Teatro Russo - O Globo

Prosa e Verso - O Globo

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Elena Vássina, Arlete Cavalieri

Esta publicação traz um amplo debate sobre os  mais variados aspectos, que  cercam a história e a estética da arte teatral na Rússia. O exame  atento da interação orgânica entre as diferentes linguagens, que conformam o ato teatral, confere aos textos aqui presentes extremo interesse pelo alto grau de inovação investigativa na abordagem de questões cruciais para os estudos do fenômeno do teatro, tais como a arte do ator e a do encenador, a função do diretor, o papel do dramaturgo e do texto literário,  a criação do cenógrafo e do coreógrafo na estruturação do texto cênico. Saiba mais

História do PT, de Lincoln SeccoHistória do PT, livro de Lincoln Secco, será o centro do debate no próximo dia  07 de março, quarta-feira, às 18h30, promovido pelo CEDEM – Centro de  Documentação e Memória da UNESP.

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Até hoje não existia uma história do PT abrangente,  sintética e com a experiência do poder. Nem mesmo oficial feita pelo próprio partido. É uma tarefa difícil para um historiador se manter  equidistante das correntes internas do PT e do próprio ambiente político em que o partido agiu. Lincoln Secco, sem negar a vinculação  que ele (e boa parte de sua geração) teve com o PT, sem exaltá-lo ou  atacá-lo gratuitamente, supera os inúmeros estudos de caso e teses  acadêmicas sobre o período de formação do partido e oferece uma visão de conjunto da trajetória petista. Em vez de escrever um livro acadêmico ele preferiu uma história ensaística voltada aos que  ”trabalham” com o PT: jornalistas, cientistas políticos, pesquisadores  estrangeiros e militantes políticos.

A obra visa também os jovens. Por isso, traz um mapa das  tendências petistas ao longo de sua história, glossário do jargão interno e cronologia. A obra  acompanha a trajetória petista desde a greve da Scânia em 1978 até a  vitória de Dilma Rousseff. Mostra como o PT passou de um ator social  radical a um integrante da ordem política estabelecida, cresceu  eleitoralmente, perdeu seu ímpeto militante e se tornou uma máquina de  governo, atravessando escândalos de corrupção, perseguições de seus  adversários e chegando a uma surpreendente hegemonia política no Brasil.

Expositor

LINCOLN SECCO

Graduação em História – USP

Mestrado e Doutorado em História Econômica – USP

Livre Docente em História – USP

Debatedores

MARCOS DEL ROIO

Graduação em História – USP, Mestre em Ciência Política – UNICAMP

Doutor em Ciência Política – USP, Pós-doutorado em Estudos Internacionais – Universidade de Milão

Professor da UNESP – Campus de Marília

JOSÉ RODRIGUES MÁO JUNIOR

Graduação em História – USP

Mestrado e Doutorado em História Econômica – USP

Professor do Inst.Fed. de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo  - IFSP –  Cubatão

Mediadora

MARISA MIDORI DEAECTO

Graduação em História – USP

Mestrado e Doutorado em História Econômica – USP

Professora da ECA – USP

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Participe e convide seus amigos!

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Inscrições gratuitas c/ Sandra Santos pelo e-mail: ssantos@cedem.unesp.br

Data e horário:  7 de março de 2012 (quarta-feira) às 18h30

Local: CEDEM/UNESP – Centro de Documentação e Memória

Praça da Sé, 108 – 1º andar, esquina c/ Rua Benjamin Constant (metrô Sé)

(11) 3105 – 9903 – www.cedem.unesp.br

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Bruno Palma dialogou sobre seu trabalho de tradução de poesias com os participantes do evento “Livro Falado”, organizado pela escritora Simone Homem de Melo, na Casa Guilherme de Almeida, no último sábado, 25. Dentre os presentes na palestra estavam Plinio Martins, Ivan Teixeira e Aline Sato. Veja algumas fotos abaixo.

