Renata de Albuquerque

Literatura e medicina se entrelaçam na obra de Pedro Nava

Por: Renata de Albuquerque*

Na semana em que se comemora o Dia do Médico, o Blog da Ateliê lembra de um médico que se consagrou como escritor: Pedro Nava. Autor de uma das mais importantes obras memorialísticas da literatura brasileira, Nava nasceu em Juiz de Fora (Minas Gerais), em 1903.

Pedro Nava

Escreveu os primeiros poemas na década de 1920, participando do Grupo Estrela, que contava com nomes como Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade. Colaborou com “A Revista”, publicação modernista mineira e, em 1928, ilustrou Macunaíma, de Mario de Andrade. A partir dos anos 30, exerce a medicina em período quase integral. Manuel Bandeira escolheu Nava para fazer parte da Antologia de Poetas Bissextos, na década de 1940. Mas foi apenas na década de 1970, quando publica Baú de Ossos, que se torna uma referência na literatura de memória escrita no Brasil. Muitos o consideram o “Proust brasileiro”.

E, como memorialista, em sua obra, literatura e medicina andam de mãos dadas. Em sua bibliografia há títulos que deixam essa ligação explícita, como O Anfiteatro – Textos Sobre Medicina (organizado pelo sobrinho Paulo Penido). Outros, como Beira-Mar (em que retrata sua passagem pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais), se não se revelam pelo título, trazem o assunto impresso em cada página.

No volume A Medicina de Os Lusíadas, o escritor usa seu conhecimento em medicina para buscar, no clássico de Camões,passagens relevantes do ponto de vista médico. Já a segunda parte de Galo-Das-Trevas é inteiramente dedicada ao início da carreira de Nava como médico.

Pedro Nava é, enfim, uma das mais claras razões pelas quais os amantes da literatura têm muito a comemorar no Dia do Médico.

Conheça a obra de Pedro Nava

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP.

Orestes, tragédia atípica em que é preciso ponderar riso e dor

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Tradução (30 de setembro), a Professora Titular de Língua e Literatura Gregas (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa fala do trabalho de tradução da tragédia Orestes, de Eurípedes, recém-lançada pela Ateliê Editorial. Ela, que é diretora da Trupe de Tradução de Teatro Antigo (Trupersa) e coordenadora do Grupo de Tradução de Teatro (GTT/CNPq/UFMG)  revela, na entrevista, como foi o processo inovador que gerou o livro, e que demorou cerca de dois anos:

Como foi o processo de tradução?

Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa: O processo foi doído e divertido a um só tempo; aliás, isso é o que se espera de uma tragédia: prazer e dor.

O que diferenciou este trabalho dos anteriores (Medeia e Electra)?

TVRB: Com o Orestes a tática mudou; desta vez, traduzi o texto sozinha, sempre de madrugada (passava por momentos difíceis em casa, havia um ente querido em estado terminal e eu cuidava dela: era minha mãe…). A tradução era tempo de relaxamento e divertimento (Orestes tem trechos bem cômicos, é uma tragédia atípica). Depois de traduzido, submeti à Truπersa, para experimentação cênica, o texto. A partir daí voltamos a refazer tudo coletiva e funcionalmente, foi bom, muita briga (ágones gregos) e gargalhadas.

Quais foram os mais importantes desafios desta tradução?

TVRB: Em primeiro lugar o numero de versos: 1693 versos, para serem ajustados coletiva e cenicamente é muito; em segundo lugar foi o tom; ponderar riso e dor é coisa delicada, há medida certa em tudo. Além de, é claro, o distanciamento da Grécia antiga com o Brasil.

 

Qual background foi levado em conta (traduções anteriores, textos críticos etc) para compor este volume?

TVRB: Continuamos com a ideia de horizontalidade entre texto e cena; com os pressupostos de Augusto Boal, Paulo Freire e Millôr Fernandes. Desta vez, o prefácio de Paulo Rónai para Tutaméia foi importantíssimo. Lemos muito Guimarães Rosa e traduzimos com a dicção deste escritor; filosoficamente, nossa base foi René Girard e Michel Serres, há uma pitada de  Artaud e uma outra de Dubatti e muita, muita leitura dos comentadores antigos.

O dramaturgo francês Antonin Artaud

Qual o diferencial dele, em relação a outras traduções anteriores?

TVRB: Aprendemos mais; estamos mais maduros, menos ‘revolucionários’, mais seguros. Lidamos, ainda, de modo eclético com as intertextualidades, contudo, ficamos melhores nesse ‘malabarismo’, queremos que seja assim porque entendemos ser preciso inserir o teatro ático na cultura brasileira. Não é difícil, brasileiro adora teatro, sobretudo teatro antigo com suas paixões violentas e arrebatadoras.

 

O texto de apresentação traz o seguinte trecho: “Inaugurada na Antiguidade, a tragédia foi um fazer da polis ateniense, um instrumento eficaz de inserção de todos na realidade da convivência político-religiosa e na projeção de enfrentamentos dos problemas humanos. O teatro ático, por conseguinte, se moldou como um ensaio geral para a ação em tempo real e na vida pratica; tais textos, ademais, eram de fato eventos para todos, eles se convertiam em ação real”. Como conciliar a tragédia grega e o público do teatro do século XXI? Como ressignificá-la a partir da tradução (se é que essa ressignificação se faz necessária)?

TVRB: A tragédia é um meio para lidar com a violência essencial do humano, precisa dizer mais? Além disso, há, na tragédia, um modo grego de expressar  que fica entre o ‘prosaico e poético’, que ‘é escrito mas performatiza a oralidade’, que ‘congrega todos os gêneros poéticos da época’ (o épico, o lirico, o narrativo – incluindo a dança, o gestual/pictórico) e isso tudo junto, para mim, significa que há na tragédia uma miscelânea de belezas, agrados para todos os públicos. Além disso, os textos trágicos, criados no auge da sofística, tem fecundidade enorme em suas ambiguidades e isso é ótimo, pois ele carrega já em si muitos significados e talvez por isso se ambiente em todos os tempos e espaços.

 

O que um texto como Orestes pode despertar no leitor do século XXI? Quais questões e reflexões ele traz que podem ajudar a iluminar nosso atual contexto brasileiro?

