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Guilherme de Almeida, tradutor de Wilhelm Busch

Por Renata de Albuquerque

 

A pesquisadora Simone Homem de Mello, que está lançando Histórias em Imagens e Versos – Wilhelm Busch Traduzido por Guilherme de Almeida, conta, nesta entrevista, como a obra de Wilhelm Busch começou a fazer parte de sua vida e como um jantar deu origem a um projeto audacioso de traduzir e reposicionar a obra do autor alemão considerado um dos precursores das histórias em quadrinho.

Quando tomou contato com a obra de Busch, foi na esfera infanto-juvenil?

Simone Homem de Mello No final do primeiro ano do ensino fundamental, a professora me deu de presente Juca e Chico, de Wilhelm Busch em tradução de Olavo Bilac. Ela escreveu o meu nome na página de rosto com uma caligrafia ornamental, altamente atraente.  Curiosamente, foi um dos únicos livros infantis que guardei ao longo da vida. Essa época coincide com a reedição que a Melhoramentos fez da série “Busch”, então ampliada e denominada “Juca e Chico”.

Quais são suas lembranças dessa época e que impressões essa obra lhe causou?

SHM: Depois de tanto tempo, recordo-me apenas do prazer de folhear o livro. Esse prazer retorna quando folheio a presente edição da Ateliê, editora conhecida pelo cuidado editorial e gráfico de seus livros. Mas também lembro que aquele livro da Melhoramentos – talvez a brevidade daqueles dísticos rimados, em contraponto com a imagem – me transmitia uma vivacidade euforizante. Talvez também tenha sido uma das primeiras experiências de se estar lendo “um livro inteiro”.

Simone Homem de Mello, em foto de Gabriela Pelosi

Quando percebeu que Busch ultrapassava a barreira do rótulo de infanto-juvenil? O que lhe causou essa percepção?

SHM: Foi quando eu estava estudando Letras Anglo-Germânicas na USP e me deparei com esse clássico da literatura alemã. Lembro-me quando atinei que era o mesmo autor daquele livro da infância. E, ao comentar o fato com amigos, descobri dois que também tinham Busch bem vivo como lembrança de infância. Uma surpresa semelhante à de uma geração que assistia à série de TV Sítio do Pica-Pau Amarelo na infância e só depois (re)descobriu que a música de abertura era de Gilberto Gil. De qualquer forma, o livro por meio do qual eu tinha conhecido a obra de Busch – Juca e Chico – era originariamente destinado a crianças. Sendo Busch, até mesmo na Alemanha, primordialmente identificado com a literatura infantil, esse ficou sendo durante muito tempo o lugar dele no meu repertório literário. Só quando descobri as traduções que Guilherme de Almeida havia feito de textos de Busch publicados em semanários humorísticos, notei que os textos veiculados pela Melhoramentos na década de 1940 como livros infantis tinham como alvo, em sua origem, o leitor adulto.

Por favor, fale brevemente sobre seu percurso como germanista.

SHM: Embora eu também tenha estudado Inglês e Português da Faculdade de Letras da USP, era o Alemão a minha primeira opção. Naquela época, grande parte da literatura alemã era traduzida por intermédio de outras línguas, como o inglês ou o francês. Daí a minha curiosidade por uma língua “rara”, com a qual não se tinha contato nem por meio de traduções. Prossegui formalmente os meus estudos como germanista durante o mestrado, na Universidade de Colônia, no qual abordei a relação entre texto e imagem na obra de Jochen Gerz, um artista que se iniciou na Poesia Concreta e depois aderiu à Arte Conceitual. No meu doutorado em Estudos da Tradução, na Universidade Federal de Santa Catarina, estudei e traduzi um autor alemão moderno, Arno Holz, que foi introduzido no repertório literário brasileiro por Augusto e Haroldo de Campos. Nos quase 20 anos que passei na Alemanha, sempre me dediquei muito à língua, à literatura e à cultura alemãs, associando essas investigações às minhas atividades de autora e tradutora.

