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Lista de livros para Fuvest 2019

Divulgado o Manual do Candidato para a Fuvest 2019 (clique aqui para baixar o PDF), hora de começar a ler ou reler as obras literárias obrigatórias.

Houve mudança em relação à lista de livros do vestibular passado, com a retirada da obra A Cidade e as Serras e a inclusão da obra A Relíquia, ambas do mesmo autor Eça de Queirós.

Essas alterações já estavam previstas desde 2016, quando o Conselho de Graduação da USP aprovou a lista de obras de leitura obrigatória para os vestibulares FUVEST 2017, 2018 e 2019.

Confira a relação completa das obras literárias de leitura obrigatória para o FUVEST 2019:

Nome do livro

Autor

Iracema

José de Alencar

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis

A Relíquia

Eça de Queirós

O Cortiço

Aluísio Azevedo

Vidas Secas

Graciliano Ramos

Minha Vida de Menina

Helena Morley

Claro Enigma

Carlos Drummond de Andrade

Sagarana

João Guimarães Rosa

Mayombe

Pepetela

As inscrições serão abertas no próximo dia 13, a partir das 12h e serão encerradas no dia 14 de setembro, também às 12h. As inscrições devem ser feitas no site da Fuvest.

A taxa de inscrição custará R$ 170 (mesmo valor do ano passado) e deverá ser paga por boleto bancário em bancos ou pela internet, até o dia 18 de setembro.

A primeira fase do vestibular ocorrerá no dia 25 de novembro e a segunda fase será nos dias 6 e 7 de janeiro de 2019.

Mais Informações, no site da Fuvest.
Confira o Pacote Livros para Fuvest da Ateliê Editorial.
Este pacote reúne livros da Coleção Clássicos Ateliê que cairão nos próximos vestibulares da Fuvest, com um desconto especial.

“Moby Dick”, o romance infinito

Maria Schtine Viana*

Na obra Por quê ler os clássicos?,  Italo Calvino faz a seguinte afirmação: “Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer”. Isso significa que o clássico é uma obra aberta, em que os sentidos podem ser revistos a cada nova geração de leitor, de acordo com os valores do tempo em que está sendo lida. Mas essa inesgotabilidade de sentidos também pode ser associada ao fato de que a cada nova leitura que fazemos de um clássico termos a sensação que estar lendo uma obra nova.

Recentemente reli Moby Dick, pois daria um ciclo de palestras em que trataria justamente da importância de ler os clássicos, e pude comprovar essa máxima de Calvino  mais uma vez. Passagens que não haviam chamado minha atenção em leituras realizadas anteriormente ganharam importância e, ao reler trechos que havia assinalado nas leituras feitas anos atrás, perguntava-me o motivo de aquele trecho ter sido tão importante outrora.

Com isso quero dizer que foi com a emoção de uma baleeira de primeira viagem que embarquei novamente com Ishmael a bordo do Pequod por algumas noites seguidas, relendo avidamente as aventuras do capitão Ahab em busca de Moby Dick. Mesmo conhecendo o desfecho trágico do romance. Na verdade, estava ansiosa por ler novamente os três dias de caçada que ocorrem nos capítulos finais, quando, em meio aos embates dos arpoadores sob o comando de Ahab, vence, majestosamente, a potência da natureza. Talvez goste dessa obra justamente por saber que as últimas palavras do obstinado capitão, ao lançar o arpão que selaria sua morte, são apenas a confirmação de que, se a única certeza que temos é a de que somos mortais, é preciso lembrar sempre que os embates enfrentados no decorrer da vida devem ser realmente significativos. Ainda que para outrem eles pareçam desprovidos de sentido, cada ser humano é singular e deve ter liberdade para escolher o leviatã com o qual quer lutar.

Cabe lembrar que muito do realismo presente em Moby Dick se deva ao fato de o autor dessa obra monumental, o norte-americano Herman Melville, ainda muito jovem ter embarcado como grumete em um navio em direção a Liverpool, na Inglaterra. Essa viagem permitiu que Melville descobrisse duas paixões que o acompanhariam pelo resto da vida: o mar e a escrita literária. Seu livro Redburn (1849) foi baseado nessa primeira experiência de viagem. Nele, o escritor denuncia a exaustão da vida a bordo. Três anos mais tarde, depois de inúmeras tentativas de sobreviver como escriturário e professor, embarca em janeiro de 1841 em um navio baleeiro, o Acushnet, que o levaria aos mares do Sul. Essa viagem, com duração de aproximadamente 18 meses, lhe forneceu os elementos necessários para escrever Moby Dick, dez anos depois.

Cansado da pesca de baleias, desembarca do Acushnet na ilha Nuku-Hiva, na companhia de um camarada, que o abandona dias depois. Convive com os moradores locais por algum tempo, até ser resgatado pela tripulação do Lucy Ann, um barco australiano.

O escritor Herman Melville

Os primeiros livros de Melville, Typee: A peep at Polynesian life (Uma espiadela na vida da Polinésia, 1846) e Mardi (1849), foram inspirados nessas viagens. No primeiro, relata sua convivência com os nativos das ilhas Marquesas; no segundo, descreve sua vida a bordo do Lucy Ann. Uma das experiências relatadas em Mardi é o motim organizado pelos tripulantes, que reivindicavam o pagamento em atraso e melhores condições de vida a bordo, do qual Melville participou e que resultou em sua prisão no Taiti. Consegue fugir da prisão e chega a trabalhar como agricultor nessa ilha antes de retornar para Boston, três anos depois, como marinheiro, a bordo da fragata United States. Essas últimas aventuras foram relatadas no livro Omoo (1847).

Todavia, Melville escreveu sua obra-prima, Moby Dick, não no calor das viagens, mas alguns anos depois, em 1851. Diferentemente dos livros anteriores, nessa obra o que impera não é o espírito aventureiro e a prosa de fácil entendimento. Por trás da aparente caça à baleia branca, descortina-se um mundo simbólico, metafísico e denso, que não caiu no gosto popular. As vendas não atingiram o patamar esperado.

O escritor faleceu em Nova Iorque em 1891, aos 72 anos, e o mundo ainda demoraria pelo menos mais trinta anos para reconhecer sua genialidade literária. Isso porque, com o advento da Primeira Guerra Mundial, sua obra passou a ser vista como uma reflexão possível acerca do sombrio destino da humanidade. A luta constante entre o bem e o mal, tão presentes em Moby Dick, e a busca pela perfeição do caráter humano fizeram com que filósofos e escritores da segunda metade do século XX passassem a vê-lo como uma espécie de precursor do existencialismo.