Lição AproveitadaA partir de Amar,Verbo Intransitivo, obra-prima do Modernismo, livro mostra como Mário de Andrade “escreveu” um filme ou “viu” um livro e pode ajudar na leitura de qualquer outro filme

O livro A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade, escrito por João Manuel dos Santos Cunha e publicado pela Ateliê Editorial, foi originalmente a tese de doutoramento que o autor apresentou ao Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Esta obra apresenta uma versão reduzida do que foi a tese, embora mantenha a estrutura, as hipóteses e as conclusões relativas à pesquisa original. Este texto ainda incorpora as contribuições da Comissão Examinadora composta pelo cineasta e professor Nelson Pereira dos Santos (UNB e UFF), pelos doutores Telê Porto Ancona Lopez (USP), Marcia Hoppe Navarro (UFRGS), Robert Ponge (UFRGS), e também da orientadora Tânia Franco Carvalhal. Este livro situa Mário de Andrade na posição de “mestre” e reitera a sua contribuição para a cultura brasileira, destacando mais essa sua vertente: possibilitar a leitura da relação entre literatura e cinema no âmbito do Modernismo brasileiro. João Manuel dos Santos Cunha, como professor e crítico de cinema, sempre defendeu essa análise, de que é possível associar a paixão pelo cinema e a formação literária.

“No vasto campo dos estudos de literatura comparada, o professor João Manuel dos Santos Cunha escolheu como tema o encontro de Mário de Andrade com o cinema. O autor seduz, ‘andradinamente’, com todas as informações hoje disponíveis sobre as relações do cinema com a literatura, o que faz deste livro leitura obrigatória tanto nos cursos de letras como nos cursos de cinema. Para os que fazem cinema, na teoria e na prática, ou para aqueles que apenas veem filmes, este livro nos desvenda prazerosamente a mágica inventora de uma obra-prima do Modernismo brasileiro, Amar, Verbo Intransitivo. De como Mário de Andrade ‘escreveu’ um filme, ou ‘viu’ um romance.” (Nelson Pereira dos Santos em 13.03.1999 – participou da Comissão Examinadora da tese de doutoramento do autor)

João Manuel dos Santos Cunha é professor na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura Comparada (UFRGS), mestre em Literatura Brasileira (UFRGS), com pós-doutorado em Literatura e Cinema (Sorbonne-Nouvelle, Paris III). É também autor dos livros Mito e Cinema (EDUFPel) e A Tradução Criativa – A Hora da Estrela: Do Livro ao Filme (Mundial; EDUFPel), além de diversos artigos e ensaios publicados em revistas acadêmicas no Brasil e no exterior.

Escritas do DesejoEscritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise (Ateliê Editorial) é o tipo de livro indispensável àqueles que se interessam pela relação – fecunda e ambígua – entre literatura e psicanálise. Mas será útil também ao leitor que, interessado em cultura e ciências humanas, se dispuser a viajar, isto é, a lançar-se em busca do novo.

Onze são os ensaios que compõem o volume – organizado por Cleusa Rios P. Passos e Yudith Rosembaum. Além das organizadoras, assinam os capítulos: Adélia Bezerra de Menezes, Leda Tenório da Motta, Noemi Moritz Kon, Camila Salles Gonçalves, Philippe Willemart, Renato Mezan, Leyla Perrone-Moisés, Maria Rita Kehl e Márcia Marques de Morais. Como se vê, autores consagrados.

Conforme escrevem as organizadoras na Breve Apresentação, a maioria dos ensaios “compôs um colóquio sobre „Crítica Literária e Psicanálise‟, organizado em 2008, pelos departamentos de Teoria Literária e Literatura Brasileira da USP”. Talvez por isso, em que se pese a densidade das reflexões, a leitura seja fluida e agradável.

O conjunto, além da Breve Apresentação, é dividido em três partes: A Experiência e o Verbo, A Palavra Encobridora, A Emergência da Palavra. A primeira parte traz ensaios que mapeiam as articulações entre literatura e psicanálise enquanto uma problemática relevante. Vejamos, a propósito, o capítulo de abertura, “A Palavra Poética: Experiência Formante”, de Adélia Bezerra de Menezes. Ao finalizar a reflexão com a análise de poemas de Ferreira Gullar (“Traduzir-se”) e de Adélia Prado (“Arte”), Adélia Bezerra de Menezes é, também ela, inspiradora: “Essa coisa visceral, em que lateja um ritmo, está na imagem da tripa, mas também na do coração: o que o caracteriza, quando pensamos nele, é a sua presença acústica, antes de maisnada: o tum, tum; tum, tum: o pulsar”. Com efeito, tanto a literatura quanto a psicanálise lidam com o ritmo da vida – na e pela palavra.

