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Ateliê Editorial faz aniversário

“Em fevereiro tem carnaval”, tem samba, tem calor e tem festa. Mas mesmo que você não goste muito do clima quente e da folia, se gostar de livros, há muitos motivos para comemorar.

Afinal, este é o mês de aniversário da Ateliê e, para comemorar, a editora colocou todo o site com desconto de 50% (desconto dado no carrinho de compras ao finalizar seu pedido, exceto pacotes, outlet, ofertas e destaques).

Criada em 1995, a editora tinha, desde o início, o objetivo de discutir a importância do livro como objeto que, para além de bonito, seja um projeto estético que possa servir da melhor maneira às palavras do autor. Por isso, todos os detalhes são levados em conta: o melhor papel, projeto gráfico, belas ilustrações, imagens tratadas com delicadeza, textos preparados e revisados com atenção.

A prova disso são edições históricas, antigas e novíssimas, que oferecem ao leitor uma experiência única com o livro.

O Mistério do Leão Rampante foi o primeiro projeto da editora. O então autor iniciante, Rodrigo Lacerda, ganhou vários prêmios, entre eles o Jabuti de 1996. Ao longo desses 25 anos, Lacerda consagrou-se como um dos mais importantes nomes da literatura brasileira.

Angu de Sangue, de Marcelino Freire, já está na terceira edição, mas desde que apareceu pela primeira vez nas prateleiras foi identificado como uma joia rara da literatura, um retrato realista e inusitado do submundo, uma coleção de contos de tirar o fôlego.

Epigramas, de Marcial, traz pequenos poemas curtos escritos em sua maioria no primeiro século da era cristã. Mas, apesar disso, seu conteúdo é bastante ousado e o projeto editorial, muito moderno. A primeira edição do livro podia ser “montada” pelo leitor, já que era composta por diversos livrinhos com os poemas do poeta romano.

Palmeirim de Inglaterra não é apenas uma novela de cavalaria. O texto, escrito por Francisco de Moraes, faz parte de um ciclo, o que por si só explica a importância da obra. Nesta edição da Ateliê, os pesquisadores Lênia Márcia Mongelli, Raúl Cesar Gouveia Fernandes e Fernando Maués realizaram um minucioso e primoroso trabalho, transcrevendo a partir de várias fontes para poder chegar a um resultado fidedigno, que interferisse minimamente no estilo original – um dos pontos altos da obra.

Livro Viva Vaia

Esta edição de Viva Vaia é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Massao Ohno foi um dos maiores editores do país, deixando sua ideia e marca que influenciou o mercado editorial independente. Este imenso trabalho gráfico pode ser acompanhado no recém-lançado livro Massao Ohno, Editor, escrito e organizado pelo crítico e professor José Armando Pereira da Silva, e projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho. 

Além do desconto direto no site, a editora ainda preparou uma seleção incrível de ofertas relâmpago, com livros surpresa em promoção. Todos os dias, títulos diferentes. Quer saber quais são? Fique de olho no site e nas redes sociais da editora.

Mas corra, porque, se fevereiro é o mês mais festivo, também é o mais curto do ano!

Massao Ohno, Editor

Massao Ohno foi um dos maiores editores do país, deixando sua ideia e marca que influenciou o mercado editorial independente. Este imenso trabalho gráfico pode ser acompanhado no livro Massao Ohno, Editor, escrito e organizado pelo pesquisador José Armando Pereira da Silva. A obra tem projeto gráfico de Gustavo Piqueira e Samia Jacintho. Para falar desse trabalho, o pesquisador conversou com o Blog da Ateliê:

Massao Ohno participou de alguma maneira da fase inicial do projeto, já que a ideia surgiu em 2004?

José Armando Pereira da Silva: Não. Massao não participou do projeto. Quando dei conta a ele da minha ideia, apenas respondeu: “Está em boas mãos”. E comecei, então, a fazer minhas pesquisas.

Após a morte de Massao Ohno, qual foi a estratégia para dar continuidade ao projeto? Houve alguma mobilização de pessoas para ajudar a concluí-lo? Como foi esse desenrolar?

JAPS: Após a morte de Massao, sugeri ao então Secretário Municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, a formação de um acervo de obras publicadas por ele na Biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Ele dirigiu minha sugestão para a Biblioteca Mário de Andrade, cuja diretora acolheu e promoveu a constituição de um acervo em contatos com autores por ele editados e familiares. Essa mobilização me fez conhecer muitas outras obras, além das que inicialmente pesquisara.

São mais de 170 capas que fazem parte de Massao Ohno, Editor. Um recorte importante e, ao mesmo tempo, trabalhoso para selecionar. Como foi o processo de catalogação, documentação e escolhas para fazerem partes do livro?

JAPS: O processo foi longo, começando por acesso ao catálogo de bibliotecas públicas e às ofertas de sebos virtuais, quando iniciei a compra de livros que julguei importantes. Fui formando minha coleção e descobrindo colecionadores que pudessem me fornecer imagens e dados de obras mais raras. A escolha de capas reproduzidas concentrou-se especialmente na primeira fase da editora, de 1960 a 1964, quando Massao estabeleceu sua marca não só na publicação de poesia, mas também de outros gêneros, como teatro, cinema e obras ligadas às tradições orientais, como o Hai-Kai. Outras reproduções ilustram autores que ele publicou nas fases seguintes de sua carreira: o retorno à atividade nos anos 1970, a parceria com editora do Rio de Janeiro nos anos 1980 e a fase final dos anos 1990.

Durante o trabalho de reunião do material para elaboração do livro, houve alguma descoberta, de algo inédito, que lhe causou surpresa?

JAPS: Várias. Como descobrir que os ensaístas e professores universitários (hoje aposentados) Roberto Schwarz e Carlos Henrique Escobar tiveram seus primeiros livros de poemas publicados por Massao em 1959. Também a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, então com 18 anos e ainda com o nome de solteira Manuela Ligeti, teve um livro de poemas em francês por ele editado.

Outra surpresa foi encontrar livros de Histórias em Quadrinhos, um deles de Sérgio Macedo, hoje um nome internacional no gênero.

