.

 

Quanto de autobiográfico em relação ao autor, em sua opinião, há em “O Ateneu”?

EA: Bastante. Talvez nem tanto em termos factuais estritos, mas psicologicamente.
Por que Lúcia Miguel-Pereira teria classificado “O Ateneu” como um “romance estranho, diferente de tudo o que habitualmente se escrevia”?

EA: Justamente pela intersecção de estilos tão díspares, entre outros fatores.
Na opinião da senhora, o leitor do século XXI ainda é capaz de sentir esse estranhamento?

EA: Com certeza. Este livro, como toda grande obra, continua interessando e desafiando leitores por muito tempo.
Que interesse a obra desperta nos leitores de nossos dias, que ainda não leram este livro?

EA: Como se trata de um romance de formação, ele interessa muito, ao mostrar a passagem da adolescência para a vida adulta e assim trazer muitas questões existenciais pertinentes como objetos de reflexão.

Conheça outros títulos da Coleção Clássico Ateliê

Bibliofilia: amor pelos livros em forma e conteúdo

Por Renata de Albuquerque*

 

Está no dicionário. Bibliofilia é “amor aos livros, em especial aos belos e raros e de relevância histórica ou cultural”. É também a “ciência ou arte do bibliófilo”, pessoa que tem amor por livros ou que os coleciona.

A diferença entre leitores e bibliófilos, entretanto, muitas vezes desaparece na prática. Quem lê por prazer ama os livros, não apenas o conteúdo deles, mas sua forma e sua estética. Um prazer que pode vir de novidades ou raridades; de lançamentos ou de uma conquista em um garimpo feito em sebos: aquela satisfação ímpar de encontrar, depois de uma longa busca, o exemplar procurado, a edição exata, o livro tanto tempo desejado. Alguns deles são joias, objetos raros, dignos de serem colecionados, mostrados, exibidos para os amigos.

“A bibliofilia teve sua primeira menção na literatura em 1344, por meio do monge beneditino Richard de Bury, em uma obra que ficou mundialmente conhecida como Philobiblion (…)”, aponta Karina da Silva Nunes em seu trabalho Um Acervo Para Chamar de Meu: Bibliófilos como Preservadores da Cultura Impressa.

“Philobiblon”, obra que cita pela primeira vez a bibliofilia

Bibliofilia não tem a ver com preço; tem a ver com valor. A alegria de ter na estante seu próprio exemplar de um livro amado é o mais importante. O preço se dilui no tempo; o valor, ao contrário, aumenta quanto mais o tempo passa.

Edição artesanal de “Macunaíma”

Alguns desses livros, artesanais, feitos um a um, são arte. Outros têm seu valor por serem antigos. Mas alguns deles nem mesmo são raros: são amados pelo simples fato de nos acompanharem pela vida toda. São livros para ler, reler e ter sempre por perto, para que alguns de seus trechos iluminem nossos dias, sempre que precisamos de inspiração para seguir em frente. Poesia ou prosa, não importa, pois todo mundo sabe que há muita poesia escondida na prosa refinada dos melhores autores.

 

Mas, afinal, quem é o bibliófilo?

José Mindlin, um dos mais célebres bibliófilos brasileiros, contava que iniciou sua biblioteca, a Brasiliana – hoje na USP –  aos 13 anos. A coleção chegou a ter 38 mil títulos, entre os quais raridades como manuscritos de Sagarana (Guimarães Rosa) e Vidas Secas (Graciliano Ramos).

O bibliófilo, entretanto, não tem apenas um perfil. Ele está em todos os cantos, tem as mais variadas idades e hábitos. O que une todos é apenas o amor pelo livro.

Uma pesquisa sobre o tema, feita por Aníbal Bragança, Eliane Ganem, Maria Virgínia M. de Arana e Shirley Dias da Silva na Escola de Comunicação e Arte (ECA/USP), indica que o consumidor de livros usados é majoritariamente do sexo masculino, casado e tem entre 26 e 55 anos.

“Biblomania”: o livro como tema e como suporte

Mas nem só de livros usados vive o bibliófilo. Livros novos, de pequena tiragem, também estão no alvo desse público, que sabe que alguns títulos serão fundamentais para sua coleção.

E há ainda aqueles que escrevem livros sobre livros, como é o caso dos historiadores Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, que reuniram em Bibliomania textos curtos em que o protagonista é o livro. Os autores falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema.

E você, considera-se um bibliófilo ou bibliófila?  Conte sua história para nós!

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP.

“Minha avó me incentivou a gostar de ler”

Por: Renata de Albuquerque

Surpresa. Foi este o sentimento de Jardel Rodrigues Ferreira ao receber a notícia de que havia vencido o Concurso #tempodeler, promovido pela Ateliê Editorial, com o objetivo de dar dicas e ideias para que as pessoas consigam incluir o hábito da leitura em seu cotidiano. “Não imaginava que pudesse ganhar. Entrei no site da Ateliê cinco dias antes do prazo terminar, vi que o concurso estava acontecendo e resolvi me inscrever”, diz.