O crítico inglês D. H. Lawrence, em particular, em ensaio de 1923, faz uma interessante analogia entre a obra e o desejo de domínio por parte dos norte-americanos. De acordo com ele, no momento em que a obra foi escrita os Estados Unidos lutavam por expandir suas fronteiras. Por isso, o que temos no romance são três raças selvagens, simbolizadas pelos três arpoadores de diferentes origens: Queequep, o ilhéu do Sul; Tashtego, o pele-vermelha da costa; e Daggoo, o negro, servindo sob a bandeira norte-americana, ao comando do capitão de um barco que representaria o mundo civilizado.

À primeira vista, o romance de Melville trata da perseguição obstinada de um capitão em busca do cachalote que lhe destruiu a perna em um embate em alto-mar. No entanto, o próprio narrador deixa claro que os reais motivos do capitão Ahab eram de outra ordem: “Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais.”

Antes da caçada propriamente dita, o narrador Ishmael, único sobrevivente da trágica aventura, apresenta informações minuciosas sobre a região onde se encontra; a maneira como conhece Queequeg, o ilhéu dos mares do Sul, que será um dos principais arpoadores na caça à baleia branca. Detalhes sobre a equipagem do navio e a origem da tripulação; informações históricas sobre a caça à baleia e muitas outras vão preparando o espírito do leitor para a grande batalha que será travada em alto-mar.

Mais de uma centena de páginas antecedem a apresentação do grande capitão Ahab. Além disso, somente alguns capítulos depois de sua aparição é que a tripulação, e também os leitores, saberemos que o baleeiro Pequod foi equipado especialmente para uma perseguição a Moby Dick, e não para uma caçada rotineira a quaisquer espécies de baleia.

Dessa maneira, Melville vai enredando o leitor de tal forma em sua trama narrativa que, como os marinheiros recrutados pelo obstinado Ahab, já não se consegue desembarcar do navio. Passa-se a fazer parte dessa comunidade de baleeiros solitários que percorrem os mares por três anos, em busca desse monstro sagrado, sabendo-se, de antemão, que a essa missão estria fadada ao fracasso.

Mais um exemplo desse processo gradual de construção narrativa, que parte do geral até chegar no específico, pode ser verificado no capítulo intitulado “A brancura da baleia”. Nele o narrador discorre sobre o branco em suas diversas manifestações, passando pela delicadeza da camélia e das pérolas, pela coragem do destemido corcel branco, pela inocência das noivas em suas vestes nupciais – até chegar ao terror que aparições encobertas pela alvura dos fantasmas podem provocar, para sintetizar que, Moby Dick, o cachalote branco representava simbolicamente todas essas manifestações da brancura. Se, por um lado, o branco é apresentado neste capítulo como símbolo de pureza, da inocência e do poder divino; em contrapartida, simboliza também a palidez da morte e o horror das aparições sobrenaturais. É o vazio que tudo esconde.

O narrador Ishmael desenvolve reflexões em torno dos mistérios que o circundam ao entrar em contato com esse vazio, representado por Moby Dick, e empenha-se em entendê-lo por meio de questionamentos que não passam apenas pela razão, mas também pela sua fé, suas emoções e dúvidas. Por outro lado, o capitão Ahab ataca esse vazio e seu desejo é destruí-lo, ainda que assim acabe levando consigo toda tripulação ao encontro da morte.

Quando escreveu Moby Dick, Melville estava longe de saber que sua obra se tornaria um clássico, mas as impressões que Jorge Luis Borges apresenta dessa obra confirmam minhas sensações: esta é uma obra que vale a pena ser lida e (re) lida como um romance infinito. Escreve o escritor argentino: “No inverno de 1851, Melville publicou Moby Dick, o romance infinito que determinou sua glória. Página a página, a narrativa se engrandece até usurpar o tamanho do cosmos: no início, o leitor pode supor que seu tema é a vida miserável dos arpoadores de baleias; depois, que o tema é a loucura do capitão Ahab, ávido por perseguir e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia e Ahab e a perseguição que fatiga os oceanos do planeta são símbolos e espelhos do Universo.”

 

 

*Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda no Departamento de Estudos Estudos Portugueses, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É escritora e autora de obras didáticas e livros destinados à formação de professores. Mestre em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB-USP e Bacharel em Letras pela mesma instituição, escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

Conheça mais sobre a autora

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Lenina Pomeranz, professora livre docente associada do Departamento de Economia da FEA – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP acaba de lançar  Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo. Sua pesquisa sobre o processo de transformação sistêmica da Rússia, teve início com o acompanhamento da perestroika, como a primeira pesquisadora a implementar um programa de cooperação entre o Instituto da América Latina da Academia de Ciências da URSS e a USP. Ela, que fez seu doutoramento no Instituto Plejanov de Moscou, de Planejamento da Economia Nacional e pós doutoramento na Boston University, com bolsa Fulbright fala, nesta entrevista ao Blog da Ateliê, sobre seu novo livro:

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Neste ano em que se comemoram 200 anos de Marx, qual o legado deste autor e do socialismo soviético para o mundo de hoje?

Lenina Pomeranz: A resposta a esta pergunta exige, em primeiro lugar, a divisão dela em duas. A relação entre o legado de Marx e o do socialismo soviético é motivo de ampla discussão entre marxistas e pós marxistas, parte dos quais não reconhece o sistema soviético como socialista. Além disso, a contribuição de Marx, no seu 200º aniversário transcende o socialismo soviético, não obstante façam parte do legado marxista as preocupações e os escritos sobre a Rússia, nos anos finais da década de 1880. São exatamente estes escritos, relativos aos caminhos alternativos possíveis para a revolução russa, derivados da existência da exploração comunitária da agricultura – característica própria da Rússia à época – que constituem um bom exemplo de como os fundamentos de sua teoria podem e devem ser aplicados em diferentes contextos e situações históricas do sistema.  Acredito que este seja o seu grande legado.

Quanto ao legado do socialismo soviético, está no aprendizado que oferece uma  avaliação dos acertos e erros incorridos na tentativa de construção de um sistema alternativo ao capitalismo dominante. Ambos, acertos e erros, foram muitos e esta avaliação, mesmo restringida pelo curto espaço do tempo histórico que separa os dias de hoje da data de sua extinção, é plena de ensinamentos.