Em que momento debruçou-se no estudo de Guilherme de Almeida? Seu interesse pela poesia alemã de alguma forma teve influência nisso?

SHM: Apenas quando retornei ao Brasil e passei a coordenar o Centro de Estudos de Tradução Literária na Casa Guilherme de Almeida me debrucei sobre a obra do poeta-tradutor paulista e o descobri como tradutor de Wilhelm Busch. A combinação de rigor e vivacidade em suas traduções, sobretudo da poesia francesa, me impressionou muito.

Wilhelm Busch em foto da década de 1860

Como nasceu a ideia do projeto deste livro? Por que acha importante ressignificar a obra de Busch, para além da esfera infanto-juvenil? O que acha que o grande público leigo pode ganhar com essa “nova visada” do autor alemão?

SHM: A ideia de editar Busch pela Ateliê veio do próprio Plínio Martins. Quando ele me visitou em Berlim, acompanhado de seu filho, na sequência da Feira de Frankfurt de 2008, fomos jantar no restaurante Max und Moritz (no bairro de Kreuzberg), um local que traz o nome dos heróis da história traduzida por Bilac como Juca e Chico. É um restaurante de comida tradicional alemã cujos pratos recebem os nomes de personagens da obra mais famosa de Busch. Na ocasião, o Plínio comentou comigo que pretendia reeditar Juca e Chico. Essa conversa ganhou significado posteriormente, quando “descobri” as traduções de Guilherme de Almeida. Quando propus este outro recorte da obra do Busch, ele concordou imediatamente em editar; afinal, esse autor alemão já fazia parte dos seus planos. O mais importante da presente edição da Ateliê, além de ela resgatar um autor satírico alemão para o público geral, fora da esfera infanto-juvenil, é o fato de ela destacar a arte da tradução como objeto central. A tradução geralmente é vista como um mero instrumento para a compreensão da obra original e até mesmo como um mal necessário, quando não dominamos uma língua da qual gostaríamos de ler. Esse livro mostra o grau de elaboração que a tradução pode atingir como obra de arte, como resultado estético autônomo. Sinceramente, não me recordo de ter visto nenhum livro no mercado editorial brasileiro que abordasse a literatura traduzida com tanta ênfase ao processo de escrita e de tradução.

 

I Prêmio Nacional de Poesia SPA

Em homenagem ao aniversário dos 400 anos da cidade de São Pedro da Aldeia (SPA), na região dos Lagos/RJ, acontecem até dia 18 de agosto as inscrições para o I PRÊMIO NACIONAL DE POESIA SPA.

Podem participar poetas de todo o Brasil. Os detalhes estão no link http://www.crisdakinis.com/2017/05/i-premio-nacional-de-poesia-spa.html

Dez Mitos Sobre os Judeus faz sucesso na Espanha

Lançado em 2015 no Brasil, Dez Mitos Sobre os Judeus ganhou o mundo em edições traduzidas para outras línguas. Agora chegou a vez da Espanha, onde “Diez Mitos Sobre Los Judíos” tem sido aclamado.

Dez Mitos sobre os Judeus

O livro de Maria Luiza Tucci Carneiro, originalmente publicado pela Ateliê Editorial com o apoio do Conip, tem como objetivo desvendar não só a imagem do povo judeu, como também entender como acontece o processo de manipulação da mentira e a compreensão da verdade nos mundos atuais. Nesse sentido, a autora busca as raízes do antissemitismo, questiona sua proliferação, seu discurso e aplicação no mundo contemporâneo. O livro reúne os dez mitos mais populares sobre esse povo e é composto por textos breves que, apesar de numerados, são independentes, sem ordem obrigatória de leitura.

O assunto desperta interesse de leitores de todas as partes, pois os judeus marcam presença ao redor do mundo todo. Veja a seguir alguns destaques da imprensa espanhola.

 

Mas, se quiser ler em português, ele está disponível no site!