Noemi Moritz Kon, ainda na primeira parte, habita a “íntima” e “conflituosa” relação entre “a psicanálise e a arte – e a literatura em particular”. Sua reflexão explora desde as ambiguidades de Freud com a figura do artista e a própria arte, até as aproximações e limites entre a psicanálise e a literatura, sobretudo a fantástica, por meio, dentre outros, de Merleau-Ponty, Barthes e Foucault. Escreve Kon: “Penso que, apesar das inclinações de Freud e de seu temor quanto a uma cumplicidade com o trabalho criador do artista, compreendido como anverso do trabalho do cientista que ele pretende prioritariamente ser, o que liga o ato psicanalítico ao ato artístico é justamente a capacidade criadora”.

Se a Parte I procura mapear um campo mesmo de diálogo entre literatura e psicanálise, a Parte II, A Palavra Encobridora, aborda problemas de pesquisa, ou seja, as reflexões são norteadas por uma questão. Sugestivamente, o ensaio que abre a seção, de Camila Salles Gonçalves, dialoga o tempo todo com o texto de Freud “Lembranças Encobridoras” (1899), em companhia, dentre outros, de Theodor Adorno, Isaias Melsohn e Fabio Herrmann. Vale citar o arremate de Gonçalves: “[...] há uma fabricação inconsciente dessa recordação bucólica, que encobre outros sentidos sob sua aparente banalidade. Acompanha um tipo de verdade que a literatura freudiana compõe, ainda que se esmere em demonstrar que o texto está além do princípio do prazer do próprio texto” (grifo meu). Isto é, à ânsia de elevar a psicanálise a um, digamos assim, estatuto de ciência, o pai da psicanálise cai (felizmente) na própria armadilha. Desencobre-se em Freud, a partir de Freud, uma verdade mais afeita à literatura do que à ciência.

A Parte III, A Emergência da Palavra, apresenta análises de poéticas, conjunto de obras de um autor, ou um conto literário, sempre na interface da literatura com a psicanálise. No ensaio “Bovarismo e Modernidade”, Maria Rita Kehl vale-se da expressão fundada a partir de Emma, célebre personagem do romance Madame Bovary, de Flaubert, para refletir o bovarismo nacional presente em Machado de Assis e a permanência desses traços no contexto

contemporâneo. Mas não nos apressemos. O que seria “bovarismo”? Leiamos com a psicanalista: “O termo já se incorporou ao senso comum, mas vale lembrar que é uma expressão cunhada pelo psiquiatra francês Jules de Gaultier em 1902 [...] a fim de designar „todas as formas de ilusão do eu e insatisfação, desde a fantasia de ser um outro até a crença no livre-arbítrio‟”. Mas, como nos lembra Kehl, a possibilidade de tornar-se um outro, nas sociedades capitalistas, está inscrita no laço social. O problema está colocado, portanto. E, se “tornar-se um outro implica reconhecer o caráter simbólico da dívida para com os antepassados, de modo a não se deixar capturar pelas armadilhas da culpa”, o problema transforma-se em “uma das figuras mais expressivas da subjetividade moderna”, podendo ser encaminhado, também, pela psicanálise.

E muito mais poderia ser dito a respeito destes e dos demais ensaios de Escritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise. Se, como diz Lacan a partir de Hegel, “o desejo é o desejo do outro”, a leitura dessas “escritas” irá, com efeito, nutrir o leitor desejoso por compartilhamento – um dos alimentos de que mais necessitamos.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Página do Professor

A Ateliê Editorial desenvolveu um ambiente virtual voltado para os professores, onde eles podem usufruir de benefícios especiais. Para ter acesso a essa Página do Professor, deve-se preencher o formulário do site e enviar um comprovante de vínculo com a instituição de ensino para professor@atelie.com.br e aguardar pela liberação do cadastro. Após isso, basta o professor entrar no site da editora (www.atelie.com.br) e inserir as informações de login, para acessar a Página do Professor .

