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O Primo Basílio, de Eça de Queirós

O Primo Basílio é talvez a mais conhecida das obras de Eça de Queirós no Brasil. Adaptada para o cinema e a televisão, o romance realista  publicado em 1878 relata o triângulo amoroso de  Luísa, seu marido Jorge e o primo dela, Basílio, em uma trama que coloca luz na hipocrisia da sociedade burguesa lisboeta da época.

Luísa e Jorge têm boa condição financeira e um casamento morno, apesar dos presentes que ele dá a ela. Ele é engenheiro e, durante uma viagem que faz a trabalho, o primo de Luísa, Basílio, vai visitá-la. Reacende-se então um romance entre os ex-namorados da época da adolescência. Luísa é retratada como uma mulher sonhadora, leitora de romances românticos que se ilude com a chegada do primo. Eles vivem uma paixão intensa que ao longo do tempo também arrefece.

Nesse contexto, a criada Juliana é o contraponto realista da protagonista. Ao perceber que Luísa e Basílio têm um caso (e que inclusive se encontram em um quarto alugado especialmente para os amantes), Juliana passa a chantagear a patroa, depois de ter descoberto cartas trocadas entre os primos. Luísa sugere a Basílio que fujam para Paris, mas ele a deixa em Lisboa.

Então, Luísa é humilhada por Juliana e obrigada a oferecer presentes à empregada, inclusive substituindo-a nas tarefas domésticas. Quando Jorge volta de viagem, percebe algo estranho e diferente na relação entre a esposa e a subalterna, pois as chantagens de Juliana são cada vez maiores. Para tentar se livrar do problema, Luísa pede ajuda a um amigo, Sebastião, que ameaça Juliana e retoma as cartas que ela havia interceptado. Entretanto, a seguir, Juliana morre.

Enquanto isso, Luísa também adoece e Jorge descobre, na correspondência da mulher, uma carta de Basílio. Para poupar a mulher de alguma notícia negativa que pudesse ter chegado na carta, Jorge decide abrir a correspondência. Assim, descobre do caso entre os primos. Confronta Luísa sobre a situação e ela, então, também morre.

Análise

O Primo Basílio é, em essência, uma crítica ao Romantismo e a tudo o que ele exalta: a idealização do amor romântico de que “padece” Luísa é o que a leva a morrer, em última instância. Mas Eça de Queirós não deixa também de criticar a burguesa da época, sua mediocridade, a beatice de fachada, o conservadorismo e a vida de aparências são alvos constantes do romance. Até o amor devoto de Jorge é ridicularizado e transformado em sofrimento pela esposa traidora.

Assim, o romance se alinha ao Realismo: a influência que o ambiente exerce sobre as personagens, a irracionalidade ligada à sexualidade (traço presente no Naturalismo) e uma ironia cruel e inteligente.  

O foco narrativo é em terceira pessoa. O narrador é onisciente e o tempo, cronológico (apesar dos flashbacks em que a sonhadora Luísa lembra do casamento e das doces promessas dos primeiros tempo com Jorge e também com Basílio).

Conheça outros livros da Coleção https://www.atelie.com.br/publicacoes/colecoes/colecao-classico-atelie/

Caligramas: seleta de poemas de Guillaume Apollinaire

Por Renata de Albuquerque

“Caligrama”: palavra que se origina da mistura entre “ideograma” e “caligrafia” é o título de um dos mais importantes livros de poemas de Guillaume Apollinaire, que acaba de ser relançado. Em sua origem, o termo já revela a vocação de ir além da palavra escrita e expressar seus significados também pela forma – que sugerem desenhos.

O caligrama, ao unir imagem e palavra, explode em significado, como lembra Véronique Dahlet no prefácio da edição: “ Erupção dentro da unidade da palavra, cujo desmantelamento ocorre em prol da materialidade tipográfica; erupção na linearidade narrativa do discurso, criando ilhas textuais circundadas pelos brancos que preenchem o papel de sintaxe; erupção, enfim, da visibilidade na legibilidade e do figurativo na ordem do signo linguístico”.