“Temos que redimensionar o papel de Lima Barreto na literatura brasileira”, diz pesquisador

Por Renata de Albuquerque

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é um caso raro na literatura brasileira. Apesar de escrito por um dos mais importantes autores nacionais, é um livro pouco lido, pouco conhecido, pouco estudado e pouco editado. No ano em que Lima Barreto é escolhido o autor homenageado da FLIP – Festa Literária de Paraty – a Ateliê Editorial repara este equívoco e lança, em uma edição especial, o romance.

O volume é organizado por Marcos Scheffel, professor da UFRJ, que fala a seguir sobre este livro ainda obscuro de Lima Barreto:

Marcos Scheffel

O que o levou a estudar esta obra, que, ao contrário de outras de Lima Barreto, ainda é praticamente desconhecida do público?

Marcos Scheffel: Em 2005, ingressei no mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina sob orientação da professora Helena Fava Tornquist. No mestrado, meu trabalho estava focado no Recordações do Escrivão Isaías Caminhas e nas anotações da intimidade de Lima Barreto. Foi ali que conheci mais de perto o Vida e Morte, vindo a descobrir que os dois romances (Vida e Morte e Recordações) tinham sido idealizados pelo autor num período semelhante. Quando ingressei no doutorado, em 2007, comecei a perceber as relações do Vida e Morte com as crônicas de Lima Barreto, que ganharam maior visibilidade a partir do livro Toda Crônica de Lima Barreto, organizado por Beatriz Resende e Rachel Valença. Além da qualidade estética, acredito que o fator determinante para escrever sobre o Vida e Morte – que resultou na tese Estações de passagem da ficção de Lima Barreto (UFSC, 2011) – foi justamente a menor incidência de estudos a respeito deste romance, que normalmente era citado de maneira vaga.

 

A demora em publicar o livro leva a crer que Lima Barreto pode ter reescrito vários trechos. Há registros desse processo?  Se sim, o que se pode apreender do que apontam as alterações?

MS: Há uma série de apontamentos sobre o romance que foram colocados por Francisco de Assis Barbosa no Diário Íntimo de Lima Barreto no ano de 1906. No entanto, essa data pode ser imprecisa, pois, como explica o biógrafo, foi baseado no texto “Explicação necessária”, em que o personagem narrador Augusto Machado explica os motivos que levaram a escrita do livro, que esse conjunto de anotações foi posto neste ano. Acredito que estes apontamentos sejam deste período ou de um período próximo. Isso pode ser comprovado por uma crônica publicada na Revista Fon-Fon em abril de 1907 e recentemente descoberta pelo pesquisador Felipe Botelho Corrêa. A crônica é na verdade o que viria a ser o terceiro capítulo do romance, intitulado Emblemas Públicos, com pequenos acréscimos. Além desse aproveitamento, há temas e técnicas comuns a produção do cronista Lima Barreto.

No texto de abertura da edição da Ateliê, algumas razões para que o livro não se tornasse tão conhecido são elencadas. Para quem ainda não teve acesso a esta edição, o que se poderia destacar a respeito? Por que esse texto se manteve quase desconhecido ao longo do século XX, mesmo depois da morte do autor?

MS: Este romance foi publicado pela primeira vez em 1919 pela Revista Brasileira sob a direção de Monteiro Lobato, que nutria grande admiração pelo autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Apesar de ter recebido uma prêmio da Academia Brasileira de Letras, o romance encalhou. Para Lobato, os motivos desse encalhe teriam sido o título longo pouco atrativo e a percepção

dos leitores que se trataria da biografia de algum desconhecido. A partir dos anos 40, Vida e Morte ganha novas edições como a da Mérito (1943), com um belo prefácio de Paulo Rónai, e da Brasilense (1956) nas obras completas. Essas edições eram acompanhadas de uma série de contos – muito provavelmente por conta do tamanho do romance, que no caso da edição da Brasilense fugiria aos padrões dos demais volumes (tratava-se de padronização do formato, mas que trazia a ideia que o romance em si não bastava). No correr das décadas seguintes, Vida e Morte não mereceu tanta atenção da crítica, dos leitores e do mercado editorial – gerando uma espécie de ciclo de esquecimento. Espero que a partir desta edição possamos ver novos estudos sobre esta importante obra.

Lima Barreto, homenageado na FLIP 2017

Lima Barreto é um escritor que imprime em sua obra uma forte crítica ao seu tempo. Em “Vida e Morte…” temos um narrador mulato. Como isso ecoa na obra?

MS: No ensaio “Os olhos, a barca e o espelho”, Antonio Candido afirmava que Lima Barreto teria uma grande capacidade de criação quando queria apenas registrar (citando um exemplo do Diário Íntimo) e por outro lado quando queria “criar” via sua obra invadida por dados pessoais e por um engajamento demasiado. Uma objeção que faria a essa observação é que o Diário Íntimo é na verdade um livro montado / organizado depois da morte de Lima Barreto com apontamentos que o autor fazia com um nítido propósito ficcional, ou seja, há muito pouco de Diário ali, de registro das pequenas coisas do cotidiano.  Na minha percepção os romances de Lima Barreto sempre trazem essa perspectiva subjetiva que era uma marca da escrita dele, que pode ser percebida inclusive nas suas crônicas que são marcadas por um registro poético do cotidiano e por um desejo de diálogo e de ação na cena pública. A denúncia ao preconceito racial surgiu como uma necessidade de expressão de algo vivenciado por ele de uma maneira dramática.

 

Para o leitor do século XIX, que interesse “Vida e Morte…” pode despertar? Que questões ainda atuais o livro carrega?

MS: São muitas questões atuais, como a crítica à burocracia e ao uso da coisa pública em favor próprio

 

(no caso as críticas que são feitas ao Barão do Rio Branco). Tendo trabalhado muitos anos como amanuense, Lima Barreto pode observar as coisas mais antirrepublicanas que aconteciam na República e nunca deixou de denunciá-las.

 

Lima Barreto é um autor cujas obras têm um cunho político e filosófico/ideológico bastante acentuado. O que há em “Vida e Morte…”, sob este aspecto, que pode ser destacado?

MS: Lima Barreto apresenta no livro uma visão histórica que se opunha à visão Positivista (teleológica) que predominava em nosso meio intelectual. Quando havia um coro favorável a se soterrar nosso passado colonial, ele trazia uma noção relativa do belo e de uma história que não devia ser lida de maneira linear.  Aqueles prédios que eram considerados “feios” no início do século XX e que deveriam ser derrubados para modernização da cidade traziam um registro de outras épocas, de outras formas de ver o mundo. Nesse sentido, um dos trechos mais bonitos do livro é quando Gonzaga de Sá apresenta sua visão da história da cidade, uma visão que pressupõe o entrecruzamento de diferentes tempos que podiam ser percebidos numa caminhada ou num passeio de trem.

 

Quais inovações estéticas o livro traz?

MS: O romance praticamente não tem enredo, como observou Paulo Rónai. O enredo consiste basicamente nos diálogos entre Gonzaga de Sá e Augusto Machado (que relembra essas conversas com o velho funcionário público). Nesse sentido, temos um livro composto em quadros, com tomadas quase cinematográficas, como por exemplo, a cena em que o caixão de um personagem é transportado no trem da central do Brasil num domingo de sol em que as famílias saíam para passear. Tudo é visto da janela do trem e do bonde dando uma impressão cinematográfica. É um romance visual, imagético e marcado por percepções líricas do cotidiano. Isto era bastante inovador se pensarmos que foi um romance escrito em 1919 – três anos antes da Semana de Arte Moderna.

 

Lima Barreto é o homenageado da FLIP deste ano. Qual a importância de editar “Vida e Morte…” neste contexto?

MS: Um evento como a FLIP traz uma grande visibilidade para o autor homenageado. Há um movimento importante do mercado editorial com o lançamento de novas edições e estudos sobre o autor. Para aqueles que não conhecem o autor, é a oportunidade de travar um primeiro contato. Para os que já admiram a obra de Lima Barreto será um momento de atualizar os debates em torno de sua obra. Estou muito ansioso para ver todas as discussões que surgirão a partir da FLIP.

 

O que há, ainda, para ser (re)descoberto sobre a obra de Lima Barreto?

MS: Há muitas pesquisas ligadas a arquivos. Destaco por exemplo o trabalho da professora Carmem Negreiros (UERJ) em torno de uma série de recortes de jornais colecionados por Lima Barreto e com anotações pessoais às margens desses recortes. Também é necessário entender a ligação de Lima Barreto com os jornais e revistas onde publicou suas crônicas no sentido de termos uma clareza maior sobre a orientação dessas publicações (para que público se dirigiam, periodicidade, tiragens, posicionamentos ideológicos etc). Por fim, acho que temos que redimensionar o papel de Lima Barreto na literatura brasileira dando maior relevo ao seu projeto estético e ao fato de ter produzido uma obra significativa apesar de sua morte precoce aos 41 anos de idade.

Rosário Fusco ganha perfil escrito por Ronaldo Werneck

Ronaldo Werneck foi amigo de Rosário Fusco durante anos e acaba de lançar “Sob o signo do imprevisto”, em que traça um perfil do autor de ASA – Associação dos Solitários Anônimos.

O Correio Braziliense deu destaque ao lançamento: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2017/06/10/interna_diversao_arte,601515/ronaldo-werneck-traca-retrato-poetico-do-escritor-mineiro-rosario-fusc.shtml

Entre o Vivido e o Imaginado

Renato Tardivo*

 

Afonso Segreto

No dia dezenove de junho comemorou-se mais um dia do cinema brasileiro. Trata-se da data em que foram realizadas as primeiras filmagens no Brasil. O ítalo-brasileiro Afonso Segreto fez tomadas da Baía de Guanabara em 1898.

Desde então, o cinema brasileiro foi atravessado por uma série de tendências e movimentos culturais. Muitas vezes, mais uma de tendência esteve em cartaz simultaneamente – é o caso da Pornochanchada e do Cinema Marginal.

 

 

A vista da Baía de Guanabara feita por Afonso Segreto

Recentemente notamos duas tendências majoritárias: as comédias que visam ao entretenimento em uma linguagem muito próxima da televisiva e os filmes que, sem maior pretensão de bilheteria, filmam o Brasil e o brasileiro, convocando o espectador para dentro da tela.

O cineasta Kleber Mendonça Filho destaca-se, neste segundo grupo.. Seu cinema histórico e poético centra-se em Recife – em um quarteirão, como em O Som ao Redor (2012), ou em um edifício, como em Aquarius (2015). Até agora, esses são seus dois longas.

Em O Som ao Redor, a câmera transita entre o interior (das residências e personagens) e o exterior. Dentro, “ouve-se” a imagem de fora; fora, “ouve-se” a imagem de dentro. O foco narrativo são os ruídos. A temática do filme é abordada pelo mergulho no particular.

Esse mergulho  se potencializa em Aquarius. A câmera adentra tanto o apartamento de Clara, a protagonista, como a própria personagem. Com o câncer e os cupins como pano de fundo, ambos associados à destruição, o filme aborda a questão da resistência.

Conquanto os dois filmes enquadrem um perímetro muito restrito de Recife, suas temáticas são universais. Esse trânsito de dentro para fora reflete um cinema de ficção em íntima comunicação com a realidade. Kleber Mendonça Filho filma o Brasil e propõe um resgate inovador da História. Seu cinema de ficção comunica algo novo ao habitar a linha tênue, quase invisível, entre o vivido e o imaginado.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

As Bibliotecas de Maria Bonomi e a Revista LIVRO 6

Maria Bonomi dispensa apresentações, mas a próxima exposição com as xilogravuras que fez para a revista Livro merece comentários.

Ao conhecer a revista LIVRO, do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE), da Universidade de São Paulo, Maria empolgou-se e resolveu fazer 23 xilogravuras de bibliotecas do mundo.

 

O NELE dedica-se a estudar os mais variados aspectos que se referem ao livro, desde sua produção, confecção e edição até os múltiplos assuntos que o fazem. Maria tratou de simbolizar, em suas xilogravuras, os espaços que o guarda: as bibliotecas. Juntos, fizeram a sexta revista LIVRO.

Em 3 de maio de 2017, na hoje conhecida Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, será inaugurada uma exposição com as Bibliotecas de Maria, xilogravuras, ao lado de outras obras que a artista fez ao longo de sua trajetória e que foram impressas em jornais e outras revistas. Também estarão expostas ilustrações que a artista produziu para o livro de poemas infantis de Cecília Meireles, Ou Isto ou Aquilo, assim como diversas matrizes de madeira que ela sulcou para diferentes publicações.

Esse conjunto de obras foi reunido para lançar o sexto número da revista LIVRO, que traz várias das bibliotecas da artista. Como afirma uma das curadoras da mostra, Mayra Laudanna, essa ideia de reproduzir obras de artistas na revista do grupo NELE possibilitou a montagem dessa exposição que procura evidenciar a diferença que existe entre as obras que são realizadas para ilustrarem livros de outras imagens impressas em publicações, como as que são inseridas em livros sem qualquer relação com o texto e os trabalhos que são feitos a partir de uma ideia, “como essas xilogravuras que Maria Bonomi fez, que referenciam bibliotecas do mundo, para serem reproduzidas em uma revista que trata das artes do livro”.

SERVIÇO

Curadoria: Mayra Laudanna e Bianca Dettino – IEB

Realização: NELE, Ateliê Editorial, Perceu USP, BBM, IEB

Apoio: Negrito, LIS, Confraria 17

Local: Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Endereço: Av Prof. Luciano Gualberto, 78 – Cidade Universitária

Data: de 3 a 26 de maio de 2017

Tel: 2648-0310

Traduzir é uma ação política

Por: Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa*

 

Há muitas maneiras de se posicionar politicamente. Uma delas é traduzir. Escolher os clássicos gregos para verter ao português brasileiro é também um ato político. Em primeiro lugar, porque os gregos formaram, filosófica e literariamente, muitas das culturas ocidentais. Entender e conhecer o mundo helênico já é meio caminho andado para detectar as escolhas de múltiplos povos. Em segundo lugar, porque lá se plantaram raízes que ainda hoje dão frutos variados (decorrentes de escolhas mais ou menos acertadas) até mesmo nas terras brasílicas. Na literatura, por exemplo, vê-sea genética grega nas obras de Machado de Assis, Ariano Suassuna, João Guimarães Rosa, Dora Ferreira da Silva, Milton Hatoum, Chico Buarque de Hollanda, Ana Martins Marques e tantos outros.

O modo de lidar com a invenção de cidades e das formas de convivência urbana é, igualmente, um ato político. Com seus traumas e soluções próprias, o modo de viver coletivo transparece de forma diversificada, limpa e bela nas filosofias e literaturas de cada terra. Das palavras dos gregos, vários regimes de governo germinam.O senso comum difunde que eles inauguraram a democracia. Entretanto, esses clássicos que chamamos gregos inspiraram e inspiram não só monarcas sábios e oligarquias, mas também tiranias. De Édipo a Sócrates, muitas opções há de como governar. Conhecer as palavras da velha Hélade é percorrer um substrato basal que permite trocas e mudanças de posição com muita gente diferente: franceses, ingleses, norte-americanos, japoneses, indianos, alemães, árabes, australianos, portugueses, italianos, espanhóis, argentinos, chilenos, brasileiros… Através dos tempos, corpos e mentes desse mundão afora leram áticos, jônios, dórios e espartanos (sim, pois o conceito de “grego” tampouco é uno e monolítico). Nessa gente toda, palpitam ideias conflitantes nascidas desse terreno filosófico e literário que ainda lemos contemporaneamente. Cada língua, cada país, cada indivíduo escolhe o que mais palatável, saboroso, afim e útil lhe parece.

Assim também o tradutor. No momento da escolha de uma obra, já começa sua ação política. O que traduzir, como e por que, cabe a ele, de fato, definir. É também ele quem determina se os antigos falarão como subalternos, tiranos, democratas, oligarcas ou deuses inacessíveis e inabordáveis. Ao tradutor é dado arrebatar do dicionário a palavra que definirá, por exemplo, a famigerada πόλις: se pólis, metrópole, cidade, urbe, vila, pátria, torrão natal, província… E cada opção revela intenções e comprometimentos. Da mesma maneira, cada um lerá o que escolher, sob o influxo do afeto que carregar à hora da leitura. As escolhas de um tradutor e de um leitor vão do léxico à sintaxe, da clareza à obscuridade, do gênero textual ao tom que se dá na intepretação desse gênero; dependem do ritmo de leitura, da moda, do mercado, da circunstância ou mesmo de uma intervenção da sorte (para os gregos, τύχη, para os latinos, fortuna)…

A minha eleição é pelo teatro, manifestação que considero política já no nascedouro. As traduções que procuro fazer são quase sempre coletivas. Talvez esse tipo de arte tenha mesmo a cooperação como exigência de fundo, pois decorre do esforço do poeta e do tradutor congregado ao do elenco, do diretor, do cenógrafo, do iluminador, do figurinista e de toda uma equipe nos bastidores…Baseio-me, preferencialmente,nas pesquisas de Ariane Mnouchkine e de Augusto Boal. Isso significa adesão ao processo colaborativo de criação durante o desenvolvimento da tradução, flexibilidade hierárquica e comprometimento com a formação intelectual de um público diversificado. Por isso, tais traduções buscam se pautar por acessibilidade, horizontalidade e flexibilidade nas relações entre texto e espetáculo.O meu trabalho é permeado sempre por um ”nós”.

São traduções de natureza processual e aplicada, marcadas pela preocupação funcional, rítmica, sonora e interpretativa. A prosódia é imperativa: buscamos frases e palavras confortáveis para o ator, pois o texto precisa ser “falável”, agradável e compreensível. Sob a influência de Boal, nossa meta é pedagógica, política e extensiva a todos que a acolham; em razão disso, os textos de base para a tradução são tomados dentre os que estão no domínio público.

Há bons portais na internet de textos gregos, constituídos por um repositório comum e um saber partilhado tornado público; por motivos óbvios, não ferimos direitos autorais; parte da publicação é doada – porque financiada por órgãos governamentais – e os espetáculos são gratuitos e itinerantes.

Eu, particularmente, gosto de pensar que, assim, mesmo trabalhando com um legado tão refinado e acessível a tão poucos, posso estar fazendo democracia. Acredito que conhecer a cultura helênica é buscar compreender,lidando e dialogando, o humano com culturas de facetas múltiplas e de posições políticas particulares em todasas partesda terra. Isso alarga nosso campo de visão e nos torna capazes de trocar ideias; saímos de nós mesmos e comunicamo-nos facilmente com todos os que têm por território comum a cultura que chamou de γαῖα aquilo que chamamos terra.

 

*Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa é Professora Titular de Língua e Literatura Gregas na Universidade Federal de Minas Gerais. Tradutora de Medeia, Electra e Orestes pela Ateliê Editorial. Diretora da Trupe de Tradução de Teatro Antigo (Trupersa) e coordenadora do Grupo de Tradução de Teatro (GTT/CNPq/UFMG); bolsista de produtividade pelo CNPq.

 

Conheça as obras de Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa