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Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Por: Renata de Albuquerque*

Uma das mais importantes obras do dramaturgo português Gil Vicente – considerado o pai do teatro português – o Auto da Barca do Inferno (ou Auto da Moralidade) foi escrita em 1517 e encenada, pela primeira vez, em 1531. O texto faz parte da trilogia das barcas, composta por esta e por outros dois textos, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória.

Devido à sua importância histórica para a literatura, o Auto da Barca do Inferno foi escolhido para ser o primeiro título de uma coleção criada pela Ateliê Editorial ainda nos primeiros anos de existência da editora. A ideia da coleção “Clássicos para o Vestibular” era oferecer aos alunos do ensino médio uma edição de qualidade de um livro clássico, que é sempre solicitado nas provas. O livro traz o texto na íntegra, precedido de um texto introdutório que traz análise do enredo, da linguagem, dos personagens, do contexto histórico e do autor. Logo depois, a coleção passou a chamar-se “Clássicos Ateliê”. Afinal, não são apenas os estudantes que merecem ler uma edição bem cuidada de um clássico. Inicialmente, a coleção era coordenada por Ivan Teixeira, professor livre-docente da ECA/USP e professor titular de Literatura Brasileira na FFLCH/USP. Depois do falecimento de seu criador, em 2013, a coleção passou a ser coordenada pelo professor José de Paula Ramos, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA, da mesma universidade.

Auto da Barca do Inferno

Por ser um auto de moralidade, a peça, de um só ato, é uma alegoria do Juízo Final, uma sátira à sociedade portuguesa do século XVI. O vocabulário – muito distante da maneira como falamos hoje – pode parecer um obstáculo ao entendimento. Mas, se ultrapassado, o texto se revela divertido, com uma comicidade envolvente.

O enredo é simples. Dois barqueiros – o Anjo e o Diabo – estão em um porto, em que recebem, cada um em sua barca, as almas dos passageiros, para transportá-las para o outro mundo. O Diabo convida cada alma para fazer parte de sua barca. O Anjo autoriza ou não outras almas a viajar em sua própria barca. Vai para  céu quem durante a vida seguiu os preceitos divinos. Vai para o inferno quem foi avarento, mesquinho ou cometeu outros pecados.

Os personagens – que são, na verdade, representações de tipos sociais – apresentam-se diante do espectador como em um desfile. Sua história vai definir seu destino. Apenas o parvo e os quatro cavaleiros, mártires da Igreja, que dedicaram a vida ao cristianismo, conseguem embarcar rumo à paz eterna na barca do paraíso.

Cada personagem representa um aspecto da sociedade portuguesa. O Fidalgo, por exemplo, é o tirano representante da nobreza. O Parvo simboliza o povo português, temente a Deus e de bom coração. O Judeu representa as pessoas que não são fieis à fé cristã. O Frade desobedece o voto de castidade e, por isso, também vai para o inferno. Figuras como o Onzeneiro, o Corregedor e o Procurador são alegorias dos burocratas que usam o poder político a seu favor.

É interessante notar que o Diabo fala e age com uma fina ironia e que, muitas vezes, suas intervenções parecem ser a voz do próprio autor. Já o Sapateiro, ainda que tenha-se confessado antes de morrer não conquista o céu – o Diabo o leva porque ele roubava seus clientes.

Gil Vicente

Gil Vicente

Nascido por volta de 1465, em Guimarães, o poeta Gil Vicente é considerado o pai do teatro português. Autor de um teatro popular – apesar de estar no ambiente da Corte Portuguesa – foi um entretenimento para a família real, mesmo contendo diversas críticas ao poder. O teatro de Gil Vicente é caracterizado pela sátira crítica.

Pai de cinco filhos – dois do primeiro casamento e três do segundo, contraído após a morte da primeira esposa – estudou na Universidade de Salamanca, na Espanha. Um dos primeiros registros com seu nome data de 1502, quando encena “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III. Em 1511 foi nomeado vassalo do rei e mais tarde, mestre da balança da Casa da Moeda (1513). Faleceu por volta de 1536, provavelmente em Évora.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê


 
*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Ateliê participa de evento da ECA para alunos de jornalismo

A Ateliê Editorial participou de um evento da Jornalismo Júnior, empresa de jornalismo júnior da ECA – Escola de Comunicação e Artes – da USP. A empresa é formada exclusivamente por alunos do curso que pretendem exercitar na prática os aspectos do jornalismo e tem como objetivo propor a discussão da profissão sempre que possível.

O evento “No Ar! Jornalismo na TV”, que teve a participação da Ateliê, tratou de discutir diferentes pontos do telejornalismo, promovendo alguns debates diversos que foram desde a influência da TV nos dias atuais, até como se dá o processo de produção de notícias nesse meio, passando também pela dinâmica do formato de programas documentais.

A editora foi uma das patrocinadoras do evento, cedendo exemplares de livros como O Livro no Jornal, da jornalista Isabel Travancas; e Papel-Jornal – Artigos de Jornalismo Cultural, do também jornalista Marcello Rollemberg. Os títulos foram sorteados para o público do evento.

O evento contou com a participação de nomes do jornalismo como Mauricio Stycer, Ananda Portela e Luana Ibelli, entre outros.