Nesta página, o professor tem 50% de desconto em todos os livros (exceto o Dicionário Grego-Português) e pode solicitar livros para análise.

Preencha o formulário aqui

Duplo Canto e Outros Poemas, de François ChengBruno Palma participará do evento “Livro Falado” na Casa Guilherme de Almeida, no dia 25 de fevereiro

A obra do poeta sino-francês François Cheng (1929) é um exercício tradutório entre sua cultura oriental, de origem, e ocidental, de exílio e escolha. Em Duplo Canto e Outros Poemas, Bruno Palma traduz uma amostra representativa da poesia de Cheng e transpõe para o português esse universo intercultural. O evento faz parte da série Livro Falado, que apresenta livros recém-editados ou a serem publicados em breve, por meio de um diálogo com o tradutor. A conversa abordará procedimentos tradutórios do livro em questão e apontará aspectos relevantes do processo de criação do tradutor.

Bruno Palma, tradutor de poesia francesa, dedica-se sobretudo às obras de Saint-John Perse (1887-1975) e de François Cheng (1929). Do primeiro traduziu Anábase (1979), trabalho pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti em 1980, e Amers – Marcas Marinhas (2003), entre outros livros publicados e inéditos. Por sua contribuição à propagação da lieratura francófona foi condecorado pelo governo francês, em 1989, Chevalier dans l’Ordre des Arts e des Lettres.

Visite a página de programação da Casa Guilherme de Almeida para mais informação.

O Pai de Max Bauer e Outros ContosLançamento da Ateliê Editorial e da revista Brasileiros reúne narrativas curtas de Marcos Rodrigues publicadas mensalmente na revista

Desde outubro de 2008, Marcos Rodrigues vem colaborando com a revista Brasileiros e traz sempre o seu olhar arguto sobre situações cotidianas. Na divisa entre o registro irreverente da crônica e a magia sintética do conto, suas narrativas, com espaço pré-definido de uma página, convidam o leitor a refletir sobre a mágica de algumas experiências aparentemente ordinárias, como no conto Um Grande Circo. “[...] as coisas do circo encantam porque são metáforas significativas para todos nós [...] Quem já não enfiou a cabeça na boca do leão? Quem já não se sentiu alçado em voo incerto? Quem já não foi aparado por um braço forte? Quem já não caminhou no arame? Quem não empilha coisas sobre a cabeça? Quem não se sentiu como leão domado contido por chicote?”

As narrativas de Marcos Rodrigues revelam o amor, a amizade, a inveja, a sensação de perda, o desalento, o medo da morte, a generosidade, a luxúria e o papel da memória nas relações humanas no mundo contemporâneo. O contador de histórias, que também é personagem, é bom observador do que se passa à sua volta, e dono de um senso de humor surpreendente, às vezes tendendo para a ironia ou muito próximo da sátira, como nos contos Lata 83, Uma Bobagem, Lambanças e Sasta. Marcos Rodrigues tem uma maneira rara de observar e descrever o mundo. Para Ricardo Kotscho, “Marcos Rodrigues escreve como quem fala e tem um texto bom de ler que nos faz sentir e pensar”, e acrescenta: “Se eu fosse você, não deixaria de ler uma única linha deste livro”.

Marcos Rodrigues é PhD pela Universidade de Cambridge. Foi Professor Titular da USP e consultor da ONU. É autor do livro de contos Choro de Homem (Ateliê Editorial, 2001) e um dos vencedores do concurso de contos 50 Anos de Bossa Nova, do jornal O Estado de S. Paulo. Desde 2008, escreve “Pequenos Contos” regularmente na Revista Brasileiros.

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Documentário de Eduardo Coutinho

É inevitável a comparação entre As Canções (2011), documentário mais recente de Eduardo Coutinho, e Jogo de Cena (2007), também dirigido por ele. Os dispositivos são praticamente os mesmos: o depoente diante da plateia vazia, Coutinho, o entrevistador, no contracampo e fora de quadro. E só. Ou quase.

