Lançamento

Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer

No ano em que o arquiteto faria 110 anos, lançamento coloca luz sobre novos aspectos da obra do arquiteto carioca

Por Renata de Albuquerque

Morto há cinco anos, Oscar Niemeyer continua sendo uma referência fundamental quando o assunto é arquitetura, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. A grandeza de sua obra permite que haja uma profusão de estudos a respeito e que, mesmo assim, novos aspectos sejam abordados a cada nova publicação, por meio de visões singulares. Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer, organizado por Paulo Bruna e Ingrid Quintana Guerrero, aborda sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latinoamericana.

Para falar sobre o lançamento, a arquiteta colombiana concedeu uma entrevista para o Blog da Ateliê:

 

Ingrid Quintana Guerrero

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

O livro oferece leituras inéditas da obra, discurso e influência de Oscar Niemeyer, dentro e fora do Brasil, sobre temas que parecem já esgotados: sua obra paulista; seu papel nos círculos internacionais da arquitetura, seu aprendizado dos grandes mestres e a recorrência dos programas religiosos nos encargos que recebeu. Autores como Hugo Segawa e Paulo Bruna são garantia da qualidade científica dos textos.

 

 

O que o leitor poderá encontrar nesse livro?

Apresentamos quatro textos, mais uma apresentação de Sylvia Ficher, professora da UnB. O primeiro deles, de Paulo Bruna, constitui uma revisão da profundidade da produção de Oscar Niemeyer no estado de São Paulo, com destaque aos projetos habitacionais , que hoje são cartões postais dessa cidade (o Copan; o edifício Montréal), sem esquecer sua intervenção mais ambiciosa nessa terra: o Parque do Ibirapuera. Por sua vez, Hugo Segawa reconstrói as opiniões da imprensa sobre a atuação internacional de Niemeyer, no período que vai da construção do emblemático pavilhão de Nova Iorque (com Lucio Costa, 1939), até o convite para erigir um novo pavilhão, na Serpentine Gallery (Londres, 2003). Ele revisa minuciosamente o episódio da constituição de uma equipe para a sede da ONU, decorrente do concurso ganho pelo jovem Niemeyer (1947). No seu texto, Rodrigo Queiroz, que há muitos anos investiga os traços de Le Corbusier na produção do carioca, revela os vínculos profundos entre a linguagem de ambos os arquitetos; vínculos que, por sinal, Niemeyer negou inúmeras vezes. Por fim, meu ensaio propõe uma leitura da produção de arquitetura religiosa latinoamericana em chave Niemeyer, em países como o México, a Colômbia e a Venezuela.

 

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

Eu acho que é um livro que, além de atrair profissionais da arquitetura (o texto de Rodrigo Queiroz aponta à universalidade de Niemeyer mediante sua relação plástica com a obra de outro gigante da arquitetura moderna, Le Corbusier), pode ser de interesse para os apaixonados pela história de São Paulo (o texto de Paulo Bruna oferece o panorama mais completo que eu já vi sobre a obra do carioca na capital paulista); para quem gosta das intrigas por trás dos encargos de arquitetura e da recepção e crítica desses pela mídia (texto de Hugo Segawa, com seu estilo único, quase de cronista); para quem estuda América Latina como bloco cultural e intelectual (acredito que meu texto contribui a essa perspectiva).

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

Qualquer resposta que eu der será fraca, considerando que todo dia, em algum canto do planeta, alguém publica uma tese, um artigo ou um livro sobre Niemeyer. Porém, Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer é mais do que uma coletânea: é um esforço de coletivo da equipe de pesquisa Arquitetura e Cidade Moderna e Contemporânea cujos membros, ao mesmo tempo, possuem abordagens e trajetórias totalmente diferentes. Isso só podia acontecer na FAU USP, a mais plural e cosmopolita das escolas de arquitetura brasileiras, embora sempre seja identificada com a herança de Vilanova Artigas e com o “brutalismo paulista”.

 

Neste ano, o arquiteto faria 110 anos e são lembrados os 5 anos de sua morte. Este pode ser considerado o “mote” do lançamento do livro ou há outras razões para tal publicação?

Sim. Infelizmente, inúmeros motivos fizeram com que a publicação, que iria aparecer no primeiro aniversário do falecimento de Niemeyer, fosse adiada. Daí que tivéssemos que revisar e atualizar os textos para sua publicação hoje. No entanto, o tempo passa muito rápido e nenhum desses perdeu vigência.

 

No texto de apresentação, Sylvia Ficher se refere a um livro que estaria prestes a ser lançado, uma coletânea em três seções. Há notícias sobre ele?

Sylvia é quem está envolvida no projeto. Ela diz que Andrey Schleee ela não perdem a esperança de conseguir publicar o projeto integral. Esperemos que isso aconteça em breve.

 

Foram escritos mais de 30 capítulos do trabalho ainda não editado. Como foi o processo de escolha desses 4 ensaios? Por que eles foram os escolhidos para fazer parte da edição da Ateliê?

Paulo Bruna, que fez parte da primeira iniciativa, na UnB, conhecia bem o material e fez a escolha. Na verdade, meu texto não faz parte desses 30 trabalhos: foi produto do convite que Paulo me fez diretamente. Ele conhecia bem minhas linhas de pesquisa e se interessou no olhar que uma arquiteta estrangeira como eu poderia aportar à leitura da obra de Oscar Niemeyer. Eu aceitei esse convite como um desafio, ainda maior considerando trajetória dos co-autores. Logicamente era pouco aquilo que eu podia acrescentar ao conhecimento de Niemeyer de uma perspectiva brasileira, daí que me concentrasse nos desdobramentos da sua obra na América do Sul. E me debrucei naquilo que eu acho mais fascinante da produção do carioca: sua arquitetura religiosa.

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica?

Há alguns meses deixei o Brasil e voltei para meu país. Esse estranhamento, após ter vivenciado intensamente sua arquitetura, permitiu-me entender a dimensão monumental do legado de Niemeyer; sua universalidade e seu impacto até hoje.Com certeza, Niemeyer ainda é um dos maiores ícones da arte brasileira no mundo e referência vigente para os estudantes de arquitetura. Porém, o que dele se conhece lá fora é ainda uma versão carioca, ligada a sua produção fluminense e à riqueza visual que lhe forneceu o Rio de Janeiro. A atuação de Niemeyer fora do Rio e de Brasília, a profundidade do seu pensamento político, estético e social ficam num segundo lugar por causa da exuberância e sensualidade dos seus edifícios, apontadas desde a redação de Brazil Builds.

Meu ensaio e o texto de Rodrigo Queiroz contribuem a estender pontes entre Niemeyer e seus contemporâneos fora do Brasil, pontes delineadas pelas formas, mas sustentadas nas estratégias projetuais (que vão além da simples linha curva que imita o corpo feminino) e nas raízes culturais da condição latino-americana. Acredito que mais estrangeiros procurarão no Brasil as chaves para decifrar uma identidade própria e este livro suscitará novas questões neles.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

Sylvia Ficher intitulou sua introdução “Niemeyer nunca é demais”. Concordo totalmente: quanto mais nos aprofundamos na sua produção, nos seus edifícios e nos seus desenhos, ficamos mais maravilhados pela sua criatividade, disciplina e coragem. Felizmente não é um caso isolado no Brasil: hoje Paulo Mendes da Rocha usufrui do prestígio e louvor da crítica especializada. Mas este não teve a sorte daquele, isto é, de agir em diferentes épocas e cenários, tão relevantes para a configuração histórica do continente americano moderno. Mesmo que não gostemos dos seus prédios, não é possível negarmos a condição de Niemeyer como mestre renascentista no meio do século 20: ativista comunista; homem da alta sociedade; poeta; pintor; arquiteto e urbanista. Sempre haverá uma lição para aprender nos seus bate-papos com sócios e amigos, nos seus croquis e na vitalidade que sua arquitetura oferece ao espaço urbano de cidades como São Paulo ou Belo Horizonte.

 

Conheça outras obras da Ateliê sobre arquitetura

Fernando (Cabral Martins) estuda Fernando (Pessoa)

Em Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa um dos mais importantes críticos pessoanos coloca luz sobre a teoria e a história da heteronímia

Renata de Albuquerque

Pode parecer ao leitor desavisado que não há novidade em um livro como Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa. Entretanto, o lançamento é um excelente roteiro para o entendimento da obra de Pessoa, pois traz uma visão geral da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno, cujos documentos originais foram encontrados em 1935, ano de sua morte, em 91 envelopes arquivados numa célebre arca – a que se acrescentavam outros cinquenta guardados numa mala e em um armário.

Além de uma nova leitura do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio, Fernando Cabral Martins faz, em sua obra, importante contribuição sobre a teoria e a história da heteronímia. A seguir, um dos mais importantes críticos pessoanos em atividade fala  com exclusividade ao Blog da Ateliê:

O senhor estuda a obra de Fernando Pessoa há décadas. O que o atrai na obra desse autor? Quais são, em sua opinião, as questões mais instigantes? Qual razão o levou a estudar Pessoa?

Fernando Cabral Martins: Na verdade, eu estudo a obra de Pessoa desde o princípio dos anos 80, quando comecei a dar aulas de literatura portuguesa na Universidade Nova de Lisboa. Antes disso, já era um leitor, com toda a paixão de leitura de Pessoa que era comum a tantos amigos meus, paixão que estava nesses anos num especial crescendo, com a publicação, tão longamente esperada, do Livro do Desassossego em 1982. Mas é verdade que só a partir dos anos 90 comecei a publicar mais regularmente sobre Pessoa e o Modernismo português. Hoje, o que me parece de maior importância é analisar e integrar a ficção narrativa que tem surgido nos últimos anos, bem como os seus múltiplos escritos de filosofia.

 

O que o motivou a escrever uma “Introdução aos estudos” do autor?

FCM: O que se tem passado nos últimos anos é, pois, um avanço muito considerável na publicação de inéditos e no conhecimento dos vários aspectos de uma obra muito vasta. De tal modo que me pareceu que era altura de tentar obter uma visão geral da história da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno.

 

Como foi realizado o trabalho que resultou neste livro? Como foi feita a pesquisa? O senhor teve acesso a manuscritos, cartas e outros materiais?

FCM: O trabalho de pesquisa foi começado há muitos anos, com um especial enfoque no espólio de Pessoa disponibilizado pela Biblioteca Nacional, que é um verdadeiro tesouro, pois reúne o conjunto dos escritos e cartas de uma vida intensa e inteiramente dedicada à literatura. A biblioteca de Pessoa, por sua vez, que também foi digitalizada e é hoje consultável online no site da Casa Fernando Pessoa, constituiu igualmente uma fonte assinalável de informação pertinente.

 

A obra é destinada apenas a leitores que não conhecem Fernando Pessoa ou pode ser recomendada também a quem já tem conhecimento sobre o autor?


FCM
: O meu objetivo foi propor uma descrição e um comentário coerentes e, tanto quanto possível, completos da obra de Pessoa, à luz das mais recentes publicações, e fazê-lo procurando manter uma exigência de clareza e simplicidade. Neste sentido, pode interessar tanto aos leitores que só agora se iniciam como àqueles que já o conhecem, pois a existência de um mapa é sempre útil para viajar num território extenso e cheio de caminhos que se bifurcam.

 

Existe alguma informação inédita que o senhor tenha encontrado durante sua pesquisa e colocado neste livro, como algum poema, por exemplo? Qual?

FCM: Eu ofereço, por exemplo, uma leitura nova do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio. Mas este livro tinha antes a intenção de apresentar uma panorâmica de Pessoa tal como se conhece hoje. Aliás, depois de 75 anos de edições de inéditos, pode dizer-se que pelo menos a sua poesia está praticamente toda publicada, e que já se conhece talvez o essencial da sua obra.

Manuscrito do poema “Deixo ao Cego e ao Surdo” contido no livro

Do ponto de vista teórico e de crítica literária, em sua opinião, há alguma inovação em sua obra (como, por exemplo, a maneira de apresentar ou organizar o conhecimento sobre Pessoa)? Qual?

FCM: Creio que, para além da própria escolha dos aspectos textuais e temáticos a comentar, o meu principal contributo poderá estar nos dois últimos capítulos, em que tento fazer a história e a teoria da heteronímia. Tentei considerar na sua dinâmica esse tão singular modelo de escrita literária que inventa heterônimos, vendo-o na lógica da sua evolução e não como um sistema fixado.

 

Fernando Paixão destaca, na orelha do livro, a capacidade de interrelacionar informações que, de qualquer modo, estão colocadas de maneira autônoma na obra. Tal estrutura foi criada com que objetivo?

FCM: Esse procedimento tem a ver, penso eu, com a natureza da literatura de Pessoa, que é um constante diálogo entre as posições (estéticas, filosóficas, políticas, religiosas, etc.) que as diferentes figuras heterônimas defendem. É esse o desafio, precisamente, o de tentar ver os traços que unem o que é diferente, a coerência geral por detrás das coerências parciais dos heterônimos, as linhas que ligam dos múltiplos esboços e fragmentos que Pessoa nos deixou e a interrelação entre os muitos gêneros, temas e planos que o ocuparam toda a sua vida. Porque Pessoa é um escritor único e complexo, mas que nos transmite ao mesmo tempo a sensação constante de um pensamento luminoso, que não foge às contradições e à complexidade do mundo, mas antes as torna a matéria-prima da sua arte.

 

Conheça outras obras de Fernando Cabral Martins

Macunaíma: edição artesanal para colecionadores

Macunaíma ganha projeto gráfico artesanal para colecionadores

Por: Gustavo Piqueira*

 

O convite para trabalhar com Macunaíma partiu do Plínio Martins, na metade de 2016. Creio que ele achou que eu e Macunaíma formaríamos uma boa dupla… Ele disse para que eu tivesse total liberdade na concepção da edição.

A princípio eu não fazia a menor ideia de por onde seguir.  Porém, como a obra de Mario de Andrade entrou em domínio público este ano e foram publicadas outras edições de Macunaíma — algumas delas, aliás, bem bacanas — me pareceu que o caminho de uma edição artesanal faria sentido para não ser redundante frente às outras edições, tanto as deste ano quanto as anteriores que conheço.

Além disso, penso que o resultado é coerente com meus últimos projetos, nos quais venho tentando brincar com as possibilidades (mais precisamente, com os limites) do livro impresso. A diferença é que, geralmente, faço isso em obras de minha autoria, e essa se transformou na grande dificuldade deste projeto. Pois, para Macunaíma, eu não queria que minha eloquência gráfica interferisse no texto — não queria criar empecilhos entre o leitor e o texto, assim como explico no meu texto do posfácio. Não faria sentido. Logo, após uma (longa) série de testes, cheguei a esse formato ‘dobra-desdobra’, que tanto pode ser lido como um livro ‘bem comportado’ quanto se transformar quase que numa espécie de pavão escandaloso de papel. Essa múltipla existência do livro, além de torná-lo bastante rico em termos de peça, me deixou totalmente satisfeito ao conciliar riqueza gráfica sem qualquer ‘prejuízo’ ao texto.

São 350 exemplares, todos iguais. Cada um possui 16 ilustrações que fiz, todas impressas em serigrafia. A opção por essa técnica foi prática: imprimo aqui na Casa Rex, o que reduz bastante o custo sem a necessidade de se evitar o uso de processo mais artesanais.

*Um dos mais premiados designers gráficos do Brasil, está à frente da Casa Rex e cria capas para diversas editoras, entre elas a Ateliê Editorial.

 

Gustavo Piqueira releu Macunaíma no projeto gráfico

Por Plínio Martins*

Gustavo Piqueira é um designer supercriativo, que adora fazer coisas diferentes. Ele era a pessoa ideal para fazer esse projeto, porque além de ser um excelente designer, tem uma relação profunda com os livros e entende a inte-relação entre o texto e o visual. A ideia desta edição foi rever Macunaíma, revisitar o livro com uma inovação no projeto gráfico. E o Piqueira sabe pensar o livro de uma forma adequada; sabe interpretar uma obra. Tem sensibilidade de artista.

Eu nunca sei o que ele vai fazer, porque ele é incapaz de fazer duas coisas iguais. Ele me surpreende e isso me fascina. Piqueira tem um talento único, paixão pela forma. Dei total liberdade para o artista que fez a obra e ele releu Macunaíma no projeto gráfico.

*editor

Conheça outras obras de Gustavo Piqueira

Veja a galeria com fotos desta edição

“Era no Tempo do Rei” traz uma contribuição fundamental aos estudos críticos de literatura brasileira

Por Renata de Albuquerque

“Era no tempo do Rei”. A primeira frase de Memórias de um Sargento de Milícias foi escolhida como título da nova obra de Edu Teruki Otsuka, fruto de sua tese de Doutorado orientada pelo Professor José Antonio Pasta Júnior. No trabalho Era no Tempo do Rei – Atualidade das Memórias de um Sargento de Milícias ele mostra como o romance de Manuel Antônio de Almeida se organiza conforme uma lógica regida por conflitos interpessoais, que se manifestam no romance de maneiras diversas, mas que podem ser unificadas na noção de rixa. Segundo essa leitura, a lógica do espírito rixoso desempenha um papel estruturante na obra, sendo o ponto de articulação entre o plano da ficção e a matéria histórica e social que o romance elabora. Além de ser um dado temático, esse princípio “rege a configuração das personagens, modula a prosa, dita o ritmo da narrativa e organiza os episódios, dando consistência ao romance como um todo”, detalha Otsuka, que é professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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Como sublinha o próprio pesquisador, há uma diferença entre a leitura que ele propõe em Era no Tempo do Rei e o clássico Dialética da Malandragem, de Antonio Candido. Na interpretação de Candido, a alternância entre ordem e desordem sugere uma imagem da sociedade brasileira caracterizada pela flexibilidade tolerante. Já a obra de Otsuka procura mostrar os conflitos e as relações violentas na camada de homens livres e pobres, acentuando a pouca coesão social decorrente da escassez de trabalho. A seguir, Otsuka fala sobre seu novo livro:

 

O trabalho foi concluído em 2005. Por que somente em 2016 Era no Tempo do Rei tornou-se livro?

Edu Teruki Otsuka:  A tese foi pensada e escrita entre os anos de 2001 e 2005. A revisão do texto com vistas à publicação foi feita em 2008 e consistiu basicamente no corte de algumas minúcias analíticas desnecessárias, na fusão ou deslocamento de algumas seções do texto e na mudança de algumas formulações. A publicação acabou se dando somente em 2016 por motivos circunstanciais que não vêm ao caso, mas a distância no tempo tem uma vantagem, pois possibilitou maior clareza, para mim mesmo, sobre o sentido do que foi feito.

Quais características a obra Memórias de um Sargento de Milícias apresenta que foram fundamentais para que ela fosse escolhida como foco de seu trabalho? Por que decidiu estudar essa obra?

ETO: O projeto inicial da tese envolvia um estudo sobre o desenvolvimento do romance brasileiro no séc. XIX, em que as Memórias de um Sargento de Milícias eram uma das obras que seriam examinadas. O projeto foi apresentado, primeiramente, como uma pesquisa sobre a crítica de Antonio Candido, o que possibilitaria delimitar o corpus, com base em alguns romances que ele estudou, e avaliar as contribuições de Candido, cujos livros são fundamentais para o estudo então imaginado. No decorrer da pesquisa, compreendi que a questão que eu pretendia examinar já tinha sido, no essencial, desvendada por Roberto Schwarz, em seu livro Ao Vencedor as Batatas, ainda que ele tratasse apenas lateralmente de outros romancistas além de José de Alencar e Machado de Assis. Ao mesmo tempo, foi ficando claro que as Memórias de um Sargento de Milícias poderiam sustentar um trabalho mais aprofundado, o que me fez abandonar o primeiro projeto, que era mais abrangente no escopo, mas talvez mais restrito no problema crítico.

Em meu quadro de referências crítico-teóricas estavam os trabalhos de Antonio Candido e de Roberto Schwarz, bem como algumas ideias de José Antonio Pasta Junior, meu orientador, que vinha investigando questões – por exemplo, aquilo que ele denomina “luta de morte” – que igualmente atuaram como inspiração para mim e que procurei incorporar e elaborar ao meu modo.

A decisão de centrar a tese nas Memórias de um Sargento de Milícias só se deu depois do momento inicial do doutoramento, quando a finalidade da pesquisa era outra, e em que também me voltei ao estudo mais sistemático do trabalho dos críticos citados. Naquele momento inicial, foi ganhando contornos mais nítidos a questão das rixas, que se tornaria central na tese.

 

Edu Teruki Otsuka

Edu Teruki Otsuka

Qual o argumento central do livro?

ETO: A ideia central da tese é a de que as Memórias de um Sargento de Milícias se organizam conforme uma lógica regida por conflitos interpessoais, que se manifestam no romance de maneiras diversas, mas que podem ser unificadas na noção de rixa. São pequenos conflitos entre personagens, que na maior parte pertencem ao setor social dos homens livres e pobres, e ocorrem na forma de disputas pessoais, rivalidades, vinganças, zombarias etc. Esses conflitos se espalham e se renovam continuamente no plano do enredo e caracterizam os pensamentos e as ações predominantes entre as personagens da sociedade figurada no romance, sem limitar-se ao confronto central entre Leonardo e o major Vidigal. A lógica conflituosa dos comportamentos, que chamei de “espírito rixoso”, é generalizada na obra, desempenhando papel estruturador, sendo a um só tempo um dado temático e um princípio que rege a configuração das personagens, modula a prosa, dita o ritmo da narrativa e organiza os episódios, dando consistência ao romance como um todo.

O espírito rixoso é também o ponto de articulação entre o plano da ficção e a matéria histórica e social que o romance elabora. Para além da notação verista, que está presente na obra e que permite a comparação direta dos dados ficcionais com os dados já conhecidos da realidade do Brasil da primeira metade do século XIX, interessou-me investigar o que a lógica da configuração do romance podia revelar sobre a sociedade do período, tendo em vista não apenas a época joanina, em que se ambienta a ação, mas também o Brasil independente, já que a perspectiva do narrador se situa no Segundo Reinado.

A investigação sobre o sentido histórico e social do espírito rixoso conduziu à hipótese de que seu fundamento material está na disputa por trabalho que se acentuou na época em que o romance foi escrito. Com a intensificação da entrada de imigrantes pobres (sobretudo ilhéus portugueses) desde antes de 1850, verificou-se um acirramento na guerra por trabalho nas ruas do Rio de Janeiro: imigrantes pobres e escravos de ganho disputavam entre si por trabalho precisamente em um período em que se registra um aumento na incidência de conflitos com desenlace violento. E, embora nada disso seja diretamente tematizado nas Memórias de um Sargento de Milícias, a tese procura mostrar que o romance apreende e elabora, no plano ficcional, a lógica conflituosa que governava as camadas pobres do Rio em que Manuel Antônio de Almeida viveu, convertendo em forma literária um dinamismo social decisivo. A rixa será, para as personagens pobres, o precário recurso que prolifera especialmente quando se está fora tanto do circuito econômico do trabalho quanto das relações de favor.

 

Você considera a sua obra  uma superação dialética da Dialética da Malandragem? Quais são os pontos de conexão entre sua obra e a do Prof. Antonio Candido e o que as distancia?

ETO: A obra de Antonio Candido é uma das referências teóricas e críticas mais importantes na minha formação acadêmica. Espero ter assimilado alguma coisa de seu trabalho, não apenas dos conteúdos, mas também do ato crítico, que, a meu ver, encontra em sua obra algumas das mais altas realizações, dando primazia para o objeto literário e portanto para a análise estética, e investigando as articulações da forma literária com a matéria histórica e social.

A interpretação das Memórias de um Sargento de Milícias que proponho no livro se diferencia da de Antonio Candido sobretudo na ênfase que cada leitura dá a diferentes aspectos do romance e da sociedade brasileira. Candido demonstra que o romance formaliza a dinâmica da sociedade brasileira oitocentista, vista a partir de um de seus setores. A malandragem, entendida como alternância entre ordem e desordem, entre norma e infração, é decisiva para a reprodução da camada de homens livres e pobres do Brasil escravista. Acompanhando o ponto de vista da obra, que é simpático aos pobres e ao mesmo tempo atenua as limitações da malandragem pelo tratamento cômico, Candido termina seu ensaio enfatizando certa flexibilidade tolerante da sociedade brasileira, em oposição à rigidez moral de países como os Estados Unidos. Minha leitura procura mostrar a centralidade, não menos abrangente e estruturante, dos conflitos e das relações virtualmente violentas no interior da mesma camada de homens livres e pobres, deslocando a ênfase para a falta de coesão social, articulada à escassez de trabalho e à abrangência limitada da rede do favor.

A essas interpretações correspondem, sem dúvida, modos de ver o país impregnados por questões predominantes nas épocas em que foram escritas. No caso de Antonio Candido, terá pesado também o fato de que sua formação intelectual, sob todos os aspectos admirável, se deu em um quadro histórico cuja perspectiva construtiva se definiu em torno de 1930 e que se pode descrever como imbuída de um sentido histórico ascensional. Já minha tese foi produzida em um quadro bem diferente, em que as perspectivas construtivas pareciam barradas ou mesmo desmentidas, o que obrigava a um reajuste do ponto de vista crítico.

 

sgto-milicias-capaQuais os principais pontos que marcam a atualidade das Memórias de um Sargento de Milícias, como o subtítulo do livro destaca?

ETO: A questão da atualidade do romance de Manuel Antônio de Almeida, sugerida no subtítulo, de fato não é discutida explicitamente no livro. A leitura do romance direciona o foco para os pequenos conflitos de teor violento (quase sempre atenuado) que nem sempre se articulam a posições de classe divergentes e apontam antes para a pouca coesão social. Na época em que a tese foi feita, algumas das questões que estavam no ar eram, por exemplo, a assim chamada violência urbana e suas motivações, a reestruturação das relações de trabalho, o sentido da formação nacional, mas sem que o nexo entre essas questões estivesse inteiramente disponível. A pesquisa sobre as Memórias de um Sargento de Milícias implicava um olhar em alguma medida informado pelas questões contemporâneas, que certamente não poderiam ser respondidas por uma obra de meados do séc. XIX, mas minha aspiração era a de que o problema das rixas pudesse sugerir um termo de comparação histórica, que indicasse um ângulo diferente para pensar a especificidade das questões atuais, ao mesmo tempo em que o domínio das rixas no romance e a hipótese de explicação proposta na tese pareciam ganhar relevância para a reflexão, tendo em vista as questões do presente. Assim, pode ser sugestivo pensar que, nas Memórias de um Sargento de Milícias, a rixa se propaga, como fator de dessolidarização, sobretudo no setor social composto de homens descartáveis que, por não serem “integráveis”, são permanentemente vigiados e reprimidos pela força policial comandada pelo major.

 

Qual a importância da leitura da obra de Roberto Schwarz na construção de sua tese?  Em que aspectos ele contribuiu para a leitura inovadora que você faz da obra de Manuel Antônio de Almeida?

ETO: A obra crítica de Roberto Schwarz é fundamental para o meu trabalho, e a tese deixa claro o quanto minha leitura das Memórias de um Sargento de Milícias deve às descobertas e argumentos dele. Refiro-me ao conjunto dos estudos de Schwarz, e não apenas aos textos em que ele comenta a obra de Antonio Candido, como os “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da malandragem'”. O fato de meus argumentos no livro serem fortemente calcados no trabalho de Schwarz corresponde a um momento em que busquei estudar sua obra mais detidamente, no intuito de assimilar seus inúmeros achados críticos sobre a literatura brasileira, bem como o quadro geral da explicação histórica da dinâmica da formação nacional, implicada em suas análises estéticas. Esse quadro explicativo é, em grande parte, retomado em minha tese.

Dito isso, talvez deva assinalar que, hoje, com a distância no tempo, percebo que meu trabalho toma como referência vários estudos de sociologia e historiografia provenientes de um período anterior, colhidos nos estudos machadianos de Schwarz, embora no momento em que eu escrevia a tese estivesse em andamento certa renovação dos pontos de vista, em parte estimulada pelo próprio Schwarz de Sequências Brasileiras (1999), como “O ornitorrinco” (2003), de Francisco de Oliveira, e alguns ensaios de Zero à Esquerda (2004), de Paulo Arantes. Os desdobramentos desses pontos de vista já estavam sendo realizados por alguns pesquisadores, mas não tive, àquela época, contato ou interlocução com eles, devido a meu isolamento acadêmico. Hoje penso que tal interlocução poderia ter contribuído para ampliar o quadro interpretativo geral da tese.

 

Na introdução da obra você diz que a singularidade do romance de Manuel Antônio de Almeida foi assinalada pela crítica de várias maneiras, e, como acontece com frequência, a ideia se tornou um lugar-comum que, de tão repisado, pouco contribui para a reflexão. Você, por sua vez, fez uma reflexão sob um ponto de vista totalmente novo. Pode nos falar sobre a importância ou desafios de apresentar uma ótica diferente de uma ideia já consolidada?

ETO: O trecho referido na pergunta diz respeito a certas observações genéricas que se cristalizaram na crítica sobre as Memórias de um Sargento de Milícias, como a filiação à picaresca espanhola e o realismo do romance. Ambas as questões foram criticamente discutidas por Antonio Candido em seu ensaio de 1970, mas o fato de terem retornado em alguns estudos posteriores ao dele talvez seja indício de uma dificuldade básica da crítica literária: parte da crítica tende a não ver as coisas em termos históricos, deixando de captar a especificidade das formas.

Penso que a novidade em si mesma não é critério de qualidade, pois as novas tendências teóricas às vezes podem apenas repor noções ideológicas que, por sua vez, também se renovam; estudar assuntos novos em uma obra, por si só, não necessariamente redunda em uma leitura mais consistente do que as já estabelecidas. A meu ver, a crítica literária produz conhecimento e ganha relevância quando consegue apreender e conceitualizar a configuração formal própria de uma obra, especificando o modo como se dá a elaboração estética da matéria histórica e social, pois é nessa articulação que a obra pode revelar algo significativo para o presente. A dificuldade da crítica literária, assim, não está somente no embate com leituras prévias, que é um momento importante do processo crítico, mas está sobretudo na capacidade de, a partir do ângulo da atualidade, captar e tornar inteligível a lógica particular que organiza a obra e seu sentido histórico.

“Cena Absurdo”: poesia e tecnologia multimídia

Por: Renata de Albuquerque

cena

Pedro Marques está lançando Cena Absurdo – Revisto e Diminuto: 1998-2015, um livro de poemas que revelam os absurdos do dia a dia, nem sempre notados quando se vive em meio a eles. Em alguns momentos, o livro apresenta dois ou três poemas na mesma página, ampliando a possibilidade de leitura simultânea. Além disso, traz QR Codes de clusters sonoros, que ampliam a experiência da leitura. Pela Ateliê, o autor também lançou Manuel Bandeira e a Música (ensaio, 2008) e Clusters (poesia, 2010).

A seguir, Marques fala do livro, que tem lançamento neste dia 24 de novembro, na Livraria da Vila, em São Paulo:

 

Qual foi a ideia de unir clusters sonoros aos poemas do livro? Em que medida os clusters ressignificam sua poesia para o leitor?

Pedro Marques: A poesia escrita tende a ser sequencial:fonema depois de fonema, palavra depois de palavra, verso depois de verso. Mário de Andrade, ligado à música e à oralidade, experimentou criar efeitos de simultaneidade com palavras (“verso harmônico”) e com versos (“polifonia poética”). Na música, a simultaneidade é natural, não só na harmonia, mas na própria coexistência rítmica, melódica e harmônica. Na oralidade falamos, ouvimos, gesticulamos, tudo ao mesmo tempo. Em poesia literária, em geral, conseguimos apenas a sensação disso tudo. No primeiro livro, Clusters (2010), testei transladar para poesia esse recurso da massa sonora concomitante, comum na música. Como no cacho sonoro, um cardume de poemas que deveriam ser lidos no seu valor de conjunto. Isso gerava já uma intervenção no modo tradicional de ler o poema apenas como unidade própria dentro de um livro. Cena Absurdo (2016) dá um passo além, quando dispõe dois ou três poemas na mesma página, ampliando a possibilidade de leitura simultânea. Isso feito, surgiu a ideia de, nas dez páginas em que isso ocorre, inserir a música propriamente. Ou seja, depois de simular clusters na literatura – o que por si ressignifica nossa expectativa retilínea de leitor -, devolvi o simulacro ao original: a música.

O poeta Pedro Marques

O poeta Pedro Marques

É a primeira vez que isso acontece em um livro de poemas?

PM: Há tanta coisa sendo testada na poesia mundo afora, não? De todo modo, o diferencial aqui é testar os limites deste que é dos suportes mais bem-sucedidos da poesia escrita: o volume em papel. Veja, não é livro que vem com partitura, CD, dobradura ou DVD. É livro aparentemente tradicional, mas que num instante arranca o leitor de sua leitura silenciosa para a experiência sonora, que materializa simultaneidades acústicas e intelectuais entre poemas. O leitor vai lendo o livro como de costume, linearmente. De repente, é convidado à audição músico-poética por meio de seu celular ou computador. Esse conteúdo sonoro, guardado na nuvem invisível (www.cenaabsurdo.com.br), acompanha o leitor/ouvinte conectado à internet em qualquer lugar.

 

O que diferencia essa obra de Clusters, lançada em 2010?

PM: A ideia de cluster poético nasce com Clusters. Ali, no entanto, é antes metafórica que efetiva. Você pode ler os poemas do cluster “Tragédias”, por exemplo, como unidades independentes ou como grupo. Não há uma disposição editorial e multimídia que suporte o conceito aplicado à poesia. O poema está lá sozinho na mancha. Ao mesmo tempo, nesse primeiro livro, os dez clusters são nomeados, distinguíveis em suas características temáticas, estilísticas, narrativas ou dramáticas. Cena Absurdo é um fluxo só que, de repente, propõe um cluster sem título cuja simultaneidade é, por um lado, realizado pelo leitor, e, por outro, materializada pelas composições musicais.

 

Por que do título “revisto e diminuto”? Rever, na sua opinião é editar, é condensar, é cortar?

PM: Em 1998, com a ajuda do poeta Welington Fernandes, rodei em casa um livro chamado Em Cena com o Absurdo. Fizemos tudo, da diagramação à colagem do miolo, passando pela gestão da grana curta. Eram cinquenta livros artesanais. Graduando em Letras, na UNICAMP, fui lido por poetas, músicos e professores duros na crítica. Uma escola de prática editorial e de exercício poético. Abrir o peito ao frio. O livro era grande demais, cheio de ideias, pouca resolução formal. Uma oficina aberta aos amigos. Peraltice de vinte anos. Aprendi que rotina de poeta é escrever e rescrever, não publicar. É tomar mel e pedrada de gente como Paulo Franchetti e Antonio Candido. É ouvir parceiros que acompanham a lida: Luís Fernando Prado Telles (do posfácio) e Marco Catalão (da quarta-capa). Sempre vi edições “revistas e aumentadas”, esta, embora revisada, é diminuta por dois motivos. Primeiro, Cena Absurdo preserva, condensando em volume e estilo, a ideia central do seu rascunho caseiro: o dado absurdo está entre nós, não lá longe. As cenas do livro dramatizam exemplos disso. Segundo, em harmonia, o acorde diminuto tem acidentes estranhos ao ouvido, seus dois trítonos. O termo também nesse sentido cabe ao livro, que rearranja a percepção tradicional do leitor de livros de poesia, ao entrechocar mais de uma poema por página, ao trazer áudios inusitados que não são locuções.

 

De que maneira a decisão do uso dos clusters, em QR Code, influenciou o fazer poético do livro? As poesias são anteriores a essa decisão?

PM: Não chegou a influenciar a composição dos poemas. As decisões técnicas e conceituais do livro já estavam todas tomadas. O uso do QR Code, ao contrário, foi uma solução tecnológica proposta pelo Estúdio Risco, que assina o projeto editorial com a Ateliê Editorial. Foi a saída encontrada para o problema estético, quanto aos poemas, e para o impasse prático, quanto à experiência de leitura.

 

A poesia é um ato, muitas vezes, referido como solitário pelos artistas. Na medida em que você contou com a contribuição de Gustavo Bonin, Micael Antunes e Juliana Amaral no livro, a criação passa a ter um aspecto também coletivo. Qual a importância disso nesse contexto?

PM: A criação, nesse caso, foi coletiva por conta dos anos decompondo e compondo o livro a partir de leituras críticas. A reunião de produtores, músicos e compositores para esta edição trouxe coletividade de produção mesmo. Havia os poemas no Word, dez páginas eram clusterizadas. O projeto gráfico e o espetáculo baseado no livro (que pode ser visto nos lançamentos) surgiu no Estúdio Risco, nas figuras de Juliana Amaral e Humberto Pio, arquitetos da arte qualquer que ela seja. Os clusters sonoros nasceram do contato com Juliana Amaral, cantora essencial na atual canção popular brasileira. Seus shows e discos apresentam acabamento e significado nada triviais, são vivências na arte de cantar. Foi na canção popular que nos achamos, quando ela gravou uma parceria minha com Nenê Baterista. Só que no Cena Absurdo esse encontro cancional enveredou para uma música concreta, com entonações e sobreposições abertas ao estranho, ao cênico. Para burilar essa ideia, Juliana puxou para o projeto os compositores experimentais Gustavo Bonin e Micael Antunes, ourives do som, senhores da onda sonora, das tecnologias de edição. Tanto a produção editorial quanto sonora (esta passou por todo processo de estúdio e mixagem) foi coletiva e conduzida por Juliana. Sem ela, o livro assim não existiria. Com cada indivíduo no seu instrumento, Cena Absurdo, no fundo, virou tipo um álbum de banda, só que com a palavra escrita à frente.

 

QR Code de cluster contido no livro

QR Code de cluster contido no livro

Em que medida os clusters ressignificam sua poesia para o leitor? O que você buscou com a inclusão deles na obra?

PM: De um lado, busquei expandir os fronteiras midiáticas e intelectivas desse objeto maravilhoso que é o livro. Ou seja, expandir a ideia de volume não é apenas convertê-lo em livro eletrônico, cujo formato pode ser bem tradicional quanto à experiência leitora. De outro lado, os poemas de Cena Absurdo guardam vozes (de falas a referencias literárias). Como ecoar isso de modo simultâneo? Como transpassar o leitor/ouvinte com esse coro de informações? Os clusters na página redefinem a percepção mental, os clusters sonoros materializam musicalmente essa percepção.

 

Há alguma espécie de continuidade ou de ruptura entre Clusters e Cena Absurdo? Que inovações, o que este novo livro agrega ao anterior?

PM: Cena Absurdo desenvolve a noção de cluster poético iniciada em Cluster. Mais que isso, a ideia é que cada um dos dez cachos do livro Clusters virem uma massa autônoma com uma nova versão ou aplicação do conceito clusters-poético. Cena Absurdo, que no livro de 2010 chamava-se “Em cena com o absurdo”, contando com apenas quatro poemas, é o segundo passo dessa história que vou caminhando pacientemente.

 

O leitor pode encontrar o fantástico em textos de literatura antiga

Por: Renata de Albuquerque

capa_antologia_fantastica

Costuma-se relacionar o  gênero fantástico à literatura praticada já no século XX. Ficcionistas geniais, como Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marquez tornaram comum fazer uma ligação desse tipo de literatura à América Latina, mas a verdade é que a literatura fantástica extrapola esses limites geográficos e cronológicos. Com sua recém-lançada Antologia Fantástica da Literatura Antiga, o diplomata Marcelo Cid, que atualmente vive na China, mostra que o gênero pode ser notado na literatura até mesmo em textos anteriores à era cristã.

O organizador do volume – que já lançou, entre outros, Borges Centenário (organizador, EDUC), Philobiblon, ou O Amigo do Livro (tradutor, Ateliê Editorial) e Os Doze Nomes e Outros Contos (autor, Editora 7Letras) – alerta, entretanto, que encontrar o fantástico na literatura antiga é tarefa que requer um trabalho ativo do leitor. Isso porque, como o “fazer literatura fantástica” não era a intenção original dos autores (até porque esse conceito nem existia então), é da mistura de elementos reais, religiosos e mitológicos que esse gênero emerge. De certa forma, pode-se dizer até que essa peculiaridade torna a leitura desse tipo de texto mais lúdica, já que cabe ao leitor criar essa interlocução.

De qualquer maneira, detectar esse elemento em textos antigos é mais simples do que pode parecer. Basta, por exemplo, deparar-se com um texto como o de Sinésio de Cirene:

Um sonho dentro de um sonho

Pois quando um homem sonha, ele conquista, caminha ou voa ao mesmo

tempo, pois a imaginação tudo permite. Mas como reproduzir isso tudo

num discurso? Assim, um homem dorme e sonha; ele percebe que sonha

e abandona o primeiro sonho ainda dormindo, mas segue sonhando, imaginando-

se porém acordado, deitado em sua cama. Ele filosofa um pouco

sobre a visão que teve, de acordo com seu conhecimento. E este é um sonho,

mas um sonho duplo. […] Um outro sonha que está sendo atacado,

então ele foge, no sonho, e acorda seguro. Só então, refletindo, perceberá

seu engano. (Dos Sonhos, xii, 6).

 

A seguir, Marcelo Cid fala ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia da Antologia Fantástica da Literatura Antiga?

Marcelo Cid: Foi uma combinação natural de meus dois maiores interesses literários: a literatura antiga e a literatura fantástica. Sou fã de Jorge Luís Borges, e sentia que esse projeto era “borgeano” antes mesmo de ler a “Antologia de la literatura fantástica” de Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo, em cujo Prólogo Bioy Casares escreveu que las “ficciones fantásticas son anteriores a las letras”.  Com Borges, aprendi a “poética da leitura”, essa brincadeira muito séria de ler um texto procurando nele o que o autor pode não ter intentado, mas que nosso repertório permite achar. Com isso, foi natural ler trechos da literatura antiga como contos fantásticos. Isso era para mim um prazer que eu achava que devia divulgar numa antologia.

 

Marcelo Cid

Marcelo Cid

Como se deu a escolha dos textos presentes na Antologia? Qual período cronológico foi levado em conta?

MC: Foi difícil escolher os textos, primeiro pela vastidão das fontes. “Literatura antiga” é uma expressão muito imprecisa, inclui textos gregos e latinos num arco de uns 1000 anos… Mesmo limitando o escopo, digamos, escolhendo apenas textos latinos, ou só gregos, ou só de um século daquele período, seria assim mesmo uma coisa quase interminável. As pessoas geralmente não têm ideia da extensão, do volume, da literatura que Grécia e Roma nos legaram – e veja que só sobraram uns 20% de tudo, o resto se perdeu. Por esse motivo, minhas escolhas foram limitadas à disponibilidade dos textos em línguas que eu conheço e à tentativa de diversificar as fontes, sair um pouco da lista dos autores antigos mais conhecidos. Quanto ao período, o mais antigo da Antologia é Homero, que pode ter vivido no século 7 antes de Cristo (se é que ele existiu). Já o mais recente (com uma ou outra exceção) é Santo Agostinho, que morreu em 430 d.C. Esses extremos podem parecer aleatórios, mas para mim a escolha foi clara: os antigos todos tinham mais ou menos o mesmo repertório, liam as mesmas coisas, há uma espécie de “espírito comum” a todos eles, seja para elogiar ou refutar. Por exemplo, Santo Agostinho não sabia grego e era obivamente cristão, mas leu e releu (até às lágrimas) a Eneida, que é um decalque de Homero.

Quais são os traços fantásticos mais comumente presentes nos textos antigos?

MC: Essa é uma pergunta difícil… Primeiro porque um antigo não entenderia a expressão “literatura fantástica”. Para eles, as coisas eram reais, mitológias ou religiosas, e às vezes tudo isso se misturava. Eu diria que, para um leitor de hoje, o fantástico na literatura antiga ocorre quando essas coisas se misturam de uma maneira ou de outra. Por exemplo: um fantasma numa história não é propriamente um elemento fantástico. Mas se esse fantasma diz algo sobre o dia seguinte, sobre um acontecimento concreto, e assim salva a vida ou indica um tesouro real, ou seja, quando o irreal se mistura com o real, isso pode ser fantástico. O mesmo vale para o sonhos. Tudo é possível nos sonhos, mas quando sonho e realidade se misturam, temos um exemplo do fantástico.

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Quais são as principais diferenças entre o fantástico notado nos textos da Antologia e o fantástico na concepção teórica como o conhecemos, presente na literatura de Murilo Rubião, Kafka e Borges, por exemplo?

MC: Acho que o fantástico na literatura antiga pede uma participação maior do leitor. Quando lemos Kafka, Borges ou qualquer autor moderno, sabemos que ele tem um propósito, que estamos sendo “manipulados”, por assim dizer – ele quer nos surpreender, ou nos emocionar ou confundir. Num texto antigo, é mais difícil saber qual a intenção do autor. Um historiador antigo pode nos surpreender, mas será que foi a intenção dele? Por esse ângulo, acho que é mais lúdico, o leitor precisa estar atento para fazer o texto dizer uma coisa a mais.

Há alguma aproximação da literatura antiga com a moderna e contemporânea em termos de temas também?

MC: Borges disse que só existem quatro histórias em toda a literatura, que as pessoas seguirão narrando e transformando enquanto o mundo existir. Tolstoi dizem que só existem duas: uma pessoa sai em busca de aventuras ou um estranho chega à cidade… Os autores de contos fantásticos do século dezenove tentaram variar os temas, o que levou à criação da ficção científica, por exemplo. Mas eu acho que basicamente qualquer tema da literatura fantástica moderna tem um paralelo na antiga, até mesmo a ficção científica (em Luciano de Samósata e outros). Histórias de fantasmas, viagem no tempo, viagem ao além, sonhos, metamorfoses, premonições, até a angústia metafísica ou a vertigem do infinito, também isso achamos nas duas épocas.

A literatura praticada no Classicismo, influenciada pelo pensamento humanista, por exemplo, parece idealmente bem distante do improvável que marca a literatura fantástica. Por outro lado, textos influenciados por questões religiosas, que retratam experiências místicas já podem ser considerados mais próximos do gênero.  Em sua opinião, que fatores levam ao aparecimento do fantástico nestes textos antigos?

MC: Acho que o ser humano, não importa de qual época ou sociedade, sempre será atormentado por  algumas questões básicas: como surgiu o universo?, Deus existe, ou os deuses? Meu destino é livre ou já foi escrito?, existe vida após a morte? Etc… Mesmo quando a ciência ou a religião dizem ter todas as respostas, sempre haverá pessoas que não estão convencidas disso, e essas costumam ser as mais imaginativas. Algumas delas deixam suas dúvidas e possíveis respostas em forma de literatura.

O sentido político do livro

Por: Renata de Albuquerque

Fllamarion Maués, Sandra Reimão, Felipe Quintino, Ana Caroline Castro e João Elias Nery, alguns dos autores de textos do livro

Fllamarion Maués, Sandra Reimão, Felipe Quintino, Ana Caroline Castro e João Elias Nery, alguns dos autores de textos do livro

Composto de seis textos inéditos, escritos por diferentes pesquisadores de diversas áreas, Livros e Subversão – Seis Estudos é fruto de um dos trabalhos do grupo Censura a Livros e Ditadura no Brasil.

O volume foi organizado por Sandra Reimão, Professora na Universidade de São Paulo (USP) na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH)  e na Pós Graduação em Comunicação (PPGCOM-ECA). Os estudos mostram como os livros eram vistos pela Ditadura (1964 a 1985) como possíveis instrumentos de subversão da ordem estabelecida e como potenciais inimigos a serem combatidos. Os textos são assinados pelos pesquisadores Felipe Quintino, Ana Caroline Castro, Andréa Lemos, a própria Sandra Reimão, João Elias Nery e Flamarion Maués.

É Maués, Doutor em História pela Universidade de São Paulo/USP, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, autor de Livros Contra a Ditadura: Editoras de Oposição no Brasil, 1974-1984 (Publisher, 2013) e professor substituto na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que fala sobre o lançamento com exclusividade ao Blog da Ateliê:

 

Como surgiu a ideia de reunir os textos para a obra?

Flamarion Maués: O livro surgiu como decorrência do nosso trabalho no Grupo de Pesquisa Censura a Livros e Ditadura Militar no Brasil, vinculado à EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da USP). Este grupo tem por objetivo identificar, compreender e discutir a censura à publicação de livros durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Nosso trabalho busca estudar o processo de censura a livros nos diferentes momentos da ditadura militar brasileira; verificar as repercussões dos vetos no panorama editorial do momento; e seguir o percurso editorial das obras em questão após o ato da censura.

Entendemos a censura, durante a ditadura militar brasileira, como parte de um aparelho de coerção e repressão que resultou em enormes prejuízos para o exercício da cidadania e da cultura.

 

Os ensaios foram escritos exclusivamente para o livro?

FM: Os artigos são inéditos e escritos especialmente para o livro. Eles são fruto de pesquisas de doutorado ou pós-doutorado de cada membro do grupo, assim como de trabalhos coletivos que desenvolvemos, como é o caso dos artigos sobre a Banca de Cultura do CRUSP e sobre a Editora Diálogo, de autoria minha, de Sandra Reimão e João Elias Nery.

 

Os pesquisadores autores dos ensaios não são todos da mesma área. De que maneira essa multidisciplinaridade enriquece um estudo como este?

FM: A interdisciplinaridade é uma das marcas fortes das pesquisas no campo da história do livro e da edição. No nosso caso, os pesquisadores são da área de Comunicação e História, mas poderiam ser também das áreas de Letras, Sociologia, Educação ou mesmo Economia ou Ciência Política, uma vez que este campo de estudos tem congregado colaborações desses diversos ramos de conhecimento. Isto tem enriquecido as pesquisas referentes à história do livro e da edição, permitindo olhares plurais e a utilização de métodos diversificados, sem perda de uma perspectiva crítica e inovadora.

 

Alguns personagens dos estudos (como Ênio Silveira e Zuenir Ventura) são figuras centrais na história da resistência da imprensa durante a Ditadura; bem como algumas instituições, como a Banca do Crusp. Mas, por exemplo, o caso da obra de Lenin não é tão debatido.  Como se deu a escolha dos temas de cada ensaio? O que o senhor tem a dizer sobre isso?

FM: Os temas se relacionam às preocupações relacionadas ao Grupo de Pesquisa Censura a Livros e Ditadura Militar no Brasil, e à pesquisa que cada um dos autores desenvolve. Então, os temas às vezes nem tão conhecidos – como a edição da obra de Lenin às vésperas do AI-5 por uma pequena editora de Niterói (a Editora Diálogo), ou sobre o uso de livros como elemento de provaem processos judiciais contra pessoas acusadas de subversão, ou ainda sobre a Global Editora – se relacionam a pesquisas que cada um de nós desenvolve. No primeiro caso, da Editora Diálogo, a ideia surgiu em decorrência da entrevista que fizemos (Sandra Reimão, eu e João Elias Nery) com o editor Fernando Mangarielo, responsável pela Banca da Cultura (e depois fundador da editora Alfa-Ômega), que mencionou a história do livro do Lenin. Ficamos curiosos em relação ao tema, e acabamos descobrindo que o professor Aníbal Bragança tinha sido um dos proprietários da Editora Diálogo. O professor Aníbal é um dos principais estudiosos da história do livro no Brasil, e como nós o conhecemos ficou mais fácil fazermos o artigo.

 

livrosQual o traço em comum que pode ser percebido nos seis estudos agora publicados?

FM: Penso que é a preocupação em entender o sentido político do livro e da edição, buscando destacar seu papel como elemento relacionado a formas de intervenção política e social, principalmente no que diz respeito à difusão e ao debate de ideias inovadoras e/ou contestadoras. Ao mesmo tempo, relacionar isso ao fato de o livro ser sempre perseguido pelos regimes autoritários, sofrendo censura e restrições a sua circulação. Desse modo, buscamos destacar aqueles momentos em que esse embate se deu, seja de modo mais direto, seja de maneira mais sutil. E também mostrar como a atuação dos editores se deu, na maior parte dos casos, na confrontação dessas perseguições e censuras, buscando levar a público as obras que colocavam em questão os poderes autoritários e que proporcionavam o debate democrático.

 

Em um contexto histórico no qual parte da sociedade julga “golpe” o impeachment recém-sofrido pela ex-presidente, qual a relevância de um lançamento como este? O senhor acredita que é possível traçar algum paralelo ou fazer alguma relação entre os momentos históricos retratados na obra e o que o Brasil vive, em 2016?

FM: É preocupante – e sintomático – que atualmente as manifestações políticas estejam sendo criminalizadas. Aqui em São Paulo (mas não só aqui) a ação do governo estadual, por meio da Polícia Militar, tem sido de repressão sistemática e desproporcional dessas manifestações, com conivência da Justiça, que considera normal que a PM use balas de borracha e cause ferimentos e até cegueira em manifestantes. Isso tem se relacionado ao tema que tratamos em Livros e subversão, uma vez que tem havido casos de prisões de pessoas em manifestações políticas em que a posse de certos livros (de autores anarquistas ou marxistas) está sendo usada como “prova” de acusação contra essas pessoas.

O golpe que acabamos de viver reflete esse quadro de criminalização da participação política pluralista. É uma situação preocupante. Todavia, vemos que o campo editorial tem se manifestado a respeito, ou ao menos algumas pequenas editoras, com o lançamento de livros como Por que Gritamos Golpe (Boitempo) ou Historiadores pela Democracia: o Golpe de 2016 e a Força do Passado (Alameda). São ações editoriais de cunho político que mostram que os editores estão atentos.

Morte e silêncio conduzem personagens em “Silêncios no Escuro”

Por: Renata de Albuquerque

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”. A seguir, Maria Viana fala sobre seu mais recente lançamento:

 

Maria Viana fotografada por Laura Campanér

Maria Viana fotografada por Laura Campanér

Este é seu primeiro livro de ficção adulta. O que a levou a escrevê-lo?

Maria Viana: Acho que o que me levou a escrevê-lo foi o desejo de contar algumas histórias que de alguma maneira estavam esperando o momento certo para tomar forma de palavra escrita, já que povoavam meu imaginário e minha memória há muito tempo. Nessas narrativas quis dar vazão para os meus silêncios e os silêncios das personagens, que queriam sussurrar algo por meio da minha escrita.

Como o livro foi escrito?

MV: Sou uma colecionadora de cadernos e cadernetas. Sempre que tenho uma ideia ou uma lembrança me vem à mente, anoto. Como trabalhava, e ainda trabalho, muitas horas como editora ou escrevendo livros teóricos e didáticos, quando me sobra tempo para a ficção desenvolvo essas ideias salpicadas nas anotações. Por isso, essa coletânea foi escrita assim, nas horas que sobravam e ao longo dos anos. Mas há fios conduzindo tudo, como disse, a morte e o silêncio. A presença do pai também é recorrente em toda a obra. Na verdade, o primeiro e o último conto foram estrategicamente posicionados. No primeiro, moveu-me o desejo de retratar a dor de um pai que perdeu muitos filhos antes de ver um deles realmente sobreviver. O último fala também da morte, mas do ponto de vista da criança que presenciou a morte do pai. Deixei de fora alguns contos que tratavam de temas que acontecem no espaço urbano, acho que esse espaço rural, em um tempo indefinido, também dá certa unidade à antologia.

Alguns contos foram reescritos muitas vezes, é o caso de “Silêncios no escuro”, por exemplo. Outros surgiram de histórias que ouvi na infância. Caso da narrativa “A santa que fugiu do altar”. Na verdade, minha avó falou-me desse retrato da menina-santa que circulava pela cidade. Esse foi o mote para a criação da história, mas só esse aspecto da narrativa oral está lá. O resto é invencionice. Esse conto escrevi em uma noite e não mexi em nada, só mudei o título, que foi publicado em uma revista eletrônica como “Santa Manuelinha”.

Capa Silencios no escuro

 

Em termos do processo de criação, qual a diferença entre escrever um livro para crianças e um livro para adultos?

MV: Para mim, escrever para crianças é ainda mais difícil do que para adultos, pois é preciso escrever tendo em vista um destinatário que tem um poder de imaginação enorme, não se pode subestimar isso ao escrever uma história para crianças, no entanto, também é preciso estar atento ao vocabulário, à linguagem. Então, não vejo muita diferença. O trabalho com a linguagem e a depuração do estilo é um desafio sempre, quando se escreve tanto para a criança como para o adulto.

Quais são suas maiores influências literárias?

MV: O fato de ter sido leitora de biblioteca pública desde menina fez com que eu lesse tudo o que me caía nas mãos com muita voracidade e sem critério de escolha muito apurado. Os clássicos da literatura brasileira comecei a ler na adolescência; na juventude tive a sorte de ter uma biblioteca de clássicos de dramaturgia à minha disposição, na escola de teatro onde estudei. Isso foi uma descoberta! Foi quando li pela primeira vez Racine, Molière, Shakespeare e as tragédias gregas. Depois, veio a formação em Letras e o mergulho na literatura francesa. Ainda sou uma leitora e (re) leitora de clássicos e tento, na medida do possível, acompanhar a produção contemporânea, sobretudo dos escritores de expressão portuguesa dos países africanos, mas não saberia dizer se um ou outro escritor influenciou ou influenciará minha produção literária. Claro que ser uma leitora de literatura desde a juventude faz de minha uma boa produtora textual, mas nem eu sei se o que escrevi realmente é literatura ou não, acho que os leitores darão mais conta disso do que eu…

Quais são os temas recorrentes do livro e por que desta escolha?

MV: Depois que fechei o volume me dei conta de que há um fio que percorre toda a obra, a morte e o silêncio, mas isso não foi intencional. Uma amiga que leu alguns contos antes da publicação, chegou a observar que achava estranho uma pessoa que teve uma formação em teatro, como foi o caso da minha, escrever histórias em que as personagens não falam. Essa observação me fez pensar que esse é mesmo um livro de silêncios. Então, este talvez seja o tema central.

Na apresentação da obra, Edy Lima escreve que você faz uma “reinvenção do Realismo”. De que maneira você entende e interpreta essa afirmação?

MV: Estes contos só foram publicados porque a Edy Lima leu os originais e me estimulou a enviá-los para uma editora. Sempre que eu ia visitá-la, ela me perguntava se já tinha enviado para alguém. Não podia mentir, dizendo que já havia enviado sem fazê-lo, é claro. Então, um dia criei coragem, coloquei em um envelope e mandei pelo correio para o Plínio Martins. Portanto, seria natural que a Edy Lima, de quem fui leitora na infância, escrevesse a apresentação desse livro, que realmente não teria saído da gaveta se não fosse por insistência dela. E não veja nisso nenhuma falsa modéstia. Creio que ao escrever isso ela quis aproximar os contos da minha linha de pesquisa à época, já que ela leu também minha dissertação de mestrado, que é sobre a obra O Coruja, do Aluísio Azevedo. Não acho que estou reinventando nada. Só estou contando histórias, que é o que gosto de fazer quando escrevo, faço leituras dramáticas como atriz ou interpreto um samba, pois todo bom samba tem que contar uma história. Mas a Edy Lima tem licença poética para escrever o que quiser.

É sua estreia como escritora de contos. Era um desejo antigo ou a vida lhe levou para esse caminho, naturalmente? O que você destaca dessa nova experiência?

MV: Sou uma estudiosa de romances do século XIX, mas uma apreciadora das narrativas curtas. Sempre admirei a capacidade de alguns escritores que dão conta de uma existência em poucas linhas. Organizei vários livros de contos para diferentes editoras e cheguei a traduzir um livro de contos do Guy de Maupassant. Essas experiências fizeram-me perceber que escrever contos é muito desafiador, por que é preciso cortar os excessos, não há espaço para descrições e digressões, próprias do romance. Creio que quis cometer essa ousadia também, se consegui, não sei.

 

O livro será lançado em 29 de agosto de 2016

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Revista LIVRO é “compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro”

Por: Renata de Albuquerque

A LIVRO – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição – acaba de chegar ao número cinco, ultrapassando a “barreira do quarto número”. O objetivo da publicação – pensar o livro como um objeto que carrega significados e conteúdos para além dele mesmo – cumpre-se, desta vez, com a participação de mais de duas dezenas de colaboradores renomados em diversos setores, do acadêmico ao editorial. Entre eles estão Jean-Pierre Chauvin, Mônica Gama, Iuri Pereira e Marisa Midori Deaecto, editora da publicação e com quem o Blog da Ateliê conversou a respeito:

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Qual o tema central desta edição da Livro?

Marisa Midori Deaecto: Na verdade, o tema central é o livro. É o objeto de estudo privilegiado pelos editores e pelos autores para a construção da revista. O propósito da publicação é justamente o de valorizar o caráter múltiplo do livro, o que provoca, por extensão, múltiplas frentes de investigação. O que a revista traz como diferencial para cada número é o que chamamos de dossiê temático, ou seja, em todos os números convidamos autores para contribuir em algum campo em comum e reunimos estes estudos sob a forma de um dossiê. O número 5 traz artigos reunidos no Dossiê Tipografias. Com isso, nossa intenção é a de valorizar estudos sobre a arte do livro, tendo como chave a própria palavra tipografia, que se tornou, ela também, polissêmica.

Com base em que parâmetros foram escolhidos os colaboradores desta edição?

MMD: Os colaboradores se auto convidam ou são convidados. Como a revista tem uma tradição, pois manteve sua permanência e se fixou como a principal revista especializada em estudos do livro no Brasil, então é natural que sejamos procurados. Há outro aspecto: ela não se fecha para a produção acadêmica. Entendemos que o livro é objeto de admiração e de estudos por toda parte, não apenas por aqueles que atuam nas universidades. Vem daí o amplo interesse que a revista desperta.

 

PRIMEIRA CAPA REV LIVRO 5Ao iniciar o trabalho, como foi o convite feito aos colaboradores? Havia alguma preocupação com um fio condutor ou os temas abordados eram livres?

MMD: Não, uma revista se diferencia de um livro pelo fato de ser uma obra aberta. Quando começamos, não sabemos no que vai dar. A boa surpresa é que o trabalho resulta sempre em volumes alentados e muito interessantes. E volumes bem diferentes uns dos outros. Aliás, quem coleciona nossos números não encontra artigos com temas repetidos. Se considerarmos que a revista soma aproximadamente 1500 páginas, isto é um grande feito!

 

 

O editorial fala da importância da revista ter chegado à quinta edição e do apoio que receberam de vários pesquisadores. Quais são os desafios de manter uma publicação como essa e por que ela se tornou referência para se pensar sobre o papel da comunicação?

MMD: Há uma lenda que diz que as revistas independentes não sobrevivem ao quarto número. Se nos basearmos nessa premissa, o número 5 é um feito histórico. Recebemos o apoio irrestrito dos autores que confiam em nosso trabalho e na qualidade editorial da revista. Este ponto é muito importante, pois há estudiosos brasileiros que se preocupam com a pontuação que um determinado artigo poderá lhe render no ranking acadêmico. Esta preocupação não existe entre nós. Editores e autores firmam seu compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro. Mas revista é um artigo de venda difícil. Mais difícil do que vender livro. Primeiro porque, na cultura acadêmica, as revistas são feitas para seus pares, muitas são financiadas por programas de pós-graduação, portanto, não são vendidas, são distribuídas. Segundo, porque fora do mundo acadêmico não existe a cultura de venda e aquisição de revistas extremamente especializadas como a nossa. Terceiro, somando um e outro aspecto, porque os canais de distribuição são raros, raríssimos. No nosso caso, eles dependem da editora e dos parceiros, ou seja, da ajuda de autores, artistas e dos conselhos editorial e científico. Mas a LIVRO segue como referência nos estudos da área e, de forma mais abrangente, nos estudos sobre a comunicação, entendendo, aqui, o livro e o impresso – pois há matérias sobre a imprensa jornalística, sobre revistas etc. – como um componente poderoso da comunicação. O livro é uma media, logo, revelar seus múltiplos aspectos constitui um exercício fundamental de análise e reflexão sobre a comunicação no sentido histórico, sociológico e econômico.
O próprio editorial da edição trata do fato de que o Brasil tem mudado muito rapidamente nos últimos tempos. Quais são as mudanças que poderiam ser destacadas e de que maneira elas são abordadas nessa edição?

MMD: O editorial trata de uma crise sistêmica que começa na política, ou termina na política, mas que tem suas raízes em uma crise que, na falta de termo mais seguro, poderíamos chamar de uma crise estrutural do país.

 

A intolerância é a expressão mais trágica e eloquente deste cataclismo social que estamos vivendo.

Porém, aparentemente, nada muda nas análises sobre o livro. Elas continuam e o interesse de autores e leitores sobre a revista só aumenta. Já temos matérias para o número 6. O que mudou, talvez, foi o estado de espírito de seus editores. Mas isto certamente não tem uma influência direta na edição.

 

Como uma publicação anual pretende dar conta dessas rápidas mudanças? Como essas mudanças refletiram nesta edição da Livro? 

MMD: A revista não tem a pretensão de abraçar as mudanças em tempos reais. Ela é editada por um editor de profissão e por uma historiadora convertida em editora. Logo, há poucas chances de querermos abraçar o presente. Mais vale pensar na perenidade das palavras impressas e no potencial do livro para a preservação da memória dos homens.

 

Qual a importância do livro (e do saber) para que possamos sair deste momento de crise social, política e econômica? 

MMD: Já escrevi noutra ocasião que o livro é um instrumento de fuga e de transformação. São dois caminhos opostos e contraditórios e cabe ao leitor fazer as suas escolhas. Mas tudo está no livro, desde que bem escolhido e bem lido! O livro é um instrumento para se compreender o mundo sem pressa. No jornal estão as informações do dia a dia. No livro estão os instrumentos para se pensar além. Às vezes é preciso sublimar a realidade dura descrita nos jornais para uma compreensão mais profunda dos fatos e para a sua superação. Às vezes, no entanto, é preciso apenas sublimar a realidade que nos cerca, pois isto faz bem à alma. Também nesse caso a leitura se apresenta como uma forma de panaceia do mundo. É por isso que nossa revista investe também em uma seção literária muito incomum na cultura periódica brasileira de nossos dias. Publicamos prosa e poesia em português ou em traduções inéditas, tudo sob a curadoria e edição do Prof. José De Paula Ramos Jr., um grande especialista de Mario de Andrade, professor da USP dedicado ao ensino da ecdótica.