Veja algumas fotos:

“O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social” de Ecléa Bosi, volta às prateleiras

O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social é um daqueles livros essenciais para quem estuda ciências sociais e, especialmente, psicologia social. Escrito por Ecléa Bosi – professora de psicologia social da USP – e publicado pela primeira vez em 2003, ele ganha, agora, nova edição da Ateliê Editorial.

Na obra, Ecléa Bosi faz caminhos teóricos para tratar de memória, preconceito, conformismo e rebeldia. A autora procura tornar atuais as ideias de pensadores como Bergson, Benjamin, Gandhi e Simone Weil, e convida o leitor a dialogar sobre o que a memória recupera, redime e inspira. Dentro dessa perspectiva, os clássicos ajudam a compreender o cotidiano das metrópoles de hoje, com suas contradições entre lembrança e esquecimento.

O livro é um dos mais importantes títulos da autora, falecida em 2017. Sobre ele, Renato Tardivo escreveu:

“Atentando no início para os aspectos do cotidiano e seu dinamismo, o que os afasta das definições estanques e cronológicas (a que estamos mais acostumados) de História, Ecléa Bosi nos mostra que o tempo da memória não é o tempo morto dos calendários, mas o tempo ‘de outra história mais densa’, o tempo das pequenas coisas, dos gestos, o tempo que nos une a todos e que, por isso mesmo, escapa a qualquer apreensão definitiva”. (leia o texto completo aqui)

Além deste título fundamental, em 2019 a Ateliê também publica Velhos Amigos. O livro traz pequenas narrativas sobre as lembranças de velhos operários, imigrantes e outros personagens anônimos da vida brasileira. As histórias, que se colocam entre o conto e a crônica, tratam de episódios de amigos e família, em tom bem humorado.  A apresentação do livro é de Adélia Prado e as ilustrações, de Odilon Moraes.

 

Saiba mais sobre Ecléa Bosi

Feliz Dia dos Professores

Essas figuras fazem parte do nosso dia a dia durante toda nossa infância e adolescência; elas nos ensinam ferramentas poderosas, como a leitura e a visão crítica; transmitem conhecimento formal que levaremos para a vida toda. Por isso, desejar “Feliz Dia dos Professores” é mais que uma homenagem protocolar; é algo que cada cidadão deveria fazer com sinceridade e gratidão.

Mas, o que seria de um professor sem livros, se são eles que oferecem a base do conhecimento que ele tão generosamente compartilha?  São os professores que nos incentivam a ler clássicos, a praticar cálculo em exercícios complexos, a entender a organização das células e dos planetas.

Mas, se nós lemos por estímulo deles – e com isso aprendemos tanto – a pergunta é: e eles, o que leem?

Neste ano, esta foi a pergunta que o Blog da Ateliê fez a dois professores para que, mais do que oferecer dicas de leitura, eles pudessem compartilhar suas experiências com outros professores, leitores do Blog.

 

Teoria e ficção

De títulos de ficção aos teóricos, a lista de “o que ler” fica maior a cada dia que passa para qualquer professor que queira se manter atualizado. Mas quais são os livros que merecem ser lidos e relidos?

Ayrthon Breder, graduado em Letras pela PUC-Rio e mestrando em Linguística pela mesma universidade, é professor voluntário de Redação no NEAd (Núcleo de Educação de Adultos/PUC-Rio) com aulas. “O principal livro fonte de minhas aulas de redação para alunos do ENEM é A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. Acredito que um bom professor ensina seus alunos a opinarem, a se colocarem presentes face às diversas situações da vida. A argumentação é importante nessa tarefa, pois ajuda o aluno, não só a discursar com mais propriedade, como também a ser um ouvinte crítico”, explica.

 

 

Já Sávio Lima Lopes, que além de professor do curso de Administração é também graduando em Letras, lembra que a ficção também pode ser usada em sala de aula. “No curso de Recursos Humanos, na aula de Comunicação Empresarial, li o conto “O caso da menina”, que está no livro Angu de Sangue. O objetivo era exemplificar ritmo e entonação das palavras, logo quando começamos a estudar prosódia Já é o terceiro livro do Marcelino Freire que leio”, afirma.

Mas, como também é aluno, ele completa: “Na graduação em Letras meu companheiro inseparável, tem sido Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, E que edição maravilhosa: ilustrada, com um ensaio incrível do Antônio Medina Rodrigues”, conclui.

A seguir, o Blog da Ateliê faz uma seleção para professor nenhum colocar defeito! Feliz Dia dos Professores!

Gramática Integral da Língua Portuguesa

Esta gramática se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

 

Sonetos de Camões

O desejo de plenitude amorosa, as dificuldades existenciais e a injustiça dos homens estão entre os grandes temas do Renascimento presentes na lírica de Camões. Ricos em antíteses e metáforas, seus sonetos estão entre as mais belas expressões literárias da língua portuguesa. A voz reflexiva que se ergue desses versos produz a elevação do espírito e o entusiasmo verbal. Esta edição traz os poemas mais representativos do acervo camoniano, comentados por dois experientes pr

ofessores de Literatura.

