Poesia

Poesia em vídeo

Literatura a gente encontra dentro dos livros, certo?

Sim, mas não apenas. Hoje em dia, é cada vez mais comum que a literatura ocupe outros espaços. E o vídeo é um deles. Por isso, alguns autores também marcam presença em plataformas como o Youtube. Carlos Cardoso, por exemplo, usa seu canal para mostrar ao público algumas de suas poesias – que serão em breve lançadas no volume “Na Pureza do Sacrilégio”. Confira “Camaleão

 

Perto do abismo: Nove Degraus para o Esquecimento

O novo livro de poemas de Aguinaldo José Gonçalves, “Nove Degraus para o Esquecimento” acaba de ser lançado pela Ateliê. O volume traz ilustrações de Efigênia Helu, Geraldo Matos e Sebastião Rodrigues. São mais de 50 poemas. O primeiro, “Um sol emergiu”, parece tratar de esperança, mas alerta: “Enchaquetado de raios, o sol se tornou minha férvida prisão”. A partir dele, o leitor percorre um trajeto de recomposição e esquecimento até chegar ao último texto do livro, que revela, já no título: “Eu escrevi minha história”. Para Susana Busato, neste livro, “O retrato do sujeito, sua identidade íntima, confunde-se com a poesia que se procura num processo crítico de autodevoração”.

A seguir, o autor Aguinaldo José Gonçalves escreve sobre essa obra:

“Nove Degraus para o Esquecimento”consiste num livro de genuínos poemas escritos numa mescla entre a tradição clássica e os laivos da modernidade. Talvez neste sentido o livro aponte no seu processo composicional para os descaminhos da pós-modernidade. Traz como mote temático o tempo e o espaço numa espécie de verticalização bifurcada da existência. Não posso afirmar o que encontrará o leitor nesses descaminhos, mas posso afirmar que encontrará muitos “desvios de dentro” no movimento circular das imagens.

O título não pode e não deve ser explicitado mesmo porque o movimento interior que o construiu oculta todos os mistérios e segredos. Só sei que se chegasse ao décimo degrau o abismo estaria revelado. E nesse caso não existe nenhuma influência para a construção do livro, a não ser longínquos graus de familiaridade com alguma poesia após o livro ter sido composto.

Das narrativas ele se diferencia pelo gênero e dos outros livros de poemas diferencia-se aqui acolá pelo fluxo, pelo ritmo e pela consciência moduladora.

O material é inédito e o delineio do tempo para a sua elaboração é fragmentado e incomensurável.

Sem desafios…

Dia da Mulher: a igualdade de gênero ainda está longe de ser uma realidade

Por: Renata de Albuquerque

 

Mais um dia 8 de março vem e mais uma vez o “Dia da Mulher” entra em pauta. Há quem diga “não queremos flores”. Talvez seja melhor dizer “queremos respeito”. Muito já foi conquistado desde que as operárias americanas morreram no incêndio da fábrica de tecidos em Nova York, no século XIX. Mas, é inegável: ainda falta um longo caminho a percorrer até que a igualdade de gênero torne-se uma realidade.

Por isso, é preciso continuar falando, ressaltando as conquistas que já aconteceram e as que ainda estão por vir. Por isso, a Ateliê Editorial resolveu dar espaço a este tema e criou a campanha “Março, Mês da Mulher”.

A ideia foi aproveitar que o mês de março é todo dedicado à poesia (14/3 é o Dia Nacional da Poesia e 21/03 é Dia Mundial da Poesia) e unir os dois temas. Por isso, em março, todos os livros de poesia estão com desconto de 35%.

Se por um lado é a chance de economizar na compra de obras de um dos gêneros literários mais queridos dos leitores, por outro, é a oportunidade de conhecer a poesia escrita por mulheres, ouvir suas vozes e o que elas têm a dizer sobre si mesmas e sua condição.

Com o avanço da sociedade, elas passam a ser protagonistas de suas próprias histórias. E, para celebrar as mulheres e a poesia, veja abaixo algumas das muitas sugestões de livros que estão com desconto especial.

