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Um brasileiro à procura de sua identidade

Aurora Bernardini*

A seguir, o Blog da Ateliê reproduz a resenha de Aurora Bernardini sobre O Língua para o número 30 da Revista Qorpus. Agradecemos a gentileza da revista em permitir o compartilhamento deste material:

Eromar Bomfim, autor do livro de que vamos falar, nasceu em Formosa do Rio Preto (BA). Filho de comerciantes, aos 13 anos de idade, mudou-se com a família para São Paulo. Estudou Letras na USP, com pós-graduação em literatura brasileira. Publicou com sucesso o romance O Olho da Rua, pela Nankin Editorial, em 2007, e Coisas do Diabo Contra, pela Ateliê Editorial, em 2013 e, agora, O Língua, também pela Ateliê Editorial, sua obra prima.

É justamente da união de coisas bem sabidas (bem vividas) e tramas bem imaginadas que nasce o encanto desse O Língua, que poderia se chamar Um brasileiro à procura de sua identidade, ou “ o primeiro brasileiro”, como quer Eromar. Ele explica, em trecho de carta pessoal do autor enviado à resenhista em maio de 2019:


“Os personagens são do século XVII, embora vivam até hoje como ancestrais que se manifestam aos líderes no ritual de Toré que existe nos nossos dias em núcleos caboclos no submédio São Francisco. Este, dos artifícios que usei , é esboçado no primeiro capítulo, norteado pela ideia de que na transformação há permanência.

Os personagens indígenas são tapuias do Nordeste, notadamente povos que habitavam a Bahia, no chamado “sertão de dentro”. Distinguiam-se dos povos tupis e tupinambás do litoral e foram chamados tapuias que significa “língua travada”. Falavam várias línguas, sendo o kiriri uma das mais amplas, possuindo subdivisões.

As batalhas no enredo são reais, mas a efabulação sobre como ocorreram é fictícia. A destruição do mocambo de Geremoabo, por exemplo, comandada por Fernão Carrilho, é real. Mas eu a narrei como imaginei, seguindo a psicologia de meus personagens. A geografia é real, mas com muitos nomes atualizados. Fauna e flora são típicas da região. Retratei-as segundo meu conhecimento e experiência, além de alguma pesquisa. Li obras da história colonial tradicional, teses universitárias, bem como obras etnográficas. Os gerais do Rio Preto, onde vivem meus narradores, eu conheço. Mas é importante ressaltar que meu personagem central, Leonel, é um mameluco. Não é mais índio, mas também não é branco. É o primeiro brasileiro. Foi pensando nele que fiz essa história. Meus narradores são fictícios, salvo Aleixo. Existiu um certo Aleixo, insubordinado, no século XVII. Reais são alguns dos personagens brancos, como padre Roland é Padre João de Barros. Deles aproveitei o papel que desempenharam na invasão, mas imaginei toda a trama que os envolve. O mesmo fiz com o militar Domingos Rodrigues Carvalho. Mas a nenhum deles dei voz. Apenas contracenam com meus personagens que são oriundos da camada sofrida da população.”


O eixo da trama são as caçadas que os homens brancos (leia-se: súditos do rei de Portugal) fazem a índios e negros fugidos, suas selvagerias e seus engodos, e a resistência (leia-se: fuga) desses, para escapar à submissão e à morte. Mas cada personagem tem sua história que é magistralmente contada por alguns dos protagonistas principais e da qual citaremos alguns exemplos. Um deles, o que começa a relatar nas primeiras páginas e volta a fazê-lo nas últimas, na sala do dono da casa, onde se reúnem os narradores, é uma mulher. A índia anaió, Ialna, que, mal chegada à puberdade, é violada pelo padre, membro da aldeia missionária e tem um filho, o mameluco Urutu, mais tarde batizado como Leonel pelo padre João de Barros, o jesuíta que o levou consigo, fugindo dos fazendeiros destruidores das aldeias dos padres, e que tem o dom de aprender várias línguas com a maior facilidade, daí ser chamado O Língua, e ter, muitas vezes, a função de intérprete. “Nunca mais vi esse rapaz andar com outros meninos, que eram mais desgarrados e varavam por aqueles brejos atrás de uma fruta, de um mel, de um passarinho. Tinha ficado muito diferente dos outros, os que desobedeciam às regras dos padres, e por isso viviam recebendo chicotadas deles” (BONFIM, 2018, p. 51), conta Ascuri, o indio anaió que “viu Urutu crescer e virar o que virou” (BONFIM, 2018, p. 35) e que vivia com duas mulheres, Cipassé e a bonita Yacui, mais tarde cobiçada pelo padre João.

“No mesmo dia que os padres deixaram São Francisco Xavier, os homens do grande sesmeiro Garcia entraram na aldeia… Os padres tinham ido embora. Vendo-se sozinhos, os sapoiás abandonaram as cabanas e caíram nos matos. Em pequenos grupos ou desgarrados, todos se dispersaram em rumos diferentes” (BONFIM, 2018, p. 60), conta Ascuri.