É o desafio de traduzir “para além da palavra” que Álvaro Faleiros assume ao decidir transpor estes textos de Apollinaire do francês ao português em Caligramas. Afinal, além de lidos, eles  precisam ser “vistos” para que sejam compreendidos por inteiro, dentro de seu contexto histórico e proposta artística. Além do ritmo e das rimas, as imagens e o espaço gráfico precisam fazer sentido e complementam-se em metáforas. E aí mora a genialidade do trabalho.

A seguir, alguns exemplos do trabalho de Álvaro Faleiros que estão em Caligramas:

O Bom Crioulo

O Blog da Ateliê traz aos leitores o texto de Arthur Virmond de Lacerda Neto sobre “Bom Crioulo”, o primeiro romance brasileiro a abordar a homossexualidade masculina no Brasil pós-abolicionista e republicano. O texto original está no link https://arthurlacerda.wordpress.com/2016/09/19/bom-crioulo/

Intitula-se “Bom Crioulo” o romance do cearense Adolfo Caminha,  cujo tema consiste na relação amorosa e sexual havida entre o protagonista,  Amaro, Bom Crioulo de alcunha, e o jovem Aleixo, “um belo marinheirito de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se cousas”.

Embarcadiços ambos, conhecem-se a bordo, onde Amaro interessa-se por Aleixo e desenvolve por ele uma relação de proteção que se transforma em um vínculo de amor e em convivência marital, ao passarem a coabitar em um quarto de pensão, no Rio de Janeiro.

Singelíssimo e destituído de lances significativos, o entrecho do livro  termina com o assassínio de Aleixo por Amaro, em um rompante de ciúmes deste, por haver aquele se afeiçoado a uma mulher.

Para mais da relação afetiva, o livro descreve, explicitamente, a homossexualidade do protagonista, como no passo em que ele sente-se dominado pelo “desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possui-lo, de tê-lo junto de si, de amá-lo, de gozá-lo!”.

Em uma fase inicial, Amaro hesita em satisfazer ao seu  desejo. Pondera que, sendo marinheiro de baixa graduação, “outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre o convés”, o ato de “carnalidade grega” porque ansiava e que, afinal, satisfez à bordo, o que o levou a compreender “nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres”.

Descoberto o que lhe gratificava os sentidos, Bom Crioulo “não se contentava em possui-lo [a Aleixo] a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à toa”, propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação”.

Certa feita, Aleixo suplicou-lhe: “Basta!”, ao que Amaro replicou-lhe: “Não, não! Um bocadinho mais…”

Publicado em 1895, em um tempo em que a sexualidade correspondia a um tabu generalizado; em que, acerca dela, abundavam a incompreensão e o desconhecimento, na maioria das pessoas e em que a homofobia existia em grau elevado, a concepção,  a redação e a publicação de “Bom Crioulo” equivaleram a atos de desassombro do autor, que não temeu as reações adversas do público leitor:  causaram indignação as cenas de homossexualidade explícita e, por décadas, foi livro proibido em bibliotecas escolares e públicas. Consta que, ao tempo, a Armada em peso leu-o e revoltou-se com as suas descrições explícitas e, certamente, com as referências à homossexualidade como realidade comum nos navios.

Durante o Estado Novo (1937-1945), a Marinha solicitou ao governo que obstasse a distribuição da segunda edição do livro, cujos exemplares recolheram-se, sob a alegação, inteiramente falsa, de tratar-se de obra comunista.

Nos anos de 1950, a crítica literária Lúcia Miguel Pereira acusava Adolfo Caminha de mau gosto, por tratar de um “tema abjeto” com minúcias desnecessárias.

Transcorreram oitenta e cinco anos até que, na década 80, surgissem novas edições e traduções suas nos Estados Unidos, na Alemanha, na França e no México. Mesmo assim, uma resenha dele, da autoria Léo Ribeiro, foi recusada, em 1983, pelo Jornal da Tarde (de São Paulo), porque o tema desagradava aos seus proprietários.