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Organização: Eliane Robert Morae

De R$82,00 Por R$ 53,30

Traz uma seleção do melhor da lírica erótica desde o século XVII até os dias de hoje, com nomes como Gregório de Matos, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Álvares de Azevedo e Ana Cristina César, entre muitos outros. Os versos se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante. Lado a lado, eles se reúnem aqui para dar voz a um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

 

Debaixo do Sol

Eunice Arruda

De R$36,50 Por R$ 23,72

A poeta da “Geração de 60”,  escreve, como ela mesma diz, pela “necessidade de captar as emoções, os pensamentos e devolvê-los depois ao mundo, transformados em outra linguagem: a da poesia”. Em Debaixo do Sol, a dicção lírico-amorosa-existencial continua a se destacar. A partir de uma escrita sintética, a poeta fala da condição humana, abraçada na comunhão com o outro e com o mundo.

 

Feito Eu

Elisa Nazarian

De R$31,00 Por R$20,15

Ao abrir as portas da memória autobiográfica, a escritora resgata o mais íntimo que existe em todos nós: o campo dos afetos. Sem rodeios nem melodramas, ela nos conduz delicadamente a esse universo tão particular quanto universal, sem o qual não nos saberíamos humanos. Em Feito Eu, ela trata dos momentos cotidianos, às vezes perturbadores, e explora o amor no que ele tem de mais visceral e doloroso. Seu verso, límpido e pungente, consegue ser confessional sem se tornar piegas.

 

Hipóteses de Amor

Annalisa Cima

De R$63,00 Por R$40,95

Uma das mais importantes poetas italianas da atualidade, teve o volume Ipotesi d’Amore  originalmente publicado em 1984 e depois traduzido por Alexandre Eulálio, amigo da escritora, e pelo poeta Ivo Barroso. Seus poemas, de intensa dramaticidade, falam principalmente de amor e amizade. Esta edição bilíngue, organizada por Maria Eugênia Boaventura e pelo próprio Ivo, traz também um conjunto de cartas trocadas entre Annalisa e Alexandre, além de um posfácio escrito por ela.

 

E tem muito mais em nossa seção de Poesias.

Ao finalizar sua compra digite o cupom “poesia” que o desconto será aplicado em todos os livros de poesia, exceto nos livros que já estiverem em promoção no outlet e pacotes promocionais.

Fernando (Cabral Martins) estuda Fernando (Pessoa)

Em Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa um dos mais importantes críticos pessoanos coloca luz sobre a teoria e a história da heteronímia

Renata de Albuquerque

Pode parecer ao leitor desavisado que não há novidade em um livro como Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa. Entretanto, o lançamento é um excelente roteiro para o entendimento da obra de Pessoa, pois traz uma visão geral da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno, cujos documentos originais foram encontrados em 1935, ano de sua morte, em 91 envelopes arquivados numa célebre arca – a que se acrescentavam outros cinquenta guardados numa mala e em um armário.

Além de uma nova leitura do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio, Fernando Cabral Martins faz, em sua obra, importante contribuição sobre a teoria e a história da heteronímia. A seguir, um dos mais importantes críticos pessoanos em atividade fala  com exclusividade ao Blog da Ateliê:

O senhor estuda a obra de Fernando Pessoa há décadas. O que o atrai na obra desse autor? Quais são, em sua opinião, as questões mais instigantes? Qual razão o levou a estudar Pessoa?

Fernando Cabral Martins: Na verdade, eu estudo a obra de Pessoa desde o princípio dos anos 80, quando comecei a dar aulas de literatura portuguesa na Universidade Nova de Lisboa. Antes disso, já era um leitor, com toda a paixão de leitura de Pessoa que era comum a tantos amigos meus, paixão que estava nesses anos num especial crescendo, com a publicação, tão longamente esperada, do Livro do Desassossego em 1982. Mas é verdade que só a partir dos anos 90 comecei a publicar mais regularmente sobre Pessoa e o Modernismo português. Hoje, o que me parece de maior importância é analisar e integrar a ficção narrativa que tem surgido nos últimos anos, bem como os seus múltiplos escritos de filosofia.

 

O que o motivou a escrever uma “Introdução aos estudos” do autor?

FCM: O que se tem passado nos últimos anos é, pois, um avanço muito considerável na publicação de inéditos e no conhecimento dos vários aspectos de uma obra muito vasta. De tal modo que me pareceu que era altura de tentar obter uma visão geral da história da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno.