Outro indiozinho, que cresce na casa dos meninos índios na cidade de Salvador, onde os padres da Igreja o batizaram como Aleixo, relata: “Fiquei conhecido na cidade de Salvador e nos sertões. Na cidade conheci uns negros. De noite eles saíam, sorrateiros, da casa de seus senhores. Junto com eles, roubávamos artigos nos armazéns. Facões, enxadas, panos. Vinham outros e carregavam para os mocambos. Um dia fomos descobertos. Os negros apanharam até não poder mais. Me botaram na cadeia. Depois de uns dias fui degredado para a cidade do Rio de Janeiro por ordem do governador.” (BONFIM, 2018, p. 61). Aleixo consegue fugir e vai bater nas Minas Gerais, onde os povos estavam em luta contra os fazendeiros. Sobe, depois, para a Bahia, sempre sob ordens de prisão. Quando Fernão Carrilho, “o governador da horda de assassinos… que partia para matar negro como quem vai almoçar e que tinha gosto de matar tanto os negros tapanhuns como os índios da terra” (BONFIM, 2018, p. 62) foi para Canabrava, com ordem para retirar os melhores guerreiros para lutar contra Geremoabo, os padres assinalaram quatro dos seus. Eram três moritises e mais Leonel. Aleixo estava lá e ficou amigo de Leonel e, depois, os dois se irmanaram com Gabiroba, um mocambeiro que conseguira escapar. Aleixo vai lutar para destruir o quilombo de Geremoabo porque não tem outra saída, já que Fernão Carrilho tinha diploma legal para recrutar coercitivamente quem ele quisesse e ainda pesava sobre Aleixo um mandado de prisão; Leonel vai porque, por lei, os aldeamentos missionários eram obrigados a fornecer índios para guerrear ao lado das expedições militares contra outros índios (esta foi, aliás, a razão do assassinato do líder indígena Cristóvão, pois ele se negou a entregar seus cento e vinte guerreiros ao paulista Baião Parente, contratado para destruir povos indígenas). Gabiroba era um escravo fugido que havia se refugiado em Geremoabo.

Esta era a bandeira de Carrilho: “… Eu trago aqui regimento e poder de juntar nessa campanha, tanto brancos como pretos, negros da terra como vocês, e mulatos, e todo gênero de gente que seja capaz de jornada para destruir os mocambos de negros fugidos e salteadores em Geremoabo, e onde mais se encontrarem esses seminários de hereges e ateísta.” (BONFIM, 2018, p. 65). Só que, aos poucos, umas coisas ia pensando Aleixo, que iam entrando na sua cabeça e saindo, “como o rio que corre escondido por baixo das pedras: está ali e não está… Depois seriam os índios também, os perseguidos. O perseguidor é que não mudava: era sempre o branco, sedento de terras para seu gado, sedento de metais amarelos, sedento de pólvora do salitre, sedento de negros para o trabalho, sedento de índios para sua defesa, sedento do ventre das mulheres índias para seus haréns, sedento das meninas negras para gerar mais negro. E o índio que recusasse tinha o mesmo destino que o negro tinha: a morte debaixo dos olhos mudos do governador e do padre.” (BONFIM, 2018, p. 70).

Eromar Bomfim, fotografado por Hemerson Celtic

Depois do ataque aos negros fugidos, que é um dos momentos mais lancinantes do livro, encontram-se os três, Aleixo, Gabiroba e Leonel, feridos, mas ainda vivos, e decidem fugir da tropa e, após perambular sem rumo, vão em busca de outro mocambo, com gente. As aventuras se sucedem: suçuaranas, piabinhas, as sete moças virgens se banhando, com quem eles passam dias felizes (deixando-as grávidas da prole que irá repovoar Natuba). Até que eles encontram, às margens do rio Natuba, na Missão com o mesmo nome, o índio Cristóvão, com cento e vinte guerreiros aos quais se juntam, para resistir aos ataques dos brancos. Natuba é arrasada, Cristóvão é esquartejado, Aleixo é remetido à cadeia, Gabiroba o ajuda a evadir-se e Leonel é levado como intérprete a serviço de sua majestade. Novas fugas, até que Aleixo é comprado por um amo, para cultivo de suas hortas. Padres do Santo Ofício perseguindo Gabiroba, Leonel, em Salvador se entregando à bebida, Aleixo e Gabiroba, munidos de amuletos, fugindo para Rio Preto.