 

 

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Nebulosa

A coleção Clássicos Ateliê oferece ao leitor a 3ª edição de A Nebulosa, poema narrativo de Joaquim Manuel de Macedo, após quase 150 anos fora de circulação. Grande sucesso editorial nas duas edições lançadas em vida do autor, no século XIX, A Nebulosa narra a trágica história de um amor impossível, configurada no âmbito da corrente da poesia romântica noturna e melancólica a que Álvares de Azevedo também se dedicou. Para Antonio Candido, A Nebulosa vem a ser “talvez o melhor poema-romance do romantismo [brasileiro]”. O texto desta edição, estabelecido rigorosamente com base no da segunda (1878?), em cotejo com o da primeira (1857), é introduzido por um precioso estudo crítico de Ângela Maria Gonçalves da Costa, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, que dá minuciosa notícia da recepção crítica do poema e analisa seus principais aspectos de forma e conteúdo, no contexto da poética cultural do ultrarromantismo, em que se insere A Nebulosa. O volume conta com ilustrações do artista plástico Kaio Romero.

 

Jacques Derrida – Entreatos da Leitura e Literatura

Literatura e Filosofia. A partir desse encontro promovido pela obra de Jacques Derrida, cujos efeitos ainda incidem sobre o pensamento contemporâneo, este livro reúne artigos de Eneida Maria de Souza, Myriam Ávila, Evando Nascimento, Emílio Maciel, Maria Esther Maciel, Mónica Cragnolini, Roberto Said, Luiz Fernando Ferreira Sá, Ram Mandil, Nabil Araújo, Sérgio Luiz Prado Bellei, Gustavo Silveira Ribeiro e Roniere Menezes.

 

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial.

Antologia de poemas de Luci Collin reúne mais de três décadas de poesia

Por: Renata de Albuquerque

Ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. É essa diversidade que a Antologia Poética 1984-2018 (uma coedição entre as editoras de livros Kotter e Ateliê Editorial) traz ao leitor. É sobre isso que a autora fala, a seguir:

 

A escolha dos poemas para a Antologia foram feitas pelo Sálvio Nienkotter e pelo Marcos Pamplona, mas você teve papel importante na seleção final. Como foram escolhidos esses poemas?

Luci Collin: O processo foi muito bem cuidado pelos editores, que leram com muita atenção toda a minha produção poética (com poemas publicados desde 1984), selecionaram os poemas e depois me apresentaram a seleção. Então, em um segundo momento, eu pude também participar, apontando aqueles poemas que não estavam nessa seleta inicial e que eu, principalmente pelo “histórico individual” de cada poema, gostaria de ter na Antologia. O resultado ficou muito orgânico pois corresponde a três leituras, três olhares críticos diferentes. O resultado me surpreendeu – é algo especial ver nascer um livro formado de outros livros.

 

Há dois períodos de “lacuna” na publicação de sua poesia: 1984-1991 e 1997-2012. A que se devem essas lacunas?

LC: Estive, durante esses períodos, envolvida com literatura sim, mas de outras maneiras: ingressei na carreira de magistério superior na UFPR (em 1999, lecionando Literaturas de Língua Inglesa), cursei um doutorado na USP sobre a obra de Gertrude Stein, organizei antologias e traduzi vários poetas (como Gary Snyder e Jerome Rothenberg) e publiquei vários artigos e ensaios em jornais e revistas literárias. Mas, sobretudo, estive publicando ficção. De 1997 a 2011 publiquei cinco livros de contos e um romance e por esses motivos, estive afastada da publicação de poesia.

Luci Collin

Ao publicar uma antologia e revisitar sua obra, que mudanças você notou na sua própria poesia?

LC: Essa questão das mudanças, olhar para a sua produção e perceber quantas coisas foram sendo alteradas ao longo do tempo, é uma emoção enorme. É uma experiência de confronto não só com o seu estilo inicial e com as temáticas que foram  exploradas, mas também com a sua própria relação com o fazer poético ao longo da sua vida. São mais de trinta anos de percepções registrados por meio da palavra. Reunir esses poemas na Antologia funcionou como uma visita, um mergulho mesmo na minha própria trajetória de expressão pela poesia. E tem aqueles poemas que permaneceram importantes ao longo dos anos, que a gente ainda quer mostrar e dividir com os leitores. É como reescrever-se, recontar-se. A princípio, uma voz tímida, frágil e mais ligada ao experimentalismo; com o passar dos anos, uma maior definição do meu timbre, do meu estilo e da medida mais livre do meu poetizar – é isso a Antologia.

 

 

Jussara Salazar chama a atenção, na contracapa do livro, para a questão do estranhamento colocado na sua obra. Como se dá essa construção, no seu fazer poético? É uma construção consciente?

LC: Acredito que as características que acabam marcando a produção de um poeta são muito espontâneas, são como o correspondente de sua voz, de sua personalidade literária sob forma de poemas. A construção acaba se processando um misto de marca individual (talvez um pouco intuitiva) com labor (esse sim, consciente). Nunca reneguei nada do que escrevi e gosto de mostrar os poemas iniciais como expressões primeiras de alguém tentando se expressar de um modo sincero e livre, tentando manter uma fidelidade aos seus próprios anseios com a poesia, num registro de espanto e amorosidade. Às vezes isso causa mesmo um estranhamento, mas eu permaneci com essa perspectiva de chamar o leitor para que construamos, juntos, o poema.