 

Como foi realizado o trabalho que resultou neste livro? Como foi feita a pesquisa? O senhor teve acesso a manuscritos, cartas e outros materiais?

FCM: O trabalho de pesquisa foi começado há muitos anos, com um especial enfoque no espólio de Pessoa disponibilizado pela Biblioteca Nacional, que é um verdadeiro tesouro, pois reúne o conjunto dos escritos e cartas de uma vida intensa e inteiramente dedicada à literatura. A biblioteca de Pessoa, por sua vez, que também foi digitalizada e é hoje consultável online no site da Casa Fernando Pessoa, constituiu igualmente uma fonte assinalável de informação pertinente.

 

A obra é destinada apenas a leitores que não conhecem Fernando Pessoa ou pode ser recomendada também a quem já tem conhecimento sobre o autor?


FCM
: O meu objetivo foi propor uma descrição e um comentário coerentes e, tanto quanto possível, completos da obra de Pessoa, à luz das mais recentes publicações, e fazê-lo procurando manter uma exigência de clareza e simplicidade. Neste sentido, pode interessar tanto aos leitores que só agora se iniciam como àqueles que já o conhecem, pois a existência de um mapa é sempre útil para viajar num território extenso e cheio de caminhos que se bifurcam.

 

Existe alguma informação inédita que o senhor tenha encontrado durante sua pesquisa e colocado neste livro, como algum poema, por exemplo? Qual?

FCM: Eu ofereço, por exemplo, uma leitura nova do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio. Mas este livro tinha antes a intenção de apresentar uma panorâmica de Pessoa tal como se conhece hoje. Aliás, depois de 75 anos de edições de inéditos, pode dizer-se que pelo menos a sua poesia está praticamente toda publicada, e que já se conhece talvez o essencial da sua obra.

Manuscrito do poema “Deixo ao Cego e ao Surdo” contido no livro

Do ponto de vista teórico e de crítica literária, em sua opinião, há alguma inovação em sua obra (como, por exemplo, a maneira de apresentar ou organizar o conhecimento sobre Pessoa)? Qual?

FCM: Creio que, para além da própria escolha dos aspectos textuais e temáticos a comentar, o meu principal contributo poderá estar nos dois últimos capítulos, em que tento fazer a história e a teoria da heteronímia. Tentei considerar na sua dinâmica esse tão singular modelo de escrita literária que inventa heterônimos, vendo-o na lógica da sua evolução e não como um sistema fixado.

 

Fernando Paixão destaca, na orelha do livro, a capacidade de interrelacionar informações que, de qualquer modo, estão colocadas de maneira autônoma na obra. Tal estrutura foi criada com que objetivo?

FCM: Esse procedimento tem a ver, penso eu, com a natureza da literatura de Pessoa, que é um constante diálogo entre as posições (estéticas, filosóficas, políticas, religiosas, etc.) que as diferentes figuras heterônimas defendem. É esse o desafio, precisamente, o de tentar ver os traços que unem o que é diferente, a coerência geral por detrás das coerências parciais dos heterônimos, as linhas que ligam dos múltiplos esboços e fragmentos que Pessoa nos deixou e a interrelação entre os muitos gêneros, temas e planos que o ocuparam toda a sua vida. Porque Pessoa é um escritor único e complexo, mas que nos transmite ao mesmo tempo a sensação constante de um pensamento luminoso, que não foge às contradições e à complexidade do mundo, mas antes as torna a matéria-prima da sua arte.

 

Conheça outras obras de Fernando Cabral Martins

Inscrições para Prêmio CNNP 2016 já estão abertas

livro com flor

O Concurso Nacional Novos Poetas (Prêmio CNNP 2016) recebe inscrições até 5 de setembro. O Prêmio é realizado pela Vivara Editora Nacional com apoio cultural da Revista Universidade. Podem participar brasileiros natos ou naturalizados, com mais de 16 anos. Cada candidato pode concorrer com até dois poemas de autoria própria e o tema é livre. A única exigência é que o texto seja escrito em português. Os vencedores participarão de uma antologia poética. Mais informações no site: www.cnnp.com.br

