Poesia

Caligramas: seleta de poemas de Guillaume Apollinaire

Por Renata de Albuquerque

“Caligrama”: palavra que se origina da mistura entre “ideograma” e “caligrafia” é o título de um dos mais importantes livros de poemas de Guillaume Apollinaire, que acaba de ser relançado. Em sua origem, o termo já revela a vocação de ir além da palavra escrita e expressar seus significados também pela forma – que sugerem desenhos.

O caligrama, ao unir imagem e palavra, explode em significado, como lembra Véronique Dahlet no prefácio da edição: “ Erupção dentro da unidade da palavra, cujo desmantelamento ocorre em prol da materialidade tipográfica; erupção na linearidade narrativa do discurso, criando ilhas textuais circundadas pelos brancos que preenchem o papel de sintaxe; erupção, enfim, da visibilidade na legibilidade e do figurativo na ordem do signo linguístico”.

É o desafio de traduzir “para além da palavra” que Álvaro Faleiros assume ao decidir transpor estes textos de Apollinaire do francês ao português em Caligramas. Afinal, além de lidos, eles  precisam ser “vistos” para que sejam compreendidos por inteiro, dentro de seu contexto histórico e proposta artística. Além do ritmo e das rimas, as imagens e o espaço gráfico precisam fazer sentido e complementam-se em metáforas. E aí mora a genialidade do trabalho.

A seguir, alguns exemplos do trabalho de Álvaro Faleiros que estão em Caligramas:

“Caligramas”, de Guillaume Apollinaire: segunda edição

Caligramas,os poemas de Guillaume Apollinaire, foram escritos durante a Primeira Guerra Mundial para representar imagens, valendo-se das noções de caligrafia e dos ideogramas utilizados em línguas orientais. A obra tornou o poeta francês precursor da poesia visual, depois praticada por outros artistas, como Mallarmé na França e pelos concretistas no Brasil. Caligramas chega agora à segunda edição, com tradução, notas e introdução escrita pelo poeta e professor livre-docente de Literatura Francesa da USP,  Álvaro Faleiros, em uma coedição Ateliê Editorial e UnB. A seguir, ele fala sobre esta nova edição da obra.

Que novidades traz esta segunda edição, em relação à anterior?

Álvaro Faleiros: Além da revisão dos poemas, fiz um novo prefácio destacando o centenário de morte de Apollinaire e a Primeira Guerra Mundial.

A Introdução do livro foi escrita a partir de sua Tese de Doutorado. Qual foi sua hipótese nesse estudo?

AF: Na verdade o livro todo é fruto da tese, sendo a parte mais prática e aplicada do trabalho. Meu desejo foi o de explorar as diferentes dimensões textuais do texto poético em tradução. A riqueza e a variedade de formas nos Caligramas levou-me a escolhê-lo como objeto de estudo. No que diz respeito aos poemas visuais, a principal hipótese é de que eles não podem ser tratados como um todo. Assim, proponho uma classificação dos mesmos em diferentes tipos, em função de seu grau de complexidade.

Quando se fala em caligramas, é inevitável pensar em figuras: não apenas as de linguagem, mas também imagens que os poemas propõem. Em sua opinião, isso torna Caligramas uma obra mais hermética ou mais simples para o público brasileiro? Que repertório é preciso ter para compreender essas relações postas na obra?

Álvaro Faleiros

AF: A beleza dos caligramas é que podem ser apreciados também como pinturas. Além disso, são poemas singelos, com ar de crônicas sobre a Primeira Guerra Mundial. Não se trata de obra de difícil leitura. Apollinaire era jornalista e sempre prezou pela comunicabilidade.  

O trabalho de tradução vai além de apenas  “colocar em português” as palavras escritas em outro idioma. O trabalho mais profundo, de transposição de significados é essencial para que o leitor tenha preservada sua experiência de leitura. Em Caligramas isso inclui formas e questões visuais. Quais foram os mais importantes desafios desse trabalho?

AF: O grande desafio foi dar a ver os movimentos das palavras na página, sem perder de vista a dimensão semântica.

O senhor aponta, no livro, a questão da fusão entre “guerra e poesia” feita por Apollinaire. Pode, por gentileza, falar um pouco sobre isso?

AF: Os poemas dos Caligramas foram escritos durante a Primeira Guerra Mundial, no calor da batalha. Muitos deles foram escritos no front, onde Apollinaire lutou pela França contra os alemães. Para as vanguardas, das quais Apollinaire participou com entusiasmo, as batalhas estéticas exigiam um engajamento que se assemelhava ao da guerra. Havia uma crença de que aquela grande guerra era lutada pela liberdade. Depois, devido à carnificina que se produziu, essa fé foi relativizada pelo próprio Apollinaire, que já não se iludia mais com a suposta beleza da guerra.

Criar em meio à barbárie da guerra. Isto foi o que fez Apollinaire no início do século XX. Hoje, em um contexto histórico de radicalismo e violência latente (e, muitas vezes, explícita), qual a importância de reler a obra deste poeta? O que ela nos diz, hoje?

AF: Ao observarmos a ilusão que pode levar alguém a lutar de forma ferrenha por certos ideais e a morrer por eles, podemos relativizar esse tipo de atitude e defender mais equilíbrio e mais diálogo. O convívio com as diferenças é o que faz de nós seres civilizados. A fé cega sempre nos leva à barbárie. Sempre é bom nos lembrarmos disso.

Março é mês de poesia!

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

Leia mais poesia

Um poema em homenagem a Jacó Guinsburg

Um poema em homenagem a Jacó Guinsburg

Falecido no final de outubro, aos 97 anos, o tradutor, ensaísta e editor Jacó Guinsburg tem sido frequentemente homenageado, dada sua grande importância para o mercado editorial brasileiro. Autor de diversos livros, seu único título de poesias próprias, Jogo de Palavras, foi publicado meses antes de seu falecimento pela Ateliê Editorial.

A seguir, o arquiteto Jacó Sanowicz homenageia o grande editor com um poema, escrito após a leitura de “Jogo de Palavras”. “Li e reli os poemas durante uma noite quase inteira e de manhã resolvi escrever para ele. Sabia que era o único [livro] de poesia, apesar de [esta] estar embutida em todo o seu trabalho”, explica. Leia o poema a seguir:

 

parceiros parceiras,

ao jacó guinsburg

 

não me isento,

risco

corro o risco

que não risco

arrisco,

contrato refrato

distrato trato

no embalo

sussurro grito falo,

sangro aberto, forte,

meu norte,

verdadeiro magnético

imagético

declinado mágico

universo peito, pleito,

conceito respeito

Assinado: pelhtale

Ateliê e Kotter: você conhece esta parceria?

São Paulo e Curitiba. A primeira é considerada a maior cidade do Brasil; a segunda abriga alguns dos consumidores mais exigentes do país. Ambas estão ligadas por uma parceria literária que já rendeu bons frutos. São Paulo é a sede da Ateliê Editorial, que reflete no nome o cuidado e o capricho com que realiza suas edições: livros sobre livros, clássicos em edições anotadas e explicativas e livros acadêmicos. Em Curitiba fica a Kotter Editorial, cuja filosofia é publicar trabalhos de qualidade, de autores inéditos ou não, com foco em humanidades, artes, literatura e filosofia.

Capa do livro de Marcelo Sandmann

Ateliê e Kotter são coeditoras em diversos títulos, como os da Coleção Gralhas Raras e da Coleção Antológicos, da qual faz parte o recente lançamento Antologia Poética – 1987-2017, de Marcelo Sandmann. Ele é Professor no curso de Letras da UFPR, compositor e poeta. Na obra, é possível perceber o diálogo permanente com os autores que admira (Camões, Drummond, Cabral, José Paulo Paes e Leminski estão entre suas afinidades eletivas). Sandmann trabalha com o máximo de recursos e o mínimo de material necessário. Os efeitos poéticos devem ser obtidos sem desperdício verbal ou emocional, num sistema estético de economia, que beira a entropia. A poesia nasce e se mantém nas linhas de tensão que existem entre o texto e o leitor, a palavra e seu avesso, o prosaico e o inominável, o cânone literário e a vida mais chã.

 

L’azur Blasé ou Ensaio do Fracasso sobre o Humor, de Guilherme Gontijo Flores, foi finalista do Prêmio APCA 2016, na categoria poesia. Nesta coletânea de poemas, tudo está exposto ao seu fracasso autoirônico, até mesmo o poeta e a obra, a começar pela piada batida que cria o enquadramento do autor morto que tem seu livro lançado por editores amigos. Nesse caso, a pergunta central do livro poderia ser: O que fazer quando o humor fracassa? Resta um riso pelo malogro da piada?

Outro exemplo da parceria de sucesso entre Kotter e Ateliê Editorial é o volume A Comédia e Seus Duplos: O Anfitrião de Plauto, organizado por Rodrigo Tadeu Gonçalves.  A obra apresenta um conjunto de ensaios sobre a recepção e as adaptações da comédia “O Anfitrião” pelos séculos, nos distintos países e culturas. A peça de Plauto (comédia ou tragédia?) discute questões fundamentais como os duplos, o engano, o abuso da autoridade da parte dos deuses, a comédia profundamente humana do marido traído.

Poesia, teatro ou filosofia? A parceria entre Ateliê e Kotter não deixa dúvidas de que a edição de livros de qualidade tem espaço no mercado.

Seleta de poemas “Na Pureza do Sacrilégio”

Confira a seguir alguns poemas do livro “Na Pureza do Sacrilégio”, de Carlos Cardoso, com desenhos de Lena Bergstein. A seleção foi feita pelo próprio autor, cujas fotos são de Bel Pedrosa:

 

Camaleão

Como um camaleão rastejo pelo
silêncio do meu quarto.

É poesia o encontro das paredes?

São ópio as estrelas aplumadas em
cada esquina do meu ego?

Ou será benevolente a lágrima que escorre por
minh’alma quando brado louco por felicidade?

Os arredores repletos de melancolia
ainda se refazem do gelo.

A ausência de um ombro, de um
corpo catatônico que seja,
faz-me lembrar o quanto era bom
o diálogo com os meus olhos.

Tocar a escuridão quando a voz do
desespero insistia no apego.

Mozart me enlaça com um fio de
náilon na garganta.
São as trevas rodeadas de luzes
intangíveis,

metáfora do abominável descaso
público a um quase morto.

Ninguém, nem mesmo a solidão, tem
mãos assim tão pequenas.

 

 

 

Eu serei noite e serei dia

 

Tenho uma outra face
que não é a rebeldia do exílio,
conto com a morte
e uma palavra de alívio

para quando o sermão de Maria
ocultar o sublime sonho

do unicórnio perdido,

saberei que o tempo
é apenas uma gota d’água
a beber o saber etéreo
da fugaz sabedoria,

sempre que as coisas
forem tristes
e o rio guardar em si,
o ser

por onde o ser não navega,

eu serei noite e serei dia,
e serei dia e serei noite.

 O poema, o começo

 

Indago, por onde iniciar essa resenha.
De dentro para fora, de um lado para o outro,
sem foco, com rima, com ou sem sentimento.

Lamento, tormento, piedade, felicidade.

Simples feito a natureza, complexo como a humanidade,

  Agudo, fraco, obtuso, disforme,

angelical ou demoníaco,
soberbo, decente, incoerente, desejoso,
voluptuoso e indiferente.

Com as mãos sujas de argila, o copo cheio de tequila,
e aquela menina que tanto desejo, seu beijo.

Ou abordando a tristeza, a sutileza, as formas de beleza,
as luzes, a ribalta.

Por onde começar essa bossa, esse texto,
essa nossa vossa discordância,
pela juventude, tema de infância,
pela infância, pureza e relevância.

Afinal, iniciarei pela instância, ininterrupta discrepância.

 

 

 

 

 

 

 

Frase primeira

E como falar
de outra forma?
de cortar
e reformatar o futuro,
e assim querer
e ser sem par.
Por que ser assim
pura forma?
tanta cor
entre ares dúbios,
ferrugens,
e sorrateiros costumes
de manter
sombras assimétricas,
como a de pensar
antes de ser,
e andar
por entre cadeiras

que margeiam limites
intangíveis,

formas sem abdômen,

sem retina.
Ainda quero uma frase primeira,
nua,
ligeiramente inteira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ventania

Para Antonio Cicero

Iluminar a sombra
e torcer pelo sol
até que venha a chuva,

sapatear pela escuridão
com trovões e ventania,

molhar os dedos
sentir o frio e o arrepio
que é estar.

Poesia em vídeo

Literatura a gente encontra dentro dos livros, certo?

Sim, mas não apenas. Hoje em dia, é cada vez mais comum que a literatura ocupe outros espaços. E o vídeo é um deles. Por isso, alguns autores também marcam presença em plataformas como o Youtube. Carlos Cardoso, por exemplo, usa seu canal para mostrar ao público algumas de suas poesias – que serão em breve lançadas no volume “Na Pureza do Sacrilégio”. Confira “Camaleão

 

Perto do abismo: Nove Degraus para o Esquecimento

O novo livro de poemas de Aguinaldo José Gonçalves, “Nove Degraus para o Esquecimento” acaba de ser lançado pela Ateliê. O volume traz ilustrações de Efigênia Helu, Geraldo Matos e Sebastião Rodrigues. São mais de 50 poemas. O primeiro, “Um sol emergiu”, parece tratar de esperança, mas alerta: “Enchaquetado de raios, o sol se tornou minha férvida prisão”. A partir dele, o leitor percorre um trajeto de recomposição e esquecimento até chegar ao último texto do livro, que revela, já no título: “Eu escrevi minha história”. Para Susana Busato, neste livro, “O retrato do sujeito, sua identidade íntima, confunde-se com a poesia que se procura num processo crítico de autodevoração”.

A seguir, o autor Aguinaldo José Gonçalves escreve sobre essa obra:

“Nove Degraus para o Esquecimento”consiste num livro de genuínos poemas escritos numa mescla entre a tradição clássica e os laivos da modernidade. Talvez neste sentido o livro aponte no seu processo composicional para os descaminhos da pós-modernidade. Traz como mote temático o tempo e o espaço numa espécie de verticalização bifurcada da existência. Não posso afirmar o que encontrará o leitor nesses descaminhos, mas posso afirmar que encontrará muitos “desvios de dentro” no movimento circular das imagens.

O título não pode e não deve ser explicitado mesmo porque o movimento interior que o construiu oculta todos os mistérios e segredos. Só sei que se chegasse ao décimo degrau o abismo estaria revelado. E nesse caso não existe nenhuma influência para a construção do livro, a não ser longínquos graus de familiaridade com alguma poesia após o livro ter sido composto.

Das narrativas ele se diferencia pelo gênero e dos outros livros de poemas diferencia-se aqui acolá pelo fluxo, pelo ritmo e pela consciência moduladora.

O material é inédito e o delineio do tempo para a sua elaboração é fragmentado e incomensurável.

Sem desafios…

Dia da Mulher: a igualdade de gênero ainda está longe de ser uma realidade

Por: Renata de Albuquerque

 

Mais um dia 8 de março vem e mais uma vez o “Dia da Mulher” entra em pauta. Há quem diga “não queremos flores”. Talvez seja melhor dizer “queremos respeito”. Muito já foi conquistado desde que as operárias americanas morreram no incêndio da fábrica de tecidos em Nova York, no século XIX. Mas, é inegável: ainda falta um longo caminho a percorrer até que a igualdade de gênero torne-se uma realidade.

Por isso, é preciso continuar falando, ressaltando as conquistas que já aconteceram e as que ainda estão por vir. Por isso, a Ateliê Editorial resolveu dar espaço a este tema e criou a campanha “Março, Mês da Mulher”.

A ideia foi aproveitar que o mês de março é todo dedicado à poesia (14/3 é o Dia Nacional da Poesia e 21/03 é Dia Mundial da Poesia) e unir os dois temas. Por isso, em março, todos os livros de poesia estão com desconto de 35%.

Se por um lado é a chance de economizar na compra de obras de um dos gêneros literários mais queridos dos leitores, por outro, é a oportunidade de conhecer a poesia escrita por mulheres, ouvir suas vozes e o que elas têm a dizer sobre si mesmas e sua condição.

Com o avanço da sociedade, elas passam a ser protagonistas de suas próprias histórias. E, para celebrar as mulheres e a poesia, veja abaixo algumas das muitas sugestões de livros que estão com desconto especial.

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Organização: Eliane Robert Morae

De R$82,00 Por R$ 53,30

Traz uma seleção do melhor da lírica erótica desde o século XVII até os dias de hoje, com nomes como Gregório de Matos, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Álvares de Azevedo e Ana Cristina César, entre muitos outros. Os versos se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante. Lado a lado, eles se reúnem aqui para dar voz a um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

 

Debaixo do Sol

Eunice Arruda

De R$36,50 Por R$ 23,72

A poeta da “Geração de 60”,  escreve, como ela mesma diz, pela “necessidade de captar as emoções, os pensamentos e devolvê-los depois ao mundo, transformados em outra linguagem: a da poesia”. Em Debaixo do Sol, a dicção lírico-amorosa-existencial continua a se destacar. A partir de uma escrita sintética, a poeta fala da condição humana, abraçada na comunhão com o outro e com o mundo.

 

Feito Eu

Elisa Nazarian

De R$31,00 Por R$20,15

Ao abrir as portas da memória autobiográfica, a escritora resgata o mais íntimo que existe em todos nós: o campo dos afetos. Sem rodeios nem melodramas, ela nos conduz delicadamente a esse universo tão particular quanto universal, sem o qual não nos saberíamos humanos. Em Feito Eu, ela trata dos momentos cotidianos, às vezes perturbadores, e explora o amor no que ele tem de mais visceral e doloroso. Seu verso, límpido e pungente, consegue ser confessional sem se tornar piegas.

 

Hipóteses de Amor

Annalisa Cima

De R$63,00 Por R$40,95

Uma das mais importantes poetas italianas da atualidade, teve o volume Ipotesi d’Amore  originalmente publicado em 1984 e depois traduzido por Alexandre Eulálio, amigo da escritora, e pelo poeta Ivo Barroso. Seus poemas, de intensa dramaticidade, falam principalmente de amor e amizade. Esta edição bilíngue, organizada por Maria Eugênia Boaventura e pelo próprio Ivo, traz também um conjunto de cartas trocadas entre Annalisa e Alexandre, além de um posfácio escrito por ela.

 

E tem muito mais em nossa seção de Poesias.

Ao finalizar sua compra digite o cupom “poesia” que o desconto será aplicado em todos os livros de poesia, exceto nos livros que já estiverem em promoção no outlet e pacotes promocionais.

Fernando (Cabral Martins) estuda Fernando (Pessoa)

Em Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa um dos mais importantes críticos pessoanos coloca luz sobre a teoria e a história da heteronímia

Renata de Albuquerque

Pode parecer ao leitor desavisado que não há novidade em um livro como Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa. Entretanto, o lançamento é um excelente roteiro para o entendimento da obra de Pessoa, pois traz uma visão geral da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno, cujos documentos originais foram encontrados em 1935, ano de sua morte, em 91 envelopes arquivados numa célebre arca – a que se acrescentavam outros cinquenta guardados numa mala e em um armário.

Além de uma nova leitura do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio, Fernando Cabral Martins faz, em sua obra, importante contribuição sobre a teoria e a história da heteronímia. A seguir, um dos mais importantes críticos pessoanos em atividade fala  com exclusividade ao Blog da Ateliê:

O senhor estuda a obra de Fernando Pessoa há décadas. O que o atrai na obra desse autor? Quais são, em sua opinião, as questões mais instigantes? Qual razão o levou a estudar Pessoa?

Fernando Cabral Martins: Na verdade, eu estudo a obra de Pessoa desde o princípio dos anos 80, quando comecei a dar aulas de literatura portuguesa na Universidade Nova de Lisboa. Antes disso, já era um leitor, com toda a paixão de leitura de Pessoa que era comum a tantos amigos meus, paixão que estava nesses anos num especial crescendo, com a publicação, tão longamente esperada, do Livro do Desassossego em 1982. Mas é verdade que só a partir dos anos 90 comecei a publicar mais regularmente sobre Pessoa e o Modernismo português. Hoje, o que me parece de maior importância é analisar e integrar a ficção narrativa que tem surgido nos últimos anos, bem como os seus múltiplos escritos de filosofia.

 

O que o motivou a escrever uma “Introdução aos estudos” do autor?

FCM: O que se tem passado nos últimos anos é, pois, um avanço muito considerável na publicação de inéditos e no conhecimento dos vários aspectos de uma obra muito vasta. De tal modo que me pareceu que era altura de tentar obter uma visão geral da história da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno.

 

Como foi realizado o trabalho que resultou neste livro? Como foi feita a pesquisa? O senhor teve acesso a manuscritos, cartas e outros materiais?

FCM: O trabalho de pesquisa foi começado há muitos anos, com um especial enfoque no espólio de Pessoa disponibilizado pela Biblioteca Nacional, que é um verdadeiro tesouro, pois reúne o conjunto dos escritos e cartas de uma vida intensa e inteiramente dedicada à literatura. A biblioteca de Pessoa, por sua vez, que também foi digitalizada e é hoje consultável online no site da Casa Fernando Pessoa, constituiu igualmente uma fonte assinalável de informação pertinente.

 

A obra é destinada apenas a leitores que não conhecem Fernando Pessoa ou pode ser recomendada também a quem já tem conhecimento sobre o autor?


FCM
: O meu objetivo foi propor uma descrição e um comentário coerentes e, tanto quanto possível, completos da obra de Pessoa, à luz das mais recentes publicações, e fazê-lo procurando manter uma exigência de clareza e simplicidade. Neste sentido, pode interessar tanto aos leitores que só agora se iniciam como àqueles que já o conhecem, pois a existência de um mapa é sempre útil para viajar num território extenso e cheio de caminhos que se bifurcam.

 

Existe alguma informação inédita que o senhor tenha encontrado durante sua pesquisa e colocado neste livro, como algum poema, por exemplo? Qual?

FCM: Eu ofereço, por exemplo, uma leitura nova do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio. Mas este livro tinha antes a intenção de apresentar uma panorâmica de Pessoa tal como se conhece hoje. Aliás, depois de 75 anos de edições de inéditos, pode dizer-se que pelo menos a sua poesia está praticamente toda publicada, e que já se conhece talvez o essencial da sua obra.

Manuscrito do poema “Deixo ao Cego e ao Surdo” contido no livro

Do ponto de vista teórico e de crítica literária, em sua opinião, há alguma inovação em sua obra (como, por exemplo, a maneira de apresentar ou organizar o conhecimento sobre Pessoa)? Qual?

FCM: Creio que, para além da própria escolha dos aspectos textuais e temáticos a comentar, o meu principal contributo poderá estar nos dois últimos capítulos, em que tento fazer a história e a teoria da heteronímia. Tentei considerar na sua dinâmica esse tão singular modelo de escrita literária que inventa heterônimos, vendo-o na lógica da sua evolução e não como um sistema fixado.

 

Fernando Paixão destaca, na orelha do livro, a capacidade de interrelacionar informações que, de qualquer modo, estão colocadas de maneira autônoma na obra. Tal estrutura foi criada com que objetivo?

FCM: Esse procedimento tem a ver, penso eu, com a natureza da literatura de Pessoa, que é um constante diálogo entre as posições (estéticas, filosóficas, políticas, religiosas, etc.) que as diferentes figuras heterônimas defendem. É esse o desafio, precisamente, o de tentar ver os traços que unem o que é diferente, a coerência geral por detrás das coerências parciais dos heterônimos, as linhas que ligam dos múltiplos esboços e fragmentos que Pessoa nos deixou e a interrelação entre os muitos gêneros, temas e planos que o ocuparam toda a sua vida. Porque Pessoa é um escritor único e complexo, mas que nos transmite ao mesmo tempo a sensação constante de um pensamento luminoso, que não foge às contradições e à complexidade do mundo, mas antes as torna a matéria-prima da sua arte.

 

Conheça outras obras de Fernando Cabral Martins