Lançamento

Os Sertões ganha reedição

A Ateliê acaba de lançar a 5ª edição revista e ampliada de Os Sertões. Segundo o professor Leopoldo M. Bernucci, responsável pela edição, cronologia, notas e prefácio, ela “é a única no mercado que oferece de modo abundante e detalhado” notas explicativas sobre a obra e seu contexto histórico. “Tivemos o cuidado de preparar um índice onomástico que acreditamos ser bastante útil para dilucidar muitas das biografias ligadas aos personagens e autores citados por Euclides. O índice remissivo não é menos proveitoso, pois auxilia na busca temática e onomástica com maior agilidade. Incluímos um prefácio nosso também que serve de introdução para os leitores apreciarem a diferentes linguagens que se entrecruzam em Os Sertões”, resume o professor na University of California-Davis, localizada em Davis, California (USA). A seguir, ele fala sobre o trabalho em entrevista para o Blog da Ateliê:

Quais os desafios de preparar uma edição de “Os Sertões”, um clássico brasileiro?

Leopoldo M. Bernucci: A complexidade inerente ao preparo de uma edição como a de Os sertões publicada pela Ateliê desde 2001 se observa no número e na qualidade de notas explicativas a um texto considerado até hoje “difícil”. O desafio maior neste caso, para nós, foi torná-lo minimamente acessível ao público leitor. De que maneira isto foi feito? Em primeiro lugar, contextualizando muitas das referências e alusões encontradas no texto; em seguida, levando os leitores às possíveis fontes de informação utilizadas pelo autor e, finalmente, oferecendo um glossário para o léxico algo hermético de Euclides da Cunha.

As razões para vencer tais desafios são de caráter principalmente técnico, pois o objetivo era apresentar ao público a atualidade de Os Sertões e explicar o seu caráter de obra “clássica”. Para tanto, basta mencionar aqui alguns aspectos do livro e remeter os leitores interessados por este assunto específico a um ensaio que publiquei há uma década  no livro João Alexandre Barbosa: O Leitor Insone. O ensaio se chama “Os sertões como um clássico”. Aclamado ao longo dos anos, depois de mais de um século de sua publicação, Os sertões sem sombra de dúvida é um clássico em todos os sentidos. É lido e relido por um público-leitor diverso, inclusive em muitas de suas versões traduzidas; tem influenciado uma série de escritores estrangeiros como José Eustasio Rivera (Colômbia), Mario Vargas Llosa (Peru), Sándor Márai (Hungria), e brasileiros como Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Paulo Dantas. A sua capacidade universalizante, ainda, faz com que o livro toque os nossos corações tanto pela narração dos fatos regionalizados (interior do nordeste do Brasil) quanto por aquela que, desbordando da esfera local, passa ao mundo da tragédia humana e dos sentimentos comuns e gerais a todos nós. Além disso, como grande clássico, Os sertões revela a consciência que esta obra tem de sua própria linguagem. Isto é, a linguagem euclidiana sinaliza direta e indiretamente as pulsações de sua presença e o valor de sua importância, não só como instrumento para narrar fatos, mas também como veículo de enorme poder de representação destes. Em síntese, é um livro de denúncia social de um dos maiores massacres ocorridos na história do Brasil e que está narrado com uma das mais belas e eficazes linguagens artísticas de todos os tempos.

Leopoldo M. Bernucci

A presente reedição foi revista e ampliada. O que ela traz de diferente da edição anterior?

LMB: Como fizemos com as demais, esta 5ª. edição revista busca aperfeiçoar e expandir o que havíamos feito antes. Isto é, além de preencher as lacunas deixadas nas edições anteriores, retocamos a biografia do autor com base nas últimas e contínuas pesquisas sobre a obra monumental de Euclides. Tal tarefa não é das mais fáceis, já que qualquer pesquisador sério tem que necessariamente enfrentar as dificuldades ligadas à investigação nos arquivos e bibliotecas. Referimo-nos ao fato de, ainda em pleno século XXI, nos depararmos com inéditos do autor que iluminam sobremaneira a sua biografia e obra. A leitura, organização e a interpretação desse material desconhecido implicam enorme esforço de revisão do que já foi escrito pela crítica.

 

No prefacio, é abordada a questão das diferentes linguagens de Os Sertões. Pode explicar muito brevemente a quem não leu ainda o prefácio quais são essas linguagens e por que são usadas?

LMB: Homem de ciências e letras, Euclides manejou como ninguém uma variedade de dicções que refletem o amplo espectro de saberes que ele possuía. Neste texto clássico da nossa literatura brasileira há um encontro fortuito de linguagens que se entrecruzam e que são particularmente específicas a certos tipos de livro, gênero literário, instituições e disciplinas: a Bíblia, a Geologia, o Exército, a Arquitetura, a Meteorologia, a Épica e o Teatro, para ficarmos com apenas alguns exemplos. Esse hibridismo linguístico, num primeiro momento visível no nível lexical, transforma-se depois em imagens homólogas no discurso euclidiano. Por exemplo, para explicar a formação racial no Brasil, nas Notas à 2ª. Edição, Euclides lança mão de uma comparação geológica com os três elementos principais do granito. Da épica, o nosso autor extrai as cenas de luta entre os soldados do exército e os canudenses, a descrição dos instrumentos de guerra, o heroísmo de alguns indivíduos (João Grande, o major Henrique Severiano), e a invocação homérica plasmada na frase Tróia de taipa para definir Canudos. Frases ou vocábulos como Anticristo, Canaã sagrada, arca da aliança e muitos outros estariam aproximando a linguagem bíblica da que procura configurar o mundo religioso de Canudos permeado de um Cristianismo antigo ou primitivo. Poderíamos prosseguir com mais exemplos, porém, fiquemos com esses três e convidemos os leitores a lerem o nosso Prefácio para observarem outras manifestações discursivas.

 

Quais as principais qualidades artísticas de Os Sertões que fazem com que a obra mereça ser lida ainda hoje?

LMB: Entre as mais destacadas qualidades artísticas do livro, estariam a extraordinária erudição de Euclides e a sua habilidade no uso da língua portuguesa transformada pelo seu talento de escritor em linguagem artística. Um grande autor como ele, não somente conhece a tradição da historiografia ou da literatura, mas como já afirmamos acima, exibe um notável conhecimento científico que termina casando-se perfeitamente com essa linguagem. Em resumo, neste famoso escritor, o consórcio entre ciência e arte, como Euclides gostava de assim definir a sua maneira de escrever, é perfeita. Com essa mistura de dotes artísticos, que tão bem caracterizam a sua forma de contar uma história, dando-lhe um significado profundamente épico e trágico, e enriquecendo-a de conhecimentos científicos, o nosso autor eleva a sua narrativa, principalmente sobre Canudos, a um nível máximo de qualidade estética, de argumentação retórica e de uma invulgar precisão no narrar dos fatos.

Já faz alguns anos o professor Alfredo Bosi definiu muito bem a qualidade imperecível que possui Os Sertões. Segundo ele, a atualidade desta obra está na ‘’inegável potência de sua representação”, ou seja no grande talento empregado pelo escritor na criação de sua linguagem artística. Diz ainda este arguto crítico, que Euclides foi mestre em “ler atrás do fato o seu contexto”, confirmando aquilo que sempre se verifica nele: um estudioso, de raciocínio lógico, dedutivo, guiado pela lei da causalidade. É um autor que, em última análise, quer e sabe questionar; e portanto, as suas arguições sempre buscam “superar fáceis esquemas ideológicos” emprestando assim maior vigor e complexidade às unidades caracterizadoras daquilo que ele procura entender. Litoral/sertão, branco/mestiço, ciência/superstição são alguns dos pares antitéticos que uma vez dialetizados por Euclides, saem da zona de conforto das oposições para se tornarem núcleos sintéticos de alta relevância para a compreensão da cultura e história brasileiras.

