Entrevistas

Ler, escrever e contar não basta

“É preciso ler o mundo”

NíIson José Machado

Fonte: Revista Kalunga | Edição 254 | Outubro 2012

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Nílson José MachadoEntre a carreira de engenheiro, formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), e a de professor de matemática, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Nílson José Machado ficou com a segunda opção. Abandonou o ITA, após três anos, doutorou-se em Filosofia da Educação, também pela USP, e passou a lecionar na instituição em 1972. A princípio, formou estudantes no Instituto de Matemática e Estatística e na década seguinte migrou para a Faculdade de Educação. Machado tem diversos livros publicados, entre os quais, Ética e Educação, que traz 256 microensaios sobre os temas cidadania, pessoalidade, didática e epistemologia, recém-saído da gráfica, publicado pela Ateliê Editoral, e Educação, Competência e Qualidade, pela Editora Escrituras. Nesta entrevista, ele discorre sobre várias questões a respeito de um dos temas mais pertinentes a toda sociedade brasileira.

Qual a sua avaliação sobre a Educação no Brasil?

Temos um problema crônico que é não ter políticas de Estado para a Educação. O que se tem são políticas de governo, ou pior ainda, de governantes. Às vezes muda o governante, mesmo que seja do mesmo partido, mudam as políticas. Isso ocorre em todos os níveis, federal, estadual e municipal. Em São Paulo, tivemos governos sucessivos de um mesmo partido e as políticas mudaram com os secretários de Educação. Essa é a grande mazela, faltam pessoas pensando na Educação com visão e nível de Anísio Teixeira, que pensava grande, que pensava no País, instituição educacional e não coisas de curtíssimo prazo e de “imediatez” que são desapontadoras.

Dê sua opinião a respeito da doação de livros?

É uma ação muito pequena em termos de política. Ninguém vai resolver os problemas educacionais distribuindo livros aos montes. O governo faz isso há pelo menos 15, 20 anos. Essa é uma iniciativa que faz a alegria das grandes editoras. Falta política educacional com P maiúsculo, que é uma política de Estado.

O governo tem investido o suficiente na democratização do ensino?

No meu entender, não há que se ter investimento em democratização do ensino. Não é esse o foco. Dewey Uchn, filósofo e pedagogo norte-americano, no início do século 20, dizia que democracia sem educação é algo canhestro. A educação sem democracia também. Aliviar a população de uma dessas duas coisas é como aliviar um condenado à morte, com duas penas de morte, será aliviada apenas uma. Democracia e educação são par fundamental. O que se pretende é uma educação de qualidade, esse é o processo de democratização legítimo. É garantir uma educação básica de qualidade, completa, até o final do ensino médio.

É correta a política de cotas na Educação?

A meu ver essa é uma política equivocada e polêmica. A democratização que se precisa buscar é por meio da educação básica de qualidade, não é oferecendo vaga no ensino superior para quem não está preparado. Isso é pura demagogia. Nós (USP) temos dificuldades com alunos, mesmo sem a questão de cota. Recentemente foi feita uma pesquisa apontando que 38% dos universitários brasileiros são considerados analfabetos funcionais, ou seja, são capazes de ler e escrever, mas não conseguem interpretar e associar informações, isso independente de qualquer política de cota.

Que contribuição a Universidade pode dar para mudar essa realidade?

No sistema educacional brasileiro, a universidade vive uma realidade diferente da escola básica, não é uma maravilha das maravilhas, mas é uma situação mais confortável. Como prima rica, a universidade deveria se envolver mais no processo de melhoria da educação básica. Não é abrindo mais vagas, mas acolhendo os alunos da escola pública em um curso pós-médio, de formação. Após esse período, ele poderia se candidatar a uma vaga na universidade.

Como seria esse curso?

Estou falando de um mutirão em que grande parte das pesquisas teria de ser colocada de molho. Como isso não dá visibilidade imediata, ele só poderia ser avaliado quando a primeira turma estivesse saindo. É atividade para sete, dez anos. Não é dar um cursinho de dois anos para esses alunos. As atividades na universidade e na escola básica não precisam ser somente aulas. Deve haver tutoria, orientação, conversa pessoal.

Qual o papel do educador?