Jogo de Cena, talvez o melhor documentário realizado no Brasil na última década – e sem dúvida um dos melhores de todos os tempos –, põe em questão o embate entre realidade e ficção, atriz e personagem. Sentado, de frente para a platéia vazia, o diretor Eduardo Coutinho conduz a entrevista. Depois, uma nova história, contada/vivida por mais uma mulher. Mas, no meio do depoimento, entra em cena outra pessoa, vivendo a mesma história. Ora trata-se de atrizes conhecidas, ora menos conhecidas; às vezes trata-se de anônimas. O efeito é perturbador. O espectador não distingue quem de fato viveu o drama e quem o está interpretando, com a plateia invisível ao fundo. Atrizes desconhecidas podem estar interpretando, atrizes conhecidas podem contar eventos de suas vidas pessoais, muitas são as possibilidades – os pressupostos são postos em sobressalto. E então, como diria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, toda tentativa de elucidação traz de volta o enigma: a história salta.

O que mais Coutinho poderia desenvolver então, valendo-se de formato análogo, neste As Canções? Em entrevista a Nina Rahe, o próprio admite: “[...] Sei que a crítica irá dizer que [o filme As Canções] é uma diluição de Jogo de Cena e que não fui adiante, mas existe nele algo sobre música que nenhum outro filme possui, pois é possível entender que a canção e o Brasil têm algo de particular. É também um trabalho em que deixo de perguntar às pessoas coisas como ‘onde você nasceu’. Não quero fazer mais isso e dessa forma sinto que parei”.

De fato, em certa medida, não se veem muitas novidades em As Canções. O que se percebe primeiro é que, desta vez, ao invés do cruzamento de histórias, o fio condutor do longa-metragem são as canções que marcaram a vida dos homens e mulheres entre 22 e 82 anos. Os depoimentos são tocantes e, se o efeito não é arrebatador como em Jogo de Cena, é bonito contemplar as “dores e delícias” daquelas vidas que se desfiam a partir das canções e a elas retornam.

Em um texto curto mas fundamental – ”Notas sobre o Bloco Mágico” (1925) – Freud traça uma analogia entre o aparelho psíquico e o bloco mágico (nos dias de hoje, o brinquedo é conhecido como “lousa mágica”). Escreve Freud: “O Bloco Mágico é uma tabuinha feita de cera ou resina marrom-escura, com margens de papelão, sobre a qual há uma folha fina e translúcida, presa à tabuinha de cera na parte superior e livre na parte inferior. Essa folha é a parte mais interessante do pequeno aparelho. Consiste ela mesma de duas camadas, que podem ser separadas uma da outra nas bordas laterais. A camada de cima é uma película de celuloide transparente, a de baixo é um papel encerado, ou seja, translúcido. Quando o aparelho não é utilizado, a superfície de baixo do papel encerado cola-se levemente à superfície de cima da tabuinha de cera” (trad. Paulo César de Souza). Os traços ficam permanentemente marcados na cera embora possamos levantar a dupla folha que a cobre e supostamente “apagar” o que fora escrito, liberando assim espaço para novas inscrições.

O que as canções revelam, no longa de Coutinho, são as marcas presentes na tabuinha de cera. Como um sonho, as músicas reativam as inscrições do vivido, as quais por sua vez adquirem novas tonalidades diante do entrevistador, como se a câmera – e aqui a analogia com a película é inevitável – fosse mais uma camada das folhas do bloco mágico. Quer dizer, há um duplo movimento (literalmente) regido pelas músicas: ao mesmo tempo em que ocorre o resgate do passado, o próprio processo é fundante de uma nova experiência e, portanto, de novas possibilidades.

Coutinho se deu conta disso em Jogo de Cena? Não podemos saber. Ocorre que, se no documentário de 2007 o diretor sentava-se diante da plateia, assumindo a condição de artista (não custa lembrar que há um fino trabalho de edição, fundamental para o efeito produzido pelo filme), em As Canções quem se senta diante da plateia, vazia como em Jogo de Cena, são os entrevistados. Campo e contracampo se invertem. Coutinho assume a perspectiva do público; enquanto espectador, agora ele é a plateia. E, enquanto tal, não esconde que fez o filme “por prazer” – a fruição estética que um drama bem contato – ou bem cantado – proporciona. Afinal, de que valem as inscrições no bloco de cera se não forem compartilhadas?

Coluna Resenhas - Renato Tardivo