Março, mês da poesia (seleta)

Março é o mês da poesia. No dia 14 é comemorado o Dia Nacional da Poesia, em homenagem ao nascimento de Castro Alves. No dia 21, celebra-se o Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO, em 1999, para promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo. A data lembra da importância da diversidade do diálogo, da livre criação de ideias através das palavras, da criatividade e da inovação e tem como propósito estabelecer uma reflexão sobre o poder da linguagem e do desenvolvimento das habilidades criativas de cada pessoa. Por isso, hoje, no Blog, alguns autores da Ateliê indicam a leitura de poemas de seus mais recentes livros:

Renato Tardivo (Girassol Voltado para a Terra)

grassol

Canção

                                        caminhava pernas fracas pisando

teclas riscando notas na terra a embalar a vida que a espe-

rava uma oitava acima, qualquer

 

Ponteiro

Às vezes o passado. Às vezes, o passado. Às vezes o, passado.

 

Ida

O medo de que o outro se apaixone como lembrança
encobridora de] se apaixonar como lembrança encobridora
de amar a si mesmo sobre todas as coisas como lembrança encobridora do desejo de
morrer.

Ricardo Lima (Desconhecer)

desconhecer

p.17

admito não saber
onde anda o futuro

dedico dias inteiros
às asas cruas do filho que aprende a nadar
planto
rego
retiro ervas daninhas

a manhã traz pássaro
que se esborracha no vidro
a acácia
refletida em estilhaços
retumbante amarelo.

 

p.21

quando um amigo se vai
o silêncio que amplia a sala
a sirene que traga os doentes
a dor que interrompe a crença
tudo seca num vaso

olhos desertam
em contos incompletos
sobre o passo que vacila
uma árvore frondosa
na plenitude da primavera
amanhece
flor
mas o amigo se foi.

 

p.47

não tenho mais olhos para dicionário

as letras ficaram pequenas

o sentido frágil
agora outros compromissos

com amigos ausentes

em jantares e missa

 

vivo

entre livros

e árvores

em nenhum

respostas ou raposas
quase sempre um cão em silêncio
e a alma colhe

lugares

que nunca

olhei.

 

Marise Hansen (Porta-retratos)

portaretrato

Passo à palavra
Passo
À palavra
Peço

        Me refugio
Na palavra
Me alivio

Me liberto
Na palavra
Me desperto

            Falo
Pela palavra
Espero
Apelo
Para a palavra
Paro

Koan
Entre a poesia do dia a dia e a da filosofia

Fico com o sonho

Da padaria.

Inverso
Escrever em verso
é criar ritmo até então
inexistente neste (pelo menos)
universo.

Criar consórcio
entre palavras entre
outras, divórcio.

Usar a roupa do avesso
e descobrir
ser inverso o lado certo.

Ter compromisso com o partido
do conciso e com a total falta
de juízo.

Wassily Chuck (Rumo à Vertigem ou A Arte de Naufragar-se)

 Capa

A Celan

Nessa viagem, nenhuma bagagem, além

do vazio na concha das mãos.

 

Deixa tua fala

para trás, tua última

máscara,

e sente

a carência de ser,

o vazio

que germina

e há de ser tua voz. Sete

sonos mais dentro, vem

um verso junto

ao mar.

 

 

Quase Elegia

Toda voz que morre escorre para o mar.

 

 

Tudo se foi, até o que virá, levado

pelo sopro que vem do mar. Mas,

só é belo o dia porque finda.

Também o vento. Também

a vida. Vê:

não há poemas no eterno. Só

nasce a beleza no instante,

que, leve, se equilibra

entre o erguer e o quebrar

da onda. Nasce

com as cores do adeus. Nasce

para morrer. Como o dia

e o homem. Como a vida. Vê:

toda beleza é triste. E um resto

de verso, ao lado da voz,

insiste em ficar, feito

um consolo, talvez,

da vida pouca que há na vida,

da morte muita que há também,

um resto de verso

consolando

da tristeza de todo verso, da vida

que nunca basta, sempre o sonho

a completá-la, o sonho

que é sempre a vida.

 

Tübingen 

Do convés da alma, avistas vazios

que não podes nomear.