TVRB: Orestes traz frente aos nossos olhos três jovens angustiados (Orestes, Electra, Pílades), divididos entre o dever político, o sentimento ético, a transgressão moral, a vingança, a divisão entre ‘o lado da mãe’ e o ‘lado do pai’. Perdidos e enlouquecidos na iminência da morte, eles se apoiam e daí surge a questão da amizade. Estes temas são eternos. Com Orestes, Pílades e Electra podemos entrar em suas aflições e compartilhar de suas angústias que são também nossas . ‘Assistindo’ Orestes, o Hamlet grego, podemos até mesmo vislumbrar saídas para situações que vivemos hoje. O grande desafio mesmo é o que Orestes propõe: como vamos aprender a ser donos de nós mesmos sem ferir mortalmente as pessoas que amamos?

Conheça o pacote Trupersa

João Alexandre Barbosa, 80 anos

Por Renata de Albuquerque*

“Quando comecei a fazer Direito, comecei também a lecionar porque, naquele tempo, para fazer Direito era preciso estudar literatura: brasileira, francesa”. Esta frase, de João Alexandre Barbosa, explica por si a grandeza intelectual deste advogado que criou o curso de Teoria Literária da Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), criou o Projeto Nascente (que fomenta atividades artísticas dos estudantes) e o Cinusp, foi diretor da FFLCH e escreveu mais de uma dezena de livros.

João Alexandre Barbosa

Nascido João Alexandre Costa Barbosa, na cidade do Recife, em 31/08/1937, fez o primário em casa, com uma preceptora. Ingressa na Faculdade de Direito, com o objetivo de tornar-se diplomata, e forma-se em 1960. Mas, segundo ele, sua formação não é apenas essa. “Antes de qualquer coisa, eu sou um leitor, essa é minha formação. Eu lia e anotava o que eu lia, usando essas anotações para dar aulas de literatura, para escrever sobre minhas leituras”.

Em 1961, começa a trabalhar como professor na Faculdade de Filosofia do Recife e na Universidade Católica de Pernambuco. Participa do II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária em Assis (SP), com o trabalho “História da Literatura Brasileira e Literatura Brasileira”, uma leitura da obra “A Formação da Literatura Brasileira”, de Antonio Candido. Durante o evento, Barbosa e Candido se conhecem e passam a trocar correspondência.

Barbosa sofreu com a censura e a repressão da Ditadura Militar (1964-1985) tanto em Pernambuco quanto em Brasília, onde lecionou em 1965. Em 1966, quando Candido volta de Paris, Barbosa vem a São Paulo, com uma bolsa de Doutorado pela Fapesp. Três anos depois, é contratado pela USP. Em 1970, defende “Linguagem da Crítica e Crítica da Linguagem. Um Estudo de Caso Brasileiro: José Veríssimo”, ao que consta, a primeira tese de Teoria Literária no Brasil. Dez anos depois, já livre-docente, sucede Antonio Candido na cadeira de Teoria Literária (FFLCH/USP).

Na Universidade de São Paulo, foi pró-reitor de cultura e extensão, tendo criado a Comissão de Patrimônio Cultural da Universidade e o projeto Universidade da Terceira Idade. “Refundou” a Edusp, como editora universitária que publica livros próprios, no final da década de 1980. Realizou estudos sobre João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes e Augusto Meyer, entre outros, além de colaborar com revistas (como a Cult) e jornais (como o Jornal do Commercio do Recife). Aposenta-se em 1993. Falece em 03/08/2006, aos 68 anos.

“A leitura para mim sempre foi uma paixão, inclusive pelo livro enquanto objeto”, dizia.

 

 

Conheça as obras de João Alexandre Barbosa editadas pela Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Mario Pedrosa, política e arte

Por: Renata de Albuquerque

Quando se fala em Mario Pedrosa, o que primeiro se pensa é no renomado crítico de arte, com extensa obra no meio e passagem por museus e bienais no Brasil e ao redor do mundo. Mas em Pas de Politique Mariô! – Mario Pedrosa e a Política, o foco é a atuação política dessa importante figura brasileira. A obra de Dainis Karepovs –  doutor em História pela FFLCH-USP, pós-doutor em História pelo IFCH-UNICAMP e autor de A classe operária vai ao Parlamento (São Paulo: Alameda, 2006) e Luta subterrânea (São Paulo: Ed. UNESP; Hucitec, 2003) – é uma exposição concisa e coesa dos fios que ligam todas as suas transformações e guinadas de pensamento e atuação de Pedrosa, que aderiu ao comunismo em 1920 e foi o filiado número 1 do Partido dos Trabalhadores, quando de sua fundação.  A seguir, Dainis Karepovs fala ao Blog da Ateliê:

Dainis Karepovs

Como surgiu a ideia desse livro?

Esse livro tem duas origens. A primeira já vem de longe, dos anos 1980. Trata-se de um projeto de história sobre o movimento dos trabalhadores brasileiros iniciado no âmbito do Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa – CEMAP e que depois prosseguiu, de modo pessoal, abrigado na universidade (Universidade de São Paulo e Universidade de Campinas). Este projeto, que ainda prossegue, é focado no estudo da atuação da esquerda brasileira de origem marxista, incluindo-se aí a de origem trotskista, à qual Mario Pedrosa se filiou até 1940 e da qual foi o introdutor em terras brasileiras, já no final dos anos 1920. Tal atividade gerou diversos resultados: um arquivo (o CEMAP), livros, artigos, no Brasil e no exterior,  e exposições.

A segunda vertente tem um caráter mais prosaico e episódico, mas foi onde Pas de Politique Mariô! se materializou. No final de 2012 fui convidado, por conta desse trabalho em que estou envolvido, pela finada editora Cosac Naify, juntamente com Isabel Loureiro, para participar do projeto de publicação das obras de Mário Pedrosa, mais especificamente da parte sobre política. Prevista, a parte política, para ser publicada em dois volumes, dos quais um chegou a ser inteiramente organizado, ela não chegou a termo, pois, como se sabe, a referida editora encerrou suas atividades no final de 2015. Para este primeiro volume redigi inicialmente o Pas de Politique Mariô!, o qual, por sua extensa dimensão, acabou sendo substituído por outro texto de menor tamanho. Mas, enfim, o falecimento da casa publicadora fez com que, tanto o volume já organizado, bem como nenhum dos dois textos acima mencionados acabasse aproveitado. Por outro lado, não fazia mais sentido algum deixar de lado – embora desde sua substituição já se houvesse definido que Pas de Politique Mariô! teria vida própria – todo o trabalho realizado e saí à busca de uma casa editora para sua publicação. De imediato a Ateliê aceitou publicá-lo e, pouco depois, ainda em 2016, se concretizou uma parceria com a Editora da Fundação Perseu Abramo para uma coedição e agora em 2017 ele sai publicado.

 

Por que colocar luz na “parte política” da biografia de uma figura reconhecida por sua importância nas artes?

Mario Pedrosa é, reconhecidamente, um dos maiores expoentes da crítica de arte no Brasil e foi ele quem lhe deu o estatuto de respeitabilidade e seriedade que hoje goza, deixando de lado o caráter superficial e “impressionista” que existia quando Pedrosa passou a exercê-la, em meados dos anos 1940. No entanto, jamais pusera ele de lado a sua militância política, que vinha de meados dos anos 1920. Por uma série de circunstâncias sua atividade em torno da crítica artística se sobrepôs à política. Não por vontade própria, já que Pedrosa sempre enfatizou que ambas conviviam de modo pacífico e independentes uma da outra. Certamente, escapando da própria vontade, a sua militância política foi tratada de modo acessório, sobretudo pela defesa das ideias de Karl Marx e de alguns de seus herdeiros, em especial Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo. Isso era, e ainda é, algo para o qual o reacionário mainstream cultural do Brasil nunca manifestou a menor aceitação e tolerância. Assim, os perfis biográficos de Mario Pedrosa enfatizam sua trajetória como crítico de arte e deixam à política um par de parágrafos. Neles se realça sua ligação com o marxismo, reduzida apenas à sua trajetória como trotskista nos anos 1930, e depois são destacadas apenas a Vanguarda Socialista, um jornal por ele dirigido em meados dos anos 1940, e sua condição de fundador e filiado número 1 do Partido dos Trabalhadores. Francamente, é muito pouco para quem atuou sob a bandeira do marxismo por quase seis décadas e em posições e condições de destaque, ressalte-se isto para que não se crie a possibilidade sequer de uma relação idílica e distanciada de Pedrosa com as ideias de Marx! Por isso, me pareceu extremamente relevante preencher esta lacuna e mostrar esse aspecto da vida de Pedrosa, o qual, durante toda a sua vida, jamais ocultou. Muito pelo contrário. Evidentemente, a par disso, que Mario Pedrosa ainda venha a ter uma biografia que conjugue arte e política. De todo o modo eu penso que Pas de Politique Mariô! pavimenta com solidez um caminho nessa direção.

Quais fontes de pesquisa e que material utilizou na edição?

Há uma vasta documentação, preservada em grande parte no Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa – CEMAP e que a ele foi doada pela companheira de Mario Pedrosa, Mary Houston Pedrosa, e por seu “secretário”, Darle da Silva Lara. Além disso, há também a importante documentação de Livio Barreto Xavier, grande companheiro de ideias e ideais de Pedrosa. Aliás, ambos, por uma dessas extraordinárias coincidências da vida, nasceram no mesmo dia, mês e ano: 25 de abril de 1900, apenas que Pedrosa nasceu em Pernambuco e Xavier nasceu no Ceará. Esta documentação e o acervo de Pedrosa no CEMAP estão preservados e disponíveis à pesquisa no mesmo lugar em São Paulo, o Centro de Documentação e Memória da UNESP – CEDEM. Além disso, me vali também do enorme conjunto de periódicos disponibilizado pela Biblioteca Nacional. Também é importante ressaltar a existência de um significativo número de fontes que encontrei na Biblioteca do Congresso estadunidense, em Washington e  no Centro de Documentação e Informação do O Globo – CDI. Além disso, me vali da convivência que tive com contemporâneos de Mario Pedrosa para a localização e identificação de documentação e a compreensão de uma série de episódios que tratei em Pas de Politique Mariô!. Devo ressaltar, em primeiro lugar, Fulvio Abramo, jornalista que conviveu com Pedrosa desde os anos 1930, e a quem devo parte significativa de minha educação (não aquela dos bancos escolares, mas a humana). Além disso, a convivência com outras personalidades, como Plinio Gomes de Mello, Edmundo Moniz, Hilcar Leite e Livio Barreto Xavier, permitiram-me também compreender a amplitude da figura de Pedrosa.

 

De alguma maneira a crítica de arte influenciou as ideias políticas de Pedrosa?

Maria Pedrosa, sempre que perguntado a este respeito, afirmava: “Sempre convivi muito bem com a política e as artes. Nunca misturei setores”. Para que não pairassem dúvidas, Pedrosa, além disso, sempre foi enfático ao deixar clara a sua postura em não ver a arte e a política como irreconciliáveis: “Ser revolucionário é a profissão natural de um intelectual”. Além disso, Pedrosa cunhou uma frase que sintetizava o seu pensamento sobre a arte: “A arte é o exercício experimental da liberdade”.

Mas, embora eu não tenha tratado especificamente de sua trajetória como crítico de arte e de suas convicções no campo artístico em minha obra, é inegável que há uma influência mútua entre arte e política. No entanto, é bom que isto fique claro, Pedrosa sempre deixou claro que elas deveriam conviver em harmonia, não se sobrepondo uma à outra. Para ele, o ser humano ideal e completo era aquele capaz de lutar por um novo mundo, equânime e sem exploração do homem pelo homem, e deter a capacidade de fruir da cultura em seu mais amplo espectro, arte inclusive, sendo tal capacidade propiciada através de uma formação moldada em uma educação igualitária e humanista. Pedrosa, a esse respeito, sempre foi muito claro e sua reação adversa ao chamado “realismo socialista”, uma forma dirigida e utilitária de “cultura artística”, era a prova mais evidente de sua concepção libertária de arte.

 

Em tempos de debates e embates tão violentos, não seria mais natural “separar” os temas para “preservar” a imagem do crítico de arte?