Um fato importante e que até, em forma cronológica, é a participação marcante – formal e informalmente – de Massao Ohno na construção da literatura brasileira na segunda metade do século XX. Com os Novíssimos, passando pelos poetas Roberto Piva e Claudio Willer, mostrando também a elaboração dos livros de Hilda Hilst, entre outros.  Para você, Massao Ohno tinha ideia da importância do trabalho dele para a literatura contemporânea, assim como sua influência e referência na produção editorial?

Massao Ohno, em foto de Juan Esteves

JAPS: Quando Carlos Felipe Moisés e Álvaro Alves de Faria organizaram a Antologia da Geração 60, fizeram uma homenagem a Massao declarando que “sem ele a história dessa geração seria substancialmente outra”. Outra seria também a história do editor sem essa ligação, que identificou sua marca e consolidou sua política de autores. Se tomamos em conta o desdobramento das carreiras dos autores lançados nos anos 1960, o saldo é positivo e relevante. A maioria desses poetas persistiu para além da efervescência de seu tempo de iniciação. Mas naquele momento não havia a consciência disso. A história estava por se fazer no futuro.

Ao longo do trabalho de elaboração do livro, alguma percepção sua sobre a obra de Massao Ohno foi alterada? Em que sentido?

JAPS: Não foi alterada, mas fui surpreendido ao me dar conta da quantidade de obras por ele editadas, da variedade de gêneros e autores, aos quais ele deu o melhor resultado, mesmo trabalhando muitas vezes em condições heroicas.

Massao sempre foi atento aos ilustradores, pintores e desenhistas, como Wesley Duke Lee, Aldemir Martins, Millôr Fernandes, Augusto Rodrigues, entre outros.  No livro Massao Ohno, Editor você deixou em evidência e detalhada essa relação editor e ilustrador é uma das principais identidades nas obras de Massao. Poderia contar um pouco dessa relação artística-editorial que Massao Ohno teve com os seus parceiros ilustradores? 

JAPS: Com a Coleção dos Novíssimos. os projetos gráficos de Massao ganharam identidade com a parceria dos artistas plásticos Acácio Assunção, Joao Suzuki, Manabu Mabe, Cyro Del Nero e Wesley Duke Lee, que colaboraram na definição de capa, formato e suporte. Em outros títulos lançados até 1964, Tide Hellmeister se incorporou à editora, e foi o mais efetivo no papel de designer. O contato inicial de Massao com artistas plásticos se deu dos salões de arte dos pintores nipo-brasileiros no Bairro da Liberdade, organizados pelo Grupo Seibi-kai, onde encontrou um de seus primeiros parceiros, João Suzuki, além de Yoshiya Takaoka, Yuji Tamaki, Tomo Handa, Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Massao e Alina Okinaka, Tomoshige Kusuno, Kazuo Wakabayashi e Yutaka Toyota. Todos eles, em algum momento estiveram presentes nas edições de Massao. Outro artista de sua preferência foi Arcangelo Ianelli. Dele reproduziu mais de vinte obras em capas de suas edições, algumas até repetidas.

Em sua opinião, por que a questão estética (da concepção editorial do livro enquanto objeto) era tão importante para ele, em uma época na qual esse tipo de preocupação não era tão comum?

JAPS: A questão estética era fundamental para Massao. Ele está no grupo de pequenos editores independentes (uns poucos) que deram ao livro características especiais. Era meticuloso no seu trabalho. Testava imagens, fontes, formatos até chegar a um resultado satisfatório. Isso num tempo em que não se dispunha de recursos digitais. Tinha até algumas manias. Não gostava de numerar as páginas dos livros de poesia. Dizia que isso “sujava” a página. A qualidade moderna de suas edições pode ser percebida desde a lombada.

Em um tempo no qual o livro digital toma conta, rememorar a obra de Massao Ohno pode ter relevância para os novos leitores (como você mesmo lembra na dedicatória)? Como a obra de Ohno pode despertar o interesse da geração de leitores de e-books? Ou, por outra: essa nova geração ainda pode ser provocada pela ideia do livro enquanto objeto de desejo?

JAPS: Minha expectativa, além do propósito documental, é despertar em novos leitores o interesse pelo livro. A concretude de um livro sempre será objeto de desejo. Além dos temas que o interessam, o frequentador de uma livraria sempre pode ser seduzido por um título, pelo desenho de uma capa ou pelo projeto editorial bem-acabado.

Inspirado em clássico do cinema, projeto Fitzcarraldo leva o vocabulário nheengatu à Amazônia

Werner Herzog criou um espetáculo de imagens impressionante quando filmou a aventura real de Brian Sweeney Fitzgerald, cujo desejo era construir um teatro na Amazônia. Fitzcarraldo, o filme, inspirou o Projeto Fitzcarraldo, do jornalista Oliviero Pluviano, que leva música, cinema, livros e cultura  para os índios da floresta Amazônica, a bordo do barco-gaiola Gaia.

O Gaia, que navega pela Amazônia

O projeto, que começou em 2011, já visitou mais de 30 comunidades, com o apoio de leis de incentivo e de patrocinadores como a Bauducco. O Gaia foi transformado em um barco-cinema e atende a demandas das populações locais, com a entrega de insumos necessários ali. Até mesmo a seleção italiana de futebol já foi a Manaus, em 2014, com o projeto.

Em 2020, mais uma novidade desembarca do Gaia: exemplares do Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português serão doados às comunidades indígenas que ficam as beiras do Rio Arapiuns. Um calendário, ilustrado com as igrejinhas da região e com trechos do etnógrafo ítalo-brasileiro, Ermanno Stradelli, autor do dicionário, também será distribuído.

 O Nheengatu é uma variante do Tupi, falada por mais de 30 mil índios da região amazônica. É uma espécie de “língua geral”, desenvolvida pelos jesuítas entre os séculos XVI e XVII para que pudessem se comunicar com os índios. Em 1758, o Marquês de Pombal impôs o português como única língua, proibindo o uso do nheengatu e outras línguas indígenas, que entretanto, continuaram a ser faladas.

O Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português, de Ermano Stradelli, tem uma grande relevância linguística, sociológica e antropológica. Stradelli, que morou na região Amazônica, era fluente na língua geral e recolheu um vocabulário vivencial da língua nheengatu. O volume traz o nheengatu como língua dinâmica, que ainda é falada na região.

