O Pai de Max Bauer e Outros ContosLançamento da Ateliê Editorial e da revista Brasileiros reúne narrativas curtas de Marcos Rodrigues publicadas mensalmente na revista

Desde outubro de 2008, Marcos Rodrigues vem colaborando com a revista Brasileiros e traz sempre o seu olhar arguto sobre situações cotidianas. Na divisa entre o registro irreverente da crônica e a magia sintética do conto, suas narrativas, com espaço pré-definido de uma página, convidam o leitor a refletir sobre a mágica de algumas experiências aparentemente ordinárias, como no conto Um Grande Circo. “[...] as coisas do circo encantam porque são metáforas significativas para todos nós [...] Quem já não enfiou a cabeça na boca do leão? Quem já não se sentiu alçado em voo incerto? Quem já não foi aparado por um braço forte? Quem já não caminhou no arame? Quem não empilha coisas sobre a cabeça? Quem não se sentiu como leão domado contido por chicote?”

As narrativas de Marcos Rodrigues revelam o amor, a amizade, a inveja, a sensação de perda, o desalento, o medo da morte, a generosidade, a luxúria e o papel da memória nas relações humanas no mundo contemporâneo. O contador de histórias, que também é personagem, é bom observador do que se passa à sua volta, e dono de um senso de humor surpreendente, às vezes tendendo para a ironia ou muito próximo da sátira, como nos contos Lata 83, Uma Bobagem, Lambanças e Sasta. Marcos Rodrigues tem uma maneira rara de observar e descrever o mundo. Para Ricardo Kotscho, “Marcos Rodrigues escreve como quem fala e tem um texto bom de ler que nos faz sentir e pensar”, e acrescenta: “Se eu fosse você, não deixaria de ler uma única linha deste livro”.

Marcos Rodrigues é PhD pela Universidade de Cambridge. Foi Professor Titular da USP e consultor da ONU. É autor do livro de contos Choro de Homem (Ateliê Editorial, 2001) e um dos vencedores do concurso de contos 50 Anos de Bossa Nova, do jornal O Estado de S. Paulo. Desde 2008, escreve “Pequenos Contos” regularmente na Revista Brasileiros.

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Documentário de Eduardo Coutinho

É inevitável a comparação entre As Canções (2011), documentário mais recente de Eduardo Coutinho, e Jogo de Cena (2007), também dirigido por ele. Os dispositivos são praticamente os mesmos: o depoente diante da plateia vazia, Coutinho, o entrevistador, no contracampo e fora de quadro. E só. Ou quase.

Jogo de Cena, talvez o melhor documentário realizado no Brasil na última década – e sem dúvida um dos melhores de todos os tempos –, põe em questão o embate entre realidade e ficção, atriz e personagem. Sentado, de frente para a platéia vazia, o diretor Eduardo Coutinho conduz a entrevista. Depois, uma nova história, contada/vivida por mais uma mulher. Mas, no meio do depoimento, entra em cena outra pessoa, vivendo a mesma história. Ora trata-se de atrizes conhecidas, ora menos conhecidas; às vezes trata-se de anônimas. O efeito é perturbador. O espectador não distingue quem de fato viveu o drama e quem o está interpretando, com a plateia invisível ao fundo. Atrizes desconhecidas podem estar interpretando, atrizes conhecidas podem contar eventos de suas vidas pessoais, muitas são as possibilidades – os pressupostos são postos em sobressalto. E então, como diria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, toda tentativa de elucidação traz de volta o enigma: a história salta.

O que mais Coutinho poderia desenvolver então, valendo-se de formato análogo, neste As Canções? Em entrevista a Nina Rahe, o próprio admite: “[...] Sei que a crítica irá dizer que [o filme As Canções] é uma diluição de Jogo de Cena e que não fui adiante, mas existe nele algo sobre música que nenhum outro filme possui, pois é possível entender que a canção e o Brasil têm algo de particular. É também um trabalho em que deixo de perguntar às pessoas coisas como ‘onde você nasceu’. Não quero fazer mais isso e dessa forma sinto que parei”.

De fato, em certa medida, não se veem muitas novidades em As Canções. O que se percebe primeiro é que, desta vez, ao invés do cruzamento de histórias, o fio condutor do longa-metragem são as canções que marcaram a vida dos homens e mulheres entre 22 e 82 anos. Os depoimentos são tocantes e, se o efeito não é arrebatador como em Jogo de Cena, é bonito contemplar as “dores e delícias” daquelas vidas que se desfiam a partir das canções e a elas retornam.

Em um texto curto mas fundamental – ”Notas sobre o Bloco Mágico” (1925) – Freud traça uma analogia entre o aparelho psíquico e o bloco mágico (nos dias de hoje, o brinquedo é conhecido como “lousa mágica”). Escreve Freud: “O Bloco Mágico é uma tabuinha feita de cera ou resina marrom-escura, com margens de papelão, sobre a qual há uma folha fina e translúcida, presa à tabuinha de cera na parte superior e livre na parte inferior. Essa folha é a parte mais interessante do pequeno aparelho. Consiste ela mesma de duas camadas, que podem ser separadas uma da outra nas bordas laterais. A camada de cima é uma película de celuloide transparente, a de baixo é um papel encerado, ou seja, translúcido. Quando o aparelho não é utilizado, a superfície de baixo do papel encerado cola-se levemente à superfície de cima da tabuinha de cera” (trad. Paulo César de Souza). Os traços ficam permanentemente marcados na cera embora possamos levantar a dupla folha que a cobre e supostamente “apagar” o que fora escrito, liberando assim espaço para novas inscrições.

O que as canções revelam, no longa de Coutinho, são as marcas presentes na tabuinha de cera. Como um sonho, as músicas reativam as inscrições do vivido, as quais por sua vez adquirem novas tonalidades diante do entrevistador, como se a câmera – e aqui a analogia com a película é inevitável – fosse mais uma camada das folhas do bloco mágico. Quer dizer, há um duplo movimento (literalmente) regido pelas músicas: ao mesmo tempo em que ocorre o resgate do passado, o próprio processo é fundante de uma nova experiência e, portanto, de novas possibilidades.

Coutinho se deu conta disso em Jogo de Cena? Não podemos saber. Ocorre que, se no documentário de 2007 o diretor sentava-se diante da plateia, assumindo a condição de artista (não custa lembrar que há um fino trabalho de edição, fundamental para o efeito produzido pelo filme), em As Canções quem se senta diante da plateia, vazia como em Jogo de Cena, são os entrevistados. Campo e contracampo se invertem. Coutinho assume a perspectiva do público; enquanto espectador, agora ele é a plateia. E, enquanto tal, não esconde que fez o filme “por prazer” – a fruição estética que um drama bem contato – ou bem cantado – proporciona. Afinal, de que valem as inscrições no bloco de cera se não forem compartilhadas?

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Livro Trajetória em Noite Escura, de Naoya ShigaA Ateliê Editorial lançou recentemente o romance Trajetória em Noite Escura. Escrito por Naoya Shiga, o livro conta a história de Tokito Kensaku, personagem principal e uma espécie de alter-ego do autor, e tem como pano de fundo o processo de modernização e ocidentalização da sociedade japonesa. Kensaku vive em conflito consigo mesmo e com o mundo que o rodeia: ou pertence à velha guarda e não aceita os novos costumes que se impõem, ou tem espírito inovador. Ele sente dificuldade de encontrar-se no limiar entre o velho e o novo e para recompor sua identidade faz três viagens, que irão revelar para o leitor o eu profundo do protagonista.

No começo do século XX, o Japão, um país de tradições milenares, inicia um processo de abertura para o Ocidente e recebe uma série de influências culturais. Uma delas, no âmbito da literatura, será o naturalismo. Assimilado e desenvolvido pelos grandes escritores japoneses do século, a partir da leitura de Zola, Maupassant, Turgueniev, Dostoievski, o movimento representará artisticamente essa época de profundas transformações e muitas incertezas. Naoya Shiga representa esse período, é um dos principais expoentes da literatura japonesa do século XX e levou cerca de vinte e cinco anos para escrever este romance, sua obra de maior fôlego.

Traduzido por Neide Hissae Nagae, esse trabalho faz parte da sua dissertação “Ficção e Realidade em Trajetória em Noite Escura (An’ya Kôro), de Naoya Shiga” apresentada em 1999, à área de Língua, Literatura e Cultura Japonesa da Universidade de São Paulo. Nagae foi incentivada por sua banca examinadora à publicação dessa tradução, graças ao valor literário da obra e ao ineditismo dos trabalhos do escritor em português. Este livro é estruturado em duas partes e cada parte é subdividida em dois tomos, relativamente longos, com doze a vinte capítulos, totalizando 65 capítulos. Além das duas partes, há uma abertura com o prefácio, que traz os informes sobre o relacionamento de Kensaku, seus pais e o avô paterno, através das memórias da infância do personagem.

Naoya Shiga (1883-1971), escritor bastante prestigiado no Japão, se destacou por seu estilo singelo, sucinto e preciso nas explanações dos detalhes das realidades objetivas que nos cercam – análises detalhadas dos melindres psicológicos do ser humano. Shiga fez parte do grupo Shirakaba, que reunia escritores e pintores apreciadores das literaturas e artes plásticas do Ocidente e Oriente. Apesar de discorrer sobre temas variados em suas obras, sua tônica sempre foi a captação das inconstâncias psicológicas que se processa no protótipo japonês culto, em seu viver do dia a dia, cujo exemplo máximo é sua obra Trajetória em Noite Escura.

Fonte: EDUSP

Com data adiada, a Festa do Livro na USP deste ano será realizada na Escola Politécnica, nos dias 14, 15 e 16 de dezembro. A Ateliê estará mais uma vez presente na feira oferecendo descontos a partir de 50% em todo o catálogo, inclusive nos lançamentos.

Visite-nos e aproveite!

13a Festa do Livro da USP 2011

O livro 50 Livrarias de Buenos Aires foi apresentado dia 18 de novembro, no seminário organizado pela Funceb para debater as políticas de apoio ao livro no Brasil e na Argentina. Estiveram presentes no evento a autora Adriana Marcolini, o fotógrafo do livro Alejandro Lipszyc e  o vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro, Bernardo Gurbanov.

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Dentre as inúmeras programações da Balada Literária, Adrienne Myrtes lançará seu novo romance Eis o Mundo de Fora, no último dia da festa literária, domingo, às 18h, no Centro Cultural b_arco, em São Paulo. O evento será seguido pelo festa de encerramento da Balada, às 20h.

Este é o sexto ano da Balada Literária, que tem Marcelino Freire como curador e Augusto de Campos como homenageado.

Acesse a programação completa da Balada Literária 2011

Eis o Mundo de Fora, romance de Adrienne Myrtes

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Fonte: UBE
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Aziz Ab'SaberO professor Aziz Ab’Saber recebeu nesta última terça, 15, o Troféu Juca Pato, durante a cerimônia de encerramento do Congresso Brasileiro de Escritores, promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE). O Prêmio Intelectual do Ano é entregue a personalidades que publicaram no ano anterior obra relevante para a conjunção política e econômica do país.
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Aziz Ab’Sáber é um dos mais importantes nomes das ciências no Brasil. Sua extensa obra é resultado de trabalhos de campo feitos no país todo. Essas pesquisas contribuíram para diversas áreas do saber, como a geografia, a geo­logia e a arqueologia. Destaca-se sua produção acadêmica sobre meio ambiente, que o torna a maior autoridade em ecologia no país. Professor titular aposentado do Departamento de Geografia da USP, está também ligado ao Instituto de Estudos Avançados da mesma universidade.
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50 Livrarias de Buenos AiresO guia 50 Livrarias de Buenos Aires será apresentado na próxima sexta-feira, 18 de novembro, às 19 horas, na Fundação Centro de Estudos Brasileiros (Funceb), na capital argentina. A apresentação acontece dento do seminário organizado pela Funceb para debater as políticas de apoio ao livro no Brasil e na Argentina, com a participação de representantes dos dois países, Bernardo Gurbanov, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e o presidente da Biblioteca Nacional da Argentina.
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Endereço da Funceb:
Calle Esmeralda 969, Buenos Aires
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Filme adaptado do conto O Curioso Caso de Benjamin Button

O filme O Curioso Caso de Benjamin Button, lançado nos Estados Unidos em 2008, fez sucesso sob a direção de David Fincher, arrebatando, no Oscar de 2009, os prêmios de Melhores Efeitos Especiais, Melhor Direção de Arte e Melhor Maquiagem. Fazem parte do elenco Brad Pitt e Cate Blanchett, dando vida a Benjamin Button e Daisy, personagens adaptados do conto de Francis Scott Fitzgerald, no qual o filme é inspirado.

Lançado em 1921, o conto faz parte da compilação Contos da Era do Jazz e trata de uma interessante inversão na vida de Benjamin Button, homem que nasce velho e rejuvenesce ao longo da vida, até morrer com a idade de um bebê. O conto revela um recém-nascido extremamente inteligente, que fala e age como adulto, tendo inclusive o tamanho de um adulto real. Quando Benjamin chega perto do fim de sua vida, passa a não lembrar-se de seus tempos de faculdade e trabalho, passa a ter sonhos tranquilos e despreocupados e diverte-se mais com brinquedos do que em qualquer outro momento de sua vida. Diminuindo de tamanho paulatinamente durante o processo de envelhecimento, ele vive os últimos anos em constante regresso, rumo à restrita consciência que um bebê tem do que o cerca, até simplesmente desaparecer.

Quem quiser comparar filme e livro verá que pouco eles têm em comum. Ambas as versões tratam da trajetória de Button, de sua condição diferenciada, de seu casamento; mas a forma como esses elementos são mostrados no filme diverge da versão original. Inicialmente, algumas adaptações tiveram de ser feitas a fim de tornar o filme mais próximo da realidade. No conto, por exemplo, Benjamin nasce não só com a idade de um homem de 70 anos, mas com o tamanho de um homem adulto. No filme, o personagem é mostrado ao nascer com o tamanho de um recém-nascido; no entanto um trabalho incrível de maquiagem se encarrega de proporcionar a sensação da idade avançada. Adaptações como estas são justificáveis ao passo que o conto possui uma maior carga simbólica e metafórica, enquanto o filme se preocupa com a realidade, apesar de tratar da ficção. Haveria, é claro uma impossibilidade física quanto a uma criança de um metro e meio sair do ventre da mãe. Essas adaptações são escolhas que de forma alguma ameaçam a qualidade do filme de Fincher.

O filme trata também, de forma muito mais romântica que o conto, do casamento de Benjamin Button e Daisy – esta, na versão literária, recebe o nome de Hildegard Moncrief. Benjamin conhece Daisy quando ela ainda é uma criança, interpretada por Elle Fanning, enquanto ele tem a idade real correspondente a dela, mas aparenta ser um senhor bastante idoso. Na versão original, de Fitzgerald, Benjamin conhece Hildegard quando ela já está na faixa dos vinte anos e ele, aparentando cerca de cinquenta. O encontro se dá de maneira menos romanceada e o casamento rapidamente acontece. O leitor acompanha o sentimento de perda de admiração do marido pela mulher, devido a vida difícil que o casal leva, ao passo que um envelhece e o outro fica cada dia mais jovem.

Benjamin, que no início do casamento tivera tanto orgulho de sua esposa, passa a manifestar estranhamento frente à mulher que é contraposta ao seu constante rejuvenescimento. Benjamin passa a admirar-se cada vez mais enquanto perde o desejo por sua esposa. Pouca atenção é dada ao momento em que os dois têm a mesma idade, em contrapartida ao filme, que explora fortemente o romance entre os dois neste período e faz de Benjamin e Daisy um casal eternamente apaixonado.

A forma como os outros veem a condição de Benjamin também é bem diferente nos dois casos. Em oposição ao filme, na versão de Fitzgerald, predomina o estranhamento e a crueldade dos personagens secundários para com Button. Logo no início, seu pai apresenta uma rejeição incontestável em relação ao filho. Durante seu crescimento ele é afastado por todos, que o culpam por sua condição julgando ser algo que o próprio Benjamin pode controlar mas não o faz por preguiça ou graça. Benjamin só consegue aceitação quando atinge a meia idade, em que é um homem bem sucedido financeiramente, casado e com filho. Já na terceira idade recomeça seu sofrimento, tendo também contra ele seu filho, que se envergonha do pai e mantém sua condição e relação de parentesco em segredo daqueles que o cercam.

Scott Fitzgerald tem uma linguagem leve e despretensiosa que mantém o leitor preso a sua literatura do início ao fim. Seus contos têm ritmo consistente – um dos segredos do bom escritor – transmitem simplicidade, mas o conteúdo é sempre intrigante e inteligente. Neste estilo “escrever é muito fácil”, Fitzgerald abre O Curioso Caso de Benjamin Button despertando curiosidade, mantém-no cativante durante seu desenrolar e cria um desfecho metafórico, coerente com o restante da obra, cheio de sensibilidade. Caminhando lentamente para a finalização, Fitzgerald o faz com calma – ele devia saber que a pior coisa para o público é ter a sensação de que o autor estava com pressa de terminar o livro – e despede-se de seu leitor, deixando-lhe uma sensação saborosa em mãos.

Coluna Livros em Cena - Laura Ammann