Pelo contrário. Trata-se de um momento propício e adequado. Hoje, quando se criou a aparência de vitória de uma ideologia retrógrada, um pensamento único, intolerante e xenofóbico, evidenciar a atuação política de alguém que jamais abriu mão de sua crença no socialismo e na igualdade entre os homens é algo mais do que necessário. No Brasil, do mesmo modo, o caminho que foi construído para o golpe jurídico-parlamentar de 2016 deixou no país um rastro de ódio e intolerância, fomentado, em especial, pela chamada mídia. Quando se assiste ao espetáculo degradante no qual o Brasil e o mundo se debatem hoje em dia é evidente a necessidade de o planeta se insurgir contra esse estado de coisas e lutar pela defesa de uma política humanista e igualitária. Ver tais valores, encarnados na figura de Mario Pedrosa, é, indubitavelmente, um dos caminhos da recuperação da humanidade frente à degradação em que se vê jogada neste início de século XXI. Muitos se perguntam se Mario Pedrosa estivesse vivo hoje, o que ele faria neste nosso mundo. Não tenho dúvidas que, além da permanente defesa de seus ideais socialistas, ele estaria na vanguarda de um movimento pela regulamentação e a democratização da mídia.

 

Mario Pedrosa (década de 1920)

Quais as contribuições de Mario Pedrosa para o debate político do século XX?

Sem dúvida elas estão tanto em importantes textos para a compreensão política e social do Brasil, mais especificamente os ensaios “Esboço de análise da situação brasileira” (este escrito em parceria com Livio Barreto Xavier), “A situação nacional” e os livros A Opção Brasileira e A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo, bem como em sua atuação como dirigente político das correntes trotskista e socialista, ao longo dos anos que vão de 1930 a 1950, além de sua atividade como comentarista político nos principais jornais brasileiros. Afora isso, como se diz – como blague – que o comunismo chegou antes do marxismo no Brasil, é de grande relevo destacar o importante papel na educação e formação de uma cultura marxista por aqui para a qual Pedrosa jogou um relevante papel, em especial por sua atuação e projetos desenvolvidos na editora Unitas, nos anos 1930, e pelas páginas do semanário Vanguarda Socialista, nos anos 1940, no qual publicou uma infinidade de textos a este respeito. Todo este conjunto de fontes, aliás, está referenciado nos anexos de Pas de Politique Mariô!.

 

O que os leitores brasileiros do século XXI podem aproveitar do legado desse grande intelectual?

Além dos seus trabalhos sobre arte, reunidos nos quatro volumes de Textos Escolhidos, publicados pela Editora da Universidade de São Paulo entre 1995 e 2000, organizados e selecionados pela professora Otília Arantes, alguns dos textos de política de Pedrosa estão publicados em uma coletânea que organizei com Fulvio Abramo e que recentemente teve uma segunda edição revista e ampliada (Na contracorrente da história. São Paulo: Sundermann, 2015) e os demais, infelizmente, somente podem ser encontrados em sebos ou arquivos, neste caso, especialmente no CEMAP. Os textos políticos, reitero, estão referenciados nos anexos de Pas de Politique Mariô!. O conjunto da obra de Pedrosa permite uma visão ainda acurada e muito atual sobre a formação e a consolidação do Brasil, afora o contato com uma personagem encantadora e entusiasmada, especialmente pela transformação do Brasil.

16/06: Bloomsday

Por Renata de Albuquerque

Todo dia 16 de junho é celebrado por quem é apaixonado por literatura e livros. Nesse dia é comemorado, ao redor de todo o mundo, o Bloomsday. Instituída na Irlanda, a data homenageia Leopold Bloom, o protagonista de Ulisses, de James Joyce, que durante o dia 16 de junho de 1904 revive em Dublin, a clássica odisseia de Homero.

Mas, Leopold Bloom vive sua odisseia em um romance realista, ambientado no século XX. As figuras mitológicas são representadas por pessoas comuns e as batalhas épicas são episódios do dia a dia. Nem por isso o livro é menos interessante. As experimentações estéticas e de linguagem que Joyce propõe em Ulisses ainda fazem deste um dos livros mais instigantes da história da literatura. Alguns o consideram hermético, complexo e difícil de ler. Outros, o tomam como um desafio.

“Joyce Era Louco?” enfoca a obra do escritor irlandês

A complexidade da obra de James Joyce é tamanha que ela talvez seja uma das mais estudados do mundo. Ulisses foi construído com recursos até então inéditos – mas posteriormente usados largamente na ficção moderna – como o discurso interior, a fragmentação da estrutura do romance e a alternância do foco narrativo.

Antônio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo traduziram a obra para o português. São trabalhos hercúleos, cujo legado é a possibilidade de cruzar referências e oferecer ao leitor como um todo um panorama riquíssimo daquilo que, para muitos, é “intraduzível”.

Não há uma data exata que marque o início das comemorações do Bloomsday. A  celebração do “Dia de Bloom” pode ter começado em 1924 ou 1925, quando amigos de James Joyce – que lançara o livro em 1922 – fizeram uma festa para o escritor, que, então, passava por dificuldades. Outra versão indica que a data passou a ser lembrada no fim dos anos 40, após a morte do irlandês. Mas, a hipótese mais aceita dá conta de que a celebração tenha se iniciado em 1954, data do aniversário de 50 anos do dia retratado no romance.

O fato é que o Bloomsday é hoje celebrado pelo mundo todo, com leituras de trechos do livro, em festas com encenações e bebida. Enquanto isso, James Joyce continua instigando leitores e críticos com sua obra universal.

Conheça alguns títulos sobre James Joyce

Arabia Brasilica: o fio da memória costurado por Raduan Nassar, Milton Hatoum e Salim Miguel

Por: Renata de Albuquerque

Sem ter formação arabista, o italiano Alberto Sismondini, nascido em Ventimiglia, aproximou-se da cultura do Oriente fazendo um movimento parecido que o levara, na juventude, a aproximar-se da França, país fronteiriço à sua cidade natal. “Para ter a percepção de não estar a apodrecer no recanto mais recôndito da província italiana, era preciso ser bilíngue”, afirma. Foi por sentir falta de estar próximo de uma cultura “tão importante quanto a francesa” e por ler a literatura de autores libaneses francófonos que fez contato mais próximo com a cultura árabe.

Esta familiaridade o levou a conhecer a literatura de autores como Salim Miguel, Raduan Nassar e Milton Hatoum, que se tornaram seu objeto de estudo no livro Arabia Brasilica. A seguir, Alberto Sismondini, que é Mestre e Doutor em Literatura Comparada e Tradução Literária pela Universidade de Siena, subdiretor do Centro de Línguas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Membro do Centro de Literatura Portuguesa da mesma Universidade desde 2006, fala sobre sua obra:

 

Alberto Sismondini

O que despertou seu interesse no estudo da cultura árabe?