Agora a voz retorna de novo a Ialna que relata poeticamente suas vicissitudes, suas lutas, suas perdas, e o anseio que nunca a abandona de voltar a encontrar seu filho, enquanto ela também segue para o leito do Rio Preto. Lá se instalando decide que é a hora de reencontrar Urutu, é a hora que seu filho deixe o mundo do pai para voltar ao da mãe, “esse filho que foi a semente que produziu a sociedade do Brasil. Agora, a planta que cresce carrega o mesmo mal da semente. É por isso que até hoje estamos assim.” (BONFIM, 2018, p. 175). Incumbe Gabiroba, que é o dono da casa onde todos se encontram, e mais dois vizinhos, amigos de Gabiroba, de ir até Salvador e lhe trazer o filho de volta. Depois de muitas buscas acabam encontrando-o no Largo de Jesus. Preparam a viagem de volta que é empreendida com grande alegria. Iam passando pela Reserva Florestal de Marimbondo, lugar onde “dorme o espírito de muitos povos, e o ouvido atento ainda ouve suas vozes, indiferente a toda novidade desses tempos…” (BONFIM, 2018, p. 188) quando se deram conta que Leonel havia desaparecido.

“Quando eu fui levar a notícia para Ialna, eu ia escabreado, sem saber o que dizer a ela…”, (BONFIM, 2018, p. 190) desespera-se Gabiroba – “Eu sei. Ele já está comigo. E o espírito de tudo que vive novamente se manifesta, e quem vê se alegra pode dançar” (BONFIM, 2018, p. 190). Assim falou Ialna, por meio desse enigma, cuja solução talvez esteja no texto que Darcy Ribeiro nos legou em seu livro O povo brasileiro, obra de uma vida:

“Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos.”

*Escritora, pintora, tradutora. Possui doutorado em Letras (USP) e é professora titular da Universidade de São Paulo (USP). Departamento de Letras Orientais (DLO), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade São Paulo (USP).

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Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa

Por: Renata de Albuquerque

O Brasil e o Japão têm uma longa e sólida História juntos. Primeiro, no início do século XX, os japoneses começaram a chegar ao Brasil. Depois, já no final do mesmo século, descendentes de japoneses nascidos no Brasil atravessaram o oceano em direção contrária a de seus pais e avós. Hoje, são mais de 1,5 milhões de japoneses e descendentes vivendo no Brasil.

Tudo começou em 1908. No dia 18 de junho, o navio Kasato Maru chegou no Porto de Santos trazendo 793 pessoas que haviam partido, 52 dias antes, do Porto de Kobe, região central do Japão. Grande parte dos imigrantes – não só os vindos no Kasatu Maru – fixou-se em São Paulo e transformou a capital paulista na maior colônia japonesa do mundo fora do Japão.

Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa, livro que acaba de ganhar uma nova edição da Ateliê, narra parte desta história, contada pelo autor, Tatsuzô Ishikawa, que, em 1930, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru, como imigrante individual com auxílio do governo. Com este livro, que descreve a imigração japonesa no Brasil, Tatsuzô ganhou o primeiro prêmio Akutagawa – o prêmio literário de maior valor no Japão, instituído em 1935. O livro tem tradução de Maria F. Tomimatsu, Monica Okamoto e Takao Namekata.

Sôbô é um retrato de algo que chocou seu ator: as condições em que os japoneses migraram para o Brasil. A vida no Japão estava difícil – e endureceria ainda mais no período da Segunda Guerra. O livro originou um estilo que consagrou Tatsuzô: o romance social. Como explica o jornalista Sakae Ishikawa no prefácio do livro, o estilo de Tatsuzô, seu pai, é o de “perguntar ao mundo em forma de romance”.

Tudo começa na hospedagem em que os imigrantes ficavam em Kobe. Ele descreve não  apenas o lugar, mas a expectativas das pessoas que esperavam pela viagem que poderia levá-las a um lugar melhor. A segunda parte da narrativa dedica-se à viagem em si. Já a terceira parte fala da chegada ao Brasil, com ênfase na população de trabalhadores rurais.

O título do livro já explica muito do que seria essa saga. Sôbô é uma palavra composta por dois ideogramas. “Sô remete a Sôsei, ‘povo’, ou ‘cor de capim’, ‘apressar-se’, ‘envelhecer’. Bô, a ‘imigrante’, ‘povo subjugado’. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível”, explica Marilia Kubota.

A escolha desse viés para retratar os imigrantes japoneses é uma inovação de Tatsukô. Grande parte da literatura sobre o assunto se debruça sobre a individualidade, a tradição cultural do antigo Japão e a vida da classe média alta urbana. Poucos dão espaço ao trabalhador rural e as dificuldades por quais passam: a barreira da língua, dos costumes e até mesmo da alimentação em um país tão distante e diferente.

Apesar de, nos anos 30, ter ficado apenas cerca de seis meses no Brasil, Tatsuzô – que faleceu em 1985 – guardou lembranças do país por toda sua vida e retratou-as com maestria em Sôbô. 

Leia nas férias

Quem ama livros, sempre aproveita o frio e o tempo mais livre das férias para colocar as leituras em dia. Mas julho está acabando. Para incentivar os leitores a continuarem a investir seu tempo nas leituras que dão prazer (não apenas as obrigatórias), A Ateliê Editorial está estendendo a campanha “Leia nas Férias”.