Mas, você não precisa ir até a Amazônia para conhecer essa língua indígena que resistiu aos séculos. Ele está à venda no site da Ateliê:  https://www.atelie.com.br/livro/vocabulario-portugues-nheengatu/

Ao vires isto isto vires ao vires isto

Katherine Funke*

Páginas mágicas, máginas págicas são o que se poderia esperar de um livro sobre Gertrude Stein, sim, Gertrude-rose-is-a-rose-is-a-rose-Stein, Gertrude-page-ages-Stein. Ainda mais um livro chamado Ao vires isto, título que (para olhos e ouvidos atentos), logo se espelha, multiplicado, em “isto vires, ao vires isto”, porque é um livro sobre Gertrude Stein, aquela (de ouvidos e de olhos atentos) que percebeu que As you like it, título de uma das peças de Shakespeare, abria as possibilidades de sentido para muito mais do que um significado, muito mais do que uma só combinação de sentidos.

            Livro de ensaios com vários autores organizado por um trio de pesquisadores da obra da escritora norte-americana considerada a Mãe do Modernismo, Ao vires isto (2018, 216 páginas) traz logo no título o mesmo gesto de brincar com a linguagem que marcou toda a literatura de Gertrude, desde as peças teatrais para adultos, passando pelos seus livros mais famosos – e até pelo mais complexo de todos  (Stanzas in meditations) – até os livros para crianças.

            Mas, e se não se chamasse Ao vires isto, este volume de nove ensaios ainda teria o efeito de nos fazer virar isto, isto é, de nos fazer mergulhar na leitura, como consegue, magicamente? A pergunta é inspirada no que William Shakespeare escreveu no ato II, cena II de Romeu e Julieta, sobre o que aconteceria com o perfume da rosa caso ela tivesse outro nome. Cena que, aliás – e isto ficamos sabendo por Luci Collin, neste livro – inspirou Gertrude Stein não só em sua frase mais conhecida (“Rose is a rose is a rose is a rose”), como por toda sua trajetória.

            O ensaio de Luci Collin, por sua vez, possui um efeito de centralidade ou núcleo para os demais, que ao redor dele ganham sentido, como em uma espiral. Isto porque Collin faz um breve retrospecto das relações entre Stein e Shakespeare. Esse elenco de relações de influência não só esclarece características primordiais do estilo da Mãe do Modernismo, como nos permite tentar pensar como ela pensava, olhar para as palavras com o mesmo encantamento, a mesma vontade de brincar.

            Intitulado “Uma rosa re-encarnada – Stein traduzindo Shakespeare”, o artigo de Luci Collin atravessa algumas das reflexões deixadas pela própria Gertrude em relação ao escritor inglês. Se suas vidas aconteceram separadas por três séculos, por outro lado as obras se encontram em muitos aspectos. Como, por exemplo, pelo gesto de subverter a narração linear do tempo e promover procedimentos de aceleração/retenção das ações, por exemplo, recontando uma cena muitas vezes, sem avançar.

            Para Gertrude, esta foi a base da ideia de “presente contínuo”, que a motivava a escrever sempre no presente, sempre como se a ação nunca acabasse. A também poeta e escritora paranaense Luci Collin nos apresenta a esta e a outras influências de Shakespeare ao longo da obra da escritora. Coloca em pauta, assim, as fase de sua obra e os procedimentos mais consolidados de Gertrude, como a insistência (não a repetição), a intenção de presentificação em detrimento à descrição, entre outros.

            A quem se interessa propriamente pelos procedimentos literários de Gertrude, sugiro que se comece a leitura por este artigo, e não pelo escolhido pelos editores, que trata das relações entre as obras de Duchamp e Stein. E que logo na sequência, se houver interesse mais exatamente por situar a obra de Gertrude Stein em circulação no contexto brasileiro, pule logo para o texto de Dirce Waltrick do Amarante sobre o volume infantil traduzido por ela e por Collin.

            O artigo de Dirce descreve os problemas da tradução de To Do: A Book of Alphabets and Birthays e que, gentilmente, traz a riqueza de transcrever de modo bilíngue aquilo de que fala. De lá, quem seguir o mesmo trajeto de interesses poderá querer partir para o artigo de Augusto de Campos posicionado ao final do volume, “Gertrude Stein e a melodia de timbres”. Ambos nos fazem ver e ouvir com mais nitidez algumas das badaladas dos sinos aludidas por Luci Collin, badaladas de quem já se meteu a traduzir uma das mais difíceis das modernistas.

            Com um total de nove artigos, o volume lança luzes sobre uma obra vasta, volumosa, que ainda não foi compreendida e nem mesmo completamente traduzida para o nosso português. É surpreendente, aliás, que existam nove consistentes e heterogêneos artigos como estes, convivendo no mesmo espaço-tempo de um livro, orbitando juntos como se fossem nove planetas ao redor do Sol.

Dois pares em branco

            A força de Ao vires isto é que nos faz lembrar de que (ainda) existe uma Gertrude Stein e que ela é, na verdade, muitas: não a portadora orgulhosa de uma máscara fixa, mas a caçadora das muitas possibilidades que exerceu em várias linguagens literárias. Quem tem medo de Gertrude é porque ainda não foi apresentado a alguns de seus achados mais belos, reunidos aqui neste livro por 18 mãos altamente qualificadas.

            Destaco ainda que o volume, embora sóbrio, foi editado de modo cuidadoso, em tipografia grande que promove uma leitura fluida e com as devidas referências bibliográficas apresentadas ao modo da pesquisa acadêmica. Dois pares de páginas estão em branco, como que para possibilitar anotações. Tudo isso deixa ressoando a ideia de que este não é um livro que, ao ser lido, se acabe em si mesmo. O que ele coloca em movimento, ao ser lido, não é só o que deixa ver, mas uma imensa energia em forma de sons e de sentidos. A edição traduz assim, para o próprio objeto livro, a ideia de presente contínuo da obra de Stein. Ela continua pulsando e se renovando, a cada vez que a estudamos. Ela continua, ao vires isto – esta resenha e, claro, o próprio livro.

*Katherine Funke é doutoranda e mestra em Literatura pela UFSC.