Alberto Sismondini: Não tenho uma formação de arabista. De alguma forma, quando já vivia em Coimbra, estava a ressacar  com a falta de uma cultura de proximidade tão importante como a francesa. Gosto do francês e  das marcas da cultura francesa impressas no imaginário colectivo global, daqueles signos que Annie Ernaux aproveita nas suas narrativas, tal como uma ferramenta para revigorar a memória dos leitores e desta forma criar uma atmosfera empática de partilha de eventos. Acho que a literatura francesa viveu uma fase de franca popularidade ao virar do século, melhor dizer, do milénio, como puderam testemunhar as recentes atribuições do prémio Nobel a Le Clézio, a Patrick Modiano, além do naturalizado francês Gao Xingjian. Em Itália e Portugal, autores como Daniel Pennac, Muriel Barbery e Amélie Nothomb vendem bem.  Pela prática do francês, isto é ler livros de autores francófonos, conheci os trabalhos de Amin Maalouf, Sélim Nassib e, a seguir, os de Farjallah Haïk, autores libaneses que escolheram o francês como língua de comunicação literária. Nessa altura lia os trabalhos de Yasmina Traboulsi publicados pela «Mercure de France».Pois, o Líbano é considerado em França um país importante, o filho varão da francofonia; os jovens libaneses desde sempre eram considerados campeões em «dictée» , o ditado francês, um autêntico rito de passagem na aprendizagem da língua. Conhecia o Líbano como importante centro editorial do Oriente Médio. No início, confesso, a aproximação à cultura árabe deu-se pela francofonia. A seguir, veio a leitura morosa das Mil e uma noites na primeira tradução italiana do árabe, coordenada por Francesco Gabrieli, um bem conseguido projecto da editora Einaudi (1948). As Mil e  uma noites representam a meu ver um autêntico tratado de cultura árabe clássica.  Sinto-me também grato para com os colegas  da Universidade de São Paulo que, pelo seus escritos, me iniciaram de forma acádemica,  Safa Jubran, Michel Sleiman e Mamede Jarouche, este último com a sua própria tradução de alto cariz filológico das Mil e uma noites …

O que o levou a estudar a obra de Raduan Nassar, Milton Hatoun e Salim Miguel? Como se deu essa escolha?

AS: Uma autêntica epifania literária: Milton Hatoum apareceu em Coimbra na quarta-feira de cinzas de 1999 a apresentar a edição portuguesa do seu Relato de um certo Oriente. Foi um deslumbramento, o exotismo amazonense sobreposto ao exotismo orientalista,tudo redigido numa língua tão elevada! A seguir, foram publicados em Portugal Lavoura arcaica e Um copo de cólera de Raduan Nassar e Dois irmãos de Milton. Deu vontade para ler mais:relembro também de ter conseguido arranjar em Lisboa um exemplar brasileiro do Menina a caminho.

Enquanto no Brasil se  aproximavam as celebrações dos 500 anos da carta do achamento, surgiu Nur na escuridão de Salim Miguel, fiquei intrigado e avancei para ter mais bibliografia dele… e a consegui ter. Quem muito me apoiou nessa procura foi a docente de Literatura Brasileira  em Coimbra, Maria Aparecida Ribeiro.

Arabia Brasilica reúne três autores cujas escritas são, a princípio, muito singulares. O que os liga ou aproxima em termos literários? Por outro lado, o que os distingue? 

AS: Acho que todos foram grandes consumidores de literatura na fase da sua formação.  Um elo comum a meu ver existe e é representado por um trabalho constante com a memória. Salim exerce o seu magistério de escritor expressando a memória da imigração no país  ou de eventos marcantes da história nacional (p. ex. o Golpe de 1964) com a linguagem polida e eficaz de jornalista. É natural que a história da diáspora libanesa ao Brasil seja por ele celebrada em Nur na escuridão. Em Raduan Nassar , cujo Lavoura arcaica foi traduzido em francês com o título La Maison de la mémoire, tal como em Milton Hatoum a memória passa por um processo de ficcionalização da realidade, aqui vislumbram-se as tais leituras da fase de formação: muitos dos meus “queridos franceses” mas também, para Raduan,  Almeida Faria e a sua A Paixão.    De Salim Miguel é bem salientar o papel importante que ele teve em publicar autores da África lusófona  censurados pela mordaça salazarista e impossibilitados de publicar no seu país.

Qual a importância, em sua opinião, de trazer à tona a cultura árabe dentro do contexto brasileiro?

AS: O Brasil é terra de acolhimento desde sempre, cerca de 7 milhões de Brasileiros têm  ascendentes árabes e certas práticas estão bem disseminadas: se alimentar-se é um acto cultural, então é só consumir uma refeição  a base de quibe e esfirra numa lanchonete qualquer do país e podemos afirmar que  todos  os brasileiros «praticam» a cultura árabe.

O Brasil sempre foi um país com tradição de acolher imigrantes. Atualmente, por conta da grande tensão e das guerras no Oriente Médio, há uma onda de imigração bastante forte de pessoas que fogem de seus países para virem ao Brasil. Em sua opinião, essa receptividade histórica continua viva ou há preconceito contra os recém-chegados? 

AS: Quando se fala de imigração no Brasil, logo penso em Graça Aranha e o seu Canaã, repetidamente citado por Salim Miguel no seu Jornada com Rupert. A dialéctica entre Milkau e Lentz voltou à tona, também no Brasil. Há dois anos, após uma conferência, cujo tema era a imigração italiana em São Paulo, um simpático casal catarinense confessou o seu desassossego em ver grupos  de migrantes económicos haitianos serem deslocados para o sul do Brasil… A migração de grupos coesos pobres que até podem subverter a ordem institucionalizada de um território, cria espanto, o mesmo que o Drummond criança, em Minas,  sentia a ouvir os turcos falar uma língua desconhecida ( que ele chama de «língua-problema») jogando cartas “com alaridos”. Acho seja uma questão antropológica de posse de espaços. A intolerância surge entre quem está incumbido a partilhar espaços com comunidades de estrangeiros recém-chegados, daí as piadas, cultura oral transcrita para folhetins, que no século passado vitimaram no Brasil  carcamanos, turcos, portugas… A alta cultura não tem medo da miscigenação, mas quem faz alta cultura institucionalizada não mora nas favelas, nem nos bairros onde mora o povão…

Ainda há ganhos/trocas culturais novas que podem ser verificadas nesta nova onda de imigração? Quais? 