A proposta é dar opções de livros que podem ser lidos como um “combo”, seja porque tratam de assuntos correlatos, ou porque são dos mesmos autores. São muitos assuntos, para todos os gostos: língua portuguesa e semiótica, literatura realista, equilíbrio e natureza, arquitetura, design, arte, cinema, filosofia, sociologia, música, literatura grega, idade média, ficção e literatura portuguesa.   

Gostou? Então, veja alguns livros da seleção:

A Capa do Livro Brasileiro

Mesclando a análise da evolução das capas com a história do desenvolvimento do livro, dos editores e dos capistas, Ubiratan Machado oferece uma visão ampla e consistente da história do livro brasileiro do ponto de vista de suas capas. O autor costura a história das capas na trajetória das principais escolas literárias do período em tela, ressaltando as interações entre forma e conteúdo. 

Bibliomania

Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, dois jovens eruditos que têm em comum a paixão pelo livro e pela história, falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema, como só os verdadeiros escritores têm a ousadia de fazer.
Bibliomania é uma cooperação harmônica entre alguns atores do mundo editorial (autor, editor e designer) que veem o livro como uma terra de palavras, de acolhimento e de deleite.

A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade

Lição Aproveitada

No vasto campo dos estudos de literatura comparada, o professor João Manuel dos Santos Cunha escolheu como tema o encontro de Mário de Andrade com o cinema. O autor seduz, “andradinamente”, com todas as informações hoje disponíveis sobre as relações do cinema com a literatura, o que faz deste livro leitura obrigatória tanto nos cursos de letras como nos cursos de cinema. Para os que fazem cinema, na teoria e na prática, ou para aqueles que apenas veem filmes, este livro nos desvenda prazerosamente a mágica inventora de uma obra-prima do Modernismo brasileiro, Amar, Verbo Intransitivo. De como Mário de Andrade “escreveu” um filme, ou “viu” um romance.

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor

 Eliete Negreiros apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.

Literatura Grega: Irradiações

Conceitos gregos (ser, logos, dialética, ética, política) agitam o pensamento agora. Inquietações de tragedistas atenienses voltam ao palco em peças contemporâneas. Procedimentos narrativos de Homero são reelaborados na prosa de Guimarães Rosa. Do romance, o gênero sem limites, encontram-se prenúncios nas invenções literárias de Platão. Os gêneros gregos continuam a gerar.

“Inocência”, um dos mais famosos romances de Visconde de Taunay

Inocência foi lançado em 1872. Escrito por Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay – o Visconde de Taunay – este romance regionalista traz para o leitor o ambiente do sertão e o comportamento do sertanejo, por meio da história de amor impossível entre Inocência e Cirino. Nesta edição da Ateliê Editorial, Inocência chega ao leitor repleta de notas de rodapé que ajudam a entender o contexto da obra, informações relevantes e outros dados que facilitam e aprofundam a leitura. Com apresentação de Jefferson Cano e ilustrações de Kaio Romero, Inocência tem estabelecimento de texto e notas de José de Paula Ramos Jr, que fala sobre o lançamento com o Blog da Ateliê.

Inocência é, por assim dizer, um “ponto fora da curva” na obra de Taunay, já que é regionalista e trata do ambiente rural. De que maneira esta obra se liga a outras do autor?

José de Paula Ramos Jr: Talvez não devêssemos considerar Inocência um “ponto fora da curva” na obra de Taunay, na medida em que ela apresenta núcleos de interesse diversos, o sertão, a cidade, a guerra, a degradação decorrente do regime escravista, memorialismo, observações de viagens, entre outros. O romance Inocência poderia ser considerado um “ponto fora da curva” na obra de Taunay, sim, na perspectiva estética, pois está muito acima das demais obras do autor do ponto de vista artístico. Inocência é a sua obra-prima.

A trama se passa no sertão do Mato Grosso, ainda durante o século XIX. Durante o século XX, diversos autores escreveram sobre os sertões brasileiros, mas no século XIX, isto ainda não era comum. Podemos considerar esta uma inovação de Taunay ou o cenário é apenas pano de fundo para uma narrativa basicamente de cunho romântico, típica de sua época?

José de Paula Ramos Jr.

JPRJ: Na literatura brasileira, o regionalismo é uma corrente de vasto e prestigiado acolhimento pelo público e pela crítica. Teve início com o romantismo e, desde então, vem sendo tradicionalmente praticado, evidentemente, com as mudanças correspondentes às poéticas culturais que historicamente se sucedem e sempre trazem algo de novo (basta pensar nas inovações trazidas por obras regionalistas de Coelho Neto, de Graciliano Ramos e de Guimarães Rosa, para ficarmos com só três exemplos). Taunay não esteve só na criação do regionalismo literário de nossa literatura. Ao seu lado é possível indicar autores e obras como O Gaúcho, O Sertanejo, Til, O Tronco do Ipê, romances de José de Alencar; não se pode esquecer a contribuição de Bernardo Guimarães, com O Seminarista, O Garimpeiro, O Ermitão de Muquém; é preciso lembrar de Franklin Távora, com O Cabeleira. Entre todos eles, porém, Taunay se distingue como autor do mais belo romance regionalista do nosso romantismo, que já continha aspectos antecipadores do realismo.