O educador tem sido tratado pelos órgãos públicos de governo como um técnico. Quando se fala em capacitar professores, sempre se pensa exclusivamente na capacitação técnica. A competência técnica é fundamental, mas não basta para caracterizar um bom profissional. São necessários comprometimento e envolvimento com o projeto, ou seja, com as tarefas educacionais. Isso não vem graciosamente, mas na medida em que os professores participam desse projeto. É comum a todas as profissões, por exemplo, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) não discute salário de advogado, mas a atuação deste profissional.

E a política de reciclagem de professores?

É preciso melhorar a condição de trabalho do professor da escola básica. Ela é muito ruim. Se ocorre essa melhora, o professor espontaneamente vai buscar voluntariamente aperfeiçoamento e capacitação. Quando eu digo que a condição de trabalho não é boa, não me refiro a salário. Isso está no pacote. Vou dar um exemplo: no Estado de São Paulo, um professor de Física tem duas aulas por turno no ensino médio. No regime de 40 horas, que é o mais frequente, ele tem de dar 32 horas na sala de aula. Para isso, tem que ter 16 turmas. Nenhuma escola no Estado tem 16 turmas de Física para oferecer a um professor. Ele terá que dar aulas em outras escolas para completar a carga.

No que se refere às competências, os professores estão preparados?

Esse discurso de competência é antigo e foi reavivado pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), a partir de 1998. Na escola, o professor precisa desenvolver as competências pessoais dos alunos. Esse é um dos discursos que os avós da gente tinham. Eles diziam “você vai para a escola, aprende um monte de matéria, mas no fundo o que você aprende é ler, escrever e contar”. Atualmente, saber apenas isso não dá mais conta. Antigamente, a pessoa podia ser só analfabeta, hoje, ela pode ser polianalfabeta. Analfabeta em ciências, em tecnologia e em muitas coisas.

O que o professor precisa desenvolver na sala de aula?

Eu acho que em vez de ler, escrever e contar, ele tem que desenvolver a capacidade de expressão e compreensão. Expressão de si e compreensão do outro. Expressão em diferentes linguagens. Antigamente, a ideia geral de leitura era ler e entender um texto, agora, é preciso ler o mundo.

Regras e juízos devem ser transmitidos pelos pais ou pelos educadores?

Ambos têm tarefas que devem ser partilhadas, não dá para os pais delegarem tudo à escola, nem a escola delegar tudo aos pais. Claro que há especificidades na atuação de um e de outro. Quem pensa em um projeto de vida para a criança é a família, depois ela escolhe uma escola adequada para aquele projeto. Por sua vez, quem pensa no caminho pedagógico para buscar esse projeto é a escola. Não cabe ao pai ir à escola dizer qual é o livro que deve ser adotado ou como o professor tem que dar a aula ou avaliar. De maneira geral, não há exemplo de escola bem-sucedida sem partilhar metas e objetivos com a família. A escola precisa ter participação dos pais ou ela não se sustenta.

Há trabalho para todos os jovens que saem dos cursos? Eles estão aptos para educar?

Existe campo de trabalho para todos. Agora, ninguém sai apto para educar. O curso é o pontapé inicial. Há três fases na vida do professor. A primeira, assim que se forma, ele começa a dar aula. Ensina o que não sabe. Ele está aprendendo a lidar com os alunos. A fase dois é aquela em que ele dá aula sobre o que sabe. Essa fase é um perigo, porque ele sabe algumas coisas e dá aula disso. O que ele não sabe, diz “estou fora, não dou aula”. Isso é terrível. Ele perde o interesse por certas áreas e não consegue mais entender a dificuldade dos alunos. A terceira, que é a mais madura, só vem trabalhando, após alguns anos dando aulas. É quando o professor não está mais preocupado com o que ele sabe ou não. Ele se preocupa com o que os alunos precisam.