Federico Fellini, 100 anos

Em 20 de janeiro de 2020, o genial cineasta italiano Federico Fellini faria 100 anos. Artista de circo na infância, foi quadrinista, caricaturista e redator de revista. Mas foi no cinema que encontrou o caminho para expressar sua arte e arrebatar público e crítica com  seu cinema autoral. Tanto assim que virou adjetivo. Felliniano é um personagem (ou uma situação) inusitado, que carrega consigo uma estética ao mesmo tempo barroca.

Estreia no cinema em 1945, como roteirista de “Roma, Cidade Aberta”. A reflexão que Fellini propunha em suas obras é bastante densa e mostra o ser humano em toda sua fragilidade, mesmo quando o retrata no cotidiano mais prosaico: tudo parece ter uma atmosfera onírica.  

Seus primeiros filmes têm uma inspiração neorrealista, carregados de emoção, o que faz com que nós, espectadores, nos identifiquemos com eles. Em filmes como “Ginger e Fred” (1986), o desencanto toma conta do olhar, muitas vezes em narrativas de tom confessional. “A Doce Vida” (1960) imortalizou em nossas retinas uma das cenas mais icônicas do cinema, quando Anita Ekberg banha-se na Fontana Di Trevi ao lado de Marcello Mastroianni: desejo, hedonismo e lirismo andam juntos durante o passeio pela madrugada de Roma. Seu filme seguinte, “Oito e Meio” (1963), é uma profunda reflexão autobiográfica, com um lirismo quase inatingível e, ao mesmo tempo, cheio de humor.

Ao longo de sua obra, a narrativa deixa de ocupar um lugar central na obra do italiano – e é a beleza estética que assume o protagonismo. Ele dizia que a vida real não o interessava. “A fantasia é a zona erógena mais importante”, provocava. E criava cenas oníricas e líricas enquanto a Segunda Guerra ainda era uma ferida aberta na Itália dos anos 1950.

Seu último filme, “A Voz da Lua”, foi inspirado em O Poema Dos Lunáticos,  obra mais famosa do escritor italiano Ermanno Cavazzoni que é, na verdade, um romance. O clima de surrealismo retrata Ivo Salvini, um louco recém-saído de um hospício. Salvinio é interpretado por Roberto Begnini, que traz ao público o deslumbramento da novidade e a inocência ingênua do olhar de quem vê pela primeira vez o mundo (como nós o vemos diariamente). Talvez por isso, por onde passa, ele conquista a simpatia das pessoas. “A Voz da Lua” é uma grande alegoria, repleta de lirismo e sonho.

Em 1993, recebe o Oscar pelo conjunto da obra e, logo após celebrar 50 anos de casado com a atriz (e musa) Giulietta Masina, morre, aos 73 anos, em decorrência de um ataque cardíaco, deixando como legado uma das mais importantes obras cinematográficas da história.  

“Leituras Imediatas”, por Aurora Bernardini*

O livro  póstumo de Jerusa Pires Ferreira ( 1938-2019) , Leituras Imediatas (Ateliê, 2019) é o último mergulho no “Grande Texto” ao qual dedicou a maior parte de seus anos, O Cordel: Tradição e Vida.

É o “Grande painel da literatura popular em verso” que ela percorreu desde as projeções medievais do clássico Cavalaria em cordel ( sua dissertação de Mestrado – Hucitec, 1979- Edusp, 2016), até as periferias de cidades como a São Paulo, Cultura das bordas ( Ateliê, 2010), passando pelo misticismo de O livro de São Cipriano –  Uma legenda das massas ( sua tese de Livre docência – Perspectiva, 1992),  pelos Contos Russos no Sertão (Matrizes impressas do Oral- Ateliê, 2014) e etc.,  chegando a essas Leituras Imediatas ( Ateliê, 2019), que acaba de ser publicado.

Afora alguns folhetos  de cordel sobre as guerras contemporâneas, como a das Malvinas (1980) e do Golfo (1990) e outros, mais recentes,  – prova de sua atualidade — o que o livro de Jerusa acompanha é  a grande deslocação que há hoje no que se refere à recepção e à fatura desses folhetos. Os custos de produção, mesmo em edições de pequeno fôlego, as dificuldades de encontrar patrocinadores, mesmo garantindo-lhes a propaganda, leva muitos de seus autores a produzirem  para “turistas de cultura” ou sob encomenda, onde porém, com sua manobra “ arcaizante” , em vários níveis, conservam seu caráter de  oposição à literatura oficial, de contestação de valores sociais, mas não contra a lei do país.

No Programa Geral apresentado em Salvador pelo jornal Trovador, durante o II Congresso Nacional de trovadores e violeiros (1960), por exemplo, nota-se que ocorre, segundo Jerusa, o seguinte: “…mascara-se o habitual, sublima-se e tenta-se conseguir, através de um modelo de ordem hierárquica, a aprovação para uma espécie de ‘ impunidade’[…] pulsam-se anseios, problemas, posturas e expectativas de grupos sociais que não tem sido inscritos na ‘História da Cultura Brasileira’ a não ser como ‘ Folklore’.”

Infelizmente, diz Jerusa, esse termo foi assumindo a acepção corrente (norte-americana) de “cultura de massa”. Entretanto, diz Alejo Carpentier, citado por ela (p.101): “ Folclore – na América Latina, é uma palavra que deve ser pronunciada com um tom grave e fervoroso […] é preciso retornar às fontes do folclore” .

Ela mesma apresenta, nesse sentido, sua primeira conclusão:

“Tendo recolhido, recentemente, muito material para sistematizar, percebi o quanto está por fazer. Os trabalhos de mapear, recolher, registrar os produtores dessa literatura em todo o país, daquela tradicional, da efetiva nova e da circunstancial, de modo crítico e com o recurso de várias disciplinas, o convívio profundo com o tema, o conhecimento de uma retórica e de uma linguagem próprias deverá anteceder, a meu ver, os diagnósticos apressados que transformaram os estudos das chamadas culturas populares numa festa de enganos. E justamente toda uma produção oral/impressa popular, que é  uma das mais importantes e intensas manifestações culturais do Brasil, constituindo-se também em documento para a construção  de nossa condizente História Social “ (p.84)

Sua segunda conclusão já penetra tout court nos domínios do artístico. Dentro e fora da “arte popular” há alguns cordelistas que por seu estilo, por sua originalidade, por sua “ força de dizer” – por sua poética , enfim — , há tempo deveriam estar incluídos na História da Literatura Brasileira. Jerusa cita  vários, entre os  quais se destaca, indiscutivelmente, o paraibano Leandro Gomes de Barros ( 1865 -1918), segundo o próprio  Carlos Drummond de Andrade:  “o rei da poesia do sertão e do Brasil”.” Não seria a hora “ – diz Jerusa ( e dizemos nós, perpetuando sua memória) – “ de estudiosos, universitários, autores de Histórias da Literatura Brasileira, incluírem, em seus repertórios, um poeta dessa grandeza?”