No prefácio, Sálvio Nienkotter chama a atenção para a influência do concretismo na sua obra. Como isso acontece? Além desta, quais são suas outras influências literárias?

LC: Começo a escrever em uma Curitiba da década de 1980, muito influenciada pela presença de Paulo Leminski e da tradição a que ele se ligou, como a dos irmãos Campos. Assim, flertei com o concreto no primeiro livro. Já no segundo livro de poesia, tendo iniciado meus estudos de zen-budismo, passei a uma poesia ainda imagética, mas menos concreta, com a visualidade trabalhada de forma diferente. E, gradualmente, fui me afastando do concreto e do experimental. Com 17 anos, idade em que escrevi o Estarrecer, naturalmente estava sob muitas influências e era imitativa. Eu lia muito Jorge de Lima, Ferreira Gullar, os expressionistas alemães, poesia marginal, poesia beat. Aos poucos fui incluindo poesia francesa e portuguesa, mais autores contemporâneos e, sempre os modernistas como T. S. Eliot, Marianne Moore e William Carlos Williams.

 

De que maneira sua formação em música influencia sua poesia?

LC: Acredito que de um modo substancial porque minha vivência de anos como musicista me fez conceber o texto como literário e musical ao mesmo tempo, um texto em que aparecem elementos comuns às duas linguagens: a rítmica, o fraseado, a melodiosidade. E a interpretação de uma partitura é uma experiência de transporte de códigos para elaboração de uma trama emocional que é muito próxima ao uso que a poesia faz da poeticidade. Aliás, há, inclusive, quem considere que a essência de todas as artes é a poeticidade.

 

Além da Antologia, há outro livro recém-lançado organizado por você: Ao Vires Isto. Pode falar um pouco sobre este livro para os leitores do Blog Ateliê, por favor?

LC: Esse livro é a realização de um grande sonho que era reunir em uma publicação vários ensaístas investigando e discutindo a produção da escritora norte-americana modernista Gertrude Stein. Stein foi uma pensadora revolucionária que influenciou não só a literatura, mas as artes em geral. Nesse livro, organizado pela Profa. Dra. Daniella Aguiar, da Universidade Federal de Uberlândia; pelo Prof. Dr. João Queiroz, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e por mim, da Universidade Federal do Paraná, reunimos vários ensaios sob o viés da tradução e da intermidialidade. Colaboraram nesta publicação nomes especialíssimos como Marjorie Perloff, Jerome Rothenberg, Edson Zampronha, Dirce W. do Amarante e Augusto de Campos. O livro representa um importante material crítico sobre Stein – algo que praticamente inexistia no mercado brasileiro até então. E a edição é um primor. Quem se interessa por Modernidade, tradução, intermidialidade seguramente se encantará com o Ao vires isto.

Conheça outras coedições Kotter/Ateliê Editorial

Livros para ler e para colecionar leituras e experiências

Por: Renata de Albuquerque*

“O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa”, escreve Clarice Lispector em Água Viva. Para algumas pessoas, o sentimento pode ser inexplicável, mas tem um objeto definido: o livro. Ler é viajar, é sair do próprio mundo e conhecer outros, é mergulhar em outras realidades. A leitura é fascinante e nos ajuda a conhecer pontos de vista diferentes, a olhar o mundo com mais agudez, a entender o que nem sempre está explícito.

Quando o genial Jorge Luis Borges afirma que, para ele, o paraíso seria uma espécie de livraria, é dessa paixão pelo livro que ele fala; uma paixão que reverbera em muitos leitores. E, apesar de toda a tecnologia, o livro físico ainda é, por excelência, a melhor tradução dessa relação entre os leitores e a leitura. O cheiro do livro novo, a sensação de companhia, o virar de páginas, a exposição na estante: tudo são lembranças não só da leitura em si, mas de tudo o que aquele livro representa ou representou na vida de cada leitor.

“Eu li esse livro quando estava no colégio”; “aquele livro me acompanhou durante a licença-maternidade”; “eu li este quando estava de férias no interior”. Experiências de vida e histórias se misturam, formando uma outra memória, a que cada leitor recorre em diferentes momentos da vida.

Por isso, a Ateliê reuniu mais de cem títulos muito variados, abrangendo ficção, teoria literária, poesia, livros técnicos e livros sobre livros. É uma seleção diversificada, que apresenta muitos temas diferentes, que certamente poderão agradar a leitores com os perfis mais heterogêneos. O objetivo é um só: estreitar a relação entre o leitor e o livro, promover encontros que deixarão marcas e produzirão memórias inesquecíveis.

Confira alguns títulos:

A Casa dos Seis Tostões 

Paul Collins e sua família abandonaram as colinas de San Francisco para se mudarem para o interior do País de Gales – para se mudarem, na verdade, para a vila de Hay-on-Wye, a “Cidade dos Livros”, que ostenta mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias. Convidando os leitores a entrarem em um santuário para os amantes dos livros, A Casa dos Seis Tostões é uma meditação sincera e muitas vezes hilária sobre o que os livros significam para nós.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial. [Fernando Cabral Martins]

Mensagem

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto dessa obra-prima rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. Deve-se isso ao esforço de António Apolinário Lourenço, professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa. Com seu ensaio de apresentação da obra e as notas que agrega aos poemas, António Apolinário Lourenço oferece aos leitores uma orientação tão segura quanto esclarecedora para resolver tantas dificuldades de compreensão, decorrentes da rica e complexa simbologia de Mensagem.