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Ética e Educação

Nílson José Machado
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Ética e Educação, de Nílson José MachadoÉtica e Educação são temas candentes que se entrelaçam e se alimentam mutuamente. No cerne de ambos encontram-se as ideias de conhecimento e valor. Um mapeamento de questões relativas a tais temas é apresentado pelo autor, em busca de uma perspectiva crítica ao alcance de educadores e de cidadãos em geral.
Os focos que aglutinam os textos são os pares pessoalidade/cidadania e didática/epistemologia. Iguais como cidadãos, somos diferentes como pessoas, e não buscamos a escola para esquecer tais diferenças: metade dos microensaios reunidos examina tal fato. A outra metade trata de explicitar como o modo de pensar sobre o conhecimento influencia decididamente as ações educacionais, ou seja, como a epistemologia interfere diretamente na didática.
Numa época marcada pelo excesso de informações e análises, optou-se, aqui, por uma forma sintética de apresentação das reflexões. Os microensaios são como sementes: as discussões que vierem a alimentar são a razão primordial de trazê-los a lume.
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Educação e Pedagogia, Cidadania
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Poeta, o poema

Fonte: Hoje em Dia (MG)
Clarissa Carvalhaes
José Antônio Bicalho
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“As coisas se transformaram, mas o homem continua vendo o mundo pela fresta de uma caverna”
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Quando publicou o livro “Poeta Poente”, em 2010, Affonso Ávila estava triste. A morte recente da esposa com quem fora casado por décadas fez o poeta recolher-se em pranto e pessimismo, carregar-se de arrependimento e nostalgia. Dois anos se passaram e, ainda que a saudade permaneça, o escritor confessa: “Cansei de ser triste”. Desde então, passou a dedicar-se a “Égloga da maçã”, obra que acaba de lançar pela Ateliê editorial (80 páginas, R$35). E como quando se trata de Affonso Ávila o que se espera é sempre o novo, desta vez não poderia ser diferente. “Égloga” e uma poema, único.

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Entrevista Affonso Avila

Lançamento de livro sobre Noel Rosa e entrevista com a autora

Fonte: Agenda Samba & Choro

Julia Engler

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Noel Rosa – O Humor na Canção, de Mayra PintoNoel Rosa compôs quase trezentas canções entre seus 20 e 26 anos. Apenas seis anos de produção foram suficientes para que o jovem sambista estabelecesse um novo paradigma na história da canção popular brasileira. Por isso, setenta e cinco anos depois de sua prematura morte, Noel continua sendo um fecundo objeto de estudo para pesquisadores interessados em compreender a música popular brasileira.

A pesquisadora e professora Mayra Pinto, lança Noel Rosa: O Humor na Canção (Ateliê Editorial/FAPESP) terça-feira, dia 8 de maio, das 18h30 às 21h30, na Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915, em São Paulo.

No livro, Mayra Pinto investiga o uso do humor na construção de um olhar crítico sobre uma sociedade desigual que passava por um período de profundas transformações, principalmente no que se refere à identidade nacional.

Em entrevista dada à Agenda Samba & Choro, a autora conta um pouco de suas descobertas pelo universo do Poeta da Vila.

Em seu livro, você fala do estabelecimento de um novo paradigma na música popular brasileira a partir da obra de Noel Rosa. Que novo paradigma é esse?

Junto com compositores contemporâneos, Noel criou um formato de canção que permanece até hoje – um estribilho, várias estrofes, determinado tempo de duração, a estrutura musical do samba etc. Quanto à singularidade de sua obra, o paradigma propriamente dito foi criado pela voz que Noel imprimiu em suas composições. É basicamente a voz de um sujeito desprovido de força social, em todos os sentidos, porque é o sujeito do samba, o artista popular não valorizado que, com sua conduta boêmia, festiva, e, sobretudo, crítica no caso de Noel, confronta os valores dominantes ora de um modo debochado, satírico, ora de uma forma irônica, mais agressiva, com um tom menor de amargura. Essa voz não existia na canção antes de Noel.

Você observa que o humor funciona como disfarce nos sambas de Noel. Disfarce do quê?

A ironia está em muitas canções, e não só na poesia da letra. Há ironia na interpretação, nos arranjos, no próprio fato de Noel ter gravado muitos de seus sambas com sua voz “pequena”, que favorecia certos timbres mais sinuosos e ambíguos. Pra mim, na obra dele, a ironia tem a função de marcar essa ambiguidade, de possibilitá-la. O efeito é que em Noel o sujeito que se coloca em confronto – não só com os valores dominantes do trabalho, da moral, mas também do próprio universo do samba em várias canções – pode não ser alvo de sanções em consequência de sua atitude crítica, dado que seu tom é de “brincadeira”, é o humor aí “disfarçando” a agressividade da crítica – entramos aqui na sua próxima pergunta. O humor funciona como disfarce porque historicamente é visto como um discurso “desvalorizado” – o exemplo dos bobos da corte, que podiam criticar inclusive o rei, é ótimo para ilustrar esse lugar secundário do discurso de humor na história; ao bobo era permitido dizer qualquer coisa, até mesmo a verdade mais dura, porque afinal ele era só um “bobo”, isto é, “ninguém” com voz de poder real na sociedade. O humor só passa a ser valorizado na arte, e só na arte até agora, no século XX. Valorizado como? Como um discurso que também dá conta de arquitetar reflexões profundas – lembre-se das vanguardas europeias que foram em boa medida inspiradoras do nosso modernismo, atravessado pelas categorias do humor. Nesse sentido, Noel estava em sintonia com o que de mais moderno estava sendo produzido no sofisticado mundo da cultura erudita nacional e internacional.

De que forma se constrói nessa época a poética própria do samba? Como Noel participa desse processo?

A poética do samba é construída por todos os grandes contemporâneos de Noel: os sambistas do Estácio – com Ismael Silva à frente -, com os compositores e cantores brancos como Francisco Alves, Braguinha, Mário Reis, Lamartine Babo, dentre tantos outros. Há uma confluência incrível de influências vindas das mais diversas fontes para consagrar essa poética tal como existe até hoje. Por exemplo, segundo depoimento de Ismael Silva, o ritmo do samba criado pelo grupo do Estácio, menos sincopado que o anterior – feito por Sinhô, João da Baiana e outros – foi consequência da necessidade de permitir dançar e ao mesmo tempo andar nas ruas durante o carnaval. Noel participa intensamente contribuindo para construir essa poética, bem como para cristalizá-la, sobretudo, no que concerne à articulação das linguagens: o tom coloquial das letras/interpretação, marca da época, é manejado por Noel com tremenda segurança na articulação com a melodia.

Você diz que o olhar crítico do poeta só se desarma diante do universo do samba. O que esse universo representa na obra do Noel?

O universo do samba representa o lugar em que o artista popular pode ser, pode se expressar, pode refletir sobre o mundo e, sobretudo, pode ser reconhecido em sua originalidade. Veja o refrão do lindo samba “O X do problema”, gravado por Araci de Almeida: “Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá/E felicidade maior neste mundo não há./Já fui convidada/Para ser estrela de nosso cinema/Ser estrela é bem fácil/Sair do Estácio é que é/O X do problema”. É o reconhecimento de sua trajetória como sambista que importa; e o bacana é que Noel, contrariamente à maioria de suas canções, cria um eu lírico feminino pra falar dessa adesão incondicional ao samba. Por que ele enaltece isso? Um dos motivos, dentre tantos, é porque, à época, o universo da cultura popular era desvalorizado socialmente, era visto pelas elites como um lugar desprestigiado; mais ainda o universo do samba, “coisa de gentinha”, como está registrado no excelente Noel Rosa: uma biografia, de Máximo e Didier. Então, coerente com sua voz de confronto, marca discursiva de sua obra, Noel elege o universo do samba como um lugar só de positividade.

Na sua opinião, qual o principal legado deixado pela obra de Noel Rosa?

A obra do Noel é uma matriz de onde parte uma linhagem na nossa canção popular urbana. E uma matriz genial porque imprimiu, desde o começo da produção da canção, uma sofisticação discursiva que só podia se manter depois dele em um tom maior – vide todos os brilhantes compositores brasileiros que vieram depois de Noel e, certamente, foram inspirados e influenciados por sua obra.

Noite de autógrafos com a aultora
Dia 08 de maio, terça-feira, das 18h30 às 21h30
Livraria da Vila (piso superior)
Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros – São Paulo/SP

Eduardo Miranda respira James Joyce em Dublin

Em entrevista ao Blog da Ateliê, o tradutor, músico e poeta falou da relação de “amor e ódio” entre Joyce e Dublin. Eduardo Miranda chegou à final do Concurso de Tradução Bloomsday 2011 e publicou sua tradução na revista eletrônica TUDA.

Como foi seu primeiro “encontro” com a obra de James Joyce?

Joyce me chegou primeiro através de Ulisses, ainda muito jovem – praticamente ilegível para mim na época. Depois fui cronologicamente retrocedendo: Retrato do Artista Quando Jovem, Dublinenses, e depois a poesia… mas foi em Dublin que tive a oportunidade de me envolver mais com a literatura e a cultura irlandesa – inclusive com a língua irlandesa – e consequentemente com James Joyce. Foi aqui em Dublin, durante a comemoração dos 100 anos de Ulisses,  que pude percorrer o caminho que Leopold Bloom percorreu, no mesmo passo que o livro.

Fale um pouco sobre a obra e vida de James Joyce, segundo a sua experiência.

Na verdade foi depois da minha mudança para Dublin por motivos de trabalho que vim a me interessar mais pela obra de Joyce – e tudo em Joyce é Dublin! E entender essa relação de amor e ódio foi um desafio… Joyce deixou claro em vida que não gostava de Dublin. Stephen Joyce, neto e curador da obra de Joyce, faz questão de afirmar que seu avô não gostava da cidade. Tampouco ele simpatiza com Dublin, e desaprova toda tentativa de citar a obra do avô, seja para turismo, nomeação de monumentos, ou mesmo comemorações. O único lugar onde é permitido citar a obra de Joyce é no James Joyce Centre, durante as comemorações do Bloomsday, festival que acontece todo dia 16 de Junho e que comemora as aventuras de Bloom.

Como é traduzir James Joyce?

Primeiramente acho que todos os que se submeteram ao desafio de traduzir o Finnegans Wake – e não só os finalistas – já são heróis pela própria ousadia. Para mim foi uma tarefa trabalhosa, tanto que consumiu quase todas as minhas horas livres de uma semana inteira! Mas ao mesmo tempo foi excitante e divertida… uma aventura e tanto! E o fato de morar em Dublin e de ter um certo conhecimento da língua irlandesa – mesmo que parco –  fez com que eu me sentisse, de certa maneira, mais próximo dos contextos joyceanos, e acho que acabou ajudando um pouco a transposicão multi-dimensionais do texto… além, é claro, de um pouco de intuição e muita poesia!

Fale um pouco de você e do seu trabalho.

Não sei se posso chamar de trabalho, no sentido convencional da palavra. É mais como um hobby, só que levado muito à sério… extremamente! Mas o tempo é que não ajuda muito. Como tenho o meu trabalho na área de Tecnologia da Informação, acabo dedicando apenas o tempo que sobra às outras atividades. Trabalho e família vêm primeiro e, às vezes, o que sobra não é muito. Tento ser constante na TUDA, uma e-zine de poesia, literatura e arte que publico mensalmente, já há 3 anos. É lá que publico minhas traduções. Minhas poesias, meus contos e outros textos podem ser acessados à partir de um “portal” que mantenho, o edotm.info. Já na música, tenho um projeto experimental e multi-instrumental, à distância, chamado The Virtual EM3, e uma banda real, o Wellfish. Conforme o tempo permite, vou “trabalhando”….

Eduardo Miranda

Conheça este louco por Joyce e sua tradução vencedora do Concurso Bloomsday

Adriano Scandolara traduziu James Joyce e venceu o Concurso de Tradução Bloomsday

Apresento-lhes Adriano Scandolara, com sua tradução do primeiro capítulo de Finnegans Wake. Ele encarou traduzir James Joyce e venceu o Concurso de Tradução Bloomsday! Veja o que ele disse em entrevista ao Blog:

Como foi seu primeiro “encontro” com a obra de James Joyce?

Foi ainda na graduação do curso de Letras. Lemos Dublinenses, e, como qualquer um, fiquei besta com o final de “Os Mortos”, toda aquela coisa da epifania e a descrição da cena. Coisa brutal mesmo. Aí foi a progressão natural de partir para O Retrato do Artista Quando Jovem e, depois, Ulisses. O mais chocante foi descobrir que a experiência era mais fácil, para mim, lendo no original do que na tradução do Houaiss – com todo o respeito, claro, afinal de contas, o que ele fez na época está longe de ser para qualquer um. Mas, ainda assim, não vou dizer que é fácil. Não é, mas também não é sinal de que a leitura de Joyce, ou de qualquer outro romancista tido como difícil, seja só para quem é muuuuito inteligente ou esse tipo de coisa. Eu confesso que não entendi muita coisa, mas também seria muita falta de humildade ler somente as coisas que eu for capaz de entender “plenamente”. E parece que ainda há muito desse estigma em Joyce – estigma de autor cult, lido só por gente de óculos de aro grosso que faz pose de intelectual, quando, na verdade, boa parte do Ulisses é piada escatológica – e seria bom se fôssemos capazes de desfazê-lo.

Fale um pouco sobre a obra e vida de James Joyce, segundo a sua experiência.

Pois é, eu não sei muito o que dizer do assunto (especialmente sobre a biografia insana de Joyce, que seria duro de resumir… e a Wikipedia já o fez melhor do que eu poderia fazer aqui), mas sei que as duas coisas, vida e obra, em Joyce, são muito interligadas. É óbvio que as duas coisas se cruzam sempre, em variados graus – vide as relações entre Baudelaire e Paris, por exemplo, ou Allen Guinsburg e toda a cena beat – mas parece que é ainda mais forte a ligação biográfica entre Joyce e seus protagonistas Stephen Dedalus e Leopold Bloom, e, ainda mais, entre Joyce e a Irlanda.

Como é traduzir James Joyce?

Difícil, mas divertido (divertícil, pra ser um joyceano pedante). Digo, não sei o restante da obra de Joyce (imagino que o Ulisses, por exemplo, seja mais difícil e trabalhoso do que divertido), mas o Finnegans Wake é algo tão lúdico que a tradução, para mim, vira menos um ato de erudição e adequação a formas, normas ou outros tipos de expectativas, quanto me parece um ato de associação, algo livre, de conceitos, ideias, imagens e sons. O FW mesmo parece que encoraja isso… aí, na hora de traduzir, eu acabei me orientando menos pelo tanto de sentidos a serem enfiados no texto do que pelo ritmo. É óbvio que eles são importantes também – vide as referências bíblicas nos parágrafos segundo e quinto, ou as referências bélicas no quarto, que não devem ser descartadas pelo tradutor – mas eu não me recrimino de perder alguma referência mais obscura se for para deixar o texto com uma sonoridade melhor. Joyce, apesar de romancista, acredito que se aproxima muito da poesia, no FW, e o resultado é um texto que soa especialmente bonito quando lido, e seria uma pena perder isso na tradução.

Fale um pouco de você e do seu trabalho.

Ah, bem, eu ando trabalhando como tradutor freelance, geralmente com não-literatura, como tradução para o jornal (Gazeta do Povo) ou textos técnicos, mas tenho prazer mesmo em traduzir literatura, especialmente poesia. Tenho também uns contos traduzidos para a Revista Arte & Letra, mas o que eu traduzo de poemas avulsos geralmente posto no meu blogue só (leitorhipocrita.blogspot.com). Quando me formei em Letras pela UFPR, fiz a monografia traduzindo uma pequena antologia de Shelley – que coincidiu justamente com o lançamento pela Ateliê também de um volume de Shelley traduzido pelo Milton e pelo Marsicano… bem, pelo menos, os poemas escolhidos foram diferentes – e agora, no mestrado, estou dando continuidade ao trabalho com um poema mais longo de Shelley (2.600 versos), que é o Prometheus Unbound. Também recentemente traduzimos, eu e mais alguns colegas e professores da UFPR, o Paradise Regained de Milton, a continuação do Paradise Lost, e estamos procurando editoras interessadas em publicá-lo.

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Adriano Scandolara

Blog: leitorhipocrita.blogspot.com

Clique para ler a tradução ganhadora do concurso

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Contista Paulo Vasconcelos fala das formas de contar histórias na atualidade

Pequenos contos da atualidade

“Falar é cantar”, lembrou o professor universitário Paulo Vasconcelos, em entrevista ao Blog da Ateliê, ao discutir as maneiras de contar histórias numa sociedade high-tech. Paulo Vasconcelos também é contista, poeta e colabora com o Blog Mel.. Da.. Palavra, entre outros.

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O que tem mudado na forma de contar histórias com o crescimento da comunicação por meio de blogs e microblogs?

A fala é imprescindível e insuperável. Na história aparecem várias linguagens, desde a gestual, a imagem de quem conta e a proximidade até mesmo com cheiro. O grupo conta, no bar, na esquina no ponto de ônibus etc. Agora, há outras modelizações das histórias, acompanhando o viés da história mundial e das novas tecnologias da comunicação. Como por exemplo, a Literatura de Cordel, que nunca esteve tão em alta como agora. Ela está sendo vendida em livrarias, como acontece no Nordeste.

Professor e Contista Paulo Vasconcelos fala sobre formas de contar histórias

Por outro lado, há grupos que se formam para discutir e criar em vários estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Paraíba e outros. O movimento negro, aqui em São Paulo, vem trabalhando isto. Falar é cantar, não esqueçamos disto. E nós assim o fazemos, sem ter consciência, tirando algumas vezes no discurso amoroso ou nas histórias para impressionar.

Que influência isso terá quanto ao envolvimento da sociedade com a literatura?

Não tenho argumentos decisivos quanto a lhe responder isto. Contudo, a literatura escrita tem um impasse face ao preço. Mas penso que o processo editorial vem se expandindo com o crescimento das classes sociais e suas mudanças de patamar. Temos a expansão das Bienais em todo o mundo, inclusive na América Latina. Agora, a literatura oral ocorre sempre e o fará num paralelo à escrita. A periferia é hoje núcleo produtor de literatura, a ponto de universidades formarem núcleos de estudos, como acontece no Rio, com a coordenação de Heloísa Buarque de Holanda.

Revista Veja sobre O Altar & o Trono: “Referência incontornável na bibliografia machadiana”

O Altar & o Trono, de Ivan Teixeira, é destaque na Revista Veja

(por Jerônimo Teixeira)

O escritor da moda

Uma análise renovadora de Machado de Assis mostra a importância de um jornal feminino para a composição de O Alienista.

Como muitos grandes escritores, Machado de Assis (1839-1908) tornou-se o centro de um culto – um culto laico, mas nem por isso desprovido de sua mitologia. A lenda machadiana, em sua versão mais corrente, fala de um homem dividido. Na face pública, era um discreto e acomodado funcionário público, fundador da Academia Brasileira de Letras, saudado por seus pares como o grande mestre das letras nacionais. Um verdadeiro “medalhão”, para usar o termo de um de seus contos. O escritor, porém, pairava além e acima desse figurino convencional: um demônio da crítica social, foi o flagelo da elite monárquica – que, tão perversa quanto estulta, jamais compreendeu a arte irônica e dissimulada contida em obras como Dom Casmurro.

Em O Altar & o Trono (Ateliê/Unicamp; 432 páginas; 79 reais), Ivan Teixeira, professor de literatura brasileira da Universidade do Texas, em Austin, procede a um minucioso exame de O Alienista, uma das obras mais conhecidas de Machado de Assis, e das circunstâncias de sua publicação em um jornal feminino do Rio de Janeiro (sim, o gênio imortal escrevia para uma folha de modas). Concluiu que Machado de Assis nunca foi o revolucionário escondido no armário que certos críticos criaram. Sua literatura, ao contrário, ecoava ideias de parte considerável da elite do tempo. Machado de Assis, o integrado: eis aí uma afirmação que soará como heresia naqueles meios acadêmicos dominados pela literatura ideológica de Machado, especialmente aquela proposta pelo crítico marxista Roberto Schwarz. Não é a única inovação de O Altar e o Trono, obra que desde já se destina a ser referência incontornável na bibliografia machadiana.

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Livro O Altar & o Trono, de Ivan Teixeira, na Revista VejaO Altar & o Trono, de Ivan Teixeira, na Revista Veja

Marcelino Freire relembra seus dez anos de literatura

Marcelino Freire contou ao Suplemento Pernambuco dos seus dez anos de literatura e um pouco de sua trajetória desde quando saiu de Pernambuco para São Paulo.
[João Alexandre] foi a um encontro que eu e o escritor Evandro Affonso Ferreira organizávamos. “Vou ajudar você”, disse JAB
E ajudou.
Indicou-me para a Ateliê Editorial. Escreveu o prefácio do livro. Igualmente lembro: quando o telefone tocou. “Marcelino, é João Alexandre.” E, generosamente, leu o prefácio em primeira mão. Sim, ao telefone. Meu coração ouvindo, pulando, em silêncio. Publicou o mesmo prefácio na revista Cult.
Ave! Eternas saudades idem. Do grande João! Morto no ano de 2006. Inesquecível. Cada conselho que ele me deu. E outra alegria que ele me deu: a amizade que tenho até hoje com o editor Plínio Martins, da Ateliê. Parceiro pra valer. Plínio preparou a edição do Angu do jeito que eu havia imaginado. Com as fotos que o meu amigo Jobalo especialmente fez. Jobalo que, inclusive, me emprestou o título do livro.
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