Conheça Leopoldo M. Bernucci

Cirandas, sonetos e inspirações

“Essas canções infantis – ditas ‘de ronda’, ou ‘de roda’ – fazem parte da nossa infância e, por isso, sempre despertaram em mim o desejo de escrever poemas sobre elas”. É assim que Frei Bruno Palma, da Ordem dos Dominicanos, explica sua mais nova obra, Cirandas.  A seguir, ele fala sobre o tema para o Blog da Ateliê:

Como teve a ideia do Cirandas?

Bruno Palma: Foi me lembrando de uma frase musical de uma ciranda, que cantei e brinquei quando criança. E a memória e a emoção fez com que eu desejasse rever ( ou “reviver”) essas cantigas , que vinham de longe, do meu passado quando menino pequeno.

Busquei, então, na “Estante virtual”, livros sobre essas canções de roda. E fui, pouco a pouco, me lembando de algumas; e, é claro, deixando de lado muitas outras. E assim nasceu o livro. Como se vê: este livro tem toda a gratuidade de uma lembrança pessoal – sobretudo porque vem cheio da emoção da criança que eu fui. Só depois é que me lembrei de Villa-Lobos, desta sua obra admirável CIRANDAS. Assim, não posso dizer que Villa-Lobos me tenha “inspirado”

Por que a escolha do soneto como forma?

BP: Tomando Villa-Lobos como exemplo, eu quis trazer para uma forma também erudita o que é um poema sobre uma brincadeira de crianças. O soneto é uma forma (à sua maneira) “erudita” – que não chamaria de “rígida”. Encontrei no soneto uma analogia com a forma musical erudita (também à sua maneira) escolhida por Villa-Lobos. E o que me faz admirar muitíssimo essa obra dele é que ela guarda todo o frescor e a leveza da ciranda infantil, embora expressos numa forma erudita. Então, procurei também que os meus sonetos guardassem algo desse frescor e dessa leveza da ciranda.

Em sua opinião este pode ser um livro para ser lido para crianças?

BP: Eu ainda não dei esse livro para uma criança ler nem li para nenhuma criança pequena. Porque a própria ciranda (a canção de roda ou de ronda) não faz parte das brincadeiras das crianças de hoje. Elas se entretêm com joguinhos eletrônicos: é um outro mundo, uma outra maneira de pensar e se divertir. E, depois, Cirandas é um livro  de sonetos. E uma criança, ainda que soubesse ler, não alcançaria o significado desejado pelo autor. E não é por causa da linguagem – simples e, por vezes, coloquial – pois o soneto diz muito mais do que a ciranda. O autor, unindo memória e ficção, torna presente uma possível experiência do menino que ele foi. Por isso Cirandas não é um livro “para crianças”. Pois os sonetos dizem aquilo que um adulto vê e sente da sua própria infância. E diria até que um jovem de hoje – cuja infância foi ontem – não vai apreciar tanto esse livro quanto um adulto poderá fazê-lo. Cirandas é um livro para pessoas que tenham algum conhecimento do que é uma ciranda de crianças. Para essas pessoas esse livro fará talvez reviver um pouco da sua infância, como vários amigos me disseram. E me foram gratos por isso, apreciando assim o meu livro.

Conheça outras obras do autor: Marcas Marinhas e Duplo Canto

“A Batalha dos Livros não acabou”, diz Lincoln Secco

Em A Batalha dos Livros, Lincoln Secco, professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, analisa a formação da esquerda no Brasil. Segundo Marisa Midori Deaecto, a obra “constitui um capítulo dessa guerra universal contra o analfabetismo e o obscurantismo que engessam as civilizações, mantêm as desigualdades e protegem as injustiças”. A seguir, ele fala sobre o volume recém-lançado:

 

 

O título do livro remete a um embate ideológico já na formação da esquerda no país. Isso ocorre de fato? Como se dá esse embate?

Lincoln Secco: Eu tento mostrar em primeiro lugar que o Brasil não esteve defasado em relação às correntes europeias de pensamento, apesar do analfabetismo e da precária infraestrutura  intelectual (ausência de editoras, universidades, escolas, partidos). Aqui, a díade direita versus esquerda se estabeleceu cedo e podemos acompanhar isso pela batalha de ideias que se deu através dos impressos (jornais, livros, cartazes, revistas etc).

 

A Batalha dos Livros. A Formação da Esquerda no Brasil é um título que dá a dimensão da importância do conhecimento formal para a chamada “esquerda”. Como se deu essa formação política e ideológica no país, se tomarmos o livro como ponto de partida?

LS: A esquerda cometeu muitos erros políticos e de formação doutrinária. Mas ainda assim, sempre esteve comprometida com a formação de seus membros e do seu público. Podemos criticar este ou aquele conteúdo, mas não o esforço hercúleo de escrever, traduzir, ler em voz alta, formar grupos de estudos, dar aulas, alfabetizar e editar sob a mais dura repressão governamental.

Quais são os principais marcos dessa história de formação?

LS: É inegável que o Partido Comunista foi a principal organização de difusão de ideias da esquerda até 1964. Os anos 1950, especialmente, serviram para que o PCB montasse uma rede invejável de editoras, gráficas semi clandestinas e jornais de circulação diária em várias capitais brasileiras.

 

Entre o fim dos anos 60 e início da década de 1980, parece ter sido um momento agregador para a esquerda, que já estava unida, de certa forma, contra a ditadura. Os livros também tiveram papel aglutinador? Todos liam os mesmos livros “clássicos” ou cada grupo tinha “seus livros de cabeceira”, do ponto de vista intelectual?

LS: Os grupos tinham e têm suas preferências. Dificilmente um comunista estaria interessado na biografia de Trotsky escrita por Isaac Deutscher, já que se tratava de um autor adversário de Stalin. Da mesma forma os livros sobre a guerra civil espanhola em sua maioria interessaram aos trotskistas e anarquistas. Nos anos 1980 há, no entanto, uma pluralidade maior de publicações e linhas editoriais. Isso teve muito a ver com a emergência do PT. Como eu mostrei em outra obra (A História do PT), este partido apresentava quase uma forma federativa, pois surgiu de baixo para cima, a partir dos núcleos de base. E isso lhe deu uma diversidade regional e política muito maior do que qualquer outra agremiação política da história do Brasil.

 

Em sua opinião, esse momento aglutinador ainda existe? De que maneira há uma “batalha de livros” que impacta nesse contexto?

LS: O momento é outro. De derrota e dispersão. Houve o golpe parlamentar que derrubou o PT, mas levou a um governo que atacou todas as conquistas trabalhistas e contribui para fragilizar a base social não só petista, mas da esquerda em geral. Mas, ao mesmo tempo, os anos do PT no governo suscitaram novas sínteses críticas no pensamento brasileiro. A isso eu atribuo o debate sobre o lulismo, o interesse por uma releitura crítica da história do PT, os estudos da dinâmica de uma classe trabalhadora fragmentada, o papel político das classes médias etc. Há também artigos seminais escritos por jovens sobre junho de 2013 e ainda temos o reaparecimento de um cinema nacional em diálogo com a nova realidade do país. E os livros permanecem em meio à internet e às novas bases de informação. E continuam sendo perseguidos também. A Batalha dos Livros não acabou.