Republicado em 2008 e 2009, no Brasil, deixou de representar uma raridade bibliográfica e já não escadandaliza como antanho. No futuro, não escandalizará de todo, quando as pessoas houverem aprendido a entender a natureza humana e a respeitar as diversas formas como se manifestam os seus semelhantes, em relação à sexualidade e não só. Assim, a reação do público leitor a “Bom crioulo” serve de indicador do estado da mentalidade acerca do uranismo e da liberdade sexual: se, no passado, e por décadas, sofreu reprovação e ocultamento, equivalerá a índice de maturidade da psicologia coletiva a sua aceitação como descrição de uma parte dos impulsos e dos sentimentos normais e naturais das pessoas.

Nos últimos anos, Nélson de Carvalho publicou “O terceiro travesseiro”, narrativa verídica de uma relação homoafetiva, emocionante por vezes, porém pobre, mesmo medíocre, na sua realização literária. Com um enredo comparativamente simples e com um volume de texto menor, Adolfo Caminha produziu uma obra superior àquela.

Conheça este e outros livros da Coleção Clássicos Ateliê

A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente

“Farsa” é o nome que se dá ao gênero teatral que explicita a caricatura sobre personagens e situações. O resultado é uma crítica aos costumes de um tempo e de um grupo social. Esse foi o gênero escolhido por Gil Vicente ao escrever um texto sobre a máxima “Mais vale um asno que me leve que um cavalo que me derrube”.

O desafio teria sido lançado quando, acusado de plágio, o autor aceitou a proposta de escrever a respeito de um mote escolhido por outras pessoas, para que, com isso, pudesse provar sua originalidade e capacidade enquanto autor. A provocação gerou, então, o que é considerado por muitos o texto mais complexo e divertido desse autor nascido em 1465, em Évora (Portugal) e considerado o pai do teatro português.

Em “Farsa de Inês Pereira”, apresentada pela primeira vez ao Rei D. João III, no ano de 1523, Gil Vicente denuncia hábitos e costumes amorais e até degradantes da sociedade portuguesa, em um tom que beira o jocoso. Até hoje a peça diverte e arranca risadas de espectadores e leitores. Ao contrário de outras peças escritas pelo autor, nesta não há uma “lição de moral”, com punição explícita da personagem.

Resumo

Inês Pereira é uma jovem na idade de se casar. Ela é pressionada pela mãe, com a ajuda da alcoviteira Lianor Vaz, a conseguir um marido adequado, que a sustente financeiramente. Mas Inês sonha que seu marido queira se divertir tanto quanto ela, que saiba tocar viola. Inês espera, com o casamento, fugir das obrigações do trabalho doméstico.

O primeiro pretendente é Pero Marques, um camponês rico que, quando vai à casa de Inês, comporta-se de uma maneira que ela acha ridícula, sem nenhum traquejo ou refinamento social. Ela dispensa o pretendente e aceita a proposta de Brás da Mata, feita por intermédio dos judeus Latão e Vidal. Brás da Mata é um escudeiro cujo objetivo é dar o golpe do baú em Inês Pereira. Por isso, age com refinamento e acaba por conquistar a jovem.

Já casada, Inês passa a sofrer nas mãos do marido e percebe a armadilha em que caiu. Trancada em casa, sua única ocupação é costurar e lamentar o que lhe aconteceu. O marido vai para a guerra, onde morre. Viúva, Inês casa-se com Pero Marques. Algum tempo depois, reencontra um antigo namorado seu, chamado de ermitão, e ambos marcam um encontro. Inês pede a Pero que a leve ao local marcado e, com isso, engana o marido, que a leva nas costas para o compromisso, sem perceber que estava sendo enganado. Daí justifica-se o mote “mais vale um asno que me carregue que um cavalo que me derrube”.

Análise

“Farsa de Inês Pereira” foi encenada pela primeira vez em uma época de decadência da monarquia feudal e ascensão do mercantilismo. Esse embate socioeconômico ecoa na obra de Gil Vicente.

Inês Pereira é a personagem por meio da qual Gil Vicente critica a frivolidade da burguesia portuguesa da época, que desejava apartar-se da rusticidade do campo. Brás da Mata é o personagem que representa a “esperteza” condenável, o galanteador ambicioso. Já Pero Marques é o camponês inocente e ingênuo.