* Escritora, pintora, tradutora. Possui doutorado em Letras (USP) e é professora titular da Universidade de São Paulo (USP). Departamento de Letras Orientais (DLO), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade São Paulo (USP).

Retrospectiva 2019

Final de ano sempre é tempo de retrospectiva. Pensar no que passou, nos planos que conseguimos colocar em prática, nas leituras que conseguimos concluir. Esse balanço de final de ano é sempre importante e, de alguma forma, ajuda a fazer planos para o ano que virá.

Por isso, a Ateliê hoje entra no clima de final de ano e faz sua própria retrospectiva, para que você conheça tudo o que a editora publicou em 2019 e possa fazer um balanço do que já tem e do que ainda não tem. faça sua lista de desejos!

LANÇAMENTOS

Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil

Octávio Brandão é um nome muito conhecido dos pesquisadores brasileiros que se debruçam sobre a política do início do século XX. Comunista de primeira hora, o intelectual alagoano foi ativista e militante, sendo pioneiro na difusão do marxismo no Brasil. Ele escreveu obras importantes – mas pouco lidas – como Agrarismo e IndustrialismoCanais e LagoasVeda do Mundo Novo e Rússia Proletária. Em Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, Felipe Castilho de Lacerda vai além da biografia do alagoano e traz ao público um estudo sobre a obra desse intelectual. 


Entreatos

Marcelo Castel Cid já escreveu um romance chamado Os Unicórnios e organizou a Antologia Fantástica da Literatura Antiga. De certa forma, sua literatura flerta com o fantástico. Em Entreatos, ele bebe nessa fonte para criar monólogos inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. 


Eugênio Onêguin: Um Romance em Versos

O “romance em versos” Eugênio Onêguin é a expressão máxima do gênio de Aleksandr Púchkin (1799-1837), e representa para a literatura da Rússia o mesmo que Os Lusíadas, A Divina Comédia,  Dom Quixote e as peças de Shakespeare representam respectivamente para Portugal, a Itália, a Espanha e a Inglaterra.
Púchkin é considerado o fundador da literatura russa moderna, o maior ícone cultural da Rússia, e seu Eugênio Onêguin já foi chamado de “enciclopédia da vida russa”, de leitura obrigatória em escolas. A edição bilíngue foi traduzida pelo poeta e tradutor Alípio Correia de Franca Neto e pela pesquisadora russa Elena Vássina. O trabalho teve a consultoria de Bóris Schnaiderman, em um dos últimos trabalhos deste grande estudioso. 


Fascinação

Flavio de Souza é muito conhecido por seu trabalho para crianças, como “Rá-Tim-Bum” e “Mundo da Lua”. Ele também foi roteirista de programas de humor como “Sai de Baixo”. Já Luci Collin é poeta, ficcionista e tradutora. O encontro entre os dois poderia parecer inusitado à primeira vista, mas foi esse encontro que gerou Fascinação, volume em coedição Kotter e Ateliê Editorial, que traz para o registro do livro o texto que foi sucesso nos palcos brasileiros nos anos 1990. Mas não se trata de uma simples transposição. O trabalho de Flavio e Luci ampliou o texto original, criando para o leitor uma experiência diferente daquela vista pelo espectador no teatro.


O Azul e o Mar

Eduardo de Campos Valadares selecionou poemas de três fases de Paul Valéry – Charmes, Clássicos e o longo poema “A Jovem Parca” – para compor este volume, chamado O Azul e o Mar, uma coedição com a Editora UFMG. Um trabalho de tradução que, segundo o tradutor, foi uma “festa da imaginação”, expressão que cria eco na “festa do intelecto” que, segundo o poeta francês, deve ser o poema.


Geometrias de Cosmos

Primeiro volume da série “A Trilogia da Invisibilidade”, o livro de Rodrigo Suzuki Cintra reúne poemas que são metáforas da invisibilidade, criando, nas palavras do autor, sentimentos e percepções que estão por trás das palavras.


Geórgicas

Um poema sobre as práticas e as técnicas de agricultura. Este assunto que aparenta não despertar interesse é o pretexto que Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.) usa, em Geórgicas,  para tratar de temas grandiosos: a força do sentimento amoroso, as dificuldades humanas, o papel do trabalho. Para muitos, esta é a maior obra de Virgílio.


Os Índios na Constituição

Os povos indígenas são os primeiros habitantes das terras brasileiras. Quando os portugueses atracaram na costa brasileira, o território já era ocupado. Entretanto, faz apenas pouco mais de 30 anos que direitos fundamentais das populações indígenas foram garantidos pela Constituição de 1988. Para celebrar essas três décadas e manter a discussão sobre o tema atual, Camila Loureiro Dias (Doutora em História) e Artionka Capiberibe (Doutora em Antropologia) organizaram Os Índios na Constituição, volume que reúne depoimentos de pesquisadores e intelectuais que exerceram papéis chave na definição dos direitos indígenas na Constituição Cidadã e de alguns dos atuais protagonistas dessa luta. 


Inocência

Inocência foi lançado em 1872. Escrito por Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay – o Visconde de Taunay – este romance regionalista traz para o leitor o ambiente do sertão e o comportamento do sertanejo, por meio da história de amor impossível entre Inocência e Cirino. Nesta edição da Ateliê Editorial, Inocência chega ao leitor repleta de notas de rodapé que ajudam a entender o contexto da obra, informações relevantes e outros dados que facilitam e aprofundam a leitura. Com apresentação de Jefferson Cano e ilustrações de Kaio Romero, Inocência tem estabelecimento de texto e notas de José de Paula Ramos Jr.