 

Repouso algum, sob um céu

que não mais dá frutos –

o ponto em torno ao qual

gravita o verso

agora está

no vento. Sobre

o Neckar,

a voz ainda vagueia

atrás do vento, distraindo,

sem ver, a solidão

dos campos.

Primeiro lançamento de 2016 é o novo livro de poesia de Wassily Chuck

Por: Renata de Albuquerque

 

“É preciso compreender a poesia de Wassily Chuck não como fuga da realidade, mas como fuga para a realidade”, escreve José de Paula Ramos sobre o lançamento Rumo à Vertigem ou a Arte de Naufragar-se, livro dedicado ao amigo e escritor Ivan Teixeira, falecido em 2013. Concordando com tal ideia, o autor, que é engenheiro, filósofo e diplomata, fala, a seguir, de alguns aspectos da obra e de sua concepção de poesia, embora ressalte que, para ele, “o poema é bicho de sombra, e o excesso de claridade o fere”.

Capa Rumo a Vertigem

Poesia – Em meio a um tempo que transforma a linguagem em mera ferramenta, relacionada a questões de produção e eficiência, em meio à disseminação crescente das linguagens técnica e eletrônica, que tendem a esvaziar a força criadora das palavras, a poesia busca recobrar um sentido mais profundo do texto, que nos remete à possibilidade de criar a nós próprios, de criar nosso mundo, recobrando, assim, a infinita liberdade da palavra.

 

Silêncio: Para criar faz-se necessário gerar um espaço de disponibilidade, um espaço vazio, um espaço de silêncio. Por isso, pode-se dizer que não nas palavras, nos silêncios do texto jaz o poema. As palavras somente tecem o espaço para que o silêncio se expresse. Nesse sentido, a poesia seria a forma possível para dizer o indizível, a tentativa, sempre imperfeita (daí a tristeza em todo poema), de dar voz à secreta sintaxe do silêncio.

 

Nosso tempo – O sentimento trágico na Grécia antiga surgia do embate entre o homem e o destino, enquanto o sentimento trágico de nossos dias surge do embate entre o homem e a ausência de destino. Pois, com a partida dos deuses, não há mais uma lei maior regendo nossas vidas. E, nesse mundo destituído de sentido, o homem mais não é que “sonho de uma sombra”. Sair do sonho e chegar à vida, eis a busca da poesia.

 

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 - 1843)

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 – 1843)

Unicidade – O chileno Jorge Teillier dizia que poucos poetas têm na vida mais de um poema para escrever. O filósofo Heidegger dizia algo semelhante. No meu caso, sempre fui consciente de ter apenas um poema. E todos os livros são variações desse verso, que viro, reviro, desviro dentro de minha voz (creio que os primeiros mestres, ainda todos estrangeiros, pois eram os livros da biblioteca paterna, como Hölderlin, Trakl, Celan, Jabès e, mesmo, Rilke, poderiam ser vistos sob essa ótica).

 

Multiplicidade – Se todo escritor é muitas pessoas, eu seria essencialmente duas. Uma que crê na “fundação do Ser pela palavra poética” (conforme leitura que Heidegger faz de Hölderlin). Outra que é filha do ceticismo contemporâneo. Da busca de conciliar essas duas vozes, de buscar fazer com que uma aceite a outra, após tê-las feito medirem-se uma pela outra, disso falam os meus livros. E creio que a tensão distendida entre essas duas vozes favorece a criação poética.

 

O mar – Nasci numa cidade junto ao mar. O sal e o rumor das ondas são minha marca de nascença. A imensidão do mar seria, para mim, o infinito possível dos homens. O mar permeia todos os meus escritos, o mar é sempre protagonista, mesmo quando não nomeado.

 

O livro – O texto narra a busca de uma “palavra cheia de silêncios”, que possa recriar e refundar um sentido para a vida em nosso mundo atual. Trata-se, assim, de uma viagem através do niilismo de nosso tempo, do utilitarismo de nossas palavras, buscando um porto, um passo além do nada, uma voz mais nova e mais viva.