Por ser um texto dramatúrgico, não tem foco narrativo, mas rubricas que indicam detalhes das cenas, e diálogos que ajudam o leitor a entender cada personagem. O foco principal da crítica desta obra é a decadência dos valores e da formação da família e, Portugal naquela época.  

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

“Conto Até Dez”: uma raridade que pode chegar às mãos de leitores apaixonados por livros

Quem ama livros, sabe que  quanto mais raros, mais exclusivos, maior é nossa vontade em colecioná-los. Conto Até Dez é exatamente assim. O livro foi lançado em 2005 para celebrar os dez anos de existência da Ateliê Editorial – fundada em 1995. Mas, ele nunca foi comercializado: foi apenas distribuído para alguns sortudos e sortudas que o receberam como presente durante a festa de comemoração da primeira década da Ateliê, que aconteceu na Pinacoteca do Estado e durante a qual foram lançados, concomitantemente, dez novos livros do catálogo da editora.

Desde então, Conto Até Dez virou item de colecionador. Organizado por Marcelino Freire (autor de Angu de Sangue e organizador da Coleção LêProsa), o pequeno e raro volume reúne textos inéditos e exclusivos de Ademir Assunção, Bruno Zeni, Gil Perini, Ivana Arruda Leite, Márcia Denser, Moacyr Godoy Moreira, Nelson de Oliveira, Paulo Franchetti, Paulo Ribeiro e Rodrigo de Faria e Silva.

Na apresentação do volume, Cláudio Giordano ressalta a importância da editora se debruçar sobre o livro enquanto objeto (“livros sobre livros”, um tema muito caro à editora ainda hoje, que é uma de suas marcas registradas). Discutir a história, a função e a arte do livro faz parte, ainda hoje, de uma das preocupações da editora.   

Agora, quase quinze anos depois de sua primeira aparição, o raríssimo Conto Até Dez volta a circular. Mas, mais uma vez, ele será dado de presente. Para conseguir um exemplar deste volume exclusivo, basta adquirir um dos títulos da Coleção LêProsa (promoção por tempo limitado).

Plinio Martins recebe prêmio na Balada Literária 2019

Em seu XIV ano, a Balada Literária homenageia o educador e pensador Paulo Freire. O evento acontece em São Paulo entre os dias 4 e 8 de setembro. No domingo, Dia Mundial da Alfabetização, o já tradicional Prêmio Donizete Galvão, em memória do jornalista e escritor falecido em 2014, será recebido por quatro personalidades que estiveram presentes na educação do país. Serão agraciados com o prêmio a educadora ANA MAE BARBOSA, para a editora GITA K. GUINSBURG, para o editor PLÍNIO MARTINS FILHO e para o professor de literaturas da UFSCar JORGE VICENTE VALENTIM.

O evento ocorrerá no domingo, 8 de setembro, a partir das 14h30, no Centro Cultural b_arco (Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426). Para o criador e curador da Balada Literária, o escritor Marcelino Freire, premiar os quatro são “A educação movida pela curiosidade e pelo profundo amor. Na leitura do mundo e o mundo da leitura, que estes mestres e mestras merecidamente dedicaram as suas vidas a passar adiante as palavras e ensinamentos à sociedade”. A programação completa da Balada Literária pode ser conferida no site oficial: www.baladaliteraria.com.br

Um brasileiro à procura de sua identidade

Aurora Bernardini*

A seguir, o Blog da Ateliê reproduz a resenha de Aurora Bernardini sobre O Língua para o número 30 da Revista Qorpus. Agradecemos a gentileza da revista em permitir o compartilhamento deste material:

Eromar Bomfim, autor do livro de que vamos falar, nasceu em Formosa do Rio Preto (BA). Filho de comerciantes, aos 13 anos de idade, mudou-se com a família para São Paulo. Estudou Letras na USP, com pós-graduação em literatura brasileira. Publicou com sucesso o romance O Olho da Rua, pela Nankin Editorial, em 2007, e Coisas do Diabo Contra, pela Ateliê Editorial, em 2013 e, agora, O Língua, também pela Ateliê Editorial, sua obra prima.