AS: Acho que sim, muitos dos novos imigrantes vindos do Oriente Médio têm formação secundária o até superior e poderão contribuir a enriquecer a sociedade e a economia brasileiras, com projectos inovadores.

De alguma maneira a literatura pode atenuar as diferenças entre as duas culturas ou, por outro lado, ela as aprofunda? Em outras palavras, os autores estudados pelo senhor são profundamente brasileiros e profundamente árabes ou essas características são excludentes? Como isso acontece?

AS: Estamos a falar de autores profundamente brasileiros. Ninguém dos três  teve ou tem conhecimentos aprofundados da fala árabe. A questão das origens não interferiu com a plena adesão à cidadania brasileira, cujo resultado, a partir da segunda geração de migrantes, é a perda da fala de origem dos antepassados. Isso acontecia no antigamente, agora as novas gerações tenham mais recursos, devido à globalização.  No meu livro apenas defendo a inserção de formas narrativas orientais, de padrões artísticos presentes seja na cultura do Levante  como na dos autores libaneses francófonos analisados  (Maalouf, Nassib, Haïk) em paralelo com os brasileiros.

A arquitetura muito além da invenção de Oscar Niemeyer

Por Renata de Albuquerque

Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer, obra organizada por Ingrid Quintana Guerrero e Paulo Bruna e recém-lançada pela Ateliê Editorial, traz ao público textos com análises sobre pontos da criação do arquiteto carioca que parecem esgotados, mas não estão: sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latino-americana. Autor do ensaio “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, que faz parte do livro, o Professor Livre-Docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) Rodrigo Queiroz fala hoje sobre a contribuição que a obra pode dar ao público:

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

Rodrigo Queiroz: Os quatro ensaios abordam aspectos fundamentais para a devida compreensão da obra de Oscar Niemeyer. Por se tratar de uma obra vastíssima e cercada pela ideia – dada pelo próprio arquiteto – de que “arquitetura é invenção”, a compreensão da dimensão histórica dessa obra tão importante, por vezes, acaba sendo eclipsada pelo mito da criação, da originalidade e da invenção. Na verdade, como qualquer outro grande arquiteto, Niemeyer possui um procedimento de trabalho e uma estratégia projetual que nos permite compreender o pensamento de um dos maiores nomes da arte e da arquitetura moderna.

É evidente que quatro ensaios não têm o objetivo de esgotar um tema que permite infinitas interpretações. Contudo, os ensaios aqui publicados abordam justamente aspectos ainda pouco discutidos sobre Niemeyer e sua obra.

O ensaio assinado pelo Prof. Paulo Bruna, “A obra de Oscar Niemeyer em São Paulo”, como o próprio nome já diz, discorre sobre os projetos de Niemeyer construídos em São Paulo, com destaque para os edifícios de habitação e escritórios localizados na região central da capital paulista. É possível perceber nesses projetos o apuro de Niemeyer na implantação dos edifícios, assim como a precisa relação com o contexto da cidade existente, aspectos pouco abordados nas obras de arquitetos pertencentes ao movimento moderno, invariavelmente lidos pela chave da forma abstrata que se sobrepõe ao contexto, à memória e ao tempo da cidade histórica.

Já Hugo Segawa, em “Entre dois pavilhões: a repercussão internacional de Oscar Niemeyer”, dedica-se à análise do impacto internacional da obra de do arquiteto carioca. Trata-se de uma reflexão importante pois nos permite compreender a recepção do ambiente estrangeiro à obra de Niemeyer, assim como seu reconhecimento internacional como um mito da arquitetura moderna.

Em “O espaço sagrado em Oscar Niemeyer e alguns desdobramentos na América Latina”, Ingrid Quintana Guerrero aborda os templos religiosos projetados por Niemeyer. Se uma das principais premissas da arquitetura moderna foi justamente a negação do caráter simbólico inerente à sua função, é natural imaginar que o tema do templo religioso sempre foi visto como um tabu pelo movimento moderno, principalmente pela sua vertente construtiva. Contudo, no caso das igrejas projetadas por Niemeyer, é possível diagnosticar o diálogo do arquiteto com a história do espaço religioso, seja na Igreja de São Francisco de Assis (1943), na Pampulha, cujas superfícies remetem inequivocamente à arquitetura religiosa colonial e ao Barroco; seja na Catedral Metropolitana de Brasília (1958), onde a cúpula que historicamente iluminou das igrejas, assume a escala da própria catedral; ou como na Capela de Nossa Senhora de Fátima (1958), diálogo franco com a Capela de Ronchamp, um dos mais conhecidos projetos de Le Corbusier, mestre de Oscar Niemeyer.

Laboratório de Ensaios do Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos – CTA (1947). Fonte: Hugo Segawa

Meu texto, “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, aborda o período de transição da obra do arquiteto, durante a segunda metade da década de 1950. Trata-se de um momento no qual o arquiteto revê o aspecto compositivo dos seus edifícios e, paulatinamente, substitui as formas carregadas de elementos acessórios por formas simplificadas, cujo contorno, na maioria das vezes, define-se pela própria solução estrutural do projeto.

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

RQ: Claro que o livro se presta como um importante conteúdo para estudantes, profissionais, docentes e pesquisadores da área da arquitetura e urbanismo. Contudo, por se tratar de um personagem de conhecimento público, e pelos ensaios fugirem, em certa medida, de uma estrutura eminentemente acadêmica, parece natural que o livro desperte o interesse de um público maior que o especializado.

 

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

RQ: Sim, há uma vasta bibliografia sobre a obra de Oscar Niemeyer. Mas devemos lembrar que a imensa maioria deles é composta por títulos que não têm como objetivo se aprofundar na análise de sua obra. Invariavelmente, são livros de grandes formatos, com ricos ensaios fotográficos, que se enquadram mais na categoria de livros de arte, os conhecidos “coffe table books”. O livro “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer” vem, justamente, conferir conteúdo a um tema ainda muito conhecido e interpretado pela imagem.

 

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica? 

RQ: Sim, Niemeyer ainda precisa de uma publicação à altura de sua obra. Um livro de maior fôlego, e de perfil quase enciclopédico, uma espécie de “obra completa”. O livro “Quatro Ensaios” é um primeiro passo para a devida e merecida compreensão da obra de um dos principais personagens da história brasileira e da arquitetura moderna.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

RQ: Propositalmente, Niemeyer sempre reduziu a importância de suas obras com um discurso surpreendentemente despretensioso. A presença de suas obras no imaginário e no cotidiano do povo brasileiro faz desse arquiteto uma figura singular, sem paralelo entre seus pares, seja no Brasil ou no exterior. Cabe a nós, professores e pesquisadores de sua obra, sistematizar um conhecimento tão rico e vasto e fornecer as informações necessárias à compreensão do maior arquiteto brasileiro.

Os corpos de Joyce

Por Renata de Albuquerque

Em Joyce Era Louco?, o Professor e tradutor Donaldo Schüler discute a criação literária de James Joyce a partir dos ensinamentos de Lacan e das teorias psicanalíticas. Assim, realiza uma análise da escrita de Joyce e das significações que ela sustenta. A seguir, em uma entrevista exclusiva para o Blog da Ateliê, ele fala de seu novo livro:

O título remete a uma citação de Lacan. O senhor pode explicar brevemente ao leitor, que ainda não teve contato com o livro, qual a importância dessa referência, já que tanto para Lacan quanto na obra de Joyce a linguagem é um elemento essencial de (des)construção do sujeito e da literatura (respectivamente)?

Donaldo Schüler: A loucura é a origem, a organização vem depois, são os dois momentos salientados por Nietzsche na Origem da tragédia: Dioniso e Apolo.  Dioniso é embriaguez, a loucura dionisíaca quebra regras, ponto de partida para a  invenção artística. Apolo está ligado ao que Lacan chama “saber fazer”. O saber fazer é animado pela embriaguez originária. A embriaguez, como tema, atravessa a obra de Joyce. Dioniso desconstrói, Apolo reconstrói, duas faces da mesma invenção.

O Professor Donaldo Schüler

Como teve a ideia para o livro Joyce Era Louco?

DS: Primeiro foi a tradução do  “Ulisses”, feita por Antônio Houaiss. Como professor de grego, levei meus alunos a saltar do mundo de Homero para a turbulenta Dublin de princípios do século XX, sacudia pela rebeldia das vanguardas. Apareceram concomitantemente traduções e reflexões dos irmãos Campos. Aconteceu em Paris, nos anos 70 do século passado, um ano inteiro dedicado a Joyce pelo inventivo psicanalista Jacques Lacan. As análises de Lacan foram gravadas em fita e estenografadas. Publicações feitas por sociedades psicanalíticas em vários países, também no Brasil, despertaram interesse.  Em 2005 apareceu a versão autorizada das lições de Lacan com o título “Le Séminaire, livre XXIII”. Solicitações contínuas para destrinchar o enredado texto de Lacan levaram-me a escrever “Joyce era louco?”. O livro confronta o Seminário, livro XXIII de Jacques Lacan com a obra literária  de James Joyce. Lacan focaliza a criação literária. Entra em discussão o corpo, o psicanalista divide o corpo do escritor em duas etapas: o corpo que adquiriu nos seus anos de formação e o corpo que o escritor passou a desenvolver a partir de um momento traumático em sua juventude.  A  obra literária é o corpo em que o escritor reside. Inadequado é procurar uma biografia fora da produção literária. O corpo do escritor é o corpo que ele artisticamente produziu.

Qual seu  objetivo com esta obra?

DS: A loucura é preocupação constante de poetas, escritores e teóricos desde Homero. Psiquiatras ocupam-se com a loucura desde princípios do século XIX. A loucura mereceu a atenção de psicanalistas desde os primeiros anos do século XX. Já que psicanalistas examinam textos literários, a teoria psicanalítica não pode ser ignorada por teóricos da literatura. Meu objetivo é participar da discussão para compreender melhor a invenção literária.

O que os leitores podem esperar desta obra, sendo o senhor tradutor do escritor irlandês?

DS: A obra literária é um corpo vivo e original. Traduzido, o corpo literário passa a viver em outro espaço, em outra língua. O tradutor sente a transfiguração no ato de traduzir. Joyce revive na tradução em corpo transfigurado. A tradução participa da invenção literária. O rio narrativo que atravessa a obra de Joyce continua a fluir. O tradutor é leitor de sua própria tradução. No texto reinventado, tradutor e leitor convivem. Todo leitor é tradutor. A obra lida é reinventada na experiência do leitor. A obra terá tantos corpos quantos forem os leitores.

James Joyce

O livro será lançado durante uma exposição de arte. Como se dá essa relação entre arte, psicanálise e literatura na obra de Joyce?

DS: A artista plástica, Elida Tessler, visita a obra de James Joyce, em várias ocasiões. Destaco Claviculário e Dubling. Um dos estojos de Claviculários é dedicado à tradução brasileira do Finnigans Wake. Elida destaca palavras e as grava em chaves, mistério penetra o metal, oferecido ao olhar, ao tato. A obra literária ganha um corpo imprevisto. O mistério aproxima literatura, arte e psicanálise. Ler em cada uma dessas atividades é decifrar mistérios. Quem decifra entra no labirinto sem saída e sem centro. No labirinto caminhos confluem e se dispersam.  Em Dubling, a cidade de Dublin se alarga e se desdobra. Garrafas, destinadas a fluir no rio da vida, encerram palavras que ecoam e se duplicam em quem as experimenta.  Na obra de Joyce, todas as artes convergem.

No início do livro, o senhor cita os gregos, sendo este universo bastante familiar ao senhor, já que traduziu diversas obras de autores como Homero e Sófocles e é professor de Língua e Literatura Grega. De que maneira seu conhecimento da cultura grega o influenciou no trabalho com Joyce? Que ligações, presentes neste novo livro, é possível estabelecer entre Joyce e os gregos, já que para o próprio autor irlandês esta é uma referência essencial, como nos lembra Ulisses?

DS: Em Joyce,  sou levado aos gregos por Joyce. Os gregos fundam o Ocidente.  Ao fundar Joyce funde e confunde. Todos os séculos ressoam na obra de Joyce. Finnegans Wake é uma ópera universal, Ocidente e Oriente colidem, ressoam.  Os gregos nos ensinaram a inventar. Joyce frequenta os gregos para reinventar, ele e os artistas de sua geração e da geração que o precedeu: Wagner, Nietzsche, Salvador Dalí, Picasso, o cinema, cineastas, poetas líricos… Estamos em presença de uma nova Renascença. Esta Renascença está à altura do Renascença dos séculos XIV, XV e XVI.