 

Seu livro fala de sua experiência na Rússia em um momento de profundas mudanças históricas. Pessoalmente, o que mais lhe marcou nessa experiência?

LP: Marcou-me profundamente o processo pelo qual acabou se dando o desmanche da URSS. A esperança de um socialismo de face humana, bandeira da perestroika , acabou por desfazer-se,  frente à realidade social  em que este socialismo deveria ser implantado.

 

Como foi ser pesquisadora do tema e viver seu “objeto de estudo” na prática?

LP: Foi muito bom, porque esta vivência tornou possível sentir o clima da época, a explosão da participação popular nas ruas, derivada da glasnost – a democratização política, acompanhar as contradições de interesses e os conflitos que permearam o processo de transformação iniciado com a perestroika, assim como, posteriormente,  o aguçamento dessas contradições e conflitos que levaram ao fim da URSS.

 

É possível falar em um legado do socialismo soviético ao capitalismo russo? Se sim, quais são os ecos do primeiro no segundo?  Ou: há rastros do primeiro no segundo?

LP: É possível sim, embora os fundamentos de ambos os sistemas sejam completamente distintos. Exatamente para entender as heranças culturais do passado existentes no novo capitalismo russo, busquei estruturar a minha pesquisa e o livro dela resultante, em torno dos traços culturais básicos formados ao longo da história russa.  Como rastros do socialismo soviético, já existentes antes mesmo dele, dois são proeminentes: o paternalismo e o autoritarismo. No âmbito do paternalismo, pode se incluir a preocupação com a manutenção, ainda que restrita, de alguns benefícios do sistema de bem estar social existentes no sistema soviético.

 

Na apresentação do livro, a senhora escreve: “Afirmar que entendi seria prepotência; mas procurei fazê-lo. Dadas as próprias necessidades de acompanhar a construção de um novo sistema, tanto no plano econômico quanto no plano político, ou seja o como, durante alguns anos releguei a segundo plano a análise do funcionamento do sistema soviético, o porquê.” Hoje, o que se pode depreender dessa análise do porquê?

LP: Logo depois da dissolução da URSS, surgiram inúmeras análises sobre esse porquê, apontando para fatores que estiveram presentes e marcaram a existência deste país. A minha contribuição ao debate em torno dessas análises do  porquê  está em sublinhar alguns elementos dessa experiência, que julgo devam ser considerados no debate em torno do tema, ressaltando o seu caráter controverso e as limitações impostas pelo limitado tempo histórico desde a dissolução da URSS. Resumindo, estes elementos referem-se: i) ao quadro de referências em que se deu a revolução de outubro de 1917: a participação da Rússia na 1ª. Guerra Mundial e suas consequências sobre a vida da população, inclusive seus anseios pela paz; a não realização da esperada revolução mundial; a existência de forte tradição revolucionária contra o czarismo; finalmente, a construção do socialismo em um único país; ii) às condições nas quais se deu a evolução do sistema: a Rússia era um país relativamente atrasado em comparação com os países econômica e politicamente mais avançados, o que levou à adoção de uma estratégia de crescimento centrado na industrialização; não havia experiências anteriores, nem indicações teóricas sobre como construir o novo sistema, o que, por sua vez,  levou à adoção pragmática de alternativas até finalmente se consolidar no modelo formado a partir dos anos 1930, sob a liderança de Stalin; iii) ao stalinismo e as marcas positivas e negativas por ele deixadas; iv) ao debate sobre as possibilidades de  reforma do sistema, introduzido pelo insucesso da perestroika.

 

O que se pode dizer do sistema russo hoje, cem nos depois da revolução de 1917?

LP: Acredito que a melhor resposta a esta pergunta será fazer uma nova pergunta: teria a revolução russa interrompido um caminho no sentido do desenvolvimento capitalista da Rússia? Em outros termos, qual teria sido o perfil do capitalismo russo se o seu desenvolvimento não tivesse sido interrompido pela revolução de outubro de 1917 e a construção do sistema socialista soviético, que marcou significativamente o século XX? Acredito que uma resposta  a estas perguntas depende de um aprofundada análise das condições históricas que determinaram a própria eclosão da revolução.

Conheça a obra Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo.

 

 

Literatura ENEM 2018

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é uma prova que exige preparação e estudos, pois abrange todos os assuntos discutidos ao longo dos três anos de ensino médio.
Um bom resultado na prova de linguagens e literatura do ENEM é fundamental para quem pretende uma vaga na área de ciências humanas.

Ao contrário do que acontece nos vestibulares, o ENEM não divulga uma lista de livros e exige a leitura de obras específicas, porém, algumas questões sempre abordam os clássicos da literatura, principalmente da literatura brasileira. Para conseguir responder as questões, o participante precisa interpretar os trechos disponibilizados.

Pensando nisso, preparamos uma lista com alguns dos principais clássicos da literatura.  As edições da Ateliê Editorial possuem notas e comentários que ajudam na interpretação e entendimento do enredo.

Lista de livros do ENEM 2018

Iracema, de José de Alencar

Iracema, de José de AlencarEsta obra, tida como uma das mais belas da literatura brasileira, conta a história de amor entre uma índia tabajara e um guerreiro português. O enredo é uma alegoria da colonização do país, e a protagonista simboliza a união entre o homem e a natureza. Embora seja escrito em prosa, o romance revela a enorme identidade de José de Alencar com a poesia romântica. O estudo introdutório de Paulo Franchetti, professor titular da Unicamp, aborda a gênese do texto alencariano e sua recepção crítica.

Apresentação: Paulo Franchetti (Unicamp)
Notas: Leila Guenther
Ilustrações: Mônica Leite
De R$ 30,50 por R$ 21,35

 

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Dom Casmurro, de Machado de Assis Ciúme, incertezas, ironias. No relato que o narrador-protagonista Bentinho faz da própria vida, o que o leitor encontra é um discurso ambíguo, a partir do qual nada pode concluir. A verdade estável que o personagem busca sobre seu grande amor, a falecida Capitu, jamais é alcançada. Esse traço narrativo é a marca registrada de Dom Casmurro, um dos romances brasileiros mais traduzidos para outros idiomas.