É justamente da união de coisas bem sabidas (bem vividas) e tramas bem imaginadas que nasce o encanto desse O Língua, que poderia se chamar Um brasileiro à procura de sua identidade, ou “ o primeiro brasileiro”, como quer Eromar. Ele explica, em trecho de carta pessoal do autor enviado à resenhista em maio de 2019:


“Os personagens são do século XVII, embora vivam até hoje como ancestrais que se manifestam aos líderes no ritual de Toré que existe nos nossos dias em núcleos caboclos no submédio São Francisco. Este, dos artifícios que usei , é esboçado no primeiro capítulo, norteado pela ideia de que na transformação há permanência.

Os personagens indígenas são tapuias do Nordeste, notadamente povos que habitavam a Bahia, no chamado “sertão de dentro”. Distinguiam-se dos povos tupis e tupinambás do litoral e foram chamados tapuias que significa “língua travada”. Falavam várias línguas, sendo o kiriri uma das mais amplas, possuindo subdivisões.

As batalhas no enredo são reais, mas a efabulação sobre como ocorreram é fictícia. A destruição do mocambo de Geremoabo, por exemplo, comandada por Fernão Carrilho, é real. Mas eu a narrei como imaginei, seguindo a psicologia de meus personagens. A geografia é real, mas com muitos nomes atualizados. Fauna e flora são típicas da região. Retratei-as segundo meu conhecimento e experiência, além de alguma pesquisa. Li obras da história colonial tradicional, teses universitárias, bem como obras etnográficas. Os gerais do Rio Preto, onde vivem meus narradores, eu conheço. Mas é importante ressaltar que meu personagem central, Leonel, é um mameluco. Não é mais índio, mas também não é branco. É o primeiro brasileiro. Foi pensando nele que fiz essa história. Meus narradores são fictícios, salvo Aleixo. Existiu um certo Aleixo, insubordinado, no século XVII. Reais são alguns dos personagens brancos, como padre Roland é Padre João de Barros. Deles aproveitei o papel que desempenharam na invasão, mas imaginei toda a trama que os envolve. O mesmo fiz com o militar Domingos Rodrigues Carvalho. Mas a nenhum deles dei voz. Apenas contracenam com meus personagens que são oriundos da camada sofrida da população.”


O eixo da trama são as caçadas que os homens brancos (leia-se: súditos do rei de Portugal) fazem a índios e negros fugidos, suas selvagerias e seus engodos, e a resistência (leia-se: fuga) desses, para escapar à submissão e à morte. Mas cada personagem tem sua história que é magistralmente contada por alguns dos protagonistas principais e da qual citaremos alguns exemplos. Um deles, o que começa a relatar nas primeiras páginas e volta a fazê-lo nas últimas, na sala do dono da casa, onde se reúnem os narradores, é uma mulher. A índia anaió, Ialna, que, mal chegada à puberdade, é violada pelo padre, membro da aldeia missionária e tem um filho, o mameluco Urutu, mais tarde batizado como Leonel pelo padre João de Barros, o jesuíta que o levou consigo, fugindo dos fazendeiros destruidores das aldeias dos padres, e que tem o dom de aprender várias línguas com a maior facilidade, daí ser chamado O Língua, e ter, muitas vezes, a função de intérprete. “Nunca mais vi esse rapaz andar com outros meninos, que eram mais desgarrados e varavam por aqueles brejos atrás de uma fruta, de um mel, de um passarinho. Tinha ficado muito diferente dos outros, os que desobedeciam às regras dos padres, e por isso viviam recebendo chicotadas deles” (BONFIM, 2018, p. 51), conta Ascuri, o indio anaió que “viu Urutu crescer e virar o que virou” (BONFIM, 2018, p. 35) e que vivia com duas mulheres, Cipassé e a bonita Yacui, mais tarde cobiçada pelo padre João.

“No mesmo dia que os padres deixaram São Francisco Xavier, os homens do grande sesmeiro Garcia entraram na aldeia… Os padres tinham ido embora. Vendo-se sozinhos, os sapoiás abandonaram as cabanas e caíram nos matos. Em pequenos grupos ou desgarrados, todos se dispersaram em rumos diferentes” (BONFIM, 2018, p. 60), conta Ascuri.