Jardel e sua avó compartilham o amor pela leitura

Jardel e sua avó compartilham o amor pela leitura

Jardel, que tem 19 anos e mora em Martinópolis, interior de São Paulo, terminou recentemente o Ensino Médio e planeja cursar Letras. A paixão pela literatura foi despertada pela convivência com sua avó, Marlene, ainda na infância. “Ela morava em São Paulo e eu só ficava mais com ela nas férias, quando ela vinha me visitar. Ela adora ler e lia muito. Então, ficávamos na cama, lado a lado, lendo juntos, noite adentro”, relembra ele, que hoje mora com a mãe e a avó no interior.

O hábito fez com que Jardel também passasse a ler muito. “No começo, eu dormia nas primeiras páginas, mas depois comecei a me interessar muito”. Hoje, ele escreve poemas, gosta de poesia e romances clássicos e cita autores como Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Dostoiévski entre os que já leu.

 

“Fico muito feliz em saber que ganhei, de verdade. Eu escrevo poesia e por isso tentei escrever o texto, em suas cinco linhas, o mais próximo de uma prosa poética que eu pudesse”, afirma.

“Cena Absurdo”: poesia e tecnologia multimídia

Por: Renata de Albuquerque

cena

Pedro Marques está lançando Cena Absurdo – Revisto e Diminuto: 1998-2015, um livro de poemas que revelam os absurdos do dia a dia, nem sempre notados quando se vive em meio a eles. Em alguns momentos, o livro apresenta dois ou três poemas na mesma página, ampliando a possibilidade de leitura simultânea. Além disso, traz QR Codes de clusters sonoros, que ampliam a experiência da leitura. Pela Ateliê, o autor também lançou Manuel Bandeira e a Música (ensaio, 2008) e Clusters (poesia, 2010).

A seguir, Marques fala do livro, que tem lançamento neste dia 24 de novembro, na Livraria da Vila, em São Paulo:

 

Qual foi a ideia de unir clusters sonoros aos poemas do livro? Em que medida os clusters ressignificam sua poesia para o leitor?

Pedro Marques: A poesia escrita tende a ser sequencial:fonema depois de fonema, palavra depois de palavra, verso depois de verso. Mário de Andrade, ligado à música e à oralidade, experimentou criar efeitos de simultaneidade com palavras (“verso harmônico”) e com versos (“polifonia poética”). Na música, a simultaneidade é natural, não só na harmonia, mas na própria coexistência rítmica, melódica e harmônica. Na oralidade falamos, ouvimos, gesticulamos, tudo ao mesmo tempo. Em poesia literária, em geral, conseguimos apenas a sensação disso tudo. No primeiro livro, Clusters (2010), testei transladar para poesia esse recurso da massa sonora concomitante, comum na música. Como no cacho sonoro, um cardume de poemas que deveriam ser lidos no seu valor de conjunto. Isso gerava já uma intervenção no modo tradicional de ler o poema apenas como unidade própria dentro de um livro. Cena Absurdo (2016) dá um passo além, quando dispõe dois ou três poemas na mesma página, ampliando a possibilidade de leitura simultânea. Isso feito, surgiu a ideia de, nas dez páginas em que isso ocorre, inserir a música propriamente. Ou seja, depois de simular clusters na literatura – o que por si ressignifica nossa expectativa retilínea de leitor -, devolvi o simulacro ao original: a música.

O poeta Pedro Marques

O poeta Pedro Marques

É a primeira vez que isso acontece em um livro de poemas?

PM: Há tanta coisa sendo testada na poesia mundo afora, não? De todo modo, o diferencial aqui é testar os limites deste que é dos suportes mais bem-sucedidos da poesia escrita: o volume em papel. Veja, não é livro que vem com partitura, CD, dobradura ou DVD. É livro aparentemente tradicional, mas que num instante arranca o leitor de sua leitura silenciosa para a experiência sonora, que materializa simultaneidades acústicas e intelectuais entre poemas. O leitor vai lendo o livro como de costume, linearmente. De repente, é convidado à audição músico-poética por meio de seu celular ou computador. Esse conteúdo sonoro, guardado na nuvem invisível (www.cenaabsurdo.com.br), acompanha o leitor/ouvinte conectado à internet em qualquer lugar.

 

O que diferencia essa obra de Clusters, lançada em 2010?

PM: A ideia de cluster poético nasce com Clusters. Ali, no entanto, é antes metafórica que efetiva. Você pode ler os poemas do cluster “Tragédias”, por exemplo, como unidades independentes ou como grupo. Não há uma disposição editorial e multimídia que suporte o conceito aplicado à poesia. O poema está lá sozinho na mancha. Ao mesmo tempo, nesse primeiro livro, os dez clusters são nomeados, distinguíveis em suas características temáticas, estilísticas, narrativas ou dramáticas. Cena Absurdo é um fluxo só que, de repente, propõe um cluster sem título cuja simultaneidade é, por um lado, realizado pelo leitor, e, por outro, materializada pelas composições musicais.

 

Por que do título “revisto e diminuto”? Rever, na sua opinião é editar, é condensar, é cortar?