Ilustração de Luise Weiss para "Rumo à Vertigem": a inevitável presença do mar

Ilustração de Luise Weiss para “Rumo à Vertigem”

O título – A imagem da vertigem se liga diretamente à ideia do naufrágio. Rumar à vertigem é rumar à linguagem, pois, para mim, escrever é mais que um verbo, é uma vertigem. E rumar à linguagem é buscar o abismo de silêncio de onde toda palavra emerge, é buscar o naufrágio.

 

Viagem – Trata-se de uma viagem através da linguagem, em busca da linguagem. Viagem que se liga intrinsecamente à figura do naufrágio. Pois, o naufrágio é neste caso não só inevitável, mas também desejado. Como diz Clarice Lispector: “A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho de ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só poderá me ser dado através do fracasso da minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu”.

 

Finitude – Não se descobre um sentido para a vida sem aceitar que a morte faz parte da vida, sem aceitar que morte é, em verdade, “a metade mais larga da vida”, com dizia Rilke. Toda poesia se relaciona com a finitude, com o fato de sermos seres não só efêmeros, mas seres que têm consciência de serem efêmeros. Na viagem do livro, também se busca aprender a habitar a vida, com sua violenta e triste beleza, aprender a sorver a limpidez do efêmero, aprender a difícil dicção da palavra “morte”.

 

A forma – São onze cantos, que somados ao prólogo e ao epílogo perfazem um total de treze capítulos, indicando o número aziago que rege a viagem. Tal estrutura, contudo, não foi pensada antes de escrever o livro, mas, sim, emergiu durante o processo de escrita. Ou seja, foi imposta pela própria viagem do livro. Escrever é, muitas vezes, menos um fazer, que um deixar ser de um texto, assim como a poesia é, por vezes, menos um dizer que uma escuta do silêncio.

Conheça outras obras de Wassily Chuck

Quando não há mais sujeito e objeto

Renato Tardivo*

 

Viagem a um Deserto Interior é o mais recente livro de Leila Guenther. Seus poemas e microcontos agrupam-se em cinco seções: “Paisagens de Dentro”, “O Deserto Alheio”, “Castelo de Areia”, “Um Jardim de Pedra” e “A Possibilidade de Oásis”. Nota-se, portanto, uma (bem-sucedida) intenção narrativa oferecendo de antemão continente às narrativas do livro. Não é aleatório que o “espaço” seja o tema mais relevante da obra; aliás, ele está indicado em diversas palavras-chave: “viagem”, “deserto”, “interior”, “paisagens”, “castelo”, “jardim”, “oásis”.

Mas, se há deslocamento do interior de si para o interior do outro, da fragilidade da areia para a dureza da pedra, da aridez do deserto ao oásis (ou à possibilidade dele), há deslocamento também entre os versos dos poemas e os microcontos, o que confere ainda mais movimento à viagem. Aqui, poesias são narrativas e narrativas, poesias.

Imagem2Há algo de Drummond – cuja referência chega a ser explicitada – no modo de abordar o desconcerto de mundo, nos desfechos surpreendentes, no olhar ao mesmo tempo simples e profundo. Leila, ainda, repete alguns temas (suas pedras no meio do caminho?),de modo a marcar a passagem do tempo, a efemeridade do instante: a mulher sem filhos, as noites das estações do ano, as referências orientais…

E, no fim, há oásis? Cabe ao leitor empreender a sua própria descoberta. Leila nos ajuda, e muito, sugerindo trajetórias, habitando os continentes possíveis e impossíveis, da caixa de sapatos (em que consegue caber) ao desejo de ser trapezista (o que ainda não é).

Mas, talvez,a dica mais preciosa esteja em “Mushin” (em uma tradução livre, “suspensão do pensamento”):

 

Quando não há mais sujeito e objeto

como saber se aquele que mata

não é o mesmo que é morto?

 

 

Conheça outras obras de Leila Guenther

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Ilustrando Petrarca

Por Enio Squeff*

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Ilustração de Enio Squeff para a obra “Cancioneiro”

Não foi por qualquer coisa como o Guiness que resolvi testar minha capacidade de improvisar, quando pedi ao editor Plínio Martins Filho para desenhar sobre os originais da tradução do Cancioneiro de Francisco Petrarca. Este trabalho, soube há pouco, resultou em mais de 700 ilustrações, feitas alla prima.  Não sei (e realmente não interessa) se alguém fez tantas ilustrações para um único livro, diretamente sobre as provas da obra. Claro, havia o acordo tácito de que, se qualquer desenho não saísse a contento, eu o substituiria por uma ilustração à parte: fazer desenhos sobre as provas de uma publicação é, penso eu, algo mais ou menos inédito. Conclui, no entanto, não ter sido necessário apor qualquer “correção”. Digamos que, a meu critério, tudo saiu comme il faut.