Outro indiozinho, que cresce na casa dos meninos índios na cidade de Salvador, onde os padres da Igreja o batizaram como Aleixo, relata: “Fiquei conhecido na cidade de Salvador e nos sertões. Na cidade conheci uns negros. De noite eles saíam, sorrateiros, da casa de seus senhores. Junto com eles, roubávamos artigos nos armazéns. Facões, enxadas, panos. Vinham outros e carregavam para os mocambos. Um dia fomos descobertos. Os negros apanharam até não poder mais. Me botaram na cadeia. Depois de uns dias fui degredado para a cidade do Rio de Janeiro por ordem do governador.” (BONFIM, 2018, p. 61). Aleixo consegue fugir e vai bater nas Minas Gerais, onde os povos estavam em luta contra os fazendeiros. Sobe, depois, para a Bahia, sempre sob ordens de prisão. Quando Fernão Carrilho, “o governador da horda de assassinos… que partia para matar negro como quem vai almoçar e que tinha gosto de matar tanto os negros tapanhuns como os índios da terra” (BONFIM, 2018, p. 62) foi para Canabrava, com ordem para retirar os melhores guerreiros para lutar contra Geremoabo, os padres assinalaram quatro dos seus. Eram três moritises e mais Leonel. Aleixo estava lá e ficou amigo de Leonel e, depois, os dois se irmanaram com Gabiroba, um mocambeiro que conseguira escapar. Aleixo vai lutar para destruir o quilombo de Geremoabo porque não tem outra saída, já que Fernão Carrilho tinha diploma legal para recrutar coercitivamente quem ele quisesse e ainda pesava sobre Aleixo um mandado de prisão; Leonel vai porque, por lei, os aldeamentos missionários eram obrigados a fornecer índios para guerrear ao lado das expedições militares contra outros índios (esta foi, aliás, a razão do assassinato do líder indígena Cristóvão, pois ele se negou a entregar seus cento e vinte guerreiros ao paulista Baião Parente, contratado para destruir povos indígenas). Gabiroba era um escravo fugido que havia se refugiado em Geremoabo.

Esta era a bandeira de Carrilho: “… Eu trago aqui regimento e poder de juntar nessa campanha, tanto brancos como pretos, negros da terra como vocês, e mulatos, e todo gênero de gente que seja capaz de jornada para destruir os mocambos de negros fugidos e salteadores em Geremoabo, e onde mais se encontrarem esses seminários de hereges e ateísta.” (BONFIM, 2018, p. 65). Só que, aos poucos, umas coisas ia pensando Aleixo, que iam entrando na sua cabeça e saindo, “como o rio que corre escondido por baixo das pedras: está ali e não está… Depois seriam os índios também, os perseguidos. O perseguidor é que não mudava: era sempre o branco, sedento de terras para seu gado, sedento de metais amarelos, sedento de pólvora do salitre, sedento de negros para o trabalho, sedento de índios para sua defesa, sedento do ventre das mulheres índias para seus haréns, sedento das meninas negras para gerar mais negro. E o índio que recusasse tinha o mesmo destino que o negro tinha: a morte debaixo dos olhos mudos do governador e do padre.” (BONFIM, 2018, p. 70).

Eromar Bomfim, fotografado por Hemerson Celtic

Depois do ataque aos negros fugidos, que é um dos momentos mais lancinantes do livro, encontram-se os três, Aleixo, Gabiroba e Leonel, feridos, mas ainda vivos, e decidem fugir da tropa e, após perambular sem rumo, vão em busca de outro mocambo, com gente. As aventuras se sucedem: suçuaranas, piabinhas, as sete moças virgens se banhando, com quem eles passam dias felizes (deixando-as grávidas da prole que irá repovoar Natuba). Até que eles encontram, às margens do rio Natuba, na Missão com o mesmo nome, o índio Cristóvão, com cento e vinte guerreiros aos quais se juntam, para resistir aos ataques dos brancos. Natuba é arrasada, Cristóvão é esquartejado, Aleixo é remetido à cadeia, Gabiroba o ajuda a evadir-se e Leonel é levado como intérprete a serviço de sua majestade. Novas fugas, até que Aleixo é comprado por um amo, para cultivo de suas hortas. Padres do Santo Ofício perseguindo Gabiroba, Leonel, em Salvador se entregando à bebida, Aleixo e Gabiroba, munidos de amuletos, fugindo para Rio Preto.