Apresentação: Paulo Franchetti
Notas e Comentários: Leila Guenther
Ilustrações: Hélio Cabral
De R$ 32,00 por R$ 22,00

 

 

Sertões, Os – Campanha de Canudos, de Euclides da Cunha

Sertões, Os – Campanha de Canudos, de Euclides da Cunha

Esta 5a. edição comentada de Os Sertões foi revista e ampliada e, até hoje, é a mais completa do clássico de Euclides da Cunha. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. Originalmente publicada em 2001, é a primeira edição com minucioso e inédito índice onomástico de lugares e pessoas; acurada cronologia da vida e obra do autor; vinte e quatro páginas de iconografia, com informações desconhecidas sobre o assunto; e prefácio elucidativo do organizador, Prof. Leopoldo Bernucci, que aborda o problema das diferentes linguagens de Os Sertões e de suas qualidades artísticas.

Edição, Prefácio, Cronologia, Notas e Índices: Leopoldo Bernucci
Iconografia: Leopoldo Bernucci
Coedição: SESI-SP editora
De R$120,00 Por R$90,00

 

O Cortiço, de Aluísio Azevedo

O Cortiço, de Aluísio Azevedo

Se O Cortiço é dos romances mais contundentes da literatura brasileira, este volume possui atributos que o convertem na melhor edição do clássico de Aluísio Azevedo. Além de texto estabelecido conforme a última edição em vida do autor, contém iconografia histórica e notas de rodapé por Leila Guenther. O ensaio de apresentação foi escrito por Paulo Franchetti, que, revisando noções consagradas, oferece argumentos para uma nova leitura do romance.

Prefácio: Paulo Franchetti
Notas: Leila Guenther
Ilustrações: Carlos Clémen
De R$33,50 Por R$23,45

 

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Após a morte, Brás Cubas decide contar a estória de seus amores e sua classe. Apesar desse mote fantasioso, o primeiro grande livro de Machado de Assis é um retrato realista do Segundo Reinado brasileiro. De maneira crítica e bem-humorada, o defunto conversa com o leitor para narrar casos de adultério e tramas políticas da elite do período. Além de um ensaio estimulante sobre o texto machadiano, o professor Antônio Medina Rodrigues preparou mais de 500 notas que explicam a obra e seu contexto.

Prefácio e Notas: Antônio Medina Rodrigues (USP)
Ilustrações: Dirceu Marins
De R$30,00 por: R$21,00

 

 

Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida

Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida

Neste dinâmico romance de costumes, Manuel Antônio de Almeida registra com humor as atitudes e tradições da sociedade carioca em meados do século XIX. O atrapalhado protagonista Leonardinho figura, ao lado de Macunaíma, na galeria dos mais representativos anti-heróis de nossa literatura. O professor Mamede Jarouche, da Universidade de São Paulo, assina as notas explicativas e oferece um estudo polêmico, com documentação inédita sobre o autor e a obra. As ilustrações são de Marcelo Cipis.

Prefácio e Notas: Mamede M. Jarouche (USP)
Ilustrações: Marcelo Cipis
R$34,40 R$24,08

 

 

DATAS DO ENEM 2018

21 de Março – Publicação do Edital;
7 a 18 de Maio – Inscrições do Enem 2018;
4 e 11 de Novembro – Aplicação da provas.
Veja o Cronograma Completo no site oficial do Enem 2018.

O que é importante saber sobre Literatura

Além da leitura dos clássicos da literatura brasileira é importante estudar o seguinte:

    • Movimentos literários — barroco, quinhentismo, modernismo, naturalismo/ realismo;
    • Figuras de linguagem;
    • Poesias concretas;
    • Literatura contemporânea.

 

Clássicos não saem de moda

Por Renata de Albuquerque*

O que é um livro clássico? Aquele que você foi obrigado a ler na escola, porque ia cair no vestibular, quando ainda não tinha maturidade nem experiência de leitura suficientes para entender a razão da importância daquela obra?

Clássicos são muito mais do que a obrigação de leitura escolar. São livros que conseguem, pela genialidade do autor, ressignificarem-se ao longo do tempo, falando ao leitor de cada época de maneira diferente – mas não menos impactante. É como se ele não se esgotasse jamais, como se mostrasse faces diferentes a cada leitura, como se permitisse ser redescoberto pelo mesmo leitor inúmeras vezes.

“Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”, afirma Ítalo Calvino, em seu Por que ler os clássicos?.

Por isso, clássicos não são um assunto apenas de quem vai prestar vestibular. Os amantes da literatura voltam a eles de tempos em tempos, para beber de sua fonte inesgotável.

Um exemplo interessante é a interpretação de Dom Casmurro. Até 1960, quando Helen Caldwell lançou O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, ninguém colocava em dúvida a traição de Capitu. Depois do lançamento do livro – uma leitura feminista feita sobre bases teóricas então muito recentes – ninguém mais consegue ler o livro sem duvidar dessa traição. E é por isso que se diz que a discussão “traiu ou não traiu” é secundária. O primordial é a genialidade de Machado de Assis ao escrever essa obra prima, que é capaz de tomar outros rumos, ganhar novos significados, tornar-se diferentes metáforas, a depender do leitor que a relê.

Muitas vezes, a mesma pessoa lê o mesmo livro de formas diferentes. Não somos fixos, nos transformamos diariamente, evoluímos, mudamos nossa maneira de pensar. E, quando isso acontece,  somos capazes de ler de maneira diferente o mesmo livro a cada releitura.

Por isso, a Ateliê está voltando aos Clássicos. A editora criou uma seleção especial de títulos que têm a capacidade de instigar e provocar o leitor para muito além daquilo que se explicita em uma primeira leitura. Veja alguns exemplos:

 

 

 

Um Lance de Dados – Livro inovador que traz na poesia de Stéphane Mallarmé elementos visuais e gráficos até então quase desconhecidos para o público. Foi uma das inspirações da Poesia Concreta no Brasil.

 

Memórias de Um Sargento de Milícias – Outro clássico radicalmente inovador, que motivou Antonio Candido a escrever um ensaio que se tornou um clássico dos estudos literários: “Dialética da Malandragem”

Epigramas – Se hoje em dia o Twitter desafia o internauta a escrever em poucos caracteres, Marco Valério Marcial, ainda na Roma Antiga, já produzia uma poesia curta, objetiva carregada de ironia.

 

 

Electra – Eurípedes escreveu uma peça de teatro clássica que serviu de base para a construção de teorias freudianas que ajudam, até hoje, a entender a psique humana.