Lincoln Secco lança “A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil”

Marc Bloch afirmou que, no desenvolvimento de uma disciplina, há momentos em que uma síntese, mesmo que pareça prematura, é mais importante do que várias monografias de análise. Isso porque, por vezes, é mais importante enunciar as questões principais, do que resolvê-las todas. A habilidade enunciada pelo historiador dos Annales é uma das muitas qualidades da nova obra do professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, Lincoln Secco, cujo estilo ensaístico e sintético já foi visto no grande sucesso da produção historiográfica, História do PT, que atingiu a quinta edição em poucos anos.

A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil nos fala sobre mais de um século e meio de história das relações entre as esquerdas e os livros – grande parte deles perseguidos por terem sido considerados perigosos. O subtítulo pode ser lido de duas maneiras. O termo “formação”, que estampou algumas das obras mais importantes do pensamento social brasileiro, confere sentido ao objeto estudado. Partindo do ponto de vista histórico, ajuda-nos a compreender a formação da esquerda brasileira em sua atual configuração. Não apenas da esquerda, mas todo o campo da política no Brasil.

O outro sentido que assume o subtítulo desvela o conteúdo original do texto em relação à historiografia das ideias socialistas e do movimento operário. Conectado ao título, A Batalha dos Livros, aponta-se a formação da “infraestrutura intelectual” dos partidos e movimentos de esquerda e a formação dos militantes. Lincoln Secco busca em sua obra jogar nova luz sobre os aparatos de formação política e ideológica: editoras, livrarias, bibliotecas, escolas de quadros, jornais, revistas, livros etc., temas os quais o historiador e bibliófilo de esquerda, Edgard Carone, estudou pioneiramente nos anos 1980, mas cujos desdobramentos vêm criando especiais frutos apenas nesta década.

O autor assinala que um dos sentidos menos estudados da prática de esquerda no Brasil foi seu aparato de formação política e ideológica, demonstrando o fio que conduzirá a trajetória da esquerda narrada no livro. Com os subtítulos que dividem o prefácio, “ciclos políticos do livro” e “depois de 1964”, o autor antecipa os contornos gerais da periodização seguida nos capítulos do livro: iniciando com as primeiras leituras socialistas e anarquistas, passando pelo período de afirmação e posteriormente de hegemonia da produção ideológica comunista; chegando então à ruptura ocasionada pela repressão ditatorial, que iniciará um novo ciclo político da história do livro de esquerda. Tal história passará pelos anos 1980, quando a maior parte da esquerda unir-se-á sob uma formação partidária, o Partido dos Trabalhadores, desembocando no período atual, marcado pelo surgimento de novas formas de circulação das ideias.

As 240 páginas do livro estão divididas em cinco capítulos, além de um prefácio, uma conclusão e um apêndice que apresenta uma série de dados sobre a atividade editorial das esquerdas e levantamentos sobre estimativas de membros e simpatizantes de partidos e outras organizações de esquerda no Brasil, os quais apontam os leitores potenciais da literatura socialista. A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil vem a lume como referência incontornável para a história intelectual e para a história dos livros e da edição, além de se inscrever no vasto nicho da história política, abrindo todo um campo de investigação na historiografia brasileira. É obra necessária e sem igual para a compreensão de nosso país.

Conheça as obras de Lincoln Secco

“Epigramas”: seleta de poemas satíricos e pornográficos da Roma Antiga

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva é algo popular desde a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, para fazer poemas cômicos, pornográficos e de crítica social. Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso), é autor dos “Epigramas”, edição bilíngue traduzida por Rodrigo Garcia Lopes e recém-lançado pela Ateliê. Confira a seguir alguns desses pequenos mas cortantes poemas:

 

I

Você já leu, pediu, aqui está ele:

Marcial, famoso em todo o mundo

por seus argutos livrinhos de epigramas:

Leitor fã, você lhe deu em vida

a glória que a uns poetas é concedida

apenas quando viram cinzas.

Hic est quem legis ille, quem requiris,

toto notus in orbe Martialis

argutis epigrammaton libellis:

cui, lector studiose, quod dedisti

viventi decus atque sentienti,

rari post cineres habent poetae.

 

L

Você é um velho, é o que Taís repete. Ninguém é velho pra receber boquete.

 

Quid me, Thai, senem subinde dicis?

nemo est, Thai, senex ad irrumandum.

 

 

XXIII

Para jantar, Cota, você só chama

seus companheiros de banho.

Surpreso em nunca ser convidado?

Não, você já me viu pelado.

Invitas nullum nisi cum quo, Cotta, lavaris

et dant convivam balnea sola tibi.

mirabar quare nunquam me, Cotta, vocasses:

iam scio me nudum displicuisse tibi.

 

XXIX

O povo anda dizendo que você, Fidentino,

recita meus livrinhos como se fossem seus.

Se for falar que são meus, te envio grátis.

Se seus, compre, pra que meus não sejam mais.

Fama refert nostros te, Fidentine, libellos

non aliter populo quam recitare tuos.

si mea vis dici, gratis tibi carmina mittam:

si dici tua vis, hoc eme, ne mea sint.

 

CX

Você diz, Veloz, que meus poemas são longos.

Você não escreve nada: isto é concisão.

 

Scribere me quereris, Velox, epigrammata longa.

ipse nihil scribis: tu breviora facis.

 

 

LXIX

Vacerra, você só sabe elogiar

poetas mortos ou antigos.

Fico devendo essa, Vacerra:

não vou morrer pra te agradar.

Miraris veteres, Vacerra, solos,

nec laudas nisi mortuos poetas.

ignoscas petimus, Vacerra: tanti

non est, ut placeam tibi, perire.

 

LXXX

Pobre, faminto, Gélio casou com uma velha rica.

Se ele tem comida, agora ela também: sua pica.

Duxerat esuriens locupletem pauper anumque:

uxorem pascit Gellius et futuit.

 

VII

Se a Ligeia tiver tantos anos

quanto tem cabelos, ela tem três.

Toto vertice quot gerit capillos

annos si tot habet Ligeia, trima est.

Manual do Estilo Desconfiado

Fernando Paixão – conhecido por sua poesia e ensaística – está lançando o Manual do Estilo Desconfiado e adverte logo de partida: “Não é um manual de redação, nem pretende ensinar a escrever bem, mas dá umas boas dicas para ser desconfiado com os próprios textos”.  Seu interesse pelos assuntos da escrita vem desde a juventude, quando iniciou uma longa carreira de editor profissional, e permanece até agora, inclusive nos trabalhos que desenvolve na universidade.

A ideia inicial  surgiu durante um curso sobre escrita de resenhas que o autor ministrou para alunos de graduação; a partir dos exercícios propostos e das discussões em classe, o conteúdo foi ganhando corpo até chegar ao formato final, que tem a qualidade de propor insights sobre a arte de escrever. Dizendo de outro modo: trata-se de um livro que leva o leitor a pensar sobre a (própria) escrita.

Ao longo de 25 lições, cada uma dedicada a um verbete temático, o autor apresenta um conjunto de máximas que nos leva a refletir sobre a “palavra gorda”, a “frase longa”, o “clichê”, a “citação”. Ou ainda sobre temas como “estilo”, a “abstração”, o “parágrafo longo”. E termina com alguns dizeres sobre a sua proposta: “a desconfiança é bem-vinda para que o estilo seja de bom quilate”.

O resultado é uma obra original e inusitada, que foge às classificações tradicionais. Luis Fernando Veríssimo afirma, na contracapa, que este livro “vai dar o que falar, e o que escrever”. Em seguida, acrescenta: “Pelo seu ineditismo – não existe nada parecido, que eu saiba, por aí – e pelo seu estilo ao tratar da criação literária, das armadilhas e dos maus hábitos (e bons exemplos) do texto”. E conclui:  “Paixão fez um precioso manual tanto para aspirantes quanto para praticantes da arte da escrita”.

Conheça outras obras de Fernando Paixão

Fernando Paixão teve uma longa carreira como editor profissional, na Editora Ática; nessa área, organizou Momentos do livro no Brasil (1995, Prêmio Jabuti). Em 2009, ingressou na docência acadêmica e, desde então, leciona literatura no Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo. No ensaismo, publicou Narciso em Sacrifício (Ateliê, 2003); A Parte da Tarde (Ateliê, 2005) sobre a obra poética de Mário de Sá-Carneiro; Palavra e Rosto (Ateliê, 2010); e Arte da Pequena Reflexão (Iluminuras, 2014), sobre o gênero do poema em prosa. Dedica-se também à poesia, com 6 livros publicados; ganhador do Prêmio APCA, em 2002.

 

Epigramas, de Marcial: tuítes cômicos e pornográficos da Roma do século I

Marco Valério Marcial é considerado o “pai do epigrama” – poema curto de viés satírico, pornográfico ou injurioso que marcou época na Roma Antiga. Apesar de sua importância e de sua conexão com a atualidade – quando os tuítes reinventaram a escrita econômica – as edições de Marcial são raras no Brasil.

Para preencher essa lacuna e trazer ao conhecimento do público esta arte poética, a Ateliê  Editorial lança, em uma edição bilíngue especial, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes. A edição é composta por 12 livrinhos, a partir do projeto gráfico de Gustavo Piqueira, que reúnem 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C. Leia, a seguir, a entrevista com Rodrigo Garcia Lopes sobre a obra, que demorou mais de 25 anos para ficar pronta:

 

Rodrigo Garcia Lopes fotografado por Jacqueline Sasano

Como surgiu a ideia e o convite para realizar esta edição?

Rodrigo Garcia Lopes: Marcial é um poeta social, satírico, complexo. Comecei a traduzi-lo em 1990, retomando o projeto em 2015. Na época perguntei ao escritor Rodrigo Lacerda se ele achava que alguma editora poderia se interessar pelo projeto. Ele sugeriu que eu procurasse a Ateliê. Passei alguns meses traduzindo-o intensivamente, até chegar aos 219 poemas da presente edição. Sempre fico tentado a incluir epigramas que haviam passado despercebidos.

 

 

Como foi a escolha dos epigramas que compõem este volume?

RGL: Marcial escreveu 15 livros de poesia, cerca de 1.561 epigramas. Procurei fazer uma seleção representativa, variando os temas, mais ou menos como ele fazia em seus livros, bem como a extensão dos epigramas. Também levei em conta os que me permitiam repoetizá-lo em português, mantendo o frescor, o caráter imediato, a concisão e, claro, seu humor. Marcial é engraçadíssimo, apesar de ser impiedoso e, muitas vezes, cruel em sua poesia. Espero que o leitor se divirta tanto quanto eu ao traduzi-lo.

 

Quais os temas dos epigramas que compõem este volume?

RGL: Se há alguma musa em sua poesia, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria-prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século I em todas as suas contradições. Apesar de marcado como poeta da invectiva, dos insultos cômicos, pornográficos, eu incluí também vertentes menos conhecidas de Marcial, como os poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre  escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes. Incluí também uma série de epigramas em que ele aborda sua condição de poeta, de autor. Epigramas metapoéticos avant la lettre.

 

O livro tem um formato bastante peculiar: parecem pequenos livros que compõem um livro completo. Sabe dizer por que houve essa escolha?

RGL: Creio que o projeto gráfico foi inspirado no fato de que Marcial se referia a seus livros como libellus (livrinhos, mas também petição, panfleto e publicação difamatória). Então, cada um dos 12 cadernos desta edição refere-se a um dos volumes que ele lançou regularmente de 86 a 103 d.C. Acho que o projeto gráfico remete também ao caráter artesanal do livro na época de Marcial que, basicamente, era um rolo de papiro preso em dois cilindros de madeira, desenrolado à medida que ia sendo lido.

 

No posfácio, você escreve que o trabalho de tradução foi interrompido e que, no total, durou mais de 25 anos. Por quê?

RGL: Comecei a traduzir Marcial em 1990, no Arizona, nos intervalos do mestrado que fazia sobre William Burroughs. No começo foi mais para me divertir do estresse acadêmico, sem maiores pretensões. Acabei reunindo um bom material na volta ao Brasil. Fui traduzindo e publicando mais epigramas ao longo dos anos, mas nunca achava que tinha um número suficiente para um livro representativo. Em 2015, depois que lancei o romance policial O Trovador, queria fazer algo diferente. Aí o Marcial acenou pra mim.

 

Os epigramas foram traduzidos diretamente do latim?

RGL: Sim. Consultei também vários estudos, dicionários, edições críticas de Marcial para outras línguas, como o inglês e espanhol e outras línguas, de vários séculos. Isso me deu uma ideia de como Marcial foi tratado. As principais fontes foram as edições feitas por D. R. Shackleton Bailey (Martial: Epigrams, Loeb Classical Library, Cambridge: Harvard University Press, três volumes, 1993) e por Walter C. A. Ker,  para a mesma coleção e editora,  em dois volumes (1968).

Quais foram os maiores desafios desse trabalho de tradução?

RGL: Repoetizá-los em português, mantendo a concisão lapidar e a clareza do latim, o caráter direto e imediato da poesia de Marcial.

 

Apesar do gênero epigrama ser considerado “menor”, sua composição é bastante complexa. Em que medida traduzir epigramas reflete essa complexidade? Com que aspectos formais você mais se preocupou ao realizar a tradução?

RGL: Marcial usa uma série de recursos e técnicas em seus epigramas: a conclusão surpreendente (a ferroada), recursos retóricos como antítese, paradoxo, alusão, ironia, hipérbole, anáfora, elipse, acumulação, aliteração, assonância, metáfora, metonímia, rimas, paronomásia (trocadilhos), entre outros. Vários recursos que são usados até hoje pelos comediantes de stand-up (especialmente no caso dos comediantes de uma frase, como Stewart Francis, por exemplo, que eu adoro). Na medida do possível, preocupei-me com os vários planos linguísticos do poema, privilegiando os aspectos que me pareceram os mais importantes. Ele se vale de uma grande liberdade de linguagem, do luxo ao lixo, expandindo o léxico.

 

Marcial é bastante conhecido no Brasil?

RGL: Apesar de tratar-se de um clássico, são raras as edições da poesia de Marcial no Brasil. O mais comum é a publicação de poemas esparsos em antologias, como nas de Décio Pignatari, José Paulo Paes e outros. Há O Catálogo de Mulheres, publicado pela Humanitas, em 2010, que se concentra nos poemas misóginos de Marcial. As demais edições são portuguesas. Minha intenção foi resgatar e recolocar a poesia de Marcial entre nós. O livro traz notas explicativas, além de um posfácio, em que procuro aproximar o leitor brasileiro do estilo e do contexto histórico e social da Roma de Marcial, das várias vertentes, técnicas e peculiaridades de sua poesia.

 

Qual a importância de ter uma obra como a de Marcial traduzida para o português, em pleno século XXI?  

RGL: Como diria Tristan Tzara, o que nos atrai na obra antiga é sua novidade. Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantânea (como os 140 caracteres do Twitter), da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às

celebridades, fama instantânea e reality shows. Se ele acabou sendo obscurecido por outros autores clássicos, dada sua obscenidade, mais um motivo para que Marcial seja resgatado para os leitores de hoje, sobretudo no atual momento, no Brasil.

 

Epigramas, em geral, são poemas curtos, compostos por poucos versos. Mas alguns dos epigramas de Marcial são longos. Você explica a razão disso no posfácio do livro, mas poderia, por gentileza, falar sobre isso para nossos leitores?

RGL: Um epigrama longo pode parecer paradoxal num gênero que prima pela brevidade. O próprio Marcial brinca em vários epigramas com isso: um longo livro de poemas curtos. Marcial tem epigramas que vão de 1 até 51 versos. A questão da brevidade parece ser resolvida por ele em 2.77, onde adverte um certo crítico e poetastro Coscônio, que acusa seus epigramas de serem “muito longos”. Depois de dizer que, mesmo poetas que ele admira, como Pedão e Marso, escreveram poemas que ocupam mais de uma coluna no papiro (página), Marcial defende que epigramas não são longos “se não há nada neles que se possa cortar”.

 

Em sua opinião, qual é a riqueza dos epigramas de Marcial?

RGL: Marcial mostrou como o epigrama é um gênero versátil e atualíssimo. Foi ele quem reinventou e estabeleceu o epigrama moderno, tal qual conhecemos hoje, tornando-se um modelo para outros autores através dos tempos: um poema curto, satírico e de final picante, geralmente com uma corrosiva crítica social e de costumes. Lendo-o constatamos que a natureza humana não mudou tanto, que Marcial é um poeta do seu tempo, da Roma antiga, mas do nosso também. É importante dizer que Marcial, ao concentrar seus esforços no epigrama, estava situando-o, estrategicamente, dentro de uma tradição satírica e assumidamente marginal, na contramão da dita poesia elevada, de dicção austera, grandiloquente e carregada de mitos, como a epopeia e a tragédia. Como adverte no epigrama 10.4, numa de suas frequentes alusões ao leitor: “Não vai achar aqui Centauros, Górgonas e Harpias: / minha página tem o sabor dos homens”.

“A hipertrofia das assimetrias, que vão da economia até às esferas culturais, torna essa literatura de sentido sociopolítico necessária”, diz Benjamin Abdala Jr.

Por: Renata de Albuquerque

Literatura, História e Política: Literaturas de Língua Portuguesa no Século XX chegou às prateleiras das livrarias brasileiras em 1989,  mesmo ano em que o Muro de Berlim caiu – uma mudança profunda, do ponto de vista histórico, político e social.

Quase trinta anos depois, a Ateliê lança a terceira reedição da obra, um ensaio que discute o gesto que veio a configurar-se artisticamente numa forma nova, nas literaturas dos países de língua portuguesa. A análise do sentido político subjacente a essas produções da Modernidade levou à problematização das relações entre arte e engajamento, do poder de linguagem subjacente ao texto em seu circuito comunicativo e das articulações do campo intelectual nos países de língua portuguesa. A seguir, o autor Benjamin Abdala Jr, professor titular de Estudos Comparados da USP, fala ao Blog da Ateliê sobre este lançamento:

Por que trazer à luz este novo Literatura, História e Política?

Benjamin Abdala Jr: O livro teve sua origem na necessidade de se fazer face às assimetrias, visíveis nos finais dos anos da década de 1980, que iam do campo econômico até os da cultura. Num mundo em que o inglês tornou-se uma espécie de língua franca, era necessário também falar-se em português e outras línguas, como língua de cultura, de ciência e de tecnologia. Em ensaios posteriores, constantes em livros editados pela Ateliê, em especial Literatura comparada e reflexões comunitárias, hoje, temos enfatizado a necessidade política dos comunitarismos supranacionais, onde se situa o dos países de língua oficial portuguesa. Trata-se de uma nova repactualização política internacional –  originária do crack financeiro de 2008.  A partir do lócus enunciativo de quem se situa no Brasil, colocam-se dois enlaces principais, do ponto de vista literário e cultural: para os países de língua portuguesa e também dos iberoamericanos. Tais formulações não restringem outras políticas de cooperação e de solidariedade supranacionais, pois que o mundo configura-se cada vez mais como de fronteiras múltiplas e identidades devem ser situadas no plural. A partir dessas configurações, o livro Literatura, História e Política situa-se no comunitarismo cultural dos países de língua portuguesa, oriundo do hibridismo cultural das várias margens da Bacia Cultural Mediterrânica. Atualmente, como subjaz nesse livro, temos levantado questões de ordem política no sentido de problematizar a atual assimetria dos fluxos culturais e as estratégias de administração da diferença para a preservação de hegemonias estabelecidas.

 

 

Qual a importância de refletir sobre os neorrealistas hoje em dia?

BAJ: A tendência literária neorrealista surgiu após outro crack, o de 1929. Surgiu então essa literatura como resposta às assimetrias que então se agudizaram, paralelamente à ascensão de tendências socialistas e comunistas. Era o período entre guerras e nos EUA surgiram os romancistas da Era Roosevelt, como Hemingway, Cauldwell, Faulkner, etc., com uma escrita social que incorporava técnicas cinematográficas. No Brasil, a literatura dos Anos 30, com Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, etc. Na Itália, seguindo as pegadas do cinema, essa tendência recebeu o nome de Neorrealismo, designação que foi incorporada pela tendência contra a ditadura do Estado Novo salazarista. Hoje, a hipertrofia das assimetrias, que vão da economia até às esferas culturais, torna essa literatura de sentido sociopolítico necessária.

A literatura traz um modo de conhecimento da realidade, entrecruzando campos do conhecimento, que serão posteriormente incorporados por esses campos do conhecimento. Como se vê no livro, Graciliano Ramos em São Bernardo traz o perfil de um “capitalista selvagem”, que será posteriormente configurado por Florestan Fernandes em termos do recorte da sociologia. Hoje vivemos com a hegemonia de um modo de articulação que chega ao campo dos hábitos sociais e culturais: um mundo da fragmentação, onde se olha para o que está mais fácil em termos de lucro. Olha-se de lado e não para frente. Ler os neorrealistas é contrapor a perspectiva do projeto, do horizonte mais largo, a essas visões mais parciais, que se pautam pelo hiperindividualismo.

 

 

Benjamin Abdala Junior

Desde 1989, quando da primeira edição, os contextos histórico e político mudaram grandemente. De que maneira isso influenciou esta nova edição?

BAJ: Como afirmei anteriormente, esse livro já obedecia a princípios que agora se explicitam de forma mais evidente: a hegemonia do capital financeiro sobre o industrial. E sua escrita era motivada pela necessidade de se buscar articulações supranacionais para fazer face às assimetrias e desconstruções que só favoreciam à ascensão desse capitalismo. A busca de um diálogo entre as culturas de língua portuguesa (e com ele as literaturas) contribuiria para a redução dessas assimetrias (que correspondem a novas formas de “colonização”). A par desse estudo, ficam também outras formas de comunitarismos, que já no livro aparecem, como o de gênero (o da condição feminina) e o étnico (o negro), que não se limitam aos países subalternos, como os da língua portuguesa.

Por outro lado, o livro – dialogando com a atualidade crítica – traz as articulações e também os traços básicos da formação de nossa literatura. No caso brasileiro, são enfatizadas produções não apenas dos Anos 30, sob a ditadura de Vargas, mas também sob a ditadura militar, da qual o país emergia (época de redemocratização); em Portugal, a ênfase na literatura neorrealista e sua contraposição com a ditadura estadonovista de Salazar; e nos países africanos, o olhar para o repertório dessas literaturas do Brasil e de Portugal, que apontavam para horizontes libertários político-sociais  e também do colonialismo português.

 

Em sua opinião, os neorrealistas já são bem conhecidos pelos brasileiros? O que eles podem trazer para o leitor do Brasil que não conhece suas obras?