Agora a voz retorna de novo a Ialna que relata poeticamente suas vicissitudes, suas lutas, suas perdas, e o anseio que nunca a abandona de voltar a encontrar seu filho, enquanto ela também segue para o leito do Rio Preto. Lá se instalando decide que é a hora de reencontrar Urutu, é a hora que seu filho deixe o mundo do pai para voltar ao da mãe, “esse filho que foi a semente que produziu a sociedade do Brasil. Agora, a planta que cresce carrega o mesmo mal da semente. É por isso que até hoje estamos assim.” (BONFIM, 2018, p. 175). Incumbe Gabiroba, que é o dono da casa onde todos se encontram, e mais dois vizinhos, amigos de Gabiroba, de ir até Salvador e lhe trazer o filho de volta. Depois de muitas buscas acabam encontrando-o no Largo de Jesus. Preparam a viagem de volta que é empreendida com grande alegria. Iam passando pela Reserva Florestal de Marimbondo, lugar onde “dorme o espírito de muitos povos, e o ouvido atento ainda ouve suas vozes, indiferente a toda novidade desses tempos…” (BONFIM, 2018, p. 188) quando se deram conta que Leonel havia desaparecido.

“Quando eu fui levar a notícia para Ialna, eu ia escabreado, sem saber o que dizer a ela…”, (BONFIM, 2018, p. 190) desespera-se Gabiroba – “Eu sei. Ele já está comigo. E o espírito de tudo que vive novamente se manifesta, e quem vê se alegra pode dançar” (BONFIM, 2018, p. 190). Assim falou Ialna, por meio desse enigma, cuja solução talvez esteja no texto que Darcy Ribeiro nos legou em seu livro O povo brasileiro, obra de uma vida:

“Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos.”

*Escritora, pintora, tradutora. Possui doutorado em Letras (USP) e é professora titular da Universidade de São Paulo (USP). Departamento de Letras Orientais (DLO), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade São Paulo (USP).

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Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa

Por: Renata de Albuquerque

O Brasil e o Japão têm uma longa e sólida História juntos. Primeiro, no início do século XX, os japoneses começaram a chegar ao Brasil. Depois, já no final do mesmo século, descendentes de japoneses nascidos no Brasil atravessaram o oceano em direção contrária a de seus pais e avós. Hoje, são mais de 1,5 milhões de japoneses e descendentes vivendo no Brasil.

Tudo começou em 1908. No dia 18 de junho, o navio Kasato Maru chegou no Porto de Santos trazendo 793 pessoas que haviam partido, 52 dias antes, do Porto de Kobe, região central do Japão. Grande parte dos imigrantes – não só os vindos no Kasatu Maru – fixou-se em São Paulo e transformou a capital paulista na maior colônia japonesa do mundo fora do Japão.

Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa, livro que acaba de ganhar uma nova edição da Ateliê, narra parte desta história, contada pelo autor, Tatsuzô Ishikawa, que, em 1930, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru, como imigrante individual com auxílio do governo. Com este livro, que descreve a imigração japonesa no Brasil, Tatsuzô ganhou o primeiro prêmio Akutagawa – o prêmio literário de maior valor no Japão, instituído em 1935. O livro tem tradução de Maria F. Tomimatsu, Monica Okamoto e Takao Namekata.

Sôbô é um retrato de algo que chocou seu ator: as condições em que os japoneses migraram para o Brasil. A vida no Japão estava difícil – e endureceria ainda mais no período da Segunda Guerra. O livro originou um estilo que consagrou Tatsuzô: o romance social. Como explica o jornalista Sakae Ishikawa no prefácio do livro, o estilo de Tatsuzô, seu pai, é o de “perguntar ao mundo em forma de romance”.

