Lançamento

Leia trechos de Museu da Infância Eterna

A infância é uma energia que nunca morre, um tempo idílico de boas lembranças, que nos remete à pureza e à inocência. Miguel Sanches Neto reuniu, neste Museu da Infância Eterna, crônicas sobre este tempo delicado, “que podem ser lidas como um eterno presente”. A seguir, você tem acesso a alguns trechos do livro:

“Mãe, pai e irmãos trabalhando sem lamúrias: aqueles eram anos de labor e alegria, de fé e fascínio, de suor e sono. Com o que ganhava, o menino podia comprar seu lanche, garrafas de sodinha e as bolinhas de gude, chamadas burcas. E Burca virá a ser o apelido de uma de suas paixões adolescentes, por causa de certos olhos negros como as bolinhas usadas nos jogos em quintais de terra”. (p.9)

“Meu avô usou chapéu a vida toda. Eu passava pela loja de sapatos ao lado da igreja matriz e via, nas vitrines de madeira escura, chapéus pretos, muito bonitos, e ficava esperando o dia em que também poderia ter o meu – o tempo estava emperrado na cidade, mas logo ela seria incorporada à civilização. Um dos prefeitos instalaria uma tevê na praça. A cidade entraria no presente, os hábitos mudariam, eu cresceria, ouvindo agora rock. Não deu tempo para eu usar chapéu”. (p. 39)

“Nessa idade e ainda me assustando com um barulho provavelmente
de raposa no forro – lembrei então que a casa é de laje e que raposas não são tão comuns assim. Acendi a luz da sala de tevê e encontrei um Papai Noel sentado em frente da lareira. Ele estava com a roupa rasgada e suja de carvão. Em toda a minha vida, nem quando eu acreditava em Papai Noel, ele me apareceu. Depois deixei de me fiar nessas bobagens e sempre fiz os presentes natalinos de minha filha chegarem acompanhados de nota fiscal em meu nome, o que era motivo de espanto e revolta entre os vendedores” (p.56).

“O que antes era cosmos se tornara caos. O caderno deixava de ser espaço para a ordenação do mundo e das ideias e assumia sua condição de muro, onde todos inscreviam uivos de raiva e de amor. E apareciam nos cadernos nomes de pessoas queridas, palavras sujas, riscos, garranchos, desenhos, principalmente desenhos – caricaturas entre os que tinham maior aptidão para os traços, e rudimentares casinhas com árvore e sol nascendo entre nós, carentes de qualquer vocação”. (p. 95)

Conheça outros livros de Miguel Sanches Neto

Herdando uma Biblioteca: uma declaração de amor aos livros

Por: Renata de Albuquerque*

Assim como “não se compra um livro pela capa” – ditado popular que nos lembra sobre o quanto podemos nos enganar com o que está aparente – nem sempre é possível “comprar um livro pelo título”. É o que acontece com este Herdando uma Biblioteca, de Miguel Sanches Neto, cuja segunda edição (revista e ampliada) acaba de sair pela Ateliê. Afinal, quem lê apenas o título imagina que o autor tenha recebido como legado uma coleção de livros.

Ao abrir o volume, descobrimos que não é isso exatamente o que aconteceu. As crônicas trazem reflexões sobre o mundo do livros e contam um pouco da trajetória do autor, filho de família modesta e pouco letrada do interior do Paraná. Na época, conta Sanches Neto, ele tinha quase nenhum contato com livros que não fossem os didáticos e, apesar disso, tornou-se um bibliófilo na vida adulta.

Mas, apesar de não ter herdado uma biblioteca, Sanches Neto nos conta, com delicadeza, como construiu a sua e que heranças ligadas ao livro trouxe desde a infância. Já os primeiros parágrafos emocionam qualquer leitor amante de livros. A maneira delicada, perspicaz e singela com que o autor conta passagens de sua história enquanto leitor fazem do volume uma verdadeira celebração ao mundo dos livros.

Ao contar fragmentos de sua história, Sanches Neto lembra a cada leitor de reconstruir, para si mesmo ou para os outros, a sua trajetória em meio aos livros. As idas à biblioteca pública, o único livro disponível em casa (uma Bíblia), os livros abandonados por uns e encontrados por outros, os livros ruins recebidos de amigos bons que perguntam nossa opinião que não podemos dar sinceramente.

 “É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca”, diz o autor.

Com uma escrita afetuosa, que traz à tona memórias valiosas de “amor à biblioteca”, Sanches Neto envolve o leitor em uma atmosfera idílica, recriando histórias que não se prendem apenas ao livro, mas ao universo que o permeia, como é o caso da deliciosa crônica “A Arte de Apontar Lápis”.

Muitas das importantes experiências pelas quais um leitor passa ao longo da vida estão nas páginas de Herdando uma Biblioteca, um livro que consegue ser, a um só tempo, uma história contada singularmente e um incentivo para que, ao fechar o livro, cada leitor torne-se autor de sua própria história, revivendo, nem que seja apenas na lembrança, as passagens que o fizeram amar os livros.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

O Encanto de Narciso: fotografia, história e memória

Em seu novo livro, o fotógrafo Boris Kossoy faz reflexões sobre temas que permeiam seu trabalho em textos curtos, densos e objetivos. Para além de registrar as imagens, aqui ele se debruça sobre seus significados e desdobramentos, “em busca de sua natureza e essência”, como ressalta o autor. Os textos foram escritos entre 2010 e 2018 e se organizam em seis capítulos: O Sistema e a Essência; Produção e Recepção; Desmontagem do Constructo; Fotografia e Memória; História da Fotografia; e Outras Dimensões da Fotografia.

A seguir, você lê alguns trechos do livro O Encanto de Narciso:

 A imagem fotográfica é um produto social e cultural; fornece sempre informações de diferentes naturezas acerca dos infindáveis assuntos que ocorrem na realidade concreta ou em motivos puramente abstratos ou ficcionais. Isso significa que são ilimitadas as possibilidades temáticas e que a criatividade só encontra limites na imaginação do fotógrafo, um filtro cultural.

Assim como a palavra é a expressão de uma ideia, de um pensamento, materializada pela linguagem verbal, a fotografia é, também, a expressão de um modo particular do seu autor interpretar o mundo tangível ou intangível.

A realidade do objeto não é a realidade da sua representação. Esta é criada a partir do objeto; não é, portanto, um duplo do objeto. A representação tem vida própria e duração perene. (p. 19/20)

Ao contrário do que diz o ditado popular, a imagem não “vale mais que mil palavras”. Se o receptor nada sabe a respeito do objeto fotografado em si ou do seu entorno, como compreender o que ela representa? As imagens fotográficas históricas, assim como as contemporâneas, contêm informações visuais sobre o objeto. Contudo, é necessário que o receptor da imagem tenha em seu repertório saberes e conhecimentos acumulados de diferentes naturezas para que possa compreender o objeto que vê representado, assim como o contexto histórico, social, político, cultural em que o mesmo se insere. Além de sua aparência. É através da experiência real, mas também da palavra, dos livros, da linguagem verbal, da cultura que adquirimos estes conhecimentos. (p. 25)

Onde termina o documental e onde começa o ficcional da imagem fotográfica?

A criação fotográfica é ilimitada, ou melhor dizendo, só é limitada pela imaginação do fotógrafo. No mundo da representação os fotógrafos se expressam de diferentes modos acerca da vida, da natureza, do mundo, da realidade. Qualquer que seja a aplicação, o registro – adjetivado de “documental” – é, desde a tomada da foto, resultado do olhar criativo de seu autor. (p. 75)

A desmontagem do documento fotográfico corresponde à desarticulação do processo de criação/construção da representação, etapa em que se busca decifrar o conjunto de informações codificadas que elas portam. Trata-se de trazer à tona suas histórias próprias tendo em vista o contexto local e a conjuntura política, social, econômica, cultural; reconstituir as condições de produção; decifrar os enigmas e os porquês acerca de intenções e finalidades que cercam a existência da representação; recuperar a mentalidade da época, entre outras descobertas circunscritas à imagem, operações necessárias para se compreender o aparente e o oculto, suas tramas, significação e alcance. (p. 123)

Neoclassicismo na lírica brasileira moderna

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Vagner Camilo

Desta vez, o assunto é o novo livro do professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP) Vagner Camilo, autor de Risos entre pares: poesia e humor românticos (EDUSP, 1997); de Drummond da Rosa do Povo à Rosa das Trevas (Ateliê Editorial; prêmio ANPOLL 2000), entre outros. Pesquisador das relações entre lírica e sociedade; a recepção de correntes críticas no Brasil (como o new criticism); e as interlocuções marcantes de alguns dos principais românticos e modernistas brasileiros com poetas franceses e ingleses. Atualmente, ele desenvolve pesquisa, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sobre a vertente neoclássicas nas modernas líricas brasileira e argentina. Camilo lança, em breve, A Modernidade entre Tapumes: da Poesia Social à Inflexão Neoclássica na Lírica Brasileira Moderna.  

O livro aborda a tendência formalista que é típica da poesia brasileira das décadas de 1940 e 1950, a partir da obra de poetas da época. Essa discussão tem origem em outra obra de Camilo, Drummond: da Rosa do Povo à Rosa das Trevas, que tratava da guinada poética do poeta mineiro e de como a crítica a recebeu naquele momento histórico.

A partir dessa perspectiva, o leitor poderá entender melhor relevância estética e histórica de momentos decisivos, de virada, que acontecem de tempos em tempos a alguns autores e suas obras. “A tendência neoclássica na lírica do pós-guerra de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Augusto Meyer é examinada aqui com base nos paradigmas internacionais e por meio do confronto com o programa da Geração de 1945, a fim de se refletir sobre a lógica da dinâmica histórica e o sentido desses retornos”, informa a quarta capa do livro.

“O percurso descrito no livro transita de uma das conquistas mais exitosas das reivindicações modernistas das décadas anteriores, alcançada pelo empenho participante de Drummond, para seguir como mergulho fundo e demorado, ao longo de oito capítulo, no exame da crise que se abateu sobre tais conquistas, devido a sua rotinização e à perda de sua força vital, até se espraiarnas águas e no vale do São Francisco, resgatando o projeto modernista de denúncia das mazelasdo Brasil profundo, reposto, no auge da reabilitação neoclássica, em clave elegíaca e em uma linguagem cujo cariz aparentemente extemporâneo, não embota seu vigore contundência crítica”.

Aldo Manuzio: uma aventura chamada livro

Por Renata de Albuquerque*

A Ateliê Editorial acaba de reeditar Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro. O livro, cuja primeira edição é de 2004, estava esgotado e o fato de voltar às prateleiras deve ser comemorado. Afinal, mais que uma simples biografia de uma figura fundamental para o universo dos livros, a obra percorre e  analisa cuidadosamente as contribuições de Manuzio, mestre quinhentista (1450-1515).

O livro é escrito pelo historiador e pesquisador de projetos gráficos Enric Satué, que é historiador, teórico e crítico de projetos gráficos, além de projetista, investigador e divulgador de livros. O estudioso já publicou mais de uma dezena de livros, ganhou diversos prêmios e debruçou-se sobre a vida e obra de Manuzio, um nome central para a cultura do livro no mundo.

O livro como objeto físico tem mais de cinco séculos e meio de História, tendo sido pouco alterado estruturalmente desde sua criação. E as contribuições de Manuzio para este objeto de desejo, ainda que feitas no início da Idade Moderna, permanecem até hoje.

Aldo Manuzio

Ainda na Introdução, descobrimos que o autor considera apenas três invenções importantes para o livro que não tenham sido ideias de Manuzio: a tipologia estreita, encolhida e condensada (criada no século XIX); a publicação da fotografia em livro e o livro com texto linear (contribuição dada por Jan Tschichold). Logo no início da leitura, a sensação – que depois se confirma – é que, sem Manuzio, o livro não seria o que conhecemos hoje. É de Manuzio, por exemplo, a primeira publicação da História em tipografia cursiva. “Justamente na biblioteca do poeta Piero Bembo, Manuzio encontrou o legendário manuscrito autógrafo de Francesco Petrarca, que dizem ter utilizado para compor a primeira publicação da história em tipografia cursiva, editada em 1501”, explica Satué.

Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro analisa o livro como objeto, contempla a vida e obra de Manuzio e faz referências críticas à situação atual do livro. Conta, por exemplo, como Manuzio teria embarcado na aventura de tornar-se editor – com a ajuda financeira de Giovanni Francesco Pico della Mirandola, que investiu na ideia de seu professor e amigo.

Violinos e “efes”

Durante a leitura, descobrimos ainda que a tipografia cursiva teria “inspirado” os luthiers, criadores de violinos da cidade de Cremona, na Itália (país natal de Manuzio). “Será que a influência cultural das formas tipográficas aldinas, estendendo-se além de seus limites razoáveis, alcançou a música sinfônica, da qual os violinos são a parte substancial? Se assim for, toda a numerosa família das cordas traria no peito esse doce estigma aldino, de tal sorte que, ao contemplar uma grande orquestra sinfônica, poderíamos encontrar até setenta e cinco efes cursivos de diferentes tamanhos”, diz o texto.

Com quase 300 páginas, o livro fala de diagramação, História, projetos editoriais e muitos outros aspectos da editoração, em capítulos que abordam as variadas facetas de Manuzio: editor, tipógrafo e livreiro – e a obra que publicou. Traz ainda um capítulo especial com informações sobre o tempo em que Manuzio viveu, as pessoas com quem se relacionava – e como influenciou e foi influenciado por elas. Por fim,  Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro traz uma reflexão sobre o legado deste gênio, sendo de grande interesse para quem trabalha no mercado editorial ou mesmo para quem ama livros e quer saber um pouco mais sobre os aspectos formais desse objeto que, há mais de 500 anos, encanta e fascina leitores ao redor do mundo.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Entrevista com Miguel Sanches Neto

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

O primeiro entrevistado da série é Miguel Sanches Neto, autor de “Museu da Infância Eterna” e “Herdando uma Biblioteca” . Acompanhe:

Miguel Sanches Neto/Divulgação

O que é possível falar sobre os novos lançamentos?

Miguel Sanches Neto: Estes dois livros fazem parte de um projeto maior em que busquei uma seleção temática de minhas crônicas. Durante duas décadas, escrevi para jornais e revistas, quando ainda havia algum espaço para literatura, crônicas com um viés literário, e agora, aos 55 anos, estou concluindo a organização deste material. Então, o gênero é a crônica, mas uma crônica literária, mais interessada nas estruturas de memória e de linguagem do que em atualidades, por isso talvez funcionem melhor no suporte livro do que no formato jornal ou revista, espaço em que elas surgiram.

O que é possível dizer sobre Herdando Uma Biblioteca?

MSN: Herdando Uma Biblioteca é a segunda edição, bastante mudada e ampliada, de um conjunto de textos que eu havia publicado em 2004 pela editora Record. Interessante é que este livro foi pensando para a Ateliê e acabou saindo pela Record. Então, nesta edição, ele volta à sua casa original. É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca. Faz parte de uma área muito forte da Ateliê Editorial, a de livro sobre livros, que é um gênero à parte, que transcende os gêneros literários.

O que se pode adiantar sobre Museu da Infância Eterna?

MSN: É uma coletânea em torno das minhas memórias de infância em uma família muito pobre no interior do Paraná, em contraponto com minha memória de pai de duas crianças, Camila (hoje, advogada, com 25 anos) e Antônio (12 anos). Durante a infância deles, tentei registrar como uma criança vê e expressa o mundo. Estes volumes concluem uma série maior, as minhas “Crônicas Reunidas”.

O que motivou o senhor a escrevê-los?

MSN: Herdando uma biblioteca nasceu de uma afirmação de Anne Fadiman. Em Ex-libris: confissões de uma leitora comum, a autora dizia que todo escritor nasce da biblioteca paterna, das leituras das gerações familiares ou grupais que o antecedem. Eu pensei na hora: isso não vale para o Brasil, país em que a relação entre cultura popular e cultura erudita é muito estreita. Eu mesmo não tive nenhum livro em casa até meus 14, 15 anos. Minha família era de agricultores analfabetos ou pouco escolarizados. Então, resolvi contar a história das bibliotecas que nascem do nada, de encontros casuais com livros e pessoas. Já Museu da Infância Eterna é uma organização de textos produzidos em momentos muito diferentes de minha vida e para colunas que mantive nos meios de comunicação.

Coleção Bibliofilia: três volumes sobre o amor pelos livros

O livro é um dos mais fascinantes objetos produzidos pelo homem. Mesmo em nossa época atual marcada pelos avanços tecnológicos e novas mídias, o livro permanece sendo um artefato sem igual, e não dá mostras que irá desaparecer. Jovens seguem comprando livros, criando clubes de leitura e falando sobre seus autores e histórias preferidos em podcasts e canais no YouTube.  As bibliotecas reforçam sua vocação de centros comunitários de difusão cultural. As coleções de livros impressos seguem preenchendo prateleiras e os aspectos sensoriais do livro impresso – o cheiro, a sensação do papel ao toque, o conforto visual na leitura das letras impressas no papel – ainda não foram imitadas satisfatoriamente pelos dispositivos digitais. Afinal, o livro não precisa de conexão com a internet ou baterias a serem recarregadas.

Com os três livros da Coleção Bibliofilia, organizada por Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins Filho, a Ateliê Editorial e as Edições Sesc São Paulo se unem para celebrar o prazer da leitura e a importância social, cultural, econômica e simbólica do livro. Apesar das transformações tecnológicas e sociais, que impactam a produção editorial, as formas de transmissão da linguagem escrita e seus mecanismos de recepção, o amor ao livro permanece. Para falar sobre a coleção, o Professor aposentado da Universidade de São Paulo João Adolfo Hansen respondeu a algumas perguntas para o Blog da Ateliê:

      A coleção é uma verdadeira celebração ao livro. Qual a importância simbólica dele, hoje, em nossa cultura e dentro do contexto atual do Brasil?

 João Adolfo Hansen: Na situação brasileira atual, em que o ministro da Educação é um asno e o Presidente um desclassificado ao quadrado, a valorização do livro é fundamental. Sem nenhum fetichismo, óbvio, é fundamental celebrar o livro como produto, monumento, instrumento e arma de cultura contra a barbárie fascista.

No volume “O que é um Livro”, o senhor fala da materialização da ideia em objeto. O livro enquanto objeto, em sua opinião, continua ocupando um lugar de destaque?

 JAH: O livro como objeto que condensa e divulga práticas simbólicas dos múltiplos campos da cultura pode ser materialmente produzido e reproduzido em vários meios e canais, desde uma página de papiro à tela de um computador. Nesse sentido, o livro continua ocupando lugar de destaque.

Em sua opinião, o livro digital e o livro de papel ocupam o mesmo espaço e têm a mesma importância?

 JAH: Não ocupam o mesmo espaço (e, sem trocadilho, hoje também por razões de espaço). E não sei se têm a mesma importância.  Provavelmente, o livro digital vai substituir o livro de papel- não sei se a totalidade dos livros de papel- mas grande parte deles.

O público que “consome” o livro físico mudou?

JAH: Acredito que mudou e está mudando a cada momento.

O livro, enquanto objeto, vai continuar a existir no futuro?

 JAH: Não sei se nessa forma material que tem hoje. Mas como mensagem e como condensação de referências de muitos e muitos campos da cultura deve continuar – provavelmente, em novos media, como a tela de um celular, de uma TV ou computador, desmaterializando-se mais e mais.

O livro também é constituído de leitores, e eles o leem de maneira diferente a cada época. O senhor poderia falar um pouco sobre esse assunto, por gentileza?

 JAH: O leitor é um indivíduo que se inclui numa sexualidade, num grupo, numa classe, numa profissão, num país, numa língua, numa cultura etc. A cada instante, a história de seu grupo e sua classe e país e língua e cultura etc. muda. Evidentemente, o leitor lê segundo os critérios que em seu tempo estabelecem, definem e garantem a inteligibilidade do que lê. Esses critérios mudam historicamente. Borges, num conto chamado “Pierre Menard, inventor do Quixote”, trata disso, propondo que o  enunciado  de Cícero, “A história, mestra da vida”, usado por Cervantes no primeiro volume do Dom Quixote, em 1605, não tem o mesmo significado e o mesmo sentido quando usado por Pierre Menard, em 1917, quando escreve o Dom Quixote e repete o enunciado, ipsis litteris, idêntico ao texto que Cervantes escreveu em 1605. Ou seja, a cultura muda segundo as determinações e os condicionamentos históricos.

Capa do volume O Que é um Livro?, parte da Coleção Bibliofilia

No volume, o senhor aborda questões como censura e controle de conteúdo, que parecem – infelizmente – questões muito atuais. De que maneira esse controle perpassou os tempos? A forma e a finalidade da censura são sempre as mesmas?

 JAH: A censura classifica formulações e imagens e práticas que contrariam e negam a doxa ou a opinião que um grupo, um partido, um Estado, uma igreja etc.  afirmam como “verdade”. A censura classifica formulações e imagens e práticas como inadequadas, indevidas, impróprias, incorretas, erradas, heréticas, indecentes, imorais, proibidas etc., caçando e cassando seu autor.  A prática da censura veta e nega versões e, com isso, nega a liberdade de pessoas e grupos. Evidentemente, ainda que a forma e a finalidade da censura sempre sejam as de desautorizar e impedir a liberdade de pensamento e ação e, muitas vezes, a finalidade de eliminar o autor de tal pensamento e ação, queimando-o numa fogueira, como fazia a Inquisição católica, ou fuzilando-o, como faziam nazistas e estalinistas, suas razões, seus meios e suas finalidades variam historicamente, assim como seus agentes e suas vítimas.  

Conheça outros títulos de João Adolfo Hansen

Livro 7/8: Revista do NELE traz dossiê sobre museus e bibliotecas

Museus e bibliotecas: lugares de resistência diante de uma realidade de fake news em que certa parcela da sociedade negligencia o saber acadêmico. Esta é a forte mensagem que traz a Revista LIVRO 7/8, publicação do NELE: Núcleo de Estudos do Livro e da Edição.  Editada por Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho, a edição traz a participação de diversos nomes importantes, como Lincoln Secco, Ana Cláudia Suriani da Silva, Jean-François Delmas, Andrea De Pasquale, Thiago Lima Nicodemo, Frédéric Barbier, Fiammetta Sabba, María Luisa López-Vidriero Abelló, Carlos Zeron, Christophe Didier, Carolina Bednarek Sobral e Fabiana Marchetti.

Para falar sobre a publicação, Marisa Midori Deaecto respondeu a perguntas do Blog da Ateliê:

 As “ondas fascistizantes” não parecem ter cessado. Neste contexto, qual a importância de uma publicação como a LIVRO 7/8? O livro ainda é uma forma de resistência? 

Marisa Midori Deaecto: Por um desses mistérios insondáveis, sim, o livro é símbolo e meio de resistência. Digo “insondável” porque, malgrado todas as análises e possíveis respostas, ainda me espanta essa questão: por que, após milênios, os livros continuam a ser alvo de tantas destruições e desconfianças? Outro dia, foram os livros censurados no norte do país; antes, os livros rasgados na biblioteca da UnB; os livros censurados pelo Deops; os livros queimados; as bibliotecas negligenciadas; os livros e a leitura, na fala do presidente, desqualificados… Ora, um objeto que consegue manter uma aura de resistência tão forte e, ao mesmo tempo, portador de uma linguagem universal, pois estou a falar do objeto e não de seus conteúdos, merece uma publicação que cuide de sua natureza, de sua história, de suas múltiplas formas de apropriação. Esta é a nossa resistência.  

Qual a importância de museus e bibliotecas neste cenário? 

MMD: A cultura é o corpo e a alma de uma nação. Um corpo são se manifesta por instituições sãs, ou seja, dirigidas por profissionais qualificados, com infraestrutura condizente com a importância, a coerência e os usos que delas se faz, tanto da parte do poder público, quando do cidadão. E a alma é tudo o que a comporta. São as manifestações de um povo, em diferentes esferas de sua existência, em múltiplos campos de atuação e em todos os setores da sociedade. Por isso a cultura deve ser universal. Museus e bibliotecas constituem, nesse sentido, instituições vitais para a inteligência e a salvaguarda da memória das sociedades. Notemos que os Estados nacionais, desde que se configuraram como Estados fortes, na época moderna, investiram pesadamente em suas bibliotecas e museus. No século XIX, bibliotecas operárias, bibliotecas de associações de classes ou de agremiações formadas por imigrantes, mulheres, entidades públicas se proliferaram por todo o mundo. Isso porque a humanidade se deu conta de que é preciso nutrir a alma para transformar o mundo. É a nossa herança iluminista que nos conduz a resistir contra as trevas, sempre. Donde a importância de se refletir sobre as funções e os múltiplos significados das instituições de cultura hoje e sempre. 

Quais foram os pilares para escolher e reunir os textos contidos nesta edição? Sob que tema(s) eles estão reunidos? 

MMD: A revista LIVRO procura funcionar como um sismógrafo. Ela capta os possíveis abalos que acontecem na sociedade brasileira e, de forma mais ampla, no mundo. E, a partir daí, buscamos os materiais. Às vezes, recorremos a parcerias internacionais, noutras, optamos por produções nacionais. No próximo Dossiê, LIVRO 9 vai pautar a questão da leitura no Brasil, sob diferentes matizes. O título é uma provocação: “E por falar em leitura… onde andas vocês, leitorxs?”. 

João Condé é um dos temas da LIVRO 7/8. Qual a importância dos colecionadores em um momento em que o livro digital ganha espaço? 

MMD: Temos insistido na luta pela preservação e guarda de acervos formados por particulares pelas instituições públicas. Isso é patrimônio nacional. As bibliotecas de Rubens Borba de Moraes e de José Mindlin, reunidas na BBM, são um patrimônio inconteste, felizmente acolhidos pela USP. O mesmo se pode dizer de outros acervos, como o de Mario de Andrade, Ian de Almeida Prado, para citar apenas dois exemplos de peso da riquíssima coleção do IEB. E eu citei apenas duas instituições pertencentes à Universidade de São Paulo. Há muito mais! É preciso pensar que a USP conformou essas coleções porque não se acomodou ao discurso conformista e, não raro, falacioso, da falta de espaço para armazenar os acervos, ou dos gastos “exorbitantes” para a higienização e catalogação das coleções. Esses argumentos são, antes, um sintoma de uma crise dos paradigmas, que tem esvaziado os projetos e as políticas de preservação do patrimônio nacional, do que exatamente uma questão de infraestrutura. Em um passado não muito distante, alguns gestores de arquivos e bibliotecas acreditaram que era possível armazenar tudo em microfilmes e descartar o papel. Hoje se pensa o mesmo sobre a digitalização. E amanhã, nós depositaremos toda a nossa história e nossa memória em quais bases de dados. Já atingimos as nuvens, mas, e daí. Nossa universidade não tem cem anos e corre os risco de desperdiçar acervos importantíssimos, que poderiam fazer dela a maior guardiã da memória e da história nacional. Eu me pergunto se as universidades europeias operam com essa mentalidade do descarte. E quando penso no rico acervo de Yale, nos EUA, eu me pergunto: teriam eles cessado as políticas de aquisição e de recebimento de doações? Não podemos desistir. Não temos o direito de nos acomodar. Do contrário, estas coleções vão parar em instituições estrangeiras. Ou, o que é pior, elas podem se dispersar nos leilões e nos alfarrabistas de todo o mundo.  

Jean-Yves Mollier fala, na publicação, sobre a “Invasão das Fake News”. Este é um tempo em que esta invasão é inevitável, em sua opinião? 

MMD: Sim, é inevitável e compromete as democracias, porque transforma o debate público em um poço de mentiras. Quando convidei o prof. Mollier para fazer uma conferência sobre este tema, no IEA, eu pensava justamente na importância de se debater as fake news na esfera política e, nesse ponto, creio que o caso Dreyfus, na França da virada do século XIX para o XX, foi paradigmático. Mas, como diz um grande historiador, Lucien Febvre, a história é a ciência do presente. 

A Profa. Jerusa Pires Ferreira faleceu durante (ou logo imediatamente após) a conclusão desta edição. Qual foi sua contribuição para a LIVRO 7/8? 

MMD: Jerusa era uma bússola, com a diferença que o seu ponteiro sinalizava para todos os sentidos, antes, é claro, de ela finalmente nos apontar o seu norte. Jerusa comentava temas relevantes que poderiam entrar na revista, indicava autores, como no caso de Jacques Migozzi, para o último número, desenhava questões, imaginava soluções e, o que é mais importante, sabia transformar tudo isso em tertúlias muito aprazíveis. A LIVRO terá sempre a presença, o norte da Jerusa.   

Quais serão os próximos desafios da LIVRO? 

MMD: Cada número de LIVRO é uma história e cada número é um desafio. Editar uma revista é tarefa complicada, meus colegas editores de revistas bem o sabem. Mas, como disse, a revista é um veículo vivo, ela é um sismógrafo! Já antecipei o tema do Dossiê e, no mais, é ver para crer! 

Há alguma curiosidade ou bastidor interessante sobre a revista que se possa compartilhar com os leitores do Blog?

MMD: Há dois aspectos curiosos que eu gostaria de contar: o Dossier Museus-Bibliotecas antecipou a versão italiana, que se encontra na gráfica. Eu o organizei em parceria com Andrea De Pasquale, diretor-geral da Biblioteca Nacional de Roma. Ele é um grande amigo, mas uma pessoa difícil. Não queria que a publicação brasileira saísse antes, então, esperamos. Mas, como estávamos muito atrasados e, ele também, disse para que a nossa revista teria data de lançamento. Ele ficou bem contrariado, mas, agora, parece que está tudo bem. Estamos aguardando o volume italiano, com os mesmos artigos. O artigo de István Monok, diretor do arquivo e biblioteca da Academia de Ciências da Hungria, foi feito sob encomenda nossa. A instituição mantém a guarda do arquivo de Lukács e o mundo estava escandalizado com a suposta dilapidação do acervo. Eu contei isso pra ele e, poucos dias depois, recebi o artigo que dava conta dos projetos de preservação e guarda do fundo Lukács. Ele queria, enfim, dissipar essa ideia que se propagou de destruição do acervo desse grande filósofo do século XX. E isso se deu, certamente, porque a Hungria vive, hoje, uma conjuntura política muito complicada, não muito diferente da nossa. Mais uma prova de que a cultura continua a ser um foco de resistência vital. 

Massao Ohno, um dos maiores editores do país, ganha livro pela Ateliê Editorial

Jorge Ialanji Filholini *

Hilda Hilst escreveu sobre Massao Ohno: “Colou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra”. Massao dedicava-se – muitas vezes sozinho – às sombras do mercado editorial para as publicações de livros que hoje são clássicos e importantes na literatura brasileira contemporânea.

Conhecido como um dos maiores editores do país e deixando sua ideia e marca que influenciaram o mercado editorial independente, Massao foi responsável por publicar nomes como os de Roberto Piva, Eunice Arruda, Claudio Willer, Hilda Hilst, Renata Pallottini, Jorge Mautner, Julio Bressane, Lupe Cotrim Garaude e muitos outros. Este imenso trabalho gráfico pode ser apreciado como estudo literário e biográfico no livro Massao Ohno, Editor, escrito e organizado pelo pesquisador José Armando Pereira da Silva, e publicado pela Ateliê Editorial. A obra tem seu lançamento agendado em São Paulo no dia 15 de fevereiro, a partir das 10h, na Galeria de Arte Almeida e Dale (Rua Caconde, 152, Jardim Paulista).

O objetivo inicial da obra foi o levantamento da produção editorial de Massao Ohno – morto em 2010 -, apresentada cronologicamente, e que pode servir de referência para outras abordagens de sua carreira. Houve também o propósito de conferir a colaboração dos artistas, seus parceiros no desenho de capas e ilustrações. Acompanham a reprodução colorida das capas, apontamentos históricos, biográficos e depoimentos, relacionados aos autores e às obras.

Massao Ohno, em foto de Juan Esteves

Deste rastreamento são reproduzidas capas de 174 obras, que permitem observar como se deu e se firmou sua marca. Mesmo sem acesso a toda sua produção, são destacadas algumas preferências de Massao e a primeira fase da editora, de 1960 a 1964. Nesse período culturalmente intenso, não só os novos poetas tiveram nele um veiculador sensível e comprometido em dar identidade a seus projetos.

“A ideia de fazer um levantamento da produção de Massao Ohno me ocorreu por ocasião das homenagens que lhe foram prestadas em 2004 pelos 45 anos de carreira. Não havia inventário que desse uma dimensão concreta dos títulos por ele publicados”, aponta José Armando. “Atraía-me também a possibilidade de investigar as diversas etapas de sua carreira e conferir a colaboração de ilustradores – referências para pesquisa da literatura e do design gráfico na segundo metade do século XX”, conclui.

Massao Ohno, Editor é uma obra importante que dá luz e forma à trajetória desse importante editor do Brasil em seu tempo, assim como fornece elementos para análise de seus métodos de editoração, que foram inovadores no mercado editorial e que não podem ser esquecidos.

*Escritor, editor e produtor cultural. É fundador do site cultural Livre Opinião – Ideias em Debate. Em 2016, publicou o livro Somos mais Limpos pela Manhã (Selo Demônio Negro), finalista do Prêmio Jabuti

Sobre Espantalhos e Limões Espremidos: Farsas e Tragédias na reedição do livro Os Males do Tabaco e Outras Peças em um Ato

Paulo Maia*

O humor e a brevidade estão presentes nos oito textos desta reunião editorial de Os Males do Tabaco que chega agora à sua terceira edição (2001, 2003, 2019). Vemos aqui estudos cômicos de Tchekhov (cena, cenas monólogos, estudo dramático, peça e farsas) que em alguns casos evoluem para a tragédia cômica. É o caso da versão de 1902 da cena monólogo em um ato intitulada “Os Males do Tabaco”. Ivan Ivánovitch Niukhin é um melancólico bufão revoltado que, a mando da mulher, vem falar sobre os tais malefícios. De todo modo, uma conferência não passa de uma conferência. Preso às entranhas do cotidiano e da memória, acerta as contas com a própria vida numa tragédia cômica inundada pela digressão. Seu humor é claramente desesperado e trágico, e a profundidade do conflito existencial vem à tona misturada aos detalhes cotidianos mais corriqueiros e aparentemente insignificantes. Assim, entre o desejo de libertação e as panquecas, a genialidade do estilo tchekhoviano vai sendo costurada a cada digressão pela espera de uma conferência que nunca virá. A resignação e o enclausuramento da personagem tornam os elementos risíveis imediatamente aflitivos, pois nos reconhecemos como espantalhos. É certamente um dos clássicos maiores do escritor.

Já sua primeira versão, que abre a presente edição, atem-se à superfície cômica, sem grandes aprofundamentos existenciais. Apesar do argumento em torno de um conferencista que acaba por não fazer nenhuma conferência e mistura sua fala com assuntos diversos de sua vida pessoal, a real angústia perante aquilo que foi vivido e o desejo intenso por livrar-se da própria história é desenvolvido magistralmente apenas na segunda versão, na qual os males do tabaco revelam-se como os males da própria vida. Entre Márkel Iványtch Niúkhin e Ivan Ivánovitch Niukhin existe o abismo da confissão explícita e desnudada perante sua plateia.    

Bufão melancólico

Svetlovídov, do belíssimo estudo dramático O Canto do Cisne, também pode ser considerado como um bufão melancólico. O velho ator que, bêbado, dorme sentado no camarim após sua apresentação, não quer voltar para casa e enfrentar a solidão. Lembra-se da mulher pela qual era apaixonado, quando ela pediu que ele abandonasse o palco: Compreendi então que não existe nenhuma arte sagrada, que tudo é sonho e ilusão […] Interpretar os clássicos com seu ponto Iványtcha leva-o do êxtase às lágrimas : O vigor jorra de todas as minhas veias como um chafariz […] Não passo de um limão espremido, um picolé, um prego enferrujado […] Se rimos da sua desgraça, é um riso triste – ou, como tantas vezes presenciei nas plateias de Niukhin, um riso contido, tenso.

A peça em um ato O Urso encena uma situação humorada do credor que interrompe um luto de oito meses para cobrar a viúva da dívida deixada pelo falecido marido que, mesmo injusto e infiel, acaba por encerrar Popova num estado de ânimo tal que jurou não tirar o luto nem frequentar a sociedade até o dia do meu próprio enterro… Mas eis que a dívida torna-se paixão e a desavença, um prolongado beijo na boca.  A farsa em um ato O Pedido de Casamento parte da tentativa do excessivamente hipocondríaco Ivan Vassílievitch Lomov de casar com Natália Stepánovna, mas rapidamente revela adisputa entre famílias pela posse de terras e pela qualidade canina de seus animais. Após todo tipo de injúrias lançadas entre o pai de Natália e o futuro casal – Seu moleque! Seu fedelho! Rato velho – o matrimônio se efetua, mas sem dar trégua às polêmicas que percorrem toda farsa: Ora, e assim começa a felicidade conjugal! Champagne!           

No caso das Bodas, por exemplo, mesmo que o tema da corrupção acabe sendo o desfecho moral da cena em um ato, e que o noivo dê sinais claros de ter sido motivado por razões financeiras para casar, é o humor dinâmico das situações segue seu curso na festa de casamento através de tipos diversos, como o confeiteiro grego e o telegrafista. A mãe da noiva diz logo no início o quanto o novo marido da filha é inoportuno, e a festa aguarda a presença de um militar que dará mais nobreza ao evento – mas Revúnov – Karaúlov se mostra enfadonho ao descrever os detalhes técnicos da marinha.

A farsa O Jubileu trata do aniversário de quinze anos do Banco de Crédito Mútuo N. O diretor-presidente, na expectativa de receber os acionistas para a leitura de um discurso escrito por ele mesmo, acaba recebendo as reclamações de Nastássia Fiódorovna Mertchútkina sobre a demissão do marido de uma repartição médico- militar. Mas o conteúdo da reclamação não possui relação alguma com a responsabilidade do banco. No entanto, tal é a insistência de Mertchútkina que Chipútchin dá a ela o dinheiro reclamado para poder vê-la fora dali.        

Outra vez não vemos a densidade do conflito existencial angustiado presente na segunda versão de Os Males do Tabaco, O Canto do Cisne e também na farsa em um ato Trágico à Força. Todas possuem traços evidentes de humor, mas estes traços não parecem estar em primeiro plano. Pode-se dizer que, no caso das outras peças do livro, o humor é mais protagonista, ou seja, a comicidade parece ser mais importante que as tragédias existenciais humanas.

Paulo Maia como Niukhin

Trágico à Força talvez seja um bom meio termo. Ironicamente, o protagonista anuncia: Isso não é uma farsa, é uma tragédia! Ivan Ivánovitch Tolkatchov entra em cena ofegante, esgotado, carregando diversos objetos, e suplica a Muráchkin que lhe dê um revólver, pois não ficará entre os vivos. Diz Ivan: Sou um trapo, um palerma, um idiota! Por que é que eu vivo? Qual o objetivo? […] Para que este nunca acabar de sofrimentos físicos e morais? Que se possa ser mártir de uma ideia, isso eu compreendo, mas ser mártir de algo que nem o diabo sabe […] Para mim chega! O texto, aliás, caberia muito bem na boca de outro Ivan, o Niukhin de 1902. A farsa gira em torno das reclamações de Tolkatchov sobre o excesso de atividades que lhes são impostas, de modo que Muráchkin seria seu confidente e ombro amigo durante o desabafo do veranista. Mas eis que, no desfecho da peça, o próprio Muráchkin passa a pedir favores quando descobre o próximo destino do amigo. Revela-se, portanto, de modo bem humorado, dinâmico, verborrágico e aflitivo o quanto as pessoas usam as outras em prol dos próprios interesses disfarçando-os de favores pessoais: Não por obrigação, mas por amizade! […] A alma humana é sugada e Tolkatchov não aguenta mais: Monte em cima você também! Sirva-se! Esfole o homem! Dê-lhe o golpe de misericórdia! […] Tenho sede de sangue! 

* Paulo Maia é ator e baterista. Doutorando em filosofia, encena a segunda versão do monólogo Os Males do Tabaco desde 2015, tendo percorrido 11 casas até a finalização desta resenha, em 2019.