BAJ: No Brasil, os escritores de ênfase política e social dos Anos 30 continuam a serem lidos como autores clássicos. Há a necessidade de leituras de seus livros em termos de atualidade. Como a boa literatura desperta o sentido crítico em seus leitores, há a necessidade de lê-los como forma de conhecimento. O mundo mudou, mas os modos de articulação que perpetuam assimetrias em todos os campos da práxis humana continuam. Ganham novas roupagens em suas inclinações hegemônicas. E, por outro lado, o leitor crítico da tendência da literatura sociopolítica, embora com fatos registrados há décadas, pode verificar criticamente como eles perduram, com novas roupagens.

 

Por favor, comente a seguinte afirmação: “Foi assim que procuramos recuperar o sentido dos gestos dos escritores do novo humanismo que havíamos anteriormente estudado e as novas demandas que se colocam para uma literatura empenhada no competitivo mundo mercadológico desenhado pelo capitalismo financeiro”.

BAJ: Os gestos pautados pelo novo humanismo são aqueles de quem tem horizonte e efetua uma travessia rumo a essas luzes que devemos ter nesses horizontes. Evidentemente, o mercado desenhado pelo capitalismo financeiro leva à literatura de consumo, sem quaisquer criticidades. Entretanto, é próprio da boa literatura – como o foi a literatura analisada em Literatura, História e Política -, levar o leitor a refletir sobre os seus problemas e os problemas da vida social, que continuam atuais. Se antes predominava um modo de articulação afinado com o capitalismo agrário ou mesmo industrial, agora é a vez do financeiro, onde se olha para o lucro mais imediato. Isto é, em termos gerais, para articulações sejam elas econômicas e culturais, de horizontes restritos, visando ao consumo imediato.

 

O leitor leigo também poderá se beneficiar de Literatura, História e Política?

BAJ: O livro mostra-se de interesse para os estudiosos das literaturas de língua portuguesa e para o leitor em geral. Este último, nele encontrará modos de leitura reflexiva que dialogam com a vida sociocultural contemporânea. Logo, de forma simétrica em relação às produções analisadas, também formas de entender criticamente a realidade em que nós nos situamos. E de encontrar instrumentos para fazer face às assimetrias que nos são impingidas desde os centros hegemônicos.

Mario Pedrosa, política e arte

Por: Renata de Albuquerque

Quando se fala em Mario Pedrosa, o que primeiro se pensa é no renomado crítico de arte, com extensa obra no meio e passagem por museus e bienais no Brasil e ao redor do mundo. Mas em Pas de Politique Mariô! – Mario Pedrosa e a Política, o foco é a atuação política dessa importante figura brasileira. A obra de Dainis Karepovs –  doutor em História pela FFLCH-USP, pós-doutor em História pelo IFCH-UNICAMP e autor de A classe operária vai ao Parlamento (São Paulo: Alameda, 2006) e Luta subterrânea (São Paulo: Ed. UNESP; Hucitec, 2003) – é uma exposição concisa e coesa dos fios que ligam todas as suas transformações e guinadas de pensamento e atuação de Pedrosa, que aderiu ao comunismo em 1920 e foi o filiado número 1 do Partido dos Trabalhadores, quando de sua fundação.  A seguir, Dainis Karepovs fala ao Blog da Ateliê:

Dainis Karepovs

Como surgiu a ideia desse livro?

Esse livro tem duas origens. A primeira já vem de longe, dos anos 1980. Trata-se de um projeto de história sobre o movimento dos trabalhadores brasileiros iniciado no âmbito do Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa – CEMAP e que depois prosseguiu, de modo pessoal, abrigado na universidade (Universidade de São Paulo e Universidade de Campinas). Este projeto, que ainda prossegue, é focado no estudo da atuação da esquerda brasileira de origem marxista, incluindo-se aí a de origem trotskista, à qual Mario Pedrosa se filiou até 1940 e da qual foi o introdutor em terras brasileiras, já no final dos anos 1920. Tal atividade gerou diversos resultados: um arquivo (o CEMAP), livros, artigos, no Brasil e no exterior,  e exposições.

A segunda vertente tem um caráter mais prosaico e episódico, mas foi onde Pas de Politique Mariô! se materializou. No final de 2012 fui convidado, por conta desse trabalho em que estou envolvido, pela finada editora Cosac Naify, juntamente com Isabel Loureiro, para participar do projeto de publicação das obras de Mário Pedrosa, mais especificamente da parte sobre política. Prevista, a parte política, para ser publicada em dois volumes, dos quais um chegou a ser inteiramente organizado, ela não chegou a termo, pois, como se sabe, a referida editora encerrou suas atividades no final de 2015. Para este primeiro volume redigi inicialmente o Pas de Politique Mariô!, o qual, por sua extensa dimensão, acabou sendo substituído por outro texto de menor tamanho. Mas, enfim, o falecimento da casa publicadora fez com que, tanto o volume já organizado, bem como nenhum dos dois textos acima mencionados acabasse aproveitado. Por outro lado, não fazia mais sentido algum deixar de lado – embora desde sua substituição já se houvesse definido que Pas de Politique Mariô! teria vida própria – todo o trabalho realizado e saí à busca de uma casa editora para sua publicação. De imediato a Ateliê aceitou publicá-lo e, pouco depois, ainda em 2016, se concretizou uma parceria com a Editora da Fundação Perseu Abramo para uma coedição e agora em 2017 ele sai publicado.

 

Por que colocar luz na “parte política” da biografia de uma figura reconhecida por sua importância nas artes?

Mario Pedrosa é, reconhecidamente, um dos maiores expoentes da crítica de arte no Brasil e foi ele quem lhe deu o estatuto de respeitabilidade e seriedade que hoje goza, deixando de lado o caráter superficial e “impressionista” que existia quando Pedrosa passou a exercê-la, em meados dos anos 1940. No entanto, jamais pusera ele de lado a sua militância política, que vinha de meados dos anos 1920. Por uma série de circunstâncias sua atividade em torno da crítica artística se sobrepôs à política. Não por vontade própria, já que Pedrosa sempre enfatizou que ambas conviviam de modo pacífico e independentes uma da outra. Certamente, escapando da própria vontade, a sua militância política foi tratada de modo acessório, sobretudo pela defesa das ideias de Karl Marx e de alguns de seus herdeiros, em especial Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo. Isso era, e ainda é, algo para o qual o reacionário mainstream cultural do Brasil nunca manifestou a menor aceitação e tolerância. Assim, os perfis biográficos de Mario Pedrosa enfatizam sua trajetória como crítico de arte e deixam à política um par de parágrafos. Neles se realça sua ligação com o marxismo, reduzida apenas à sua trajetória como trotskista nos anos 1930, e depois são destacadas apenas a Vanguarda Socialista, um jornal por ele dirigido em meados dos anos 1940, e sua condição de fundador e filiado número 1 do Partido dos Trabalhadores. Francamente, é muito pouco para quem atuou sob a bandeira do marxismo por quase seis décadas e em posições e condições de destaque, ressalte-se isto para que não se crie a possibilidade sequer de uma relação idílica e distanciada de Pedrosa com as ideias de Marx! Por isso, me pareceu extremamente relevante preencher esta lacuna e mostrar esse aspecto da vida de Pedrosa, o qual, durante toda a sua vida, jamais ocultou. Muito pelo contrário. Evidentemente, a par disso, que Mario Pedrosa ainda venha a ter uma biografia que conjugue arte e política. De todo o modo eu penso que Pas de Politique Mariô! pavimenta com solidez um caminho nessa direção.

Quais fontes de pesquisa e que material utilizou na edição?

Há uma vasta documentação, preservada em grande parte no Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa – CEMAP e que a ele foi doada pela companheira de Mario Pedrosa, Mary Houston Pedrosa, e por seu “secretário”, Darle da Silva Lara. Além disso, há também a importante documentação de Livio Barreto Xavier, grande companheiro de ideias e ideais de Pedrosa. Aliás, ambos, por uma dessas extraordinárias coincidências da vida, nasceram no mesmo dia, mês e ano: 25 de abril de 1900, apenas que Pedrosa nasceu em Pernambuco e Xavier nasceu no Ceará. Esta documentação e o acervo de Pedrosa no CEMAP estão preservados e disponíveis à pesquisa no mesmo lugar em São Paulo, o Centro de Documentação e Memória da UNESP – CEDEM. Além disso, me vali também do enorme conjunto de periódicos disponibilizado pela Biblioteca Nacional. Também é importante ressaltar a existência de um significativo número de fontes que encontrei na Biblioteca do Congresso estadunidense, em Washington e  no Centro de Documentação e Informação do O Globo – CDI. Além disso, me vali da convivência que tive com contemporâneos de Mario Pedrosa para a localização e identificação de documentação e a compreensão de uma série de episódios que tratei em Pas de Politique Mariô!. Devo ressaltar, em primeiro lugar, Fulvio Abramo, jornalista que conviveu com Pedrosa desde os anos 1930, e a quem devo parte significativa de minha educação (não aquela dos bancos escolares, mas a humana). Além disso, a convivência com outras personalidades, como Plinio Gomes de Mello, Edmundo Moniz, Hilcar Leite e Livio Barreto Xavier, permitiram-me também compreender a amplitude da figura de Pedrosa.

 

De alguma maneira a crítica de arte influenciou as ideias políticas de Pedrosa?

Maria Pedrosa, sempre que perguntado a este respeito, afirmava: “Sempre convivi muito bem com a política e as artes. Nunca misturei setores”. Para que não pairassem dúvidas, Pedrosa, além disso, sempre foi enfático ao deixar clara a sua postura em não ver a arte e a política como irreconciliáveis: “Ser revolucionário é a profissão natural de um intelectual”. Além disso, Pedrosa cunhou uma frase que sintetizava o seu pensamento sobre a arte: “A arte é o exercício experimental da liberdade”.

Mas, embora eu não tenha tratado especificamente de sua trajetória como crítico de arte e de suas convicções no campo artístico em minha obra, é inegável que há uma influência mútua entre arte e política. No entanto, é bom que isto fique claro, Pedrosa sempre deixou claro que elas deveriam conviver em harmonia, não se sobrepondo uma à outra. Para ele, o ser humano ideal e completo era aquele capaz de lutar por um novo mundo, equânime e sem exploração do homem pelo homem, e deter a capacidade de fruir da cultura em seu mais amplo espectro, arte inclusive, sendo tal capacidade propiciada através de uma formação moldada em uma educação igualitária e humanista. Pedrosa, a esse respeito, sempre foi muito claro e sua reação adversa ao chamado “realismo socialista”, uma forma dirigida e utilitária de “cultura artística”, era a prova mais evidente de sua concepção libertária de arte.

 

Em tempos de debates e embates tão violentos, não seria mais natural “separar” os temas para “preservar” a imagem do crítico de arte?

Pelo contrário. Trata-se de um momento propício e adequado. Hoje, quando se criou a aparência de vitória de uma ideologia retrógrada, um pensamento único, intolerante e xenofóbico, evidenciar a atuação política de alguém que jamais abriu mão de sua crença no socialismo e na igualdade entre os homens é algo mais do que necessário. No Brasil, do mesmo modo, o caminho que foi construído para o golpe jurídico-parlamentar de 2016 deixou no país um rastro de ódio e intolerância, fomentado, em especial, pela chamada mídia. Quando se assiste ao espetáculo degradante no qual o Brasil e o mundo se debatem hoje em dia é evidente a necessidade de o planeta se insurgir contra esse estado de coisas e lutar pela defesa de uma política humanista e igualitária. Ver tais valores, encarnados na figura de Mario Pedrosa, é, indubitavelmente, um dos caminhos da recuperação da humanidade frente à degradação em que se vê jogada neste início de século XXI. Muitos se perguntam se Mario Pedrosa estivesse vivo hoje, o que ele faria neste nosso mundo. Não tenho dúvidas que, além da permanente defesa de seus ideais socialistas, ele estaria na vanguarda de um movimento pela regulamentação e a democratização da mídia.

 

Mario Pedrosa (década de 1920)

Quais as contribuições de Mario Pedrosa para o debate político do século XX?

Sem dúvida elas estão tanto em importantes textos para a compreensão política e social do Brasil, mais especificamente os ensaios “Esboço de análise da situação brasileira” (este escrito em parceria com Livio Barreto Xavier), “A situação nacional” e os livros A Opção Brasileira e A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo, bem como em sua atuação como dirigente político das correntes trotskista e socialista, ao longo dos anos que vão de 1930 a 1950, além de sua atividade como comentarista político nos principais jornais brasileiros. Afora isso, como se diz – como blague – que o comunismo chegou antes do marxismo no Brasil, é de grande relevo destacar o importante papel na educação e formação de uma cultura marxista por aqui para a qual Pedrosa jogou um relevante papel, em especial por sua atuação e projetos desenvolvidos na editora Unitas, nos anos 1930, e pelas páginas do semanário Vanguarda Socialista, nos anos 1940, no qual publicou uma infinidade de textos a este respeito. Todo este conjunto de fontes, aliás, está referenciado nos anexos de Pas de Politique Mariô!.

 

O que os leitores brasileiros do século XXI podem aproveitar do legado desse grande intelectual?

Além dos seus trabalhos sobre arte, reunidos nos quatro volumes de Textos Escolhidos, publicados pela Editora da Universidade de São Paulo entre 1995 e 2000, organizados e selecionados pela professora Otília Arantes, alguns dos textos de política de Pedrosa estão publicados em uma coletânea que organizei com Fulvio Abramo e que recentemente teve uma segunda edição revista e ampliada (Na contracorrente da história. São Paulo: Sundermann, 2015) e os demais, infelizmente, somente podem ser encontrados em sebos ou arquivos, neste caso, especialmente no CEMAP. Os textos políticos, reitero, estão referenciados nos anexos de Pas de Politique Mariô!. O conjunto da obra de Pedrosa permite uma visão ainda acurada e muito atual sobre a formação e a consolidação do Brasil, afora o contato com uma personagem encantadora e entusiasmada, especialmente pela transformação do Brasil.

“Temos que redimensionar o papel de Lima Barreto na literatura brasileira”, diz pesquisador

Por Renata de Albuquerque

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é um caso raro na literatura brasileira. Apesar de escrito por um dos mais importantes autores nacionais, é um livro pouco lido, pouco conhecido, pouco estudado e pouco editado. No ano em que Lima Barreto é escolhido o autor homenageado da FLIP – Festa Literária de Paraty – a Ateliê Editorial repara este equívoco e lança, em uma edição especial, o romance.

O volume é organizado por Marcos Scheffel, professor da UFRJ, que fala a seguir sobre este livro ainda obscuro de Lima Barreto:

Marcos Scheffel

O que o levou a estudar esta obra, que, ao contrário de outras de Lima Barreto, ainda é praticamente desconhecida do público?

Marcos Scheffel: Em 2005, ingressei no mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina sob orientação da professora Helena Fava Tornquist. No mestrado, meu trabalho estava focado no Recordações do Escrivão Isaías Caminhas e nas anotações da intimidade de Lima Barreto. Foi ali que conheci mais de perto o Vida e Morte, vindo a descobrir que os dois romances (Vida e Morte e Recordações) tinham sido idealizados pelo autor num período semelhante. Quando ingressei no doutorado, em 2007, comecei a perceber as relações do Vida e Morte com as crônicas de Lima Barreto, que ganharam maior visibilidade a partir do livro Toda Crônica de Lima Barreto, organizado por Beatriz Resende e Rachel Valença. Além da qualidade estética, acredito que o fator determinante para escrever sobre o Vida e Morte – que resultou na tese Estações de passagem da ficção de Lima Barreto (UFSC, 2011) – foi justamente a menor incidência de estudos a respeito deste romance, que normalmente era citado de maneira vaga.

 

A demora em publicar o livro leva a crer que Lima Barreto pode ter reescrito vários trechos. Há registros desse processo?  Se sim, o que se pode apreender do que apontam as alterações?

MS: Há uma série de apontamentos sobre o romance que foram colocados por Francisco de Assis Barbosa no Diário Íntimo de Lima Barreto no ano de 1906. No entanto, essa data pode ser imprecisa, pois, como explica o biógrafo, foi baseado no texto “Explicação necessária”, em que o personagem narrador Augusto Machado explica os motivos que levaram a escrita do livro, que esse conjunto de anotações foi posto neste ano. Acredito que estes apontamentos sejam deste período ou de um período próximo. Isso pode ser comprovado por uma crônica publicada na Revista Fon-Fon em abril de 1907 e recentemente descoberta pelo pesquisador Felipe Botelho Corrêa. A crônica é na verdade o que viria a ser o terceiro capítulo do romance, intitulado Emblemas Públicos, com pequenos acréscimos. Além desse aproveitamento, há temas e técnicas comuns a produção do cronista Lima Barreto.

No texto de abertura da edição da Ateliê, algumas razões para que o livro não se tornasse tão conhecido são elencadas. Para quem ainda não teve acesso a esta edição, o que se poderia destacar a respeito? Por que esse texto se manteve quase desconhecido ao longo do século XX, mesmo depois da morte do autor?

MS: Este romance foi publicado pela primeira vez em 1919 pela Revista Brasileira sob a direção de Monteiro Lobato, que nutria grande admiração pelo autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Apesar de ter recebido uma prêmio da Academia Brasileira de Letras, o romance encalhou. Para Lobato, os motivos desse encalhe teriam sido o título longo pouco atrativo e a percepção

dos leitores que se trataria da biografia de algum desconhecido. A partir dos anos 40, Vida e Morte ganha novas edições como a da Mérito (1943), com um belo prefácio de Paulo Rónai, e da Brasilense (1956) nas obras completas. Essas edições eram acompanhadas de uma série de contos – muito provavelmente por conta do tamanho do romance, que no caso da edição da Brasilense fugiria aos padrões dos demais volumes (tratava-se de padronização do formato, mas que trazia a ideia que o romance em si não bastava). No correr das décadas seguintes, Vida e Morte não mereceu tanta atenção da crítica, dos leitores e do mercado editorial – gerando uma espécie de ciclo de esquecimento. Espero que a partir desta edição possamos ver novos estudos sobre esta importante obra.

Lima Barreto, homenageado na FLIP 2017

Lima Barreto é um escritor que imprime em sua obra uma forte crítica ao seu tempo. Em “Vida e Morte…” temos um narrador mulato. Como isso ecoa na obra?

MS: No ensaio “Os olhos, a barca e o espelho”, Antonio Candido afirmava que Lima Barreto teria uma grande capacidade de criação quando queria apenas registrar (citando um exemplo do Diário Íntimo) e por outro lado quando queria “criar” via sua obra invadida por dados pessoais e por um engajamento demasiado. Uma objeção que faria a essa observação é que o Diário Íntimo é na verdade um livro montado / organizado depois da morte de Lima Barreto com apontamentos que o autor fazia com um nítido propósito ficcional, ou seja, há muito pouco de Diário ali, de registro das pequenas coisas do cotidiano.  Na minha percepção os romances de Lima Barreto sempre trazem essa perspectiva subjetiva que era uma marca da escrita dele, que pode ser percebida inclusive nas suas crônicas que são marcadas por um registro poético do cotidiano e por um desejo de diálogo e de ação na cena pública. A denúncia ao preconceito racial surgiu como uma necessidade de expressão de algo vivenciado por ele de uma maneira dramática.

 

Para o leitor do século XIX, que interesse “Vida e Morte…” pode despertar? Que questões ainda atuais o livro carrega?

MS: São muitas questões atuais, como a crítica à burocracia e ao uso da coisa pública em favor próprio

 

(no caso as críticas que são feitas ao Barão do Rio Branco). Tendo trabalhado muitos anos como amanuense, Lima Barreto pode observar as coisas mais antirrepublicanas que aconteciam na República e nunca deixou de denunciá-las.

 

Lima Barreto é um autor cujas obras têm um cunho político e filosófico/ideológico bastante acentuado. O que há em “Vida e Morte…”, sob este aspecto, que pode ser destacado?

MS: Lima Barreto apresenta no livro uma visão histórica que se opunha à visão Positivista (teleológica) que predominava em nosso meio intelectual. Quando havia um coro favorável a se soterrar nosso passado colonial, ele trazia uma noção relativa do belo e de uma história que não devia ser lida de maneira linear.  Aqueles prédios que eram considerados “feios” no início do século XX e que deveriam ser derrubados para modernização da cidade traziam um registro de outras épocas, de outras formas de ver o mundo. Nesse sentido, um dos trechos mais bonitos do livro é quando Gonzaga de Sá apresenta sua visão da história da cidade, uma visão que pressupõe o entrecruzamento de diferentes tempos que podiam ser percebidos numa caminhada ou num passeio de trem.

 

Quais inovações estéticas o livro traz?

MS: O romance praticamente não tem enredo, como observou Paulo Rónai. O enredo consiste basicamente nos diálogos entre Gonzaga de Sá e Augusto Machado (que relembra essas conversas com o velho funcionário público). Nesse sentido, temos um livro composto em quadros, com tomadas quase cinematográficas, como por exemplo, a cena em que o caixão de um personagem é transportado no trem da central do Brasil num domingo de sol em que as famílias saíam para passear. Tudo é visto da janela do trem e do bonde dando uma impressão cinematográfica. É um romance visual, imagético e marcado por percepções líricas do cotidiano. Isto era bastante inovador se pensarmos que foi um romance escrito em 1919 – três anos antes da Semana de Arte Moderna.

 

Lima Barreto é o homenageado da FLIP deste ano. Qual a importância de editar “Vida e Morte…” neste contexto?

MS: Um evento como a FLIP traz uma grande visibilidade para o autor homenageado. Há um movimento importante do mercado editorial com o lançamento de novas edições e estudos sobre o autor. Para aqueles que não conhecem o autor, é a oportunidade de travar um primeiro contato. Para os que já admiram a obra de Lima Barreto será um momento de atualizar os debates em torno de sua obra. Estou muito ansioso para ver todas as discussões que surgirão a partir da FLIP.

 

O que há, ainda, para ser (re)descoberto sobre a obra de Lima Barreto?

MS: Há muitas pesquisas ligadas a arquivos. Destaco por exemplo o trabalho da professora Carmem Negreiros (UERJ) em torno de uma série de recortes de jornais colecionados por Lima Barreto e com anotações pessoais às margens desses recortes. Também é necessário entender a ligação de Lima Barreto com os jornais e revistas onde publicou suas crônicas no sentido de termos uma clareza maior sobre a orientação dessas publicações (para que público se dirigiam, periodicidade, tiragens, posicionamentos ideológicos etc). Por fim, acho que temos que redimensionar o papel de Lima Barreto na literatura brasileira dando maior relevo ao seu projeto estético e ao fato de ter produzido uma obra significativa apesar de sua morte precoce aos 41 anos de idade.