A pergunta, que é título do livro, parece, em alguma medida, uma pequena provocação ao leitor. Ela tem uma resposta para o senhor? O leitor pode encontrar essa resposta no livro?

DS: Provocar (de provocare) significa chamar para fora. Obra que não provoca não é lida. A leitura nos chama para fora de nós mesmos. Toda pergunta, por lançar ao não saber, inquieta. Acomodados vivem confortavelmente, não inventam. Por que  inventar? Se estamos acomodados sobre um abismo – hipótese que não pode ser excluída – necessitamos de vozes que nos despertem para reinventar caminhos. Repousar  ofende a condição humana, só a ação humaniza.

Conheça outros livros de Donaldo Schüler

Além da ficção: livros sobre o mesmo período retratado pela nova novela das seis, “Novo Mundo”

Por: Renata de Albuquerque*

Leopoldina e D. Pedro

A nova novela das seis, “Novo Mundo”, é uma ficção que tem como pano de fundo acontecimentos históricos. É uma novela de época, mas as próprias autoras, Thereza Falcão e Alessandro Marson, avisam que o objetivo não é ser didático quanto à História do período. Como é comum na dramaturgia, estão misturadas na história de “Novo Mundo” ficção e realidade.

Na nova trama das seis, estão presentes personagens históricos, como Dom Pedro (interpretado por Caio Castro) e Leopoldina (Letícia Colin). Mas os protagonistas são os ficcionais Anna Millman (Isabelle Drummond) e Joaquim Martinho (Chay Suede). Apesar do tom ficcional, a novela pretende mostrar como surgiram traços importantes da cultura brasileira, como o famoso “jeitinho brasileiro”.

Para aprofundar-se nesse tema, vale a leitura do clássico Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e também de Era no Tempo do Rei – Atualidade das Memórias de um Sargento de Milícias, de Edu Teruki Otsuka, que mostra como o romance de Manuel Antônio de Almeida se organiza conforme uma lógica regida por conflitos interpessoais, que se manifestam no romance de maneiras diversas, mas que podem ser unificadas na noção de rixa.

 

 

Na novela das seis, a questão da língua promete gerara situações cômicas, já que a protagonista vivida por Isabelle Drummond é jovem inglesa professora de Português de Leopoldina. O tema também está em Travessias – D. João VI e o Mundo Lusófono, organizado por Paulo Motta Oliveira. Os ensaios reunidos no livro propõem-se a lançar novos olhares sobre a vinda da corte portuguesa ao Brasil, a partir de objetos e pontos de vista bastante diversificados. Os textos se inserem em um contexto atual em que se procuram estabelecer, de maneira mais efetiva, laços reais, e cada vez mais necessários, entre os Países de Língua Oficial Portuguesa.

 

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Dia da Mulher: a igualdade de gênero ainda está longe de ser uma realidade

Por: Renata de Albuquerque

 

Mais um dia 8 de março vem e mais uma vez o “Dia da Mulher” entra em pauta. Há quem diga “não queremos flores”. Talvez seja melhor dizer “queremos respeito”. Muito já foi conquistado desde que as operárias americanas morreram no incêndio da fábrica de tecidos em Nova York, no século XIX. Mas, é inegável: ainda falta um longo caminho a percorrer até que a igualdade de gênero torne-se uma realidade.

Por isso, é preciso continuar falando, ressaltando as conquistas que já aconteceram e as que ainda estão por vir. Por isso, a Ateliê Editorial resolveu dar espaço a este tema e criou a campanha “Março, Mês da Mulher”.

A ideia foi aproveitar que o mês de março é todo dedicado à poesia (14/3 é o Dia Nacional da Poesia e 21/03 é Dia Mundial da Poesia) e unir os dois temas. Por isso, em março, todos os livros de poesia estão com desconto de 35%.

Se por um lado é a chance de economizar na compra de obras de um dos gêneros literários mais queridos dos leitores, por outro, é a oportunidade de conhecer a poesia escrita por mulheres, ouvir suas vozes e o que elas têm a dizer sobre si mesmas e sua condição.

Com o avanço da sociedade, elas passam a ser protagonistas de suas próprias histórias. E, para celebrar as mulheres e a poesia, veja abaixo algumas das muitas sugestões de livros que estão com desconto especial.

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Organização: Eliane Robert Morae

De R$82,00 Por R$ 53,30

Traz uma seleção do melhor da lírica erótica desde o século XVII até os dias de hoje, com nomes como Gregório de Matos, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Álvares de Azevedo e Ana Cristina César, entre muitos outros. Os versos se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante. Lado a lado, eles se reúnem aqui para dar voz a um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

 

Debaixo do Sol

Eunice Arruda

De R$36,50 Por R$ 23,72

A poeta da “Geração de 60”,  escreve, como ela mesma diz, pela “necessidade de captar as emoções, os pensamentos e devolvê-los depois ao mundo, transformados em outra linguagem: a da poesia”. Em Debaixo do Sol, a dicção lírico-amorosa-existencial continua a se destacar. A partir de uma escrita sintética, a poeta fala da condição humana, abraçada na comunhão com o outro e com o mundo.

 

Feito Eu

Elisa Nazarian

De R$31,00 Por R$20,15

Ao abrir as portas da memória autobiográfica, a escritora resgata o mais íntimo que existe em todos nós: o campo dos afetos. Sem rodeios nem melodramas, ela nos conduz delicadamente a esse universo tão particular quanto universal, sem o qual não nos saberíamos humanos. Em Feito Eu, ela trata dos momentos cotidianos, às vezes perturbadores, e explora o amor no que ele tem de mais visceral e doloroso. Seu verso, límpido e pungente, consegue ser confessional sem se tornar piegas.

 

Hipóteses de Amor

Annalisa Cima

De R$63,00 Por R$40,95

Uma das mais importantes poetas italianas da atualidade, teve o volume Ipotesi d’Amore  originalmente publicado em 1984 e depois traduzido por Alexandre Eulálio, amigo da escritora, e pelo poeta Ivo Barroso. Seus poemas, de intensa dramaticidade, falam principalmente de amor e amizade. Esta edição bilíngue, organizada por Maria Eugênia Boaventura e pelo próprio Ivo, traz também um conjunto de cartas trocadas entre Annalisa e Alexandre, além de um posfácio escrito por ela.

 

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