PM: Em 1998, com a ajuda do poeta Welington Fernandes, rodei em casa um livro chamado Em Cena com o Absurdo. Fizemos tudo, da diagramação à colagem do miolo, passando pela gestão da grana curta. Eram cinquenta livros artesanais. Graduando em Letras, na UNICAMP, fui lido por poetas, músicos e professores duros na crítica. Uma escola de prática editorial e de exercício poético. Abrir o peito ao frio. O livro era grande demais, cheio de ideias, pouca resolução formal. Uma oficina aberta aos amigos. Peraltice de vinte anos. Aprendi que rotina de poeta é escrever e rescrever, não publicar. É tomar mel e pedrada de gente como Paulo Franchetti e Antonio Candido. É ouvir parceiros que acompanham a lida: Luís Fernando Prado Telles (do posfácio) e Marco Catalão (da quarta-capa). Sempre vi edições “revistas e aumentadas”, esta, embora revisada, é diminuta por dois motivos. Primeiro, Cena Absurdo preserva, condensando em volume e estilo, a ideia central do seu rascunho caseiro: o dado absurdo está entre nós, não lá longe. As cenas do livro dramatizam exemplos disso. Segundo, em harmonia, o acorde diminuto tem acidentes estranhos ao ouvido, seus dois trítonos. O termo também nesse sentido cabe ao livro, que rearranja a percepção tradicional do leitor de livros de poesia, ao entrechocar mais de uma poema por página, ao trazer áudios inusitados que não são locuções.

 

De que maneira a decisão do uso dos clusters, em QR Code, influenciou o fazer poético do livro? As poesias são anteriores a essa decisão?

PM: Não chegou a influenciar a composição dos poemas. As decisões técnicas e conceituais do livro já estavam todas tomadas. O uso do QR Code, ao contrário, foi uma solução tecnológica proposta pelo Estúdio Risco, que assina o projeto editorial com a Ateliê Editorial. Foi a saída encontrada para o problema estético, quanto aos poemas, e para o impasse prático, quanto à experiência de leitura.

 

A poesia é um ato, muitas vezes, referido como solitário pelos artistas. Na medida em que você contou com a contribuição de Gustavo Bonin, Micael Antunes e Juliana Amaral no livro, a criação passa a ter um aspecto também coletivo. Qual a importância disso nesse contexto?

PM: A criação, nesse caso, foi coletiva por conta dos anos decompondo e compondo o livro a partir de leituras críticas. A reunião de produtores, músicos e compositores para esta edição trouxe coletividade de produção mesmo. Havia os poemas no Word, dez páginas eram clusterizadas. O projeto gráfico e o espetáculo baseado no livro (que pode ser visto nos lançamentos) surgiu no Estúdio Risco, nas figuras de Juliana Amaral e Humberto Pio, arquitetos da arte qualquer que ela seja. Os clusters sonoros nasceram do contato com Juliana Amaral, cantora essencial na atual canção popular brasileira. Seus shows e discos apresentam acabamento e significado nada triviais, são vivências na arte de cantar. Foi na canção popular que nos achamos, quando ela gravou uma parceria minha com Nenê Baterista. Só que no Cena Absurdo esse encontro cancional enveredou para uma música concreta, com entonações e sobreposições abertas ao estranho, ao cênico. Para burilar essa ideia, Juliana puxou para o projeto os compositores experimentais Gustavo Bonin e Micael Antunes, ourives do som, senhores da onda sonora, das tecnologias de edição. Tanto a produção editorial quanto sonora (esta passou por todo processo de estúdio e mixagem) foi coletiva e conduzida por Juliana. Sem ela, o livro assim não existiria. Com cada indivíduo no seu instrumento, Cena Absurdo, no fundo, virou tipo um álbum de banda, só que com a palavra escrita à frente.

 

QR Code de cluster contido no livro

QR Code de cluster contido no livro

Em que medida os clusters ressignificam sua poesia para o leitor? O que você buscou com a inclusão deles na obra?

PM: De um lado, busquei expandir os fronteiras midiáticas e intelectivas desse objeto maravilhoso que é o livro. Ou seja, expandir a ideia de volume não é apenas convertê-lo em livro eletrônico, cujo formato pode ser bem tradicional quanto à experiência leitora. De outro lado, os poemas de Cena Absurdo guardam vozes (de falas a referencias literárias). Como ecoar isso de modo simultâneo? Como transpassar o leitor/ouvinte com esse coro de informações? Os clusters na página redefinem a percepção mental, os clusters sonoros materializam musicalmente essa percepção.

 

Há alguma espécie de continuidade ou de ruptura entre Clusters e Cena Absurdo? Que inovações, o que este novo livro agrega ao anterior?

PM: Cena Absurdo desenvolve a noção de cluster poético iniciada em Cluster. Mais que isso, a ideia é que cada um dos dez cachos do livro Clusters virem uma massa autônoma com uma nova versão ou aplicação do conceito clusters-poético. Cena Absurdo, que no livro de 2010 chamava-se “Em cena com o absurdo”, contando com apenas quatro poemas, é o segundo passo dessa história que vou caminhando pacientemente.