Quais os diferenciais desta edição da Ateliê?

JPRJ: A edição do romance Inocência, da Coleção Clássicos Ateliê, oferece ao leitor um texto fidedigno, estabelecido com o rigor da crítica textual. As notas autorais são mantidas e, para o leitor em formação, são acrescentadas notas lexicais e culturais, que contribuem para o entendimento do texto. A edição Ateliê de Inocência é apresentada por Jefferson Cano, professor doutor da Universidade de Campinas, com o ensaio “Natureza, Civilização e a Perda da Inocência”, que enriquece a fortuna crítica da obra.

Quais os aspectos mais interessantes do texto “Natureza, Civilização e a Perda da Inocência” em sua opinião?

JPRJ: O estudo de Jefferson Cano reconstitui o processo de publicação da primeira edição de Inocência e da sua recepção pela crítica literária. O primeiro torna possível entrever algumas das dificuldades enfrentadas pelos autores do século XIX para que suas obras fossem publicadas, fator que certamente se associa à consciência dos editores quanto à incerteza de retorno do investimento, pois o leitorado era diminuto (estima-se que na década de 1870, excluídas as crianças, 78% da população livre do país era analfabeta). A recepção da crítica, por sua vez, foi francamente favorável e é exemplarmente resenhada. Alguns aspectos pertinentes levantados pela crítica pioneira e supérstite são retomados, desenvolvidos, analisados e interpretados de modo original e perspicaz por Jefferson Cano: a paisagem e o homem do sertão não se diferenciam, integram-se, e quando em contato com personagens que representam a cultura urbana, a mútua incompreensão é inevitável, bem como o choque entre essas duas realidades tão diversas – a natureza e a civilização. Outras importantes oposições presentes no romance são destacadas e, nesse contexto, ganha importância o narrador cuja função é demonstrada numa perspectiva tão inédita quanto minuciosa e pertinente.

Visconde de Taunay

Sob quais aspectos a leitura de Inocência pode surpreender o leitor do século XXI?

JPRJ: Um leitor do século XXI pode se surpreender com a leitura de Inocência por várias razões. Entre elas: a alta qualidade artística do texto; a ação verossímil, bem articulada e emocionante; a hábil criação de personagens, tanto em seus aspectos físicos quanto morais; a revelação da cultura dos sertanejos no século XIX, na região de Mato Grosso: seus usos, costumes, tradições e valores, entre os quais se destaca o papel de lamentável degradação das mulheres, totalmente sujeitas aos desígnios arbitrários dos homens.

Impressões de um leitor de Euclides da Cunha

Por Renata de Albuquerque

A FLIP já acabou, mas Euclides da Cunha (homenageado da 17ª edição da Festa) merece continuar na pauta. Por isso, hoje, o Blog Ateliê traz impressões de leituras de Felipe Tavares de Moraes sobre Euclides da Cunha, suas obras e os livros sobre o autor. Felipe é professor, formado em História, Mestre em Educação pela UFPA e Doutor em Educação pela USP e se considera um “leitor comum, não especialista na obra euclidiana”.  Entretanto, Euclides da Cunha despertou sua atenção já durante o Ensino Médio e ele nunca mais parou de ler as obras do carioca e as escritas sobre o autor.

“Nas aulas sobre os movimentos de contestação a recém implantada República, Canudos era mencionado como uma destas manifestações. (…). Os Sertões (era considerado), segundo os professores no Ensino Médio, uma das principais obras do pensamento brasileiro. Foi aí que fiquei curioso em lê-lo. Ingressei no curso de História, na Universidade Federal do Pará (UFPA), no qual tive a oportunidade de ler a obra, conhecer com mais profundidade a trajetória intelectual de Euclides da Cunha e as suas contribuições para pensar o Brasil e a Amazônia”, conta ele.

Felipe Tavares de Moraes

Sua formação em História permitiu que ele percebesse, em Euclides da Cunha, o desejo de entender o Brasil profundo, a realidade sertaneja “dos mais longínquos rincões amazônicos”, ainda que com um profundo pessimismo. “O sertão é uma categoria central no projeto intelectual de Euclides da Cunha, no qual civilizar o Brasil era civilizar o sertão. Por isso, urgia investigar o sertão”, acredita. Segundo ele, ler Os Sertões continua uma obra atual porque faz o leitor tomar contato com uma carnificina que guarda laços com a realidade atual do país.

O interesse por Euclides da Cunha adensou-se por causa de sua Tese de Doutorado, em que Felipe analisa a construção do seu pensamento social e educacional de José Veríssimo. “A minha hipótese é que José Veríssimo e Euclides da Cunha compartilhavam o mesmo instrumental analítico cientificista, porém suas análises eram orientadas por distintas experiências sociais, políticas e culturais, respectivamente, de um ‘natural’ (paraense) e de um ‘estrangeiro’ (fluminense) a região”.

Para os leitores que consideram a obra de Euclides da Cunha difícil, Felipe diz: é uma obra árida, com é típico de obras oitocentistas, um testemunho de um tempo histórico que, por meio da linguagem literária, jornalística e científica nos permitem acessar uma época cheia de dilemas, ambiguidades e ambivalências. “Não é uma linguagem fácil. Este desafio da linguagem, porém, não deve desencorajar o jovem leitor brasileiro contemporâneo. Nesse sentido, a edição do Os Sertões, da Ateliê Editorial, a meu ver, é a melhor disponível no mercado editorial brasileiro. O prefácio, a cronologia, as notas e o índice fazem desta edição uma das mais completas, sobretudo pelas notas críticas de rodapé que proporcionam uma imersão integral na leitura, evitando a consulta onipresente do dicionário e do google, e permitindo o contato com este outro tempo evocado nos significados e imagens do texto euclidiano”, diz.

Já sobre Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, a biografia do escritor carioca, Felipe afirma que ela se destaca por ser um estudo rigoroso, que faz um levantamento documental sobre a vida e obra do autor de Os Sertões. Segundo ele, essa pode ser uma “bússola para aqueles que são marinheiros de primeira viagem na obra de Euclides da Cunha”. “O que mais me interessou na biografia de Amory é o capítulo dedicado a trajetória de Euclides na Amazônia, chamado ‘À Margem da História’, pois meus investimentos de pesquisa vão tratar exatamente deste período da sua vida. Nesse sentido, a biografia é excelente no levantamento de fontes relacionadas ao trabalho de Euclides na Amazônia”, conclui.

FLIP homenageia Euclides da Cunha

O autor homenageado da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP 2019 – é Euclides da Cunha. Durante o evento, acontecem várias atividades, encontros e reflexões sobre o autor de Os Sertões. A abertura, a cargo da crítica literária Walnice Nogueira Galvão, rememora a importância da obra de Euclides da Cunha para a cultura brasileira.

O carioca Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866-1909) foi militar, jornalista e escritor. Sua cobertura da Guerra de Canudos (1896-1897) foi compilada no volume Os Sertões, uma referência para a literatura pré-modernista brasileira e para o jornalismo de sua época – um livro reportagem que ainda desperta interesse.

Para entrar no clima da Festa, a Ateliê, durante a FLIP 2019, dá descontos em três livros de seu catálogo que são essenciais para entender a importância de Euclides da Cunha:

Sertões, Os – Campanha de Canudos, de Euclides da Cunha

Os Sertões – Esta é a edição mais completa do clássico de Euclides da Cunha. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. É a primeira edição com minucioso e inédito índice onomástico de lugares e pessoas; acurada cronologia da vida e obra do autor; vinte e quatro páginas de iconografia, com informações desconhecidas sobre o assunto; e prefácio elucidativo do organizador, Prof. Leopoldo Bernucci, que aborda o problema das diferentes linguagens de Os Sertões e de suas qualidades artísticas.

Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos – Livro vencedor do Prêmio Jabuti, esta biografia escrita por Frederic Amory, traduzida por Geraldo Gerson de Souza e apresentada por Leopoldo Bernucci abandona os mitos e dá destaque ao gênio sem separá-lo de suas misérias. Assim, aprofunda e esclarece aspectos da vida e da obra de Euclides da Cunha até então pouco estudados.

O Pai – A morte de Euclides da Cunha é um dos episódios mais trágicos da literatura brasileira. Sua esposa, Ana, tornou-se amante do cadete Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermano. Em 1909, o escritor confronta o amante de Ana, mas este reage e mata o escritor. Ana e Dilermando, então, casam-se, mas se separam depois de cerca de uma década. O Pai, livro escrito por Dirce de Assis Cavalcante, conta como a autora descobriu que era “filha de um assassino”. Ela é a filha que o general Dilermando teve depois de se separar de Ana. No decorrer do depoimento, acompanhamos como ela perdeu e recuperou a estima pelo pai, protagonista da tragédia.

“O Cortiço”, de Aluísio Azevedo

Um lugar com vida própria. Assim é O Cortiço, de Aluísio Azevedo, o mais exemplar romance realista-naturalista brasileiro. Nos romances naturalistas, como é o caso deste, o lugar define o caráter e a personalidade das pessoas que ali vivem. O autor maranhense (1857-1913) parte dessa premissa e cria uma obra de arte que traduz essas ideias aos transformar o cortiço onde se passa a ação no personagem principal do livro.

O naturalismo é uma estética que se baseia na percepção da realidade. Mas não tem o “verniz” do realismo e mostra, sem idealizações ou máscaras, a miséria humana: violência,  mesquinhez, crimes, sede por ascensão social, falta de caráter, patologias físicas e psíquicas. O que há de pior no caráter humano vem à tona na narrativa naturalista, cujo tom é de forte crítica social. A sexualidade não raro está ligada a adultério ou a práticas condenáveis pela moral social do século XIX.   