Tudo começa na hospedagem em que os imigrantes ficavam em Kobe. Ele descreve não  apenas o lugar, mas a expectativas das pessoas que esperavam pela viagem que poderia levá-las a um lugar melhor. A segunda parte da narrativa dedica-se à viagem em si. Já a terceira parte fala da chegada ao Brasil, com ênfase na população de trabalhadores rurais.

O título do livro já explica muito do que seria essa saga. Sôbô é uma palavra composta por dois ideogramas. “Sô remete a Sôsei, ‘povo’, ou ‘cor de capim’, ‘apressar-se’, ‘envelhecer’. Bô, a ‘imigrante’, ‘povo subjugado’. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível”, explica Marilia Kubota.

A escolha desse viés para retratar os imigrantes japoneses é uma inovação de Tatsukô. Grande parte da literatura sobre o assunto se debruça sobre a individualidade, a tradição cultural do antigo Japão e a vida da classe média alta urbana. Poucos dão espaço ao trabalhador rural e as dificuldades por quais passam: a barreira da língua, dos costumes e até mesmo da alimentação em um país tão distante e diferente.

Apesar de, nos anos 30, ter ficado apenas cerca de seis meses no Brasil, Tatsuzô – que faleceu em 1985 – guardou lembranças do país por toda sua vida e retratou-as com maestria em Sôbô. 

Leia nas férias

Quem ama livros, sempre aproveita o frio e o tempo mais livre das férias para colocar as leituras em dia. Mas julho está acabando. Para incentivar os leitores a continuarem a investir seu tempo nas leituras que dão prazer (não apenas as obrigatórias), A Ateliê Editorial está estendendo a campanha “Leia nas Férias”.

A proposta é dar opções de livros que podem ser lidos como um “combo”, seja porque tratam de assuntos correlatos, ou porque são dos mesmos autores. São muitos assuntos, para todos os gostos: língua portuguesa e semiótica, literatura realista, equilíbrio e natureza, arquitetura, design, arte, cinema, filosofia, sociologia, música, literatura grega, idade média, ficção e literatura portuguesa.   

Gostou? Então, veja alguns livros da seleção:

A Capa do Livro Brasileiro

Mesclando a análise da evolução das capas com a história do desenvolvimento do livro, dos editores e dos capistas, Ubiratan Machado oferece uma visão ampla e consistente da história do livro brasileiro do ponto de vista de suas capas. O autor costura a história das capas na trajetória das principais escolas literárias do período em tela, ressaltando as interações entre forma e conteúdo. 

Bibliomania

Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, dois jovens eruditos que têm em comum a paixão pelo livro e pela história, falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema, como só os verdadeiros escritores têm a ousadia de fazer.
Bibliomania é uma cooperação harmônica entre alguns atores do mundo editorial (autor, editor e designer) que veem o livro como uma terra de palavras, de acolhimento e de deleite.

A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade

Lição Aproveitada

No vasto campo dos estudos de literatura comparada, o professor João Manuel dos Santos Cunha escolheu como tema o encontro de Mário de Andrade com o cinema. O autor seduz, “andradinamente”, com todas as informações hoje disponíveis sobre as relações do cinema com a literatura, o que faz deste livro leitura obrigatória tanto nos cursos de letras como nos cursos de cinema. Para os que fazem cinema, na teoria e na prática, ou para aqueles que apenas veem filmes, este livro nos desvenda prazerosamente a mágica inventora de uma obra-prima do Modernismo brasileiro, Amar, Verbo Intransitivo. De como Mário de Andrade “escreveu” um filme, ou “viu” um romance.

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor

 Eliete Negreiros apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.

Literatura Grega: Irradiações

Conceitos gregos (ser, logos, dialética, ética, política) agitam o pensamento agora. Inquietações de tragedistas atenienses voltam ao palco em peças contemporâneas. Procedimentos narrativos de Homero são reelaborados na prosa de Guimarães Rosa. Do romance, o gênero sem limites, encontram-se prenúncios nas invenções literárias de Platão. Os gêneros gregos continuam a gerar.