Leituras Imediatas

Leituras Imediatas é o último escrito de Jerusa Pires Ferreira, professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. A publicação traz textos “que giram em torno da ideia de mitopoéticas, no sentido de que constituem permanente recriação e ao mesmo tempo a levam a problematizar dicotomias para pensar manifestações da cultura”, como escreve Adriano C. A. e Sousa na quarta capa do livro.


Livro 7/8

Tanto quanto as bibliotecas, os arquivos e os museus, ou dos museus contidos nas bibliotecas, a REVISTA busca captar as pulsões políticas, as tensões econômicas e os estímulos culturais sentidos por seus principais agentes, no Brasil e no mundo. No momento em que as funções de museus e bibliotecas, na verdade, da educação e da cultura como um todo, são alvos de questionamentos, faz-se necessário refletir e reafirmar, por meio de projetos e vivências concretas, a importância fundamental dessas instituições na vida de uma nação.


Somente nos Cinemas

Somente nos Cinemas, o novo livro de contos de Jorge Ialanji Filholini, é o mais recente lançamento da Coleção LêProsa, da Ateliê Editorial, que enfoca a literatura de autores brasileiros contemporâneos. A coleção é coordenada por Marcelino Freire, também organizador da Balada Literária e autor de Angu de Sangue


Velhos Amigos

A publicação de Velhos Amigos é um acontecimento: depois de lançar Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos, um dos mais originais e importantes ensaios sobre a memória individual e coletiva no Brasil, Ecléa Bosi volta ao tema, desta vez em abordagem literária.


Passos da Semiótica Tensiva

Este volume analisa o impacto das noções de andamento (rápido e lento) e tonicidade (tônica e átona) na semiótica narrativa e discursiva de Greimas. Na obra, Luiz Tatit promove algumas incursões descritivas no universo da linguagem verbal, na escrita literária de Guimarães Rosa e no mundo da canção.


REEDIÇÕES

Angu de sangue – 3a ed.

Em seu primeiro livro de contos, agora reeditado, Marcelino Freire faz um retrato realista e inusitado do submundo das grandes cidades. Os protagonistas são violentados pelas dores e frustrações de uma sociedade injusta, que os estigmatiza. 


Arquétipos Literários

O mitólogo e semioticista russo Eleazar Meletínski analisa neste livro os arquétipos, unidades primeiras da narrativa universal. Por meio dessa reflexão, o autor discute alguns conceitos de Freud e polemiza com outros estudiosos do assunto.


Caligramas

O título de um dos mais importantes livros de poemas de Guillaume Apollinaire, já revela a vocação de ir além da palavra escrita e expressar seus significados também pela forma – que sugerem desenhos.


Dez Mitos sobre os Judeus – 2a ed.

O livro de Maria Luiza Tucci Carneiro tem como objetivo desvendar não só a imagem do povo judeu, como também entender como acontece o processo de manipulação da mentira e a compreensão da verdade nos mundos atuais. 


Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de Leitura

Em 1859, o autor de Guerra e Paz fundou uma escola rural para crianças. Seu método pedagógico era de cunho emotivo: o mestre não era uma figura autoritária, estudar era uma diversão. Contos da Nova Cartilha contém fábulas, histórias reais, contos folclóricos, descrições de paisagens e adivinhações que ele usava em suas aulas. Mais do que ensinar a ler, sua proposta era “educar para libertar”. Ao estimular a criatividade de seus alunos, Tolstói tinha plena consciência de que erguia um monumento.


Epigramas – 2a. ed.

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva tornou-se popular com a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso). A segunda edição de Epigramas chega ao público em brochura, mais prática e econômica.


Os Males do Tabaco

Além de exímio contista, Tchékhov estabeleceu novos padrões para a dramaturgia contemporânea. As oito peças reunidas nesta antologia, traduzidas diretamente do russo pelo professor Homero Freitas de Andrade, são pequenas pérolas de grande valor literário.


O Pai – 6. Ed.

A morte de Euclides da Cunha é um dos episódios mais trágicos da literatura brasileira. Sua esposa, Ana, tornou-se amante do cadete Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermano. Em 1909, o escritor confronta o amante de Ana, mas este reage e mata o escritor. Ana e Dilermando, então, casam-se, mas se separam depois de cerca de uma década. O Pai, livro escrito por Dirce de Assis Cavalcante, conta como a autora descobriu que era “filha de um assassino”. Ela é a filha que o general Dilermando teve depois de se separar de Ana. 


Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa

O livro narra parte da história que liga o Brasil ao Japão, contada pelo autor, Tatsuzô Ishikawa, que, em 1930, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru, como imigrante individual com auxílio do governo. Com este livro, que descreve a imigração japonesa no Brasil, Tatsuzô ganhou o primeiro prêmio Akutagawa – o prêmio literário de maior valor no Japão, instituído em 1935. O livro tem tradução de Maria F. Tomimatsu, Monica Okamoto e Takao Namekata.

“Bruno Palma, Escolhedor de Palavras”

Renata de Albuquerque*

“Traduzir é levar a palavra aos que não podem compreendê-la”. A frase está no livro Bruno Palma, Escolhedor de Palavras – Ensaio sobre a Arte e o Ofício de um Tradutor (Com-Arte), de Marcus Fabiano Gonçalves. Mas ela não é suficiente para sintetizar o trabalho (ou, talvez, seria melhor dizer fazer artístico) de Bruno Palma, paulista de Araraquara, cuja experiência com tradução começou ainda na fase ginasial. Hoje, com mais de 90 anos de idade, ainda atua ativamente nessa área.  

Bruno de Palma, que aos vinte anos converteu-se ao catolicismo e passou a integrar a Ordem dos Dominicanos, colaborou com a tradução da Suma Teológica de São Tomás de Aquino e atualmente integra a equipe de tradução da Vulgata. Para ele, traduzir é uma arte comparada a transpor, para outro instrumento musical, uma peça originalmente composta para um instrumento distinto. Essa metáfora já oferece ao leitor a medida da complexa delicadeza que o próprio tradutor percebe em sua atividade.

O volume tem capítulos inteiros dedicados a duas das mais famosas traduções de Bruno Palma. “Saint-John Perse: De Amers a Marcas Marinhas” e “Traduzir o Duplo Canto de François Cheng” são um minucioso estudo sobre estes marcos da tradução brasileira. Palma dedicou trinta anos à tradução de Amers, para que pudesse investigar a erudição do autor e, de maneira original, incluir toda essa bagagem no texto em português, recriando o original com uma fina elegância. O resultado recebeu o Prêmio ABL de Tradução. Isso dá a medida do mergulho que o tradutor se dispõe a realizar nas obras originais para então chegar ao resultado esperado.

Tradução que recebeu o Prêmio ABL

Ainda na Introdução do volume, parte do segredo da qualidade da tradução feita por Bruno Palma é desvelada: “Mais fácil seria, então, reconhecer, no sucesso final de uma boa tradução, a presença iniludível de uma certa sensibilidade, não inata, mas adquirida e apurada ao longo de um convívio demorado com as obras e autores traduzidos” (p. 18).

O livro de Marcus Fabiano Gonçalves traz ainda uma interessante entrevista com Bruno Palma, em que são abordados os trabalhos de tradução de Saint-John Perse e François Cheng. A entrevista é plena de revelações, como, por exemplo, a passagem em que Palma revela a influência da tradução de Perse para a tradução de Cheng:

“Creio, porém, que minha tradução da obra poética de François Cheng foi ajudada pela minha experiência anterior, a tradução de obras de Saint-John Perse. Pode parecer estranho, pois SJP é muito diferente de FC. Contudo, ambos são ‘poetas do ser’, como diz François Cheng, e se encontram por isso no essencial: na sua maneira de ver o mundo e de se relacionar com ele”.

Um dos momentos mais curiosos do volume é quando Palma é convidado a exemplificar as dificuldades enfrentadas – e a solução que ele encontrou para cada uma delas – quando traduziu Cheng e Perse. A cada exemplo dado, o leitor é convidado a participar da complexidade que o trabalho de tradução impõe, em um processo que ao mesmo tempo explica o quanto o tradutor precisa saber e o quanto ele aprende durante  essa jornada única.

* Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Black Friday: conheça a história da data

Por: Renata de Albuquerque

Que Black Friday é sinônimo de preço baixo, todo mundo sabe. Mas você sabe a origem dessa tradição do comércio? Existem várias versões a respeito da origem da Black Friday.

No Brasil, a primeira Black Friday aconteceu em 2010 e apenas online. Nos EUA, a tradição remonta ao século XIX e está atrelada ao feriado de Ação de Graças, um dos mais importantes do país, que é celebrado na quarta quinta-feira de novembro.

Na metade do século XX, um documento chamou a atenção para os efeitos que a sexta-feira  depois do dia de Ação de Graças causava: muitos trabalhadores ausentes, lojas vazias e sem compradores. Segundo esta versão, a Black Friday seria uma reação a essa situação. Devido à proximidade do Natal, há quem diga ainda que a Black Friday tenha sido uma resposta à baixa de vendas: quando as lojas saem do “vermelho” e voltam a vender.

Uma outra versão oferece uma razão econômica para a criação da data. Numa sexta-feira 24 de Setembro de 1869, dois grandes especuladores de Wall Street, depois de um intenso trabalho para conseguirem grandes lucros, fracassaram, gerando resultados ruins nos negócios, não só para eles, mas para investidores que, tentando dominar o mercado de ouro, acabaram indo à falência.  A data teria ficado conhecida como “Black Friday”.

Hoje, o comércio em diversos países, como EUA, Canadá e Brasil, aproveita a data para faturar com grandes promoções, seja para liberar o estoque para a chegada dos produtos natalinos; seja para estimular as compras de presentes para esta data.   

Black Friday e Black Week

No Brasil, logo que a data foi acolhida pelo comércio, muita gente desconfiava dos descontos e logo o apelido “black fraude” começou a se espalhar. Funcionava assim: o lojista, no período imediatamente anterior à promoção, aumentava os preços e, quando chegava a Black Friday, oferecia um desconto que, na verdade, só trazia o produto de volta ao seu preço “normal”. Hoje, além de os consumidores estarem mais atentos – o que diminui a chance de ações como essa – há ainda alguns reguladores de mercado, como o Selo Black Friday Legal, que chancela as boas práticas dos descontos.

Seja como for, o importante é planejar-se para a data, para não correr o risco de gastar mais do que o orçamento permite, e pesquisar os preços com antecedência para saber que promoções valem realmente a pena.

E, se você quiser aproveitar a Black Friday da Ateliê, elas já estão no ar: https://www.atelie.com.br/publicacoes/black-week/

“Geórgicas”, de Virgílio, ganha edição anotada e comentada pelo Grupo de Trabalho Odorico Mendes

Um poema sobre as práticas e as técnicas de agricultura. Este assunto que aparenta não despertar interesse é o pretexto que Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.) usa, em Geórgicas,  para tratar de temas grandiosos: a força do sentimento amoroso, as dificuldades humanas, o papel do trabalho. Para muitos, esta é a maior obra de Virgílio.

A nova edição de Geórgicas, que a Ateliê Editorial está lançando, traz o texto integral (os quatro “livros”) em versão bilíngue, comentado e anotado por integrantes do Grupo de Trabalho Odorico Mendes – que congrega docentes da Unicamp, USP, UNIFESP, UFMG e UNESP. A edição é organizada por Paulo Sérgio de Vasconcellos, que fala a seguir ao Blog da Ateliê:

O que é o Grupo de Trabalho Odorico Mendes?

Paulo Sérgio de Vasconcellos: O Grupo de Trabalho Odorico Mendes é um grupo de pesquisa que nasceu no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e tem por objetivos principais estudar e divulgar as traduções da obra de Virgílio realizadas pelo tradutor maranhense Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Odorico Mendes foi considerado por Haroldo de Campos um pioneiro da tradução criativa dos textos poéticos em português e também da reflexão crítica sobre o processo tradutório, e o grupo pretende mostrar aos leitores não especialistas os méritos dessa empreitada pioneira através de edições bem cuidadas de sua obra. Houve formações diferentes do grupo, em função das atividades do momento; nos primeiros trabalhos, contou-se com a colaboração não apenas de docentes de várias universidades mas também de pós-graduandos. Para a anotação e comentário das Geórgicas, reuniu-se um grupo de docentes da Unicamp, USP, UNIFESP, UFMG e UNESP.

Qual a importância de Geórgicas na obra de Virgílio?

PSV: Atribuem-se a Virgílio, com segurança, três obras que tiveram grande influência na literatura ocidental; as Geórgicas é a segunda delas na ordem cronológica. Há quem julgue ser essa a maior obra de Virgílio, um juízo subjetivo mas que diz muito sobre sua recepção; o próprio Odorico Mendes considera essa a obra mais bem acabada do poeta. Se nas Bucólicas, sua obra de estreia, Virgílio imitava Teócrito no gênero pastoril, dando voz a personagens que eram pastores-poetas, nas Geórgicas imita sobretudo Hesíodo, praticando o gênero didático. O poema tem um tema técnico, as práticas e técnicas dos agricultores, mas esse parece ser apenas um pretexto para tratar de temas mais grandiosos como a força do sentimento amoroso em todos os seres animados, as dificuldades que o homem enfrenta na lida diária, etc. Em meio à simulação de transmissão de conteúdos agrários, aparecem episódios notáveis como o da descida do poeta Orfeu ao mundo dos mortos na tentativa vã de resgatar da morte sua esposa Eurídice, e aqui Virgílio parece refletir sobre os limites do poder da poesia. É um clássico, aberto a releituras constantes. Por outro lado, trata-se do poema mais difícil de Virgílio, por causa dos conteúdos técnicos (cultivo dos campos e do gado, arboricultura, apicultura), mas justamente o desafio do poeta é tratar de grandes temas universais a partir de matéria aparentemente tão miúda e antipoética.

Quanto tempo levou para concluir o trabalho que agora está ao alcance do público, nesta edição de Geórgicas? Quais foram os desafios enfrentados nesse processo?

PSV: A tarefa consumiu cerca de dez anos. Todos os que participaram do projeto são professores universitários, que têm uma rotina de trabalho muito exigente, entre aulas, pesquisas, orientações, atividades administrativas etc. Além disso, a trabalho de anotação e comentário da tradução foi muito cuidadoso e, por isso, lento. O português de Odorico Mendes busca a precisão na tradução dos termos técnicos, e o grupo teve de fazer muita pesquisa de vocabulário (por vezes em dicionários de séculos passados) para identificar com precisão os sentidos do léxico empregado pelo tradutor. O conjunto foi submetido a revisões minuciosas e criteriosas de toda a equipe para que o trabalho resultasse o melhor possível, uma espécie de homenagem a um tradutor genial que no passado foi alvo de incompreensões.

Paulo Sérgio de Vasconcellos

Qual a importância de ter a obra integral à disposição do público? Além deste, quais são os outros diferenciais desta edição da Ateliê?

PSV: A edição da Ateliê não tem igual. Toda dificuldade apresentada pelo texto e  que poderia atrapalhar a leitura do não-especialista  (vocabulário técnico, sintaxe complexa, alusões mitológicas, alusões a acontecimentos históricos, etc.) recebeu uma explicação em nota de rodapé. São centenas de notas, redigidas com todo rigor filológico. Além disso, depois de cada “livro” das Geórgicas, além das notas do próprio tradutor, interessantes por revelar suas concepções de tradução, acrescentam-se notas e comentários feitos pelo grupo; nelas, analisamos os modos por vezes surpreendentes como Odorico Mendes responde a certos aspectos do texto latino e comentamos, sobretudo, como efeitos de som, ritmo, sintaxe do original virgiliano são recriados no português de Odorico. O leitor terá, assim, uma espécie de demonstração didática dos modos como Odorico Mendes traduz a obra. Por fim, a edição traz o texto latino adotado por Odorico e aponta erros de impressão que a edição original trazia, quer no texto latino, quer no texto português.

Por favor, pode escrever brevemente sobre a suposta “humildade” das Geórgicas, que Matheus Trevisam aponta no texto de introdução?

PSV: A Antiguidade classificava os vários gêneros poéticos segundo uma hierarquia; os gêneros mais elevados eram a epopeia e a tragédia (aliás, objetos da Poética de Aristóteles). Gêneros como a comédia e a poesia didática (caso das Geórgicas) eram, comparativamente, considerados mais “humildes”. Mas que não nos enganemos. O tema é “humilde” e também certo vocabulário técnico pode parecer prosaico, mas a grandiosidade da mais alta poesia perpassa toda a obra. Justamente o desafio de Virgílio era dotar essa matéria humilde de densidade poética, e a recepção da obra diz bastante sobre o sucesso de sua empreitada.

O que o sr. gostaria de dizer ao público que pretende ler Geórgicas e nunca antes teve acesso à obra? O que esperar desta edição?

PSV: O leitor não está diante de uma obra fácil, não está diante de uma tradução fácil. Mas este é um caso em que superar a complexidade que muito exige do leitor é  gratificante. Há episódios belíssimos na obra (como o tão influente de Orfeu e Eurídice, no final do quarto “livro”) e, no conjunto, uma visão do homem e do mundo que alterna sombras e luz: em Virgílio, a realidade retratada nunca é monocromática nem fácil, daí as interpretações por vezes radicalmente divergentes de suas obras, quando se acaba vendo só uma face de um mundo na verdade mutifacetado. Entre outros temas que o poema parece tratar de forma sutil, destaco que a natureza aparece personificada, mas ao mesmo tempo o homem parece por vezes animalizado: uma espécie de simpatia universal em que homens e animais compartilham muita coisa em sua condição de existência no mundo, afetados igualmente por forças como o impulso erótico, a doença e a morte. É um longo poema para se ler e reler. A tradução é o que se pode esperar de um tradutor como Odorico Mendes: nada banal, criativa, poética. Gonçalves Dias dizia que Odorico metrifica “como um rei” e sem dúvida, mas não só pela habilidade na métrica, há passagens de suas traduções que poderiam figurar em antologia do que de melhor produziu a poesia brasileira. O leitor tem diante de si uma edição que tudo faz para aplainar as dificuldades de fruição de um dos mais instigantes projetos tradutórios, o de uma obra como as Geórgicas, o poema mais desafiador, e talvez o mais instigante, de Virgílio.

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