Em O Cortiço, Aluísio Azevedo mostra o lado mais marginal da sociedade carioca do século XIX, em um momento no qual a paisagem urbana sofria mudanças importantes, como o surgimento das primeiras favelas e a aglomeração das pessoas mais pobres em cortiços, nos subúrbios e morros, fora das áreas centrais. O autor, muito interessado em pintura e desenho, faz um verdadeiro retrato desse momento, não apenas da paisagem urbana, mas dos tipos humanos e de suas motivações mais sórdidas – sempre exagerando mas tintas, como é típico do naturalismo.

Personagens e enredo

Se o cortiço é o personagem principal do romance, os tipos que vivem ali não são menos interessantes. Tudo é narrado com um realismo impressionante. É quase possível sentir o mau cheiro do ambiente, ouvir as gritarias das brigas e perceber, com asco, tudo o que acontece ali. Um narrador em terceira pessoa, onisciente, aumenta a sensação do leitor de que tudo ali pode ser julgado e analisado sob um ponto de vista determinista.

O cortiço é construído pelo português João Romão, também dono de uma pedreira, onde trabalham Jerônimo. A ambição de João Romão por ascender socialmente não tem limites e ele, sem escrúpulos, utiliza de meios ilícitos para enriquecer. Inclusive, mente, dizendo à Bertoleza, sua amante, que ela é uma escrava alforriada, mas, quando lhe convém, a denuncia ao verdadeiro dono.

O também português Miranda torna-se vizinho do cortiço, mas ao contrário de João Romão, tem acesso à alta sociedade, o que desperta a atenção deste. João Romão passa a se aproximar de Miranda para tentar ascender socialmente e a disputa pelo espaço do terreno entre eles arrefece em nome de outros interesses: o casamento entre João Romão e Zulmira, filha de Miranda. Em nome desse acordo, João Romão denuncia Bertoleza, que é devolvida a seus donos. Na casa mais próspera, a moral também não é ilibada: a mulher de Miranda, Estela, é infiel ao marido.  

Quanto a Jerônimo, a princípio ele é um personagem  honesto, forte e de caráter nobre. Entretanto, depois de se envolver com Rita Baiana, acaba por assassinar o namorado dela, Firmo e abandona a esposa para viver com Rita, mulata que seduzia por sua maneira de dançar. Torna-se então relapso e decadente, enquanto a mulher que abandonou em troca de Rita, chamada Piedade, torna-se alcoólatra.  

A decadência de caráter (que, na tese do autor é provocada pelo ambiente em que os personagens vivem) também atinge Pombinha, moça virgem que espera a primeira menstruação para poder se casar. Ela é seduzida pela prostituta Léonie e passa a viver uma vida de “lascívia” (já que no século XIX a homossexualidade era considerada doentia).

Tudo, em O Cortiço, é justificado pelo clima e pelo ambiente em que os personagens vivem. O sol e o calor são motivos para a preguiça e a luxúria, confirmando teorias muito em voga na época em que o livro foi escrito.

O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é parte da Coleção Clássicos Ateliê

#vempralivraria: campanha quer manter o livro no centro da discussão

Renata de Albuquerque

Uma ação aberta, “sem dono”. É assim que Paulo Tadeu, proprietário da Matrix Editora, define a campanha #vempralivraria, lançada em junho com o objetivo de alertar as pessoas para a importância da manutenção das livrarias para o mercado editorial brasileiro. “As peças são livres para serem postadas por qualquer pessoa. Para participar, basta compartilhar a imagem, usar a hashtag e, claro, ir a uma livraria para comprar um livro”, completa.  

O mercado editorial e as livrarias tornaram-se assuntos frequentes no fim de 2018, quando a informação sobre a recuperação judicial pedida pelas livrarias Saraiva e Cultura e o fechamento de lojas da Saraiva por todo o Brasil tomou os noticiários. O grande público, então, começou a conhecer melhor a realidade do mercado editorial brasileiro, que vem passando por um momento de enxugamento. A carta que Luiz Schwarcz postou no Blog da Companhia das Letras – uma das maiores e mais sólidas editoras do país – também mobilizou não só leitores assíduos, como também eventuais. O resultado foi um Natal em que muita gente optou por “dar livros de presente”, porque o alerta da crise havia sensibilizado consumidores. “O Alencar (Perdigão, livreiro da Livraria Quixote, em Belo Horizonte) me informou que a livraria recebeu novos clientes e que recuperou outros. Que aquele havia sido o melhor Natal dos últimos oito anos”, conta Pedro Queiroz, diretor da Editora GG, que havia ido a Minas Gerais.

Mas, aquele momento parecia estar passando e Queiroz resolveu tentar reavivá-lo. Telefonou, do aeroporto mineiro, para Paulo Tadeu, e falou com ele sobre uma iniciativa para reacender o interesse pelos livros. Assim nasceu a campanha #vempralivraria, que tem como objetivo chamar a atenção do público para a importância cultural de livros e livrarias. “Livro é para a gente aprender, se divertir, dar de presente. Comprar é o mais importante”, afirma Paulo Tadeu.

Ele considera que a concorrência é estimulante, pois leva empresas a adotarem novas e diferentes práticas. Em sua opinião, há espaço tanto para livrarias físicas quanto para o e-commerce. “Desejamos todos vida longa às livrarias. A campanha não tem métrica, não tem meta. Que seja um mantra. Nota não somos uma associação nem temos uma estrutura. Temos a boa intenção de colaborar e assim colaboramos… esperando que mais possam colaborar”, diz Queiroz.

Agora, a Ateliê Editorial se junta a essa campanha e convida você, que está lendo este texto, a fazer o mesmo, fazendo posts no whatsapp, republicando as artes da campanha (que estão ao longo deste post) nas redes sociais e, claro, comprando livros. #vempralivraria

Uma história de vida que poderia ser de novela

Por: Renata de Albuquerque

Abdulbaset Jarour tem apenas 29 anos, mas uma história de vida inspiradora e cheia de experiências. Em 2014 imigrou para o Brasil e aqui reconstruiu sua vida, tornando-se ativista pelos direitos dos refugiados e imigrantes.

Nascido em Alepo, a maior cidade da Síria, é filho de uma família grande: tem cinco irmãs e um irmão. Até 2009, quando tinha 19 anos, levava uma vida tranquila, como a de qualquer jovem de sua idade. Estudava, trabalhava e tinha planos de fazer faculdade de administração de empresas. Conseguiu licença do exército para continuar estudando mas, no ano seguinte, junto com os primeiros movimentos da Primavera Árabe, Abdul foi servir o exército.  “Até 2011 não tinha guerra, vivíamos em paz”, relembra. Nesse ano, entretanto, aconteceram manifestações, pedindo mais liberdade na Síria. Quatro pessoas foram mortas pelo regime de Bashar al-Assad em Deraa e os conflitos começaram a se espalhar pelo território sírio, chegando a Alepo.  

Abdulbaset Jarour

“Os conflitos pioravam a cada dia”, lembra Abdul. Ele foi obrigado pelo governo a permanecer no exército – que servia compulsoriamente, como acontece no Brasil – até que os conflitos acabassem.  “Se eu fugisse, seria considerado desertor, poderia ser perseguido e morto”,  afirma. Tornou-se motorista de um general do exército, perdeu amigos na guerra. Em 5 de março de 2013, em um ataque na cidade de Damasco, foi ferido na perna. Mas, ao sair do hospital, teve de voltar ao exército. Então, decidiu sair da Síria. Passou dois meses no Líbano e começou a pensar em morar longe dali, em países como o Canadá ou a Austrália. Foi então que soube que o Brasil estava liberando visto humanitário. Comprou as passagens de ida e volta (pois temia não se adaptar por aqui). “A gente não tinha informação de que o Brasil fosse um lugar bom para recomeçar a vida. Nossos antepassados vinham para a América do Sul no tempo das Guerras, mas não conhecíamos nada”, afirma.

Mas, mesmo sendo um destino desconhecido, o Brasil reservava boas surpresas para Abdul. “Quando cheguei aqui, minha vida mudou”, diz ele. Não que ele tenha encontrado fartura ou facilidade. “As pessoas diziam que eu tinha que me virar e eu achava estranho não ter acolhimento, mesmo tendo um visto humanitário. Eu sofri porque não sabia falar a língua e quase ninguém aqui falava inglês; eu não sabia nem onde era a Polícia Federal para ter documentação. Não tinha onde dormir nem trabalho. Me senti perdido, desanimei”, relembra.

No Brasil, aprendeu português em poucos meses sozinho. Conheceu africanos e árabes, começou a trabalhar e empreender: iniciou um hostel com um sócio para o público árabe. O negócio não deu certo, a saúde de Abdul se fragilizou; seu pai e seu cunhado morreram em um  ataque em território sírio. Mas, ele começou a se envolver com projetos para refugiados: o Sarau dos Refugiados e a Copa dos Refugiados (no torneio, ficou responsável pelo time da Síria). Trabalhou como tradutor voluntário, começou a fazer palestras sobre sua história, trajetória e a cultura árabe. Tornou-se tema de reportagens e documentários e, em 2018, recebeu um convite da Fundação Caritas, de São Paulo, para participar da novela Órfãos da Terra. “Compartilhei minha história com Thelma Guedes (autora de livros como Pagu, Literatura e Revolução) e Duca Rachid. Fui convidado a dar um workshop para a equipe, participei da abertura e ajudei a convidar pessoas ilustres da comunidade árabe para participarem da novela”, conta orgulhoso.

Em 2019, conseguiu mais uma proeza: trazer, para o Brasil, sua mãe, seu irmão e uma de suas irmãs. Agora,  eles vivem juntos em São Paulo.

Quer saber mais uma história sobre imigração? Conheça Yaser.