 

Machado e Rosa – Leituras Críticas

Essa coletânea reúne estudos críticos produzidos por renomados especialistas na literatura de Machado de Assis e Guimarães Rosa. As obras de ambos continuam a instigar seus leitores, permitindo sempre novos enquadramentos e inflexões. Machado e Rosa são contemporâneos precisamente por não coincidirem inteiramente com seu tempo, nem se adequarem de forma estreita a suas normas e exigências. Justamente em razão desse deslocamento e desse anacronismo, os dois a(u)tores em foco foram capazes de perceber, apreender e traduzir seu tempo, deixando-lhe em aberto os paradigmas de forma a serem relidos e revistos no devir. Esta é uma razão suficiente para reconhecer como clássicos nossos dois grandes mestres. Para lê-los e ler sobre eles.

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Forma do Livro – Ensaios sobre Tipografia e Estética do Livro

Com texto introdutório de Robert Bringhurst, A Forma do Livro traz ensaios que o renomado tipógrafo e designer alemão Jan Tschichold escreveu entre 1937 e 1974. Aborda, de maneira didática, os vários aspectos da composição tipográfica: página e mancha, parágrafos, grifos, entrelinhamento, tipologias, formatos e papéis, entre outros. Aliando precisão técnica e reflexão estética, Tschichold aposta no respeito pelo texto e no cálculo das proporções para conquistar a harmonia do conjunto.

 

A Relíquia

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.” Essa é a fórmula que Eça de Queirós aplica, em A Relíquia, contra o cientificismo de sua época. O autor narra a saga de portugueses que, em pleno século XIX, vão a Jerusalém para resgatar um objeto de tempos bíblicos. Por meio da ironia e do humor, o romance excede os limites da análise social e instaura uma imaginação crítica. Na apresentação, Fernando Couto, mestre pela Unicamp, analisa o cenário social em que Eça viveu e escreveu.

 

 

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

 

 

Livro Viva VaiaViva Vaia

Esta edição de Viva Vaia, obra que estava esgotada, é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

 

Sertões, Os – Campanha de Canudos, de Euclides da CunhaOs Sertões – Campanha de Canudos

Esta 5a. edição comentada de Os Sertões foi revista e ampliada e, até hoje, é a mais completa do clássico de Euclides da Cunha. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. Originalmente publicada em 2001, é a primeira edição com minucioso e inédito índice onomástico de lugares e pessoas; acurada cronologia da vida e obra do autor; vinte e quatro páginas de iconografia, com informações desconhecidas sobre o assunto; e prefácio elucidativo do organizador, Prof. Leopoldo Bernucci, que aborda o problema das diferentes linguagens de Os Sertões e de suas qualidades artísticas.

 

O Leitor Segundo G.H. – Uma Análise do Romance A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Que perfis de leitor e que rituais de leitura a narradora G.H. elege e constrói para seu relato? Essa é a pergunta central deste ensaio, pensado e escrito de maneira poética, associando as dimensões intuitiva e intelectiva da crítica literária. Emilia Amaral apresenta um ponto de vista inovador em relação ao que já se produziu sobre a obra de Clarice. Ao explorar as diferentes figurações do leitor em A Paixão Segundo G.H., o estudo vislumbra novas chaves de interpretação para o romance.

 

Confira a lista completa de livros em promoção

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Lista de livros para Fuvest 2019

Divulgado o Manual do Candidato para a Fuvest 2019 (clique aqui para baixar o PDF), hora de começar a ler ou reler as obras literárias obrigatórias.

Houve mudança em relação à lista de livros do vestibular passado, com a retirada da obra A Cidade e as Serras e a inclusão da obra A Relíquia, ambas do mesmo autor Eça de Queirós.

Essas alterações já estavam previstas desde 2016, quando o Conselho de Graduação da USP aprovou a lista de obras de leitura obrigatória para os vestibulares FUVEST 2017, 2018 e 2019.

Confira a relação completa das obras literárias de leitura obrigatória para o FUVEST 2019:

Nome do livro

Autor

Iracema

José de Alencar

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis

A Relíquia

Eça de Queirós

O Cortiço

Aluísio Azevedo

Vidas Secas

Graciliano Ramos

Minha Vida de Menina

Helena Morley

Claro Enigma

Carlos Drummond de Andrade

Sagarana

João Guimarães Rosa

Mayombe

Pepetela

As inscrições serão abertas no próximo dia 13, a partir das 12h e serão encerradas no dia 14 de setembro, também às 12h. As inscrições devem ser feitas no site da Fuvest.

A taxa de inscrição custará R$ 170 (mesmo valor do ano passado) e deverá ser paga por boleto bancário em bancos ou pela internet, até o dia 18 de setembro.

A primeira fase do vestibular ocorrerá no dia 25 de novembro e a segunda fase será nos dias 6 e 7 de janeiro de 2019.

Mais Informações, no site da Fuvest.
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Este pacote reúne livros da Coleção Clássicos Ateliê que cairão nos próximos vestibulares da Fuvest, com um desconto especial.

“Moby Dick”, o romance infinito

Maria Schtine Viana*

Na obra Por quê ler os clássicos?,  Italo Calvino faz a seguinte afirmação: “Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer”. Isso significa que o clássico é uma obra aberta, em que os sentidos podem ser revistos a cada nova geração de leitor, de acordo com os valores do tempo em que está sendo lida. Mas essa inesgotabilidade de sentidos também pode ser associada ao fato de que a cada nova leitura que fazemos de um clássico termos a sensação que estar lendo uma obra nova.

Recentemente reli Moby Dick, pois daria um ciclo de palestras em que trataria justamente da importância de ler os clássicos, e pude comprovar essa máxima de Calvino  mais uma vez. Passagens que não haviam chamado minha atenção em leituras realizadas anteriormente ganharam importância e, ao reler trechos que havia assinalado nas leituras feitas anos atrás, perguntava-me o motivo de aquele trecho ter sido tão importante outrora.

Com isso quero dizer que foi com a emoção de uma baleeira de primeira viagem que embarquei novamente com Ishmael a bordo do Pequod por algumas noites seguidas, relendo avidamente as aventuras do capitão Ahab em busca de Moby Dick. Mesmo conhecendo o desfecho trágico do romance. Na verdade, estava ansiosa por ler novamente os três dias de caçada que ocorrem nos capítulos finais, quando, em meio aos embates dos arpoadores sob o comando de Ahab, vence, majestosamente, a potência da natureza. Talvez goste dessa obra justamente por saber que as últimas palavras do obstinado capitão, ao lançar o arpão que selaria sua morte, são apenas a confirmação de que, se a única certeza que temos é a de que somos mortais, é preciso lembrar sempre que os embates enfrentados no decorrer da vida devem ser realmente significativos. Ainda que para outrem eles pareçam desprovidos de sentido, cada ser humano é singular e deve ter liberdade para escolher o leviatã com o qual quer lutar.

Cabe lembrar que muito do realismo presente em Moby Dick se deva ao fato de o autor dessa obra monumental, o norte-americano Herman Melville, ainda muito jovem ter embarcado como grumete em um navio em direção a Liverpool, na Inglaterra. Essa viagem permitiu que Melville descobrisse duas paixões que o acompanhariam pelo resto da vida: o mar e a escrita literária. Seu livro Redburn (1849) foi baseado nessa primeira experiência de viagem. Nele, o escritor denuncia a exaustão da vida a bordo. Três anos mais tarde, depois de inúmeras tentativas de sobreviver como escriturário e professor, embarca em janeiro de 1841 em um navio baleeiro, o Acushnet, que o levaria aos mares do Sul. Essa viagem, com duração de aproximadamente 18 meses, lhe forneceu os elementos necessários para escrever Moby Dick, dez anos depois.

Cansado da pesca de baleias, desembarca do Acushnet na ilha Nuku-Hiva, na companhia de um camarada, que o abandona dias depois. Convive com os moradores locais por algum tempo, até ser resgatado pela tripulação do Lucy Ann, um barco australiano.

O escritor Herman Melville

Os primeiros livros de Melville, Typee: A peep at Polynesian life (Uma espiadela na vida da Polinésia, 1846) e Mardi (1849), foram inspirados nessas viagens. No primeiro, relata sua convivência com os nativos das ilhas Marquesas; no segundo, descreve sua vida a bordo do Lucy Ann. Uma das experiências relatadas em Mardi é o motim organizado pelos tripulantes, que reivindicavam o pagamento em atraso e melhores condições de vida a bordo, do qual Melville participou e que resultou em sua prisão no Taiti. Consegue fugir da prisão e chega a trabalhar como agricultor nessa ilha antes de retornar para Boston, três anos depois, como marinheiro, a bordo da fragata United States. Essas últimas aventuras foram relatadas no livro Omoo (1847).

Todavia, Melville escreveu sua obra-prima, Moby Dick, não no calor das viagens, mas alguns anos depois, em 1851. Diferentemente dos livros anteriores, nessa obra o que impera não é o espírito aventureiro e a prosa de fácil entendimento. Por trás da aparente caça à baleia branca, descortina-se um mundo simbólico, metafísico e denso, que não caiu no gosto popular. As vendas não atingiram o patamar esperado.

O escritor faleceu em Nova Iorque em 1891, aos 72 anos, e o mundo ainda demoraria pelo menos mais trinta anos para reconhecer sua genialidade literária. Isso porque, com o advento da Primeira Guerra Mundial, sua obra passou a ser vista como uma reflexão possível acerca do sombrio destino da humanidade. A luta constante entre o bem e o mal, tão presentes em Moby Dick, e a busca pela perfeição do caráter humano fizeram com que filósofos e escritores da segunda metade do século XX passassem a vê-lo como uma espécie de precursor do existencialismo.

O crítico inglês D. H. Lawrence, em particular, em ensaio de 1923, faz uma interessante analogia entre a obra e o desejo de domínio por parte dos norte-americanos. De acordo com ele, no momento em que a obra foi escrita os Estados Unidos lutavam por expandir suas fronteiras. Por isso, o que temos no romance são três raças selvagens, simbolizadas pelos três arpoadores de diferentes origens: Queequep, o ilhéu do Sul; Tashtego, o pele-vermelha da costa; e Daggoo, o negro, servindo sob a bandeira norte-americana, ao comando do capitão de um barco que representaria o mundo civilizado.

À primeira vista, o romance de Melville trata da perseguição obstinada de um capitão em busca do cachalote que lhe destruiu a perna em um embate em alto-mar. No entanto, o próprio narrador deixa claro que os reais motivos do capitão Ahab eram de outra ordem: “Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais.”

Antes da caçada propriamente dita, o narrador Ishmael, único sobrevivente da trágica aventura, apresenta informações minuciosas sobre a região onde se encontra; a maneira como conhece Queequeg, o ilhéu dos mares do Sul, que será um dos principais arpoadores na caça à baleia branca. Detalhes sobre a equipagem do navio e a origem da tripulação; informações históricas sobre a caça à baleia e muitas outras vão preparando o espírito do leitor para a grande batalha que será travada em alto-mar.

Mais de uma centena de páginas antecedem a apresentação do grande capitão Ahab. Além disso, somente alguns capítulos depois de sua aparição é que a tripulação, e também os leitores, saberemos que o baleeiro Pequod foi equipado especialmente para uma perseguição a Moby Dick, e não para uma caçada rotineira a quaisquer espécies de baleia.

Dessa maneira, Melville vai enredando o leitor de tal forma em sua trama narrativa que, como os marinheiros recrutados pelo obstinado Ahab, já não se consegue desembarcar do navio. Passa-se a fazer parte dessa comunidade de baleeiros solitários que percorrem os mares por três anos, em busca desse monstro sagrado, sabendo-se, de antemão, que a essa missão estria fadada ao fracasso.

Mais um exemplo desse processo gradual de construção narrativa, que parte do geral até chegar no específico, pode ser verificado no capítulo intitulado “A brancura da baleia”. Nele o narrador discorre sobre o branco em suas diversas manifestações, passando pela delicadeza da camélia e das pérolas, pela coragem do destemido corcel branco, pela inocência das noivas em suas vestes nupciais – até chegar ao terror que aparições encobertas pela alvura dos fantasmas podem provocar, para sintetizar que, Moby Dick, o cachalote branco representava simbolicamente todas essas manifestações da brancura. Se, por um lado, o branco é apresentado neste capítulo como símbolo de pureza, da inocência e do poder divino; em contrapartida, simboliza também a palidez da morte e o horror das aparições sobrenaturais. É o vazio que tudo esconde.

O narrador Ishmael desenvolve reflexões em torno dos mistérios que o circundam ao entrar em contato com esse vazio, representado por Moby Dick, e empenha-se em entendê-lo por meio de questionamentos que não passam apenas pela razão, mas também pela sua fé, suas emoções e dúvidas. Por outro lado, o capitão Ahab ataca esse vazio e seu desejo é destruí-lo, ainda que assim acabe levando consigo toda tripulação ao encontro da morte.

Quando escreveu Moby Dick, Melville estava longe de saber que sua obra se tornaria um clássico, mas as impressões que Jorge Luis Borges apresenta dessa obra confirmam minhas sensações: esta é uma obra que vale a pena ser lida e (re) lida como um romance infinito. Escreve o escritor argentino: “No inverno de 1851, Melville publicou Moby Dick, o romance infinito que determinou sua glória. Página a página, a narrativa se engrandece até usurpar o tamanho do cosmos: no início, o leitor pode supor que seu tema é a vida miserável dos arpoadores de baleias; depois, que o tema é a loucura do capitão Ahab, ávido por perseguir e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia e Ahab e a perseguição que fatiga os oceanos do planeta são símbolos e espelhos do Universo.”

 

 

*Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda no Departamento de Estudos Estudos Portugueses, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É escritora e autora de obras didáticas e livros destinados à formação de professores. Mestre em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB-USP e Bacharel em Letras pela mesma instituição, escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

Conheça mais sobre a autora

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Lenina Pomeranz, professora livre docente associada do Departamento de Economia da FEA – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP acaba de lançar  Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo. Sua pesquisa sobre o processo de transformação sistêmica da Rússia, teve início com o acompanhamento da perestroika, como a primeira pesquisadora a implementar um programa de cooperação entre o Instituto da América Latina da Academia de Ciências da URSS e a USP. Ela, que fez seu doutoramento no Instituto Plejanov de Moscou, de Planejamento da Economia Nacional e pós doutoramento na Boston University, com bolsa Fulbright fala, nesta entrevista ao Blog da Ateliê, sobre seu novo livro:

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Neste ano em que se comemoram 200 anos de Marx, qual o legado deste autor e do socialismo soviético para o mundo de hoje?