 

 

 

Conheça outros títulos (com desconto por tempo limitado)

 

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Realidades e Ficções na Trama Fotográfica”: uma resenha

Por Carina M. F. Pedro*

 

A 5ª edição revista do livro “Realidades e Ficções na Trama Fotográfica” reúne textos adaptados de palestras proferidas nos anos noventa pelo fotógrafo e pesquisador Boris Kossoy. Sua leitura proporciona diversas reflexões sobre a fotografia e sua história, os processos que estão presentes na sua produção, a sua relação com a construção da memória e da imagem do Brasil como nação, assim como a importância de se preservar em acervos as imagens captadas pelos fotógrafos ao longo de décadas, a fim de servirem como fontes de pesquisa sobre uma época.

Na primeira parte do livro, “Construção e Desmontagem do Signo Fotográfico”, Kossoy apresenta os elementos que constituem a imagem fotográfica. Como “índice” a fotografia é uma prova que o objeto/assunto tangível ou intangível existiu de fato. Como “ícone”, por conta dos seus aspectos tecnológicos, o registro fotográfico é a comprovação documental da aparência e da semelhança que o objeto/assunto tem com a imagem. Apesar disso, a fotografia não deixa de ser um produto elaborado por meio de um processo criativo, no caso, do fotógrafo, que tem o seu próprio repertório técnico, estético e cultural.

O autor também retoma os conceitos de primeira e segunda realidades, de realidade interior e exterior. A primeira realidade é a história particular do objeto/assunto independente do registro fotográfico. O momento em que esse registro é feito também possui uma história que não está visível na fotografia, entendida como realidade interior. A segunda realidade é o objeto/assunto contido nos limites bidimensionais da fotografia, em dado espaço e tempo, que não se modificará mais. Temos acesso a essa realidade exterior que por ser fruto do imaginário do fotógrafo não representa necessariamente a verdade histórica, tornando-se um registro passível de muitas interpretações por parte do receptor, que também possui seus próprios filtros culturais, morais, éticos, entre outros.

Imagem de Guilherme Gaensly presente no livro

Na segunda parte do livro, “Decifrando a Realidade Interior das Imagens do Passado”, Kossoy trata do cartão-postal e de suas possibilidades como meio de correspondência e entretenimento muito utilizado na transição do século XIX para o XX. No Brasil, o autor destaca as imagens do fotógrafo Guilherme Gaensly, que registrou a cidade de São Paulo em um período de crescimento acelerado, devido à expansão da economia cafeeira. Tais registros rodaram o mundo através de cartões-postais, apresentando uma parte da cidade que propagandeava o modo de vida burguês das elites paulistas. Nota-se, assim, uma ausência de fotos de bairros operários da época e raros registros do comércio popular, alguns deles feitos pelo italiano Vicenzo Pastore.

Na sequência, são abordados outros exemplos de construção da imagem do país, como os retratos do imperador D. Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina, feitos em cenários no interior do estúdio, onde a colocação de uma vegetação abundante pretendia comunicar a existência de uma “civilização nos trópicos”. Ainda sobre a construção dessa imagem de país civilizado, o autor resgata a história do Álbum de vues do Brésil, editado pelo Barão do Rio Branco, constituído por noventa e quatro imagens, sendo parte delas reproduções de fotografias e outra parte de desenhos litografados a partir de fotografias. Entre as imagens selecionadas para representar o Império do Brasil, nota-se a predileção pelas paisagens urbanas e naturais, com pouca presença humana, tampouco de índios e negros.

A terceira e última parte, que dá nome ao livro, é um alerta para questão da preservação do patrimônio fotográfico, que proporciona descobertas e inibe o esquecimento de períodos importantes da história. Outro ponto relevante diz respeito à própria interpretação desse tipo de documento, que não será neutra, visto que o historiador também possui suas concepções ideológicas, preconceitos e interesses, sendo preciso um esforço intelectual para compreender a realidade própria do objeto/assunto registrado, assim como da realidade que o envolvia no tempo e no espaço. Por fim, o autor compartilha uma constatação inquietante para os pesquisadores, a de uma realidade sintética, gerada por computação gráfica. Uma realidade que pode nunca ter existido, considerando as infindáveis condições de manipulação eletrônica das imagens, as já existentes e as que estão por vir.

*Historiadora, designer de interiores e mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Conheça outras obras de Boris Kossoy

A leitura nas lembranças de infância de Marcel Proust

Maria Schtine Viana*

Sabe-se que a memória, tanto voluntária como involuntária, permeia toda  a criação literária do escritor francês Marcel Proust (1871-1922). Confinado em um quarto, quase sem contato com o mundo exterior, o conjunto de romances que recebeu o título geral  de Em busca do tempo perdido foi escrito a partir de suas recordações, como se a vida só tivesse sido vivida para ser posteriormente escrita.

São também fragmentos da memória de infância que Marcel Proust utiliza para escrever o ensaio Sobre a leitura, em 1906, três anos antes de dar início à realização da grande obra que o imortalizaria como romancista. Pode-se afirmar, então, que nesse ensaio já fica evidente a importância das recordações como base seminal de toda obra literária proustiana, escrita posteriormente.

O texto foi produzido originalmente como prefácio para uma das conferências proferidas pelo ensaísta inglês John Ruskin, em 1864, quando da criação da Biblioteca do Instituto de Rusholme, reunidas em livro intitulado Sésamo e lírios, obra traduzida por Marcel Proust. Isso talvez explique o teor bastante ufanista e didático do texto de Ruskin, que não por acaso usa a expressão “Abre-te Sésamo”, palavras mágicas utilizadas pelas personagens do conto Ali-bá-bá e os quarenta ladrões para abrir a gruta onde se escondiam preciosos tesouros, como uma analogia à importância da leitura na formação de crianças e jovens. A leitura seria, então, uma espécie de “Abre-te Sésamo” por meio do qual abrir-se-ia uma passagem secreta, que daria acesso a tesouros ainda mais valiosos que o ouro e a prata.

O escritor Marcel Proust

Portanto, faz todo sentido que para escrever seu prefácio Marcel Proust busque em suas lembranças de infância como leitor elementos não apenas para apresentar as ideias de Ruskin, mas para, em certa medida, debatê-las. As recordações de um dia de férias, desfrutado na casa dos tios-avós, rememoradas vinte anos depois, são o ponto de partida das reflexões proustianas. Por meio da memória, o escritor não apenas narra os fatos ocorridos, como também descreve com precisão três situações que mostram o menino que fora um dia a atuar como leitor.

Chamaremos de primeiro ato de leitura aquele que tem como cenário a sala de jantar. Cerca de duas horas antes do meio-dia, o menino Proust regozija-se com a ideia de ter para si como companhia durante a leitura apenas os objetos que compõem a mesa e como barulho somente o acalentador ritmo pendular do relógio. Alegria que dura pouco, os coadjuvantes entram em cena, quer seja a exigir uma resposta curta, como a dada à cozinheira; quer seja para perturbar com burburinhos o silêncio que reinava. Como se não bastasse, os que voltam mais cedo do passeio determinam que o horário da refeição, prevista para o meio-dia, fosse antecipado, obrigando o leitor a fechar o livro.

O segundo ato de leitura ocorre logo depois do almoço. O cenário agora é o quarto, espaço privado por excelência, para onde nossos olhos leitores são conduzidos na esperança ver o menino Marcel finalmente degustar as páginas que leva consigo. Todavia nada nos é revelado sobre o volume que tem nas mãos. Vários parágrafos são dedicados à descrição detalhada do ambiente, tendo como ponto de partida o desejo de fechar uma janela para ter mais privacidade. Além da minuciosa descrição desse quarto da infância, segue-se uma longa reflexão, bem ao estilo proustiano, sobre a importância do quarto, não deste quarto, onde poderíamos vê-lo a ler, mas outro, o imaginado, desprovido de intimidade, onde tudo inspiraria a criação.

Podemos chamar de terceiro ato de leitura aquele que acontece ao cair da tarde. O cenário agora é o parque, onde o pequeno leitor encontra refúgio em uma alameda. Distante de todos, nesse lugar aprazível, onde até a voz daqueles que gritam seu nome parece não conseguir alcançá-lo, a fruição literária poderia finalmente ocorrer. Todavia nossa atenção é levada habilmente para um outro tempo e lugar, de novo impera a imagem do quarto. Espaço não só de leitura, mas também de insônia. Diga-se de passagem, a dificuldade de dormir também é tema recorrente na literatura proustiana. Ali, e não na cena rememorada anteriormente, ao chegar ao fim da leitura de um romance, Proust nos apresenta algumas reflexões sobre a leitura propriamente dita, muito embora ainda não saibamos o título do livro que tanto o absorvera durante aquele longínquo dia de férias.

Portanto, todas as evocações da memória, inclusive as reflexões decorrentes dessas lembranças, que por sua vez também são reminiscências, são utilizadas para contestar a ideia geral de que a leitura teria um papel fundamental na vida das pessoas, teoria postulada por Ruskin. Assim sendo, as cenas de tentativa de leitura descritas durante um dia de férias foram usadas para demonstrar não a importância da leitura na formação do caráter, como defendido pelo crítico inglês, mas o quanto a encenação do ato de ler foi usado como estratégia para afastar o menino leitor que fora das experiências reais, que, portanto, deixaram de ser vividas. A angústia da busca pelo tempo perdido aqui já é latente.

O livro “Proust, Poeta e Psicanalista” analisa clássicos como “Em Busca do Tempo Perdido”

Se para Ruskin a leitura seria uma espécie de conversação com homens mais sábios do que poderíamos encontrar no mundo real, todo jogo de imagens criado por Proust quer justamente nos mostrar que a leitura o afastou do contato real com as pessoas amadas e que o trabalho do leitor começa quando se chega ao fim de uma obra. Nesse sentido, o que difere essencialmente o livro de um amigo, não é o fato de o livro conter muita ou nenhuma sabedoria, mas a maneira como cada leitor recebe e processa o texto lido a partir das próprias experiências de vida.

A grande maestria de Proust ao construir seu ensaio está justamente em nos conduzir como leitores, alimentando nossa curiosidade sobre o que afinal está o garoto a ler. O escritor nos faz espreitar a personagem por ele criado a partir de lembranças reais, em diferentes cenários, e adia, propositalmente, essa revelação. Portanto, não apenas o ato de ler é instaurado como uma espécie de performance nesse ensaio-prefácio, como habilmente o autor nos faz participar dessa espécie de jogo cênico, no qual não somos apenas leitores, mas também coadjuvantes, que durante a encenação tentam descobrir o que a personagem tentava avidamente ler.

A revelação só nos é dada depois das inúmeras encenações da tentativa do ato de leitura. Além disso, a terminar o livro, que na verdade fora um pretexto para afastá-lo das situações socias reais, constata ele ter sido vítima de uma armadilha, pois, com exceção de uma mera frase, que o fizera realmente ter uma espécie de iluminação, todo o resto do livro O capitão fracasso, de Théophile Gautier, não passava de um acúmulo de descrições chatas e irrelevantes.

William Shakespeare

O exigente leitor não esperava apenas uma história, mas sim que o grande sábio romântico lhe revelasse o que deveria pensar sobre outros escritores, como Shakespeare, Sófocles, Silvio Pellico ou Eurípides. Além do mais, queria ele que o autor lhe concedesse uma chave que pudesse ajudá-lo não apenas a compreender o mundo literário, mas também a tomar decisões práticas no mundo real.

Ao término do texto ficamos nós também à espera de uma resposta sobre para que serve realmente a leitura. Resposta que tampouco Proust realmente nos oferece. Mas por certo ao descrever essas situações de encenação do ato de leitura, na tentativa de provar que a leitura não substitui a experiência de vida propriamente dita, mas pode, como uma espécie de estimulante tirar alguns espíritos preguiçosos do estado de letargia, provocou em mim, não apenas profundas reflexões, como suscitou algumas memórias da leitora voraz que fui quando menina. Isso comprova uma das hipóteses defendidas neste ensaio-prefácio pelo escritor francês: a leitura é fundamental justamente porque o trabalho reflexivo realmente começa quando fechamos o livro.

Conheça mais sobre a obra de Marcel Proust

 

*Nasceu em Carangola, Minas Gerais. Viveu alguns anos de sua juventude em Belo Horizonte para estudar Artes Cênicas. Depois, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou durante muitos anos como editora. Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda no Departamento de Estudos Estudos Portugueses, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

Conheça mais sobre a obra de Maria Schtine Viana 

Ainda há muito a ser feito em termos de economia da cultura

“Política Cultural e Economia da Cultura” reúne textos do sociólogo José Carlos Durand, escritos entre 1995 e 2010. Na obra, o autor discute a presença do Estado no domínio cultural, o profissionalismo na gestão, o patrocínio privado no financiamento de projetos, a crítica de arte e o papel estratégico das premiações, a necessidade de estatísticas e a importância da economia da cultura como disciplina que custa a se implantar no país. A seguir, ele fala ao Blog Ateliê sobre o tema da política cultural:

Seu livro traz textos entre 1995 e 2010. Nesses 15 anos, o que mudou na política cultural do Brasil, em sua avaliação?

José Carlos Durand: Cultura foi elevada ao nível de ministério, por Sarney, e logo em seguida dissolvida por Collor, com ódio dos intelectuais e artistas que o detestavam.  Sob o governo FHC, em 1995, aperfeiçoa-se e implanta-se um programa de incentivos fiscais logo alardeado como salvação da lavoura para um um setor tradicionalmente insignificante em orçamento.  A exaltação do neoliberalismo garante o clima de época necessário a abençoar a parceria público-privada implícita nos incentivos. A partir de 2002, com Lula, o setor é atingido por outra inflexão, agora com prioridade às culturas populares e ao revigoramento do ministério: concursos para recrutamento de quadros, transferência de unidades para Brasília, formação de colegiados para ajudar a gerir o MinC, etc. A verba total aumenta bastante, em valor absoluto e relativo.  Em estados e municípios importantes (ou nem tanto) começam a aparecer secretarias de cultura, apartadas da gestão da educação ou do turismo. Política cultural emerge, e se mantém por um tempo, como assunto de imprensa, tema de livros e revistas, cursos e conferências.  Aliás, há um cuidado conceitual no estudo de políticas públicas, não importa o setor. Cabe sempre distinguir, do micro ao macro, entre projetos, programas e, por fim, políticas culturais.  Na verdade, não distinguir apropriadamente os três níveis já postular, como início de conversa, que tal governo “não tem” política cultural é, em si, sinal de superficialidade e da pouca disposição em conhecer o que acontece por dentro da burocracia, no jogo entre política e administração.  Tão simplório quanto querer entender uma obra ignorando as relações entre o artista e o conjunto dos intermediários que ajudam a tornar seu trabalho socialmente visível e valorizado.

Vivenciei essa fase inteira como sociólogo de uma escola de administração pública e de empresas, a EAESP/FGV. Felizmente, esta sempre foi muito liberal em acolher propostas de pesquisa e de cursos em temas novos, desde que avaliadas e aprovadas por órgãos internos.  Assim foi com meus estudos em sociologia cultural, em toda liberdade e atrevimento de autodidata, acerca de artes visuais, arquitetura, moda, entre outros.  A FGV inclusive facilitou-me um pós-doutorado em Paris, onde pude conhecer de perto o trabalho de Pierre Bourdieu e sua equipe. Para quem não sabe, ele foi quem mais se destacou no último meio século, como analista das três lógicas a que a dinâmica cultural obedece, na moderna sociedade capitalista: a cultura de elite, a cultura industrial (ou de massa) e a cultura popular. Acontece que em cada lógica o dinheiro muda de sentido, e com ele, as práticas e a consciência dos agentes: ele é ritualmente negado como fundamento da prática artística na primeira, afirmado sem problema na segunda e ignorado na terceira por razões ancestrais que precedem o mercado e formação das elites.

Pierre Bourdieu

A moral da história é que, diante de tanta contradição, não pode haver política cultural ao mesmo tempo democrática e una, harmonicamente centrada em princípios efetivamente partilhados de valor estético, eficiência e justiça distributiva. Uma retórica ingênua e conciliadora poderia afirmar que o interesse comum e as responsabilidades do estado estão acima disso, e aí se fecha o discurso oficial. Mas o papel aceita tudo, embora a verdade muita vez passe ao largo. A experiência internacional em política de cultura aponta que ela surge para apoiar e consolidar a cultura de elite, construindo teatros, salas de concerto e museus, dotando verbas para mostras e apresentações e ampliação de acervos.  Lembra também que a modernidade, o desenvolvimento industrial e tecnológico e a disseminação do ensino ao longo do séc. XIX vão formando novos públicos, alimentando a reprodução de obras, até chegar às indústrias culturais globalizadas que temos hoje em dia. Acrescento que jamais ocupei qualquer posição formal em administração de cultura; nunca precisei falar ou escrever como ministro, secretário ou assessor disso ou aquilo; nem jamais procurei me esconder atrás de qualquer jargão científico. O resultado é que agora continuo tão à vontade como quando escrevi os artigos.

Quase uma década depois do texto mais recente compilado no livro, que aprendizado aquele período trouxe, em termos de política cultural? 

JCD: Essa questão, por excelência, deveria ser dirigida a pessoas que leram o livro com algum interesse e conheceram o meio cultural paulistano e carioca a ponto de lembrar as questões que nele se discutiam com mais frequência.   Não eram muitas, nem atraentes, em geral eram a respeito de leis de incentivo, como operá-las, como justificar sua razão de ser, como criticar suas restrições. Como autor, sou obrigado a confessar que muitas vezes agi com deliberado “espírito de porco”, como se as coisas que meus textos propunham estivessem de fato ao alcance do entendimento e da vontade do público ao qual implícita ou explicitamente eles se destinavam: gestores de cultura, mercadólogos, economistas, empresários patrocinadores, professores, artistas, etc. Foi minha forma de ser instigante, apontando tópicos que eram e que ainda continuam impensáveis para muita gente.

Por exemplo: incentivos fiscais. As quantias que eles mobilizaram para a cultura eram uma gota d’agua perto do oceano das cifras que, há mais tempo, no Brasil, vinham sendo atraídas para desenvolvimento regional, reflorestamento e outras tantas. O sucesso dos incentivos media-se pela habituação do contribuinte com a atividade incentivada de modo que ele continuasse aplicando nela mesmo depois de suprimida a vantagem fiscal que o governo oferecia. Ao comentar a questão entre gestores de cultura, a repercussão era quase nula, pois os obrigaria a pensar muito além do que estavam acostumados.

Quando se discutia a sequência da tramitação de um projeto aceito na área do mecenato, eram comuns queixas ou insinuações de favoritismos, reais ou presumidos, incompetência de avaliadores em linguagens estéticas em que deviam decidir, etc.

Nesses casos eu comentava: na mesma Esplanada dos Ministérios em que alguns comitês minúsculos e pouco experientes do MinC tentam discutir uma distribuição justa e merecida das pequenas verbas captadas pela Lei Rouanet há um outro setor em que o governo federal brasileiro gasta quantias muitas vezes maiores, financiando cultura com mais segurança e melhores resultados. E aí eu concluía, diante da hesitação e dos olhos em geral arregalados da maioria:  é na CAPES, entidade ligada ao MEC que avalia, aos milhares, projetos científicos encaminhados pelas universidades. Nunca houve, ao que me lembre, ninguém que levasse adiante o interesse em comparar o financiamento às artes e o financiamento à ciência, como se fossem dois mundos irreversivelmente distantes e incomunicáveis, e não simples alternativas de avaliar iniciativas de pessoas e grupos, a ser avaliadas em sua clareza, sua criatividade, sua viabilidade, com muita coisa em comum.

Outro ponto em que sempre insisti foi na necessidade de se dar boa formação a jovens economistas brasileiros que se interessem por economia da cultura. Na vastidão de nosso sistema de pós-graduação, em que anualmente se formam várias centenas de mestres e doutores em economia, não há um único programa ou curso ancorado em economia da cultura.

Por outro lado, na Europa Ocidental, em particular, essa especialização existe com tudo a que tem direito: revistas especializadas, reuniões periódicas, nacionais ou internacionais, cursos com professores economistas com bom currículo em pesquisa, ensino e assessoria, publicação de antologias e dicionários cobrindo grande variedade de tópicos, etc.

O assunto continua merecendo a atenção do Ministério da Cultura, ou de qualquer entidade com vocação e recursos para trazer ao Brasil, em forma de curso para um pequeno público, um pouco da boa economia da cultura lá disponível. Fiz minha parte editando pela Ateliê o livro introdutório de boa qualidade que é A Economia da Cultura, de Françoise Benhamou, em 2007.

 

O que foi abandonado em termos de política cultural que deveria ser retomado, em sua opinião?

JCD: Vou dizer pelo que nunca foi feito:

  1. uma observação correta e sistemática a ser feita pela política cultural pública do fluxo de premiações artísticas no Brasil: exemplo: quantos concursos literários, onde, de que âmbito e com quais modalidades, meios de divulgação e número de concorrentes. O que a imprensa comenta a respeito de seus veredictos, qual o impacto na carreira do escritor. Justificação: prêmios são importantes meios de reconhecimento/atribuição de valor. Embora o órgão que promove cada um tenha autonomia a ser respeitada, o conhecimento dessa rede é fundamental na possibilidade de uma radiografia da cultura erudita (no exemplo, a ficção literária).
  2. As análises econômicas de setores culturais com potencial de fortalecimento via apoio estatal, como foi feito pelo BNDES em relação ao cinema, ao livro, ao disco etc. Foram estudos de qualidade, úteis e que merecem atualização. Idem a construção da Conta-Satélite da cultura, metodologia que permitirá aferir o valor econômico gerado pelo setor e compará-lo ao de outros países. A produção discreta de bons indicadores é pré-condição para o desenvolvimento de uma verdadeira economia da cultura, deixando de lado a ideia de que uma “economia criativa”, vazia de conteúdo, mas impregnada de charme, será instrumento algum dia um terreno útil para ajudar na tomada de decisão.
  3. Outra abordagem econômica que não se sabe se está sendo desenvolvida, é a de localizar cadeias e arranjos produtivos culturais locais, técnica para mapeamento de complementaridades produtivas e comerciais capaz de ajudar, entre outros usos, no desenho de circuitos turísticos mais ricos.

Conheça o livro “Política Cultural e Economia da Cultura”

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Leia um trecho da “Gramática Integral da Língua Portuguesa”

Esta gramática de Antônio Suárez Abreu se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

 

Amostra Gramática Integral

Carlos Cardoso

O poeta Carlos Cardoso é apontado como destaque entre os escritores da sua geração. Seu último livro, “Na Pureza do Sacrilégio” (2017), recebeu elogios de grandes críticos literários, como Silviano Santiago, que assinou o prefácio e o aproximou a Fernando Pessoa e Octavio Paz, e o acadêmico Antonio Cicero, que escreveu na orelha da obra.
“O poema perambula, mas tudo permanece intacto — eis a lição de poesia”, ressaltou Silviano Santiago ao citar o trecho de um poema de Carlos Cardoso.

Claufe Rodrigues, Carlos Cardoso e Antonio Cicero

“É um grande prazer ler poesia como a de Carlos Cardoso que, fundindo o entendimento e a imaginação, e nos levando a percorrer caminhos originais, inesperados e abertos, enriquece nossa vida. Por isso, brado: viva Na Pureza do Sacrilégio”, escreveu Antonio Cicero.

O poeta chama atenção pela sua forma singular de escrever, conforme ressalta o jornalista especializado em livros Paulo Werneck, da revista 451, ao dizer que os poemas de Carlos Cardoso representam o “surgimento de uma nova paisagem poética no país”.
— Ele tem uma poesia singular, uma poesia que se destaca daquela que está sendo produzida no Brasil hoje.

Manuel da Costa Pinto, Carlos Cardoso e Paulo Werneck

O crítico Manuel da Costa Pinto endossa a aproximação feita por Silviano Santiago, que colocou Carlos Cardoso no mesmo patamar que Fernando Pessoa, e ressalta:

— Você pode encontrar aqui e ali intersecções, pontos de contato, mas a obra de um poeta quando ele já criou uma dicção própria é independente.

O professor livre-docente da Unesp Aguinaldo José Gonçalves aponta a escrita de Carlos Cardoso atinge a “excelência poética”, além de trazer a integração entre a tradição e a modernidade.

O leitor é convidado a mergulhar no universo poético criado pelo escritor, em Na Pureza do Sacrilégio, conduzido pelas linhas de seus versos e as ilustrações gráficas da artista Lena Bergstein. O livro foi publicado com uma edição luxuosa que o torna, por si só, uma obra de arte.
Sucesso entre os críticos do Brasil, seus poemas já foram traduzidos e publicados em revistas de países da América Latina, Europa e nos EUA, além de circular na mídia nacional em veículos como Canal Curta e outros.

Conheça mais sobre Carlos Cardoso