A contento?

Nem tanto, talvez – poderão afirmar alguns; e serei, então, persuadido a reconsiderar meu juízo, assim como o editor que aceitou o que eu fiz, sem restrições. Na verdade, trabalhei durante uns dois meses: eu e meu pincel, com as cerdas devidamente amarfanhadas. Era a única maneira de fazer as ilustrações com um caráter de impromptu, como as definiu uma colega. Não é por imodéstia, portanto, que me arrisquei ao exame dos leitores críticos e aos críticos leitores. Petrarca, o grande, o excelso Petrarca, certamente não mereceria esse tipo de façanha, se fosse apenas isso – façanha. E não a arte de improvisar como uma homenagem à franqueza, e à espontaneidade que o seu gênio – de Petrarca – induz, a despeito do risco inerente ao desafio.

Mas acertamo-nos, o Plínio e eu, diante da possibilidade de certas obras de arte suscitarem outras. A de José Clemente Pozenato é a segunda, depois de Petrarca do original; ficamos, sem falsa modéstia, o editor e eu, com a terceira possibilidade, a da arte sobretudo musical, do improviso.

*Enio Squeff, nascido em Porto Alegre (RS), iniciou sua vida profissional como jornalista na revista Veja, transferindo-se depois para o jornal O Estado de S. Paulo,  onde se tornou editor da página de arte e, mais tarde, para a Folha de S. Paulo, na qual atuou como editorialista, crítico de música e, por fim, a convite da direção do jornal, como ilustrador, iniciando, assim, sua trajetória de artista plástico.

Acesse o livro Cancioneio, de Francesco Petrarca no site da Ateliê

 

Importante obra do concretismo brasileiro foi recentemente reeditada: “Viva Vaia – Poesia 1949-1979”, de Augusto de Campos

"Viva Vaia", de Augusto de Campos

Clique na imagem para ver o encarte ampliado

"Viva Vaia" – Augusto de CamposLançada em 2001, a Ateliê Editorial publica nova edição do livro Viva Vaia, de Augusto de Campos, revisada e com a ortografia atualizada, considerada pelo poeta a edição mais completa dessa sua obra.

“Esta coletânea da minha poesia, abrangendo três décadas, teve sua primeira publicação em 1979 com a chancela da Editora Duas Cidades. Até então, meus poemas só haviam aparecido em livro em publicações de autor. Houve uma segunda edição em 1986, pela Editora Brasiliense. E mais quinze anos se passaram. A edição que agora oferece ao público a Ateliê Editorial é, de todas, a mais completa”. (Augusto de Campos, 2001)

Com projeto gráfico original, de Julio Plaza, essa edição devolveu a impressão cromática a alguns poemas como os “popcretos” Olho por OlhossO Anti- Ruído, e Goldweater, que foram expostos na Galeria Atrium, em 1964, juntamente com os quadros-objetos de Waldemar Cordeiro. Originalmente construídos com colagens de recortes de jornais e revistas, em dimensões de cartaz, e montados em chassis de madeira para a mostra, esses poemas não são fáceis de reproduzir.

As marcas do tempo e a grande redução a que têm de ser submetidos para se amoldarem às dimensões do volume tornam difícil a impressão. Mas com recursos digitais e fotográficos foi possível melhorar a sua reprodução e incluir o quarto poema da exposição dos “popcretos”, Goldweater, que faltou nas edições anteriores e, mesmo em preto e branco, também o Olho por Olho.

Por sua capacidade de sintetizar alguns princípios fundamentais da poesia concreta e de atingir o impacto almejado pelo movimento concretista, Viva Vaia se tornou a principal obra na carreira do autor. Este volume contém um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, e traz ainda o cd Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Acesse o livro “Viva Vaia” no site da Ateliê