Lenina Pomeranz: A resposta a esta pergunta exige, em primeiro lugar, a divisão dela em duas. A relação entre o legado de Marx e o do socialismo soviético é motivo de ampla discussão entre marxistas e pós marxistas, parte dos quais não reconhece o sistema soviético como socialista. Além disso, a contribuição de Marx, no seu 200º aniversário transcende o socialismo soviético, não obstante façam parte do legado marxista as preocupações e os escritos sobre a Rússia, nos anos finais da década de 1880. São exatamente estes escritos, relativos aos caminhos alternativos possíveis para a revolução russa, derivados da existência da exploração comunitária da agricultura – característica própria da Rússia à época – que constituem um bom exemplo de como os fundamentos de sua teoria podem e devem ser aplicados em diferentes contextos e situações históricas do sistema.  Acredito que este seja o seu grande legado.

Quanto ao legado do socialismo soviético, está no aprendizado que oferece uma  avaliação dos acertos e erros incorridos na tentativa de construção de um sistema alternativo ao capitalismo dominante. Ambos, acertos e erros, foram muitos e esta avaliação, mesmo restringida pelo curto espaço do tempo histórico que separa os dias de hoje da data de sua extinção, é plena de ensinamentos.

 

Seu livro fala de sua experiência na Rússia em um momento de profundas mudanças históricas. Pessoalmente, o que mais lhe marcou nessa experiência?

LP: Marcou-me profundamente o processo pelo qual acabou se dando o desmanche da URSS. A esperança de um socialismo de face humana, bandeira da perestroika , acabou por desfazer-se,  frente à realidade social  em que este socialismo deveria ser implantado.

 

Como foi ser pesquisadora do tema e viver seu “objeto de estudo” na prática?

LP: Foi muito bom, porque esta vivência tornou possível sentir o clima da época, a explosão da participação popular nas ruas, derivada da glasnost – a democratização política, acompanhar as contradições de interesses e os conflitos que permearam o processo de transformação iniciado com a perestroika, assim como, posteriormente,  o aguçamento dessas contradições e conflitos que levaram ao fim da URSS.

 

É possível falar em um legado do socialismo soviético ao capitalismo russo? Se sim, quais são os ecos do primeiro no segundo?  Ou: há rastros do primeiro no segundo?

LP: É possível sim, embora os fundamentos de ambos os sistemas sejam completamente distintos. Exatamente para entender as heranças culturais do passado existentes no novo capitalismo russo, busquei estruturar a minha pesquisa e o livro dela resultante, em torno dos traços culturais básicos formados ao longo da história russa.  Como rastros do socialismo soviético, já existentes antes mesmo dele, dois são proeminentes: o paternalismo e o autoritarismo. No âmbito do paternalismo, pode se incluir a preocupação com a manutenção, ainda que restrita, de alguns benefícios do sistema de bem estar social existentes no sistema soviético.

 

Na apresentação do livro, a senhora escreve: “Afirmar que entendi seria prepotência; mas procurei fazê-lo. Dadas as próprias necessidades de acompanhar a construção de um novo sistema, tanto no plano econômico quanto no plano político, ou seja o como, durante alguns anos releguei a segundo plano a análise do funcionamento do sistema soviético, o porquê.” Hoje, o que se pode depreender dessa análise do porquê?

LP: Logo depois da dissolução da URSS, surgiram inúmeras análises sobre esse porquê, apontando para fatores que estiveram presentes e marcaram a existência deste país. A minha contribuição ao debate em torno dessas análises do  porquê  está em sublinhar alguns elementos dessa experiência, que julgo devam ser considerados no debate em torno do tema, ressaltando o seu caráter controverso e as limitações impostas pelo limitado tempo histórico desde a dissolução da URSS. Resumindo, estes elementos referem-se: i) ao quadro de referências em que se deu a revolução de outubro de 1917: a participação da Rússia na 1ª. Guerra Mundial e suas consequências sobre a vida da população, inclusive seus anseios pela paz; a não realização da esperada revolução mundial; a existência de forte tradição revolucionária contra o czarismo; finalmente, a construção do socialismo em um único país; ii) às condições nas quais se deu a evolução do sistema: a Rússia era um país relativamente atrasado em comparação com os países econômica e politicamente mais avançados, o que levou à adoção de uma estratégia de crescimento centrado na industrialização; não havia experiências anteriores, nem indicações teóricas sobre como construir o novo sistema, o que, por sua vez,  levou à adoção pragmática de alternativas até finalmente se consolidar no modelo formado a partir dos anos 1930, sob a liderança de Stalin; iii) ao stalinismo e as marcas positivas e negativas por ele deixadas; iv) ao debate sobre as possibilidades de  reforma do sistema, introduzido pelo insucesso da perestroika.

 

O que se pode dizer do sistema russo hoje, cem nos depois da revolução de 1917?

LP: Acredito que a melhor resposta a esta pergunta será fazer uma nova pergunta: teria a revolução russa interrompido um caminho no sentido do desenvolvimento capitalista da Rússia? Em outros termos, qual teria sido o perfil do capitalismo russo se o seu desenvolvimento não tivesse sido interrompido pela revolução de outubro de 1917 e a construção do sistema socialista soviético, que marcou significativamente o século XX? Acredito que uma resposta  a estas perguntas depende de um aprofundada análise das condições históricas que determinaram a própria eclosão da revolução.

Conheça a obra Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo.